Almandrade
PEQUENAS
ALUCINAÇÕES DA PERCEPÇÃO
A audácia de pintar com
um domínio artesanal e técnico, e porque não dizer, também,
cerebral, encarando a pintura enquanto pintura,
especialização de um saber e de um aprendizado das mãos e da
mente, na Cidade do Salvador, é coisa rara. Inserida neste
território de raridades vamos encontrar a pintura de Jamison
Pedra. Este artista ocupa o espaço da tela através de uma
relação de intimidade e comicidade, que ele próprio mantém
com o mundo, a cultura e o ato de pintar. Organiza a tela
para explorar uma relação mental e psíquica, pintando a
dialética de uma ilusória profundidade, um estado de
estranhamento onde o sensível e o inteligível se defrontam.
Cores construídas, com
tonalidades que inventam a luz e a sombra; um vazio que não
é vazio entre objetos desconhecidos; fragmentos de imagens
ou uma linha e um fundo elaborado; formas soltas, flutuando
com se estivessem afastadas do plano da tela; a formulação
de um espaço enigmático, onde o riso desconfiado do artista
não escapa, e faz um convite à percepção do espectador: o
pintor não pinta nada, apenas a atualidade do universo
complexo da pintura, insinuando um fazer arqueológico e nos
propondo indagações sobre a ausência do tempo e a subversão
das leis de atração dos corpos, no universo da tela, é
claro.
Forma e fundo, um
antigo enigma da pintura, são abordados de maneira quase
crítica. O volume e a profundidade, produzidos por uma
ilusão ótica, não são representações, mas idéias construídas
por princípios geométricos livres e irônicos, acrescentando
ao fazer do pintor a aventura de ter como temas: pensar o
suporte, realizar indagações lúdicas e fazer sugestões para
o frenesi do olhar público entristecido. Possivelmente uma
verdade. Ou talvez um sonho... A poética e a política da
pintura de Jamison Pedra nos deixam extasiados e pensativos.
Por que ela não deseja ser mais nada do que pintura, para a
felicidade do pintor e do espectador, que vê com todos os
olhos do corpo. (25-08-2008)
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