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A
MORTE NÃO
DÁ
AVISO
PRÉVIO
TEATRO - 1998 -
Elpídio Navarro
CENA I - (Sala da
casa. Dia claro. Janelão com vista para a entrada da barra,
o que poderá ser a própria boca de cena de um palco
italiano. Em cena: Fábio, numa cadeira de rodas. Oscar,
espécie de caseiro).
FÁBIO -
(Olhando através
do “janelão”)
-
Duas vezes, todos os dias! Um querendo vencer o outro. O rio
e o mar. Um indo e vindo, um vai e vem... Nada muda!
Parecem, como eu, condenados à repetição, eternamente! Esta
cadeira, este janelão, esta visão horizontal... (Tempo)
- Oscar!
OSCAR -
Pronto, senhor!
FÁBIO -
Você já havia morado antes num lugar como
este?
OSCAR -
Não, senhor.
FÁBIO -
A barra tem o seu encanto, apesar da
monotonia desse sai e entra de águas, num confronto, muitas
vezes até violento. Vista aqui do alto, posso visualizar a
distância percorrida por essa boca que vomita e engole água
o tempo todo! Quando vim aqui a primeira vez, ela estava lá
do outro lado. Bem junto à vila dos pescadores. Levou trinta
anos para chegar no lado de cá. (Tempo) Oscar!
OSCAR -
Pois não, senhor!
FÁBIO -
Como é mesmo o nome que a gente aprende na
escola? O nome que se dá a esse encontro?
OSCAR -
Foz, senhor.
FÁBIO -
Isso! Foz! (Tempo) É a mesma coisa.
Eu me acostumei a chamar de barra. (Tempo) Oscar,
que conforto pode ter aqui, neste fim de mundo, uma pessoa
como eu? Preso a esta maldita cadeira, ou à cama, dependente
de ajuda para quase tudo que preciso fazer.
OSCAR -
Senhor, aqui...
FÁBIO -
Não falo desse conforto material que esta
casa oferece. Refiro-me a outra coisa, Oscar. À alegria. Ao
prazer de ser útil, de criar algo que perdure. Tudo que aqui
acontece é passageiro como as marés. Repetitivo, mas
passageiro.
OSCAR -
Tem o seu trabalho. Quando o senhor começa a escrever,
esquece tudo! Chega a passar a noite inteira!
FÁBIO -
É uma forma de enfrentar a minha permanente
insônia.
OSCAR -
O senhor vai precisar de alguma coisa?
FÁBIO -
Olhe aí a sua preocupação. Por que? Porque um
paralítico sempre está precisando de alguma coisa, de alguém
que lhe ajude. Se eu não estivesse preso a esta cadeira,
você não perguntaria nada! Esperaria que eu desse as ordens.
OSCAR -
Perguntei, porque eu vou para o outro lado.
Vou até à vila dos pescadores.
FÁBIO -
O que é dessa vez?
OSCAR -
O mesmo! Ela pediu ostras, novamente.
FÁBIO -
Mas é maré morta esta semana! Não baixa o
suficiente. Não! Não vá.
OSCAR -
Já sinalizei. A bandeira está hasteada.
O senhor sabe, o canoeiro não gosta de atravessar o canal
sem necessidade. Ele dá um jeito. Procura uma gamboa mais
para dentro do rio.
FÁBIO -
Mas você não tem qualquer obrigação.
OSCAR -
É melhor! Evita aborrecimentos com ela.
FÁBIO -
É por isso! Você faz tudo que ela quer, ela
fica cada vez pior!
OSCAR -
Ela é a dona da casa, senhor!
FÁBIO -
Dona, coisa nenhuma! Aqui quem manda sou eu.
Isso tudo aqui é meu, tudo é meu, sempre foi.
OSCAR -
Ela é a patroa, senhor. É sua esposa!
FÁBIO -
Onde ela está agora, Oscar?
OSCAR -
Lá em baixo, na praia.
FÁBIO -
Meu binóculo, Oscar. Vamos, pegue-o para mim.
OSCAR -
Está com ela lá em baixo. Ela... Eu vou
buscar?
FÁBIO -
Não, não! Deixe. (Tempo) Pode ir,
Oscar. Mas antes diga-me: alguma novidade lá em baixo?
OSCAR -
Bem...
