Almandrade
O FAZEDOR DE LIVROS
"Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o
mais espetacular é sem dúvida o livro."
Jorge Luis Borges
O livro além de ser um
continente habitado pelo conhecimento, é um objeto
fascinante, capaz de estimular a imaginação de um artista. A
obsessão de Paulo Bruscky é inventar livros, como se o mundo
fosse uma infinita biblioteca, onde o artista exercita sua
liberdade e seu poder de transformar, como um alquimista,
objetos muitas vezes destinados ao lixo, em objeto de arte.
A matéria é assim reprocessada, e na condição de
objeto/livro, é inserido criticamente no meio de arte, com
um irônico convite ao olhar e ao manuseio.
São livros indiferentes
e lúdicos construídos com os mais diversos materiais,
técnicas e formatos. Mas, de repente, depois de despertar a
curiosidade e a dúvida do leitor, eles se revelam mensagens
de si mesmo, como se escondessem mistérios invioláveis. “As
alegrias do olhar se renovam conforme a hora e a estação,
conforme o humor.” (Bachelard). São livros que se interrogam
ou encenam um retorno ao primeiro instante do pensar.
Geralmente as suas leituras se processam num jogo
intersemiótico, sem esgotar as possibilidades de novas
regras que reconhecem o acaso como um método de
relacionamento com o objeto de arte.
Os livros de Bruscky
são exóticos objetos dirigidos à contemplação, mas não uma
contemplação passiva; o leitor também é cúmplice, quando
responde às suas insinuações, inventando um sentido. Podem
ser considerados tratados sobre o saber das mãos ou produto
de um diálogo entre a razão e o devaneio que propõem uma
crítica à civilização das imagens fabricadas longe do mundo
dos sonhos. O artista interfere na lógica do livro,
explorando-o como um suporte para a sua proposta de arte,
renovando a concepção de livro, sempre apresentando novos
problemas, às vezes, simulados no riso do espectador.
(21-07-2008)
O OLHAR PERSPICAZ
DE CRAVO NETO

A fotografia é um fazer
cheio de segredos e curiosidades que o fotógrafo não revela.
O manuseio dos equipamentos, o trabalho no laboratório e um
olhar audacioso que capta e redimensiona os objetos no
espaço inventado pela fotografia. Outras visualidades são
apresentadas e mostram o que antes era invisível.
“Inicialmente, a fotografia, para surpreender, fotografa o
notável: mas, em breve, por meio de uma reviravolta
conhecida, ela decreta que é notável aquilo que fotografa.”
(Roland Barthes). No trabalho de Mario Cravo Neto, a
fotografia é um procedimento contemporâneo do pensamento e
do sentimento, com particularidades que desafiam as leis do
visível. Com seu olhar inquieto e aguçado descobre o
imaginário fotográfico e apresenta um repertório de
significantes notáveis.
O artista não procura a
verdade, mas indagações e a invenção de uma sintaxe. Fixa no
papel fotográfico uma idéia do real contaminado pela emoção
e uma percepção subjetiva. A fotografia é o pensamento de um
instante ou um espetáculo de luz e cor que pode durar uma
eternidade. Nesse confronto de trevas e luz, a versatilidade
e o perfeccionismo do fotógrafo, na busca de uma poética da
luz e suas tensões. A realidade é apresentada em pedaços de
mistérios. O enquadramento recorta o detalhe do cotidiano
místico religioso ou profano, e cria um mundo primordial,
onde o visível assume outras dimensões. O homem, o seu
lugar, seus objetos e suas crenças. Imagens elaboradas,
trabalhadas em laboratório. A experiência pessoal e o
aparato técnico são responsáveis por uma usina de imagens
provocativas que acionam as sensações de desejo, medo e
fantasia.
Seja uma fotografia de
um corpo, o detalhe de um ritual, uma paisagem ou uma festa,
o objeto fotografado é sempre uma linguagem que aponta
outros significados, são apresentados ao olhar do espectador
alterando a idéia de realidade, congelados no tempo como uma
"Flecha em Repouso". Um desejo e um método de fotografar.
Luz e abstração, o homem e a natureza se encontram, num
cenário imóvel e singelo ou barroco e dramático. Os objetos
e as paisagens ressuscitam de sua própria sombra ou da
penumbra, iluminados pelo olho mágico do fotógrafo. O abismo
e o mistério silencioso que nos separa da experiência do
mundo que entendemos como real.
