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Bráulio Tavares


Quem é bom de memória

 


Circula por emails uma “corrente” de campinenses saudosos, tipo Marcos Soares, relembrando lugares, pessoas e momentos de Campina antiga.  Melhor do que repassar a corrente é dividir aqui com meus leitores as lembranças da pipoqueira da Maciel Pinheiro no fim da tarde, do sorvete da Capri (a pequena, na descida da Cardoso Vieira rumo à Rodoviária, e depois a grande, perto da atual Biblioteca); os montes de lenha na frente das padarias ao amanhecer; o caldo-de-cana de Hipólito, perto do antigo Palacinho da Criança onde a gente ia ver bichos empalhados; a Feira de Fruta, parada obrigatória dos bacuraus madrugada adentro; as buates, que eram chamadas de “INPS” no tempo da luz negra, porque todo mundo ia de branco: Whiskyzito, Xique-Xique, Enche-Pança, Preto-e-Branco, Cartola.

Como esquecer figuras como Mazzaropi do picolé, Ciço porteiro do Alfredo Dantas, Luizinho do táxi, Seu Zé do Capitólio, Espanha da Flórida, Fuba da Casa Esporte, a quem comprávamos bola de couro para jogar no campo das Barreiras no Alto Branco.  Colegas que trabalharam comigo num século que já foi: Bira e Alexandre do áudio-visual da FURNe, Ana Marinho e João Carias da Reitoria, os fotógrafos do DB (Valdi Lira, Marcelo de Absalão, Nicolau), Seu Marco e Seu Pedrinho do Museu de Arte, Seu Lisboa motorista, Albaniza a Secretária Nota 10, o Capitão Asa, Biu Porteiro.
 
Personagens cosmopolitas como só Campina tem, como Janos Tatrai, o único técnico húngaro do Treze e do Campinense; o espanhol Prof. Peletero, autor de um “Projeto de uma unidade catalítica para o cracking do petróleo” e safoxonista amador; o Cônsul do Líbano, José Noujaim, representante da cultura islâmica na Serra; o Alemão do Chope. Professores de gerações inteiras como D. Zefinha, D. Wanda, D. Otília, Anésio Leão, Prof. Almeida e sua filha D. Nora, Gabriel Agra, Padre Maia, Zé do Bode, Celso Pereira, Rubens Lima, Prof. Adelmo.

Sem falar nas barracas da Festa da Mocidade, e as mensagens sonoras do Parque Lima, as paradas do Dia 7 que eram encerradas por um monte de caras andando a cavalo, as vitrines da Maciel Pinheiro cheias de algodão e cetim vermelho na época do Natal.  Os pirulitos cônicos enrolados em papel de embrulho e enfiados nos buracos da tábua; o algodão-de-açúcar (que o resto do Brasil chama algodão-doce), o raspa-raspa de gelo cercado por garrafas coloridas, a maquininha de descascar laranja na manivela, o cachorro-quente “comeu-morreu” nos jogos noturnos do PV.  Cardápio raro dos bêbos: o “tradicional” do Cearense (servido por Seu Ermírio, “Buda”), o “rato” da Riviera, a costela do Castelo, a cabeça-de-galo do Corredor da Morte.  Os cartazes anunciando filmes ou futebol, pintados à mão e amarrados nos postes; a camionete de Zé Américo II (“bola vai, bola vem; bola vem, bola vai”), a arte de “botar voz” no Calçadão. A banca de Henrique; o fiteiro de Toín Trujão; o sebo de Câmara; a troca de gibis de capa rasgada nas matinais de um domingo que até hoje não passou. (06-10-2008)

Bráulio Tavares é Escritor e Jornalista
Colunista do Jornal da Paraíba   
btavares13@terra.com.br
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