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ÁGABA

TEATRO - 2005 - Elpídio Navarro

 

Adaptação livre para teatro do romance “O DRAMA DE ÁGABA” ,  de Antônio Bemvindo de Vasconcelos.  Trata-se de uma obra de ficção e as citações de fatos e personagens históricos, devem-se às suas inclusões no romance citado e no noticiário jornalístico da época.

 

PERSONAGENS:

ÁGABA

SADY

BENVINDO

ALICE

MONSENHOR MILANÊS

CHEFE DE POLÍCIA

GUARDA 33

POLICIAL

 

(Ouvem-se protestos vários, entre eles palavras de ordem como: “Monsenhor Milanês, um irresponsável!”, “Abaixo o governo de Sólon de Lucena!”; “Fora o Chefe de Polícia e seu comparsa o Guarda 33”! ; “Cadeia para os assassinos!” “Prisão para o assassino!”; “Morte para o Guarda 33!”; “O Monsenhor Milanês também é um assassino!” e “O Jornal A União esconde a verdade!” enquanto projeções de fotos são feitas. A algazarra vai diminuindo até abrir um foco em torno de uma fonte jorrando água. Em cena Ágaba e Sady).

 

 

CENA I

(Em frente à fonte)

 

ÁGABA –  Eu não devia ter vindo... Isto é loucura! E se alguém nos reconhece?  

SADY - Tambiá, guerreiro cariri, foi feito prisioneiro pelos tabajaras. Por ser muito valente e, portanto, destinado a ser devorado pela tribo inimiga, foi-lhe dado uma noiva, Aypré, que, como noiva da morte, perpetuaria a bravura de Tambiá através de um filho...

ÁGABA – Aqui é deserto durante a maior parte da semana. Só aos domingos...

SADY – Aypré apaixonou-se por Tambiá e, após o seu sacrifício, chorou durante quarenta dias, vindo a falecer. Tupã, vendo aquele amor, perpetuou o pranto de Aypré, fazendo nascer a fonte que, até hoje, chora por ela.

ÁGABA – Se arrependimento matasse... Eu não quero ficar falada!

SADY – Uma homenagem ao grande amor deles... Bonito, não é?

ÁGABA – Acho melhor voltarmos...

SADY – Se eu morresse  terias coragem de chorar até morrer?

ÁGABA – Ninguém morre de chorar, Sady! É uma lenda. Agora o Monsenhor em nada é lenda. Se descobrir que fugi da aula...

SADY – Tranqüiliza-te, meu amor. Ninguém vai saber nada. E o Monsenhor está viajando. (Tempo) – Aqui tudo é tão bonito! Eu sinto uma sensação boa, uma paz... Essas árvores, esse cheiro de mato, o canto dos pássaros... Estamos comemorando a nossa liberdade!

ÁGABA – A tua liberdade! É o que aqui está escrito (Tirando um papel do bolso): “Ágaba: Esta manhã, ligeiro incômodo prende-me  em casa e, como tenho uma notícia que te dará grande alegria, apressei-me em enviar-te este bilhete. O teu amor expulsou do meu coração um fraco afeto que tinha por alguém. Acabei o compromisso que mantinha, devolvendo retratos e correspondência. És tu a minha única estrela, meu amor e meu encanto na vida. Teu Sady” (Beija o bilhete e guarda).

SADY – Tu guardaste, foi?...

ÁGABA – Carinhosamente. Bem em cima do coração! (Tempo) – E tu, não?...

SADY – Não! (Tempo) – Não só guardei, como decorei a tua resposta: “Deus te faça feliz comigo, meu Sady, e te dê boa saúde. Obrigada, meu amorzinho. Confia nesta que te ama com loucura, esta que ri por ti, para o sacrifício e para a morte. Quero-te Sady, porque quero viver. Anseio por ver-te. Toma e guarda na alma saudades desta que teu bilhete veio fazer muito feliz. Tua sempre, Ágaba” (Esfuziante) – Viver, viver, viver, livre, livre, livre, amar...

ÁGABA – Pois me sinto presa, cada vez mais, ao nosso amor!

SADY – Amor! A única prisão que a liberdade nos oferece. É a mais bela e salutar das prisões! Somos presos livres!

ÁGABA – Mas tem muita gente fuxiqueira. Se alguém nos encontra...

