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SUCEDIDOS
PAULINHO TRIPA GAITEIRA E
OUTROS SUCEDIDOS
Elpídio Navarro - 1999
NOTA DO AUTOR: Aprendi a contar histórias
sem medo de ser um anti-herói com um amigo: João Franca
Filho. Ele foi um dos maiores contadores de sucedidos
que eu conheci. Sua forma oral de narrativa rica em
detalhes, deixou-me, muitas vezes, certo do grande
artista que ele foi. Era muito fácil para ele deixar os
que o cercavam, horas e horas, sem pestanejar. Na
maioria das histórias ele se “trumbicava” e disso fazia
destaque, sem qualquer vergonha. Claro que também tinha
as suas vitórias, que eram incontestáveis diante da
franqueza com que contava as suas derrotas. Na maioria
das vezes, contava as suas histórias exatamente como
elas se passaram. Também, dependendo da memória e das
conveniências, contava histórias como ele gostaria que
elas tivessem se passado e, ainda, como lhe era possível
contar como elas se passaram. Em todas as formas elas
eram muito verdadeiras. Acho que herdei um pouco de tudo
isso.
EM
TEMPO: Neste trabalho houve, inicialmente, uma
preocupação de alinhar cronologicamente os sucedidos, o
que não foi conseguido.
AINDA “Sucedidos” é a denominação que estou atribuindo
às histórias que não estão no campo da ficção, embora
algumas não tenham acontecido exatamente como as conto.
Viraram UMA VERDADE ENFEITADA.
1
PRAIA DO
POÇO
Se
existe uma localidade que foi importante na minha
infância e juventude, essa localidade chama-se Praia do
Poço, antes litoral norte de João Pessoa, e hoje,
litoral sul de Cabedelo. Sem querer ser saudosista,
durante, pelo menos, quinze anos, esses foram os tempos
dourados da minha vida. De 1944 a 1957, um ano antes do
falecimento do meu pai.
Dessa época, muitas
histórias. Não sei se me lembro de todas, mas quando
lembro de uma, ela torna-se viva, vibrante, eterna. A
história do meu amigo Paulinho Tripa Gaiteira, é um
exemplo. Mas não foi somente ela. Teve muito mais!
Os companheiros e
companheiras de outrora: Bivaldo Araújo, Guido Avelar,
José de Holanda, Orestes Brito, Ivan Cantizani, Aírton
Avelar, Juvêncio Almeida, Paulinho e Celso Ferreira,
Beta, Rosa e Vera Avelar, Vera Ferreira, Ilka e Socorro
Almeida, Sônia Barroca, Eimar, Edinha e Conceição de
Holanda, Maria das Graças Paiva, a quem obriguei a
entrar com toda a roupa dentro do mar, ao açular o meu
cachorro Bomba para cima dela ( ela já me perdoou), as
Zélias de Campina Grande e Miramar e Laurita, essas
últimas, grandes paixões. Também não poderia esquecer de
Helí , Heline e Dázio, além de Bel (Humberto Belzebu) e
Sérgio Rolin. Posteriormente, Celso Pires, Eudoro
Chaves, Onaldo Novais, Nivan Costa, mais conhecido como
Boa Dinda, Enivaldo Miranda (Mago Gilete), Everardo
Gurgel, Lúcio Espinho, as meninas Pedrosa e o pessoal
de Heretiano Zenaide e de Delfino Costa. Os irmãos Betão
e Arnaldinho Avelar; Paulinho e Beto Peixoto,
Manoelzinho Borges e acho que muitos outros estou
esquecendo. Mas não poderia faltar Zenivaldo Padilha,
que escreveu, junto comigo, a seguinte preciosidade
poética, para a qual havia uma música que não era nossa:
Amigo,
Olhe essa praia
E me diga se existe outra igual!
Amigo,
Olhe esse mar
Alem desse lindo coqueiral!
O Poço é como uma "vila"
Com seus humildes barracões
Mas tem moças bonitas
Que roubam corações!
Amigo,
Olhe "Areia Vermelha"
Que fica lá dentro do mar
....................................
E eu disse que não iria abusar do saudosismo, mas parece
que é impossível. É que são fantásticas as histórias
daquela época, porque são impregnadas de lembranças
agradáveis, de pureza, de safadezas gostosas, de
harmonia, de irmandade, sem violência e sem drogas.
Tirando a nossa aventura poética acima, que além de tola
não resultou em nada, pois as únicas pessoas que
cantavam aqueles versos eram os autores, tudo mais
tornava-se uma festa com a participação de todos. Alguém
anunciava: "Vamos a um passeio, pela beira-mar, até à
Fortaleza de Cabedelo?" E a resposta era geral: "Vamos!"
E saía aquela romaria praia afora, moças e rapazes,
meninas e meninos, sem a necessidade de um adulto
responsável pela empresa.
Numa dessas idas à
fortaleza, caminhada com mais de dez quilômetros entre
ida e volta; ao retornar paramos, ainda dentro da cidade
de Cabedelo, numa mercearia, para um lanche: refresco de
maracujá e pão doce. Cada um tomou o seu refresco e
comeu o seu pão , enquanto Dázio tomou quatro copos de
refresco e comeu seis pães doces. Nada demais,
tratando-se de Dázio, pois ele era bastante forte e
alto. Filho do Pastor Firmino, deputado e pastor
protestante, ficava hospedado na Praia do Poço na casa
de Seu Justo e Dona Lu, pais de Heli e Heline, uma
família também protestante. Retomando a caminhada de
volta, havíamos andado cerca de dois quilômetros quando
Dázio alerta o pessoal: "Gente, vamos mais depressa!
Senão termina eu perdendo a hora do almoço!..."
São uma infinidade de
lembranças daquela época. E por serem tantas, elas se
misturam na memória. Como diz a piada: " era um
computador tão velho, tão ultrapassado, que já não tinha
mais memória, apenas uma vaga lembrança!" Vou apelar
para a minha vaga lembrança e tentar relatar as nossas
histórias de veraneio, as festas, as farras, os amores e
até as nossas aventuras sexuais, das quais só se temia a
saudosa blenorragia!
2
INVASÃO
PELO
MAR
Para curar a coqueluche teríamos que (eu e meus irmãos,
sendo o mais moço recém nascido) passear de avião ou
veranear numa praia. Para a época, 1944, em plena
segunda guerra mundial, o mais viável era procurar a
beira-mar. Assim a minha família foi parar na Praia do
Poço, onde permanecemos veraneando por quase vinte anos.
Guardo desse primeiro ano a lembrança dos soldados do
Exército acampados por lá, fazendo rondas, todos
equipados com apetrechos de guerra, despertando assim a
curiosidade dos veranistas, principalmente da meninada.
Éramos muito crianças
ainda para quaisquer atividades noturnas, por isso nos
limitávamos a incursões diurnas pela praia,
principalmente matinais, mesmo porque essa havia sido a
recomendação médica. Alguns tabus nos eram informados:
"Brincar nessas pequenas piscinas cavadas na beira-mar
pode causar impaludismo!" "Cuidado com as caravelas!
Quem é queimado por elas tem febre, frio e dor de
cabeça." "Uma furada do espinho do bagre pode aleijar!"
Mas, na minha imaginação, o perigo maior estava na
possibilidade da guerra chegar por ali, com os alemães
saindo do mar e nos atacando. Se não havia esse perigo,
por que tinha tanto soldado brasileiro vigiando? Essa
preocupação era mais minha, pois eu era o mais velho, já
com a avançada idade de oito anos... E ela aumentou
bastante quando apareceu lá em casa um soldado pedindo
para encher d'água o seu cantil. Enquanto a minha mãe
foi atender ao pedido e eu me vi sozinho com ele,
arrisquei umas perguntas bastante infantis, mas para mim
de vital importância:
- Se os alemães
invadirem por aqui, eles vão chegar de avião ou de
navio?
- Não! De submarino! É
por isso que a gente fica vigiando. Se aparecer algum a
gente avisa para ele ser bombardeado.
O soldado,
naturalmente, estava brincando. Eu, o garoto,
acreditando e ficando bastante impressionado. Lembro de
ter muitas vezes observado o mar, à procura daquele
perigo que eu não sabia como era, apenas que andava por
debaixo d'água. Cheguei mesmo a ter um pesadelo,
sonhando com aquele monstro enorme, todo de ferro,
cuspindo fogo ao sair de dentro do mar.
Passada a guerra,
outro ano, outro veraneio e sem coqueluche. Eu já mais
habituado com as coisas da praia, fui iniciado na
atividade pesqueira ao ganhar a minha primeira pindaúba.
A isca era minhoca, facilmente encontrada com a maré
seca, e o local de pesca eram os barcos ancorados ou as
espias dos currais. Depois, por conta de um pescador
profissional que tornou-se amigo da família,
aventurei-me ir numa catraia até próximo aos arrecifes,
pescar nas tapitangas.
De lá eu podia ver de perto aquele paredão imenso, que
separava o mar de dentro do mar de fora e que suportava
bem aquelas ondas fortes, batendo contra as suas pedras.
Aí lembrei-me dos submarinos alemães. Eles seriam tão
fortes a ponto de derrubar aquele muro e passar para o
lado de cá? Ou seriam tão pequenos que pudessem passar
por aquelas aberturas estreitas chamadas barretas? Mas
por ali era tão rasinho! Com essas preocupações
avistei, bem longe, um navio que se dirigia ao Porto de
Cabedelo. A curiosidade aumentou e eu não me contive.
Senti necessidade de respostas e ali, junto de mim,
estava uma pessoa que sabia de tudo do mar:
- Seu Antônio, se
aquele navio quisesse, podia passar por aqui, pertinho
da gente?
- Podia não! É muito
raso. Ele vai para o porto porque tem um canal...
- Um canal?
- É uma passagem mais
funda.
- E um submarino?
- Eu nunca vi!...
- E um submarino podia
passar para o lado de cá?
- Só se fosse voando!
Está perguntando isso tudo por que? Está com medo?!
- Não, não é isso não.
É que o soldado me disse que estava vigiando para ver se
os submarinos atacavam a praia!
O
pescador riu muito e notando que eu estava sem graça,
com cara de besta, tentou explicar:
- Ele estava brincando
com você!
- Mas ele disse
sério...
- Sério coisa nenhuma!
O que aqueles soldados faziam na beira-mar era tomar
cachaça e namorar!
Muito tempo
depois ouvi de um amigo mais velho, que na época da
guerra havia sido convocado e levado para uma espécie de
centro de treinamento chamado Aldeia, em Pernambuco, as
histórias da sua participação na preparação para ir ao
palco do tal conflito mundial, onde ele nunca foi!
Eram histórias não muito diferentes das informações
que me foram dadas por Antônio Amarelo, o pescador.
Depois disso, toda vez que vejo um desfile cívico de
ex-pracinhas, a primeira imagem que me vem à mente é a
de um submarino!
3
SONHOS
&
PAIXÕES
A
primeira vez que ao acordar lembrei-me de um sonho
inteirinho, com todos os detalhes, eu ainda era menino.