FÁBIO -
Fale, Oscar. Pode dizer. Eu já estou
acostumado!
OSCAR -
É que chegou um barco... Entrou pelo canal,
com a maré alta. Está ancorado dentro do maceió. Esse nunca
esteve aqui antes!
FÁBIO -
Era de se imaginar! Ela não pode ver gente de
fora, que logo corre para perto. (Tempo) Muita gente?
OSCAR -
Só um.
FÁBIO -
Excelente! Ela deve estar eufórica! É do
jeito que ela gosta! (Tempo) Pode ir, Oscar. Ao
passar por lá, diga-lhe que estou chamando.
OSCAR -
(próximo ao
janelão)
Não vai precisar, senhor. Ela já está subindo.
FÁBIO -
Está trazendo o binóculo?
OSCAR -
Sim, senhor. Com a sua licença. A canoa já
deve ter chegado.
FÁBIO -
Veja se consegue umas ostras envenenadas!
OSCAR -
(Saindo)
Todas devem estar perto disso! Com a poluição
do rio, nada, por aqui, é mais saudável.
(Ao sair cruza com Sandra).
SANDRA -
(Para Oscar) As últimas ostras que
você trouxe eram pequenas demais! Procure maiores!
OSCAR -
Dona Sandra, a culpa não é minha. Os
pescadores dizem...
SANDRA -
Não me interessam os pescadores, o problema é
seu. Estou pagando muito bem, para poder exigir.
OSCAR -
(Saindo)
Vou fazer o possível.
SANDRA -
E o impossível também!
FÁBIO -
Era bom , de vez em quando, você se lembrar
que Oscar é meu empregado, que está aqui para me servir e
não para atender aos seus caprichos. E quem paga as coisas
aqui sou eu!
SANDRA -
Deixe de ser egoísta! Não sou culpada de você
não gostar de ostras.
FÁBIO -
Como se você gostasse! Seus propósitos são os
mais escusos possíveis, e os mais ingênuos também! Seu
problema, Sandra, é que você é uma pessoa despreparada.
Incapaz de uma atitude inteligente.
SANDRA -
Outra vez me chamando de burra. Só é o que
sabe fazer!
FÁBIO -
Não é mais delicado da minha parte? Melhor do
que lhe chamar de quenga, puta e outros adjetivos que lhe
cabem mais!
SANDRA -
(Com dose de ironia)
Por
que isso agora? Por que essa agressão toda? Eu não fiz nada!
(Dirige-se a um móvel e coloca
bebida num copo).
FÁBIO -
Seu cinismo é fantástico!
SANDRA -
Mas é verdade! Você está sendo injusto,
bonequinho!
FÁBIO -
Bonequinho é a puta que pariu você e a sua
mãe também! E antes que você diga que não entendeu, porque
sua burrice chega a esse ponto, estou chamando você, a sua
mãe e a sua avó, de putas!
SANDRA -
Assim você está apelando, bonequinho!
(Debochando) Deixe as velhinhas em paz!
FÁBIO -
Você pensa que eu sou imbecil? Já vi que se
agradou do que estava olhando com o meu binóculo!
SANDRA -
Claro! Por que é que estou querendo ostras?
Vou preparar meu prato especial: ostras ao molho de curry. É
infalível! (Outro tom) Quer dizer que estavam me
espionando? Você e seu cãozinho de guarda!
FÁBIO -
E precisa? Basta olhar pela janela.
SANDRA -
Pois é, bonequinho! Tem um freguês novo para
as minhas ostras! Ele é alto, musculoso, um atleta! Sabe
como é o nome do barco? Sedução!
FÁBIO -
Devolva meu binóculo!
SANDRA -
Pois não! Quer ver de perto a minha nova
conquista, bonequinho? (Entregando-lhe o binóculo)
Veja! Diga-me se aprova!
FÁBIO -
Vá à merda!
SANDRA -
Olhe! Não seja malcriado! Respeite o nosso
acordo. (Fábio silencia. Tempo. ) Bem, eu já conheço
quando você toma essa decisão de não falar. Uma das suas
armas! Fico pensando, as vezes, que você planeja alguma
coisa contra mim, enquanto se cala. E a outra arma? Continua
por baixo desse cobertor, que você insiste em manter sobre
as pernas, apesar do imenso calor que está fazendo? Já sei
que não vai responder, portanto não vou ficar aqui olhando
para essa tua cara de coitadinho. Tenho mais o que fazer!