SADY – Esquece isso, meu amor! Somos noivos, não somos? Que mal há em estarmos aqui? Vamos aproveitar a liberdade e sentir esse gostinho de natureza. E outra coisa: o Monsenhor não tem nada com a nossa vida não. Tem a ver lá com a Escola dele. Nós não estamos na Escola!

ÁGABA – Mas eu deveria estar...

SADY – Aula de religião? Prefiro a aula de amor de Aypré!

ÁGABA – Eu sou mesmo uma desmancha prazeres, não é? Estás todo romântico, falando de amor e eu aqui abestalhada, com medo de uma pessoa que não é parente nem aderente...

SADY – Ágaba, meu amor, não penses mais em nada. Só em nós dois e este momento, este parque, os pássaros, os animais, as flores,  esta paisagem linda... (Tempo) -Vou declamar para ti:

“O dia e a noite diviso,

num ansiar para vê-los

o dia do teu sorriso,

a noite dos teus cabelos”.

ÁGABA –(Sorrindo) – Mas os meus cabelos são claros! Ou quase! Estás com o pensamento em alguma morena?

SADY – (Continua declamando):

“Esse teu riso, criança,

mimoso, alegre, divino,

é como um sol de bonança

a iluminar-me o destino.”

ÁGABA -  Foste tu que fizeste?...

SADY – Foi! (Tempo) – Quer dizer... Claro que não. Decorei. São do poeta Guimarães Barreto. Mas quando eu li, só pensei  em ti, meu amor! Mesmo com os cabelos da cor da noite... Será que a noite tem cor?

ÁGABA – Estás me deixando encabulada!

SADY – Então vais ficar mais ainda:

“Alimento esta ilusão,

idéia infantil e louca:

morrer dando o coração

a um beijo da tua boca.”

(Ágaba fica séria, baixa a cabeça. Sady aproxima-se e delicadamente levanta-lhe o rosto. Ágaba fecha os olhos e Sady a beija. Ágaba aceita o beijo, abraçando-o, mas, de repente, afasta-se.)

ÁGABA – Não está certo, Sady! E se alguém nos viu? Vai correndo contar... 

SADY – Calma, Ágaba! Ninguém está por perto! Só as árvores, os pássaros, os marrequinhos aqui ao lado... Todos estão felizes com o nosso amor! (Tempo) – Espera! Tinha alguém olhando! E continua olhando, não tira os olhos da gente! 

ÁGABA – Eu não disse? Pelo amor de Deus! E agora? É gente conhecida?

SADY – Eu já o vi outras vezes aqui.

ÁGABA – (Apavorada) – Quem é? Onde está?

SADY – Ali, naquela jaula. Aquele macaquinho! 

ÁGABA – (Aborrecida) – Ora, Sady, isso é lá coisa que se faça? Uma brincadeira sem graça. Eu aqui preocupada e tu me deixando mais nervosa ainda!

SADY – Chega! Bebe um pouco dessa água cristalina, as lágrimas de Aypré! São lágrimas de amor e vais te encher de amor. 

ÁGABA – Mais amor do que eu sinto por ti só se for o Divino!

SADY – Sim! Mais do que o Amor Divino, muito mais! (Aproxima-se e tenta beijá-la novamente).

ÁGABA – (Evitando) – Só pensas em beijo? Pensa noutra coisa. Recita mais.

SADY – Está bem... Que versos queres? Versos de amor? Alegres ou trágicos? Versos jocosos? Eis um escravo aos teus pés para atender-te no que quiseres! (Declama):

 

“Torna-se sempre infeliz,

tanto o homem como a mulher,

por não querer o que diz.

Por não dizer o que quer.”

 

ÁGABA – Eu quero rir, ficar mais alegre ainda. Faz-me rir! 

SADY – (Com salamaleques) - Vou satisfazer todos os vossos desejos, minha senhora! (Declama):

 

“Se a boca da mãe se adoça

quando a da filha é beijada,

a da mãe de uma certa moça

vive sempre açucarada.”

 

ÁGABA – (Rindo)- Exagerado! 

SADY – (Com algum deboche)

 

“A pequena do Bom Tom

Sabe esta regra de cor:

Namoro no claro é bom,

Porém no escuro é melhor”

 

ÁGABA – (Rindo) – Hei! Essa não digas para meus pais ouvirem! Eles podem te achar mal-intencionado.

SADY – Intencionado eu  estou... Mas, bem!

ÁGABA – Está mesmo? E por que estamos aqui no parque, sozinhos, sem ninguém saber?   

