Wladimir Carvalho, o homem que viu Brasília

Por Júlio Meira, especial para o Yahoo! Brasil
Fotos de José Varella

Avistei Wladimir do táxi. Segui as marcações que ele mesmo me deu, na véspera, ao telefone: "W3, casa tal". Estranhei a indicação: "casa, ora?", pensei na hora. Haverá mesmo essa "casa"? Mas chegamos. E havia. Enquanto pagava o motorista, avistamos o senhor de passos curtos, vestindo uma camisa fina e clara, metida numa calça de tergal. Um homem de pés largos, braços grossos, ombros largos também. Um homem de cabelos ondulados, completamente brancos, penteados para o lado.

A cabeça vinha firme, ligeiramente inclinada para baixo, os olhos ligados no próprio passo, no ritmo absorto e automático de quem se desloca por espaços conhecidos, decorados. Notei que mexia nos bolsos, puxava uma chave. Tratei de pegar a bolsa, o troco, bati súbito a porta do carro e, vendo-o de costas, procurando acertar a fechadura, arrisquei, com toda a certeza: "Wladimir". Virou-se, o simpático homem, a cara nuns óculos redondos, um rosto de amigo, um sorriso aberto. "Encontro britânico", brincou. Um minuto depois do horário combinado.

Museu Pessoal
Embora sim de sua propriedade, a casa a que cheguei não é bem de Wladimir –ele trata de me corrigir– no sentido familiar da "moradia", do "lar doce lar" dos ingleses. Isso porque já não mora mais ali, e faz tempo. A casa é na avenida W3, em Brasília. Quem conhece a capital não teria se espantado –como eu me espantei– em ter sido convidado para encontro em uma "casa", no meio do Plano Piloto. Casa mesmo. Sobrado de tamanho médio.

Dali, daquela região da W3, muitos fugiram, nas últimas décadas, com a intensificação do trânsito e a frequência crescente de certos episódios com os quais estamos todos já ficando habituados, em qualquer de nossas cidades: pequenos roubos, pequenos furtos e grandes ruídos. Sobrou um comércio de pequenas pretensões, combinado com empreendimentos de escala gigantesca. E assim como vários dos seus antigos vizinhos, Wladimir procurou regiões mais sossegadas da cidade, para um sono igualmente mais tranquilo. "Mantive essa casa comigo, por outras razões. É minha casa sim, mas em outra dimensão". A zona era para ser residencial. O tempo passou, a cidade mudou, não é mais.

Essa casa é para ele, hoje, um museu pessoal. Batizou-a com "o nome pomposo de Fundação Cine Memória". Não há placas que o indiquem. A entrada, ele me avisa ponderando sobre o desenho urbano da cidade, "está invertida em relação ao projeto original de Lucio Costa", "como todas, aliás, se inverteram, por aqui".

"Em todo esse pedaço", ele explica, "essa entrada que todos usamos como acesso principal é, na verdade, uma entrada de fundos". Depois de atraversarmos os cômodos todos, há uma sala, que é uma sala de frente. Dela se vê um jardim, que agora parece um quintal. À frente do jardim, há uma rua, por onde só deveriam circular pedestres, com casas frente a frente umas das outras. Uma rua que agora é muito pouco utilizada. Coisas do carro. E da cidade". Coisas do asfalto. "Do assalto?", pergunto. "Já tive uns assaltos aqui. Mas sem gravidade. Forçaram a porta com um pé-de-cabra, depois viram que não tinha nada". "Como 'nada'?", pergunto. "Nada de valor. De valor assim... imediato. Apenas essas coisas que vou lhe mostrar."

As coisas que ele se põe a mostrar, a partir desse momento, são coisas de fato surpreendentes. Sem "valor imediato", são interessantes documento de um crescimento: a própria metropolitanização de Brasília. São também documentos culturais: nos mostram a vida da cidade e o seu cotidiano, durante as quatro décadas em que Wladimir a acompanha. Tudo acomodado, empacotado, numa disposição aparentemente caótica, mas apenas aparentemente.