O caminhão de Seu Everaldo, cujo nome ele ostentava na
frente da boléia de madeira e nas laterais da carroceria
informava em grandes letras que Fazem-se Mudanças,
estacionava próximo à minha casa na Rua da República, em
frente a da vizinha que era irmã do motorista
proprietário. Costumávamos, eu e meu irmão Ednaldo,
brincar dentro da boléia do caminhão de Seu Everaldo
enquanto ele almoçava, tendo o cuidado de cair fora
antes da sua volta. Um dia, ou por termos esquecido do
tempo ou por ele ter voltado antes da hora habitual,
fomos surpreendidos com a boca na botija. Nos
repreendeu, dizendo não ser aquele um local para se
brincar, pois poderíamos causar um sério desastre, com o
caminhão descendo ladeira abaixo, podendo matar
pessoas, inclusive a nós mesmos. Que não iria enredar à
minha mãe, mas que nós nunca mais voltássemos a mexer no
caminhão dele.
Quando acordei no
outro dia estava gravado na memória o meu primeiro sonho
lembrado. Parecia que ainda estava vendo: o caminhão
descendo desembestado a ladeira da Fábrica de Bebidas
Sanhauá, colidindo com a ponte do rio de mesmo nome e
caindo dentro da lama do mangue. No sonho, um sentimento
de culpa; ao acordar, o alívio de ter sido um sonho.
Temendo ter que
explicar a razão provocadora do sonho, contei-o somente
à Severina, a cozinheira lá de casa, que, viciada no
jogo do bicho que era, foi logo decifrando:
- Vai dá elefante! É o
maior bicho que tem. É o que chega mais perto do tamanho
do caminhão!
A moeda de duzentos
réis que eu ganhara de um tio e que estava guardada,
esperando a chegada de um pequeno cofre de madeira
prometido, foi, por indução de Severina e
desconhecimento da minha mãe, usada para jogar no bicho.
À tardinha estava lá na tabuleta: elefante! E os meus
duzentos réis transformados em quatro mil réis. Que
azar! Estava rico e tinha que esconder o fato. Separei
uma moeda de duzentos réis e guardei no mesmo lugar da
outra. Dei mil réis para Severina. Com os dois mil e
oitocentos réis restantes, enchi o rabo de sorvetes e
picolés, o que resultou num resfriado violento, com
febre e garganta inflamada, deixando-me alguns dias de
cama...
Depois veio a
adolescência com muitos sonhos e paixões impossíveis.
Levei muito tempo para esquecer a mocinha e a música do
filme "Sempre No Meu Coração". Mas esqueci... Das
primeiras namoradas lembro alguma coisa. Ziléia, Magaly,
Socorro... Socorro Gonçalves era de Campina Grande e
passava as férias em João Pessoa. Foi a minha grande
paixão daquela época. Dela ouvi, pela primeira vez, como
desculpa de alguma coisa errada, o manjadíssimo "errar
é humano, persistir no erro é burrice", declaração que
me deixou orgulhoso de estar namorando uma moça que
tinha conhecimentos, que dizia coisas bonitas... Depois
disso, nunca mais disse nada que chegasse a me
impressionar! Enquanto adolescente, só sonhei
acordado...
Já rapaz feito tive
outras paixões, porém sonhos lembrados nunca mais. Se os
sonhei não lembrei no outro dia, como aquele do caminhão
virado. Das paixões que se seguiram, nunca esqueci: a
prima Verônica lá no Recife; Zélia, Laurita e Vera, na
Praia do Poço; Aline Furtado, na Ladeira da Borborema...
Essa a maior, a mais intensa, a mais louca das minhas
paixões! Depois, já mais amadurecido, aconteceram
Glorinha, com quem eu deveria ter casado, e Marileide,
com quem casei a primeira vez.
Para
Glorinha, em 1957, na Escola de Agronomia, na cidade de
Areia, escrevi o meu primeiro e único poema de amor:
SOLIDÃO
A minha noite
encontrou-me desarmado de alegrias.
A minha noite
acomodou-se às minhas ausências.
À minha noite
restaram as sobras das manhãs,
versos ao acaso/ocaso,
pensamentos em versos/diversos:
O pássaro que cantava no alto
da árvore que ficava ao lado,
cantava triste,
como as minhas tardes de abril
distante da mulher amada.
Maior tristeza,
só a enorme saudade dos nossos efêmeros encontros.
Não era escura a noite,
nem silenciosa.
Numa miscelânea de voz, luz e movimento,
a cigarra, a lua e a mariposa,
davam-lhe calorosa recepção.
A cigarra,
por que canta tanto?
A cigarra me conduz ao longe
com o seu canto ininterrupto
que lembra o apito do trem:
o trem apita, pára, volta a correr,
pita, pára, volta...
A cigarra canta para morrer!
E eu se pudesse agora
estar
ao lado dela a olhar a lua
e sentir o calor das suas mãos
entrelaçadas às minhas tão seguras...
Se eu pudesse abraçá-la
contra mim bem forte,
para ter a certeza da sua presença...
(Acendo um cigarro
e lembro que ela não gostava
da fumaça.
Lembro que sorria
quando cigarro ao longe eu atirava.
Lembro dela em tudo,
até nos meus vícios.)
Seduzida pela lâmpada
a mariposa gira, gira, gira,
sem cessar,
embriagando-se com a luz.
Por que não procurar a lua,
com sua brancura bela,
com sua tristeza fria?
(Lembro de uma noite,
quando nos olhava a lua,
tristonha,
pedindo um pouco do nosso amor.)
O pássaro sumiu.
A cigarra morreu.
A lua desapareceu.
A mariposa parou.
Estou só.
A minha noite
convida-me ao sonho/pesadelo...
Agora, mais de cinqüenta anos depois do sonho do
caminhão virado, volto a lembrar-me de um sonho ao
acordar, com a mesma nitidez do primeiro. Sonho que
certamente foi sonhado por conta da difícil situação
financeira e das decepções sentimentais, nas quais me
envolvi ao aproximar-me da velhice. Lembro claramente de
um casarão com um enorme quintal, que parecia mais uma
granja ou um sítio grande, onde uma grande festa
comemorava o meu casamento com Maria Gorete, que tinha o
rosto de Walesca, ambas minhas amigas e paixões que
nunca existiram. Na festa de muitos participantes,
desfilavam todos os antigos e mais recentes amores,
menos um, secreto, como se eu o escondesse até nos meus
sonhos, como se a auto-censura valesse para os sonhos!
Lá estavam também vários agiotas, comerciantes, alguns
amigos, todos a quem eu devia algum dinheiro. Eles não
se divertiam... Devidamente vestidos a caráter, feitos
garçons, serviam às convidadas. Sim, porque comendo e
bebendo só mulheres! ( Era, realmente, um sonho! ) A um
canto, numa cadeira de balanço, a nova esposa que tinha
o rosto de outra, ninava o meu filho Bruno com já sete
anos de idade. Aproximei-me, beijei o meu filho e quando
fui beijar a nova esposa, recebi o beijo de uma garota
de doze anos, de lindo rosto, que eu já havia visto em
algum lugar. Também nesse sonho tudo era grande: a casa,
o quintal, as mulheres, os cobradores e, maior ainda, o
beijo da garotinha, um beijo de doze anos! Joguei dez
reais. Não deu elefante!
4
A
BOTIJA
A nossa casa, na rua da República, 275,
tinha um enorme quintal que terminava numa rua lateral
da Cadeia Pública, que depois virou Secretaria de Obras
Públicas e atualmente hospeda a Central de Polícia.
Muitas fruteiras: mamão, banana, cana caiana, manga e
abacate além de uma horta, plantada com coentro, alface,
berinjela, pimentão (tinha um pimentão com o formato de
estrela, por isso a gente chamava de pimentão
estrela e que se comia sem precisar ir ao fogo, como
se fosse uma fruta e até docinho era!), que eram
consumidos em casa, presenteados a parentes e até
vendidos ao verdureiro da rua. Certa vez, um ladrão
levou um canteiro inteiro de coentro que meu pai tinha
deixado para tirar sementes! No dia de São José, se
plantava milho e feijão verde, para colher pelo São
João. Fazia gosto ver o milho embonecado e feijão
florido. Minha mãe vivia preocupada com o povo que
passava na rua e parava para admirar a plantação: medo
de botarem olhado...
Muito preso à barra da saia da minha mãe, fui castigado
várias vezes por fugir de casa para brincar com a molecada
da vizinhança. Lembro que um dia, de baladeira
(estilingue) na mão e destinado a caçar
passarinhos no Escorrego (pedaço de mangue
existente nas proximidades e hoje Estação Rodoviária de
João Pessoa), fui pular o muro de trás, que dava para a
Cadeia: empilhei uns tijolos, fiz força para subir e
alcançar a parte de cima do muro, que não suportando meu
peso quebrou-se, vindo atingir a minha cabeça comigo já
caído no chão. Foi um alvoroço quando cheguei em casa
todo ensangüentado e chorando. Os tijolos haviam feito
cortes na testa e na coroa da cabeça. Minha mãe
examinou, viu que eram superficiais e levou-me para o
banheiro para que eu tomasse um banho. Terminado o
asseio, limpou os ferimentos com Água Rabelo, passou
mercúrio cromo e em seguida deu-me uma surra com a corda
de armar rede! O castigo funcionou, pois nunca mais
tentei tal empresa.
Já
meu pai não batia. Castigava diferente, privando-me de
presentes, de ir ao cinema aos fins de semana, de
dinheiro para picolé e para o doce americano.
Não sei quais dos castigos doía mais! Também usava de
alguns artifícios (psicologia?) para conter as minhas
traquinagens. Uma delas era dizer que viu, no fundo do
quintal, um padre montado numa mula sem cabeça, que
pegava menino fujão para levar para um
lugar muito ruim e distante. Cheguei a sonhar perseguido
por um padre sem cabeça (mistura do padre com a mula) e
salvo por um tio que, antes de morrer, era muito apegado
comigo. Durante algum tempo, nem olhar para o fundo do
quintal eu olhava!
Meu
pai construiu numa das laterais do quintal, uns
quartinhos, a princípio destinados aos empregados da
casa, como também para servir de
depósitos para equipamentos e materiais
da horta. Depois, por insistência de uma pessoa
conhecida, alugou um deles (eram quatro). Posteriormente
o inquilino mudou-se, deixando vago o tal cômodo.
Chegaram lá em casa marido e mulher, que já passavam dos
cinqüenta. Gente por todos nós desconhecida. Propuseram
alugar o quarto desocupado, pagando adiantado e logo
anunciando: “Ficamos se o senhor permitir que a gente
desenterre uma botija que a minha mulher sonhou estar
enterrada aqui no seu quintal. Daremos uma parte do
achado ao senhor. Isso feito, iremos embora.” Meu pai,
que não acreditava nessa coisa de botija, argumentou que
cavar buracos no terreno, poderia prejudicar as plantas,
no que foi rebatido: “Não vai acontecer assim. Está num
lugar descampado e só vai ser um buraco que taparemos
depois e pronto! Se ninguém achar nada, vamos embora.”
