|
AS
ARTIMANHAS DE
LULA SABÃO
&
AS
PRESEPADAS DE
BAIANA
Teatro
- 1998 - Elpídio Navarro
PERSONAGENS: LULA
BAIANA
MAJOR
PADRE
HOSANA
MOTORISTA
FREIRA
CABO
MULHER
MÉDICO
PASSAGEIROS
I, II, II e IV.
CENA I
(Num foco, Lula Sabão canta, em aboio, a Ressurreição do
Boi. Noutro foco, os outros personagens fazem um coro
coreografado, como num programa de auditório):
LULA – “Levanta meu boi
Não queira morrer (bis)
Que o dono da casa, ó
vizinha
Quer comprar você (bis).
Levanta meu boi
Bem devagarinho (bis)
Sou Capitão Mateus, ó
vizinha
Vim lhe dar carinho (bis)
A mulher do meu patrão
É muito calorosa (bis)
Ela é muito bonita, ó
vizinha
Ela é bem cheirosa (bis).
Ó cachaça amiga
Tu vens do canavial (bis)
Levantas defunto, ó vizinha
Levantas este... “(Lula
pára de aboiar).
CORO – Rima seu Lula Sabão!
LULA – E vocês estão aí?
CORO – Sim! Estamos!
LULA – Rimar? Na hora da Ressurreição do Boi?
CORO – Sim!... Sim!... Sim!...
LULA – (Desconfiado) – Não é o que
vocês estão pensando não!
CORO – (Mostrando uma garrafa de cachaça e
dinheiro) – É prá você, se fizer uns versinhos contra o
dono da casa!
LULA – Quer dizer que esta cachaça e esse
dinheiro eu ganho se esculhambar o dono da casa?
CORO – Sim!
LULA – Aceito e faço bem feito! Não é de
graça que o meu nome é Lula Sabão, o melhor “Mateus” da
região.
CORO - Lula Sabão! Lula Sabão! Lula Sabão!
LULA - O melhor "Mateus" da região! Vamos ao
nosso Boi de Reis?
CORO - Sim! Sim! Sim!...
LULA – (Aboiando) – “ O meu boi morreu
Que
será de mim? (bis)
Mando buscar outro, ó meu Deus
Prá
não sofrer assim (bis).
Levanta meu boi
Bem
devagarinho (bis)
Para
receber, ó meu Deus
Os
belos carinhos (bis).”
CORO – Oh!... Capitão Mateus, como é que é?
Sai ou não sai os versinhos?
LULA – “Levanta-te boi sacana! (O "Boi"
estremece)
Balança os culhões e vem.
(O "Boi" levanta-se e balança o traseiro)
O dono da casa é corno!
E o delegado também.” (Um
momento de expectativa. De repente, tiros, gritaria,
correria geral e ameaças a Lula, que foge, gritando) –
Não sabia que todo mundo era corno por aqui! ( Sai a luz.
Tempo. Num foco, Lula e Baiana).
BAIANA - Tome cá esse endereço e a sua maleta
que eu arrumei como pude. Também botei um lanche para você
comer na viagem. Agora fuja para a capital. Sua vida aqui
na cidade não vale mais do que o que o gato enterra! O
endereço é da pensão de uma amiga minha. Basta dizer que é
meu amigo que você será bem recebido. Mas não vá abusar...
LULA - Santo Antônio de Pau Grande que te
proteja!
BAIANA - Quem me dera! Quem me dera!
LULA - Muito obrigado, Baiana! Agora vou ter
que sair correndo porque se eles me pegam!...
BAIANA - Também!... Precisava chamar todo
mundo de corno?!...
LULA - E eu menti, menti?
BAIANA - Exatamente por isso é que ficaram
tão furiosos!
LULA - E é também exatamente por isso que eu
vou caindo fora! Adeus Baiana!
BAIANA - Adeus não, Lula Sabão safado! Daqui
prá amanhã chego por lá! também... (Sai O foco).
CENA II
- (Beira da estrada. Lula, sentado numa pedra, olha numa
direção, procurando avistar alguma coisa. O Padre entra).
