Bráulio Tavares
O três no conto popular
Lendo os contos populares ou, como
chamamos aqui na Paraíba, “histórias de Trancoso”, a gente
vê que existe uma fascinação pelo número três. São
episódios que acontecem três vezes, são três objetos
ofertados ao herói, são três tarefas que precisam ser
cumpridas, são os três filhos de um velho casal, são três
princesas encantadas. Essa fixação numérica pode ser
interpretada de acordo com Freud, com Marx, com Jung, com
Lévi-Strauss, com Peirce, com a Cabala, com a Numerologia, e
por aí vai. Cada interpretação enriquece o fenômeno, nenhuma
o esgota. A razão de sua longevidade é justamente esta:
significar, de forma plausível, coisas diferentes para
diferentes leitores.
Para este leitor aqui, existem padrões narrativos para os
quais cabe uma pequenina explicação. Refiro-me àquelas
situações, nesses contos, em que o herói recebe a ajuda de
(ou precisa enfrentar) três criaturas sobrenaturais
sucessivas. Pego um exemplo entre centenas, o conto “O
Bicho Manjaléu”, recolhido por Sílvio Romero em “Contos
Populares do Brasil”. O herói sai à procura de suas três
irmãs, que casaram com três desconhecidos. Chega na casa da
primeira e descobre que o rapaz com quem ela casou é o Rei
dos Peixes. Ele é um cara muito brabo, que chega em casa
procurando intrusos, ameaçando matá-los, mas depois que toma
banho e faz uma refeição sossega. A esposa revela a
presença do irmão, e os dois tornam-se amigos. O herói
procura então a segunda irmã, que casou com o Rei dos
Carneiros, e depois a terceira, que casou com o Rei dos
Pombos. Os três episódios são rigorosamente iguais.
Estes episódios, que fogem à vivência cotidiana do herói,
ensinam-lhe uma maneira de se relacionar com o sobrenatural,
e se repetem para que seus elementos sejam reconhecidos com
segurança. Correspondem a três fases: 1) informação, 2)
revelação, e 3) confirmação. No primeiro encontro,
acontecem situações inesperadas em que o herói é forçado a
improvisar procedimentos para se relacionar com o
sobrenatural. Tudo aquilo é informação nova, algo que fugia
a sua experiência prévia, e ele tem o direito de recear que,
num segundo encontro, tudo recomece também do zero e as
lições deste primeiro episódio não lhe sirvam para nada.
No segundo encontro, ocorre a Revelação. Certos elementos
do primeiro encontro se repetem, e só então ele tem a idéia
de quais são as regularidades, as “constantes” do fenômeno
sobrenatural. Ele age de acordo com essa revelação, e desta
vez seu procedimento não é totalmente improvisado ou
intuitivo, é produto de uma reflexão e de um conhecimento.
O terceiro encontro serve apenas como Confirmação do que
fora improvisado no primeiro e posto conscientemente em
prática no segundo. O terceiro é quase pró-forma, quase
supérfluo, está ali apenas para que não restem dúvidas. Ele
“rubrica e carimba” a ação do herói, certificando-o de que
sua maneira de lidar com o sobrenatural estava correta, e de
que ele agora é o senhor da situação. (10-11-2008)
A Magia dos Números
Sempre fui um mau aluno em matemática, mas,
curiosamente, sempre gostei de brincar com números. Vezes
sem conta, quando era adolescente, eu me sentava numa
poltrona com lápis e papel, rabiscando números ao acaso,
fazendo cálculos sem objetivo, tentando “fazer descobertas
matemáticas”, inspirado por livros como “O Homem que
Calculava” de Malba Tahan. Acabava descobrindo algumas
coisas. Para que serviam? Para nada, provavelmente, e com
certeza já eram coisas conhecidas desde os gregos. Mas o
prazer de descobrir uma coisa sozinho era justificativa
suficiente.
Por exemplo: alguém deve lembrar um joguinho com palitos de
fósforos dispostos em quatro filas com 1, 3, 5 e 7 palitos,
onde cada jogador tira um certo número de palitos,
alternadamente, e ganha quem deixar o derradeiro palito para
ser tirado pelo oponente (este jogo aparece em “O Ano
Passado em Marienbad” de Alain Resnais). Eu pensava: por que
esses números? O que têm eles de especial? Somei-os e deu
16. Ora, 16 é o quadrado de 4, que está ausente da lista
(sendo uma quantidade par de números, não aparece um “número
do meio”), mas seria justamente o termo mediano da lista,
aparecendo entre o 3 e o 5.