(Retira-se. Fábio vai até ao
janelão e, durante algum tempo, observa com o binóculo,
procurando localizar alguma coisa. Cessa a observação.
Guarda o binóculo. Retira um revólver que está em baixo do
cobertor e examina-o . Sai a luz).
CENA II
- (Na praia. Noite. Júlio, sentado no chão, ao lado de um
lampião, segura uma linha de pescar. Entra Sandra)
SANDRA -
Olá!
JÚLIO -
Boa Noite!
SANDRA -
Acampado por aqui?
JÚLIO -
Cheguei hoje. Estou naquele barco ancorado
ali, naquele lago.
SANDRA -
No maceió.
JÍLIO -
Desculpe! Não entendi.
SANDRA -
Chama-se maceió, esse alagado.
JÚLIO -
Ah, sim! maceió. Eu não sabia.
SANDRA -
Posso sentar também?
JÚLIO -
Claro! Fique a vontade. Estou tentando pescar
alguma coisa.
SANDRA -
E conseguiu? Essas águas são imundas! O rio
traz toda qualidade de sujeiras, vindas de um setor
industrial que ele atravessa.
JÚLIO -
Notei, na minha chegada, um volume grande de
uma espuma estranha! Parecia que haviam derramado toneladas
de sabão no mar!
SANDRA -
É o que chamam de resíduos industriais, ou
lixo mesmo, que são despejados por fábricas.
JÚLIO -
Então deve ser isso. Com esse cheiro que
fica, peixe não encosta mesmo!
SANDRA –
Espero que você não tenha bebido aquela
espuma!
JÚLIO –
Beber espuma?!
SANDRA –
Foi um maluco que apareceu por aqui. Quando
viu a espuma branca começou a bebe-la, dizendo que era
afrodisíaca!
JÚLIO –
Afrodisíaca?...
SANDA –
Sim... Que deixava as pessoas mais
excitadas, entendeu?
JÚLIO –
Não...
SANDRA –
Então deixe prá lá... O pior, é que tudo
isso aqui é um estuário, local que a natureza reservou para
a reprodução de várias espécies de peixes e crustáceos. Até
as ostras, que pareciam ser resistentes a esse tipo de
agressão, estão sofrendo as conseqüências.
JÚLIO -
A senhora é o que?
SANDRA -
Como?
JÚLIO -
É que a senhora sabe muito dessas coisas...
SANDRA -
Ouço tudo do meu marido. Ele é biólogo
marinho. Escreve sobre tudo isso.
JÚLIO -
Hum! Entendi. E a senhora mora perto daqui?
SANDRA -
Lá em cima, naquele casarão. Mas pare de me
chamar de senhora! Assim você me deixa muito mais velha do
que eu sou! Pode me chamar de Sandra.
JÚLIO -
Bem, eu não conheço a senhora, aí tenho que
tratar desse jeito.
SANDRA -
Está bem! Eu sempre esqueço que ainda existe
gente educada, que gosta de respeitar os mais velhos. Mas
veja: eu não sou assim também tão mais velha que você! Não
cheguei ainda à casa dos quarenta e você, aparentemente,
está perto dos trinta. Acertei?
JÚLIO -
Vinte e oito!
SANDRA -
Está vendo? Eu sou boa nisso! Sempre acerto a
idade dos homens. De mulher não, é sempre mais difícil,
porque nós conseguimos esconder melhor as marcas do tempo.
Maquiagem faz milagres! Principalmente à noite!
(Riem).
JÚLIO -
Mas a senhora não aparenta...
SANDRA -
Pare! Já lhe pedi! Deixe para outra pessoa
essa senhora. Chame-me de Sandra! Aliás, você ainda não me
disse como é o seu nome.
JÚLIO -
Júlio! Júlio Marinho. (Estirando-lhe a
mão) Prazer!
SANDRA -
(Retribuindo o
gesto)
O
prazer é todo meu, Júlio!
JÚLIO -
Obrigado!
SANDRA -
Obrigado por que, Júlio?
JÚLIO -
(Desconsertado)
Eu... Não sei! Eu sou assim mesmo, atrapalhado no que falo.
A senhora...