PADRE - Bom dia!
LULA - (Voltando-se e levantando-se) - Bom
dia, seu Padre!
PADRE - O ônibus para a capital passa por
aqui?
LULA - Até ontem passava!
PADRE - Por que até ontem? Não passa mais?
LULA - Não sei, seu Padre. Espero que sim.
Mas do jeito que eu ando azarado pode até ser que ele tenha
mudado o rumo!
PADRE - Bobagem, filho! Não existe isso não!
Tudo que acontece é por vontade de Deus. Ele determina
tudo...
LULA - Seu Padre, até à noite de ontem eu
era o melhor artista lá de Periquito Roxo. Toda a cidade
gostava de mim, todos não paravam de elogiar o melhor
"Mateus" de Boi de Reis que já apareceu por lá. Hoje, se os
homens ou as mulheres de Periquito Roxo me pegarem, eu estou
frito! Isso foi vontade de Deus, Padre?
PADRE - Existe o livre arbítrio! Mas que ato
tão terrível você praticou, meu filho?
LULA - É uma história complicada, seu Padre,
que eu prefiro não falar mais nela. E tudo por causa de Cem
Reais e uma garrafa de cachaça!
PADRE - A bebida só nos traz o mal, filho!
LULA - O senhor tem razão. Mas na hora!...
(Outro tom) - Padre, sente aqui. É melhor do que ficar em
pé, debaixo de sol danado...
PADRE - Filho! O sol é uma dádiva de Deus!
LULA - Desculpe, Padre! Foi sem querer...
PADRE - (Sentando na pedra) Como é seu nome,
filho?
LULA - Luiz Alberto Rego, seu criado. No Boi
de Reis eu era conhecido como Lula Sabão, o melhor "Mateus"
da região! Mas pode me chamar de Lula mesmo...
PADRE - Sabão?! Sabão por que?
LULA - Ih!... Não pense que é porque...
PADRE - Eu não estou pensando em nada, Lula.
Estou perguntando!
LULA - Certo... Foi uma cachaça, das grandes,
que eu tomei. Era o meu aniversário. Eu estava tão bêbado
que confundi um pedaço de sabão com um bolinho de carne de
sol e, quando dei fé, cuspi o sabão fora, meti um copo
d'água na boca para lavar por dentro e fiquei espumando bem
uns dez minutos... Aí botaram esse apelido em mim! Agora,
toda vez que vou comer um tira gosto, primeiro passo a
língua para sentir se não é sabão!
PADRE - A bebida! Sempre a bebida!
LULA - E o senhor, Padre? O que está fazendo
por essas bandas? Perdido?
PADRE - Quase isso! Quase isso! (Tempo. Lula
fica esperando a resposta) - Eu ia para a capital mas fui
tirado do ônibus às pressas, hoje cedo, para atender ao
chamado de uma pessoa que estava precisando de Extrema
Unção...
LULA - (Cortando) - E foi o próprio candidato
que chamou?
PADRE - (Surpreso) - Que candidato?!
LULA - O candidato a defunto! Quem precisa de
Extrema Unção não é quase defunto? O senhor disse que foi
atender ao chamado de uma pessoa que estava precisando de
Extrema Unção!...
PADRE - (Sério) - Já vi que você quer é
brincar comigo, não é Lula?
LULA - Longe disso, seu Padre. Eu só quero
entender direito as coisas...
PADRE - (Um pouco exaltado) - Foi a família
que chamou!
LULA - Todos juntos, de uma vez só?
PADRE - Como?!
LULA - Nada, seu Padre. Eu só estava pensando
alto... Mas, o senhor estava dizendo...
PADRE - Bem, deram sinal para o ônibus parar
e quando me viram desistiram da viagem, pois iam buscar um
padre numa cidade perto daqui...
LULA - Se era o padre de Periquito Roxo, foi
até melhor não ir buscar mesmo, pois ele está passando por
um problema muito sério!
PADRE - Que problema?
LULA - Pegou uma beata botando chifres nele
com o sacristão!
PADRE - Que história é essa, seu Lula?! Que
absurdo! Que falta de respeito!