Portanto, criei uma regra hipotética: “A soma de uma
quantidade ‘n’ de números ímpares sucessivos é o quadrado do
termo intermediário dessa série, ainda que este termo esteja
apenas subentendido”. Vamos fazer um teste aumentando a
série para 1, 3, 5, 7, e 9. Qual a soma deles? É 25. Ou
seja, o quadrado de 5, termo intermediário (desta vez
visível) da série. Nova experiência com 1, 3, 5, 7, 9 e 11.
Qual é a soma disto? É 36, que é o quadrado de 6, termo
intermediário da série, oculto entre o 5 e o 7.
Por que acontece assim? Acho que porque o termo
intermediário é sempre igual à quantidade de termos
considerados. Somar 1, 3, 5, e 7 equivale a somar 4, 4, 4 e
4, porque se a gente prestar atenção vai ver (vide o
episódio de Gauss, já comentado aqui em “A arte de olhar
diferente”, 14.10.2003) que a soma dos termos extremos (1+7,
3+5, etc.) é sempre a mesma. Se a gente se fixar no meio da
série vai ver que os números crescem para a direita e
diminuem para a esquerda sempre na mesma proporção, ou seja,
isto nivela a série justamente nesse termo do meio.
Para que serve isto? Não sei, mas tudo que tem lógica serve
para alguma coisa. Quando Tales de Mileto ou Anaximandro de
Alexandria ou algum outro sujeito antigo descobriu essa
regrinha acima, coisa que certamente aconteceu, não sabia
que utilidade poderia ter, mas certamente anotou, como eu
anotei. E é possível que mil anos depois esse negócio tenha
servido a alguém que estava calculando o peso de uma
catedral gótica ou a pressão do gás de uma caldeira.
Descobertas matemáticas, desde as mais bobas até as mais
complicadas, são respostas para perguntas que ninguém nunca
precisou fazer, mas quando vem a fazê-las um dia descobre
com alívio que a resposta já estava pronta, à sua espera.
(03-11-2008)
A Maldição do Poder
Um amigo meu, aqui no Rio, votou em
Fernando Gabeira no primeiro turno das eleições municipais.
Apurados os votos, ficou definido que disputarão o segundo
turno Gabeira e Eduardo Paes do PMDB. Encontrei meu amigo
ontem, e perguntei se estava animado com as chances de
Gabeira. “Vou votar em Paes”, disse ele. E diante da minha
surpresa: “Gabeira é um homem de bem. Não quero vê-lo no
Poder. Os homens de bem devem ficar sempre na Oposição,
porque o Poder é um veneno para eles”.
Todos nós ficamos perplexos com as guinadas sofridas por
alguns políticos depois de eleitos. Parece que o Poder tem
um miasma, um agrotóxico invisível, um amianto solerte que
se infiltra nos cérebros e nas consciências, trazendo danos
irreversíveis. Sugeri essa teoria e meu amigo concordou:
“Exatamente. Se eu fosse americano, votaria em McCain,
porque esse já está perdido. Mas um rapaz decente como
Obama não pode entrar na atmosfera insalubre da Casa
Branca. De jeito nenhum! Nem Jimmy Carter escapou”.
Toda vez que um político de oposição chega ao poder ele
descobre que na verdade o seu exército não derrotou o
exército adversário. Ele ganhou a guerra, e foi nomeado
general do exército adversário! Mal chega ao poder ele
percebe que a tal da “máquina da corrupção” que ele jurou
combater permanece encastelada nas mesmas posições onde se
encontra há séculos, e que não é a chegada dele e do seu
Partido que vai desenraizar esse feudo.
O que acontece, então? Ele e o seu Partido começam a se
adaptar, minoria que são, às leis secretas e aos
procedimentos internos dessa poderosa máquina. Não importa
quem seja o titular do cargo: o Poder é da máquina, e quando
o titular do cargo não se comporta de acordo com ela, a
máquina dá um jeito de sabotar-lhe o mandato, comendo pelas
beiras todas as suas boas iniciativas, espalhando cascas de
banana administrativas e diplomáticas, fazendo-o incorrer em
erros e omissões, iludindo-o aqui com promessas de apoio
fácil, vergastando-o acolá com denúncias sempre que ele mete
os pés pelas mãos. A Máquina são milhares de legisladores,
lobistas, funcionários públicos, empreiteiros,
publicitários, juízes, promotores... E para cada um desses
indivíduos bote algumas dezenas de assessores, familiares,
amigos, apaniguados, protegidos em geral. Eis a Máquina.
