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AS
ARTIMANHAS DE
LULA SABÃO
&
AS
PRESEPADAS DE
BAIANA
Teatro
- 1998 - Elpídio Navarro
PERSONAGENS: LULA
BAIANA
MAJOR
PADRE
HOSANA
MOTORISTA
FREIRA
CABO
MULHER
MÉDICO
PASSAGEIROS
I, II, II e IV.
CENA I
(Num foco, Lula Sabão canta, em aboio, a Ressurreição do
Boi. Noutro foco, os outros personagens fazem um coro
coreografado, como num programa de auditório):
LULA – “Levanta meu boi
Não queira morrer (bis)
Que o dono da casa, ó
vizinha
Quer comprar você (bis).
Levanta meu boi
Bem devagarinho (bis)
Sou Capitão Mateus, ó
vizinha
Vim lhe dar carinho (bis)
A mulher do meu patrão
É muito calorosa (bis)
Ela é muito bonita, ó
vizinha
Ela é bem cheirosa (bis).
Ó cachaça amiga
Tu vens do canavial (bis)
Levantas defunto, ó vizinha
Levantas este... “(Lula
pára de aboiar).
CORO – Rima seu Lula Sabão!
LULA – E vocês estão aí?
CORO – Sim! Estamos!
LULA – Rimar? Na hora da Ressurreição do Boi?
CORO – Sim!... Sim!... Sim!...
LULA – (Desconfiado) – Não é o que
vocês estão pensando não!
CORO – (Mostrando uma garrafa de cachaça e
dinheiro) – É prá você, se fizer uns versinhos contra o
dono da casa!
LULA – Quer dizer que esta cachaça e esse
dinheiro eu ganho se esculhambar o dono da casa?
CORO – Sim!
LULA – Aceito e faço bem feito! Não é de
graça que o meu nome é Lula Sabão, o melhor “Mateus” da
região.
CORO - Lula Sabão! Lula Sabão! Lula Sabão!
LULA - O melhor "Mateus" da região! Vamos ao
nosso Boi de Reis?
CORO - Sim! Sim! Sim!...
LULA – (Aboiando) – “ O meu boi morreu
Que
será de mim? (bis)
Mando buscar outro, ó meu Deus
Prá
não sofrer assim (bis).
Levanta meu boi
Bem
devagarinho (bis)
Para
receber, ó meu Deus
Os
belos carinhos (bis).”
CORO – Oh!... Capitão Mateus, como é que é?
Sai ou não sai os versinhos?
LULA – “Levanta-te boi sacana! (O "Boi"
estremece)
Balança os culhões e vem.
(O "Boi" levanta-se e balança o traseiro)
O dono da casa é corno!
E o delegado também.” (Um
momento de expectativa. De repente, tiros, gritaria,
correria geral e ameaças a Lula, que foge, gritando) –
Não sabia que todo mundo era corno por aqui! ( Sai a luz.
Tempo. Num foco, Lula e Baiana).
BAIANA - Tome cá esse endereço e a sua maleta
que eu arrumei como pude. Também botei um lanche para você
comer na viagem. Agora fuja para a capital. Sua vida aqui
na cidade não vale mais do que o que o gato enterra! O
endereço é da pensão de uma amiga minha. Basta dizer que é
meu amigo que você será bem recebido. Mas não vá abusar...
LULA - Santo Antônio de Pau Grande que te
proteja!
BAIANA - Quem me dera! Quem me dera!
LULA - Muito obrigado, Baiana! Agora vou ter
que sair correndo porque se eles me pegam!...
BAIANA - Também!... Precisava chamar todo
mundo de corno?!...
LULA - E eu menti, menti?
BAIANA - Exatamente por isso é que ficaram
tão furiosos!
LULA - E é também exatamente por isso que eu
vou caindo fora! Adeus Baiana!
BAIANA - Adeus não, Lula Sabão safado! Daqui
prá amanhã chego por lá! também... (Sai O foco).
CENA II
- (Beira da estrada. Lula, sentado numa pedra, olha numa
direção, procurando avistar alguma coisa. O Padre entra).
PADRE - Bom dia!
LULA - (Voltando-se e levantando-se) - Bom
dia, seu Padre!
PADRE - O ônibus para a capital passa por
aqui?
LULA - Até ontem passava!
PADRE - Por que até ontem? Não passa mais?
LULA - Não sei, seu Padre. Espero que sim.
Mas do jeito que eu ando azarado pode até ser que ele tenha
mudado o rumo!
PADRE - Bobagem, filho! Não existe isso não!
Tudo que acontece é por vontade de Deus. Ele determina
tudo...
LULA - Seu Padre, até à noite de ontem eu
era o melhor artista lá de Periquito Roxo. Toda a cidade
gostava de mim, todos não paravam de elogiar o melhor
"Mateus" de Boi de Reis que já apareceu por lá. Hoje, se os
homens ou as mulheres de Periquito Roxo me pegarem, eu estou
frito! Isso foi vontade de Deus, Padre?
PADRE - Existe o livre arbítrio! Mas que ato
tão terrível você praticou, meu filho?
LULA - É uma história complicada, seu Padre,
que eu prefiro não falar mais nela. E tudo por causa de Cem
Reais e uma garrafa de cachaça!
PADRE - A bebida só nos traz o mal, filho!
LULA - O senhor tem razão. Mas na hora!...
(Outro tom) - Padre, sente aqui. É melhor do que ficar em
pé, debaixo de sol danado...
PADRE - Filho! O sol é uma dádiva de Deus!
LULA - Desculpe, Padre! Foi sem querer...
PADRE - (Sentando na pedra) Como é seu nome,
filho?
LULA - Luiz Alberto Rego, seu criado. No Boi
de Reis eu era conhecido como Lula Sabão, o melhor "Mateus"
da região! Mas pode me chamar de Lula mesmo...
PADRE - Sabão?! Sabão por que?
LULA - Ih!... Não pense que é porque...
PADRE - Eu não estou pensando em nada, Lula.
Estou perguntando!
LULA - Certo... Foi uma cachaça, das grandes,
que eu tomei. Era o meu aniversário. Eu estava tão bêbado
que confundi um pedaço de sabão com um bolinho de carne de
sol e, quando dei fé, cuspi o sabão fora, meti um copo
d'água na boca para lavar por dentro e fiquei espumando bem
uns dez minutos... Aí botaram esse apelido em mim! Agora,
toda vez que vou comer um tira gosto, primeiro passo a
língua para sentir se não é sabão!
PADRE - A bebida! Sempre a bebida!
LULA - E o senhor, Padre? O que está fazendo
por essas bandas? Perdido?
PADRE - Quase isso! Quase isso! (Tempo. Lula
fica esperando a resposta) - Eu ia para a capital mas fui
tirado do ônibus às pressas, hoje cedo, para atender ao
chamado de uma pessoa que estava precisando de Extrema
Unção...
LULA - (Cortando) - E foi o próprio candidato
que chamou?
PADRE - (Surpreso) - Que candidato?!
LULA - O candidato a defunto! Quem precisa de
Extrema Unção não é quase defunto? O senhor disse que foi
atender ao chamado de uma pessoa que estava precisando de
Extrema Unção!...
PADRE - (Sério) - Já vi que você quer é
brincar comigo, não é Lula?
LULA - Longe disso, seu Padre. Eu só quero
entender direito as coisas...
PADRE - (Um pouco exaltado) - Foi a família
que chamou!
LULA - Todos juntos, de uma vez só?
PADRE - Como?!
LULA - Nada, seu Padre. Eu só estava pensando
alto... Mas, o senhor estava dizendo...
PADRE - Bem, deram sinal para o ônibus parar
e quando me viram desistiram da viagem, pois iam buscar um
padre numa cidade perto daqui...
LULA - Se era o padre de Periquito Roxo, foi
até melhor não ir buscar mesmo, pois ele está passando por
um problema muito sério!
PADRE - Que problema?
LULA - Pegou uma beata botando chifres nele
com o sacristão!
PADRE - Que história é essa, seu Lula?! Que
absurdo! Que falta de respeito!
LULA - Tá que é uma lástima! Abatido,
inconformado... Botou até o sacristão para fora da Igreja!
Se o senhor não acredita, é só passar por lá. Toda a cidade
sabe da história...
PADRE - Não só não acredito, como também não
me interessa saber dessa história!
LULA - Então vamos voltar ao defunto, quero
dizer, ao candidato...
PADRE - (Tempo. Resmunga e fala) - Quando
me viram dentro do ônibus apelaram para que eu os atendesse.
Eram pai e filho. Marido e filho da defunta, quero dizer, da
doente que estava precisando de Extrema Unção. Eram
fazendeiros ricos e prometeram que mandariam me levar de
carro até à capital, além de oferecerem uma ajuda em
dinheiro para as nossas obras de caridade...
LULA - (À parte) - Essa deve ter sido a
melhor parte...
PADRE - Como?!
LULA - Nada, seu Padre... Estou dizendo que
existe gente caridosa em toda parte!
PADRE - Nem sempre, Lula! Nem sempre! (Tempo.
Outro tom) - Pois bem, eu fui atender ao chamado. Quando
chegamos eu notei logo que a velha estava mais pra lá do que
pra cá. Então corri a me paramentar para começar logo a
Extrema Unção, mas quando eu comecei a levantar a mão para
fazer o Sinal da Cruz, a velha começou a tremer em cima da
cama, revirar os olhos e deu uns dois pulos e caiu pronta
!
LULA - Deu a gota! Quer dizer que não deu
tempo?...
PADRE - Prá nada! O jeito foi encomendar o
corpo, ali mesmo, na hora!
LULA - Oi! E não iam mandar o senhor de
carro?
PADRE - É, mas com a morte da velha, o carro
foi avisar aos parentes que moravam noutras fazendas das
redondezas e depois iam buscar o caixão, essas coisas todas
de um velório. Só poderiam me dar o carro depois do enterro.
Aí eu preferi vir para cá e esperar a passagem do ônibus.
LULA - E a grana?
PADRE - Que grana?!
LULA - A ajuda que prometeram para as obras
de caridade?
PADRE - No alvoroço que todo mundo ficou com
a morte da velha, terminou eu nem me lembrando disso!
LULA - Uma perda irreparável!
PADRE - E você conhecia a defunta, Lula?
LULA - Eu não!
PADRE - E por que uma perda irreparável?
LULA - Eu estava falando da grana, Padre!
Agora as coisas ficaram mais difíceis para mim...
PADRE - Essa é boa! E quem lhe disse que esse
dinheiro seria de algum proveito para você?
LULA - Não era para caridade, Padre? Lá na
capital? Pois bem, eu estou indo para lá e do jeito que está
a minha situação eu vou precisar de muita caridade!...
PADRE - Era só o que me faltava!... (Ouve-se
uma buzina).
LULA - (Aponta para fora de cena) - O ônibus
vem vindo, Padre!
PADRE - Graças a Deus! (Sai a luz).
CENA III
- (Interior de um ônibus em movimento. Lula Sabão, o Padre,
o motorista e outros passageiros).
PADRE - (Orando em voz baixa) - Pai
nosso, que Estás no Céu, santificado seja o Vosso nome...
(etc.).
LULA - (Também em voz baixa) - Padre,
pare com essa ladainha! Ninguém tá morrendo aqui...
PADRE - Cale-se, seu Lula Sabão! Mais
respeito comigo. Eu sou uma Ministro de Deus e como tal,
tenho por obrigação fazer as minhas orações!