Como era só um buraco e o pagamento da mensalidade era
adiantado, dinheiro que era honesto e necessário, meu
pai arriscou e cedeu o quartinho ao casal. A minha visão
do momento, de toda aquela história, era fascinante. Já
imaginava toda a riqueza que iríamos receber e que
poderíamos até comprar um carro! Por vários dias demorei
a dormir, olhando pelas brechas das venezianas da sala
de jantar, tentando vislumbrar algum movimento que
indicasse os velhos cavando um buraco. Nada! Alguns dias
depois desisti da espionagem. Alguns dias depois também,
quando acordamos, o quartinho dos velhos estava vazio e
a chave na porta aberta. Isso indicava que eles tinham
ido embora. Buscamos indícios no quintal, alguma
resposta, e lá estava ele, entre uma latada de cana e um
mamoeiro. Tão bem feito que parecia um túmulo aberto. Um
buraco com mais de metro de fundo, que eu soube depois,
quando, escondido de todos, pulei dentro. Não cumpriram,
os velhos, a palavra dada de que tamparia o buraco e se
acharam alguma coisa, ficamos sem nada. Meu pai foi logo
decretando: “Não acharam nada! E como não acharam, foram
embora, como haviam avisado. Não taparam o buraco por
preguiça. Gente sem palavra!”
Quando, escondido de todos, pulei dentro do buraco,
procurei e encontrei uma moeda, escura, suja, já por mim
conhecida: vintém. Na época não valia mais nada. O
buraco serviu para botar lixo, por determinação
superior. Agora, pergunto ao desavisado leitor, que está
lendo essa história por falta de coisa melhor para
fazer: havia botija ou não? Resolva!
5
APELIDOS
Eu menino ainda meu pai sempre prevenia: "Não dê atenção
a apelidos. Você dando importância ou reclamando, aí é
que o apelido pega..." Naquela época os apelidos mais
em voga eram de pessoas idosas ou gente do miolo mole.
Tinha Pombú, da qual nunca soube a razão do
apelido, que corria atrás da meninada, armada com uma
sombrinha e, quando alcançava, batia mesmo. Peguei-te
era uma professora que morava e dava aulas particulares
na Rua Amaro Coutinho. Essa correu para pegar o bonde do
comércio, que parava em frente ao edifício do Correios e
Telégrafos, e ao alcançá-lo gritou: peguei-te! Nunca
mais foi chamada pelo verdadeiro nome. Ela dando aula, a
meninada passava na porta e gritava o apelido, não dava
noutra: saía com uma vassoura para agredir quem
encontrasse pela frente. Certa vez eu vinha com um
grupo de colegas que me empurrou em cima da porta de
Peguei-te. A porta abriu-se e eu fui cair no meio
da sala dela, praticamente aos seus pés. Só tive
uma saída: comecei a chorar inventando uma dor no braço
devido a uma pancada com a queda, ao mesmo tempo que
acusava os colegas de terem feito aquilo. Ela era uma
alma boa e preocupou-se comigo, foi buscar água,
examinou meu braço e depois me liberou. Na rua da
República, onde eu morava, havia uma carvoaria, cujo
dono reagia com o ciscador com o qual juntava o carvão.
Nessa época corria um ditado popular que dizia assim:
"Quer matar papai, oião? ". Era a mesma coisa de dizer
"estás conversando?" O carvoeiro, que chama-se Joaquim,
vivia com uma mulher chamada Maria, que perguntava muito
a ele: "Quinca! Quer bolo?" Assim surgiu o apelido mais
comprido que eu conheci até hoje: o, Quinca quer
bolo, Maria quer pão. Quer matar papai oião? Era um
apelido chamado por dois. Um de um lado da rua gritava
Quinca quer bolo, do lado contrário outro
afirmava Maria quer pão e os dois concluíam
quer matar papai oião? Seu Joaquim saía empunhando
o ciscador e ficava sem saber pra que lado correr! Certa
vez ele conseguiu acerta com o ciscador nas costas de
um menino e deu uma confusão dos diabos, com polícia e
tudo! A sorte do garoto foi que o ciscador bateu com a
parte das pontas para cima. Havia também as pessoas que
reagiam verbalmente: Carbureto chamava os
agressores de frescos, cornos e filhos da puta, enquanto
Sôia gritava que sôia era o cu da mãe ,
que sôia era o que a mãe da pessoa que apelidava
tinha entre as pernas! Tinha ainda Garapa, Pão
de Bico e mais recentemente Vassoura, que se
auto-apelidava de Isabel Maria Bandeira Brasileira, e
que também gostava de presentear quem a chamasse pelo
apelido com alguns palavrões. Já nessa época
Mocidade, o intelectual e orador, e Mané Caixa
D'água, o poeta, não se incomodavam de ser chamados
por esses nomes. E tudo foi mudando até aos dias de
hoje,
com o desaparecimento dessas figuras
fantasticamente apelidadas.
Quando do meu tempo na Escola de Agronomia do Nordeste,
em Areia, muitos apelidos surgiram e as pessoas não
davam importância e, pelo contrário, até atendiam quando
as chamavam: Ronaldo Luna Freire era Porca Russa,
talvez pelo jeito bonachão dele; José Severino era
conhecido como Alma Fresca devido à sua voz
rouca; Francisco Medeiros era Chico Pereba, não
sei por que; Bonifácio Rolin, de pouca estatura e
gordinho, o apelidaram de Bufa de Anum e até a
mim, por ter uma coroa de ouro na boca, tacaram o de
Boca Rica, do qual não fiz a menor questão. Das
pessoas mais próximas, meu irmão Ednaldo Navarro era um
campeão de alcunhas. Logo cedo botou na cabeça de que
queria ser tenente e meus pais providenciaram um
fardamento militar para ele e assim, ainda criança,
arranjou o apelido de Tenente; mais tarde, já no
início da adolescência, veraneando na Praia do Poço,
apresentou-se diante de um grupo de garotos e garotas
mais preocupados com namoricos do que com qualquer outra
coisa e, ostentando um "enfieira" de peixes que acabara
de pescar numa lagoa das proximidades chamada de
areieiro, gritou para o pessoal: "traíra! " Não
é preciso dizer com que apelido ficou... Ainda na Praia
do Poço, já adulto, torcendo pelo time de voleibol da
localidade, que já havia perdido os dois primeiros
sets e naquele momento ia perdendo o terceiro por 14
a 1, gritava com todos os pulmões: "Bóra Poço, Tambaú
não é de nada!" Durante algum tempo ficou com o apelido
de Bóra Poço!
Dos apelidos da minha
juventude, restou uma tentativa de poesia escrita para
um concurso literário, ao qual não chegou a concorrer:
APELIDOS
I
Na
esquina do cinema,
que ficava do lado esquerdo,
Toinho chamava o apelido:
-"Quinca
quer bolo?"
Do
outro lado,
do
lado da fábrica de guaraná,
Daniel afirmava:
-
"Maria quer pão!"
E
os dois:
-
"Quer matar papai, oião?"
E
o velho carvoeiro Joaquim,
dando de garra ao ciscador
de
puxar carvão,
era todo indecisão:
a
quem perseguir primeiro?
A
vizinha da frente,
beata da Igreja da Conceição,
acorria justiceira:
-
É uma falta de respeito,
uma violência, uma
agressão,
um
caso de polícia!
II
-
Peguei-te!
Exclamou a professorinha,
ao
alcançar o bonde
que já estava de partida.
O
casto português
lhe valeu o apelido:
"Peguei-te!"
Começava ali o seu martírio:
-
Amendoim torradinho! "Peguei-te!"
(Gritava o menino na rua
e
o vendedor de cavaco chinês
-
"Peguei-te!" Olhe o cavaco!
Revoltada, a professorinha,
de régua em punho,
perseguia seus desafetos.
-
Caso de polícia!
Uma agressão, uma violência!
Determinava o guarda da
Prefeitura.
III
Na praça, desesperada,
a
anciã esbravejava,
ameaçando com uma pedra:
-
"Pombú" é o cu da mãe!
E
perseguia o estafeta
que entregava telegramas
na zona comercial.
-
É uma falta de respeito,
(sentenciava o dono da funerária)
logo
um funcionário público!
Agressão, violência, um caso de polícia,
eram os apelidos da minha infância.
Que saudade!
6
SEXO
E
NAMORO
Já
faz muito tempo, coisa de sessenta anos, que namoro era
namoro mesmo. Era conversar, conversar, conversar e
pegar na mão da namorada com o maior tesão do mundo.
Beijar? Acontecia como acontecia o Carnaval: uma vez por
ano. E, geralmente, na testa, no rosto ou na mão.
Aliás, hoje, nem o carnaval é mais uma só vez por ano!
Tive uma namorada que me contou que quando foi beijada,
na boca, pela primeira vez, achou que poderia engravidar
e levou um tempão para tirar isso da cabeça!
Sexo mesmo, com a namorada de verdade, aquela desejada
para o futuro, imaculadamente mantida numa redoma de
fino cristal, não podia acontecer. Se alguma induzisse
ou permitisse ao namorado maiores intimidades, corria o
risco de ficar falada, do namorado deixar de acreditar
na honradez e virgindade da namorada. "Se ela deixou eu
pegar nos seios (naquele tempo dizia-se seios), já pode
ter deixado outros pegarem também!"
Do outro lado, do lado delas, a afoiteza do rapaz
poderia gerar várias reações. "Ele me desrespeitou, vou
contar ao meu pai." Grande bronca com conseqüências
imprevisíveis: de um casamento forçado a ficar sendo
evitado por outras moças.
Claro
que algumas garotas não se importavam de ficar faladas e
facilitavam as coisas. Mas não eram namoradas. Eram de
quem chegasse primeiro. Lembro de uma que ia para o
cinema só pra se deixar bolinar. Algumas vezes a vez foi
minha. Mas não passava de uns amassos sem maiores
aprofundamentos entre adolescentes de, no máximo,
treze anos.
As exibições de filmes eram sempre interrompidas devido
a falhas no projetor ou uma fita partida. As luzes da
platéia acendiam e a meninada levantava-se numa enorme
gritaria, uma forma de protestar, só voltando a
sentar-se com a volta da projeção. Numa dessas matinês
estávamos sentados em volta da tal jovem facilitadora
dos nossos instintos bestiais. Eu, na cadeira que ficava
atrás dela e mais dois amigos, que haviam se antecipado,
sentados um de cada lado. Todos querendo tirar uma
casquinha... Em dado momento a fita quebra. Todos
de pé, inclusive a nossa presa. Eu, por pura e inocente
maldade, levantei o assento da cadeira onde ela estava
sentada e quando o filme recomeçou a jovem sentou no
vazio, escangalhando-se no chão. Foi uma grande
confusão. Ela partiu para acusar os dois garotos que
estavam ao seu lado, criando uma situação que levou o
cinema a parar a sessão, acender as luzes para
verificar o que estava acontecendo, culminando com a
retirada do cinema da garota e dos seus dois algozes. Eu fiquei no
meu lugar bem quietinho, morrendo de medo que alguém
tivesse percebido a minha sacanagem. E ainda ouvindo os
comentários: "dá nisso querer garanhar logo com dois de
uma vez! " "Eu acho que algum dos dois meteu o dedo e
ela não gostou..." "Ela é safada mesmo, não tem nada que
reclamar..."