SANDRA -
(Cortando)
- Outra vez, Júlio?! Meu nome é Sandra!
JÚLIO -
Eu não disse? Eu sou mesmo atrapalhado!
Esqueci. Desculpe!
SANDRA-
Está bem, Júlio! Eu estava brincando com
você. Esqueça isso, me chame como você quiser. (Tempo)
E aí? Nada de peixe?
JÚLIO -
Nada. Se eu fosse depender do peixe daqui
para comer, iria passar fome!
SANDRA -
Espere! Vou em casa providenciar alguma
coisa.
JÚLIO -
Não, dona Sandra... Quer dizer, Sandra. Não
precisa. Eu tenho comida lá no barco! Tenho bastante!
SANDRA -
Nada disso. Faço questão. Depois, eu também
estou com fome. É rápido. Só subir a ladeira, estou em
casa!
JÚLIO -
Não queria incomodar...
SANDRA -
Não é incômodo. Para mim será um prazer. Com
licença! Volto logo!
JÚLIO -
Obrigado!
SANDRA -
Por que? Eu ainda não trouxe nada!
(Sai rindo, enquanto cai a luz).
CENA III
- (Sala da casa. Tempo seguinte. Fábio e
Oscar)
FÁBIO -
De forma alguma! Sua folga é indispensável.
Não é só uma questão de justiça, de direito. Não é só isso!
É bem uma questão humanitária. Você fica aqui, nesse
isolamento, atendendo às nossas necessidades, às ordens
quase sempre abusivas da minha mulher. Quinze dias sem ver
sua família, sem comunicar-se com seus filhos, isso é muito!
Por falar nisso, o celular voltou a funcionar?
OSCAR -
Não senhor. Continua fora de alcance.
FÁBIO -
Pois é! Até isso! Não. Você vai. Sua folga é
sagrada!
OSCAR -
Mas senhor, entenda. Tem visitante na barra.
O senhor ficar sozinho...
FÁBIO -
Não tem problema. É só amanhã e domingo.
Segunda-feira você estará de volta. Dois dias, dá para eu me
virar sozinho!
OSCAR -
Não é isso. É perigoso! O senhor não conhece
esse visitante.
FÁBIO -
Vou acabar conhecendo mais rápido do você
pode imaginar! Dessa vez não será diferente das outras. Ela
vai preparar um jantar, vai convidá-lo, vai fazer questão
que eu veja a sua nova conquista. Já estou acostumado!
Depois de tudo, vai encontrar-se com ele lá na praia, como
está fazendo agora, mas antes, insinuará o que vai acontecer
entre eles dois. Ela não vai perder a oportunidade de me
machucar com seus deboches. Por outro lado, você não imagina
a satisfação que você dará a Sandra, com a sua ausência, num
momento como este! Ela vai preparar tudo sozinha, com o
maior cuidado e carinho, pois com isso tentará agradar o
máximo ao desconhecido, enquanto tem a certeza que estará me
desagradando. É tudo previsto. É tudo uma repetição.
OSCAR -
Eu sei que não tenho o direito de me imiscuir
nos seus assuntos pessoais. Entretanto, não posso deixar de
perceber as coisas. O senhor sabe que não sou uma pessoa
desprovida de conhecimentos e também, tenho bastante
experiência de vida, principalmente no que diz respeito a
essas coisas. Uma das condições que levou o senhor a
contratar os meus serviços, foi de ser uma pessoa de uma
razoável formação. Mesmo não sendo psicólogo, tudo que
acontece aqui, as suas reações, as ações dela, vejo, como
numa análise comportamental. Por isso, me permita dizer, as
vezes fico pensando na existência de uma grande dose de
masoquismo, ou de auto punição, ao suportar da forma que o
senhor suporta, todas essas agressões! (Tempo. Fábio nada
diz) Bem, espero que não tenha levado a mal a minha
ousadia...
FÁBIO -
Não, Oscar. Não se preocupe. Qualquer pessoa
de bom senso seria levada a dizer o que você disse. Você
está certo! É exatamente o que aparenta. Para mim, isso não
é tão ruim. Pelo contrário, é até vantajoso. Transformo-me,
a cada instante, numa vítima! E com o seu testemunho e de
várias outras pessoas que por aqui passaram ou aqui vieram,
ou que ainda estarão por vir. Na verdade, o que salta aos
olhos e aos ouvidos é que estou sendo agredido por ela, de
uma forma impiedosa.
