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CONTO 1

Apolo (endiabrado)

Fátima Pessoa

Como eu já esperava havia e-mail de Henry. Relutei em abri-lo, passeando em círculos pelo escritório. Minha agonia chegava a ser visível- tinha a certeza.

Uma agonia que me acelerava o coração. Mesmo casada há muito anos, não aprendera quase nada sobre relacionamentos. Nem mesmo sei o quanto foi de sério esse caso para Ele.Será que fui para ele maria simples, igual a milhões? Sei que  até meus sonhos e desejos tem poesia e enredo. O sonhar dá cores a vida, mesmo que  minhas estórias não tenham sempre finais felizes.Isso dá o tom do "demasiadamente humano de cada-dia-nosso".

'Desconhecimento' essa seria a palavra mais apropriada, que dou ao meu desatino provocado pela solidão. Sei apenas que por computador e telefone conversei mais do que com qualquer outro homem. Não lhe omiti meus segredos, e de todo o desejo que seríamos capazes de partilhar na cama, do que me satisfazia.

Agora ele teria voltado a Sampa, e nunca me dissera adeus, antes me prometera que estaria uma vez em todos os meses do ano em minha cidade, sua empresa necessitava de sua presença. Entretanto, ficou difícil manter tal perspectiva – o passar dos meses sempre o encontrava virtualmente em lugares distantes do planeta: Alemanha, Emirados Árabes, Holanda, ou mesmo em alguma cidade da Amazônia ou do Nordeste.

Na quietude dessa madrugada, e olhar mudo dos móveis, senti lágrimas intrusas, que pareciam teimar em cair e molhar meu rosto.

Tudo começara pelo mais inocente dos convites: almoçarmos e conversarmos sobre o cotidiano. Afinal, eu só pretendia uma companhia agradável e inteligente, uma fuga da mesmice da vida real. Espantou-me tanta descontração, mas o tempo ensinou-me a achar aquilo uma atitude normal. Para ele, tudo estava sempre bem e nada lhe causava dano. Há pessoas assim, cheias de sorte! Durante horas a fio, trocamos conversas sobre tudo e sobre todos. Tantas horas se passaram que quando ele se chegou a mim, finalmente, e me ofertou um beijo que até hoje sinto, já eram duas e tal da manhã e eu tinha perdido o cansaço, o sono, a vergonha. Só assim se justifica que tenha correspondido aos seus apelos e lhe tenha colocado uma mão no peito, ansiosa para que descaísse para o sexo. Só assim se justifica a fome e a sede que ele me provocou e me levou a deixá-lo despir-me ali mesmo, no elevador do prédio em que ele morava - sem tempo a perder.

Lábios mornos roçaram-me os mamilos, entusiasmaram-me a libido e não me controlei. Agarrei-lhe o sexo com ambas as mãos e afaguei-o com ternura. Afogueado, ele parecia perdido de desejo. Os seus beijos eram violentos de luxúria e a barba arranhava-me a pele. E pronto, tinha arranjado um esfoliante natural do melhor. Ainda por cima beijava maravilhosamente bem e deixava-me a boca, sempre, a querer muito mais.

Na cama despidos de roupas e preconceitos, ele a beijar-me o sexo e eu a gemer de prazer ele decifrou os meus gemidos, e me deu muito mais. Depois, e com a ligeireza que eu lhe pedi, entrou em mim e impaciente quase feroz eu lhe pedi calma! Limitou-se a rir, a abraçar-me e a calar-me com mais um daqueles beijos deliciosos...

Naquela noite, sonhara... (sonhar?) que estaria levitando numa imensidão de sensações, úmida de orvalho, enrolara-se naquela fertilidade de cores e aromas - umidade que me deixara embriagada, nenhum pensamento, apenas movimento, interrompido quando alguém se aproxima e sinto o beijo, não foi necessário abrir os olhos, era Henry, com aquele sorriso de homem endiabrado ao perceber que me enxugara de prazer, ri baixinho como a temer que toda aquela volúpia se desarvorasse. Sorri da própria embriaguês, buscando o olhar e a boca do meu amante. Enrosquei-me naquela ternura, acarinhei seus braços, corpos sob o mesmo tesão, e assim quedei-me longo tempo,mergulhando surdamente naquele ciclone de sentir libidinoso, fome de morder estrelas (...), tão perfeito o momento, que daria para ter certeza de lembrar para sempre.

E a cada encontro real um formigueiro delirante que crescia na rosa púrpura, um fogo que não se vê a queimar a pele, ao fim de nossa união o que nos dava gozo, era a partilha de certa cumplicidade, da existência de um acordo tácito de não existir cobranças entre nós.

Mas ele é um feitor de mulheres, descobriria isso quando era muito tarde para retroceder á minha decisão e luxúria. Eu o adoro, e o amo apaixonadamente – mesmo com todo o brilhantismo de sultão-pós-moderno e dom Juan incorrigível.

Existem amores e existe um amor especial, apenas uma vez em nossas vidas, este tipo de amor é incondicional e ele será para sempre, como uma marca cósmica, uma infinita lágrima de alegria e um abraço sem fim! O difícil é descobri-lo, discerni-lo, em meio às tempestades do nosso coração. Minha intuição me diz que há possibilidade mil de ser Ele esse amor especial em meu cotidiano. Cotidiano tão atribulado e ao mesmo tempo tão solitário...

Resolvi apagar o email, antes de lê-lo... E para que não caísse em tentação, excluí todo o conteúdo da lixeira