7
PAULINHO
TRIPA
GAITEIRA
Conheci Paulo Alves da Nóbrega no grupo teatral amador
TEP - Teatro do Estudante da Paraíba, isso lá pelos idos
de 1954. Paulinho era riograndense do norte, das bandas
de Caicó. Depois, por ele influenciado, fui bater com
os costados na Escola de Agronomia do Nordeste, na
cidade de Areia, onde fizemos vestibular para o curso
agrotécnico, chamado popularmente de Capa Gato. Foi ali
que ele arranjou o apelido de Tripa Gaiteira, devido ao
excesso de peidos que soltava e, o mais engraçado, pelo
fato de queimá-los assim: erguia um pouco as pernas,
acendia o isqueiro e largava o pum em cima da chama.
Aparecia, então, um facho de luz azulada na escuridão do
quarto do nosso alojamento. Paulinho não conseguiu
aprovação no vestibular e resolveu ir embora para a sua
cidade natal. Desde então, nunca mais nos encontramos.
Ficaram as lembranças das brincadeiras, dos veraneios na
Praia do Poço, das peças de teatro, enfim, da alegria
que ele passava.
Na época, o Poço era uma praia para veraneio,
residindo lá apenas pescadores. As casas, na sua
maioria, tinham cobertas de palha, quando não eram toda
feita de palha. Meu pai resolveu cobrir a nossa com
telha de barro e foi preciso derrubar um coqueiro que
existia na frente da casa, para evitar que o cocos
caídos danificassem o novo telhado. Derrubar o coqueiro
não foi grande trabalho como seria o de arrancar o seu
tronco, cujas raízes eram por demais profundas. E o
tronco foi ficando lá, sob o protesto do meu pai, que
reclamava da minha indiferença para com o problema.
Num dos fins de semana que Paulinho foi passar lá em
casa, no Poço, ouviu as reclamações do meu pai. Por
conta disso propôs-me que, tarde da noite, quando todos
estivessem dormindo, a gente saísse e fizesse o serviço
reclamado. Depois esconderíamos o tronco arrancado, para
que, no outro dia, houvesse uma surpresa geral. Eu topei
logo a brincadeira e fiz todos os preparativos: pá,
enxada, foice, tudo colocado em local estratégico, sem
faltar também uma garrafa de Vinho Imperial e uma lata
de Viandada. A noitada estava preparada!
Como havíamos planejado, após todos da casa terem ido
dormir saímos de mansinho e demos início à nossa
aventura. Cavamos em volta do tronco do coqueiro durante
mais de uma hora, até quando uma fina chuva começou a
cair. Já passava da meia-noite e, por conta da chuva,
resolvemos parar um pouco e tomar o nosso vinho. Para
isso nos abrigamos na biqueira da casa, numa lateral
que dava para um grande terreno baldio. Em dado momento,
começamos a ouvir um grito lacerante, vindo lá de trás,
do lado das casas dos pescadores. Apuramos o ouvido e
concordamos que alguém estava a gritar, de forma
desesperada: "Mataram minha mãeeeeeee..."
Ainda estávamos tentando confirmar a
nossa audição, quando um vulto, vindo do lado de onde
vinha o grito, atravessou o terreno, portando uma
foice. Nos olhou e seguiu em direção à beira-mar.
Ficamos bastante temerosos e, para aumentar o nosso
temor, novamente ouvimos o grito de "mataram minha
mãeeeeeee", dessa vez sem deixar quaisquer dúvidas. Nos
perguntamos: o que fazer? Já pensando em procurar o
comissário de polícia fomos, de novo, alertados por
vultos que se aproximavam. Eram dois homens, vindos do
mesmo local do primeiro. Também ao passar olharam para
nós, seguindo em direção à praia. Mais intrigados ainda,
começamos a planejar a nossa ida à procura de socorro,
considerando que teríamos que cruzar o local do crime,
caso procurássemos o comissário de polícia. Mais um
grito de "mataram minha mãeeeeeee" e a volta do
primeiro homem que passou. A essa altura, mil
conjecturas fazíamos do que teria acontecido e, por
precaução, resolvemos aguardar os acontecimentos onde
estávamos mesmo, e esperar a volta dos outros dois que
haviam passado depois. Ficamos dando tempo ao tempo e,
de vez em quando, ouvíamos "mataram minha mãeeeeeee"!
A manhecença do
dia já dava sinais quando resolvemos unir nossas doses
de coragem e enfrentar a situação. Bravamente seguimos
em direção do "mataram minha mãeeeeeee", após
concluirmos que o assassino não estaria mais por lá e
sim um filho que chorava a morte da sua mãe.
Um novo "mataram minha mãeeeeeee" aconteceu em cima da
gente, causando a grande decepção: tratava-se de um galo
velho cantando! O cucuricar da ave soava aos nossos
ouvidos como um grito de dor! Voltamos com a cara no
chão, putos da vida com a porra do galo e mortos de
sono. Das pessoas que passaram por nós nunca ficamos
sabendo quem eram, nem o que estavam fazendo, mesmo
porque nada estava acontecendo. Nossa trágica fantasia
policial evaporou-se e, sem mais ânimo para o trabalho,
nos restou, apenas, deixar o tronco do coqueiro para
outro dia, guardar as ferramentas e dormir.
Quando acordamos já passava das dez horas. Fiquei
imaginando as reclamações do meu pai, cedo da manhã, ao
se deparar com a buraqueira que deixamos á frente da
casa. Fomos para a mesa tomar café e esperar os
comentários. Ninguém disse nada, nem uma palavra. Nem
meu pai, nem minha mãe. Achei tudo muito estranho e
imaginei que talvez eles tivessem considerando a
presença de Paulinho e não quisessem ralhar comigo na
frente dele. Terminando o café, o meu companheiro de
noitada saiu lá para a frente da casa. Fiquei, sozinho,
na mesa, aguardando o carão e ninguém veio me reclamar
nada! Aí, vindo lá de fora, volta o meu amigo Paulinho
Tripa Gaiteira e
pergunta:
- Camarada, me diz uma coisa, porque eu acho que estou
ficando doido!
- O que foi que houve?
- A
gente arrancou aquele tronco?
- Claro que não! Tá ficando doido mesmo, não é?!
- Tem certeza?
- Que loucura é essa, Paulinho? Por que?
- Ele não está lá não!
- Ele quem?
- O tronco!...
- Tá conversando!...
- Vá olhar!
Levantei-me apressado e fui até lá fora. O canto mais
limpo! Nem tronco, nem buraco, nem vestígios! Meus pais
estavam sentados no alpendre, sérios, falando de outros
assuntos. Perguntaram-me se eu não iria aproveitar a
praia porque estava um sol tão bonito, coisas assim.
Aceitei a sugestão e saímos, eu e Paulinho, para a
beira-mar, bastante intrigados com a situação. Não
demorou muito uma nova surpresa. Lá, a uns cem metros
em direção ao norte, avistamos ele, o tronco, olhando
pra gente, como se estivesse rindo da nossa basbaquice!
Depois meus pais
contaram tudo: haviam acordado de madrugada e
presenciado, através das venezianas da janela do
quarto, toda a nossa atividade, inclusive ouvido a
nossa conversa sobre o "mataram minha mãeeeeeee". Bem
cedo da manhã, juntaram-se com a empregada Beatriz e o
marido dela, o pescador Antônio Amarelo, fizeram o resto
do serviço e ficaram esperando a nossa reação quando
acordássemos. Foi então que Paulinho Tripa Gaiteira me
fez outra proposta, que, naturalmente, eu não topei:
- Hoje à
noite, vamos trazer o tronco de volta e enterrá-lo no
mesmo lugar?
8
O
PRESIDENTE
LOURO
Ainda estávamos servindo ao Exército, eu
e Ruy Eloy, quando o Teatro do Estudante da Paraíba
decidiu participar, pela primeira vez, de um festival de
teatro. Seria na cidade de Natal, Rio Grande do Norte, o
I Festival Nordestino de Teatro Amador: o ano, 1955; a
peça, Festim Diabólico de Patrick Hamilton e a
direção, Joel Pontes. Ruy Eloy fazia parte do elenco,
enquanto eu cuidava da parte técnica e, por isso, o
Governo do Estado, que nos patrocinava, solicitou ao
comando do 15 R I , Regimento de Infantaria onde
prestávamos serviço militar, a nossa dispensa, o que foi
concedido. Por conta disso quando chegamos a Natal todo
o restante do grupo já se encontrava lá, ambientado e
bem à vontade, enquanto nós iríamos passar por aquele
período de adaptação. Principalmente Ruy Eloy, que era
muito menos da gandaia do que eu.
Mas a prova
de fogo veio logo no primeiro dia: ir
visitar o cabaré de Maria Boa, um dos pontos
turísticos da cidade, na época. Uma visita diurna,
só para uma cervejada, mesmo porque éramos estudantes
sem muito dinheiro. Ruy Eloy, parecendo mais um bode
puxado para dentro d’água, demonstrava preocupação, pois
era o Presidente do Teatro do Estudante e deveria
participar, dentro de poucas horas, da solenidade de abertura
do festival, talvez até fazer um discurso, e, naquele
momento, meio-dia, ainda estava num cabaré tomando
cerveja.
Foi quando
juntaram-se Elcir Dias, Arlindo Delgado e Sósthenes
Kerbrie e armaram uma presepada: enquanto dois deles
convenciam a Ruy de molhar ou lavar a cabeça, com o
objetivo de melhorar suas condições de participar da
solenidade, um outro foi a uma farmácia e comprou um
vidro de água oxigenada. Feita a mistura numa bacia,
conduziram Ruy até ao sanitário e o ajudaram a lavar os
cabelos. Ruy voltou para a mesa, satisfeito, anunciando
que estava se sentindo melhor e que iria parar com a
cerveja. O efeito não demorou a vir e, à tardinha,
tínhamos um presidente louro nos representando. Ruy
assimilou bem a brincadeira, porém muito preocupado com
sua volta ao quartel, de onde havia saído com os cabelos
pretos.
9
O
TAMANHO
DAS
CADEIRAS
O
Theatro Santa Roza foi, por muito tempo, dirigido por
Walfredo Rodriguez, um misto de historiador, fotógrafo e
colecionador. Tinha a fama de ranzinza e vivia em
conflito com o pessoal do Teatro do Estudante da
Paraíba. Havia quem atribuísse a ele a responsabilidade
de ter serrado ao meio as enormes portas da frente do
secular casarão, com o objetivo de, fechando as partes
de baixo, impedir a entrada de pessoas, e deixando
abertas as partes de cima, permitir a entrada de ar e
luz. Ele se defendia acusando um funcionário que, por
ser ignorante, serrou as portas com S, quando ele havia
mandado cerrá-las com C...
Comigo ele mantinha um
razoável entendimento, pois eu era novo no grupo e, por
outro lado, ele conhecia meu pai, a minha família há
muito tempo, o que, na verdade, não queria dizer nada:
apenas eu nunca o tinha afrontado. Por conta disso, e
também por eu ser um dos dirigentes, quando veio uma
reforma no prédio do Theatro ele prometeu reservar um
espaço para o grupo, onde pudéssemos fazer as nossas
reuniões, nossos ensaios, guardar nosso material e
equipamento, enfim, uma sede.
Prometido e cumprido.
Recebemos a chave de um salão no porão do Theatro e
logo cuidamos de preparar o espaço, organizando
prateleiras, birôs, cadeiras... Tínhamos também um
enorme guarda-roupa para as vestimentas das peças, e, a
medida que recebíamos doações de materiais elétricos,
madeiras e panos, tudo era levado pra lá.