OSCAR -
Não consigo aceitar... Acho que seria melhor
para o senhor...
FÁBIO -
Coisas do amor, Oscar! O amor é assim: nos
leva a uma extrema irracionalidade. O meu amor por Sandra
faz com que eu sinta um enorme desejo de castigá-la, ao
mesmo tempo que nutre fortes esperanças de recuperá-la, de
conseguir que retorne aos meus braços da forma que era
antes... E eu nem sei se o que antes ela demonstrava era
verdadeiro! O amor não chegou a me cegar, é claro! Vejo
perfeitamente tudo que acontece. Não sou o último a saber
das coisas!
Ao mesmo tempo, esses lampejos de
racionalidade não são suficientes, pelo menos até neste
momento, para que eu tome uma atitude radical, extrema, como
a que você gostaria de me sugerir. Masoquismo? É o que
parece. No entanto, pensando bem, você também pode concluir
que eu a estou castigando da mesma forma! Conhece a história
da mosca que caiu num copo cheio de leite?
OSCAR -
Não... Essa eu não conheço. Uma fábula?
FÁBIO -
Mais ou menos. Moderna. Preste atenção: uma
mosca caiu dentro de um copo cheio de leite. Começou a se
debater, fazendo rápidos movimentos com as asas e as pernas.
Esses movimentos levaram à criação de uma nata na superfície
do leite, o que possibilitou à mosca um apoio para novamente
poder voar e safar-se de uma possível morte por afogamento.
Ela aprendeu a lição!
OSCAR -
Desculpe, professor, mas eu não...
FÁBIO -
Calma, Oscar! Ainda não terminei. A
experiência adquirida pela mosca lhe trouxe segurança.
Perdeu o medo de voar sobre os copos e até de pousar num
copo de leite. Isso tudo a transformou num ser desprevenido
para o perigo... Até que um dia caiu novamente num copo e
logo começou a debater-se. Uma outra mosca a vendo naquela
aflição, acudiu informando: “Tem um canudo no copo.
Agarre-se a ele. Assim escapará!” Mas a mosca desdenhou da
ajuda e continuou debatendo-se, pois a sua experiência a
levava a isso. Debateu-se até afogar-se num copo d’água!
OSCAR -
Costume mata!...
FÁBIO -
Acontece! Ter que acostumar-se com tudo isso
aqui pode ser uma forma de castigo.
OSCAR -
Não é fácil para ela chegar a essa conclusão!
FÁBIO -
Nem tanto! Veja bem: Sandra é uma mulher
ainda jovem, sadia, alegre, com todas as condições de ter
uma vida normal, tranqüila, junto a um homem também normal,
até mais moço do que eu e que não viva preso a uma cadeira
de rodas. Entretanto está aqui, também presa a esse fim de
mundo, para poder sobreviver. Sem mim, ela não tem nada,
não é nada! Você sabe o quanto ela é despreparada, incapaz
de qualquer tipo de trabalho que lhe pudesse dar uma
remuneração razoável. Suas opções são poucas e pouco
lucrativas! Ser balconista? Operária de salário mínimo?
Empregada doméstica? Nada disso lhe dá as condições de vida
a que ela se acostumou, depois de casar comigo. Até mesmo
ser puta, que para mim é a sua maior vocação, já não está
tão moça que possa despertar o interesse de fregueses mais
bondosos. E mesmo que tivesse, essa profissão não está mais
rendendo tão bem como antigamente, quando não existiam os
motéis e uma maior liberdade sexual. Assim, ela se martiriza
aqui, tendo de suportar, muitas vezes, dias e noites de
inteira solidão. As pessoas mais próximas de nós são os
pescadores do outro lado da barra. Gente que tem outras
regras de vida e que não a aceitaria no caso dela tentar uma
aproximação. E por culpa do seu próprio comportamento! Esse
povo tem padrões morais muito rígidos, e já está habituado a
ver a falta de pudor da minha mulher, entregando-se a todos
os homens que aparecem lá em baixo, na praia. Se ela
tentasse alguma aproximação com os pescadores, seria
fatalmente rechaçada!