LULA - O senhor não podia fazer só para o
senhor mesmo? Quero dizer, só no seu pensamento? Já tá todo
mundo olhando pra gente! Esse povo da roça é supersticioso!
Ninguém vai em romaria!...
PADRE - (Olha em volta e nota os olhares
de todos. Pergunta aos passageiros) Meus irmãos, as
minhas orações incomodam? (Ninguém responde. Volta-se
para Lula) - Quem cala, consente!
LULA - Ou tem medo de falar!... (O Padre
volta a rezar, dessa vez sem emitir sons. Tempo. Lula começa
a cantar) - "Tê pressa não é preciso.
É preciso ter bom trato:
Tê uma mulher carinhosa,
Dá uma mijada gostosa
E uma cagada no mato."
(Risos dos passageiros. O Padre levanta-se. Todos param
de rir).
PADRE - Já lhe disse para me respeitar, seu
Lula!
LULA - E eu lá faltei com respeito, seu
Padre? Esse versinho, sempre que eu cantava nas
apresentações do "Boi" de Periquito Roxo, todo mundo ria e
ninguém reclamava não. Até o Padre corno de lá achava graça!
PADRE - Não me interessa o padre de Periquito
Roxo nem o que ele carrega na testa! Estou fazendo as minhas
orações e exijo respeito!
LULA - Tá bem, seu Padre. Vou ficar calado.
Só pensando... (Tempo).
PADRE - (Observando Lula que está de
cabeça baixa e sério) - Também rezando, seu Lula?
LULA - Não Padre, só pensando...
PADRE - Pensando em que?...
LULA - Em mulher...
PADRE - Em que?!
LULA - Mulher, seu Padre! Mulher! Já faz dois
dias que nenhuma encosta em mim. A única saia que chegou
perto foi a sua! Mas essa aí não vale não...
PADRE - É muito atrevimento da sua parte! Eu
aqui, fazendo as minhas orações e o senhor me vem falar de
mulher!
LULA - E o que é que tem? O senhor pode até
não gostar, mas eu não passo sem elas. E não sou eu só não!
O padre de Periquito Roxo...
PADRE - (Gritando) - Chega! (O
ônibus para e o motorista pergunta).
MOTORISTA - Algum "pobrema" aí, seu Padre?
PADRE - Não, meu amigo. Tudo em paz. Pode
seguir. (O ônibus volta a seguir viagem).
LULA – Ah, quanta falta me faz a minha
Baiana! Aquilo é que é mulher! Sempre disposta a resolver
tudo... Para ela não existe tempo ruim. Sempre me diz: deve
existir alguém em situação pior do que a nossa! Ainda lembro
quando foi para o prefeito contratar o Mateus para o “Boi”:
tinha outro interessado; aí Baiana falou lá na difusora de
Periquito Roxo que eu já estava perdido porque o outro tinha
dito que era gente forte na política; o prefeito, que era
vaidoso, que não admitia imposição, quando soube da história
resolveu contratar a mm! Pura artimanha de Baiana, entendeu
Padre?
PADRE – Entendeu o que?
LULA – O que eu acabei de lhe contar!
PADRE – E eu sei lá o que o senhor estava me
contando. Ouvi o senhor com uma ladainha aí, mas eu não sei
o que foi. Estava ocupado com as minhas orações...
LULA – Ladainha?! É mesmo negócio de padre...
(Nesse momento ouve-se risos e comentários pôr parte dos
outros passageiros).
PASSAGEIRO I - Balançaram a roseira!
PASSAGEIRO II - E foi uma roseira enorme!
PASSAGEIRO III - Comeram urubu sem tirar o
fato!
PASSAGEIRO IV - Todo mundo cheirando para
acabar logo!
PASSAGEIRO II - Eu compro o frasco!
PASSAGEIRO I - Esse cheiro é de preá com
melancia!
PASSAGEIRO IV - Não será fruta-pão com bofe?!
PASSAGEIRO III - To bêbado ainda! (Uma
moça que vai no ônibus começa a chorar. Lula levanta-se em
defesa dela).
LULA - Isso é feio! Não sei como é que se tem
coragem de fazer uma coisa dessa com uma pessoa! E mais com
uma moça, coitada, que, por descuido, soltou um peidinho...
(Todos riem. Lula altera a voz) - Estou falando
sério, seus mal educados!
PASSAGEIRO I - Cala a boca, baba ovo de
padre!
PASSAGEIRO II - Só porque está junto de um
padre tá metido a santo!
PASSAGEIRO III - Calma, santinho!
LULA - Mas não sou tão santinho para comer a
cadela da tua mãe, seu corno sem rabo!
PASSAGEIRO VI - Oi! E corno tem rabo?...
LULA - Então nesse daí não falta nada,
porque os chifres eu já estou vendo!
PASSAGEIRO III - E você? Além de baba ovo de
padre é defensor de peidona!
LULA - Ô, seu veado do rabo murcho, um peido
é a coisa mais natural do mundo! Quem é que tendo fundo
nunca soltou um peido? Vamos, diga! Até o padre...
PADRE - (Que até aquele momento permanecia
rezando. Cortando) - Epa! Não me meta nessa
esculhambação! (Risadagem geral, gritos, protestos).
MOTORISTA - (Dirigindo-se a Lula) - Ei!
Você aí. Pare com esse discurso. Está criando confusão
dentro do ônibus!
LULA - Não paro. Eu vou é continuar...
MOTORISTA - (Cortando) - Se continuar,
desce. Não segue viagem.
LULA - E quem é homem aqui para me obrigar a
descer? (Mais vaias e reclamações).
PASSAGEIROS - Fora! Fora! Fora!...
PASSAGEIRO IV - Se o motorista não é homem
bastante prá botar esse safado prá fora, a gente mesmo faz
isso!
MOTORISTA - (Levanta-se a agarrando Lula
pelo pescoço, arrasta ele pra fora do ônibus) - Fora,
seu porra! (Lula cai deitado e fica imóvel. O motorista
joga a maleta em cima dele e volta para a sua cadeira).
PADRE - Espere! Não pode deixar o homem
estirado na beira da estrada. Ele pode estar ferido, pode
até estar morto! Temos que prestar socorro! Espere! Eu vou
lá examinar! (Salta do ônibus e vai examinar Lula. O
ônibus dá saída e deixa o padre também, sob vaias e risos
dos passageiros). Espere! Não pode me deixar... (O
ônibus segue viagem. O padre desesperado não contem-se)
- Filho da puta!... (Põe a mão na boca, cai ajoelhado,
pedindo perdão pelo palavrão).
CENA IV - (Noite. O Padre e Lula estão
sentados à beira da estrada).
PADRE - A essa hora o ônibus já deve ter
chegado, e eu aqui, no meio do caminho, com fome, tudo pôr
causa de um desordeiro...
LULA - Pôr minha causa não, pôr causa de um
peido! E o senhor está aqui por que quis. Ninguém lhe mandou
descer do ônibus!
PADRE - Além de tudo, mal agradecido! Eu
devia era ter deixado você estirado no meio da estrada,
entregue ao seu destino, que deve ser um encontro com
Satanás!
LULA - Eu não pedi pra me acudir! Eu estava
só fingindo um desmaio com medo de levar uma surra! Aquele
motorista, junto com aqueles bagunceiros, podiam fazer de mm
Judas em Sábado de Aleluia, e até o senhor, devido à sua
profissão, era capaz de ajudar...
PADRE - É um ingrato mesmo! Deus há de tá
vendo quanto sofre um servo Seu, para poder fazer o bem. O
mundo está perdido e eu estou com uma fome dos diabos!
(Batendo na boca) - Deus que me perdoe a blasfêmia!...
LULA - Padre, o melhor é o senhor se
conformar. Pelo que eu sei, outro ônibus só amanhã de manhã.
E ninguém, mesmo se passar pôr aqui, o que eu acho muito
difícil, dá carona a essa hora da noite. O melhor é tentar
dormir um pouco prá amanhecer o dia mais depressa...
PADRE - E eu lá consigo dormir com a barriga
roncando do jeito que está!
LULA - O Padre gosta de jerimum?
PADRE - (Levantando-se de um pulo) -
Tem? Onde?
LULA - Tem não! É que eu me lembrei de um pé
de jerimum que tinha lá no sítio do meu avô. (O Padre,
desolado, volta a sentar-se. Lula levanta-se e caminhando de
um lado para outro, começa a contar) - Era enorme!
Cobria um terreno que ia daqui até o pé daquele serra lá
daquele lado... Era tão viçoso que chegava a botar um
jerimum em cada pé de folha. Botava tanto jerimum que
parecia um pé de coco deitado! Durou mais de vinte anos!
PADRE - Quantos anos?! Olhe, seu Lula, mentir
também é pecado!
LULA - Não é mentira não, seu Padre! Mas meu
avô teve que cortar o bichinho...
PADRE - Que bichinho?
LULA - O pé de jerimum!
PADRE - Cristo, dá-me paciência! Pé de
jerimum é bichinho! E cortou por que, seu Lula?
LULA - Porque ele começou a caducar...
PADRE - Caducar?!
LULA - Sim! Caducar. Além de jerimum, deu prá
botar também melão, melancia, cabaça e até maxixe!
PADRE - Lá vem você com as suas histórias
novamente. Eu aqui com as tripas querendo dar nó e você
falando em melancia, melão...
LULA - Ah, Padre! Agora me lembrei. Uma amiga
minha disse que botou na maleta um lanche... (Pega a
maleta) - Vou ver o que é que tem... (O Padre fica
todo animado. Lula abre a maleta, examina e pergunta ao
Padre) - O senhor gosta de pipoca?
PADRE - (Alvoroçado, levanta-se) -
Adoro!
LULA - Se tivesse milho estava tudo
resolvido: achei uma caixa de fósforo! Era só fazer um
fogo...
PADRE - E não tem outra coisa não?
LULA - Não, seu Padre. Acho que ela
esqueceu... (O Padre volta a sentar-se, depois deita-se
e a luz sai em resistência. Tempo. A luz volta a entrar em
resistência. O dia amanhece. Lula procura acordar o Padre)
- Seu Padre! Seu Padre! Já é dia! O ônibus deve passar logo
mais. Vamos, acorde!
PADRE - (Acordando) - Ai, eu estava
sonhando! Eu estava sonhando com uma peixada e você vem me
acordar! Isso é lá hora de me acordar, seu Lula?
LULA - É que eu tenho uma confissão para lhe
fazer. Eu menti ontem à noite...
PADRE - Mentiu? Como?
LULA - Tinha comida na minha maleta. Um
sanduíche de mortadela...
PADRE - Tinha? E não tem mais?
LULA - Tem. (Abre a maleta e pega o
sanduíche) - Tome. É todo seu!
PADRE - Você não quer nem um pedacinho?
LULA - Precisa não. O senhor está com mais
fome do que eu, pode comer todo. Eu tomei um pouco d'água,
dá prá agüentar até o ônibus chegar.
PADRE - Sendo assim... Espere! Água? Onde
você arranjou água nesse deserto?
LULA - Foi quando o senhor deitou-se. Deixou
cair um vidrinho do seu bolso.
PADRE - Sacrilégio! Aquela água era benta,
seu Lula!
LULA - E eu lá sabia disso, sabia? O gosto
era de água mesmo!
PADRE - Esse foi um pecado grave, seu Lula!
LULA - Que nada, seu Padre. E bebi sem saber,
Deus há de perdoar. Não foi Ele que disse para dar de beber
a quem tem sede?... O senhor fez isso! E eu também estou
dando de comer a quem tem fome! Coma o sanduíche logo, antes
que eu me arrependa. Esse aí eu garanto que não está bento!