Normalmente o uso da
nossa sede era no período noturno, ficando a mesma
fechada durante o dia. Existia uma única porta e quem
tinha a chave era eu. Certo dia precisamos pegar uns
papeis para um projeto de montagem de um espetáculo
teatral e fomos lá pela manhã, fora do horário habitual.
Eu e Raimundo Nonato.
Descemos a
escada lateral que ia para o porão e ficamos
surpresos com a porta da nossa sede aberta. Entramos sem
fazer barulho e nos deparamos com Walfredo agachado,
abrindo gavetas, tirando sarrafos das prateleiras, rolos
de fio elétrico, juntando tudo no meio da sala. Durante
algum tempo observamos o rapa e aí foi que Raimundo
perguntou:
- Algum problema,
Walfredo?
Aconteceu aquele
susto, um pulo e um vexame. Ficou nos olhando sem saber
o que dizer, querendo explicar o inexplicável. Raimundo
insistiu em saber o que estava acontecendo e ele saiu-se
com essa:
- Estava procurando
umas cadeiras lá de cima...
Aí eu não me contive:
- Seu Walfredo, de que
tamanho são essas cadeiras? Porque para caber nas
gavetas, nas prateleiras ou dentro do guarda-roupa, deve
ser cadeira de brinquedo!
- Eu não estava
procurando dentro das gavetas. As gavetas já estavam
abertas quando eu cheguei...
- Que nada, seu
Walfredo! Eu mesmo fechei tudo quando saí ontem à noite.
E outra coisa: como o senhor entrou aqui se a chave está
comigo?
Retirou-se da sala sem
mais nada dizer. Ficamos sabendo mais tarde que havia
uma cópia da chave com ele. Tivemos de mudar a
fechadura. A partir de então meu cartaz acabou-se e na
guerra entre Walfredo e o Teatro do Estudante, passei a
ser um dos seus inimigos, pois ele nunca mais quis
acordo comigo...
10
O
FIM
DA
JORNADA
O
Teatro do Estudante da Paraíba estava encenando a peça
Fim de Jornada, cujo entrecho dramático acontecia
durante a primeira grande guerra mundial, tendo como
personagens soldados ingleses. A direção era de Walter
Oliveira e tínhamos como instrutor militar a figura
simpática do General Edson Ramalho, na ocasião
Comandante da Polícia Militar do Estado da Paraíba. Mas
a colaboração decisiva dele não se resumiu apenas às
informações de comportamentos dos militares da época,
mas, também, à cessão de armas, fardas e equipamentos
para compor o espetáculo. Por conta disso tudo nós
fizemos uma apresentação para o pessoal da Polícia
Militar, com o caráter de homenagem e agradecimento, que
redundou na mais desastrada das nossas apresentações
daquele espetáculo teatral.
O cenário era uma
casamata, espécie de esconderijo subterrâneo camuflado
no solo com pedras e arbustos, que escondiam a sua
entrada e uma metralhadora antiaérea. A visão do
espectador era de um cenário com dois planos: no piso do
palco estava a casamata, onde acontecia a maior parte da
encenação; num plano elevado, o solo do campo de batalha
onde aconteciam cenas de ataques aéreos e revides pela
metralhadora. O meu irmão Ednaldo Navarro
interpretava uma sentinela que passava
quase todo o decorrer do espetáculo no plano elevado, só
descendo ao esconderijo na última cena para informar ao
nosso comandante, papel desempenhado por Valdez Silva,
que eu havia sido metralhado e morto num ataque de um
avião alemão que continuava bombardeando lá em cima.
Ao final do espetáculo
a casamata era destruída e caía o teto através de um
truque feito com dobradiças que eram destravadas. Para
dar a impressão de fogo, fumaça e poeira, espalhávamos
em cima do teto pó de serra com talco comum, iluminação
vermelha e focos amarelos intermitentes para dar uma
idéia de explosões, claro que junto com os efeitos
sonoros. Começamos a achar que a fumaça resultante do pó
de serra com talco, que aparecia com a queda do teto da
casamata, estava fraca, não convencia muito. Conversamos
com José Xavier da Silva, o famoso Zé Bolinho, nosso
maquinista, tentando uma solução para o problema e ele
foi taxativo: “Deixe comigo que eu resolvo!”
A metralhadora estava
sempre apontando para um lado, porque quando era
detonada expelia as cápsulas das balas de festim para
detrás do palco e, por isso, nós tínhamos muito cuidado
para não mudá-la de posição.
Assim chegamos à cena
final de Fim de Jornada naquele dia especial, com teatro
lotado de soldados, cabos, sargentos, tenentes,
capitães, só gente fardada. Eu fazia o papel de um
sargento, espécie de ordenança do comandante, que
recebia ordem para ir até lá em cima, no plano elevado,
verificar como estava a situação e, ao chegar, era
metralhado. Acontece que nesse dia uma tábua do piso do
plano superior cedeu juntamente com uma das minhas
pernas, que ficou presa e aparecendo na parte de baixo
do cenário. Veio a rajada de balas e eu tive que cair
morto fora do local marcado. Ao cair, bati na
metralhadora que mudou de posição exatamente para o lado
contrário. O sentinela desceu para avisar ao comandante
e ao subir de volta, antes de também ser morto, passa
correndo e pisa na minha mão calçando aquele famoso
coturno militar. Ah, dor miserável! Foi quando aconteceu
um incrível diálogo entre nós, naturalmente sem ser
ouvido pelo público:
-
Quando terminar o espetáculo vou lhe lascar, seu merda!
- Eu tive culpa,
tive?!...
- Quero saber disso
não, seu filho da puta!
-
Oxente! E a minha mãe não é a mesma tua?!...
Mas a mambembada não
ficou só nisso. Valdez sobe correndo e na posição em que
ficara a metralhadora após o meu tropeço, puxa o
gatilho. De onde eu estava podia visualizar os militares
nos camarotes do Theatro Santa Roza, com as cadeiras na
cabeça, para livrarem-se das cápsulas de bala que voavam
para cima deles. Então veio o desastre maior: o
teto da casamata
arreia e provoca uma enorme nuvem de poeira para cima
da platéia, que começa a tossir desenfreadamente. Zé
Bolinho havia colocado uma porrada de cimento misturado
com o pó de serra e o talco. Comentário de um soldado ao
sair do Teatro:
- Foi a peça mais
realista que eu já vi!
11
A FARDA
DO
T.E.P.
O
Teatro do Estudante da Paraíba preparava-se para
representar o nosso Estado no II Festival Nacional de
Teatros de Estudantes, que seria realizado em Santos,
Estado de São Paulo. A peça era João Gabriel Borkman, de
Ibsen, e tudo estava sendo feito com muito esmero, sob
o comando de Walter Oliveira. Por outro lado, na parte
de organização do grupo, até um uniforme especial foi
confeccionado para cada integrante e, por sugestão de
Genildon Gomes, foi aprovado um paletó vermelho, camisa
branca, calça e gravata pretas para os homens e para as
moças a mesma coisa, substituindo a calça por uma saia.
As cores representavam a bandeira da Paraíba e o
fardamento ficou muito bonito, embora chamasse muito a
atenção.
O ano era 1959, o mês
julho, quando chegou o dia do embarque. Com a maioria
das pessoas fardadas, a comitiva seguiu para Campina
Grande em viaturas cedidas por diversas instituições,
entre elas o Primeiro Grupamento de Engenharia do
Exército. Do grupo participavam alguns convidados
especiais, como Wladimir Carvalho, Linduarte Noronha e
Walderedo Paiva, estes, naturalmente, sem a tal farda. O
nosso destino inicial era Campina Grande porque os
aviões do Loide Aéreo, companhia que transportava todos
os participantes do Festival, saíam daquela cidade.
Chegamos em Campina
Grande bem antes da hora do vôo e parte do grupo, que
estava fardado, resolveu procurar um local onde pudesse
fazer um lanche, pois era sabido nada ter no aeroporto e
o avião não oferecia serviço de bordo. Bem no centro da
cidade encontramos uma lanchonete que era ao mesmo
tempo, na sua parte dos fundos, um bar. Quando entramos,
fardados, chamamos a atenção de um outro grupo que
estava em volta de uma mesa. Pedimos café, leite,
sanduíches e começamos a ouvir piadas das pessoas que
bebiam até àquela hora, quatro da manhã: “Deve ser um
time de futebol.” “Mas um time de futebol com mulher?!”
“Então deve ser um time de frescos!”
Walderedo Paiva, misto
de atleta e ator, nessa época bastante forte devido à
prática de halterofilismo, sentiu-se, como nosso
convidado, na obrigação de tomar as dores do grupo. Foi
até à mesa dos bêbados, encarou-os, intimidando-os com
o seu tamanho. Depois voltou ao balcão da lanchonete e
continuou, tranqüilamente, a tomar seu copo de leite.
Alguém disse, depois,
ter visto o garçom da lanchonete levar escondido até à
mesa dos bêbados, uma peixeira. Verdade ou não, os
agressores levantaram-se e vieram em nossa direção
portando peixeira, litros de bebidas, tamboretes e
desmoralizaram com ameaças e gestos todo o nosso grupo,
inclusive Walderedo, nos acuando junto ao balcão e
gritando: “É time de fresco mesmo! Agora se tem macho
aí, apareça!”
Fomos salvos pelo
motorista da viatura do Primeiro Grupamento que,
empunhando a manivela do carro, botou os quatro bêbados
para trás e abriu caminho para nós. Tudo uma questão de
farda! A do soldado do Exército, embora não tão bonita
quanto a nossa, valia muito mais...
12
FESTIVAIS
DE
TEATRO
Uma
das maiores caravanas de artistas paraibanos enviados a
um festival nacional de teatro, foi aquela da aventura
num boteco campinense, descrita em outra história, a da
farda vermelha e preta, quando fomos salvos de alguns
marginais de Campina Grande pelo motorista do Primeiro
Grupamento de Engenharia do Exército. Dela faziam parte,
além de mim, Raimundo Nonato Batista, Valdez Silva,
Genildon Gomes, Carlos Fernandes, Ednaldo Navarro,
Sosthenes Kerbrie, Martinho Alencar, Gilson Medeiros,
Marcos Alencar, Risoleta Córdula, Nazareth Xavier, Leda
Córdula, Iolanda Fernandes, Teresa Torres, Neumane
Medeiros, Nilda Batista, Mary Nicolof, Linduarte
Noronha, Wladimir Carvalho, Breno Mattos e Valderedo
Paiva, esses quatro últimos convidados especiais do
Teatro do Estudante da Paraíba. Todos tendo como destino
final a cidade de Santos, São Paulo, onde o T.E.P.
concorreria com a peça João Gabriel Borkman, de Ibsen,
sob a direção de Walter Oliveira. Depois do risco que
corremos por ter ido tomar o avião em Campina Grande, o
nosso primeiro destino foi o Rio de Janeiro. De lá uma
parte do grupo seguiu de trem e outra de navio da
Marinha de Guerra, o Ari Parreiras, todos para a cidade
de Santos, São Paulo.
