ÁGABA
TEATRO - 2005 - Elpídio Navarro
Adaptação livre para teatro do romance “O
DRAMA DE ÁGABA” , de Antônio Bemvindo de Vasconcelos.
Trata-se de uma obra de ficção e as citações de fatos e
personagens históricos, devem-se às suas inclusões no
romance citado e no noticiário jornalístico da época.
PERSONAGENS:
ÁGABA
SADY
BENVINDO
ALICE
MONSENHOR MILANÊS
CHEFE DE POLÍCIA
GUARDA 33
POLICIAL
(Ouvem-se protestos vários, entre eles
palavras de ordem como: “Monsenhor Milanês, um
irresponsável!”, “Abaixo o governo de Sólon de Lucena!”;
“Fora o Chefe de Polícia e seu comparsa o Guarda 33”! ;
“Cadeia para os assassinos!” “Prisão para o assassino!”;
“Morte para o Guarda 33!”; “O Monsenhor Milanês também é um
assassino!” e “O Jornal A União esconde a verdade!” enquanto
projeções de fotos são feitas. A algazarra vai diminuindo
até abrir um foco em torno de uma fonte jorrando água. Em
cena Ágaba e Sady).
CENA I
(Em frente à fonte)
ÁGABA – Eu não devia ter vindo... Isto é
loucura! E se alguém nos reconhece?
SADY
- Tambiá,
guerreiro cariri, foi feito prisioneiro pelos
tabajaras. Por ser muito valente e, portanto, destinado a
ser devorado pela tribo inimiga, foi-lhe
dado
uma
noiva, Aypré, que, como noiva da morte, perpetuaria a
bravura de Tambiá através de um
filho...
ÁGABA – Aqui é deserto durante a maior parte
da semana. Só aos domingos...
SADY –
Aypré apaixonou-se por Tambiá e, após o
seu
sacrifício, chorou durante quarenta dias, vindo
a
falecer. Tupã, vendo aquele amor, perpetuou o
pranto de Aypré,
fazendo nascer a fonte que, até
hoje, chora por ela.
ÁGABA – Se arrependimento matasse... Eu não
quero ficar falada!
SADY – Uma homenagem ao grande amor deles...
Bonito, não é?
ÁGABA – Acho melhor voltarmos...
SADY – Se eu morresse terias coragem de
chorar até morrer?
ÁGABA – Ninguém morre de chorar, Sady! É uma
lenda. Agora o Monsenhor em nada é lenda. Se descobrir que
fugi da aula...
SADY – Tranqüiliza-te, meu amor. Ninguém vai
saber nada. E o Monsenhor está viajando. (Tempo) –
Aqui tudo é tão bonito! Eu sinto uma sensação boa, uma
paz... Essas árvores, esse cheiro de mato, o canto dos
pássaros... Estamos comemorando a nossa liberdade!
ÁGABA – A tua liberdade! É o que aqui está
escrito (Tirando um papel do bolso): “Ágaba: Esta
manhã, ligeiro incômodo prende-me em casa e, como tenho uma
notícia que te dará grande alegria, apressei-me em enviar-te
este bilhete. O teu amor expulsou do meu coração um fraco
afeto que tinha por alguém. Acabei o compromisso que
mantinha, devolvendo retratos e correspondência. És tu a
minha única estrela, meu amor e meu encanto na vida. Teu
Sady” (Beija o bilhete e guarda).
SADY – Tu guardaste, foi?...
ÁGABA – Carinhosamente. Bem em cima do
coração! (Tempo) – E tu, não?...
SADY – Não! (Tempo) – Não só guardei,
como decorei a tua resposta: “Deus te faça feliz comigo, meu
Sady, e te dê boa saúde. Obrigada, meu amorzinho. Confia
nesta que te ama com loucura, esta que ri por ti, para o
sacrifício e para a morte. Quero-te Sady, porque quero
viver. Anseio por ver-te. Toma e guarda na alma saudades
desta que teu bilhete veio fazer muito feliz. Tua sempre,
Ágaba” (Esfuziante) – Viver, viver, viver, livre,
livre, livre, amar...
ÁGABA – Pois me sinto presa, cada vez mais,
ao nosso amor!
SADY – Amor! A única prisão que a liberdade
nos oferece. É a mais bela e salutar das prisões! Somos
presos livres!
ÁGABA – Mas tem muita gente fuxiqueira. Se
alguém nos encontra...