PADRE - Pra você não tem jeito não... Seja
lá o que Deus quiser! (Começa a comer o sanduíche. Voz
fora de cena).
VOZ - Pode voltar daqui. Fica ruim para os
animais subirem o barranco da estrada. Não se esqueça de
dar banho neles quando chegar na fazenda.
LULA - Vem vindo gente aí. (O Padre
apressa-se em terminar de comer o sanduíche).
MAJOR - (Tem setenta anos. Bem conservado
e bonachão. Traz um pequena maleta e um pedaço de cipó na
outra mão. Entra.) - Bom dia! (Ao perceber a presença
de um padre) - Bom dia, Padre!
PADRE - (Com a boca cheia de sanduíche,
tentando disfarçar) - Bom dia!... (Engasga-se ao
falar e afasta-se para um lado).
MAJOR - Pelo visto, o ônibus ainda não
passou, não foi? Os senhores ainda estão aqui...
LULA - Desde ontem. Perdemos o ônibus de
ontem à tarde e o jeito foi ficar esperando o de hoje de
manhã.
MAJOR - Ora, podiam ter passado a noite lá em
casa. Essas terras aqui são minhas e a sede da fazenda não é
tão longe assim.
LULA - A gente não conhece a região.
MAJOR - E como vocês vieram parar aqui?
LULA - É uma história tão complicada, seu...
seu...
MAJOR - Ah, desculpe não ter me
apresentado. Sou o Major Felinto Rodrigues, às suas ordens!
Mas pode me chamar somente de Major, que é como todo mundo
me conhece. Ainda não ouviu falar da Fazenda do Major?
LULA - Como eu lhe disse, não conheço essas
redondezas. Estamos aqui por um acaso... O Padre não quer
nem ouvir falar dessa história!
MAJOR - O que é que ele tem? Afastou-se
quando eu cheguei.
LULA - Deve tá entalado! Estava com tanta
fome que botou um sanduíche de mortadela inteirinho na boca
e foi falar de boca cheia! Entalou! (O Padre sai de
cena).
MAJOR - Mortadela?! Virgem Maria! É um
veneno! Comi um pedaço dessa danada ontem no jantar e passei
a noite indo ao banheiro. No caminho até aqui, ainda parei
duas vezes para ir ao mato.
LULA - Danou-se! Pôr causa de um peido que
nem fui eu quem deu, botaram-me pra fora do ônibus. Imagine
se o senhor der uma cagada dentro dele! Ouviu isso, Padre?
(Não vendo o Padre) - Padre! Onde danado ele se
meteu?
MAJOR - Ele saiu ali pra traz daqueles matos.
LULA - Pronto! Agora é o mundo todo!
(Ouve-se o Padre gemendo).
MAJOR - Parece que é das brabas! (Novos
gemidos e urros) - E o caso aí é ao contrário: ele está
é entupido!
LULA - Será mesmo?
MAJOR - Tenho certeza! Isso aí eu conheço
muito bem! O meu filho mais velho ficou assim. Entupido
que dava gosto ver! Passou quatro dias que não saia nada! E
olha que só de mamão comeu um bocado, tomou chá de tudo que
é coisa e nada! Comeu cocada quente e não deu jeito. Então
levei para o médico, que mandou dar um purgante de óleo de
rícino e uma lata de ameixa em conserva, e mais uma lavagem
de água de rabo a dentro!
LULA - Aí resolveu?
MAJOR - Passou a noite em claro: da rede para
o pinico.
LULA - Então fez efeito?
MAJOR - Que nada! Muito peido e merda nem um
tico!
LULA - E aí?
MAJOR - Aí eu dei um jeito. Peguei o danado
nu e prendi ele com a bunda exposta, na traseira de uma
jumenta no cio, amarrada dentro do cercado. Aí soltei um
jumento reprodutor que eu tenho lá. Quando o menino viu o
tal jumento vindo na sua direção, com aquele pedaço de coisa
preta da cabeça do tamanho de um pires, não teve jeito:
cagou-se de medo!
LULA - E o jumento?
MAJOR - Fugiu apavorado com a catinga da
merda!
LULA - E que idade tem seu filho, Major?
MAJOR - Já está um homem feito. Tanto que vou
botá-lo na política.
LULA - E ele leva jeito?
MAJOR - Até demais! Ora se leva! É
preguiçoso, mentiroso e tapeador. Só dá mesmo prá ser
político!
LULA - (Rindo) - Gostei! Gostei da sua
sabedoria! O senhor agora me lembrou uns versinhos que diz
assim: (Cantando)-
"Um doido de Matureia
Mexia numa latinha
Merda fresca de galinha
Na calçada da Assembléia:
- O que é que está fazendo
Nessa latinha mexendo?
Perguntou um parlamentar.
- Um vereador safado.
Só não faço um deputado,
Porque
a bosta não dá!..." (Riem).
MAJOR - Então o meu filho, com aquela merda
toda que juntou na barriga, dava prá fazer, facilmente, um
senador! (Riem) - E o Padre, seu ?...
LULA - Lula. Pode me chamar assim.
(Dirigindo-se para o lado pôr onde o Padre saiu) -
Padre! O senhor está bem? Padre! Responda Padre!
PADRE - (Fora de cena. Voz rouca) - Já
estou indo.
MAJOR - Parece que ainda está entupido!
LULA - Mas seu Major, pra que serve esse
pedaço de cipó que o senhor não larga desde que chegou aqui?
MAJOR - É um cipó de estimação! Eu sempre
carrego ele quando ando a cavalo. É prá açoitar. Eu devia
ter mandado de volta prá casa junto com a égua. Esqueci, e
agora tenho que ficar com o cipó na mão.
LULA - E o senhor sabe que madeira é essa?
MAJOR - Não. Nunca prestei atenção.
LULA - É catuaba, homem! Coisa boa para
subir a pressão de qualquer um, não sabe? (Gesto).
MAJOR - É mesmo?! Então é pôr isso que toda
vez que eu saio com o danado do cipó na mão, dá uma vontade
doida de enrabar a desgraçada da minha égua! (O Padre
aparece. Está abatido e falando com alguma dificuldade).
LULA - Conseguiu, Padre?
PADRE - O que?!
LULA - Aliviar... Evacuar...
PADRE - Eu estava era tentando vomitar!
Engasguei-me com o danado do sanduíche que você me deu...
Deve ter sido dado com má vontade!
LULA - Venha conhecer o Major.
PADRE - Major?!
MAJOR - Da Guarda Nacional! Meu avô comprou a
patente, que passou para o meu pai e o meu pai passou para
mm.
PADRE - Ah! Guarda Nacional?
MAJOR - À sua disposição, reverendo!
PADRE - Obrigado...
MAJOR - Reverendo, o senhor faz qualquer
casamento?
PADRE - Faço. Desde que seja de gente e macho
com fêmea! Pôr que o senhor pergunta?
MAJOR - É porque eu tenho um vizinho aqui da
propriedade que quer se casar, mas tem um problema.
PADRE - Qual é o problema?
MAJOR - Ele quer se casar com a mãe...
PADRE - Logo com a mãe! E pôr que ele quer se
casar com a mãe?
MAJOR - É que ela ainda é nova e muito rica.
Ele não quer que a sua fortuna seja dividida com um
estranho. E também porque pra que ele possa receber a sua
parte da herança, é precisa que mãe case novamente e na
Igreja! Coisas lá do testamento do finado seu pai...
PADRE - É. Mas eu não faço esse casamento
não! Eu vou lá casar filho com mãe! E vai de encontro às
leis de Deus. Caso nada! De jeito nenhum.
MAJOR - É uma pena! O meu vizinho vai mesmo
ter que esperar a morte da mãe para poder receber a sua
parte na fortuna. Em compensação vai economizar dez mil
reais...
PADRE - (Assustando-se) - Dez mil
reais?! Economizar como?
MAJOR - Que o senhor iria receber...
PADRE - Eu?! Como?
MAJOR - Que ele vai dar ao padre que fizer o
casamento.
PADRE - (Como se não tivesse entendido a
proposta) - Olhe aqui, seu Major, explique esse negócio
direito. Com quem é que ele quer mesmo se casar?
MAJOR - Com a mãe dele!
PADRE - Ah, com a mãe dele pode! Eu faço o
casamento. Eu estava entendendo que era com a minha! ...
LULA - Sua mãe também é viúva, seu Padre?
PADRE - É falecida... (Barulho de carro se
aproximando).
LULA - Deve ser o ônibus. Até que enfim!
Atenção gente, apertem a tripa gaiteira! (Sai a luz).
CENA V
- (Na capital. Porta de um quarto da pensão. Dia).
HOSANA - (Gritando) - Baiana! Ô
Baiana! (Silêncio. Mulher grita mais forte) - Baiana!
Baiana, danada de mouca, sou eu! (Silêncio. Mulher grita
mais forte ainda) - Baiana, gota serena, responda!
(Mais forte ainda) - Baiiiiiaaaana!
BAIANA - (Abrindo a porta e gritando
também) - Que danação é essa? Tá ficando doida, é?
HOSANA - A gente chama, chama e você não
atende! Parece que tá ficando mouca!
BAIANA - Como era que eu podia atender se eu
estava cagando!
HOSANA - Eu não sou adivinhona! Não tenho
culpa...
BAIANA - Por sua causa tive que partir um
tolete no meio!
HOSANA - Desculpe, Baiana. Foi sem querer.
BAIANA - E o que danado você queria?
HOSANA - Seu amigo que vai chegar, fica com
você aí ou é preciso outro quarto?
BAIANA - Sei lá daquele desgraçado! A essa
hora pode já tá até morto! Saiu de lá um dia antes de mm e
ainda não chegou! Do jeito que o povo de Periquito Roxo tá
com raiva dele, eu não duvido nada!
HOSANA - Mas se chegar?
BAIANA - Claro que vai ficar comigo. Você
acha que eu cevo macho prá panela dos outros, é?
HOSANA - Tá bem. Eu só queria saber...
BAIANA - Já que já sabe, com licença, que eu
continuar com a minha defecação! (Sai a luz).
CENA VI
- (Chegando à Capital).
PADRE - A minha paróquia é bem no centro da
cidade. É a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. Eu moro
aqui nesse endereço (Entrega cartão a Lula) -
Precisando de alguma coisa, procure-me...
LULA - Obrigado, seu Padre! Prometo lhe
visitar o mais breve possível.
PADRE - Também não precisa dessas pressas
todas não!... Passe bem, seu Major. Espero que resolva todos
os seus problemas aqui na Capital. E o casamento?
MAJOR - Vai bem, obrigado! A mulher ainda é
muito jovem e pôr isso está aprendendo as coisas
devagarinho...
PADRE - Não! Estou falando do casamento do
seu amigo com a sua mãe...
MAJOR - Minha mãe já morreu! (Tempo) -
Ah! O senhor está falando daquele casamento de filho com
mãe, não é? Antes de voltar e lhe procuro, Padre. Dez mil,
não é Padre?
PADRE - Para as minhas obras de caridade!
(Sai).
LULA - É o besta, que eu chamo!
MAJOR - E o senhor, seu Lula Sabão, vai dar
com os costados aonde?
LULA - Eu vou procurar uma pensão de uma
amiga de uma amiga minha. Estou com o endereço aqui...
MAJOR - Estou quase indo com o senhor, seu
Lula. Se é uma pensão, é do que eu vou precisar. Tenho que
passar uns dias pôr aqui. Preciso resolver umas três
coisinhas que estão me incomodando.