Lá em Santos
conseguimos transferir a apresentação do nosso
espetáculo para o último dia do festival, resolvendo
assim um problema criado pela falta do cenário da peça,
pois sendo ele bastante pesado, não tinha sido possível
levá-lo conosco no avião. Havíamos contratado uma
transportadora que enviou um caminhão com o nosso
material, bem antes de sairmos de João Pessoa. Porém,
como naquela época a estradas brasileiras também não
prestavam e estávamos naquele período chuvoso, quando
elas pioravam, ao chegarmos a Santos soubemos do atraso
do transporte. Após a transferência conseguida, ficamos
rezando para ter q o cenário antes da nova data
marcada, o que só veio a acontecer na noite do dia
anterior à nossa apresentação.
De acordo com a programação oficial do
festival, haveria naquele dia, pela manhã, a
apresentação do representante do Rio Grande do Sul, à
tarde a comissão julgadora se reuniria para decidir a
premiação e à noite, a solenidade final, com entrega
dos prêmios e uma festa conhecida como baile dos
personagens. Diante do nosso problema, a direção do
evento programou a apresentação de João Gabriel Borkman
para acontecer às quatorze horas, quase em seguida à
peça dos gaúchos, o que nos dava pouquíssimo tempo para
desmontar o cenário deles e montar o nosso,
complicadíssimo, que tinha até um primeiro andar. Duas
horas da tarde e ainda estávamos na metade da montagem
do cenário e a platéia cheia de
gente. Então, o Ministro Paschoal Carlos
Magno que era o Presidente de Honra do festival, para
acalmar a platéia que já se impacientava, fez com que se
apresentasse no proscênio do teatro um jovem iniciante
na arte da mímica, um rapaz que estava tentando aparecer
e que atendia pelo nome de Ricardo Bandeira. Mas aquele
que viria a ser o mímico mais importante do País, acabou
a sua participação e o nosso cenário ainda não estava
pronto. Foi aí que Walter Oliveira teve a idéia de abrir
o pano e deixar o público assistir ao nosso trabalho de
armar o cenário, o que foi uma novidade e despertou o
interesse da platéia, dando-nos condições de concluir a
nossa tarefa.
Paralelamente à
solução daquele problema, Raimundo Nonato, junto com
Walter Oliveira e outros, enquanto esperava a hora de
iniciar o espetáculo, visitava, com certa freqüência, um
barzinho existente próximo ao teatro, o que resultou
noutro problema: Raimundo caiu quase num coma
alcoólico, deixando o restante do elenco totalmente
apavorado com a possibilidade dele não acordar até a
hora de abrir o pano, pois o mesmo fazia um dos
principais papeis. Finalmente, quem provocou o problema,
Walter Oliveira, que também era médico, resolveu-o
através de uma injeção e um banho, o que pôs Raimundo
de pé.
Mas a adrenalina não
parou de crescer aí. Quando tudo parecia resolvido,
surge outro problema, dessa vez em forma de notícia: a
comissão julgadora, presidida pela Madame Henriette
Morinau, uma das atrizes mais importantes no Brasil, não
acreditando em qualquer sucesso nosso, já havia se
reunido e feito a escolha dos vencedores. Isso deixou
todo o elenco mais irritado ainda e, com essa condição
psicológica, iniciamos a nossa participação no II
Festival Nacional de Teatros de Estudantes, às dezesseis
horas de um dia de julho de 1959.
Quando fechamos o
pano, no último ato, aconteceram aqueles segundos de
silêncio sepulcral e, em seguida, um desabar de
aplausos. Quando o pano volta a abrir para os
agradecimentos, a primeira pessoa que subiu ao palco,
aos prantos e gritando bravo, bravo, bravo, foi
Hanriette Morinau. Depois soubemos que ela voltou a
reunir a comissão julgadora e à noite estávamos
recebendo prêmios de melhor espetáculo, melhor ator
(Valdez Silva), melhor atriz (Risoleta Córdula), melhor
coadjuvante (Iolanda Fernandes) e outros prêmios que a
minha vaga lembrança não consegue recordar.
Antes de retornar à
João Pessoa fizemos outra parada no Rio de Janeiro, onde
fomos recebidos no Palácio das Laranjeiras pelo
Presidente Juscelino Kubstchek, coisa arranjada pelo
Ministro Paschoal Carlos Magno através de João Pinheiro
Neto, homem forte do governo. Discursos, fotografias e
presenças importantes como a de Tancredo Neves. Foi
ocasião para um pedido de grupos teatrais de todo o
País: que o próximo festival fosse realizado em
Brasília, prestes a ser inaugurada. Juscelino prometeu
e cumpriu.
Meados do ano de
1960, com a Nova Capital Federal recém inaugurada,
preparou-se, novamente, o Teatro do Estudante da
Paraíba, para representar o nosso Estado no III Festival
Nacional de Teatros de Estudantes. Dessa vez a peça foi
Isabel do Sertão, do paraibano Luís Jardim, sob a
direção de Maria José Campos Lima.
Mas uma vez a nossa
delegação era numerosa: além de mim, Raimundo Nonato
Batista, Pereira Nascimento, José Bezerra Filho ( Zé
Garrote, lá de Esperança), Marcelo Borges, Hugo Caldas,
Firmo Justino, Francisco Saraiva, Eugênio Carvalho,
Ofélia Gondim, Leda Córdula, Lindaura Pedrosa, Lucy
Camelo, Nazareth Xavier, Teresa Torres, Sevy Falcão e
Valderedo Paiva.
Valderedo aproveitou
a última vaga do grupo, exatamente na hora em que
estávamos saindo para o Recife, onde tomaríamos o avião.
Ele trabalhava como propagandista de medicamentos e
estava numa farmácia do Ponto de Cem Reis, quando nos
viu no ônibus que saía dali e soube da possibilidade de
ir também. Deixou a bolsa de amostras guardada na mesma
farmácia, correu para pegar umas mudas de roupa e
mandou-se com a gente sem um tostão no bolso.
Quando chegamos ao
Recife, Joel Pontes, que era o coordenador da ida dos
grupos do Nordeste, nos entregou as passagens com uma
redução de três unidades, que ele deveria ter desviado
para favorecer alguém do grupo pernambucano. Raimundo
bronqueou na hora: “ou vai todo mundo ou não vai
ninguém!” Joel aperreou-se com a situação e terminou
conseguindo as três passagens com a Universidade Federal
de Pernambuco, porém para o outro dia e num outro vôo.
Raimundo aceitou aquela saída, avisando que era um dos
iriam ficar, pois se as tais passagens da Universidade
não saíssem, não haveria espetáculo em Brasília, uma vez
que ele interpretava um dos personagens da peça.
No dia seguinte
tomamos um Caravelle da Cruzeiro do Sul, direto de
Recife ao Rio. Viajávamos naquele tipo de avião pela
primeira vez e ao chegarmos ao nosso destino a aeronave
começou a tremer e nós também, porém logo fomos
tranqüilizados pelo comandante informando aos
passageiros que aquela vibração era normal, proveniente
dos freios aerodinâmicos do avião. No Rio, antes de
tomarmos outro avião para Brasília, eu e Valderedo
providenciamos logo a reserva para a volta, enquanto
Raimundo achou desnecessária aquela precaução, dizendo
que nunca tinha ido a um aeroporto para não viajar.
Chegamos à Brasília um
dia após o restante do grupo. Todos já estavam alojados
num salão de uma futura escola do Plano Piloto, onde
quase tudo era de vidro: paredes, portas, divisórias...
O festival nos oferecia aquele alojamento e almoço e
jantar num bandejão; o café da manhã era por conta de
cada um. Além de Valderedo, sem dinheiro, estava na
mesma situação Sevy. Os amigos pagavam para os dois.
Sevy querendo retribuir as gentilezas recebidas,
resolveu varrer o nosso alojamento repleto de poeira,
ainda por conta das construções em andamento na Capital
Federal. Ao terminar, levando a sujeira para fora, jogou
de volta a vassoura para dentro do salão esquecendo a
porta de vidro. Foi a conta: pedaços da porta para todos
lados! Paschoal soube e foi nos procurar. Diante dele
Sevy assumiu a responsabilidade do dano, se
comprometendo a pagar o prejuízo. Foi quando Raimundo
interveio dizendo:
- Ora Sevy, pagar
como?
E virando-se para o Ministro:
- Paschoal, ele viajou
sem dinheiro. O café da manhã é a gente quem paga!...
Paschoal não só
perdoou o acidente da porta, como deu dinheiro para que
ele tomasse café durante o resto dos dias do festival!
Mas a participação de Sevy Falcão não ficou só nesse
episódio e no acompanhamento musical que fazia para o
nosso espetáculo. Foi a primeira pessoa no mundo que
entrou no salão nobre do Palácio da Alvorada, tocando
violão e cantando como pode um peixe vivo viver fora
d’água fria, seguido por estudantes de todo o Brasil e
recebido com um largo sorriso pelo Presidente Juscelino.
O
festival de Brasília foi, em alguns pontos, diferente
dos outros. Primeiro porque não havia aquela premiação
tão disputada como nos outros. Por outro lado, todos os
grupos, após o encerramento do festival, foram fazer
outras apresentações em diversas partes do País. Ao
T.E.P. coube o Triângulo Mineiro, com as cidades de
Uberlândia, Uberaba, Araxá, Santa Juliana, Perdizes e
Sacramento. De ônibus, durante cerca de uma semana,
fomos a todas elas encenar Isabel do Sertão. Foi um rico
período de acontecimentos inusitados:
PEREIRA NASCIMENTO,
após a apresentação em Santa Juliana, tomou seu banho,
vestiu um terno com gravata e tudo, passou brilhantina o
cabelo, perfumou-se e, de anelão no dedo, compareceu a
uma festa que a cidade estava nos oferecendo. Lá, onde
todos estavam bem à vontade, vestidos de forma
esportiva, adentrou o salão, dirigiu-se à mesa onde
estava a moça mais bonita de Santa Juliana e a tirou
para dançar. A jovem aceitou e Pereira, cara de pau,
formava com ela o único casal a bailar. A partir daí
outros casais o imitaram. E nós, que havíamos chegado
antes, que estávamos admirando a beleza da tal jovem e
que não tínhamos tido coragem de tirá-la para dançar,
ficamos a ver navios em pleno interior mineiro.
LINDAURA PEDROSA fazia
o papel de uma espécie de bruxa que, por diversas vezes
na peça, repetia "peitica, peitica, peitica, peitica..."
Lá mesmo, em Santa Juliana, ao sair do auditório,
após terminar o espetáculo, estavam esperando por ela
vários garotos que a seguiram até ao nosso hotel,
gritando pelo meio da rua: "peitica, peitica, peitica,
peitica..."
VALDEREDO PAIVA era o
mais forte do grupo. Em Perdizes a nossa apresentação
foi feita no salão de danças do clube local. Após
terminarmos a montagem do cenário, alguém fez um desafio
a ele de que, se deixasse que nós o segurássemos, ele
não se soltaria. Topou e deitou-se no salão de barriga
pra cima. Cada um de nós assumiu uma posição: pernas,
braços, cintura, ombros e cabeça. Eu e Hugo Caldas
ficamos responsáveis pelos ombros e cabeça, um de cada
lado. Tudo pronto, foi dada a partida. Em dado momento
senti que ele estava levando vantagem com a cabeça e os
ombros. Aí não tive dúvidas: segurei os cabelos e puxei
para baixo. Ele imediatamente gritou: “ Nos cabelos não
vale!” E eu respondi: “Nos cabelos não, Hugo! Nos
cabelos dói muito!” E puxava mais ainda. Era Valderedo
reclamando, Hugo dizendo que não estava puxando, eu
dizendo para Hugo não puxar, ao mesmo tempo que puxava.