LULA - Tá que é uma lástima! Abatido,
inconformado... Botou até o sacristão para fora da Igreja!
Se o senhor não acredita, é só passar por lá. Toda a cidade
sabe da história...
PADRE - Não só não acredito, como também não
me interessa saber dessa história!
LULA - Então vamos voltar ao defunto, quero
dizer, ao candidato...
PADRE - (Tempo. Resmunga e fala) - Quando
me viram dentro do ônibus apelaram para que eu os atendesse.
Eram pai e filho. Marido e filho da defunta, quero dizer, da
doente que estava precisando de Extrema Unção. Eram
fazendeiros ricos e prometeram que mandariam me levar de
carro até à capital, além de oferecerem uma ajuda em
dinheiro para as nossas obras de caridade...
LULA - (À parte) - Essa deve ter sido a
melhor parte...
PADRE - Como?!
LULA - Nada, seu Padre... Estou dizendo que
existe gente caridosa em toda parte!
PADRE - Nem sempre, Lula! Nem sempre! (Tempo.
Outro tom) - Pois bem, eu fui atender ao chamado. Quando
chegamos eu notei logo que a velha estava mais pra lá do que
pra cá. Então corri a me paramentar para começar logo a
Extrema Unção, mas quando eu comecei a levantar a mão para
fazer o Sinal da Cruz, a velha começou a tremer em cima da
cama, revirar os olhos e deu uns dois pulos e caiu pronta
!
LULA - Deu a gota! Quer dizer que não deu
tempo?...
PADRE - Prá nada! O jeito foi encomendar o
corpo, ali mesmo, na hora!
LULA - Oi! E não iam mandar o senhor de
carro?
PADRE - É, mas com a morte da velha, o carro
foi avisar aos parentes que moravam noutras fazendas das
redondezas e depois iam buscar o caixão, essas coisas todas
de um velório. Só poderiam me dar o carro depois do enterro.
Aí eu preferi vir para cá e esperar a passagem do ônibus.
LULA - E a grana?
PADRE - Que grana?!
LULA - A ajuda que prometeram para as obras
de caridade?
PADRE - No alvoroço que todo mundo ficou com
a morte da velha, terminou eu nem me lembrando disso!
LULA - Uma perda irreparável!
PADRE - E você conhecia a defunta, Lula?
LULA - Eu não!
PADRE - E por que uma perda irreparável?
LULA - Eu estava falando da grana, Padre!
Agora as coisas ficaram mais difíceis para mim...
PADRE - Essa é boa! E quem lhe disse que esse
dinheiro seria de algum proveito para você?
LULA - Não era para caridade, Padre? Lá na
capital? Pois bem, eu estou indo para lá e do jeito que está
a minha situação eu vou precisar de muita caridade!...
PADRE - Era só o que me faltava!... (Ouve-se
uma buzina).
LULA - (Aponta para fora de cena) - O ônibus
vem vindo, Padre!
PADRE - Graças a Deus! (Sai a luz).
CENA III
- (Interior de um ônibus em movimento. Lula Sabão, o Padre,
o motorista e outros passageiros).
PADRE - (Orando em voz baixa) - Pai
nosso, que Estás no Céu, santificado seja o Vosso nome...
(etc.).
LULA - (Também em voz baixa) - Padre,
pare com essa ladainha! Ninguém tá morrendo aqui...
PADRE - Cale-se, seu Lula Sabão! Mais
respeito comigo. Eu sou uma Ministro de Deus e como tal,
tenho por obrigação fazer as minhas orações!
LULA - O senhor não podia fazer só para o
senhor mesmo? Quero dizer, só no seu pensamento? Já tá todo
mundo olhando pra gente! Esse povo da roça é supersticioso!
Ninguém vai em romaria!...
PADRE - (Olha em volta e nota os olhares
de todos. Pergunta aos passageiros) Meus irmãos, as
minhas orações incomodam? (Ninguém responde. Volta-se
para Lula) - Quem cala, consente!
LULA - Ou tem medo de falar!... (O Padre
volta a rezar, dessa vez sem emitir sons. Tempo. Lula começa
a cantar) - "Tê pressa não é preciso.