“Com correligionários assim ninguém precisa de Oposição,”
deve ter meditado mais de um governante aqui e em Istambul,
na Bósnia-Herzegovina e na Guatemala. Como diz meu irmão
Pedro, “triste do Poder que não pode”, e essa é uma
descrição patética do poder republicano num país onde a
corrução se instalou como uma dinastia de cupins
onipresentes. Iludimo-nos imaginando que basta “ser dono da
caneta” para fazer o que bem quiser. A caneta assina, mas
não se sabe ao certo quem redigiu. Gabeira e Obama que se
cuidem. Às vezes a vitória nas urnas é apenas A Porta Para
o Abismo. (27-10-2008)
Brasil 0X0 Colômbia
Ganha fora, empata aqui; ganha fora,
empata aqui. É o iôiô da Seleção Brasileira, um sobe-e-desce
constante que, bem ou mal, vai nos mantendo aos trancos e
barrancos rumo à classificação para uma Copa do Mundo onde
queira Deus que enfrentemos times mais fáceis de derrotar do
que Colômbia e Bolívia. É o nosso carma jogando em casa, e a
culpa não é de Dunga. Parreira se queixava, Felipão se
queixava, Luxemburgo, Leão, todos se queixavam da mesma
coisa. Quando os times sul-americanos vêm jogar aqui,
fecham-se atrás numa retranca fanática, impiedosa, dando a
impressão de que da linha divisória para trás existem 25 ou
30 jogadores com aquela camisa de cor diferente.
É um verdadeiro arrastão, cada vez que o Kaká ou Robinho
pega na bola. Nada daqueles vastos espaços abertos
fornecidos domingo passado pela ingênua seleção da
Venezuela, que deixou todo mundo fazer o gol com o pé que
mais lhe convinha. Aqui, no Maracanã, amigos, cada vez que
a bola chegava perto de uma camisa amarela apareciam dois ou
três trombadinhas de camisa azul que cercavam, esbarravam,
empurravam, acotovelavam, travavam, até arrancar a jogada
pela raiz. Foram noventa minutos disto.
E noventa minutos de incompetência, se bem que para ser
diplomático é melhor chamar de “falta de inspiração”.
Competência todo mundo sabe que Fulano e Sicrano têm, mas
diante da torcida brasileira baixa uma responsabilidade
maior que tolhe as pernas da rapaziada e bloqueia seu
raciocínio. Neste jogo de anteontem não aconteceu uma só
jogada de brilho, uma só jogada de verdadeiro talento. E
não estou me referindo às “pedaladas” ou às graçolas que
tanto encantam os torcedores ingênuos. Eu me refiro à jogada
de talento em busca do gol, jogadas coletivas rápidas com
toques conscientes de primeira, ou lances individuais em que
o jogador parte para o objetivo com lucidez e velocidade,
executando o que vai fazer sempre um segundo antes da
chegada do zagueiro.
Parece até que quando joga diante da torcida brasileira o
jogador brasileiro se sente obrigado a pensar mais na
jogada. Me lembro de uma história antiga ocorrida nas
cadeiras cativas do velho Estádio Presidente Vargas. A
defesa adversária falhou no grande círculo e o atacante do
Treze fugiu sozinho com a bola na direção da área, avançou,
avançou, avançou, e chutou em cima do goleiro. Um torcedor
da velha guarda sentado ao meu lado desabafou: “O problema é
que deu tempo de pensar. Pensou, perdeu”.
A Seleção Brasileira anda um pouco assim. Recebe a bola e
pára pra pensar. Vupt! Surgem do nada três arranca-tocos e
mandam a bola pro Norte e o brasileiro pro Sul. E entra aí,
também, a falta de tempo para preparar jogadas ensaiadas,
movimentações combinadas, para que nossos jogadores já
saibam o que vão fazer antes mesmo da bola chegar aos seus
pés. Do jeito que as coisas andam, daqui a pouco eles estão
recebendo um passe, matando a bola, e pegando o celular para
ligar pra Dunga: “E agora, professor?...”
(20-10-2008)
Histórias Entrelaçadas
Está sendo uma moda no cinema recente:
filmes que contam várias histórias mais ou menos
simultâneas, pulando de uma para outra, como se fosse um
livro de contos onde os contos não são sucessivos, mas
embaralhados. Robert Altman explorou de várias formas essa
receita, chegando a tratar um livro de contos de Raymond
Carver como se fosse uma história só, com personagens que se
entrecruzavam (“Short Cuts”). O diretor-roteirista Paul
Thomas Anderson fez o mesmo em “Magnólia”, só que num
roteiro já concebido para ser desta forma (e com um final
meio surrealista e apocalíptico que afeta todas as histórias
contadas).