LULA - Precisando de ajuda.
MAJOR - Para a terceira pode ser. Mas para as
duas primeiras, não. Tenho que resolver sozinho. Para
começar, tenho que falar com o Governador do Estado e pedir
para ele mudar, com toda urgência, o sargento que é
delegado lá do município que eu moro.
LULA - Danou-se! E o que é que o sargento tá
fazendo de tão grave que o senhor quer tirá-lo de lá tão
depressa assim?
MAJOR - O bicho está de cabresto solto que
nem um pai de chiqueiro, desrespeitando tudo que é de
mocinha pobre e até mulher casada! Basta ter mais de meio
metro e poder com uma lata d'água na cabeça, para ele querer
papar!
LULA - E lá para aquelas suas bandas não tem
um cabra macho não?
MAJOR - Tem! Mas o sargento não quer saber
não. Só quer saber de mulher!
LULA - E a segunda coisa o que é?
MAJOR - Procurar um médico.
LULA - O senhor está doente? O que é?...
MAJOR - Não, não... Vou consultar um médico
pra ver se ele dá um jeito em diminuir o peso...
LULA - O senhor não me parece tão gordo!
MAJOR - Não, não... É a preciosa! (indica)
Tá pesada!...
LULA - Ah! Entendi agora! Isso faz me lembrar
uns versinhos: (Canta) -
"Tu tinhas um pimba afamada,
Dura como um torniquete,
Que dela fazia cacete
Pra quebrar castanha assada.
Hoje não vale mais nada;
Nem na tapa mais se bole;
Tem que ser levada a dedo,
O que até me causa espanto.
Tu que já gozaste tanto
Hoje estás de pimba mole!"
(Riem).
MAJOR - É isso mesmo, é isso mesmo! Eu também
sei de outros versinhos! Ouça esses.(Canta):
"Moço e pobre fui um
galo.
Rico e
velho, sou galinha.
Eu já
tive mandioca
Sem ter
casa de farinha.
Hoje tudo
está mudado:
Levo a
vida à matroca;
Tenho
casa de farinha,
Mas cadê
a mandioca?" (Riem).
LULA - Já sei: a mandioca ficou que nem
emboá: ninguém pode tocar que ela se enrola toda! Olhe, seu
Major. (Outro tom) - Se o médico não resolver, eu
tenho uma amiga que resolve! Ela conhece umas garrafadas que
são batatas! É tiro e queda! (Outro tom) - E o
terceiro assunto que o senhor veio resolver e quer a minha
ajuda?
MAJOR - Esse é o mais importante! É o
principal! Preciso arranjar umas meninas novas, caridosas...
Que saibam fazer umas novidades, não sabe?
LULA - Oxente, seu Major! Mais mulher! E o
senhor não está com esse seu problema mandiocal?
MAJOR - Eu sei, eu sei... Mas me disseram que
na capital tem uma meninas com umas invenções novas que
ressuscitam até defunto!...
LULA - Seu Major!... E sua mulher? O senhor
não disse que a sua era uma mulher muito jovem, bem mais
nova que o senhor?
MAJOR - Sim, sim... Viver com uma mulher nova
quando se tem a minha idade, traz umas vantagens: capim novo
é bom para cavalo velho, a gente fica todo sacudido... Mas é
só aparência, seu Lula! A gente fica igualzinho a um viciado
que deixa de beber: só cheirando e lambendo o copo!... E
mulher nova daquelas bandas sempre é encabulada,
desajeitada, não sabe de novidade nenhuma. Todo dia quer a
mesma coisa! Aí eu não agüento!...
LULA - Mas é um casamento novo, uma mulher
nova, ela vai terminar aprendendo...
MAJOR - Mas ela tem um grande defeito: não é
boa de acordo! Quando eu fui ajustar a ida dela lá prá casa,
expliquei que, na minha idade, as nossas relações de
emprenhamento só podiam ser de quinze em quinze dias. Fora
disso, nós dois ficávamos só no lengalenga...
LULA - E ela concordou?
MAJOR - Claro que concordou. Moça para casar
concorda com tudo. Mas agora só vive pedindo para adiantar
uma quinzena!
LULA - E o senhor quando viaja assim, não
tem medo de deixar a sua mulher sozinha não?
MAJOR - Medo de que?
LULA - Sei lá... Tem tanto gavião solto pôr
aí. O senhor mesmo falou que o delegado...
MAJOR - Ela que se meta! Acabo com a vida
dela só com um susto!
LULA - Susto?!
MAJOR - Susto com a explosão do meu trabuco
dentro do ouvido dela!
LULA - Ave Maria! E o senhor mata logo a
mulher? E o gavião?
MAJOR - Deixo voar com as calças não mão! Vou
lhe dizer uma coisa, seu Lula. Mulher quando não presta, dá
mais do que maxixe em pé de serra! Pôr isso, é melhor matar
uma mulher só, do que ficar matando um homem todo dia!
LULA - É... Desse jeito o senhor tem razão.
MAJOR - Mas vamos procurar a tal pensão, que
eu já estou ficando com fome...
LULA - (Saindo) - Vamos lá! O endereço está
aqui... (Sai a luz).
CENA VII
- (Frente da Pensão. Baiana cuida de aguar alguns jarros com
plantas.
Hosana entra e fica examinando as plantas).
BAIANA - (Cantando) - "Nem toda água é
corrente,
Nem toda montanha é serra,
Nem todo barulho é guerra,
Nem todo homem é valente,
Nem todo velho é demente,
Nem toda gruta é rincão,
Nem todo rio é Jordão,
Nem toda madeira é rija,
Mas a moça quando mija
Deixa um buraco no chão..."
HOSANA - Eu sabia! Eu sabia que ia terminar
com uma safadeza! Você não tem jeito não!
BAIANA - (Rindo) - Mas tem sabedoria!
Dá uma mijada de cócoras lá no quintal e veja de que tamanho
fica o buraco!
HOSANA - Repara! Eu sou lá mulher de mijar em
quintal, Baiana! Isso é coisa de gente do mato... Aqui, na
cidade, os procedimentos são outros.
BAIANA - Mas a putaria é a mesma! Ou pior! E
tu, Hosana, com essa banca toda... Tu vem de onde? É bem do
Rio de Janeiro! Tu vem é do mato, igual a mm!...
HOSANA - Isso faz tanto tempo que nem me
lembro mais...
BAIANA - Ah, é? Também esqueceu que
desembestou de lá, fugida para não levar um surra da mulher
do coronel Justino Alves, quando ela pegou o marido mamando
em riba de tu? Diz! E tu compraste essa pensão como? Não foi
com o ouro que o coronel te deu para tu desaparecer da vida
dele? Vamos! Responda!
HOSANA - Não me interessa esse assunto...
Você, minha amiga, não sei por que vem falar dessas
coisas...
BAIANA - Tá bem, desculpe. Foi sem querer...
HOSANA - (Como quem quer mudar de assunto)
- Água só, não resolve... Essas plantas precisam de adubo.
Vou tentar conseguir um pouco de estrume. É tão difícil
encontrar pôr aqui...
BAIANA - Encontrar merda? É difícil? Pôr
acaso aqui os bois são entupidos, é? E tem mais uma coisa:
para essas plantas, o bom mesmo era terra preta, nova... Aí
você ia ver elas ficarem bonitas!
HOSANA - Que é isso, Baiana? Você também é do
mato e sabe que estrume de boi é um excelente adubo. Faz a
planta crescer, ficar forte...
BAIANA - Estrume faz isso tudo?! Olhe,
Hosana, se merda fizesse alguma coisa crescer e ficar forte,
cabelo do cú tinha um metro de comprimento e era da grossura
de uma vara de bambu!... (Lula entra, acompanhado do
Major e ao avistar Baiana, começa a cantar, sendo seguido
pôr, formando um dueto).
LULA E BAIANA - "Deus quando fez o mundo
Por
acaso estava inspirado:
Depois
de tanto acerto
Quis
fazer algo de errado.
Revisou
as suas obras,
Tudo
achou muito perfeito:
Então
viu que a Natureza
Precisava de um defeito.
Precisava então de algo
Mais
belo que a natureza,
Mas que
fosse o seu defeito
Mesmo
com tanta beleza.
Foi
então que decidiu,
Perfeito como Deus é,
Sublimar a sua obra:
E Deus
criou a mulher!"
BAIANA - (Abraçando Lula) - Lula! Meu
Lula Sabão!
LULA - (Retribuindo ) - Baiana! Minha
nega gostosa!
HOSANA - Agora danou-se tudo!
MAJOR - (Comovido, dirigindo-se para
Hosana) - O tão bonito o amor... É lindo!
HIOSANA - Isola! Sobrou prá mm! Eu sou mesmo
pesada!...
MAJOR - (Recompondo-se) - Ah,
desculpe! Eu não me apresentei... Sou o Major Felinto
Rodrigues. Vim com o senhor Lula, para me hospedar aqui...
HOSANA - (Mudando de postura) - Ah!...
Terei o maior prazer em lhe hospedar na minha pensão, senhor
Major. A casa é sua...
LULA - (Para Baiana) - Vamos lá, minha
nega! Vamos ver se você ainda é capaz de um desafio!
BAIANA - É prá já! (Canta) - "Quando
arde a priquita
Corto
mais do que navaia
Tenho uma
saia de chita
E uma
calçola de cambraia:
Se acaso
levanto a perna,
O cabra
vendo, desmaia!
LULA - Baianinha, tu não sabes,
E precisa que eu te diga:
Se tu levantar a perna,
A saia também arriba.
E mulher que brinca comigo
Depressa cresce a barriga.
BAIANA -
Isso foi antigamente
Quando
você era macho.
Mas um
cabra experiente
Passou-lhe a faca embaixo
O
sangue correu na perna,
O gato
comeu o cacho!
LULA - Eu atacado me acho
De um jeito assim tão bruto.
Quando vagou a notícia
Que eu perdi esse produto,
O seu pai chorou de pena,
A sua mãe ficou de luto!
BAIANA -
Um homem ficando velho
A
tesão desaparece:
A
ponta da venta afina,
Ele
da mulher esquece,
A
pinta esconde a cabeça
E
nunca mais aparece!
LULA - Isso pode acontecer
Comigo, mas eu duvido.
Se eu tivesse a sua voz
Andava sempre escondido:
Você tem a voz mais feia
Que mulher falsa ao marido!
BAIANA
- Seu verso não tem
sentido.
Cuidado, meu camarada;
Agora é que eu estou vendo
Que você não canta nada:
A
mulher falsa não canta
A
mulher falsa é cantada."
MAJOR - (Entra, terminando o desafio)
- A peleja desses dois
Não merece atenção.
O público aqui presente
Já chegou à conclusão:
Ela não pega mais homem
Nem ele tem mais tesão!
HOSANA - (Eufórica) - Boa, seu Major!
O senhor também gosta de uns versinhos, não é?
MAJOR - Gosto! Mas gosto muito mais de
mulher!...
HOSANA - Oxente! Então o senhor veio para o
lugar certo!...
LULA - Eu não disse, Major!
HOSANA - E como é que o senhor gosta? Velha
ou moça?
MAJOR - Quanto mais moça melhor!
HOSANA - Branca, preta, morena ou loura?
MAJOR - Qualquer uma. Sendo cheirosa...
HOSANA - Gorda, magra, alta ou baixa?
MAJOR - Média!...
HOSANA - Dos peitos grandes ou pequenos?
MAJOR - Tanto faz. Os bichinhos sendo nas
costas ainda é melhor!... (Todos riem).