É preciso ter bom trato:
Tê uma mulher carinhosa,
Dá uma mijada gostosa
E uma cagada no mato."
(Risos dos passageiros. O Padre levanta-se. Todos param
de rir).
PADRE - Já lhe disse para me respeitar, seu
Lula!
LULA - E eu lá faltei com respeito, seu
Padre? Esse versinho, sempre que eu cantava nas
apresentações do "Boi" de Periquito Roxo, todo mundo ria e
ninguém reclamava não. Até o Padre corno de lá achava graça!
PADRE - Não me interessa o padre de Periquito
Roxo nem o que ele carrega na testa! Estou fazendo as minhas
orações e exijo respeito!
LULA - Tá bem, seu Padre. Vou ficar calado.
Só pensando... (Tempo).
PADRE - (Observando Lula que está de
cabeça baixa e sério) - Também rezando, seu Lula?
LULA - Não Padre, só pensando...
PADRE - Pensando em que?...
LULA - Em mulher...
PADRE - Em que?!
LULA - Mulher, seu Padre! Mulher! Já faz dois
dias que nenhuma encosta em mim. A única saia que chegou
perto foi a sua! Mas essa aí não vale não...
PADRE - É muito atrevimento da sua parte! Eu
aqui, fazendo as minhas orações e o senhor me vem falar de
mulher!
LULA - E o que é que tem? O senhor pode até
não gostar, mas eu não passo sem elas. E não sou eu só não!
O padre de Periquito Roxo...
PADRE - (Gritando) - Chega! (O
ônibus para e o motorista pergunta).
MOTORISTA - Algum "pobrema" aí, seu Padre?
PADRE - Não, meu amigo. Tudo em paz. Pode
seguir. (O ônibus volta a seguir viagem).
LULA – Ah, quanta falta me faz a minha
Baiana! Aquilo é que é mulher! Sempre disposta a resolver
tudo... Para ela não existe tempo ruim. Sempre me diz: deve
existir alguém em situação pior do que a nossa! Ainda lembro
quando foi para o prefeito contratar o Mateus para o “Boi”:
tinha outro interessado; aí Baiana falou lá na difusora de
Periquito Roxo que eu já estava perdido porque o outro tinha
dito que era gente forte na política; o prefeito, que era
vaidoso, que não admitia imposição, quando soube da história
resolveu contratar a mm! Pura artimanha de Baiana, entendeu
Padre?
PADRE – Entendeu o que?
LULA – O que eu acabei de lhe contar!
PADRE – E eu sei lá o que o senhor estava me
contando. Ouvi o senhor com uma ladainha aí, mas eu não sei
o que foi. Estava ocupado com as minhas orações...
LULA – Ladainha?! É mesmo negócio de padre...
(Nesse momento ouve-se risos e comentários pôr parte dos
outros passageiros).
PASSAGEIRO I - Balançaram a roseira!
PASSAGEIRO II - E foi uma roseira enorme!
PASSAGEIRO III - Comeram urubu sem tirar o
fato!
PASSAGEIRO IV - Todo mundo cheirando para
acabar logo!
PASSAGEIRO II - Eu compro o frasco!
PASSAGEIRO I - Esse cheiro é de preá com
melancia!
PASSAGEIRO IV - Não será fruta-pão com bofe?!
PASSAGEIRO III - To bêbado ainda! (Uma
moça que vai no ônibus começa a chorar. Lula levanta-se em
defesa dela).
LULA - Isso é feio! Não sei como é que se tem
coragem de fazer uma coisa dessa com uma pessoa! E mais com
uma moça, coitada, que, por descuido, soltou um peidinho...
(Todos riem. Lula altera a voz) - Estou falando
sério, seus mal educados!
PASSAGEIRO I - Cala a boca, baba ovo de
padre!
PASSAGEIRO II - Só porque está junto de um
padre tá metido a santo!
PASSAGEIRO III - Calma, santinho!
LULA - Mas não sou tão santinho para comer a
cadela da tua mãe, seu corno sem rabo!
PASSAGEIRO VI - Oi! E corno tem rabo?...