Um diretor que tem se especializado nessa forma de narrar é
Alejandro González Iñarritu, autor (com o roteirista
Guillermo Arriaga) de “Amores brutos” (2000), “21 Gramas”
(2003) e “Babel” (2006). Nos dois primeiros, acidentes de
carro fazem com que as vidas de pessoas que não se conhecem
acabem se cruzando e interferindo umas nas outras. No
último, é um tiro casual de um garoto que fere uma turista e
desencadeia uma série de fatos que modificam outras vidas.
Em “21 Gramas”, o que chama mais a atenção é o fato de que o
diretor e o roteirista escolheram não apenas entrelaçar três
histórias, mas contá-las fora da ordem cronológica. Isto
cria um verdadeiro quebra-cabeça que desorienta mas fascina
o espectador durante toda a primeira metade do filme, até
que aos poucos ele vai estabelecendo quem são as pessoas e
em qual dos três núcleos narrativos elas se situam.
É uma experiência de afastamento radical entre a “fábula” e
a “trama”, dois conceitos básicos de narrativa. A Fábula é
a história que se fato aconteceu, os fatos em sua ordem
cronológica. A Trama é o modo como o diretor escolhe
contá-los. Parece simples mas não é. Fábula e Trama, por
definição, jamais coincidem. Se queremos narrar uma
história complexa do ponto de vista de um só personagem, na
verdade não estaremos narrando os fatos como sucederam, e
sim como este personagem tomou conhecimento deles. A trama,
portanto, estará sendo criada através desse ponto de vista
único. Se escolhemos contar através de vários personagens,
ainda assim é preciso fazer uma interferência, um “recorte”,
porque em cada momento que descrevemos o que se passa com A
estaremos deixando de mostrar o que se passa com B e C.
Toda Trama é um estilhaçamento e uma remontagem da Fábula.
Estas ousadias recentes, que interferem na tradição do
roteiro cronológico, marcam um momento de necessária
reeducação das platéias, acostumando-as a uma nova forma de
narrar. Já foi tentado antes – basta pensar em Alain
Resnais e Fellini. Mas a experiência atual não se dá no
interior da vanguarda, dos “filmes de arte”, e sim de um
cinema comercial tecnicamente competente e audaz o bastante
para tentar quebrar expectativas, sobressaltar o público,
exigir dele uma atenção a mais. São obras didáticas, não
porque tragam uma “mensagem”, mas são filmes que nos ensinam
a ver filmes.(13-10-2008)
Quem é bom de memória
Circula por emails uma “corrente” de
campinenses saudosos, tipo Marcos Soares, relembrando
lugares, pessoas e momentos de Campina antiga. Melhor do
que repassar a corrente é dividir aqui com meus leitores as
lembranças da pipoqueira da Maciel Pinheiro no fim da tarde,
do sorvete da Capri (a pequena, na descida da Cardoso Vieira
rumo à Rodoviária, e depois a grande, perto da atual
Biblioteca); os montes de lenha na frente das padarias ao
amanhecer; o caldo-de-cana de Hipólito, perto do antigo
Palacinho da Criança onde a gente ia ver bichos empalhados;
a Feira de Fruta, parada obrigatória dos bacuraus madrugada
adentro; as buates, que eram chamadas de “INPS” no tempo da
luz negra, porque todo mundo ia de branco: Whiskyzito,
Xique-Xique, Enche-Pança, Preto-e-Branco, Cartola.
Como esquecer figuras como Mazzaropi do picolé, Ciço
porteiro do Alfredo Dantas, Luizinho do táxi, Seu Zé do
Capitólio, Espanha da Flórida, Fuba da Casa Esporte, a quem
comprávamos bola de couro para jogar no campo das Barreiras
no Alto Branco. Colegas que trabalharam comigo num século
que já foi: Bira e Alexandre do áudio-visual da FURNe, Ana
Marinho e João Carias da Reitoria, os fotógrafos do DB (Valdi
Lira, Marcelo de Absalão, Nicolau), Seu Marco e Seu Pedrinho
do Museu de Arte, Seu Lisboa motorista, Albaniza a
Secretária Nota 10, o Capitão Asa, Biu Porteiro.