OSCAR -
Para mim, senhor, existem outras soluções,
com menos sofrimentos, sem violências. Soluções que lhe
dariam e a todos, mais tranqüilidade. Principalmente ao
senhor, que tem um trabalho que requer essas condições. Não
sei... Fico até admirado de ver, como o senhor consegue
ainda a necessária concentração para escrever, ler, estudar,
pesquisar, enfim, práticas que exigem uma condição muito
diferente da que lhe é dada!
FÁBIO -
Outra aparência, Oscar! Eu tenho essa
condição. O fato de saber que ela está aqui, tão presa
quanto eu, sofrendo um sofrimento um tanto diferente do meu,
mas sofrendo também, isso tudo me dá essa condição.
Satisfaz-me, por enquanto. No futuro, não sei o que vai
acontecer! Pode até, de uma hora para outra, mudar tudo!
OSCAR -
Uma questão de ponto de vista. Eu teria
preferido uma separação...
FÁBIO -
Olhe aí o que eu falei! Você sempre quis me
sugerir uma separação!
OSCAR -
É verdade. Se eu fosse o senhor já estaria
separado dela.
FÁBIO -
Para que? Para ela ficar recebendo uma pensão
alimentícia, além de metade dessa casa, o que lhe daria
alguma estabilidade financeira, pelo menos a princípio. Como
não temos filhos juntos, ela iria destruir tudo que lhe
coubesse, ao lado dos seus homens e seus familiares, que são
verdadeiros urubus! Então, passaria a depender da minha
morte! Eu sozinho, seria alvo mais fácil de um possível
acidente provocado! Ela estando comigo, não. Se vier a
acontecer alguma coisa comigo, ela será a primeira suspeita,
por tudo que você vê, por tudo que todos sabem. Por outro
lado, se ela soubesse administrar o pouco que iria receber,
o que acho muito difícil, teria uma vida folgada, com os
homens que quisesse, onde quisesse, e eu continuaria
sozinho, nessa cadeira de rodas, sem poder aproveitar nada,
sem dar-lhe o merecido castigo que agora estou dando. Assim,
fosse qual fosse o rumo dado ao dinheiro e aos bens que ela
recebesse, só seria desvantagem para mim! (Tempo. Oscar
mantém-se calado) Você deve estar me achando um super
egoísta, não é?
OSCAR -
Não. Não é isso. Estou pensando nessa coisa
de bens, dinheiro, nessa sua preocupação... Para mim, isso
tudo é algo que só existe quando eu ouça falar. Não tenho
nada disso! Nem uma casa para morar! Estou aqui, empregado
por necessidade mesmo e dando graças a Deus porque o senhor
me aceitou. Meu salário de professor aposentado do Estado,
depois de mais de trinta anos de serviço, mal dá para pagar
o aluguel da casa onde mora a minha família! Aqui eu recebo
mais do que recebo da aposentadoria!
FÁBIO -
Em compensação, transformou-se num caseiro,
praticamente num empregado doméstico, você, que até formação
superior tem!
OSCAR -
Isso não tem importância. Importante é que eu
estou trabalhando. Quando a gente passa dos sessenta,
arranjar emprego é totalmente impossível. Eu tentei colégios
particulares, mas nenhum me aceitou. Diziam que não havia
vaga. E eu sou professor de matemática! Um cursinho me fez
uma proposta tão irrisória, que se eu aceitasse iria pagar
para trabalhar. Aqui, foi a minha salvação!
FÁBIO -
A sua e a minha! Sem você aqui eu estaria
perdido!
OSCAR -
(Outro tom) -
Dr. Fábio, o senhor não acha melhor eu ficar?
FÁBIO -
Já está decidido, Oscar. Você vai. Não se
discute mais! Aproveite bem a sua folga.
SANDRA -
(Entrando)
Peguei os dois conspirando contra mim! O que estavam
tramando? (Ninguém responde. Fábio
não lhe dar a menor atenção.)
OSCAR -
A senhora deseja alguma coisa?
SANDRA -
Quero, sim. Vá busca pão, salame e queijo.
Provolone! E uma garrafa de vinho e duas taças também.
(Diante do silêncio de Fábio, Oscar
retira-se para atender ao pedido)
FÁBIO -
Piquenique noturno?!
SANDRA -
Alguma objeção, bonequinho?
FÁBIO -
Quem sou eu!