SADY – Ora, meu amor! Algum pecado nisso? Só o da aula de religião!

ÁGABA – Achas pouco? Se o Monsenhor...

SADY – Não fala nesse Padre. Aquilo é um velho ranzinza, recalcado! Só pensa em política e perseguir os outros. Tenho a impressão que ele precisa arranjar uma namorada. Aí deixaria os outros em paz.

ÁGABA – Não fala assim! É pecado!

SADY – Por que?

ÁGABA – Sei lá. Deve ser. Ele é um padre não é? 

SADY – E daí? 

ÁGABA – Ele é o diretor da Escola. 

SADY – Pois diretor deveria ser uma mulher, uma freira, outra pessoa. E sabes mais? Para mim ele é igual a todo mundo. O que ele tem mais que os outros é ruindade!

 ÁGABA – Pelo amor de Deus, Sady! Nunca digas isso para minha mãe ouvir. Ela me obrigaria...

SADY – A romper comigo? Terias coragem?

ÁGABA – (Tempo) – Claro que não! Mas nós noivamos sem problemas, todos aceitam... Deixa o Padre para lá. Ele não faz parte do nosso futuro.

SADY – (Declama): 

“Futuro é mal profundo,

velhice, sempre fatal,

mas toda gente do mundo

quer padecer desse mal...”

 

“Amor, sentimento forte,

dura anos, meses, momentos,

pois amor até à morte

só mesmo nos casamentos”

 

ÁGABA – (Feliz) – Não concordo! Meu amor por ti já é tanto sem casamento! Amo-te, amo-te, amo-te tanto, que mesmo sem casamento meu amor vai existir até à minha morte.

SADY – E se eu morrer primeiro?

ÁGABA – O meu amor perdurará até ao meu último suspiro, como na lenda desta fonte. Será eterno, pois tenho fé que o meu Deus nos unirá noutra vida.

SADY – Morte, morte, morte, chega! Estamos ficando por demais lúgubres! Vamos falar de amor, de vida, de felicidade... 

ÁGABA – Tu começaste!

SADY – Mas agora eu quero falar de outro assunto. (Tempo. Ágaba aguarda. Sady aproxima-se e, de repente lhe beija) – De beijos!

ÁGABA – Isto é covardia! Pegou-me de surpresa! (Tempo) – Agora quem  vai mudar de assunto sou eu. (Olha em volta. Tempo. Joga-se nos braços de Sady. Sai a luz. Fim da Primeira Cena).

 

 CENA II

 (Um foco abre, lentamente sobre um banco de praça, enquanto ouve-se anunciando: “Toda a Paraíba acorreu, numa romaria de dor e solidariedade humana ao principal estabelecimento do Estado...”; “A União, órgão oficial dos poderes públicos, registrou de maneira mentirosa o crime. Imediatamente, a edição do jornal do governo foi totalmente assaltada e queimada em praça pública.” “Os discursos foram violentíssimos, todos responsabilizando o governo pelo doloroso acontecimento.”; “O Monsenhor Milanês valeu-se de um tarado, com conhecidos antecedentes criminosos.”; “Os estudantes promoverão o enterro-simbólico do diretor da Escola Normal, entre as maiores manifestações de desagrado à pessoa do Monsenhor Milanês.” Em cena: Ágaba, Sady, Alice  e Benvindo )

 

SADY – Lembro-me da primeira vez que nos vimos. Eu neste banco havia sentado, quando aquela deusa, como uma garça sutil, passou diante de mim. Fiquei paralisado com aquela mística aparição, com a silhueta branca de uma jovem adorável! Fitei profundamente os teus olhos, que não pestanejaram, e também se fixaram nos meus. Aconteceu uma revelação nos nossos olhares, algo de transcendente, de maravilhoso, de enigmático...

ÁGABA – Sady, não estamos sozinhos! Alice não pode estar interessada... 

ALICE – Estou! Adoro ouvir declarações de amor, mesmo que não sejam para mim!

SADY – Ouves, minha rainha? Todas as pessoas do mundo gostam de ouvir falar de amor. Aquelas que não gostam, não são pessoas. São seres na mais irracional etapa pela qual o homem já passou.

ÁGABA – Eu sinto  pena dessas pessoas, meu amor! Mas me encabulam essas suas declarações públicas! Quando estamos sozinhos...

SADY – Quando estamos sozinhos, não precisamos falar essas coisas de amor. Nossos olhos falam por nós!  Nossos olhos e nossos lábios! 