"Organizei a coleção como um passeio. Entendeu? De uma ponta até a outra, de uma porta até a outra." São fotografias, recortes de jornal, equipamentos de todos os tipos, moviolas, câmeras de cinema, câmeras de televisão, pequenos objetos, tripés, troféus, medalhas, diplomas, cartas e envelopes, souvenirs de toda sorte, postais, filmes inteiros em 16 mm e 35 mm, pedaços de filmes, pôsteres, cartazes de cinema. Na parede da tal grande sala, o desfecho do "passeio", onde enfim nos sentamos por alguns minutos, uma série de fotografias, ampliadas e organizadas por ele em sequência, atestam a formação da cultura cinematográfica local, durante as décadas de 1960 e 1970.

São materiais recolhidos por Wladimir, ou produzidos por ele mesmo, e agora protegidos. Fotogramas dos primeiros filmes feitos na região, durante as viagens de campo do presidente Juscelino Kubitschek, que antecedem a própria construção da cidade. Há coisas que não podemos ver, nas atuais instalações do seu museu pessoal, sua cinemateca privada: a chegada dos "tricampeões" a Brasília, a visita do papa João Paulo 2º à cidade, nos anos 80, inúmeras filmagens que documentam o crescimento da periferia brasiliense.

O cortejo e o enterro de JK, dos mais memoráveis momentos de Brasília, estão entre as preciosidades desse autêntico e original arquivo. Wladimir tem cuidado dessas coisas com grande devoção e interesse. Por isso quer mostrá-las.

Vida e obra
Wladimir Carvalho é um paraibano, nascido no ano de 1935. No começo dos anos 60, cursou filosofia na Universidade Federal da Paraíba, de onde depois transferiu-se para a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de uma outra Federal: a da Bahia, em Salvador.

Ali, foi colega do compositor Caetano Veloso, que também não se formou, e de Carlos Nelson Coutinho, esse sim, ele me diz, "um filósofo com todas as letras". Wladimir, afinal, também acabou não concluindo o seu curso. Tinha feito aquele vestibular para filosofia, mas queria fazer cinema. E acha, até hoje, que essa foi uma das razões que lhe explicam o desvio.

Afinal, de onde surgiu a vontade de ser cineasta, assim tão decididamente? "Ah, eu lhe conto. Em João Pessoa havia uma cultura cinematográfica reduzida. Mas havia. E nós íamos muito ao cinema. Eu ia muito. Assistíamos a que tipo de coisa? Basicamente faroestes norte-americanos, musicais e sacanagem francesa. Mas um dia, um sujeito que assinava uma coluna de cinema no Recife levou a João Pessoa um pacote de filmes chamado "clássicos do cinema mundial", algo assim. Eiseinstein, Carnè, Jean Delannoy... Nisso eu tinha uns 20 anos. E no meio desses filmes tinha um, em particular, que me espantou... 'O Homem de Aran'. Você conhece isso, não? De Robert Flaherty. Eu era jovem. Gostava de filmes, e fiquei com aquilo na cabeça. Era um documentário".

No encanto pelo documentário, e por conta do colega jornalista Linduarte Noronha, Wladimir se envolveu na produção de um filme que de fato está na história do documentário brasileiro, "Aruanda". Foi aí que começou sua vida de nômade e cineasta. Depois de ter morado em João Pessoa, passou por Salvador, pelo Rio de Janeiro, "tantos outros lugares"... Até que chegou a Brasília, e assentou-se na cidade, "a capital de todos os brasileiros". Ao chegar, Wladimir tinha 35 anos. Brasília tinha dez. Hoje, Brasília tem 50. E Wladimir é um decano, do alto dos seus 75.

Brasília, 50
"Falava-se muito de Brasília, você não calcula. Hoje a cidade faz 50 anos e muitos tem lembrado o seu impacto. Era muito grande. No Rio, em São Paulo, falava-se de Brasília o tempo todo. Aquilo atraiu muita gente. Todos ouvimos falar. A 'nova capital', a 'nova capital'... A curiosidade era grande. Havia muito estardalhaço. A 'capital do século', dizia-se. Falava-se em Niemeyer. Brasília moveu muita gente... Desenvolvimentismo, novas oportunidades de trabalho. Em Brasília, durante a obra, chegou a haver entre 60 e 70 mil operários! Falava-se bem e falava-se mal da cidade. Tinha de tudo. 'As árvores não crescem no planalto', dizia-se. 'Brasília não vai ter árvores boas'. 'Lá', dizia-se também, 'só dá daquele redemoinhozinho de vento, de poeira vermelha, que é infernal'. E botou-se no redemoinho o apelido de 'lacerdinha', em homenagem ao Carlos Lacerda, que foi um dos maiores adversários da mudança da capital.