A banalidade e o
excêntrico são filtrados pelo olhar da câmara fotográfica e
o olhar interior do artista, num gesto de transgressão ao
que é convencional. O singular, a emoção, o rito e o saber.
Objetos e personalidades anônimos do cotidiano ou da cultura
afro são significantes visuais ou imagens enigmáticas,
inteligentemente repousadas na bi-dimensionalidade da foto.
A máquina e o objeto fotografado. A cor e a luz, figura e
fundo explicitam outras leituras. O ritual da própria
fotografia. Vivências culturais invisíveis fora do universo
racional, emocional e político da arte. Em grandes formatos
essas fotos mostram lugares fora da geografia, idealizados.
Os vários temas não importam, eles estão subordinados aos
efeitos de uma luminosidade teatral.
A fotografia de Cravo
Neto amplia a noção e o limite do que deve ser olhado, na
ilusão se um espaço criado pela perspectiva e pela
imaginação. Concentra no essencial. Assume sua condição de
linguagem específica tendo com tema principal seus próprios
problemas: a distribuição da luz, o claro/escuro, a
densidade ou o vazio do fundo, a construção de uma
superfície estética. Essa é a minha leitura. Mas como toda
leitura dos objetos de arte é uma apropriação do olhar do
outro, de forma também particular e subjetiva, o leitor/
espectador tem o direito de desconfiar e fazer sua própria
interpretação. Cada sujeito tem seus devaneios e suas
preocupações, os segredos do artista pertencem unicamente a
ele. Nós, espectadores, insinuamos em desvendá-los e criamos
outros.
AS
ARTES PLÁSTICAS NA DÉCADA DE 1960 E MAIO 1968
"Nas sociedades
dominadas pelas modernas condições de produção, a vida é
apresentada como uma imensa acumulação de espetáculos, tudo
o que era diretamente vivido vira uma mera representação."
Guy Debord
Maio de 1968 foi a
explosão do espetáculo e o encerramento de uma década
turbulenta, de muitas mudanças, da tomada de consciência dos
desastres do século XX: a violência, a guerra, os campos de
concentração, a bomba atômica. O progresso tecnológico sem
levar em consideração os direitos humanos, enfim o
desenvolvimento à serviço da destruição. O imperialismo e a
ditadura da sociedade de consumo. Jean Luc Godard, em 1967
realiza A Chinesa, um filme político sem desprezar a
experiência estética, onde um grupo de estudantes
parisienses revoltados com o imperialismo brinca de fazer a
revolução. Uma antecipação da organização dos estudantes,
com muitas dúvidas e incertezas, em maio do ano seguinte.
A década de 1960 é
marcada pela velocidade das vanguardas artísticas, que tem
Nova Yorque como capital cultural do século XX. Dentre as
manifestações artísticas como Minimalismo, Op Arte, Arte
Cinética, Novo Realismo e Tropicália, a Pop Arte surgida na
Inglaterra, mas apropriada e difundida pelos norte
americanos foi a vanguarda mais decisiva da década. Sem
programa preestabelecido, sem manifesto, utilizando-se do
repertório do cotidiano do consumo e da cultura de massa,
foi rapidamente transformada em tendência internacional.
Isso mostrou o poder cultural dos americanos.
O desafio aos policias
e os protestos dos estudantes nas ruas de Paris foi um marco
que desencadeou movimentos de contestação, em vários Países,
revoltas e guerrilhas urbanas. Estudantes, artistas e
intelectuais ocupam as ruas, fazem passeatas. A contra
cultura, a revolução cultural. Os artistas plásticos
abandonam os museus, as galerias, saem da solidão dos
ateliês e se misturam na multidão. É a poética do gesto, da
ação, da coletividade, a utopia da arte / vida como
participação do espectador na realização da obra de arte. No
Brasil a Tropicália de Hélio Oiticica, foi uma das
manifestações mais polêmicas, ao lado de Terra em Transe
filme experimental barroco de Glauber Rocha e a peça O Rei
da Vela de Oswald de Andrade, dirigida por José Celso
Martinez.