SADY – Esquece isso, meu amor! Somos noivos,
não somos? Que mal há em estarmos aqui? Vamos aproveitar a
liberdade e sentir esse gostinho de natureza. E outra coisa:
o Monsenhor não tem nada com a nossa vida não. Tem a ver lá
com a Escola dele. Nós não estamos na Escola!
ÁGABA – Mas eu deveria estar...
SADY – Aula de religião? Prefiro a aula de
amor de Aypré!
ÁGABA – Eu sou mesmo uma desmancha prazeres,
não é? Estás todo romântico, falando de amor e eu aqui
abestalhada, com medo de uma pessoa que não é parente nem
aderente...
SADY – Ágaba, meu amor, não penses mais em
nada. Só em nós dois e este momento, este parque, os
pássaros, os animais, as flores, esta paisagem linda...
(Tempo) -Vou declamar para ti:
“O dia e a noite diviso,
num ansiar para vê-los
o dia do teu sorriso,
a noite dos teus cabelos”.
ÁGABA –(Sorrindo) – Mas os meus
cabelos são claros! Ou quase! Estás com o pensamento em
alguma morena?
SADY – (Continua
declamando):
“Esse teu riso, criança,
mimoso, alegre, divino,
é como um sol de bonança
a iluminar-me o destino.”
ÁGABA - Foste tu que fizeste?...
SADY – Foi! (Tempo) – Quer dizer...
Claro que não. Decorei. São do poeta Guimarães Barreto. Mas
quando eu li, só pensei em ti,
meu amor! Mesmo com os cabelos da cor da noite... Será que a
noite tem cor?
ÁGABA – Estás me deixando encabulada!
SADY – Então vais ficar mais ainda:
“Alimento esta ilusão,
idéia infantil e louca:
morrer dando o coração
a um beijo da tua boca.”
(Ágaba fica
séria, baixa a cabeça. Sady aproxima-se e delicadamente
levanta-lhe o rosto. Ágaba fecha os olhos e Sady a beija.
Ágaba aceita o beijo, abraçando-o, mas, de repente,
afasta-se.)
ÁGABA – Não está
certo, Sady! E se alguém nos viu? Vai correndo contar...
SADY – Calma, Ágaba! Ninguém está por perto!
Só as árvores, os pássaros, os marrequinhos aqui ao lado...
Todos estão felizes com o nosso amor! (Tempo) –
Espera! Tinha alguém olhando! E continua olhando, não tira
os olhos da gente!
ÁGABA – Eu não disse? Pelo amor de Deus! E
agora? É gente conhecida?
SADY – Eu já o vi outras vezes aqui.
ÁGABA – (Apavorada) – Quem é? Onde
está?
SADY – Ali, naquela jaula. Aquele
macaquinho!
ÁGABA – (Aborrecida) – Ora, Sady, isso
é lá coisa que se faça? Uma brincadeira sem graça. Eu aqui
preocupada e tu me deixando mais nervosa ainda!
SADY – Chega! Bebe um pouco dessa água
cristalina, as lágrimas de Aypré! São lágrimas de amor e
vais te encher de amor.
ÁGABA – Mais amor do que eu sinto por ti só
se for o Divino!
SADY – Sim! Mais do que o Amor Divino, muito
mais! (Aproxima-se e tenta beijá-la
novamente).
ÁGABA – (Evitando) – Só pensas em
beijo? Pensa noutra coisa. Recita mais.
SADY – Está bem... Que versos queres? Versos
de amor? Alegres ou trágicos? Versos jocosos? Eis um escravo
aos teus pés para atender-te no que quiseres!
(Declama):
“Torna-se sempre infeliz,
tanto o homem como a mulher,
por não querer o que diz.
Por não dizer o que quer.”
ÁGABA – Eu quero rir, ficar mais alegre
ainda. Faz-me rir!
SADY – (Com salamaleques) - Vou
satisfazer todos os vossos desejos, minha senhora!
(Declama):
“Se a boca da mãe se adoça
quando a da filha é beijada,
a da mãe de uma certa moça
vive sempre açucarada.”
ÁGABA – (Rindo)- Exagerado!
SADY – (Com algum
deboche)
“A pequena do Bom Tom
Sabe esta regra de cor:
Namoro no claro é bom,
Porém no escuro é melhor”
ÁGABA – (Rindo) – Hei! Essa não digas
para meus pais ouvirem! Eles podem te achar
mal-intencionado.
SADY – Intencionado eu estou... Mas, bem!
ÁGABA – Está mesmo? E por que estamos aqui no
parque, sozinhos, sem ninguém saber?