HOSANA - Vamos entrando, seu Major! Venha
comigo, a casa é sua... (Saem).
BAIANA - Lula! Até que enfim! Pensei que não
vinha mais. Como é, deu tudo certo?
LULA - Que nada, Baiana! Deu tudo foi errado!
Pôr causa das minhas besteiras, quase que eu morria! Passei
até fome!
BAIANA - Então vamos cuidar de comer alguma
coisa...
LULA - Primeiro para o quarto. Estou com mais
fome de outra coisa!... (Saem abraçados. Sai a luz).
CENA VIII
- (Porta da Igreja. Lula, disfarçado de aleijado, pede
esmolas. Surge uma freira).
LULA - (Cantando) - Ó Irmã, dá-me uma
esmola
Pelo Santo
Amor de Deus
Fazei essa
caridade
Pelos
pobre filhos meus.
FREIRA - (Dando uma esmola) - O
aleijadinho é poeta? Que bonito! Diga outros versinhos para
mm!
LULA - O prazer é todo meu, Irmã. (Canta):
- "Eu me encontro escondido
Por detrais dos matagais
Já fui, já vim, já voltei
Mas se for não volto mais.
Que eu não sou couro de pimba
Prá tá prá diante e prá traz..."
FREIRA - (Grita horrorizada) - Ai, ai,
ai... (Ameaçando desmaiar) - Vou dá um troço!
LULA - Se for o que eu estou pensando, eu
quero, Irmã... (Cerca a Freira).
FREIRA - Valha-me Deus! Um aleijado
tarado!... Mais respeito, aleijadinho! Eu sou uma freira.
Você não vai ter coragem de fazer nada comigo...
LULA - (Cortando) - Ora se tenho!
Precisado como eu estou, enfrento qualquer fera: mijou de
cócoras sem ser galinha, tendo mais de trinta quilos e
podendo com uma lata d'água na cabeça, eu papo na hora!
FREIRA - (Fugindo, assombrada) -
Socorro! Um tarado! Socorro!
PADRE - (Saindo da Igreja) - O que é
isso? O que é que está havendo aqui? Que perturbação é essa?
(Depara-se com Lula) - Seu Lula! (Espantado) -
O que é que o senhor está fazendo aqui, na porta da minha
igreja? E de bengala e cuia na mão? O que significa
isso?!... E que gritaria foi aquela?!
LULA - Uma velhinha que passava assustou-se
comigo!... Nada demais. É que eu sou feio mesmo...
PADRE - E essa cuia e essa bengala?
LULA - Ah! É para eu me defender um pouco...
PADRE - Defender como?
LULA - Eu sento aqui, com a bengala numa mão
e a cuia na outra, sempre aparece alguma alma caridosa para
colocar uns trocados na cuia...
PADRE - (Zangado) - O que?! Então a
safadeza é essa e na porta da minha igreja! Fora! Fora daqui
imediatamente! (Ameaçador) - Eu chamo a polícia! Eu
lhe denuncio como vigarista... (Procurando consertar o
que disse) - Quero dizer, como, como, como ladrão!
LULA - Assim é exagero, Padre! Eu não estou
roubando nada!...
PADRE - Não interessa. Retire-se daqui!
LULA - E os dez mil reais do casamento?
PADRE - Que casamento? Que dez mil reais?
LULA - A proposta do Major, Padre.
PADRE - Você não tem nada com isso. É coisa
minha e do major. Vá embora, vá...
LULA - O Major mandou avisar, que antes de
voltar para casa, passa aqui para acertar tudo com o senhor.
PADRE - Onde está ele agora?
LULA - Foi falar com o Governador. Ele é
importante! E é meu amigo também!...
PADRE - Você já deu o recado, pode ir embora.
LULA - Seu Padre, deixe eu me virar mais um
pouquinho...
PADRE - (Violento) - Foooooora!
(Sai a luz).
CENA IX
- (Dentro do Palácio do Governador).
MAJOR - Quem é o senhor? O que é que faz
aqui?
CABO - Eu sou o Cabo Tonho, sub-comandante da
guarda daqui do palácio, atualmente no comando, porque o
sargento está de folga...
MAJOR - Já vi tudo!... Bem, eu quero falar
com o governador. O que devo fazer?
CABO - Nada.
MAJOR - Como nada?! Eu sou um chefe político
e do partido dele!
CABO - A minha obrigação era não informar
nada, pôr uma questão de segurança. Vou abrir uma exceção.
(Fala baixo e com cuidado) - Ele está em Brasília!
Foi atrás de dinheiro!
MAJOR - Então eu falo com o vice-governador.
Onde vou encontrá-lo?
CABO - Não vai.
MAJOR - Não vai como?
CABO - A minha obrigação era não informar
nada, pôr uma questão de segurança. Vou abrir uma exceção.
(Fala baixo e com cuidado) - Ele está em Recife! Numa
reunião da SUDENE. Também foi atrás de dinheiro!
MAJOR - Então eu falo com o secretário
dele...
CABO - Não fala.
MAJOR - (Mostrando-se irritado) - Pôr
que?
CABO - A minha obrigação era não informar
nada, pôr uma questão de segurança. Vou abrir uma exceção.
(Fala baixo e com cuidado) - Ele está no sertão, pôr
causa da seca. Foi lá dizer que o governo não tem dinheiro!
MAJOR - Assim virou brincadeira! Bem, apesar
de tudo, obrigado. Como o meu caso é de polícia, eu vou ao
quartel falar com o comandante...
CABO - Vai perder tempo.
MAJOR - (Afobado) - O que?!
CABO - A minha obrigação era...
MAJOR - (Bruscamente cortando) - Eu
quero lá saber da sua obrigação! Eu quero saber por que é
que eu vou perder meu tempo?
CABO - (Fala baixo e com cuidado) -
Ele está reunido com as bases militares em local
desconhecido. Estão discutindo a ameaça da nossa greve. Faz
três meses que a gente não recebe dinheiro!
MAJOR - Isso é uma esculhambação! Pois o
senhor diga ao comandante, para ele dizer ao secretário, que
diga ao vice, para informar ao governador....
CABO - (Cortando) - Eu não digo é
nada! Meu turno termina daqui a cinco minutos e eu vou é
para casa!
MAJOR - (Perdendo o controle) - Pois
eu vou é voltar para o meu município e mandar meus cabras
caparem o sargento tarado!
CABO - Oxente! O sargento não tem culpa
nenhuma. Hoje ele tá até de folga! (Sai a luz).
CENA X
- (Porta da Igreja. Lula disfarçado de cego. Mulher vai
passando).
LULA - Uma esmolinha pelo amor de Deus! Ah,
que felicidade é a de quem pode ver a luz do dia e admirar
as belezas da natureza! Uma esmolinha pelo amor de Deus! Ah,
que felicidade é a de quem pode ver as estrelas e admirar a
beleza da lua! Uma esmolinha pelo amor de Deus!
MULHER - (Diante de Lula e colocando
dinheiro na cuia) - Tome ceguinho! O ceguinho diz umas
coisas muito bonitas! O ceguinho também é poeta?
LULA - As vezes, madame....
MULHER - Tome mais dinheiro.! Agora diga uma
poesia...
LULA - Vou lhe agradecer cantando. (Canta)
- "Tatu mora no buraco,
Caranguejo lá na praia;
O bicho que mata o homem,
Mora debaixo da saia!"
MULHER - Cego sem vergonha! Isso é coisa que
um cego diga!
LULA - Eu sou cego mas não sou capado,
madame! Quer mais? Com mulher eu sou assim: (Canta)
"Donzela, deixa de ser,
Da viúva
eu tomo tudo;
Mulher,
quanto mais sabida,
Mais
facilmente eu embromo;
Não tendo
saco entre as pernas,
Cevo,
trato, canto e como!"
MULHER - Cego tarado, miserável! Cretino!
(Mulher sai apressada).
LULA - (Gritando) - Feminista! (Sai
a luz).
CENA XI
- (Consultório médico. O major é examinado. Tempo. Médico
efeminado).
MÉDICO - Deixe de fumar se quiser ficar bom,
visse? O fumo diminui a potência, visse?
MAJOR - Eu jamais fumei, doutor!...
MÉDICO - A bebida também prejudica, visse?
MAJOR - Eu só bebo água, doutor!
MÉDICO - Então só pode ser estresse. Trabalho
demais, emoções fortes... Jogo! O senhor deve jogar
apostando e isso desgasta muito a pessoa, prejudicando
aquela função, visse?
MAJOR - (Já meio chateado) - Doutor,
eu não faço porra nenhuma, a não ser dormir, comer, contar
dinheiro e ir prá cama com a mulher. E nunca peguei num
baralho em toda minha vida!
MÉDICO - Ah! Agora chegou onde eu queria!
Excesso de sexo! O senhor exagerou, usou demais e agora está
faltando. É só diminuir mais, visse!
MAJOR - É danado! O cidadão é obrigado a
ouvir uma besteira dessa! (Alterando-se) - Já faz um
tempão que eu só trepo com a mulher de quinze em quinze
dias! E agora?
MÉDICO - (Dando chilique) - Agora?...
Agora, se o senhor não bebe, não fuma, não joga, não
trabalha e só faz sexo de quinze em quinze dias, o senhor
não precisa de médico! Não precisa de tesão. O senhor não
precisa nem viver, visse? Essa é boa, não é?
MAJOR - Boa vai ser a munhecada que eu vou
dar no pé do seu ouvido, seu doutorzinho de merda...
(Parte para cima do médico, que foge saltitante e dando
gritinhos histéricos. Sai a luz).
CENA XII
- (Frente da Igreja. Lula disfarçado de
cego).
LULA - (Cantando, ao mesmo tempo que mexe
com a cuia, onde tem algumas moedas, dando ritmo ao seu
canto) :
"Eu era um homem sadio,
Na vida nada sentia,
Comi um tatu um dia
O
bucho fez corrupio,
O
peba deu um desvio,
Arrancou-me o mucumbu,
Lascou-me a beira do cú,
Tirou-me a tripa do fundo,
Enquanto o mundo for mundo,
Nunca mais como tatu!..."
(Emenda com o pedido) - Uma esmolinha pelo amor de
Deus, para um pobre cego coitado que não tem a felicidade de
ver a luz do dia...
PADRE - (Entrando, aproxima-se de Lula)
- Tão moço ainda, ceguinho, e já pedindo esmola! E até bem
vestido! Vá ver que a sua família não sabe do que você anda
fazendo! Ou você é sozinho, meu rapaz?
LULA - (Disfarçando a voz) - Não. Eu
tenho pai e mãe.
PADRE - E onde está seu pai?
LULA - No arrependimento.
PADRE - Ah, sim... Ele está fazendo uma
penitência, não é? Que pecado ele cometeu?
LULA - Não, seu padre. O arrependimento é o
roçado. Ele plantou um grande roçado, veio a seca e acabou
com tudo. Agora está arrependido de ter plantado...
PADRE - Ah!... Entendo. Trabalhão perdido,
não foi? E a sua mãe?
LULA - Está sofrendo pelo que gozou no ano
passado!
PADRE - Essa eu não entendi! O que quer dizer
isso, rapaz?
LULA - Ela foi para a maternidade parir um
filho!
PADRE - (Aborrecido) - Ah! Já vi que o
ceguinho quer fazer gracejos comigo, não é? Vá ver que você
não é cego nem nada!
LULA - (Tirando o disfarce) -
Adivinhou, seu Padre!
PADRE - Seu Lula! Outra vez?! Já não disse
que não quero o senhor na porta da minha igreja? Fora daqui,
pela última vez!