LULA - Então nesse daí não falta nada,
porque os chifres eu já estou vendo!
PASSAGEIRO III - E você? Além de baba ovo de
padre é defensor de peidona!
LULA - Ô, seu veado do rabo murcho, um peido
é a coisa mais natural do mundo! Quem é que tendo fundo
nunca soltou um peido? Vamos, diga! Até o padre...
PADRE - (Que até aquele momento permanecia
rezando. Cortando) - Epa! Não me meta nessa
esculhambação! (Risadagem geral, gritos, protestos).
MOTORISTA - (Dirigindo-se a Lula) - Ei!
Você aí. Pare com esse discurso. Está criando confusão
dentro do ônibus!
LULA - Não paro. Eu vou é continuar...
MOTORISTA - (Cortando) - Se continuar,
desce. Não segue viagem.
LULA - E quem é homem aqui para me obrigar a
descer? (Mais vaias e reclamações).
PASSAGEIROS - Fora! Fora! Fora!...
PASSAGEIRO IV - Se o motorista não é homem
bastante prá botar esse safado prá fora, a gente mesmo faz
isso!
MOTORISTA - (Levanta-se a agarrando Lula
pelo pescoço, arrasta ele pra fora do ônibus) - Fora,
seu porra! (Lula cai deitado e fica imóvel. O motorista
joga a maleta em cima dele e volta para a sua cadeira).
PADRE - Espere! Não pode deixar o homem
estirado na beira da estrada. Ele pode estar ferido, pode
até estar morto! Temos que prestar socorro! Espere! Eu vou
lá examinar! (Salta do ônibus e vai examinar Lula. O
ônibus dá saída e deixa o padre também, sob vaias e risos
dos passageiros). Espere! Não pode me deixar... (O
ônibus segue viagem. O padre desesperado não contem-se)
- Filho da puta!... (Põe a mão na boca, cai ajoelhado,
pedindo perdão pelo palavrão).
CENA IV - (Noite. O Padre e Lula estão
sentados à beira da estrada).
PADRE - A essa hora o ônibus já deve ter
chegado, e eu aqui, no meio do caminho, com fome, tudo pôr
causa de um desordeiro...
LULA - Pôr minha causa não, pôr causa de um
peido! E o senhor está aqui por que quis. Ninguém lhe mandou
descer do ônibus!
PADRE - Além de tudo, mal agradecido! Eu
devia era ter deixado você estirado no meio da estrada,
entregue ao seu destino, que deve ser um encontro com
Satanás!
LULA - Eu não pedi pra me acudir! Eu estava
só fingindo um desmaio com medo de levar uma surra! Aquele
motorista, junto com aqueles bagunceiros, podiam fazer de mm
Judas em Sábado de Aleluia, e até o senhor, devido à sua
profissão, era capaz de ajudar...
PADRE - É um ingrato mesmo! Deus há de tá
vendo quanto sofre um servo Seu, para poder fazer o bem. O
mundo está perdido e eu estou com uma fome dos diabos!
(Batendo na boca) - Deus que me perdoe a blasfêmia!...
LULA - Padre, o melhor é o senhor se
conformar. Pelo que eu sei, outro ônibus só amanhã de manhã.
E ninguém, mesmo se passar pôr aqui, o que eu acho muito
difícil, dá carona a essa hora da noite. O melhor é tentar
dormir um pouco prá amanhecer o dia mais depressa...
PADRE - E eu lá consigo dormir com a barriga
roncando do jeito que está!
LULA - O Padre gosta de jerimum?
PADRE - (Levantando-se de um pulo) -
Tem? Onde?
LULA - Tem não! É que eu me lembrei de um pé
de jerimum que tinha lá no sítio do meu avô. (O Padre,
desolado, volta a sentar-se. Lula levanta-se e caminhando de
um lado para outro, começa a contar) - Era enorme!
Cobria um terreno que ia daqui até o pé daquele serra lá
daquele lado... Era tão viçoso que chegava a botar um
jerimum em cada pé de folha. Botava tanto jerimum que
parecia um pé de coco deitado! Durou mais de vinte anos!