Assim, Wladimir vai tecendo as lembranças e entrando no assunto de um filme que fez dele um cineasta conhecido de um público maior, "Conterrâneos Velhos de Guerra". O filme conta a história de um terrível episódio da construção da cidade, uma chacina de trabalhadores envolvidos na grande obra. O episódio é anterior à chegada de Wladimir, e o filme nasceu de conversas que ele ouvia comumente, numa feira aonde ia "comer carne seca". No filme, o cineasta usa depoimentos e imagens de arquivo. "Conterrâneos" levou anos para ser finalizado, consagrado na 32ª edição Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, já em 1990.

Com tudo o que diziam de Brasília, enquanto a cidade era feita, Wladimir só conheceu a capital em 1970, nove anos depois de sua inauguração. Assim começou a história do seu tão duradouro interesse por Brasília, em 40 anos de convivência. "Vim para cá por acaso, a bem da verdade. E fiquei." A ida aconteceu a convite de Fernando Duarte, velho amigo que então dirigia um núcleo de documentação cinematográfica, ligado à UnB.

Duarte, na época, tentava reorganizar o curso de cinema, do Instituto de Artes, fechado durante uma crise universitária ocorrida em 1966. A Universidade estava sob intervenção. Os antigos professores do curso pioneiro de cinema haviam se demitido, assim como muitos outros, e os que haviam permanecido foram reposicionados, em outros cursos. Era o caso de Duarte, que dava suas aulas para alunos das carreiras de jornalismo e de comunicação.

Wladimir já era então um documentarista iniciado, ofício que conciliava, entretanto, com a vida profissional em jornais. Trabalhava como repórter do Diário de Notícias, no Rio de Janeiro. Ao longo daquela década de 60, que se encerrava, havia trabalhado em alguns filmes que depois se tornariam referências importantes para os documentaristas brasileiros: "Aruanda", já citado, dirigido pelo amigo Linduarte Noronha, e "Cabra marcado para morrer", o projeto original –e abortado– de Eduardo Coutinho. Tinha enfim realizado um filme próprio, trabalho de sua autoria, "A Bolandeira". E por conta desse filme, Fernando Duarte o convidou para um "papo" com alunos.

A conversa foi boa, os alunos gostaram. E meses depois veio o convite, do mesmo Duarte: um contrato regular, para aulas na universidade. Wladimir foi professor da UnB até 1993, quando enfim aposentou-se. Cinco anos depois, se tornou "cidadão honorário" brasiliense, com título outorgado pela Câmara Distrital –a assembléia legislativa do Distrito Federal.

Rock e arredores
"Quando cheguei por aqui, Brasília já tinha uma história, mas ainda era uma cidade jovem. O que eu percebi é que tudo era muito interessante. Havia muito a se filmar. Não só no interior da capital. Mas em volta. E não só na periferia. Em volta, mesmo, no estado todo, em Goiás, arredores. Havia um Brasil diferente, que nós conhecíamos mal."

Durante os vinte anos em que foi professor regularmente, Wladimir dividiu o seu tempo entre aulas, durante o período letivo, e filmagens, nas férias escolares. Assim nasceram quase todos os seus filmes. Agora, no aniversário de 50 anos da capital, dedica-se a um filme sobre a vida do roqueiro Renato Russo, um dos mais famosos filhos da cidade.

"Nos anos 70 e 80, mandei meus alunos filmarem a cena musical da cidade. Ninguém quis. Então, fui lá eu mesmo. Tenho muito material reunido", conta. "O filme não é sobre uma pessoa, mas sobre movimentos que agitaram a vida de toda a cidade". A cidade que o paraibano Wladimir adotou para si, e viu crescer, de maneira ininterrupta, como poucos.

 

NOTA DO EDITOR

A presente reportagem-entrevista nos foi enviada por Vicente Antônio da Silva e encontra-se no portal http://br.noticias.yahoo.com/especiais/id_wladimir . Seus autores, anunciados na parte superior desta página, por lapso, grafaram o nome Vladimir com a inicial W, quando na realidade é V. Esse detalhe em nada diminui o excelente trabalho jornalístico apresentado.