ÁGABA – És louco, Sady? Ainda bem que é Alice que está conosco. E se um estranho passa e ouve?...

ALICE – E não estamos mais sozinhos. Alguém vem ao nosso encontro!

SADY – (Voltando-se) – Ótimo! É bem-vinda a presença do  meu amigo e poeta Benvindo! (Benvindo junta-se ao grupo) – Que bons ventos o trazem? Integre-se aos que têm por vocação, cultuar a vida, o amor e a liberdade! 

BENVINDO – Poeta eu não o sou, mas quanto à vida, ao amor e à liberdade, a minha adesão já está feita. Senhorita Ágaba, como vai passando com os seus?

ÁGABA – Bem, obrigada, meu amigo! (Estira a mão, que é beijada. Apresentando).  – Esta é a minha colega de Escola Normal e minha amiga Alice. (Alice estira-lhe a mão e Benvindo repete o gesto).

ALICE – É um prazer, senhor! 

BENVINDO – Chame-me de Benvindo e o prazer será todo meu!

SADY – Quão lindo são esses gestos de delicadeza. Emocionam-me! Só as pessoas que amam a vida conseguem tê-los! A vida é a maior dádiva que nos deu o nosso Criador. A vida é a razão de tudo que fazemos, pregamos, defendemos... Defendo a vida de tudo que contra ela se apresente.

BENVINDO – Mas a vida, meu amigo, não merece esse filosofismo severo, essas apreensões pesadas de perdê-la que, sulcando o cérebro, vem encher-nos de receios, de dúvidas e incertezas, apontando sempre o norte da fatalidade inexorável.

SADY – Estás te transformando num pessimista exagerado, Benvindo! Estás a olhar a vida através do prisma da descrença! Para mim a vida me sorrir e eu a amo; eu vislumbro neste vasto cenário, os painéis mais cambiantes e sedutores, onde a vida se transforma num sorriso.

BENVINDO – Isto é ser poeta, são conceitos próprios da idade, é viver na acariciadora inconsciência das apavorantes realidades que nos esmagam impiedosamente.

SADY – Não! Eu sempre fui assim. No abrigo do meu lar, sacudido por terras estranhas, entre as grandes responsabilidades, sempre amei a vida. (Dirigindo-se a Ágaba) -E hoje ainda mais, porque no presente ela não me pertence exclusivamente.

ALICE – É o amor!

SADY – O meu novo amigo não está com o coração preso. Ama, Benvindo! E saberás que tenho razão.

ÁGABA – (Abraça Sady. Enxuga lágrimas. E diante da expectativa dos outros, declara: ) – Também se chora de alegria! (Sady a beija).

ALICE – Cuidado, Ágaba! Alguém pode estar a nos olhar. O Monsenhor tem  espiões...

BENVINDO – Uma apavorante realidade!

SADY – Nós estamos noivos, vamos nos casar. Ágaba está concluindo a Escola Normal! Não somos crianças! Não estamos preocupados com mexericos.

ALICE – Mas nós estamos juntos aqui. Seremos todos envolvidos. 

ÁGABA – Alice tem razão, meu amor. A maldade dessa gente pode envolver todos e nem todos são obrigados a pensar como nós.

BENVINDO – O que possam pensar de mim não tem importância. As  damas é que preocupam. Mesmo porque estão no último ano da Escola e não podem ser prejudicadas.

SADY – Certo, meu amigo! Deves estar com a razão. Há muita mente suja por aí!

ÁGABA – Eu, pessoalmente, não dou importância ao que possam pensar de mim. Vale a minha consciência de não estar fazendo o errado e sim o certo, pois tudo feito com amor é certo. Esses temores só confirmam o exagerado conservadorismo da nossa sociedade, que parece não estar atravessando o Século XX! Mas, enfim, dançamos de acordo com a música.

BENVINDO – É isso, senhorita Ágaba! Eu, por exemplo, não tenho par para dançar. Mas, aos olhos maledicentes de muitos, poderia a senhorita Alice, aqui presente, ser julgada, inconvenientemente, pela aparência de que estamos a formar dois casais!

ÁGABA – Eu me recordo muito do senhor Benvindo quando era noivo por aqui. Por que acabou? Vocês, homens!...

BENVINDO – Não me acuses, por piedade, senhorita Ágaba. Foi o destino, a sorte e nada mais. A fatalidade sempre nos surpreende, contrariando muito cruelmente os nossos mais queridos desejos e negando as nossas mais sublimes aspirações.