Personagens cosmopolitas como só Campina tem, como Janos
Tatrai, o único técnico húngaro do Treze e do Campinense; o
espanhol Prof. Peletero, autor de um “Projeto de uma unidade
catalítica para o cracking do petróleo” e safoxonista
amador; o Cônsul do Líbano, José Noujaim, representante da
cultura islâmica na Serra; o Alemão do Chope. Professores de
gerações inteiras como D. Zefinha, D. Wanda, D. Otília,
Anésio Leão, Prof. Almeida e sua filha D. Nora, Gabriel
Agra, Padre Maia, Zé do Bode, Celso Pereira, Rubens Lima,
Prof. Adelmo.
Sem falar nas barracas da Festa da Mocidade, e as mensagens
sonoras do Parque Lima, as paradas do Dia 7 que eram
encerradas por um monte de caras andando a cavalo, as
vitrines da Maciel Pinheiro cheias de algodão e cetim
vermelho na época do Natal. Os pirulitos cônicos enrolados
em papel de embrulho e enfiados nos buracos da tábua; o
algodão-de-açúcar (que o resto do Brasil chama
algodão-doce), o raspa-raspa de gelo cercado por garrafas
coloridas, a maquininha de descascar laranja na manivela, o
cachorro-quente “comeu-morreu” nos jogos noturnos do PV.
Cardápio raro dos bêbos: o “tradicional” do Cearense
(servido por Seu Ermírio, “Buda”), o “rato” da Riviera, a
costela do Castelo, a cabeça-de-galo do Corredor da Morte.
Os cartazes anunciando filmes ou futebol, pintados à mão e
amarrados nos postes; a camionete de Zé Américo II (“bola
vai, bola vem; bola vem, bola vai”), a arte de “botar voz”
no Calçadão. A banca de Henrique; o fiteiro de Toín Trujão;
o sebo de Câmara; a troca de gibis de capa rasgada nas
matinais de um domingo que até hoje não passou. (06-10-2008)
O fantasma de Joan
Burroughs
Não acredito em fantasmas. Acredito que os
mortos têm uma sobrevida em nossa mente, uma existência
residual que independe deles, da pessoa que foram. Continuam
em nossa memória como imagens autônomas, indiferentes à
dissolução da pessoa que lhes deu origem. Vem daí a tradição
da literatura fantástica em mostrar imagens que se libertam
do espelho e ganham vida própria, a sombra que se desprende
do corpo, a figura que sai da pintura.
Como dizia Drummond, em “Convívio”, “eles não vivem senão em
nós, e por isso vivem tão pouco; tão intervalado; tão
débil”. Esse poema sempre me lembra um poema (“Dream Record:
June 8, 1955”) que Allen Ginsberg escreveu sobre Joan
Burroughs, a esposa do seu amigo, o escritor William
Burroughs. Joan morreu de maneira patética quando o casal
morava no México. William tinha mania de revólveres, estava
bêbado, e quis brincar de Guilherme Tell. Pôs um copo sobre
a cabeça de Joan e tentou acertar um tiro nele. Acertou a
testa da esposa, que morreu na hora. Burroughs comentou, na
velhice, que isto foi um dos impulsos para que ele se
tornasse escritor. Escreveu (talvez) para que um dia fosse
julgado por outras ações além dessa.
Diz Ginsberg que adormeceu bêbado e sonhou com Joan
Burroughs, sentada num banco do jardim, e seu rosto tinha
readquirido a beleza que tinha, “uma beleza estranha devido
ao sal e à tequila, antes do tiro na testa”. Os dois
começavam a conversar. Joan pedia notícias dos amigos – e
Ginsberg respondia, como acontece em todo reencontro de quem
não se vê há muito tempo. “O que Burroughs anda fazendo
agora? / Bill continua na Terra, agora anda pelo Norte da
África. / Ah, e Kerouac ainda mantém / o mesmo gênio “beat”
de antes, / com cadernos cheios de budismo. / Tomara que ele
se acerte, riu ela. / E Huncke, ainda está na cadeia? Não, /
a última vez que o vi estava em Times Square. / E como está
Kenney? Casado, bêbado / e bronzeado, no Leste. E você?
Novas paixões / no Oeste...”
Diz Ginsberg que nesse momento percebeu que era um sonho, e
perguntou-lhe: “Joan, que tipo de conhecimento têm / os
mortos? Você ainda ama / os mortais que conheceu? / Lembra o
quê, de nós? / E ela se desvaneceu à minha frente – e no
instante seguinte / tudo que vi foi sua lápide manchada pela
chuva / com um epitáfio ilegível / sob um galho retorcido /
de uma árvore, entre o mato selvagem / de um cemitério
esquecido no México”.