LULA - Calma, seu Padre. O Major pediu para
eu esperar pôr ele aqui. (Insinuante) - Os dez mil, o
senhor sabe...
PADRE - O senhor está com enrolada, seu Lula!
LULA - Que o sino dessa igreja caia na sua
cabeça se estiver mentindo!
PADRE - (Pulando para trás, olhando para
cima. Lula ri) - Mais respeito! Não quero deboches
comigo!...
LULA - Mas é verdade, seu Padre! Olhe ali! O
homem vem chegando...
MAJOR - (Aproximando-se) - Bom dia,
seu Padre! Como vai vossa senhoria? Tem passado bem?
PADRE - Estava até esse rapaz aí descobrir a
porta da minha igreja! Agora não tenho mais sossego!
MAJOR - É que eu marquei encontro aqui, pois
precisamos acertar os detalhes daquele nosso negócio...
PADRE - Negócio?! O sagrado ato do
casamento...
MAJOR - Desculpe, Padre! Foi sem querer...
Mas é melhor a gente conversar lá dentro, onde se pode falar
mais à vontade, o senhor entende...
PADRE - Claro! Claro! Vamos. Mas o senhor,
seu Lula, espere aí do lado de fora! (Entram o Padre e o
Major).
LULA - Ah, é assim é, me deixando de fora da
jogada? Pois bem! Vou aproveitar por aqui. (Coloca
novamente o disfarce de cego. Canta). -
"Senhora, minha senhora,
Eu vos rogo, permitais
Que ponha o por onde mijo
No por onde vós mijais.
O pedido vos dirijo,
Sem instintos bestiais:
Botar o por onde mijo,
No por onde vós mijais.
Peço pouco e não exijo;
São coisas mui naturais:
Botar o por onde mijo,
No por onde vós mijais
(Aproxima-se uma mulher. Lula sobe a voz, para chamar a
atenção dela) -
Uma esmolinha, pelo amor de Deus! (A
mulher vai passando sem dar atenção) - Êh, tabacuda, e a
minha esmolinha?
MULHER - O que? O que foi que o ceguinho
disse?
LULA - Eu pedi uma esmolinha... Qualquer
coisa serve...
MULHER - Do jeito que eu ando sem dinheiro,
só se eu der o fiofó!
LULA - Serve, minha filha, serve! O ceguinho
aqui não tem bondade, come tudo!...
MULHER - (Reagindo) - Cego cretino!
Falei pôr falar! Eu sou uma mulher honesta!
LULA - Dessa qualidade eu também como. É
difícil de encontrar, mas quando eu encontro faço uma festa
danada!
MULHER - Miserável! Você agora vai aprender a
respeitar... (Parte para cima de Lula, para atacá-lo com
a sombrinha. Lula corre para dentro da igreja) - Safado,
apareça para apanhar! Foi se esconder debaixo da saia do
padre, não é? Apareça se for homem! (Tempo. Lula não
volta, ela vai embora resmungando).
LULA - (Sai da igreja com cuidado, já sem
o disfarce, olhando de uma lado para outro. Constatando a
ausência da mulher, explode) - Mais respeito com a Casa
de Deus! Pensa que é o que? Volte! Volte aqui! Vai ver o que
é bom pra tosse!
PADRE - (Saindo da igreja, juntamente com
o Major) - Que barulheira é essa? O que foi que houve?
Então, seu Lula? Mais uma das suas confusões?...
LULA - Essa é boa! Eu aqui defendendo a sua
igreja e o senhor vem me acusar...
MAJOR - Lá da sacristia a gente ouviu uma
gritaria danada!... Conte, o que foi que aconteceu?
LULA - Bem... Foi... (Procurando inventar
alguma coisa) - Dois homens!
PADRE - Eu ouvi voz de mulher!
LULA - É... Foi... Um deles falava fino
demais!
PADRE - Que história mal contada, seu Lula!
LULA - É verdade, seu Padre! Eu estava
quieto, aqui no meu canto, quando eles chegaram com uma
conversa atrapalhada, dizendo para não confiar no senhor...
PADRE - O que?!... Quem foi que disse isso?
LULA - Aqueles homens daquela religião que
troca cú!
MAJOR - Danou-se!
PADRE - Religião o que? Que religião é essa?
LULA - Aquela daqueles galeguinhos que só
andam juntos, de calça preta, camisa branca e gravata, com
uma bolsa nas costas, não sabe? Foram eles que estavam
falando mal do senhor! Estavam dizendo que o senhor só quer
saber de dinheiro, e coisa e tal...
PADRE - São uns reacionários! (Grita)
- Go home yankee!
MAJOR - Mas eles trocam mesmo?...
LULA - Só pode ser , seu Major! Eles só andam
juntos; para onde um vai o outro vai também; ninguém vê
mulher perto deles... O senhor já viu eles com alguma
mulher, seu Padre?
PADRE - Não me envolva nas suas safadezas,
seu Lula! Eu vou é entrar, que não tenho mais nada a fazer
aqui. (Entra na igreja).
MAJOR - Nem eu! Vamos, seu Lula. Vamos a
luta? Já não resolvi o problema com o governador; já não
resolvi o problema com o médico. Só me falta você falhar com
as mulheres!
LULA - Essa parte é comigo mesmo!...
(Saindo com o Major).
MAJOR - Tem que ser novidade... (Sai a
luz).
CENA XIII
- (Na pensão. Baiana e Hosana conversam).
HOSANA - Então, você deixou tudo que
tinha?...
BAIANA - Pois não foi, mulher... O tinhoso do
Lula arranjou a complicação toda e eu tive de cair fora
também! Todo mundo da cidade sabia da nossa amigação... Se
eu ficasse, poderiam se vingar em mm!
HOSANA - E o seu negócio?
BAIANA - Fechei. Ia fazer o que? Tranquei
tudo e vim embora pra cá também!
HOSANA - Virgem Maria! E ficou tudinho lá? As
mercadoria também?
BAIANA - Pouca coisa... Deixei parte das
mercadorias noutra bodega de um amigo meu. Depois tenho que
mandar alguém acertar as contas com ele e se desfazer do
resto das minhas coisas, porque prá lá eu não volto mais
não... Eu não sou rolinha prá voar em seixo!
HOSANA - Que pena, Baiana! Seu negócio devia
estar indo bem, não era?
BAIANA - Nem tanto, mulher. Nem tanto... Pôr
esses últimos tempos eu já estava sentindo que não sou boa
de negócio. Isso de ser negociante, mesmo pequena como eu
era, é preciso ter jeito. Eu sei o que sofri! O fiado me
lascou...
HOSANA - Ah!... De um bom caloteiro ninguém
escapa!
BAIANA - Eu até que tentei, mulher. Lula fez
uma quadrinha das dele, escreveu num pedaço de papelão e eu
preguei na porta da bodega, mas não teve jeito... Os
velhacos liam e nem se incomodavam!
HOSANA - Como era a quadrinha?
BAIANA - Era boa! Lula é bom nisso! Era
assim: (Declama) -
"Para não
haver transtorno
Aqui neste
barracão,
Só vendo
fiado a corno,
Filho da
puta e ladrão!"
HOSANA - E nem assim você escapou?
BAIANA - De cabra estradeiro ninguém escapa!
LULA - (Entrando, um tanto eufórico) -
Baiana, minha nega gostosa! Tenho uma notícia boa para você!
Tem aqui uma tal de polícia feminina que está aceitando
mulher que queira ser soldado! O dinheiro não é muito, mas
se recebe roupa, sapato e até comida! Já pensou? Você
autoridade! A gente volta para Periquito Roxo e você me
protegendo...
BAIANA - Dá certo não! Primeiro pela idade,
que eu não sou tão novinha mais... Depois, porque polícia é
uma nação de gente com quem eu nunca tive sorte. Finalmente,
não acho que polícia seja negócio prá mulher.
LULA - Aí é que você se engana! Ninguém mais
competente para ser policial do que uma mulher!
(Debochado) - Tem tudo prá isso: age com habilidade,
entende de regra e quando entra em ação, baixa o pau!
BAIANA - (Também entrando no deboche)
- Ah! É sacanagem, não é? Então vou lhe responder também com
sacanagem! Segure lá! (Canta):
"Não dou pra comerciante,
Não dou pra policial;
Uma profissão pr'eu dar
Tem que ser especial!
LULA - (Cantando) - Dá, dá , dá...
Você tem
que dar;
Se der o
povo comenta,
Se não,
também vai falar!
BAIANA - Quando fui
comerciante
Pôr pouco não me acabo:
Pôr vender tanto fiado,
Só levei fumo no rabo!
LULA - Dá, dá, dá... (etc.).
BAIANA - Se eu
fosse ser polícia,
Podia ser diferente:
Teria de agüentar pau
Atrás e também na frente!"
LULA - (Brincando) - Eita, mulher
doida danada! É pôr isso que eu gosto dessa nega!
HOSANA - (Mostrando-se interessada) -
E o Major? Onde meteu-se?
LULA - Meteu-se foi com uma loura que ia
passando do outro lado da calçada. Ficou doidinho quando ela
fez biquinho, assim (Imita) para o lado dele...
HOSANA - (Aborrecida) - Tomara que ele
se lasque!
LULA - Taí , uma coisa que eu não duvido!
BAIANA - Pôr que, Lula?
LULA - A loura tinha um jeito de vigarista,
danado! Parecia uma cigana, com aquelas roupas compridas!
Esperei bem uma meia hora pra ver se ele voltava. Não deu
sinal de vida, vim embora.
MAJOR - (Entrando, afobado) - Era um
fresco, Lula! Um fresco vestido de mulher!
HOSANA - (Vingativa) - Bem feito!
MAJOR - O que foi que a senhora disse?
HOSANA - (Rindo) - Nada, Major! Só
estava pensando...
MAJOR - Pois eu não achei graça nenhuma!
Paguei dez reais só para entrar num quartinho imundo, com
uma cama velha num canto. Eu já estava toda animado e até
com a pimba tomando forma! Quando a loura tira a roupa, que
aparece as pernas cabeludas e uma trouxa desse tamanho
(faz o gesto) na frente, acabou-se tudo! A pimba
recolheu-se e eu fugi apavorado!
LULA - A pimba virou emboá? (Risos).
MAJOR - Isso mesmo! E o fresco ainda ficou
lá, histérico, me chamando de velho brocha! (Risos. Sai a
luz).
CENA XIV
- (Mesa de um bar. Lula e o Major conversa, enquanto Lula
bebe).
MAJOR - Será que vai dar certo mesmo, seu
Lula?
LULA - Vai!... Aquele fulano que trabalha de
garçom, lá na pensão, garantiu! Só tem mulher nova e
daquelas que topam qualquer parada!
MAJOR - É que eu já com um pé na frente e
outro atrás, com esse negócio de mulher... Aliás, a minha
passagem aqui pela capital está sendo desastrosa: só faltou
o cabo ser bicha!
LULA - Que cabo?
MAJOR - O cabo da guarda do palácio do
governador! Não era bicha, mas era imbecil! Mas o resto!...
Fui ao médico, o doutor era bicha! A primeira mulher que eu
consigo não era mulher, era bicha! Será que nessa merda de
cidade só tem bicha?
LULA - Que nada, Major... Foi só
coincidência. Essas meninas daquela casa ali são todas
meninas mesmo. O garçom garantiu. Vá sem medo.
MAJOR - Sei não! Mulher é como abelha: ou dá
mel ou ferroada!
LULA - E o Padre?