ÁGABA – Deus que me livre de mal igual! Não saberia viver sem o amor de Sady, sem a razão da minha vida!

SADY – Quão é bela tão justa lei! A lei do amor: uma lei que nunca poderia ter sido criada pelo homem. Só a natureza seria capaz disso, deixando aos nossos corações a necessidade de senti-la e obedecê-la.

BENVINDO – Nem sempre, meu caro amigo. Essa lei às vezes nos surpreende despreparados para a sua prática, às vezes não somos correspondidos.

ALICE – Concordo com o senhor Benvindo. Nem sempre o amor desabrocha, naturalmente, como uma flor na primavera. Conveniências políticas e econômicas muitas vezes falam mais alto. Os jovens são preparados para o casamento ainda, praticamente, crianças e acabam se amando, se respeitando, até que a morte os separe.

SADY – Não é amor! A senhorita Alice disse-o bem: conveniência! Não viveram um grande amor, nunca tiveram a emoção que nos envolve, mesmo quando não estamos ao lado da mulher amada, sentindo as nossas mãos entrelaçadas e o sabor de um beijo apaixonado!

ÁGABA – E nós merecemos todo esse amor que nos une, porque ele foi imposto pelos nossos próprios corações. 

SADY – (Num impulso, a beija rapidamente) – Ah! Desculpem! Eu não pude me conter!

BENVINDO – O amor verdadeiro é irracional, por isso também imprevisíveis são os seus caminhos.

SADY – O meu bom amigo está a se transformar numa ave agoureira ou tem o seu coração despedaçado por algum amor não correspondido?

BENVINDO – É o que estou a parecer?

SADY – Claro que não! Estou só gracejando!

ALICE – Entre gorjeios amorosos, razões e gracejos, o tempo passou depressa! Temos que ir, Ágaba. Nossas famílias nos esperam.

ÁGABA – Adeus, meu amor! Até logo mais, quando for à minha casa. Estarei, saudosa, te esperando.

SADY – Nada me impedirá desse encontro!

ÁGABA – Senhor Benvindo, tenha uma boa noite!

BENVINDO – O mesmo para a senhorita  e  para a sua amiga Alice!

ALICE – Obrigada, senhor Benvindo! Sady, até outra vez! (Antes de sair, ambas estendem as mãos para serem beijadas).

SADY – Boa noite, Alice. (Ágaba e Alice saem. Tempo) – Amigo Benvindo, tenho que ir me preparar para acabar com a saudade que já se instalou no meu peito!

BENVINDO – (Rindo) Sem dúvida o amor é irracional! feliz, meu amigo! Vou ficar mais um pouco aqui na praça. Quem sabe, o destino não tenha me reservado alguma boa surpresa?

SADY – Que assim seja, meu amigo! Boa noite! (Sai).

 

(Benvindo senta-se no banco. Fica a olhar em várias direções. Fixa-se em uma. Tempo. Baixa a cabeça. Sai a luz. Fim da Segunda Cena).

  

CENA III

 

(A agitação na rua. Palavras de ordem. Gritos revoltados. Choros. Voz anunciando: “Vai sair o enterro simulado do Monsenhor Milanez! Vamos depositar o caixão na frente da Escola Normal”. A luz abre no Gabinete do Chefe de Polícia. Em cena: Monsenhor Milanez e o Chefe de Po(lícia).

 

CHEFE DE POLÍCIA – Estaremos sempre prontos a atender os reclamos da nossa Santa Madre Igreja...

MONS. MILANEZ – Não, doutor Alcântara, a Igreja nada tem a ver com a nossa vinda até Vossa Senhoria. Trata-se da Escola da qual sou diretor.

CHEFE DE POLÍCIA – Uma Escola que existe sob a égide da nossa religião.

MONS. MILANEZ – Uma Escola do Estado, senhor Chefe!

CHEFE DE POLÍCIA – Mas o nosso Presidente Sólon de Lucena é um homem de fé! Como nós também, servos de Deus!

MONS. MILANEZ – Mas vamos aos motivos que aqui me trouxeram. 

CHEFE DE POLÍCIA – Sou todo ouvidos, Monsenhor!