SADY – Ora, meu amor! Algum pecado nisso? Só
o da aula de religião!
ÁGABA – Achas pouco? Se o Monsenhor...
SADY – Não fala nesse Padre. Aquilo é um
velho ranzinza, recalcado! Só pensa em política e perseguir
os outros. Tenho a impressão que ele precisa arranjar uma
namorada. Aí deixaria os outros em paz.
ÁGABA – Não fala assim! É pecado!
SADY – Por que?
ÁGABA – Sei lá. Deve ser. Ele é um padre não
é?
SADY – E daí?
ÁGABA – Ele é o diretor da Escola.
SADY – Pois diretor deveria ser uma mulher,
uma freira, outra pessoa. E sabes mais? Para mim ele é igual
a todo mundo. O que ele tem mais que os outros é ruindade!
ÁGABA – Pelo amor de Deus, Sady! Nunca digas
isso para minha mãe ouvir. Ela me obrigaria...
SADY – A romper comigo? Terias coragem?
ÁGABA – (Tempo) – Claro que não! Mas
nós noivamos sem problemas, todos aceitam... Deixa o Padre
para lá. Ele não faz parte do nosso futuro.
SADY –
(Declama):
“Futuro é mal profundo,
velhice, sempre fatal,
mas toda gente do mundo
quer padecer desse mal...”
“Amor, sentimento forte,
dura anos, meses, momentos,
pois amor até à morte
só mesmo nos casamentos”
ÁGABA – (Feliz) – Não concordo! Meu
amor por ti já é tanto sem casamento! Amo-te, amo-te, amo-te
tanto, que mesmo sem casamento meu amor vai existir até à
minha morte.
SADY – E se eu morrer primeiro?
ÁGABA – O meu amor perdurará até ao meu
último suspiro, como na lenda desta fonte. Será eterno, pois
tenho fé que o meu Deus nos unirá noutra vida.
SADY – Morte, morte, morte, chega! Estamos
ficando por demais lúgubres! Vamos falar de amor, de vida,
de felicidade...
ÁGABA – Tu começaste!
SADY – Mas agora eu quero falar de outro
assunto. (Tempo. Ágaba aguarda. Sady aproxima-se e, de
repente lhe beija) – De beijos!
ÁGABA – Isto é covardia! Pegou-me de
surpresa! (Tempo) – Agora quem vai mudar de assunto
sou eu. (Olha
em
volta. Tempo. Joga-se nos braços de Sady. Sai a luz. Fim da
Primeira Cena).
CENA
II
(Um foco abre,
lentamente sobre um banco de praça, enquanto ouve-se
anunciando: “Toda a Paraíba acorreu, numa romaria de dor e
solidariedade humana ao principal estabelecimento do
Estado...”; “A União, órgão oficial dos poderes públicos,
registrou de maneira mentirosa o crime. Imediatamente, a
edição do jornal do governo foi totalmente assaltada e
queimada em praça pública.” “Os discursos foram
violentíssimos, todos responsabilizando o governo pelo
doloroso acontecimento.”; “O Monsenhor Milanês valeu-se de
um tarado, com conhecidos antecedentes criminosos.”; “Os
estudantes promoverão o enterro-simbólico do diretor
da Escola Normal, entre as maiores manifestações
de desagrado à pessoa
do Monsenhor Milanês.” Em cena: Ágaba, Sady, Alice e
Benvindo )
SADY – Lembro-me da primeira vez que nos
vimos. Eu neste banco havia sentado, quando aquela deusa,
como uma garça sutil, passou diante de mim. Fiquei
paralisado com aquela mística aparição, com a silhueta
branca de uma jovem adorável! Fitei profundamente os teus
olhos, que não pestanejaram, e também se fixaram nos meus.
Aconteceu uma revelação nos nossos olhares, algo de
transcendente, de maravilhoso, de enigmático...
ÁGABA – Sady, não estamos sozinhos! Alice não
pode estar interessada...
ALICE – Estou! Adoro ouvir declarações de
amor, mesmo que não sejam para mim!
SADY – Ouves, minha rainha? Todas as pessoas
do mundo gostam de ouvir falar de amor. Aquelas que não
gostam, não são pessoas. São seres na mais irracional etapa
pela qual o homem já passou.
ÁGABA – Eu sinto pena dessas pessoas, meu
amor! Mas me encabulam essas suas declarações públicas!
Quando estamos sozinhos...
SADY – Quando estamos sozinhos, não
precisamos falar essas coisas de amor. Nossos olhos falam
por nós! Nossos olhos e nossos lábios!