Mas, mesmo assim, não conseguimos segurá-lo por muito
tempo. Ele largou-se de todo mundo, ficou em pé, olhou
para Hugo e disse: “Agora, eu vou lhe pegar!” E foi
aquela correria pelo meio da rua, com um cara enorme
correndo atrás de um cara magrinho e uma porção de gente
tentando socorrê-lo! Depois de tudo acalmado, Valderedo
confessou que jamais iria fazer alguma coisa contra Hugo
e eu aproveitei a oportunidade para confessar a minha
sacanagem!
TODOS ou quase todos
participaram em Sacramento de uma aventura inédita para
nós: entrar numa enorme caverna. Da entrada para o
primeiro salão foi fácil; do primeiro para o segundo a
coisa já foi mais complicada, porque o pouco ar
existente não permitia que os isqueiros ou fósforos
iluminassem o necessário. Voltamos para pegar a bateria
do ônibus com uma extensão de fio e uma lâmpada. Aí a
situação melhorou muito e lá fomos nós por debaixo da
terra, deslumbrados com as formações de estalactites e
estalagmites, com as inscrições e as assinaturas
cravadas nas paredes de pedra, de gente como Santos
Dumont. Valderedo, o mais forte, carregava a bateria;
Marcelo Borges, o mais moço e magro, carregava a
lâmpada; quando fomos passar do segundo para o terceiro
salão, a abertura, que era estreita, permitiu a passagem
de Marcelo e prendeu Valderedo, causando a desconexão da
lâmpada com a bateria e provocando a maior escuridão
que já tínhamos visto, passando a não ver nada! Houve
algum medo, mas sem pânico e através do som das nossas
vozes conseguimos chegar até Valderedo e refazer a
conexão. Restabelecida a iluminação, resolvemos desistir
de ir mais adiante, mesmo porque Valderedo não passava
dali e ninguém queria carregar a bateria. Mas uma coisa
ficou sacramentada: dentro de um ano voltaríamos à
Sacramento, portando o equipamento necessário à
conclusão da nossa aventura. Todos combinaram isso e
ninguém nunca voltou lá!
Sacramento foi a
cidade que mais nos impressionou devido a forma como
fomos recebidos e os momentos diferentes que nos
proporcionou. O nosso anfitrião foi o Prefeito da
Cidade, que também era um rico fazendeiro, dono de uma
enorme plantação de laranjas, proprietário do hotel, de
um bar, da emissora de rádio, presidente do clube e o
único advogado do município e seu maior boêmio. De uma
simpatia constante, pôs à nossa disposição tudo isso,
inclusive a sua companhia. Chegamos a perguntar-lhe por
que tinha o bar, ao que nos respondeu:
- Sendo meu, o garçom
não diz que está na hora de fechar! Não pago nada, por
isso não sou roubado na conta! Tem tudo que eu gosto,
porque sou eu quem abastece e até a música que toca aqui
é escolhida por mim! Minha família não vem aqui porque
eu não permito, ficando livre, assim, de qualquer
surpresa se eu estiver bem acompanhado!
Sem dúvidas, era um
homem feliz... Mas tudo que é bom acaba logo e assim foi
também aquela nossa excursão. De volta à Brasília, a
maior parte do grupo voou direto para o Recife, enquanto
eu, Raimundo e Valderedo fomos para o Rio, por conta das
nossas passagens diferentes. Quando chegamos ao
Aeroporto Santos Dumont, Raimundo tentou marcar a
passagem dele e o vôo estava lotado. Deu o seu nome para
o caso de alguma desistência e ficou conosco ali por
perto do balcão, causando algum mal-estar ao declarar
que quando não conseguia vaga num avião, geralmente o
avião caía. Passava um pouco das dez e o vôo estava
marcado para onze da noite. Por isso começavam a chegar
os passageiros e entre eles um padre. Raimundo
aproveitou para anunciar que avião que padre viaja
geralmente não chega ao destino. O auge da sua campanha
para tentar uma vaga veio logo em seguida, quando surgiu
uma belíssima urna funerária, acompanhada de várias
grinaldas, destinadas ao Recife, para o Reitor da
Universidade Federal de Pernambuco, João Amazonas, que
havia morrido depois de nos conceder aquelas passagens.
Aí Raimundo não se conteve e gritou:
- Agora quem não vai
mais sou eu! Além de um padre, um caixão de defunto... É
desastre na certa!
Finalmente embarcamos
com caixão, padre e Raimundo e o avião levantou vôo
ainda com algumas vagas!
13
"SHOW,
SHOW, PAVÃO"
No Rio de Janeiro, Paulo Pontes, Oduvaldo
Viana Filho e outros fizeram o show "Opinião". Em Recife
a coisa foi imitada com outro show, se não me falha a
vaga lembrança, intitulado "Borandá", que também veio
apresentar-se em João Pessoa, no Teatro Santa Roza. Aqui
não perdemos tempo e Marcus Vinícius de Andrade com
Severino Marcos Tavares escreveram o nosso com o título
de "Show, Show, Pavão". Todos esses espetáculos
contestavam a situação vigente (plena ditadura militar
de 1964) e o faziam através de dribles à censura
oficial, como Chico Buarque o fez, posteriormente,
através do seu "Apesar de você..."
O nosso "Show, Show,
Pavão" parodiava a canção de ninar e era a música de
abertura do espetáculo. Pedia para alguém sair de cima
do telhado. Mal havíamos iniciado os ensaios (eu dirigia
o espetáculo), começaram os problemas: Anco Márcio, que
era um dos atores, foi ameaçado por um grupo do ccc
(comando de caça aos comunistas), e chegou no Santa Roza
apavorado com a surra que quase levara. Foi criado,
então, um clima que começou a dificultar o nosso
trabalho e provocar algumas desistências de
participações.
O meu primo Afonso
Augusto de Toledo Navarro era, naquele momento, major
do Exército e servia no Grupamento de Engenharia, onde
estavam centralizados os setores de informações e
repressão do poder militar na Paraíba. Fui procurar a
sua ajuda para me informar se estava acontecendo algum
problema. Dias depois pediu-me para levar uma cópia do
texto do Show, Show, Pavão lá no Grupamento, pois os
homens estavam querendo ler primeiro o que iríamos
fazer. Não me fiz de rogado e atendi a solicitação.
Enquanto isso, suspendemos os ensaios, pois os atores e
autores não tinham, diante das ameaças recebidas,
condições de continuar o trabalho.
Esse povo dava maçada
por sacanagem, por não ter argumentos para contestar a
inteligência dos subversivos. Mas eu fiquei insistindo
junto ao meu primo, Afonso, que errou de carreira, pois
nada tinha a ver com os militares daquela época. Um dia
ele pediu para que eu comparecesse ao Grupamento de
Engenharia e ao receber-me foi logo dizendo nada ter com
a história, mas que o pessoal havia dito que o texto não
era subversivo, entretanto aconselhava a não encená-lo.
Quanta incoerência! Nisso concordava Afonso, mas nada
podia fazer. A partir daquele momento a decisão era
minha! Pensei: é foda! O que é que eu vou fazer? O
pessoal do elenco e autores preocupados com a repressão,
principalmente de alguns cafajestes participantes do
comando de caça aos comunistas, filhos, capangas e
jagunços de fazendeiros, usineiros e latifundiários,
além de ignorantes representantes das classes média e
pobre, todos altamente violentos. Falei para o meu
primo:
- Eu preciso falar com quem decidiu assim! Se o texto
não tem nada demais, por que a gente não deve encená-lo?
Fui levado a um major
responsável pelo serviço de informações do comando
militar em João Pessoa. Friamente disse-me:
- O problema é o
seguintchiii: vocês fazem esse negócio, dizem que vão
fazer uma coisa, fazem outra, e quando nós vemos fomos
enganados! O governo tem que se prevenir contra esses
impatriotas que querem o Brasil entregue a Moscou! Esse
negócio de show, show, pavão...
- É uma cantiga de
ninar. Xô, Xô, Xô, pavão, sai de cima do telhado...
Declarei sabendo nada
adiantar. Eu estava diante de um profissional da
repressão, de uma elite do Exército Brasileiro, que
havia se rendido aos interesses internacionais dos
americanos do norte e dos latifundiários nacionais. Que
fazer? Nada! Mas o tal major extrapolou com a sua
imaginação, todas as possíveis formas de justificativas
ao acusar:
- Vocês estão com essa
história de xô, xô, xô, pavão, e quando chegar a hora de
apresentar ao público vão dizer é xô, xô, xô galinha
verde, numa referência ao Exército!
Uma boa idéia que não
havíamos pensado. Depois disso, nada mais a fazer, pois
não adiantava. Estávamos no ano de 1964!
14
A
APOSTA
O "Bar de Nega" era o
ponto de encontro de todos os veranistas da Praia do
Poço. Não só por ser central, como também pela forma
simpática e tolerante que ela recebia as pessoas.
Ocupávamos as suas mesas e cadeiras e bancos, sem nada
gastar e ela não fazia cara feia, não se preocupava com
o fato do não faturar conosco. Claro que vez em quando,
quando tínhamos dinheiro, comprávamos cerveja, cachaça,
cigarros, refrigerantes e os deliciosos quitutes, sua
especialização, principalmente cachorro quente. Também
jogávamos baralho, dominó e víspora, o jogo de
preferência de Dona Nega. Era ela quem chamava as
pedras.
O período noturno da
gente dividia-se em duas partes: antes das moças irem
dormir e depois das moças irem dormir. Com a presença da
população jovem feminina, eram os assustados, os
namoros, os jogos, as serestas; sem essa presença, era o
papo masculino, que acontecia depois das dez, lá no
alpendre do bar. E foi num desses papos de machos que
tudo começou.
Nega tinha um garçom,
vindo não sei de onde, já de meia idade, cujo aspecto
físico não era dos mais saudáveis. Sempre achei que ele
não tinha boa saúde, devido a sua cor macilenta e sua
magreza. Era ele quem ficava nos atendendo ou tomando
conta do
bar, depois das dez horas. Não sei quem
começou a peleja, mas alguém disse não acreditar existir
uma pessoa que emborcasse uma garrafa de aguardente na
boca e tomasse até o último gole. Outra pessoa disse que
já tinha visto alguém fazer isso. A maioria não
acreditou. Estava formada a discussão, enquanto o tal
garçom observava tudo calado. Lá prás tantas, como
ninguém chegasse a um acordo, ele fez o desafio:
- Se me pagarem e
pagarem também a cachaça, eu tomo!
Silêncio. Susto geral.
Ninguém esperava uma proposta daquela. E agora, o que
fazer? Fugir do desafio? E alguém, não lembro quem, teve
a infeliz idéia de dizer que aceitávamos a aposta:
- A gente paga tudo se
você tomar sem parar. Agora, se você não conseguir, não
recebe nada e ainda paga a garrafa de cana. Certo?
- E de quanto é a
aposta, quanto eu ganho se tomar?