Nunca vi um fantasma, e acredito que nunca verei. Mas já me
ocorreu sonhar com alguém morto e só lembrar dessa morte lá
pelo meio do sonho. Meu cuidado, então, era para continuar
agindo normalmente, para que a pessoa não percebesse que já
tinha morrido. Ao conversar com os mortos, tocar no assunto
da morte é como tocar numa bolha de sabão. Eles desaparecem,
porque uma pergunta é algo muito sólido e muito brutal para
o que são, e os arremessa de volta para o lugar, dentro de
nós, de onde vieram. (29-09-2008)
Roald Dahl tem um conto, “Mr. Botibol”
sobre um personagem que busca em vão se integrar ao mundo.
Mr. Botibol é rico, mas fracassado. Para começo de conversa,
é um sujeito fisicamente repulsivo: alto, magro, cabeça
disforme, sem ombros, “parecia um aspargo” vestindo terno e
gravata. Tem um sentimento de profunda insegurança. O conto
se abre mostrando um almoço dele com um possível comprador
da empresa que ele herdou do pai. O comprador havia feito
uma proposta inicial modesta, apenas para mostrar que estava
interessado e abrir as negociações. Estaria disposto a pagar
até três vezes aquele valor. Quando os dois se encontram no
restaurante, Mr. Botibol, tímido, nervoso, atrapalhado, abre
a conversa dizendo que aceita a proposta. Como ocorre com
todo tímido, disputar contra a vontade alheia lhe produz uma
sensação de imenso desconforto.
A questão é que o comprador, animado pelo sucesso, abre uma
garrafa de vinho e pela primeira vez na vida Mr. Botibol se
deixa inebriar pelos vapores de Baco. Volta para casa
cambaleante, mas eufórico, e, como é um apreciador de música
clássica, põe no fonógrafo um disco sinfônico qualquer, para
dar vazão àquela sensação inédita de bem-estar. E logo ele
se flagra a si mesmo de pé no meio da sala (ele mora
sozinho, com um velho mordomo), regendo a sinfonia, e
sente-se transportado, como nunca o sentira, para o mundo
glorioso da arte.
Para encurtar a conversa, Mr. Botibol manda construir em
casa um auditório, um palco, uma bancada para maestro e um
engenhoso sistema gramofônico onde os discos são
substituídos sem que a sinfonia seja interrompida. Depois,
ele compra um piano de cauda e o instala no palco, tomando o
cuidado de fazer com que as teclas sejam emudecidas, para
que ele possa fingir que está tocando, sem produzir som
algum. E daí em diante, Mr. Botibol passa a tomar uma
garrafa de vinho no jantar e em seguida subir ao pódio de
maestro (sob os aplausos ensurdecedores de um disco de
efeitos sonoros) e imaginar que está regendo, toda noite,
uma sinfonia diferente. Até o dia em que...
Bom, o final da história é menos importante, aqui, que sua
premissa. O que Dahl nos mostra em seu conto é o protótipo
de uma multidão gigantesca que há no mundo: os
“artisticamente prejudicados”, para imitar o jargão atual.
Pessoas que têm sensibilidade para as coisas da arte (no
caso, a música clássica), mas a quem falta o estudo e o
treino necessários para praticá-la. Eu me identifico com Mr.
Botibol, porque em termos de partitura não distingo um dó de
um ré, mas ainda assim sou capaz de escutar música erudita
(uma dessas bem melódicas e acessíveis – um Tchaikóvski, um
Mozart) e imaginar que a estou regendo ou que a estou
tocando. É mais ou menos o que fazem os adolescentes de hoje
se amarrarem em jogos como “Guitar Hero”, em que você aperta
os botões do console e imagina que é Santana, Jimmy Page ou
Jimi Hendrix fazendo aquele solo de rachar o céu em duas
bandas. (22-09-2008)
A festa, dias atrás, era oficialmente para
comemorar os 40 anos de independência da Suazilândia, mas
como a data coincidia com o aniversário de 40 anos do rei
nenhum súdito se enganava quanto ao verdadeiro motivo. Todos
agitavam bandeirolas ao monarca enquanto ele, vestindo pele
de leopardo, desfilava numa BMW sem capota pelas ruas da
esfarrapada capital do país. O rei Mswati III é mais um
potentado exótico da África. Não faz muita diferença que
sejam reis, presidentes eleitos, ditadores que tomaram o
poder pelas armas. Todos fazem o mesmo: auto-glorificação
constante, apelo exacerbado às tradições étnicas, derrame de
dinheiro em festas ou obras faraônicas, perseguição
sangrenta a adversários ou dissidentes. O que ocorre nessas
nações africanas (não em todas, é claro) nada mais é do que
o tribalismo selvagem com injeção brutal de capital
cosmopolita e acesso da elite ao consumo “de Primeiro
Mundo”.