PADRE - Quantos anos?! Olhe, seu Lula, mentir
também é pecado!
LULA - Não é mentira não, seu Padre! Mas meu
avô teve que cortar o bichinho...
PADRE - Que bichinho?
LULA - O pé de jerimum!
PADRE - Cristo, dá-me paciência! Pé de
jerimum é bichinho! E cortou por que, seu Lula?
LULA - Porque ele começou a caducar...
PADRE - Caducar?!
LULA - Sim! Caducar. Além de jerimum, deu prá
botar também melão, melancia, cabaça e até maxixe!
PADRE - Lá vem você com as suas histórias
novamente. Eu aqui com as tripas querendo dar nó e você
falando em melancia, melão...
LULA - Ah, Padre! Agora me lembrei. Uma amiga
minha disse que botou na maleta um lanche... (Pega a
maleta) - Vou ver o que é que tem... (O Padre fica
todo animado. Lula abre a maleta, examina e pergunta ao
Padre) - O senhor gosta de pipoca?
PADRE - (Alvoroçado, levanta-se) -
Adoro!
LULA - Se tivesse milho estava tudo
resolvido: achei uma caixa de fósforo! Era só fazer um
fogo...
PADRE - E não tem outra coisa não?
LULA - Não, seu Padre. Acho que ela
esqueceu... (O Padre volta a sentar-se, depois deita-se
e a luz sai em resistência. Tempo. A luz volta a entrar em
resistência. O dia amanhece. Lula procura acordar o Padre)
- Seu Padre! Seu Padre! Já é dia! O ônibus deve passar logo
mais. Vamos, acorde!
PADRE - (Acordando) - Ai, eu estava
sonhando! Eu estava sonhando com uma peixada e você vem me
acordar! Isso é lá hora de me acordar, seu Lula?
LULA - É que eu tenho uma confissão para lhe
fazer. Eu menti ontem à noite...
PADRE - Mentiu? Como?
LULA - Tinha comida na minha maleta. Um
sanduíche de mortadela...
PADRE - Tinha? E não tem mais?
LULA - Tem. (Abre a maleta e pega o
sanduíche) - Tome. É todo seu!
PADRE - Você não quer nem um pedacinho?
LULA - Precisa não. O senhor está com mais
fome do que eu, pode comer todo. Eu tomei um pouco d'água,
dá prá agüentar até o ônibus chegar.
PADRE - Sendo assim... Espere! Água? Onde
você arranjou água nesse deserto?
LULA - Foi quando o senhor deitou-se. Deixou
cair um vidrinho do seu bolso.
PADRE - Sacrilégio! Aquela água era benta,
seu Lula!
LULA - E eu lá sabia disso, sabia? O gosto
era de água mesmo!
PADRE - Esse foi um pecado grave, seu Lula!
LULA - Que nada, seu Padre. E bebi sem saber,
Deus há de perdoar. Não foi Ele que disse para dar de beber
a quem tem sede?... O senhor fez isso! E eu também estou
dando de comer a quem tem fome! Coma o sanduíche logo, antes
que eu me arrependa. Esse aí eu garanto que não está bento!
PADRE - Pra você não tem jeito não... Seja
lá o que Deus quiser! (Começa a comer o sanduíche. Voz
fora de cena).
VOZ - Pode voltar daqui. Fica ruim para os
animais subirem o barranco da estrada. Não se esqueça de
dar banho neles quando chegar na fazenda.
LULA - Vem vindo gente aí. (O Padre
apressa-se em terminar de comer o sanduíche).
MAJOR - (Tem setenta anos. Bem conservado
e bonachão. Traz um pequena maleta e um pedaço de cipó na
outra mão. Entra.) - Bom dia! (Ao perceber a presença
de um padre) - Bom dia, Padre!
PADRE - (Com a boca cheia de sanduíche,
tentando disfarçar) - Bom dia!... (Engasga-se ao
falar e afasta-se para um lado).
MAJOR - Pelo visto, o ônibus ainda não
passou, não foi? Os senhores ainda estão aqui...