SANDRA -
Então, por que a ironia?
FÁBIO -
Não era ironia. Simples curiosidade.
SANDRA -
Se a sua curiosidade aumentar, levante dessa
cadeira e desça até a praia. Será bem recebido!
(Ri).
FÁBIO -
Você não perde uma oportunidade de cuspir o
seu veneno! Você e seu crescente ódio por mim. Não sei como
cabe tanta maldade dentro de uma só pessoa! Você está
totalmente impregnada de sentimentos ruins. A gente sente a
maldade fluindo através dos seus poros! Se eu pudesse me
levantar dessa cadeira, o faria para te quebrar a cara, para
te estrangular... Você não passa de uma víbora!
SANDRA -
E você? Você se considera um santo! Não lhe
dói a consciência com o que você faz comigo?
FÁBIO -
Não! Eu não faço nada! Se se refere ao fato
de estar aqui, você é livre! Vá embora quando quiser! Não
estou lhe obrigando e nunca lhe obriguei a ficar ao meu
lado. Você pode deixar essa casa e me deixar no momento que
bem entender! A vontade é sua!
SANDRA -
(Num rompante de
raiva)
Vá
tomar no cú, corno velho paralítico! Você sabe que eu não
posso. Mas você vai me pagar pelo que tem feito. Aguarde-me!
FÁBIO -
(Irônico)
Mas o que é isso?! Nunca imaginei que uma
pessoa pudesse se exasperar tanto, a ponto de demonstrar de
uma forma tão contundente a boa educação que herdou da sua
família, só porque alguém lhe diz que ela é livre! Você
devia estar feliz! Não é todo mundo que tem uma sorte dessa!
Eu, pelo menos, não tenho! Estou preso, olhe aqui. Sem poder
ir a canto nenhum, a não ser que me levem, e dentro da minha
prisão!
SANDRA -
É. Gosto de lhe ver preso a essa cadeira!
Gosto mesmo! Chego a sentir que estou perto de gozar! Mas
orgasmo mesmo, eu só vou ter no dia em que você estiver
preso de outra fora. Sete palmos abaixo do chão! Aí eu vou
gritar, chorar, rir, gargalhar, rolar pelo chão,
endoidecer!... Tudo de alegria!
FÁBIO -
Sonhe, minha querida! Sonhe! O sonho também é
livre! (Oscar entra, conduzindo uma
cesta. Sandra vai ao seu encontro e, bruscamente, toma-lhe a
cesta e sai.).
OSCAR -
Desculpe, doutor. Mas eu ouvi tudo, fui
obrigado. Estavam falando muito alto!
FÁBIO -
Não tem importância. E foi bom mesmo você
ter ouvido ela dizendo que deseja ferozmente a minha morte!
OSCAR -
É por isso que eu acho melhor...
FÁBIO -
(Um tanto
ríspido)
Não! Eu já disse não! Não insista! (Tempo. Os dois ficam
calados) Entenda, Oscar. É necessário que você vá. Não
podemos ficar a mercê dessa mulher! Se você fica aqui,
durante os seus dias de folga, só porque apareceu um
estranho lá em baixo, vai dar força a ela! Vai ser uma
demonstração de medo da minha parte! E isso não é bom. Vai
me deixar mais frágil diante dela, entendeu? Agora, se você
vai e me deixa sozinho, tudo funciona ao inverso! E isso,
sim, é bom.
OSCAR -
Bem, se o senhor acha que deve ser assim,
minha obrigação é seguir as suas ordens. Já preparei tudo,
parto amanhã cedo. Além da relação que o senhor me deu, mais
alguma coisa que eu deva fazer na cidade?
FÁBIO -
Não. Só o que está escrito. O mais importante
são os livros que você está levando. Sob hipótese alguma
deixe de enviá-los pelo correio.
OSCAR -
O senhor pode ficar tranqüilo.(Tempo)
Se não vai mais precisar de mim hoje, gostaria de ir para o
meu quarto. Saio amanhã muito cedo! Só volto na
segunda-feira, à noite!
FÁBIO -
Certo. Boa noite, Oscar... Ah! Antes de
sair, pegue ali na estante o meu binóculo.
(Oscar atende ao pedido, entregando-lhe, em
seguida, o binóculo).
OSCAR -
Boa noite, doutor.