O rei alega ter gasto apenas 2 milhões e meio de dólares com
a festa, a imprensa fala numa despesa cinco vezes maior. Os
opositores queixam-se, timidamente, de que oito da 13
esposas do rei pegaram o avião para Dubai, invadiram os
shopping-centers, puxaram os cartões corporativos (ou o seu
equivalente na Suazilândia) e deram uma baixa no estoque,
adquirindo presentes de nível monárquico, adereços para a
festa, etc. Frotas de carros de luxo desfilaram pelas ruas
com os convidados vip, entre eles o presidente Mugabe, do
Zimbábue, que recentemente escandalizou o mundo com as
eleições que montou para se eleger para mais um mandato, aos
84 anos de idade e 21 de poder.
Será um exagero, um regabofe deste tamanho para comemorar o
aniversário do rei? De certo modo, há o que comemorar, sim.
Apenas um em quatro suazilandeses chega aos 40 anos, de modo
que os chegantes têm mais é que soltar fogos. A expectativa
de vida no país é de pouco mais de trinta anos, e está
gravemente comprometida pelo fato de que o país tem o maior
índice de incidência de Aids no mundo: 38,8%. Só para
comparar, o índice da África sub-saariana é de 7,5%, e o
índice mundial é 1%.
Por que motivos os reis de uma nação tão pobre gastam de
maneira tão perdulária? Porque são pretos? Porque são
burros? Porque são pobres? Porque são maus? Não acho que
seja bem isso; em grande parte é porque foram colonizados
pelos europeus, aprenderam suas línguas, estudaram sua
história. Modelam seus reis em seus próprios líderes
tribais e em monarcas como por exemplo Luís XIV, que também
fez guerras inúteis, perseguiu os inimigos, deu festas de
arromba o tempo inteiro, construiu palácios e mais
palácios. Hoje admiramos os tesouros arquitetônicos que
deixou, e nos divertimos com os cerimoniais rococós das
etiquetas de sua corte. Os soberanos portugueses de seu
tempo não lhe ficavam muito atrás. Luís XIV ficou no trono
72 anos (1643 a 1715). O rei Sobhuza, da Suazilândia, ficou
82 (de 1899 a 1982). O espírito é o mesmo, e não tem raça
nem cor. (15-09-2008)
Certas formas de arte buscam a
perfeição. Ao ver certas esculturas gregas ou ler
certos contos de Maupassant a gente vê ali um cristal,
uma forma definitiva e irretocável. A palavra
“perfeição” é questionável do ponto de vista
filosófico, mas pode ser aceita para situar nossa
reação emocional diante de coisas assim. Elas não
podem ser perfeitas, por definição. Mas bem que
parecem. Mais difícil é você alcançar a perfeição em
algo móvel, algo fluido, algo que precisa ser recriado
a cada vez que acontece: um pianista tocando Chopin,
uma bailarina executando uma coreografia, um ator
fazendo ao vivo o monólogo de Hamlet ou (mais difícil
ainda) o monólogo de Lucky em “Esperando Godot”. Não
importa quantas vezes o artista já tenha feito aquilo
certo. Quando começa a fazer de novo, ele está em
pleno mergulho no Aqui-e-Agora, não pode errar, e o
fato de ter feito certo antes não é nenhuma garantia
de que vai acertar agora (a não ser a convicção de que
“posso acertar, sim, já acertei”). Como dizia o poeta
Gil, “tudo agora mesmo pode estar por um segundo”.
Lembram-se de Diego Hypólito nas Olimpíadas? Pois é, o
fato de você ter atingido a perfeição mil vezes nos
treinos não é garantia suficiente (está provado) de
que vai atingi-la de novo na hora do vamos-ver. Quem
esculpe a Vênus de Milo uma vez, quem escreve “Ouvir
estrelas” ou “A máquina do mundo” uma vez, não precisa
fazer isso de novo no mês que vem. A perfeição do
gesto resultou na perfeição do objeto, e este não pode
ser cancelado por qualquer erro futuro. No caso das
artes da performance (e aqui, curiosamente, o esporte
e a arte se fundem numa coisa só), é preciso, sim, ser
perfeito de novo, e de novo, e de novo...
