CONTOS

Fátima Pessoa

Rosa do beija-flor

Amanhece o dia, chove sem parar, o sol parece não querer amanhecer. Encosto o corpo, ainda morno dos lençóis, ao batente da janela, olho pela vidraça da janela, pensamentos se libertam da inércia de uma noite mal dormida, e viajam pensamentos, são entes viajantes ao som da canção "Per amores", na voz suave da Zizi Possi, e faz lembrar todos os amores que perdi - os quais o tempo roubou-me sem perguntar se podia levá-los.

O Senhor destino arrancou num gesto de barbárie a condição de filha, minha mãe nem chegou, a saber, que amo as rosas rubras; meus filhos cresceram tão rápidos - quem gerei, hoje não precisa mais de mim, é dispensável pegar em suas mãos e levá-los ao melhor caminho. Deixei de ser tantos substantivos:- amiga, namorada, noiva, musa, amante...

Tantos pronomes possessivos, os quais há um longo tempo, não sou chamada:- Minha filha, minha amiga, minha companheira.

O tempo amarelou o tule branco – deve ter sido ação da dura realidade do cotidiano. A primeira noite não teve lua nem mel, só excitação - um desejo apressado, onde ele esqueceu que eu era ingênua e pura. O desconforto que senti suportou - heroicamente suportei, sonhando que toda aquela ansiedade, do amado, era apenas amor - e que os beijos, outrora dados no escurinho do cinema, sempre teriam o mesmo êxtase do gosto adocicado do mel, e, que se prolongaria nas madrugadas e pela vida afora. Desencanto... Meus sonhos não encontram cantos para descansar, e de tão cansados, morreram...

Mas estou sã e salva, apesar das cicatrizes, sou hoje uma mulher, uma loba com olhar de águia.

Manhã chuvosa do terceiro Milênio- quase um inverno, mês de maio, aqui estou eu, de Cinderela à escritora Loba Borralheira; foi viagem longa, penosa.

Sinto-me maior, apesar de há muito não ter crescido um centímetro. Descubro que tenho febre, uma febre rara, sui generis para alguns, mas não maléfica, quase um vício, que me faz escrever estórias e histórias-onde as fadas ensinam a encontrar o fantástico mundo da satisfação; - antes ter prazer do que amor sem orgasmo algum.

Joguei fora todos os desencantos, tules e príncipes. O branco foi banido do coração - adotei a paixão pelo vermelho das rosas rubras.

Tantos anos se passaram...

E outra vez venho a cair na armadilha da sedução, e vens tão suavemente, e me pegas, enchendo de beijinhos meu corpo, me colocas no colo, tiras minha roupa - impaciente, como se quisesses me ninar. E assim reiniciamos outra vez o jogo-dança do amor, a simbiótica química de nossos corpos penetra nos poros, invade minha emoção. Somos feitos dos mesmos sonhos?

 

Caí na armadilha da sedução, estou deliciosamente presa, complicada, perplexa com o desatino que é meu bem querer- sou rosa de teu beija - flor, és terra, és meu fogo, minha emoção - meu universo poético.

(18-05-2009)

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O Vôo da fantasia ( O BEIJA -FLOR)
Uma faísca safira, um frêmito de asas, e o minúsculo pássaro - ou seria um inseto? - some como miragem fugaz. Reaparece instantes depois, agora num ângulo melhor. É pássaro mesmo, um dervixe do tamanho do meu polegar com asas que batem 80 vertiginosas vezes por segundo, produzindo um zumbido quase inaudível. As penas da cauda, à guisa de leme, delicadamente direcionam o vôo em três direções. Ele fita a trombeta de uma vistosa flor alaranjada e do bico fino como agulha projeta uma língua delgada feito linha. Um raio de Sol ricocheteia de suas penas iridescentes. A cor refletida deslumbra como uma pedra preciosa contra uma janela ensolarada. Não admira que os beija-flores sejam tão queridos e que tanta gente já tenha tropeçado ao tentar descrevê-los. Nem mesmo circunspectos cientistas resistem a termos como "belo", "magnífico", "exótico".

Surpresa maior é o fato de o aparentemente frágil beija-flor ser uma das mais resistentes criaturas do reino animal. Cerca de 330 espécies prosperam em ambientes diversos, muitos deles brutais: do Alasca à Argentina, do deserto do Arizona à costa de Nova Scotia, da Amazônia à linha nevada acima dos 4, 5 mil metros nos Andes (misteriosamente, essas aves só são encontradas no Novo Mundo).

"Eles vivem no limite do que é possível aos vertebrados, e com maestria", diz Karl Schuchmann, ornitólogo do Instituto Zoológico Alexander Koenig e do Fundo Brehm, na Alemanha. Schuchmann ouviu falar de um beija-flor que viveu 17 anos em cativeiro. "Imagine a resistência de um organismo de 5 ou 6 gramas para viver tanto tempo!", diz ele espantado. Em média, o minúsculo coração de um beija-flor bate cerca de 500 vezes por minuto (em repouso!). Assim, o desse pequeno cativo teria batido meio bilhão de vezes, quase o dobro do total de uma pessoa de 70 anos.

Mas esses passarinhos são duráveis apenas em vida. Quando morrem, seus ossos delicados e ocos quase nunca se fossilizam. Daí o assombro causado pela recente descoberta de um amontoado de fósseis de aves que talvez inclua um beija-flor ancestral de 30 milhões de anos. Como os beija-flores modernos, os espécimes fósseis tinham o bico longo e fino e os ossos superiores das asas mais curtos, terminando em uma saliência arredondada que talvez lhes permitisse fazer a rotação na articulação do ombro e parar no ar.

