|
VEM AÍ "CIDADÃO
BOILESEN"
Este
teve o merecido. E os outros?
Em agosto
passado, completaram-se 30 anos da Lei de Anistia. No entanto,
para o cineasta Chaim Litewski, muita coisa ainda precisa ser
discutida. “Os torturadores estão sendo julgados em diversos
países da América Latina, e não no Brasil. É preciso levantar
essa discussão. O que não se pode é fingir que o assunto não
existe”.
O filme,
ganhador do festival de documentários É Tudo Verdade, em abril
passado, é um retrato de um personagem controverso da história
recente do país: Henning Albert Boilesen, um empresário
dinamarquês que se radicou no Brasil e se envolveu com o governo
militar e, quando presidente do Grupo Ultra, ajudou a financiar
a Operação Bandeirantes (Oban) – que prendia e torturava
suspeitos – e acabou assassinado pela guerrilha em São Paulo, em
1971.
“Ele é uma figura que a historiografia oficial
tenta varrer para debaixo do tapete, mas é importante que essa
ligação entre empresários e militares também não seja
esquecida”, assinala o cineasta.
Por
Ana Carolina Castro e Karina
Trevizan
Portal UOL
A Ditadura Militar é uma página
virada na história do Brasil, superada e encerrada. Consenso?
Nem tanto. Afinal, para muitos o passado e o presente ainda se
misturam. O documentário “Cidadão Boilesen”, que fez parte da
14ª edição do festival “É Tudo Verdade”, encerrado em abril,
trata da participação do empresariado paulista na repressão, com
a história de Henning Albert Boilesen, então presidente do grupo
Ultragás, como pano de fundo. Por ser um assunto escondido
debaixo do tapete, o diretor acertou na escolha do tema, que lhe
rendeu o prêmio de melhor documentário no festival deste ano.
O filme, escrito e dirigido pelo jornalista Chaim Litewski,
aponta o financiamento da tortura pelos grupos empresariais,
através do que se passou a chamar de “caixinha da tortura”.
Boilesen, de nacionalidade dinamarquesa e com intensa aversão
aos comunistas, ficou conhecido entre os perseguidos políticos
da época não apenas pela colaboração financeira que dava à Oban
(Operação Bandeirantes), mas também pelo prazer que tinha em
assistir a sessões de tortura. É a ele, inclusive, atribuída a
criação da Pianola Boilesen, um instrumento de tortura que,
acionado por um teclado, emitia descargas elétricas graduais.

REPRODUÇÃO
Esse lado sádico e obscuro de Boilesen, no
entanto, não surgiu com a ditadura brasileira. Litewski realizou
um exaustivo trabalho de pesquisa para compreender a
personalidade do empresário, e foi à Dinamarca investigar a
infância e a juventude do industrial. Surpreendentemente,
descobriu que quando criança, Boilesen gostava muito de
presenciar brigas e de ver seus colegas sendo punidos.
Sua ligação com a repressão fez com que o industrial se tornasse
o número um da lista de alvos dos militantes, seguido pelos
também empresários Peri Igel e Sebastião Camargo. A merecida má
fama fez com que Boilesen fosse assassinado por um grupo
esquerdista na mesma Alameda Casa Branca onde, dois anos mais
cedo, morreu o militante comunista Carlos Marighella,
surpreendido por agentes do DOPS que estavam sob a chefia do
delegado Sérgio Paranhos Fleury, amigo pessoal do empresário
dinamarquês.
Depoimentos
Para dar suporte à narrativa dos
tortuosos caminhos da biografia de Boilesen, o documentário
conta com o depoimento de personalidades significativas quando o
tema é a ditadura, como ex-guerrilheiros, políticos, policiais e
até o filho do empresário. Um exemplo a ser lembrado é o militar
reformado Carlos Brilhante Ustra, que esteve no comando do
DOI-CODI na década de 70. Porém, é de se duvidar que o discurso
seja realmente de autoria própria, pois Ustra é o único
entrevistado que lê o tempo todo.