ÁGABA – És louco, Sady? Ainda bem que é Alice
que está conosco. E se um estranho passa e ouve?...
ALICE – E não estamos mais sozinhos. Alguém
vem ao nosso encontro!
SADY – (Voltando-se) – Ótimo! É
bem-vinda a presença do meu amigo e poeta Benvindo!
(Benvindo junta-se ao grupo) – Que bons ventos o trazem?
Integre-se aos que têm por vocação, cultuar a vida, o amor e
a liberdade!
BENVINDO – Poeta eu não o sou, mas quanto à
vida, ao amor e à liberdade, a minha adesão já está feita.
Senhorita Ágaba, como vai passando com os seus?
ÁGABA – Bem, obrigada, meu amigo! (Estira
a mão, que é beijada. Apresentando). – Esta é a minha
colega de Escola Normal e minha amiga Alice. (Alice
estira-lhe a mão e Benvindo repete o gesto).
ALICE – É um prazer, senhor!
BENVINDO – Chame-me de Benvindo e o prazer
será todo meu!
SADY – Quão lindo são esses gestos de
delicadeza. Emocionam-me! Só as pessoas que amam a vida
conseguem tê-los! A vida é a maior dádiva que nos deu o
nosso Criador. A vida é a razão de tudo que fazemos,
pregamos, defendemos... Defendo a vida de tudo que contra
ela se apresente.
BENVINDO – Mas a vida, meu amigo, não merece
esse filosofismo severo, essas apreensões pesadas de
perdê-la que, sulcando o cérebro, vem encher-nos de receios,
de dúvidas e incertezas, apontando sempre o norte da
fatalidade inexorável.
SADY – Estás te transformando num pessimista
exagerado, Benvindo! Estás a olhar a vida através do prisma
da descrença! Para mim a vida me sorrir e eu a amo; eu
vislumbro neste vasto cenário, os painéis mais cambiantes e
sedutores, onde a vida se transforma num sorriso.
BENVINDO – Isto é ser poeta, são conceitos
próprios da idade, é viver na acariciadora inconsciência das
apavorantes realidades que nos esmagam impiedosamente.
SADY – Não! Eu sempre fui assim. No abrigo do
meu lar, sacudido por terras estranhas, entre
as grandes
responsabilidades, sempre amei a vida. (Dirigindo-se a
Ágaba) -E hoje ainda mais, porque no presente ela não me
pertence exclusivamente.
ALICE – É o amor!
SADY – O meu novo amigo não está com o
coração preso. Ama, Benvindo! E saberás que tenho razão.
ÁGABA – (Abraça Sady. Enxuga lágrimas. E
diante da expectativa dos outros, declara: ) – Também se
chora de alegria! (Sady a beija).
ALICE – Cuidado, Ágaba! Alguém pode estar a
nos olhar. O Monsenhor tem espiões...
BENVINDO – Uma apavorante realidade!
SADY – Nós estamos noivos, vamos nos casar.
Ágaba está concluindo a Escola Normal! Não somos crianças!
Não estamos preocupados com mexericos.
ALICE – Mas nós estamos juntos aqui. Seremos
todos envolvidos.
ÁGABA – Alice tem razão, meu amor. A maldade
dessa gente pode envolver todos e nem todos são obrigados a
pensar como nós.
BENVINDO – O que possam pensar de mim não tem
importância. As damas é que preocupam. Mesmo porque estão
no último ano da Escola e não podem ser prejudicadas.
SADY – Certo, meu amigo! Deves estar com a
razão. Há muita mente suja por aí!
ÁGABA – Eu, pessoalmente, não dou importância
ao que possam pensar de mim. Vale a minha consciência de não
estar fazendo o errado e sim o certo, pois tudo feito com
amor é certo. Esses temores só confirmam o exagerado
conservadorismo da nossa sociedade, que parece não estar
atravessando o Século XX! Mas, enfim, dançamos de acordo com
a música.
BENVINDO – É isso, senhorita Ágaba! Eu, por
exemplo, não tenho par para dançar. Mas, aos olhos
maledicentes de muitos, poderia a senhorita Alice, aqui
presente, ser julgada, inconvenientemente, pela aparência de
que estamos a formar dois casais!
ÁGABA – Eu me recordo muito do senhor
Benvindo quando era noivo por aqui. Por que acabou? Vocês,
homens!...
BENVINDO – Não me acuses, por piedade,
senhorita Ágaba. Foi o destino, a sorte e nada mais. A
fatalidade sempre nos surpreende, contrariando muito
cruelmente os nossos mais queridos desejos e negando as
nossas mais sublimes aspirações.