É a década dos
Happenings, surgidos com a Pop arte, uma espécie de teatro
instantâneo, uma mistura de artes visuais, música e dança,
que convida o espectador a participar da obra ou da ação,
uma forma de tirar-lo da passividade fazendo-o reagir à
provocação do artista e do cotidiano político social. Para
Jean Jacques Lebel, autor de vários happenings em Paris:
"Nosso primeiro objetivo é transformar em poesia a linguagem
que a sociedade de exploração reduziu ao comércio e ao
absurdo." Artistas rebeldes, engajados, inconformados com a
comercialização e exploração da arte e contra as outras
formas de opressão da sociedade. No Brasil, os Happenings
realizados em espaços públicos das trocas coletivas, foram
uma forma utilizada pelos artistas de vanguarda para chamar
a tenção da população do que estava acontecendo nas prisões.
Manifestações muitas vezes interditadas pela polícia.
Na arte, é o momento da
transição da vanguarda para a contemporaneidade. O atestado
de óbito da Modernidade. Os procedimentos da arte passam dos
polêmicos questionamentos dos suportes tradicionais ao fim
do suporte como elemento essencial da obra de arte. É o
momento da arte conceitual que vai dominar na década
seguinte. Uma arte mais fria, cerebral, menos engajada,
voltada para interrogar sua própria natureza. Uma
manifestação que aconteceu em vários Países, quase ao mesmo
tempo, inclusive no Brasil.
Os agitados anos de
1960 transformaram a imagem das cidades. Em 68, aparecem as
primeiras manifestações de graíitis nos muros de Paris, uma
nova forma de intervenção urbana. Nas palavras do teórico
francês Jean Baudrillard: "...um novo tipo de intervenção na
cidade, não mais como lugar do poder econômico e político,
mas sim como espaço / tempo do poder terrorista dos mídia,
dos signos e da cultura dominante."
Grafítis anônimos
paralelo aos happenings dos artistas. Uma geração de
artistas e críticos toma consciência sobre o estado em que
se encontra a civilização a sociedade e os regimes políticos
e se colocam diante de uma abordagem mais crítica e de certa
forma subversiva. O artista assume o papel de revolucionário
e faz de sua arte um instrumento à disposição da revolução
social. Fazer arte era fazer política. Ação e estética
faziam parte das intenções do artista.
Verifica-se no cenário
internacional das artes plásticas, já no começo da década de
1960 o abandono das linguagens abstratas, geométrica e
gestual, e retorno da figura, ou melhor, uma apropriação da
figura como fez a Pop Arte com as imagens divulgadas pelos
mídia transformando-as em naturezas mortas da sociedade de
consumo. No fenômeno da nova figuração o que interessa é o
significado da imagem e não uma forma representativa. Uma
imagem mais alusiva, grotesca e provocativa. A estética do
mau gosto desafiando uma sociedade do bom gosto, industrial
e politicamente "correta".
A obra do artista
plástico carioca Rubens Gerchman, representa bem esse
momento na arte brasileira. Muitas das propostas artísticas
da vanguarda brasileira que se desenvolveram entre 1964 e 68
estavam comprometidas em dar respostas ao golpe militar. A
nova linguagem figurativa dialogava de forma mais direta com
a realidade político social. Em paralelo a uma arte de
denúncias, bastante difundida pelos militantes políticos,
surgiram outras manifestações de arte coletiva abertas à
participação do espectador como as propostas de Hélio
Oiticica e os Domingos da Criação organizados por Frederíco
Morais. Em 1968 no Salão de Brasília, o Porco Empalhado de
Nelson Leirner, artista paulista integrante do Grupo Rex,
não era apenas o questionamento da instituição arte,
interrogava as outras instituições da sociedade, naquele
contexto político.
A experiência francesa
foi palco onde os ideais e as paixões acumuladas explodiram
e deu início a uma revolução que mudou a história do século
XX. A guerrilha se espalhou pela América Latina,
reivindicações de todas as partes e de todos os tipos,
liberdade sexual, racial. Nos EUA, os estudantes revoltados
com a cruel possibilidade de morrer na guerra do Vietnã,
protestaram. No Brasil estudantes em passeata enfrentam a
repressão militar, em abril de 1968, a polícia mata o
estudante secundarista Edson Luiz no Rio de Janeiro e em
dezembro o golpe mortal do governo militar, o Ato
Institucional Nº. 5. O auge da repressão. Ninguém mais se
sentia seguro. A arte foi proibida na rua, exposições
fechadas, como a Bienal Nacional em Salvador e artistas
presos ou vivendo na clandestinidade ou no exílio.
Fecharam-se as cortinas e o espetáculo passou a ser encenado
na obscuridade. (26-05-2008)
|