Outro depoente que participa do filme é o
ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Abusando da segunda
pessoa do plural, FHC articulou seu discurso de forma que se
polarizasse a ditadura entre “o lado de cá e o lado de lá”, o
dos esquerdistas oprimidos e o dos militares agressores. Não foi
essa, no entanto, a intenção do diretor Litewski, que conseguiu
fugir do padrão corriqueiro da maioria das obras artísticas
sobre a ditadura. “Não partimos de conceitos predeterminados. Os
diferentes pontos de vista foram articulados e respeitados”,
explicou Litewski em entrevista concedida ao “Jornal do Brasil”.
Vale lembrar que FHC nunca fez parte de lutas armadas, e se
auto-exilou no período militar por entender que sua liberdade
profissional como professor estava comprometida. ( * )
Há depoimentos também de perseguidos políticos da época se
posicionando, obviamente, contra o então presidente a Ultragas.
Porém, Litewski sabiamente não os coloca em posição de vítimas
inconsoláveis, não apelando para descrições de cenas de torturas
ou closes em cicatrizes. Em vez disso, o filme mostra o que não
é sabido, ou pelo menos o que é menos comentado, sobre os
esquerdistas da ditadura, como a articulação do assassinato de
Boilesen e a comemoração pela morte de algum representante da
direita.
O único que defende Boilesen no documentário é seu filho mais
velho. Ele vê como barbárie o assassinato do empresário e o
defende veementemente, afirmando que as acusações que pesam
sobre o pai são absurdas.
(Reprodução)
15 de abril de 1971: Sobre o corpo, panfletos com a ameaça:
''Como ele, existem muitos outros e sabemos quem são. Olho por
olho, dente por dente''
Presidente do Fórum Permanente dos
Ex-perseguidos de São Paulo, Luis Cardoso, depois de assistir ao
filme exibido na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, no
último dia 20, explica esse ponto: “Eles [militares] praticaram
isso [agressão] com muito mais violência que nós, mas
patrocinados pelo Estado. [...]
Muitos companheiros foram mortos de forma muito mais brutal do
que o assassinado do Boilesen, que eles tanto condenam”. Cardoso
também acusa o presidente Lula de apontar a anistia como
esquecimento e superação da ditadura, e crítica: “Para nós, que
sofremos toda a tortura, a anistia não é esquecimento nenhum”.
Opiniões & Revelações

"O
documentário, tal qual a obra-prima de Orson Welles, é o retrato
de um personagem construído por meio de depoimentos daqueles que
conviveram com ele. A diferença é que Litewski não fala de um
magnata da comunicação mas de um empresário que se envolveu com
a ditadura militar e apoiou financeiramente a tortura de presos
políticos.
Essa figura
controversa, que chegou a ganhar o título de o Homem das
Relações Públicas de 1964, foi presidente do Grupo Ultra - que
produz gás de cozinha - e liderava um esforço para recolher
doações do empresariado paulista para a formação e manutenção da
Operação Bandeirantes - mais conhecida como Oban - que prendia e
torturava pessoas consideradas subversivas.
Tudo isso está
muito claro em depoimentos em "Cidadão Boilesen". O mais
importante é que o diretor dá voz não apenas a ex-guerrilheiros,
como também a militares e ao próprio Henning Albert Boilesen
Jr., que até hoje diz "não saber" porque mataram o pai."
(Portal Globo - 26-11-2009)
Um dos
entrevistados no filme, o historiador Daniel Aarão Reis Filhos,
no entanto, afirma que caminhonetes do jornal "Folha de S.
Paulo" eram cedidas para o trabalho de busca, apreensão e
transporte de presos políticos que eram levados para os porões
da ditadura. "Cidadão Boilesen" sustenta que apenas dois
empresários se recusaram a colaborar com a 'vaquinha' da Oban:
José Mindlin e Antonio Ermírio de Moraes.
(Por Alysson
Oliveira, do Cineweb)
(*) Destaque do editor para a
insignificante participação de FHC contra a quartelada de 1964. |