ÁGABA – Deus que me livre de mal igual! Não
saberia viver sem o amor de Sady, sem a razão da minha vida!
SADY – Quão é bela tão justa lei! A lei do
amor: uma lei que nunca poderia ter sido criada pelo homem.
Só a natureza seria capaz disso, deixando aos nossos
corações a necessidade de senti-la e obedecê-la.
BENVINDO – Nem sempre, meu caro amigo. Essa
lei às vezes nos surpreende despreparados para a sua
prática, às vezes não somos correspondidos.
ALICE – Concordo com o senhor Benvindo. Nem
sempre o amor desabrocha, naturalmente, como uma flor na
primavera. Conveniências políticas e econômicas muitas vezes
falam mais alto. Os jovens são preparados para o casamento
ainda, praticamente, crianças e acabam se amando, se
respeitando, até que a morte os separe.
SADY – Não é amor! A senhorita Alice disse-o
bem: conveniência! Não viveram um grande amor, nunca tiveram
a emoção que nos envolve, mesmo quando não estamos ao lado
da mulher amada, sentindo as
nossas mãos entrelaçadas e o sabor de um beijo apaixonado!
ÁGABA – E nós merecemos todo esse amor que
nos une, porque ele foi imposto pelos nossos próprios
corações.
SADY – (Num impulso, a beija rapidamente)
– Ah! Desculpem! Eu não pude me conter!
BENVINDO – O amor verdadeiro é irracional,
por isso também imprevisíveis são os seus caminhos.
SADY – O meu bom amigo está a se transformar
numa ave agoureira ou tem o seu coração despedaçado por
algum amor não correspondido?
BENVINDO – É o que estou a parecer?
SADY – Claro que não! Estou só gracejando!
ALICE – Entre gorjeios amorosos, razões e
gracejos, o tempo passou depressa! Temos que ir, Ágaba.
Nossas famílias nos esperam.
ÁGABA – Adeus, meu amor! Até logo mais,
quando for à minha casa.
Estarei, saudosa, te esperando.
SADY – Nada me impedirá desse encontro!
ÁGABA – Senhor Benvindo, tenha uma boa noite!
BENVINDO – O mesmo para a senhorita e para
a sua amiga Alice!
ALICE – Obrigada, senhor Benvindo! Sady, até
outra vez! (Antes de sair, ambas
estendem as mãos para serem beijadas).
SADY – Boa noite, Alice. (Ágaba e Alice
saem. Tempo) – Amigo Benvindo, tenho que ir me preparar
para acabar com a saudade que já se instalou no meu peito!
BENVINDO – (Rindo) Sem dúvida o amor é
irracional! Sê feliz, meu
amigo! Vou ficar mais um pouco aqui na praça. Quem sabe, o
destino não tenha me reservado alguma boa surpresa?
SADY – Que assim seja, meu amigo! Boa noite!
(Sai).
(Benvindo senta-se no banco. Fica a olhar em
várias direções. Fixa-se em uma. Tempo. Baixa a cabeça. Sai
a luz. Fim da Segunda Cena).
CENA III
(A agitação na rua. Palavras de ordem. Gritos
revoltados. Choros. Voz anunciando: “Vai sair o enterro
simulado do Monsenhor Milanez! Vamos depositar o caixão na
frente da Escola Normal”. A luz abre no Gabinete do Chefe de
Polícia. Em cena: Monsenhor Milanez e o Chefe de Po(lícia).
CHEFE DE POLÍCIA – Estaremos sempre prontos a
atender os reclamos da nossa Santa Madre Igreja...
MONS. MILANEZ – Não, doutor Alcântara, a
Igreja nada tem a ver com a nossa vinda até Vossa Senhoria.
Trata-se da Escola da qual sou diretor.
CHEFE DE POLÍCIA – Uma Escola que existe sob
a égide da nossa religião.
MONS. MILANEZ – Uma Escola do Estado, senhor
Chefe!
CHEFE DE POLÍCIA – Mas o nosso Presidente
Sólon de Lucena é um homem de fé! Como nós também, servos de
Deus!
MONS. MILANEZ – Mas vamos aos motivos que
aqui me trouxeram.
CHEFE DE POLÍCIA – Sou todo ouvidos,
Monsenhor!