Um repentista estava numa cantoria de pé-de-parede (Ivanildo
Vila Nova me contou esta) e o colega lhe fez uma
crítica. Ele respondeu com esta sextilha antológica:
“Meu amigo e camarada / não faça isto com mim... /
Colega de profissão / com outro não faz assim! / Pelo
cálice de amargura / que Jesus Cristo bimbim!” Parou
de rir, amigo? Vou explicar. Ele planejou
mentalmente a sextilha para terminar dizendo: “... que
Jesus Cristo bebeu”. Quando começou a cantá-la, viu
que não podia dizer: “... não faça isto com eu...”,
talvez tenha até pensado em dizer “...comigo...”, mas
viu que também não dava, e a boca resolveu a hesitação
dizendo “com mim”. Tudo isso, colegas, se decide na
fração de segundo em que a boca escolhe a palavra a
dizer. Depois de ter dito este fatídico “mim”, ele fez
dois versos intermediários em que conseguiu encaixar
uma rima correta (“assim”), mas aí, quando chegou no
verso pronto para o final... não encaixou. Deu-se a
catástrofe.
Foi assim com Diego Hypólito. Fez tudo certo, a
corrida, a cambalhota, a rolada no chão, o
duplo-mortal-carpado... Mas no meio do processo houve
algum vacilo, hesitação, esquecimento. Em vez de
finalizar o verso com os dois pés no tablado e os dois
braços erguidos... Bimbim. (08-09-2008)
Machado e o Polígono Boêmio
Já afirmei alhures que o tema principal de
Machado de Assis é o Triângulo Amoroso. Amplio agora esta
definição para dizer: seu segundo tema é o Polígono Boêmio.
Por Polígono Boêmio entendam-se todos aqueles contos em que
um grupo de homens estão reunidos, e dessa reunião brotam
eventos como passeios, farras, etc. ou brotam histórias.
Neste segundo caso, o Polígono Boêmio tem um centro: é um
personagem que narra uma história enquanto os outros o
escutam, interferindo de vez em quando com perguntas e
comentários. E aqui vemos mais uma das tão propaladas
influências inglesas na obra de Machado (numa época em que a
influência unânime em nossa literatura vinha de Paris). O
esquema usado por Machado é uma recriação brasileira do
gênero chamado de “Club Stories”, ou histórias de clubes.
John Clute, na “Encyclopedia of Science Fiction”, define o
gênero como “uma história contada por um homem a outros
homens num recinto privado, freqüentado apenas por pessoas
do mesmo estrato social, as quais concordam em acreditar na
história para sem mútuo bem-estar”.
O clube inglês é uma instituição que não existe, ao que eu
saiba, em nenhuma outra parte do mundo. É uma espécie de
café com biblioteca, reservado apenas aos sócios. Ali eles
se reúnem, fumando charutos, jogando bilhar ou cartas,
tomando uísque ou café, lendo jornais, conversando diante da
lareira. E é nessa milenar roda de ouvintes em volta à
fogueira que acontecem as histórias. Muitas dessas
narrativas são também o que em inglês se chama de “tall
tales”, histórias inverossímeis ou improváveis, quando não
escancaradamente mentirosas. John Clute sugere que as
primeiras formas maduras do gênero surgem com Robert Louis
Stevenson (“New Arabian Nights”, 1882), o que faz de
Machado, mais que um mero seguidor, um praticante
contemporâneo. Outros nomes ilustres nessa linha são Jerome
K. Jerome, G. K. Chesterton, P. G. Wodehouse, H. G. Wells,
H. H. Munro (“Saki”) e Lord Dunsany. A estes, eu
acrescentaria Conan Doyle.
A “club story” pressupõe uma atmosfera confortável para
escutar uma história inverossímil. Não precisa ser um
clube; basta ser uma casa onde se reúnem, como em “Um
Esqueleto”, dez ou doze rapazes que falam de artes, letras e
política: “Batia justamente meia-noite; a noite, como disse,
era escura; o mar batia funebremente na praia. Estava-se em
pleno Hoffmann. Alberto começou a narração”. Em “O
Imortal”, estamos na varanda da casa do Dr. Leão, com a
presença de um coronel e um tabelião: “Um lampião de luz
frouxa, pendurado de um prego, sublinhava a escuridão
exterior. De quando em quando, gania um seco e áspero
vento, mesclando-se ao som monótono de uma cachoeira
próxima. Tal era o quadro e o momento, quando o Dr. Leão
insistiu nas primeiras palavras da narrativa”.
Variantes deste formato aparecem em “Adão e Eva”, “Um
Incêndio”, “Cantiga Velha”, “Mariana”, “Uma Noite”...
Histórias que vemos contadas, não vemos acontecidas.
(01-09-2008)
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