MAJOR - Oxente! Eu não quero negócio com
bicha, vou querer com padre?!
LULA - Não! Estou falando do casamento.
Acertou tudo com ele?
MAJOR - Ah, sim! Acertei! Ele vai comigo
quando eu voltar. Mas ele não sabe de nada!
LULA - De nada o que?
MAJOR - Não tem casamento nenhum! Aquela
história de filho casando com mãe fui eu que inventei...
LULA - Agora quem não está entendo sou eu!
MAJOR - Vou explicar: eu estava precisando de
um padre interesseiro para fazer um casamento de mentira.
Joguei aquele conversa do filho com a mãe, porque se ele
aceitasse, aceitaria qualquer outra coisa!
LULA - Complicou mais ainda! Agora é que eu
não estou entendo mesmo!
MAJOR - Preste atenção, seu Lula! A
Francisquinha...
LULA - Que Francisquinha, Major?
MAJOR - A minha mulher, a nova!
LULA - Ah, sim! Eu não sabia o nome dela...
MAJOR - Ela quer que eu case com ela no
padre. Não faz nem questão do cartório! Só quer casar no
padre. E eu não posso fazer isso de verdade! Já fui casado
antes na Igreja!
LULA - Que complicação! E pôr que o senhor
não explicou isso a ela?
MAJOR - Ela não teria ido morar comigo!...
LULA - Já vi que o Major está abestalhado
mesmo! Aceitando um capricho desse! Cuidado, Major! Mulher
deixa o rico sem dinheiro e o pobre sem vergonha; deixa o
moço sem força e o velho sem vontade! Mulher, pôr mais leve
que seja, é a carga mais pesada! E tem mais: a única mulher
que andou na linha, o trem matou!
MAJOR - Eu sei... Eu sei... Mas, mesmo assim,
ainda é a melhor coisa do mundo!
LULA - Também acho!...
MAJOR - Então eu tenho que casar! O Padre vai
lá, diz umas palavras, ela pensa que é de verdade e fica
tudo resolvido!
LULA - É... Para quem já ia casar mãe com
filho, isso é besteira! E mulher é gente fácil de se
enganar...
MAJOR - E de enganar a gente também! Pôr
falar nisso, será que vai dar certo mesmo ir procurar essas
meninas?
LULA - Só pode dar, Major. Vá sem medo...
Quer tomar uma lapada para dar coragem?
MAJOR - Eu não bebo. Nunca bebi. Não vou
beber nunca!
LULA - O mesmo eu não posso dizer! Olhe,
Major, eu só não vou com o senhor até lá, porque posso cair
em tentação. E se a minha nega desconfiar, eu tou lascado!
MAJOR - Tudo bem, seu Lula. Estou indo. Seja
lá o que Deus quiser!
LULA - Ou o diabo! (O Major vai saindo.
Lula enche o copo com bebida.) - Velho que casa com
mulher nova, compra jornal para os outros ler!...
MAJOR - (Voltando-se) - O que foi que
você disse?...
LULA - Eu disse que mulher feia vale pôr
duas: o marido sempre tem outra! (O Major ri e sai. Lula
bebe. Sai a luz).
CENA XV -
(Na pensão).
BAIANA - (Cantando) - "Tu deixastes
que amuchasse
minhas frores
meu broqué de fantasia...
Agora,
adoras a quem te amagoa..."
HOSANA - Baiana, que dia é hoje?
BAIANA - Terça-feira.
HOSANA - Não! Estou perguntando a data...
BAIANA - (Começa a rir) - Dia 14 de
Santana!
HOSANA - Santana?! O que é isso? E está rindo
pôr que?
BAIANA - É de uma doida lá de Periquito Roxo!
Eu estava cantando como ela cantava e você perguntou a data
de hoje e eu respondi igual a ela. Os meses para ela eram
diferentes: janeiro, carnaval, malço, coresma, maio, São
João, Santana, agosto, setembro, oitubro, finados e festa!
Mas hoje é 14 de julho, mulher!
HOSANA - Faltam duas semanas... Tá longe
ainda uns compromissos que eu tenho aqui. Mas onde danado
se meteram aqueles dois?
BAIANA - Sei lá... Eu só não quero é que esse
Major bote o meu Lula no mal caminho! Aí os dois vão me
pagar!
HOSANA - Ele só fala em mulher, eu só falto
me oferecer e ele nem nota...
BAIANA - Quem?
HOSANA - O Major!
BAIANA - Mulher, ele está atrás de mulher
nova! Só tem um bicho que gosta de comer velha: onça!
HOSANA - Isola! Ele pensa que é o que? Um
broto, é? Um coroa daquele!...
BAIANA - É pôr isso mesmo! Coroa não quer
negócio com coroa! Mas me diga uma coisa: por que está
preocupada com o final do mês, com os compromissos? Faltando
alguma coisa, eu tenho um dinheirinho aqui comigo...
HOSANA - Não, Baiana! Não carece não. Só
estava pensando que se o Major me chamasse para passar um
semana lá na fazenda, eu podia ir sem problemas...
BAIANA - Tá ficando doida, mulher! O velho é
casado e com mulher nova!
HOSANA - Eu sei disso! Ia só por passear...
BAIANA - Assim pode ser. Por outro motivo
você ia perder seu tempo!
HOSANA - O que é isso, Baiana? E eu estou
assim tão desbonitada, que o Major nem olhasse um pouquinho
para o meu lado?
BAIANA - Olhe, o Major só procura mulher
nova, porque já entrou na idade do metal: prata na cabeça,
ouro nos dentes e chumbo na trouxa! E o peso deve ser tão
grande, que se um médico quiser examinar, vai pedir para ele
arregaçar a perna da calça!... (Sai a luz).
CENA XVI
- (Mesa do bar. Lula continua bebendo. O Major chega
apressado, desarrumado, procurando se recompor).
LULA - O que foi que houve, seu Major? O
senhor foi atropelado?
MAJOR - Antes fosse!
LULA - E com as meninas, foi tudo bem?
MAJOR - Coisa nenhuma! Saiu tudo errado...
LULA - Não! Não pode ser! O garçom garantiu!
Ali era coisa de primeira! Só meninas, meninas novas,
cheirando a leite...
MAJOR - Isso é verdade. Mas falta
experiência, seu Lula! Eu peguei uma menina novinha,
bonitinha, cheirosinha, dessas que levantam até peia de
cavalo capado! Pois bem: a emoção foi tão grande que eu
pelejei, pelejei e nada! Aí eu falei pra ela: "Menina, você
precisa me dá um ajudazinha..." E ela fechou logo a cara e
perguntou: "Como?" Eu respondi: "Mexendo aqui com ela, até
que chegue a animação!" Então a menina disse berrando prá
cima de mm: "Isso não! A minha obrigação é receber dura e
devolver mole!"
LULA - Danou-se! E o Major agüentou esse
desaforo todo?
MAJOR - Claro que não! Resolvi reclamar na
gerência e aí perguntei: "Qual é sua graça?" Foi então que
complicou tudo! Ela não entendeu a pergunta e foi logo se
encrespando: "Graça? Eu não estou aqui para fazer nada de
graça não! O senhor está pensando o que?" Nesse momento eu
engrossei também: "Não é nada disso, sua catraia! Deixe de
ser ignorante! Eu nunca pensei que ainda existisse, numa
cidade grande, gente tão ignorante!" Ela descontrolou-se e
abrindo a porta do quarto, começo a gritar: "Ignorante, é?
Pois bem, eu sou ignorante mas não trepo mais com o senhor!
Fora daqui! Se o senhor quiser trepar agora vá procurar quem
não é ignorante, vá trepar com o doutor Rús Barbosa!" Aí
chamou um amigo dela: "Carlão! Resolva aqui. Esse velho
brocha quer eu trepe de graça!" (Tempo) - O tal
Carlão era um cabra parrudo, dava dois de mm, aberturou-me e
me sacudiu de escada abaixo, que se eu não tivesse me
agarrado no corrimão tinha me estrepado todo!
LULA - Tá com a gota! E o Major não vai fazer
valer a sua patente não?
MAJOR - E eu posso, posso? Um homem da minha
posição política metido numa confusão de cabaré! Tava
lascado!...
LULA - Isso é mesmo!... E agora, o que vamos
fazer?
MAJOR - Você eu não sei. Eu vou tomar uma
bebida...
LULA - (Sem perder tempo) - Garçom!
Mais duas! (Sai a luz).
CENA XVII
- (Frente da Pensão. Lula e o Major, chegam
bêbados).
MAJOR - (Cantando) - "Mulher, me deixa em
paz..."
LULA - (Também cantando, repete, apenas, as
últimas palavras dos versos)- "Paz..."
MAJOR - "O que você fez comigo..."
LULA - "Comigo..."
MAJOR - "Francamente não se faz..."
LULA - "Faz..."
MAJOR - "Mulher me deixa em paz..."
LULA - "Paz..."
BAIANA - (Cortando) - Muito bonito!
LULA - Muito obrigado!
MAJOR - Obrigado também!...
HOSANA - (Querendo agradar ) - Coitado
do Major!
MAJOR - Coitado, nada! Eu estou é ótimo!
BAIANA - Mas Lula, isso é coisa que você
faça?
LULA - Eu não fiz nada! Fizemos!
MAJOR - Isso mesmo: fizemos!
LULA - Fizemos um trato e estamos
comemorando!
MAJOR - Isso mesmo: comemorando!
BAIANA - Comemorando o que, homem de Deus?
LULA - O meu novo emprego...
BAIANA - Que novo emprego que nada, Lula.
Deixa de mentira!
MAJOR - Não! É verdade! Seu Lula vai ser o
meu gerente...
BAIANA - Ih! Tá tudo é bebo mesmo! Gerente de
que, seu Major?
LULA - Vou ser gerente da fazenda do Major,
com direito à moradia, ordenado, leite, água, luz, proteção
e a um novo Boi de Reis, onde eu serei o Mateus!
MAJOR - É verdade.
LULA - E vamos viajar amanhã para a Fazenda
do Major!
MAJOR - É verdade.
BAIANA - Vamos quem?
LULA - O Major, o Padre, eu e você, minha
nega cheirosa! E você achava que poderia ir sem você? Tem
uma casa lá nos esperando!
HOSANA - Eu posso ir também, seu Major?
MAJOR - (O Major olha para Hosana, sem
entender. Tempo) - Fazer o que?
HOSANA - Passear... Só uma semana!
MAJOR - (Pensa um pouco) - Pode. Vai
ser até bom! Vai servir de testemunha no casamento!...
(Entra na pensão).
HOSANA - (Eufórica) - Dessa vez ele
cai! (Entra atrás do Major).
LULA - O que é que ela está querendo
dizer?...
BAIANA - Sei lá! Maluquice de Hosana... Mas
mudando de assunto e ficando no mesmo, que história de
casamento é essa que Hosana vai ser testemunha?
LULA - É o casamento do Major. Ele está
levando o Padre para fazer o casamento dele... Mas bico
calado, que o Padre não sabe não! Pensa que vai fazer outra
coisa!
BAIANA - E eu cheguei a pensar que era a
gente...
LULA - (Começa a gritar e pular) - Ai,
que dor na perna! Ai, que dor no braço! É ataque de coração!
(Com as mãos no peito direito) - É uma dor danada
aqui pra dentro!...
BAIANA - Deixa de frescura, Lula! O coração é
do outro lado! Bastou eu pensar que a gente ia casar pra
passar a tua cachaça! E agora tá inventando dor no coração!
Pois eu quero é casar também e você vai ter de casar
comigo!...