MONS. MILANEZ – (Medindo as palavras)
– Bem... Somos testemunhas, cotidianamente, da presença de
estudantes do Lyceu na
praça, em frente à Escola Normal, ao aproximar-se a hora de
saída das nossas alunas. Esses sucedidos provocam
aproximações entre as nossas alunas e os rapazes do
Lyceu, que parecem não ser
disciplinados para com os seus próprios estudos, uma vez
que por lá chegam dentro do horário habitual das aulas em
todos os estabelecimentos do Estado.
CHEFE DE POLÍCIA – O indicado não seria
procurar o Diretor do Lyceu?
Ele é um homem...
MONS. MILANEZ – Dr. Lindolfo é um liberal!
Disse-me nada poder fazer, nem ter nenhuma autoridade sobre
os alunos, fora dos horários de aulas.
CHEFE DE POLÍCIA – Mas o Monsenhor falou que
os horários...
MONS. MILANEZ – Alguns, alguns, senhor Chefe.
Outros não! Gazeiam aulas! E só para perturbar as nossas
alunas.
CHEFE DE POLÍCIA – Muito bem, Monsenhor. Mas
o que o senhor, na verdade, deseja?
MONS. MILANEZ – Polícia! Um policiamento
permanente, para impedir a presença desses estudantes por
lá.
CHEFE DE POLÍCIA – Mas, Monsenhor, trata-se
de uma via pública, uma praça, não podemos impedir a
presença de pessoas... Veja, o Palácio do Governo também
fica nas imediações e a presença de pessoas nas suas
calçadas não é proibida!
MONS. MILANEZ – Disso eu tenho consciência e
não estou pedindo para proibir nada. Apenas para coibir os
abusos, a aproximação das alunas.
CHEFE DE POLÍCIA – Mas as moças ao saírem da
Escola não estão mais sujeitas ao jugo das normas
disciplinares. É uma questão de educação doméstica!
MONS. MILANEZ – Este é o problema! Procurei
vários pais. Ouviram e nada fizeram. Acham que estou
exorbitando dos meus deveres como educador! Imagine isto! Um
até respondeu que a filha é uma moça muito bem educada,
noiva de pessoa respeitável e que tem todo o direito de ir
ao seu encontro em qualquer parte.
CHEFE DE POLÍCIA – E não é correto?
MONS. MILANEZ – Um caso isolado! E a
libertinagem? E os abraços e beijos em plena via pública,
defronte da nossa instituição, considerada como exemplo de
disciplinadora e...
CHEFE DE POLÍCIA – Beijos e abraços,
Monsenhor?
MONS. MILANEZ – Foi o que o senhor ouviu!
CHEFE DE POLÍCIA – E foi o que o senhor viu?
MONS. MILANEZ – Meus inspetores, diariamente,
relatam todos os acontecimentos que dizem respeito à nossa
Escola. E se o senhor achar que é necessário, que não tem
autorização para agir, procurarei o Presidente do Estado
para expor o meu problema e encaminhar o meu pleito.
CHEFE DE POLÍCIA – Não há necessidade de
ameaças, Monsenhor! Estarei pronto a atendê-lo, desde que me
envie um pedido formal, um ofício ou memorando, solicitando
o que deseja e expondo as suas razões. Entretanto, continuo
achando que é um exagero...
MONS.
MILANEZ – (Ríspido) – Bom dia, senhor Chefe. Passar
bem! (Sai).
CENA IV
(Ouve-se alaridos e palavras de ordem:
“Abaixo o Presidente Sólon de Lucena!”; “Saia da sua toca
Monsenhor Milanês!”; “Venha apreciar o seu próprio enterro!”
Um foco: um lampião aceso. ouvem-se sons característicos de
festa de rua. Em cena Sady e Ágaba).
ÁGABA – Soube que te encontravas no pavilhão
com uns amigos... Estavas bebendo?
SADY – Soube de ti no passeio geral...
Flertando com alguém?
ÁGABA – Estavas bebendo?
SADY – E tu estavas flertando?
ÁGABA – Responde primeiro. Eu perguntei
primeiro...
SADY – Está bem! Não, não estava bebendo.
Jurei por Deus e por meus pais que nunca mais beberia. Nem
mesmo agora, nesta época da Festa de Nossa Senhora das
Neves, quando todo mundo bebe... Prometi-lhe e estou a
cumprir, com determinação, a minha promessa. E tu sempre
duvidando de mim, do meu amor... Sempre a dúvida... A
cruciante dúvida...
ÁGABA – Não, Sady! É porque a minha
felicidade é tão imensa, a ventura de te ter é tão suprema,
que uma descrente como eu desta vida ingrata, as vê como um
sonho, uma aparição fugaz que logo se dissipa; partem daí
minhas dúvidas e meus receios.