Aí veio outra péssima
idéia: uma vaquinha. E lá foram os nossos trocados que,
somados, resultaram em quatorze cruzeiros mais o valor
da bebida. O garçom aceitou. Foi buscar a garrafa e
diante de nós e da nossa expectativa, abriu-a e começou
a tomar. E a gente observando e ele bebendo, bebendo,
bebendo, sem parar. A gente abestalhado e ele rindo da
nossa cara. Tomou o último gole, virou a boca da garrafa
para baixo mostrando que ela estava vazia e falou:
- Eu não disse que bebia
todinha?!
Riu e caiu duro no
chão! Ficamos apavorados, sem saber o que fazer. O
garçom estava mais pálido do que era, frio e não mexia
com nada. Zezé de Holanda, mais nervoso do que os
outros, dramatizou:
- Ele morreu e nós
somos os responsáveis pela sua morte!
Bivaldo Araújo, mais
sensato, tomou a decisão:
- Gente, vamos botá-lo
em cima do banco. Não pode ficar aí no chão!...
Cada um pegou numa
perna, num braço, na cabeça, suspendemos o falecido ou
desfalecido, colocamos em cima de um desses bancos
compridos de igreja que existia no terraço do bar.
Alguém mais experiente, não lembro quem, declarou:
- Morrer ele não
morreu! Estou sentindo o pulso dele. Está desmaiado.
A informação nos
aliviou um pouco do medo que já estávamos sentindo...
- Mas pode morrer!
Isso dele deve ser coma alcoólica e ele não retornando
corre o risco de uma parada cardíaca...
O medo que havia sido
aliviado, deu lugar ao pavor! Coma alcoólica, parada
cardíaca, eram coisas estranhas para nós. Aí veio a
sentença:
- Ele não pode ficar
sozinho. Alguém, de vez em quando, precisa examinar o
pulso e sentir se está funcionando. Se parar, precisa
dar massagens até voltar...
Já se aproximava o
raiar do dia, quando o garçom deu os primeiros sinais de
ressurreição: mexeu a cabeça. Quase, para nós, um
momento de euforia, depois de passar a noite toda
pensando nas conseqüências da nossa aposta, que iam do
remorso à condenação por morte. Mexe aqui, mexe acolá,
com um pouco da nossa ajuda, o desmaiado volta a si e
senta-se no banco, olha em sua volta, rir para nós e
diz:
- Meu dinheiro? Eu não
ganhei? Vamos pagando que está na hora de dormir, amanhã
é dia de trabalho duro aqui!
O desgraçado não tinha
noção da hora nem do nosso aperreio. E lá se foram as
nossas minguadas economias para o fim da semana, somadas
a uma noite de sono. De volta para casa, fui pensando
numa sugestão que foi dada no auge da nosso
apavoramento:
- Uma lã com álcool no
nariz dele, ele acorda...
15
DELIRIUM
TREMENS
Lembro que o cidadão já passava da meia idade e era
aposentado da Marinha Mercante. Casado com uma mulher
apenas um pouco mais moça, mas dessas que chamam atenção
pelas formas do corpo e beleza do rosto, mesmo sem ser
uma mocinha. O casal apareceu na Praia do Poço para
passar férias, tendo alugado uma pequena casa feita
toda de palha, como era a maioria das casas na época.
Não tenho bem certeza do ano, coisa de 1952 ou 1953. Sei
que eles gostavam de serestas, ele tocava violão e ela
cantava. Ambos bebiam, ele com exagero. Os dois sendo
sós, sem filhos, faziam refeições no Bar de Nega, o que
facilitou o entrosamento conosco e, com pouco tempo, já
havia um tratamento de você entre a gente. A mulher era
um chamariz muito forte, causando muitas fantasias
sexuais nas nossas cabeças, pois ela costumava usar umas
roupas provocantes e, sempre sorridente, detonava
olhares sedutores para todos , principalmente depois que
o marido bebia mais da conta.
Os dias foram
passando, a intimidade aumentando e quando demos
conta, já freqüentávamos a casa deles, onde fazíamos
serestas, bebíamos e dançávamos também, ao som horroroso
de uma radiola velha. Mas ninguém queria saber de
qualidade de som, queria era dançar com a mulher do
aposentado, o qual apelidamos de Almirante. Lembro
quando foi a minha primeira vez: as pernas pesadas,
trêmulas, quase paralisadas quando encostavam nas dela;
eu não conseguia desgrudar a atenção no marido,
preocupado com alguma reação dele, principalmente quando
ela apertava, um pouco, seus dois volumosos peitos
contra mim. E isso era com todo mundo. Algumas moças
também iam lá dançar. Nem todas, porque os pais não
permitiam, pois achavam que o ambiente estava mais pra
sacanagem. E com toda razão!
O Almirante não
dançava. Só fazia beber e tocar violão. Chegava a um
ponto que arriava num sono pesado, momento da gente
ajudar a mulher a levá-lo para a cama. Depois disso a
nossa festa tendia a ser encerrada, pois ela dizia
querer evitar falatórios dos vizinhos. Todos se
ofereciam para ajudar a arrumar a casa, guardar as
coisas e até lavar o que estava sujo. E todos faziam
isso juntos, ninguém favorecia ninguém com a ausência.
Mas tudo foi mudando, até que uma noite eu me vi sozinho
com ela e com o Almirante roncando lá no quarto. Não
perdi tempo! Abracei-me com a mulher e iniciei um
desajeitado sarro, fruto da minha inexperiência com
aquele tipo de aventura. Depois de já ter alisado várias
regiões, e ela rindo, dizendo que tinha cócegas, meti a
mão pelo decote a dentro e puxei um peito pra fora. Ela
afastou-se falando baixinho:
- Calma! Agora não! Mais tarde a gente se encontra. Ele
ainda pode acordar, foi dormir há pouco tempo. Tem que
deixar a bebida fazer mais efeito!
E foi delicadamente me
expulsando de casa, fazendo sinal de silêncio com o dedo
na boca e repetindo:
- Mais tarde... Mais
tarde....
Eu saí achando ter
entendido a mensagem: ela queria que eu voltasse por lá,
depois. Fiquei, sozinho, dando voltas pela praia,
transbordando de ansiedade, querendo que o tempo
passasse mais depressa. Finalmente era a minha primeira
grande aventura sexual e melhor, a expectativa de ganhar
o que os outros não tinham conseguido nem começar ainda.
Eu não, eu já estava bem adiante, tinha me agarrado com
ela, acariciado algumas das suas partes desejadas, era o
campeão! E assim pensando e andando, calculei já ter
passado mais de meia hora, tempo suficiente para que o
Almirante ferrasse no sono. Voltei para lá, a casa
fechada, nem sinal da mulher. Fui até ao lado onde
ficava o quarto e pelas brechas da parede de palha, pude
ver o marido dormindo sono profundo e nenhum vestígio
dela. Segui para o quintal, onde ficava a casinha, tudo
estava escuro. Assobiei alguma coisa para chamar
atenção, mas nenhuma resposta. Tossi umas três vezes e
nada! Esperei uns dez minutos e resolvi ir embora. No
caminho de casa fui pensando o que dizer aos amigos no
outro dia, pois, certamente, eles iriam cobrar que eu
contasse tudo. Eu contaria a verdade! Pelo menos eu
podia dizer que havia pegado num peito dela e eles nem
isso!...
Dez horas da manhã nos
encontramos, como sempre, no pavilhão, espécie de salão
de dança que existia. Fui logo sendo interrogado pelos
amigos:
- Onde danado você se
meteu ontem à noite? Por que não foi pra lá?
Sem entender do que
estavam falando e sem saber o que responder, fiquei
calado até que alguém foi mais explícito, sussurrando,
com cuidado:
- Ela disse que tinha
lhe avisado...
- Ela?!
- A mulher do
Almirante!
Aí eu comecei a
perceber do que falavam, mas sem entender muito bem
ainda o que havia acontecido. Tentei dar uma explicação
daquelas verdes para colher madura:
- Bem, eu estive lá
na casa até...
- A gente sabe. Ela
contou tudo!
- Contou?...
- Sim, rapaz! Quando
encontrou-se com a gente lá na praia.
- Onde?
- Lá no Sul, perto do
sítio de Seu Odalício. Ela disse que tinha avisado a
você que ontem iria pra lá!
- É, avisou... Mas eu
entendi errado e fui para o outro lado.
Menti, para não ficar tão por baixo. Eu estava
completamente por fora da jogada. Ela avisava a
determinados rapazes sobre o encontro e pedia segredo
depois. Não era a primeira vez que ela transava com
parte da turma, tendo, numa noite só, chegado a passar
seis! Naquela noite anterior mesmo, ela havia trepado
com quatro. Eu seria o quinto! Eu nunca ouvira falar em
furor uterino e, por isso, achava que ela era uma pessoa
bacana porque queria agradar a todos!
Mesmo assim não me
conformei coma idéia de ser o lanterninha e comecei a
pensar numa forma de não ficar para trás e cheguei à
seguinte alternativa: comer a mulher dentro do quarto do
marido, com ele presente! Seria a glória! E na farra
seguinte procedi da mesma maneira: fiquei para guardar e
arrumar as coisas, enquanto o resto da turma foi embora
pra casa. Repeti a dose, agarrando ela e começando tudo
de novo, ao mesmo tempo que a puxava para dentro do
quarto. Ela espantou-se:
- Você está doido?! E
meu marido aí?
- Dormindo!
- Mas pode acordar! Vá
lá para a praia, me espere lá.
- Com o resto do
pessoal também? Não! Quero não! Quero ser o primeiro e
dentro do quarto do seu marido! Depois você vai atrás
dos outros.
- Hoje eu não chamei
ninguém não! É só você.
- Está certo. Mas tem de ser dentro do quarto!
- Você é doido!
- Se não quiser assim
eu vou embora...
- Espere. Mais tarde,
quando não houver perigo dele acordar, eu chamo você.
Fique por perto. Eu garanto que aviso a hora. Agora vá,
antes que aconteça ele acordar.
Mais uma vez fiquei
vivendo aquela expectativa. Dizer ao pessoal que tinha
sido no quarto dela e somente eu, iria me dar um posição
privilegiada dentro do grupo. Por isso não hesitei em
aceitar a sua proposta. E haja a esperar e nada da
mulher me chamar. Cansei. Aí fui até ao oitão da casa,
em busca da brecha na palha, para olhar o que estava
acontecendo lá dentro do quarto. O corno do Almirante
dormia feito uma pedra e ela junto, também! Fiquei
revoltado e resolvi tomar as minhas providências: enfiei
o braço parede a dentro, certo de que a alcançaria, pois
ela estava do lado de cá da cama. Não deu noutra: quando
baixei a mão, foi em cima da bunda dela! Ela se
assustou, pulou da cama e deu um grito, acordando o
marido. Durante alguns segundos eu fiquei com o braço
dentro do quarto. Puxei rapidamente e sai correndo para
bem longe.
Na hora do almoço do
dia seguinte, no Bar de Nega, o Almirante não quis
beber. Anunciou que ia parar, porque já estava tendo
delirium tremens, pois na madrugada anterior havia visto
um braço de homem, sozinho, solto no ar, voando por
dentro do quarto. Resultado: fui o único da turma que
não papou a mulher dele!
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