A outra surpresa foi o local do achado: no sul da Alemanha, longe do território dos beija-flores atuais. Para alguns cientistas, essa descoberta mostra que já existiram beija-flores fora das Américas, mas se extinguiram. Ou quem sabe os fósseis não fossem de beija-flor. Os céticos, entre eles Schuchmann, afirmam que muitas vezes, ao longo da evolução, outros grupos de aves adquiriram características semelhantes às do beija-flor. Os verdadeiros beija-flores, diz Schuchmann, evoluíram nas florestas do leste do Brasil, onde competiam com insetos pelo néctar das flores.

"O Brasil foi o laboratório do protótipo", diz o ornitólogo. "E o modelo funcionou." O beija-flor tornou-se a obra-prima da microengenharia da natureza. Aperfeiçoou sua habilidade de parar no ar há dezenas de milhões de anos para competir por parte das flores do Novo Mundo.

"Eles são uma ponte entre o mundo das aves e o dos insetos", diz Doug Altshuler, da Universidade da Califórnia em Riverside. Altshuler, que estuda o vôo dos beija-flores, examinou os movimentos das asas do pássaro. Observou que, nele, os impulsos elétricos propulsores dos músculos das asas lembram mais os dos insetos que os das aves. Talvez por isso o beija-flor produza tanta energia por batida de asas: mais, por unidade de massa, que qualquer outro vertebrado. Altshuler também analisou os trajetos neurais do beija-flor, que funcionam com a mesma vertiginosa velocidade encontrada nas aves mais ágeis, como seu primo mais próximo, o andorinhão. "São incríveis; uns pequenos Frankesteins", compara.

Certamente eles sabem intimidar: grama por grama, talvez sejam os maiores confrontadores da natureza. "O vocabulário do beija-flor deve ser 100% composto de palavrões", graceja Sheri Williamson, naturalista do Southeastern Arizona Bird Observatory. A agressão do beija-flor nasce de ferozes instintos territoriais moldados à necessidade de sugar néctar a cada poucos minutos. Os beija-flores competem desafiando e ameaçando uns aos outros. Postam-se face a face no ar, rodopiam, mergulham na direção da grama e voam de ré, em danças de dominância que terminam tão subitamente quanto começam.

O melhor lugar para vermos tais batalhas é nas montanhas, especialmente no Equador, em que ricos ecossistemas se apresentam em suas várias altitudes. Sheri supõe que o sentido norte-sul das cordilheiras americanas também crie rotas favoráveis à migração para onde haja constante suprimento de flores. O que contrasta, diz ela, com as barreiras naturais que se estendem de leste a oeste na África, como o Saara e o Mediterrâneo.

Algumas espécies de beija-flor, porém, adaptaram-se a atravessar vastidões planas, onde o alimento é escasso. Antes de sua intrépida migração da primavera para os Estados Unidos e o Canadá, os beija-flores-de-garganta-verme lha reúnem-se no México e empanturram-se de insetos e néctar. Armazenam gordura e duplicam de peso em uma semana. Em seguida, atravessam o golfo do México, voando 800 quilômetros sem escalas por 20 horas, até a costa distante.

A região próxima à linha do equador é um reino de beija-flores. Quem sai do aeroporto de Quito, no Equador, pode ser logo saudado por um cintilante beija-flor-violeta, com pintura de guerra de manchas púrpura iridescentes nos lados da face. A leste da cidade, nas cabeceiras da bacia Amazônica, o beija-flor-bico-de-espada esvoaça na mata portando o bico mais longo de todas as aves em proporção a seu tamanho: mais de metade do comprimento total do animal. Nas encostas do Cotopaxi, um vulcão ao sul de Quito, o beija-flor-do-chimborazo foi avistado acima dos 4, 5 mil metros. Ali ele passa a noite entorpecido em cavernas, pois desacelera seu ritmo metabólico o suficiente para não morrer de fome antes de amanhecer. Mais tarde, aquecido pelo Sol, ele recomeça a se alimentar.

"Quem estuda beija-flores fica irremediavelmente enfeitiçado", diz Sheri Williamson. "São criaturinhas sedutoras. Tentei resistir, mas agora tenho sangue de beija-flor correndo nas veias." (25-05-2009)


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O Beijo do Seminarista

Aquela criaturinha possuía uma beleza ingênua e comovente, meio mocinha, meio mulher.

O seminarista perscrutou o olhar da menina –estavam tão pertos...Ensaiavam para a apresentação do coral na festa da padroeira da cidade. Ele aproximou-se numa ânsia de sentir-lhe o perfume. Os lábios eram delicadíssimos e pareciam esconder uns sorrisos marotos, os olhos puxadinhos lembrando uma figura de Botticeli – misto de castidade mística e de alegria pecadora.Conteve o desejo que se apossara dele, beijar-lhe o rosto, acariciar-lhe os cabelos.Imaginava a suavidade da pele - o desejo forte, intenso foi crescendo na pele ainda adolescente.
 
Conteve-se com pavor do que poderia acontecer. Mas o desejo ficou, teimoso,e brotou tesão. No primeiro instante, após o ensaio, ele correu para alcançá-la no longo corredor que leva aos jardins do colégio. Puxou-a pela mão e beijou-lhe a boca. Ela assustada quase sufocando, indecisa em saber se aceitava ou não, aquele ato de luxúria. Seu primeiro beijo.

O Depois, desse momento ímpar, transformou-a  eternamente  em 'poética'. (01-06-2009)