SADY – Como posso convencer-te da lealdade do
meu gesto e da sinceridade de minhas promessas? É a missão
que entrego à severidade do tempo. Afasta de ti estes
pensamentos vãos e se exigires provas convincentes, ordena o
sacrifício e o teu escravo obedecerá sorrindo, e assim
permanecerás na quietude morna e deleitável da realidade e
venturas que hoje acreditas
impossíveis. Nunca mais dilaceres meu coração com essa
descrença fatal. Abre-me, sem receio, tua alma e dize-me
mais uma vez se me amas!
ÁGABA – Se te amo? Quantas vezes queres que
eu te diga? Pois se isso te causa algum prazer dir-te-ei por
toda a minha vida, por toda parte a ti e a todo mundo:
amo-te Sady, como nunca amei nesta vida. Quero-te mais do
que a mim mesma. Nunca experimentei as sensações e os
enlevos que me extasiam neste momento em que se concentram
todas as minhas energias e se reduz minha vida que já não me
pertence!
SADY – Ágaba, sim: agora vejo quanto amor
aumenta no teu peito virgem as chamas dos desejos velados.
Sei que me amas e basta para a minha felicidade ser
completa. E eu te amo também, minha louquinha; afasto-me do
ambiente pestilento das modernices do século, para amar
ainda mais. (Abraçam-se e beijam-se. Tempo) – Espera!
Ainda não me respondeste: estavas flertando no passeio?
ÁGABA – O que?
SADY – Esquece, meu amor... (Tempo) –
Peço-te para que voltes para tua casa. Ouvi um almofadinha,
lá no passeio, confidenciando a um igual que iria te abordar
para propor namoro. Tive vontade de abertura-lo e fazê-lo
enxergar o seu lugar.
ÁGABA – Ciúmes?
SADY – Tenho, sim!
ÁGABA – Não confias?
SADY – Claro! Mas não duvido do atrevimento
de alguns!
ÁGABA – O que seria, para o atrevido, inútil!
Não me acompanhas?
SADY – Preciso voltar a me reunir com os
amigos. Estamos discutindo a criação de um grêmio estudantil
para o Lyceu...
ÁGABA – Grêmio?
SADY – Não confias?
ÁGABA – Boa noite, meu amor!
(Sai da luz).
CENA V
(Música de transição. Chefe de Polícia, visivelmente
aborrecido, bate na campainha de mesa. Entra um
funcionário.)
CHEFE DE POLÍCIA – (Com um documento na
mão) – O Presidente determinou! Aquele monsenhor de
merda foi a ele! De que serve ser Chefe de Polícia se o
Presidente resolve tomar decisões por mim? E ainda por cima
com esta absurda determinação! Ele, mais do que ninguém tem
conhecimento da falta de policiais capazes para uma missão
tão delicada! Nossos relatórios lhe foram enviados...
(Tempo) – É bem factível que nem tenham sido lidos!
(Tempo) – Mas o que fazer? Cumprir o que determina uma
autoridade maior. (Para o funcionário) - Portanto,
procure o Comandante da Guarda Municipal e, pessoalmente,
entregue-lhe este memorando. É para ser atendido
imediatamente. E seja lá o que Deus quiser...
(O funcionário retira-se. Chefe de Polícia
senta-se e permanece por algum tempo meditabundo. Sai a
luz).
CENA VI
(Ouve-se orações próprias de um velório. Abre
a luz no banco da praça. Em cena, Sady, demonstrando alguma
impaciência. Tempo. Aproxima-se dele um guarda. Sady não dá
importância ao fato).
GUARDA – (Dirigindo-se a Sady) – Não
pode ficar aqui.
SADY – (Surpreso) – Como? Falou
comigo?
GUARDA – Deve retirar-se da praça.
SADY – Retirar-me daqui? Por que? Não estou
eu em vias públicas?
GUARDA – Não interessa! Retire-se!
SADY – Não há motivo nem direito para esta
absurda intimação! São ordens de quem?
GUARDA – Não interessa!
SADY – (Em pé, em cima do banco, gritando)-
Isto é coisa daquele Monsenhor recalcado. Apareça Monsenhor
Milanês! Venha o senhor mesmo me expulsar daqui! Não se
esconda por trás de sua batina ou de um capanga de aluguel!
Isto é covardia! Covardia e truculência!
MONS. MILANEZ – (Entrando apressado) –
Que gritaria toda é esta? E por que me chamava o nome? Além
do mais, eu não sou covarde. Covarde por que?