MONS. MILANEZ – (Medindo as palavras) – Bem... Somos testemunhas, cotidianamente, da presença de estudantes do Lyceu  na praça, em frente à Escola Normal, ao aproximar-se a hora de saída das nossas alunas. Esses sucedidos provocam aproximações entre as nossas alunas e os rapazes do Lyceu, que parecem não ser disciplinados  para com os seus próprios estudos, uma vez que por lá chegam dentro do horário habitual das aulas em todos os estabelecimentos do Estado.

CHEFE DE POLÍCIA – O indicado não seria procurar o Diretor do Lyceu? Ele é um homem...

MONS. MILANEZ – Dr. Lindolfo é um liberal! Disse-me nada poder fazer, nem ter nenhuma autoridade sobre os alunos, fora dos horários de aulas.

CHEFE DE POLÍCIA – Mas o Monsenhor falou que os horários...

MONS. MILANEZ – Alguns, alguns, senhor Chefe. Outros não! Gazeiam aulas! E só para perturbar as nossas alunas. 

CHEFE DE POLÍCIA – Muito bem, Monsenhor. Mas o que o senhor, na verdade, deseja? 

MONS. MILANEZ – Polícia! Um policiamento permanente, para impedir a presença desses estudantes por lá.

CHEFE DE POLÍCIA – Mas, Monsenhor, trata-se de uma via pública, uma praça, não podemos impedir a presença de pessoas... Veja, o Palácio do Governo também fica nas imediações e a presença de pessoas nas suas calçadas não é proibida!

MONS. MILANEZ – Disso eu tenho consciência e não estou pedindo para proibir nada. Apenas para coibir os abusos, a aproximação das alunas.

CHEFE DE POLÍCIA – Mas as moças ao saírem da Escola não estão mais sujeitas ao jugo das normas disciplinares. É uma questão de educação doméstica!

MONS. MILANEZ – Este é o problema! Procurei vários pais. Ouviram e nada fizeram. Acham que estou exorbitando dos meus deveres como educador! Imagine isto! Um até respondeu que a filha é uma moça muito bem educada, noiva de pessoa respeitável e que tem todo o direito de ir ao seu encontro em qualquer parte.

CHEFE DE POLÍCIA – E não é correto?

MONS. MILANEZ – Um caso isolado! E a libertinagem? E os abraços e beijos em plena via pública, defronte da nossa instituição, considerada como exemplo de disciplinadora e... 

CHEFE DE POLÍCIA – Beijos e abraços, Monsenhor? 

MONS. MILANEZ – Foi o que o senhor ouviu!

CHEFE DE POLÍCIA – E foi o que o senhor viu?

MONS. MILANEZ – Meus inspetores, diariamente, relatam todos os acontecimentos que dizem respeito à nossa Escola. E se o senhor achar que é necessário, que não tem autorização para agir, procurarei o Presidente do Estado para expor o meu problema e encaminhar o meu pleito. 

CHEFE DE POLÍCIA – Não há necessidade de ameaças, Monsenhor! Estarei pronto a atendê-lo, desde que me envie um pedido formal, um ofício ou memorando, solicitando o que deseja e expondo as suas razões. Entretanto, continuo achando que é um exagero... 

MONS. MILANEZ – (Ríspido) – Bom dia, senhor Chefe. Passar bem! (Sai).

 

CENA IV

 

(Ouve-se alaridos e palavras de ordem: “Abaixo o Presidente Sólon de Lucena!”; “Saia da sua toca Monsenhor Milanês!”; “Venha apreciar o seu próprio enterro!” Um foco: um lampião aceso. ouvem-se sons característicos de festa de rua. Em cena Sady e Ágaba).

 

ÁGABA – Soube que te encontravas no pavilhão com uns amigos... Estavas bebendo?

SADY – Soube de ti no passeio geral... Flertando com alguém?

ÁGABA – Estavas bebendo?

SADY – E tu estavas flertando?

ÁGABA – Responde primeiro. Eu perguntei primeiro...

SADY – Está bem! Não, não estava bebendo. Jurei por Deus e por meus pais que nunca mais beberia. Nem mesmo agora, nesta época da Festa de Nossa Senhora das Neves, quando todo mundo bebe... Prometi-lhe e estou a cumprir, com determinação, a minha promessa. E tu sempre duvidando de mim, do meu amor... Sempre a dúvida...  A cruciante dúvida...

ÁGABA – Não, Sady! É porque a minha felicidade é tão imensa, a ventura de te ter é tão suprema, que uma descrente como eu desta vida ingrata, as vê como um sonho, uma aparição fugaz que logo se dissipa; partem daí minhas dúvidas e meus receios.