LULA - Agora é a cabeça! Tá esquentando!
Preciso me deitar, preciso tomar remédio... (Foge para o
interior da pensão).
BAIANA - Ah, cabra de peia! Dessa você não
escapa!... (Entra perseguindo Lula. Sai a luz).
CENA XVIII
- (Som de carro chegando, parando, pessoas falando e carro
dando partida. Luz abre na estrada, no mesmo local que o
Major tomou o ônibus. Lula, Major, Padre, Baiana e Hosana,
todos portando maletas e objetos pessoais).
MAJOR - Vamos ter de caminhar até à fazenda,
porque eu não pude avisar da nossa chegada.
PADRE - Uma boa caminhada sempre é bom para a
saúde...
LULA - E para o bolso também... Não é Padre?
PADRE - Não sei do que o senhor está falando.
MAJOR - Mas vamos indo, que até lá dá mais de
um quilômetro de chão! Vamos andando, dona Hosana?
HOSANA - Eu, Major? Estou com medo de
atravessar essa matagal com o senhor junto...
MAJOR - Tá com medo de que, criatura?
HOSANA - De que o senhor queira se agarrar
comigo!
MAJOR - Vote! Eu, dona Hosana?! Não tá vendo
que eu não vou fazer um negócio desse com a senhora? Logo a
senhora que vai ser testemunha do casamento...
PADRE - Que casamento?
MAJOR - Sobre isso a gente conversa quando
chegar em casa. Mas dona Hosana, essa idéia nunca passou
pela minha cabeça...
HOSANA - Nunca se sabe! Essas coisas
acontecem assim, quando menos se espera... E se isso
acontecesse, eu não poderia fazer nada! Tinha que aceitar
tudo! Eu sou contra qualquer tipo de violência, não iria
reagir...
BAIANA - Eita coceira danada! É das brabas!
LULA - Tá cantando mais do que uma sabiá!
BAIANA - Essa alma quer reza!
PADRE - Meu Deus, onde eu vim me meter!
Major, vamos embora de uma vez!
MAJOR - É só descer o barranco e seguir a
trilha, seu Padre ! Não tem errada! (O Padre se
benze e sai) - Quanto a senhora, dona Hosana, pode ficar
tranqüila, que não vai acontecer nada. E nem podia! Com essa
mala na mão, com esse pacote na outra mão, com o capote no
ombro e mais esse guarda-chuva no braço, como é que eu vou
poder agarrar alguém? E mais esse sol danado de quente!...
HOSANA - Sei lá! Do jeito que homem é um
bicho astucioso, o senhor pode muito bem arriar a mala,
botar o pacote em cima dela, abrir o guarda-chuva para
amparar o sol, estirar o capote debaixo dele e me agarrar em
cima!
MAJOR - Mas eu juro que não vou fazer nada
disso!
HOSANA - (Decepcionada) - Está bem, eu
acredito. (À parte) - Burro!
MAJOR - Como?!
HOSANA - Come não! O senhor não come é nada!
Mas vamos indo que está ficando tarde... (O Major sai.
Dirigindo-se a Lula e Baiana) - Mas antes da minha volta
eu ainda pego ele!... (Sai).
LULA - Está desesperada! A tua amiga tá
subindo em parede de costas!
BAIANA - Agora, seu Lula, nós dois... Como é
que ficamos?
LULA - Não ficamos. Vamos embora também...
BAIANA - Não se faça de doido! Quero saber do
nosso casamento!
LULA - Ai, Baiana! Quer me matar, é? Já está
dando uma tremedeira...
BAIANA - Pois com tremedeira ou sem
tremedeira, se não houver casamento você segue sozinho!
Daqui mesmo eu volto para Periquito Roxo!
LULA - Mulher ingrata! Sabe que eu não posso
viver sem você e me encosta a faca no pescoço...
BAIANA - Então? Casa ou não casa?
LULA - Cruel!
BAIANA - E tem que ser do mesmo jeito do
casamento do Major!
LULA - Não caso! (Outro tom) - Espere!
Casamento igual ao do Major?
BAIANA - Sim!
LULA - Eu topo!
BAIANA - Topa?!
LULA - Na hora!
BAIANA - (Abraçando-se com Lula) -
Lula, meu amor safado! Eu sabia que você não ia me faltar!
(Outro tom) - Mas me diga uma coisa: pôr que essa
mudança assim tão de repente? Esmola grande, a ceguinha aqui
desconfia! Vamos, diga logo qual é a sacanagem...
LULA - Não, não tem sacanagem... Eu é que...
Bem, eu estava querendo fazer uma surpresa! Agora não é
mais... Tinha pensado nisso antes: vou me casar com a minha
nega cheirosa, do mesmo jeito que o Major se casar! Só vou
dizer na hora. Mas você me obrigou revelar a surpresa!
BAIANA - Oh, meu amor! Desculpe!
LULA - Já está desculpada, "linda imagem de
mulher que me seduz"! Vamos ao nosso casamento!
BAIANA - Vamos! Ao casamento dos meus sonhos!
(Sai a luz).
CENA XIX
– (Fazenda do Major. A luz entra com um tiroteio. O Major,
de revólver na mão, atirando em todas as direções. Uma
correria geral, com gente fugindo para todos os lados).
MAJOR – Onde está essa desgraçada? Vou
matá-la e enfiar os meus chifres no rabo dela! Ah, se vou!
Com o Major Felinto Rodrigues ninguém faz uma desfeita dessa
não! Vou acabar com a existência dela! Onde se meteu essa
catraia? Onde está você, puta safada?! Não adianta se
esconder! Eu lhe encontro antes do pôr do Sol, eu garanto!
LULA – Calma, Major! Vamos resolver tudo na
calma!
MAJOR – Calma porra nenhuma! Onde está ela?
Vamos, diga!
LULA – E eu lá sei! O senhor atirando para
todos os lados eu tive foi que me esconder!
BAIANA – Seu Major, o senhor precisa se
acalmar!
MAJOR – Onde está ela, Baiana? Diga de uma
vez!
BAIANA – Como eu vou saber? Estava toda
mijada de medo! Tive que trocar as roupas de baixo! Olhe,
seu Major: acho que sua mulher escafedeu-se!
MAJOR – Ah, não! Essa miserável está nas
minha terras mesmo! Não tem como fugir! Ela não conhece nada
disso aqui! Vou achá-la e acabar com a sua safadeza! (Sai
atirando para todos os lados. Lula e Baiana jogam-se no
chão. Tempo. O Padre entra de quatro pés).
PADRE – Ai minha Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro! Onde eu vim me meter? Eu juro que se escapar dessa,
nunca mais saio da minha paróquia para nada! Juro!
LULA – (Levantando-se ) – Seu Padre?
Onde o senhor se enfiou?
PADRE – (Apavorado) – Não me mate seu
Major! Não me mate pelo amor de Deus!
BAIANA – Que Major que nada, seu Padre! Deixe
de tremedeira! O Major quer matar é a mulher dele!
LULA – Mas do jeito que ele estava atirando
poderia acertar em qualquer um!
BAIANA – Como? O homem estava atirando para
cima, bando de frouxos!
LULA – E pôr que essa brabeza toda agora? Faz
pouco tempo que estava toda mijada!
BAIANA – Foi de susto! Não foi de medo não!
PADRE – É castigo! Eu não devia ter vindo
fazer coisa errada aqui...
BAIANA – Que coisa errada, seu Padre
LULA - Nada! Não é da tua conta, Baiana!
Deixa o Padre em paz. O problema dele é com o Major.
PADRE – Aquela infeliz tinha nada que trair o
Major! Um homem tão bom! Tão generoso! E logo com o capataz,
o empregado de confiança do Major!
BAIANA – Também o Major volta prá casa de
repente, sem avisar!
LULA – Eu sou muito azarado mesmo. Quando eu
consigo um emprego que preste, acontece um negócio desse! O
que é que vai ser de mm agora?
PADRE – E o meu dinheirinho! Não tem mais
casamento, não tem dinheiro!
BAIANA – E o meu casamento? Ah, seu Padre, o
senhor vai ter de nos casar !
LULA – Está doida, Baiana? Do jeito que está
o Major, se o padre falar em casamento aqui eu não dou nada
pela vida dele!
BAIANA – Então a gente não vai mais casar,
é?
LULA – Vai, Baiana! Qualquer dia desse a
gente vai lá na capital e o padre nos casa. Não é, seu
Padre?
PADRE – Até amanhã, se quiser...
LULA – Também não precisa exagerar, seu
Padre!
PADRE – E o meu dinheirinho? O dinheiro para
as minhas obras sociais? Como é que vai ficar?
BAIANA – Gente! E Hosana? Que fim levou a
minha amiga?
LULA – Será que algum tiro pegou nela?
MAJOR – (Entrando acompanhado de Hosana)
- Está tudo resolvido agora...
PADRE – O que o senhor fez com a sua mulher,
seu Major?
MAJOR – Nada! Nem vou fazer mais nada! Do
jeito que os dois fugiram vão acabar morrendo de fome pelas
estradas afora. Depois, a minha amiga Hosana aqui andou me
aconselhando... A gente terminou se acertando! Vou vender
esta porcaria de fazenda, vou me juntar com ela e vamos
viajar pelo mundo, sem dia para voltar. Vamos aproveitar o
resto das nossas vidas!
PADRE – E porque não casam antes?
MAJOR – Não precisa, seu Padre, esqueça
casamento. Hosana não faz questão nenhuma! Também o senhor
ia fazer um casamento de mentira, só para enganar a safada
daquela mulher...
BAIANA – O que?! Quer dizer que o casamento
que o padre ia fazer era de mentira? Só para enganar?
(Voltando-se para Lula, ameaçadora) – Então foi pôr isso
que você aceitou?
LULA – Calma, Baiana! Eu explico! Com o Major
ia ser assim... Mas... Mas...
BAIANA – Que mas, mas, que nada! Você ia me
enganar, não era? Mas você vai me pagar! (Parte para
agredir Lula, que foge perseguido por ela).
PADRE – E como é que eu fico nisso tudo?
Estou acabado! Sem dinheiro...
MAJOR – Pôr isso não, seu Padre!
(Dando-lhe uma cédula de dez reais) – Tome aí. É só ir
até a estrada e pegar o ônibus de volta! Agora com licença
que nós temos mais o que fazer.
HOSANA – Sua benção, seu Padre! (Sai em
companhia do Major).
PADRE – (Ficando sozinho) - Eu como
padre sou mesmo um desastre! Não consigo arranjar nada para
as minhas obras sociais...
LULA - (Lula passa correndo, perseguido
pôr Baiana, que bate-lhe com um cabo de vassoura) -
Espere, Baiana! Tenha calma! Eu explico!
BAIANA – Explica coisa nenhuma! Você me paga,
seu cafajeste!
HOSANA - (Hosana passa correndo,
perseguida pelo Major, tentando alcançá-la) – Calma, seu
Major! Deixe para mais tarde...
MAJOR – Que mais tarde que nada! Eu quero é
agora! Estou numa secura desgraçada...( Os quatro
permanecem correndo, com o padre sentado no meio da cena,
falando das suas obras sociais, enquanto a luz vai caindo.
Pano.)
Nota:
O presente texto teatral buscou a fonte dos causos populares
nordestinos, principalmente os relatados nos livros
publicados pelo poeta José Cavalcanti. Também aproveitou as
presepadas de "Baiana", (DESAPARECIDA HÁ MAIS DE DEZ ANOS)
empregada doméstica da professora Nazareth Xavier. e mais,
naturalmente, as invenções do autor
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