SADY – O senhor mandou este seu capanga aí me
expulsar da praça. Por que não veio o senhor mesmo?
MONS. MILANEZ – Eu não mandei coisa alguma!
Nada tenho a ver com isto. E este homem é um guarda
municipal, não um capanga. Merece respeito, pois deve estar
cumprindo o seu dever.
SADY – Que dever? O dever que o senhor
determinou? O de proibir a presença de pessoas numa praça
pública? O dever de tolher a liberdade do cidadão livre e
honrado? (Benvindo entra e por
algum tempo não entende o que está acontecendo).
MONS. MILANEZ – Não determinei nada, já
disse. Este guarda deve estar cumprindo ordens do chefe de
Polícia. Portanto, obedeça-o e vá procurar os seus direitos
de cidadão livre e honrado!
SADY – Não é o certo! Nenhuma lei determina
tamanho abuso. E eu não abro mão do meu sagrado direito
de...
BENVINDO – O que está a acontecer? Por que
este visível início de bulha? Estamos num logradouro
público! E o senhor, Monsenhor? O que faz aqui?
MONS. MILANEZ – Eu?... Nada! Ouvi uma
algazarra e este moço gritando pelo meu nome. Acorri, a
saber, o que estava acontecendo...
SADY – O que já sabia, Monsenhor! O que está
a acontecer é obra do senhor!
BENVINDO – Calma, meu amigo! Vamos ser
prudentes. Tudo pode ser esclarecido com um melhor
entendimento, com calma...
SADY – Este guarda insiste em me expulsar
daqui! Por determinação de quem, meu amigo Benvindo acha?
MONS. MILANEZ – Já declarei que nada tenho a
ver com este guarda...
GUARDA – (Cortando) – Recebi ordens do
Chefe de Polícia: retirar das proximidades da Escola Normal
todos os estudantes do Lyceu. Retire-se por bem se não...
SADY – Se não o que? Vai prender-me? Estou no
meu direito!
GUARDA – Está preso por ordem do Chefe de
Polícia!
SADY – Esta prisão é ilegal, não me
submeterei! Irei me entender com o Chefe de Polícia.
BENVINDO – Iremos juntos! Trata-se de abuso
de poder, cerceamento de direitos primários, uma afronta à
liberdade...
(O Guarda empunha um cacetete e avança para
espancar Sady. Benvindo atraca-se com o Guarda em luta
corporal e toma-lhe o cacetete, mas cai desequilibrado. O
Guarda puxa uma pistola apontando-a na direção de Sady).
GUARDA – Ou segue ou morre!
BENVINDO – (Procurando levantar-se) -
Não atire, não mate!
( O Guarda atira e foge. O Monsenhor Milanez
foge noutra direção. Sady cambaleia e Benvindo o acode,
sentando-o no banco. Sem saber o que fazer e amparando o
amigo grita por socorro. Ninguém aparece).
SADY – Ágaba... Quero ver Ágaba para dar-lhe
meu último... abraço...
BENVINDO – Calma, meu amigo! Vai chegar
ajuda...
SADY – Ágaba... Ágaba...
BENVINDO – Não fale! Não deve fazer esforço
até...
SADY – Ágaba... É Ágaba o meu sonho, a minha
vida, a minha morte...
BENVINDO – (Desesperado) – Acudam!
Socorro! Alguém me ajude!
SADY – Oh! Quem me dera vê-la, abraça-la,
sentir pela última vez o contato amoroso das suas mãos nas
minhas mãos geladas e agonizantes, e os meus olhos velados,
quase na penumbra da morte, fixarem-se nos dela, passearem
pelas doces linhas impecáveis do seu corpo serpentino e ...
depois morrer!
BENVINDO – Alguém ajude!...
SADY – Ágaba, adeus... Na eternidade ainda te
verei...
(Sady morre. Benvindo
chora fechando os olhos do amigo. Sai a luz).
CENA VII
(O Guarda é levado ao gabinete do Chefe de
Polícia).
GUARDA – Matei agora mesmo um estudante...
CHEFE DE POLÍCIA – Como?!... Quem é este
homem?
POLICIAL – O guarda enviado para a Escola
Normal...
CHEFE DE POLÍCIA – O que o Monsenhor Milanez
pediu?
POLICIAL – Este, senhor Chefe. O prendemos
logo após o delito.
CHEFE DE POLÍCIA – Meu coração estava dizendo
que não daria certo!
POLICIAL – Destacara |