SADY – Como posso convencer-te da lealdade do meu gesto e da sinceridade de minhas promessas?  É a missão que entrego à severidade do tempo. Afasta de ti estes pensamentos vãos e se exigires provas convincentes, ordena o sacrifício e o teu escravo obedecerá sorrindo, e assim permanecerás  na quietude morna e deleitável da realidade e venturas que hoje acreditas impossíveis. Nunca mais dilaceres meu coração com essa descrença fatal. Abre-me, sem receio, tua alma e dize-me mais uma vez se me amas!

ÁGABA – Se te amo? Quantas vezes queres que eu te diga? Pois se isso te causa algum prazer dir-te-ei por toda a minha vida, por toda parte a ti e a todo mundo: amo-te Sady, como nunca amei nesta vida. Quero-te mais do que a mim mesma. Nunca experimentei as sensações e os enlevos que me extasiam neste momento em que se concentram todas as minhas energias e se reduz minha vida que já não me pertence!

SADY – Ágaba, sim: agora vejo quanto amor aumenta no teu peito virgem as chamas dos desejos velados. Sei que me amas e basta para a minha felicidade ser completa. E eu te amo também, minha louquinha; afasto-me do ambiente pestilento das modernices do século, para amar ainda mais. (Abraçam-se e beijam-se. Tempo) – Espera! Ainda não me respondeste: estavas flertando no passeio?  

ÁGABA – O que?

SADY – Esquece, meu amor... (Tempo) – Peço-te para que voltes para tua casa. Ouvi um almofadinha, lá no passeio, confidenciando a um igual que iria te abordar para propor namoro. Tive vontade de abertura-lo e fazê-lo enxergar o seu lugar.

ÁGABA – Ciúmes?

SADY – Tenho, sim!

ÁGABA – Não confias?

SADY – Claro! Mas não duvido do atrevimento de alguns!

ÁGABA – O que seria, para o atrevido, inútil! Não me acompanhas?

SADY – Preciso voltar a me reunir com os amigos. Estamos discutindo a criação de um grêmio estudantil para o Lyceu...

ÁGABA – Grêmio? 

SADY – Não confias?

ÁGABA – Boa noite, meu amor! (Sai da luz).

 

 

 

CENA V

 

(Música de transição. Chefe de Polícia, visivelmente aborrecido, bate na campainha de mesa. Entra um funcionário.) 

CHEFE DE POLÍCIA – (Com um documento na mão) – O Presidente determinou! Aquele monsenhor de merda foi a ele! De que serve ser Chefe de Polícia se o Presidente resolve tomar decisões por mim? E ainda por cima com esta absurda determinação! Ele, mais do que ninguém tem conhecimento da falta de policiais capazes para uma missão tão delicada! Nossos relatórios lhe foram enviados... (Tempo) – É bem factível que nem tenham sido lidos! (Tempo) – Mas o que fazer? Cumprir o que determina  uma autoridade maior. (Para o funcionário) - Portanto, procure o Comandante da Guarda Municipal e, pessoalmente, entregue-lhe este memorando. É para ser atendido imediatamente. E seja lá o que Deus quiser... (O funcionário retira-se. Chefe de Polícia senta-se e permanece por algum tempo meditabundo. Sai a luz).

  

CENA VI

 

(Ouve-se orações próprias de um velório. Abre a luz no banco da praça. Em cena, Sady, demonstrando alguma impaciência. Tempo. Aproxima-se dele um guarda. Sady não dá importância ao fato).

 

GUARDA – (Dirigindo-se a Sady) – Não pode ficar aqui.

 SADY – (Surpreso) – Como? Falou comigo?

GUARDA – Deve retirar-se da praça. 

SADY – Retirar-me daqui? Por que? Não estou eu em vias públicas?

GUARDA – Não interessa! Retire-se!

SADY – Não há motivo nem direito para esta absurda intimação! São ordens de quem?

GUARDA – Não interessa!

SADY – (Em pé, em cima do banco, gritando)- Isto é coisa daquele Monsenhor recalcado. Apareça Monsenhor Milanês! Venha o senhor mesmo me expulsar daqui! Não se esconda por trás de sua batina ou de um capanga de aluguel! Isto é covardia! Covardia e truculência!

MONS. MILANEZ – (Entrando apressado) – Que gritaria toda é esta? E por que me chamava o nome? Além do mais, eu não sou covarde. Covarde por que?