FÁBIO -
Durma bem, Oscar! Apague a luz da sala, antes
de sair.(Oscar sai. Fábio dirige a
cadeira até ao janelão e fica observando a praia. Tempo
.Sai toda a luz).
CENA IV -
( De volta à praia, tempo seguinte. Sandra e
Júlio).
SANDRA -
(Com uma taça de vinho na mão) Um
brinde ao nosso encontro!
JÚLIO -
(Fazendo o
brinde)
Obrigado!
SANDRA -
Que mania você tem de dizer obrigado! Você
teria de dizer assim: ao nosso encontro!
JÚLIO -
Desculpe! Eu não sou acostumado...
SANDRA -
Júlio, você é um simplório, assim, no sentido
de ser puro, sem maldade. Sabe? Nunca havia aparecido por
aqui uma pessoa assim, como você! Não gosto de ficar
interrogando as pessoas, principalmente as que acabo de
conhecer. Mas com você, estou ficando por demais curiosa.
Posso lhe perguntar uma coisa?
JÚLIO -
O que a ... O que você quiser. Não me
incomodo!
SANDRA -
O que você veio fazer aqui?
JÚLIO -
Estou passeando!
SANDRA -
Sozinho?!
JÚLIO -
Teve um amigo que, na última hora, desistiu
de vir comigo.
SANDRA -
E aquele barco? É seu?
JÚLIO -
Que nada! Quem sou eu! Eu sou pobre. Sou
empregado da marina onde ele é guardado.
SANDRA -
Então você...
JÚLIO -
Eu tomo conta daquele barco. Estou de folga!
O dono dele viajou e não se incomoda que eu saia com ele.
SANDRA -
Entendo. E você está indo para onde?
JÚLIO -
Vou voltar daqui. Já estou um bocado longe de
casa. (Tempo) Quer saber de mais alguma coisa?
SANDRA -
Não! Não. Acho que já perguntei demais!
Agora, eu é que tenho de pedir desculpas!
JÚLIO -
Eu posso também lhe fazer uma pergunta?
SANDRA -
Claro! Você tem esse direito. Até mais de
uma, se quiser.
JÚLIO -
Seu marido não se incomoda com a sua vinda
até aqui? Essa hora, sozinha com outro homem!
SANDRA -
Deve se incomodar, Júlio. Mas não reclama!
Mesmo que reclamasse eu não iria dar importância. Na
verdade, nós vivemos separados, cada um cuidando da sua
vida. Nossas próprias conveniências nos levam a morar na
mesma casa. Eu querendo que ele me expulse de casa e ele
querendo que eu o abandone. Uma situação que aparenta ser
complicada, mas que é fácil entender. Se eu o abandono,
legalmente me prejudico. Se ele me expulsa, legalmente eu
levo vantagem. Deu para entender?
JÚLIO -
Não. Quer dizer, não muito. É problema de
dinheiro, não é?
SANDRA -
É por aí! Dinheiro, bens, pensão... Vivemos
com muito cuidado para que um não dê vantagem ao outro, se
um dia formos resolver tudo num tribunal.
JÚLIO -
Eu nunca fui casado. Mas já vi muita
separação dentro da minha família. A confusão maior é com os
filhos. Eu tenho uma irmã separada que ficou com os meninos,
e meu cunhado todo mês dá o sustento deles! Ele não queria
não, mas o juiz mandou.
SANDRA -
Nós não temos filhos e quando eu casei foi
feito um acordo, no qual eu só teria direito aos bens
adquiridos após o casamento. Explicando melhor: a única
coisa de valor que foi comprada, desde o dia que eu me
casei, foi aquela maldita casa. Quer dizer: eu só tenho
direito à metade dela, se pedir separação. E eu ainda corro
algum risco de não poder usar a minha metade para vender,
pois é a residência dele. E ainda mais que ele está
paralítico e vive numa cadeira de rodas! Esse fato lhe dar
alguma vantagem diante do juiz. Só poderei ter alguma coisa
minha mesmo, quando ele morrer, se é que aquele desgraçado
vai morrer primeiro do que eu. Ele morrendo, sim. Fica tudo
para mim!
JÚLIO -
Ave Maria! Esse negócio de morte! Você quer
saber de uma coisa? Eu tenho um medo, que me pelo, de
morrer!
SANDRA -
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