LULA - Desde ontem. Perdemos o ônibus de
ontem à tarde e o jeito foi ficar esperando o de hoje de
manhã.
MAJOR - Ora, podiam ter passado a noite lá em
casa. Essas terras aqui são minhas e a sede da fazenda não é
tão longe assim.
LULA - A gente não conhece a região.
MAJOR - E como vocês vieram parar aqui?
LULA - É uma história tão complicada, seu...
seu...
MAJOR - Ah, desculpe não ter me
apresentado. Sou o Major Felinto Rodrigues, às suas ordens!
Mas pode me chamar somente de Major, que é como todo mundo
me conhece. Ainda não ouviu falar da Fazenda do Major?
LULA - Como eu lhe disse, não conheço essas
redondezas. Estamos aqui por um acaso... O Padre não quer
nem ouvir falar dessa história!
MAJOR - O que é que ele tem? Afastou-se
quando eu cheguei.
LULA - Deve tá entalado! Estava com tanta
fome que botou um sanduíche de mortadela inteirinho na boca
e foi falar de boca cheia! Entalou! (O Padre sai de
cena).
MAJOR - Mortadela?! Virgem Maria! É um
veneno! Comi um pedaço dessa danada ontem no jantar e passei
a noite indo ao banheiro. No caminho até aqui, ainda parei
duas vezes para ir ao mato.
LULA - Danou-se! Pôr causa de um peido que
nem fui eu quem deu, botaram-me pra fora do ônibus. Imagine
se o senhor der uma cagada dentro dele! Ouviu isso, Padre?
(Não vendo o Padre) - Padre! Onde danado ele se
meteu?
MAJOR - Ele saiu ali pra traz daqueles matos.
LULA - Pronto! Agora é o mundo todo!
(Ouve-se o Padre gemendo).
MAJOR - Parece que é das brabas! (Novos
gemidos e urros) - E o caso aí é ao contrário: ele está
é entupido!
LULA - Será mesmo?
MAJOR - Tenho certeza! Isso aí eu conheço
muito bem! O meu filho mais velho ficou assim. Entupido
que dava gosto ver! Passou quatro dias que não saia nada! E
olha que só de mamão comeu um bocado, tomou chá de tudo que
é coisa e nada! Comeu cocada quente e não deu jeito. Então
levei para o médico, que mandou dar um purgante de óleo de
rícino e uma lata de ameixa em conserva, e mais uma lavagem
de água de rabo a dentro!
LULA - Aí resolveu?
MAJOR - Passou a noite em claro: da rede para
o pinico.
LULA - Então fez efeito?
MAJOR - Que nada! Muito peido e merda nem um
tico!
LULA - E aí?
MAJOR - Aí eu dei um jeito. Peguei o danado
nu e prendi ele com a bunda exposta, na traseira de uma
jumenta no cio, amarrada dentro do cercado. Aí soltei um
jumento reprodutor que eu tenho lá. Quando o menino viu o
tal jumento vindo na sua direção, com aquele pedaço de coisa
preta da cabeça do tamanho de um pires, não teve jeito:
cagou-se de medo!
LULA - E o jumento?
MAJOR - Fugiu apavorado com a catinga da
merda!
LULA - E que idade tem seu filho, Major?
MAJOR - Já está um homem feito. Tanto que vou
botá-lo na política.
LULA - E ele leva jeito?
MAJOR - Até demais! Ora se leva! É
preguiçoso, mentiroso e tapeador. Só dá mesmo prá ser
político!
LULA - (Rindo) - Gostei! Gostei da sua
sabedoria! O senhor agora me lembrou uns versinhos que diz
assim: (Cantando)-
"Um doido de Matureia
Mexia numa latinha
Merda fresca de galinha
Na calçada da Assembléia:
- O que é que está fazendo
Nessa latinha mexendo?
Perguntou um parlamentar.
- Um vereador safado.
Só não faço um deputado,
Porque
a bosta não dá!..." (Riem).
MAJOR - Então o meu filho, com aquela merda
toda que juntou na barriga, dava prá fazer, facilmente, um
senador! (Riem) - E o Padre, seu ?...
|