SADY – O senhor mandou este seu capanga aí me expulsar da praça. Por que não veio o senhor mesmo?

MONS. MILANEZ – Eu não mandei coisa alguma! Nada tenho a ver com isto. E este homem é um guarda municipal, não um capanga. Merece respeito, pois deve estar cumprindo o seu dever.

SADY – Que dever? O dever que o senhor determinou? O de proibir a presença de pessoas numa praça pública? O dever de tolher a liberdade do cidadão livre e honrado? (Benvindo entra e por algum tempo não entende o que está acontecendo).

MONS. MILANEZ – Não determinei nada, já disse. Este guarda deve estar cumprindo ordens do chefe de Polícia. Portanto, obedeça-o e vá procurar os seus direitos de cidadão livre e honrado!

SADY – Não é o certo! Nenhuma lei determina tamanho abuso.  E eu não abro mão do meu sagrado direito de...

BENVINDO – O que está a acontecer? Por que este visível início de bulha? Estamos num logradouro público! E o senhor, Monsenhor? O que faz aqui?

MONS. MILANEZ – Eu?... Nada! Ouvi uma algazarra e este moço gritando pelo meu nome. Acorri, a saber, o que estava acontecendo...

SADY – O que já sabia, Monsenhor! O que está a acontecer é obra do senhor!

BENVINDO – Calma, meu amigo! Vamos ser prudentes. Tudo pode ser esclarecido com um melhor entendimento, com calma...

SADY – Este guarda insiste em me expulsar daqui! Por determinação de quem, meu amigo Benvindo acha?

MONS. MILANEZ – Já declarei que nada tenho a ver com este guarda...

GUARDA – (Cortando) – Recebi ordens do Chefe de Polícia: retirar das proximidades da Escola Normal todos os estudantes do Lyceu.   Retire-se por bem  se não...

SADY – Se não o que? Vai prender-me? Estou no meu direito!

GUARDA – Está preso por ordem do Chefe de Polícia!

SADY – Esta prisão é ilegal, não me submeterei! Irei me entender com o Chefe de Polícia.

BENVINDO – Iremos juntos! Trata-se de abuso de poder, cerceamento de direitos primários, uma afronta à liberdade...

(O Guarda empunha um cacetete e avança para espancar Sady. Benvindo atraca-se com o Guarda em luta corporal e toma-lhe o cacetete, mas cai desequilibrado. O Guarda puxa uma pistola apontando-a na direção de Sady).

GUARDA – Ou segue ou morre!

BENVINDO – (Procurando levantar-se) - Não atire, não mate!

( O Guarda atira e foge. O Monsenhor Milanez foge noutra direção. Sady cambaleia e Benvindo o acode, sentando-o no banco. Sem saber o que fazer e amparando o amigo grita por socorro. Ninguém aparece).

SADY – Ágaba... Quero ver Ágaba para dar-lhe meu último... abraço...

BENVINDO – Calma, meu amigo! Vai chegar ajuda... 

SADY – Ágaba... Ágaba...

BENVINDO – Não fale! Não deve fazer esforço até...

SADY – Ágaba... É Ágaba o meu sonho, a minha vida, a minha morte...

BENVINDO – (Desesperado) – Acudam! Socorro! Alguém me ajude!

SADY – Oh! Quem me dera vê-la, abraça-la, sentir pela última vez o contato amoroso das suas mãos nas minhas mãos geladas e agonizantes,  e os meus olhos velados, quase na penumbra da morte, fixarem-se nos dela, passearem pelas doces linhas impecáveis do seu corpo  serpentino e ... depois morrer!

BENVINDO – Alguém ajude!...

SADY – Ágaba, adeus... Na eternidade ainda te verei...

(Sady morre. Benvindo chora fechando os olhos do amigo. Sai a luz).

CENA VII

 

(O Guarda é levado ao gabinete do Chefe de Polícia).

 

GUARDA – Matei agora mesmo um estudante... 

CHEFE DE POLÍCIA – Como?!... Quem é este homem?

POLICIAL – O guarda enviado para a Escola Normal...

CHEFE DE POLÍCIA – O que o  Monsenhor Milanez pediu?

POLICIAL – Este, senhor  Chefe. O prendemos logo após o delito.

CHEFE DE POLÍCIA – Meu coração estava dizendo que não daria certo!

POLICIAL – Destacara