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Conto 2
A SENSACIONAL HISTÓRIA DE
UM APARELHO DE RAIOS X QUE UM DIA SE APAIXONOU POR UMA
PELÍCULA RADIOGRÁFICA
Edival
Toscano Varandas
Dabi Atlante era uma cidade pequena de pouco
mais de 30.000 habitantes localizada ao sul de
Bremsstrahlung. De um povo simples e humilde mas,
demonstrando uma enorme vontade de progredir, investia
principalmente na tecnologia de ponta, pois acreditava que o
futuro estava naqueles que abraçavam a ciência da física das
radiações.
Numa tarde de dezembro, Orix, um antigo
visitante da Dabi Atlante, famoso aristocrata francês,
voltava a esta cidade, para mais uma vez irradiar sua
energia cinética por entre as donzelas da localidade.
Na mesma noite, a lua estava convidativa
para o amor. Passeava Orix pela cidade quando, induzido
eletromagneticamente numa esquina, deparou-se com aquela
linda criatura, possuidora de bordas suavemente arredondadas
e um picote impresso em seu envoltório. Denunciando ser uma
película virgem, aquele picote fez Orix acreditar num amor à
primeira vista. Aproximou-se lentamente e comprimentou-a com
a voz trêmula:
-
Olá!
A linda criatura não disse nada. Olhou
docemente para Orix, como se quisesse proteger de sua
emulsão e depois baixou o olhar, resguardando-se da luz
indireta do poste. Orix aproximou-se mais ainda e perguntou:
-
Qual é seu nome?
E ela num tom inibido e persuasivo
respondeu:
-
Me chamam Ektaspeed.
Foi o primeiro contato do casal. As
primeiras palavras, o primeiro conhecimento, era como se
tivessem se conhecido há uma eternidade.
Ektaspeed era uma película altamente
sensível, tanto que só saía em noites frias e de capa
protetora. Orgulhosa de sua família Kodak, andava sempre de
branco contrastando com o preto de suas roupas íntimas, além
de portar uma fina lâmina de chumbo que evitava velamento
pelas radiações secundárias, além de moldar seu belo corpo,
dando-lhe um certo ar de elegância.
O passeio pela avenida e o pouco movimento
na cidade, evidenciava o letreiro do motel que ficava a uns
poucos metros. O quarto 103, recém-preparado com luz de
segurança, aguardava mais um casal naquela cálida noite.
Orix, bastante nervoso com sua quilovoltagem
oscilando entre 50 e 70 kVp e já sentindo seus filamentos
aquecidos, estava a ponto de estourar sua ampola, mas mesmo
assim tentava acionar seu compensador para as variações da
rede elétrica do motel.
Não se podia dizer o mesmo de Ektaspeed.
Bastante tranqüila e absolutamente calma, mantinha-se em
posição, esperando ardentemente apenas a hora de ser
radiografada pela primeira vez.
Foi quando num momento de tenra inspiração,
Orix horizontalmente se ajustou direcionando seu cabeçote
àquela frágil criatura e limitou sua vertical à uma
angulação de 20o, permitindo que seu tungstênio
suportasse tamanho calor, tal o qual acontecia no efeito
Benson. E, durante oito segundos, o tempo ideal dos amantes,
acionou seu dispositivo sonoro culminando num orgasmo
radiativo nunca antes gerado eletricamente.
Ektaspeed não era mais a mesma. Perdera sua
virgindade cedo demais. Ainda sob o efeito somático de
tamanha radiação, arrancou suas asas de mordida, retirou de
vez sua lingüeta e dado o tamanho de sua área irradiada, num
gesto de arrependimento e vergonha, trancou-se numa câmara
escura a fim de proceder sua lavagem final.
Os tempos passaram, outras cenas de amor
foram vividas naquele quarto de motel, ficando registrada
apenas lembranças e saudades daquela noite. Ektaspeed, hoje,
uma película amarelada pela oxidação ao ar atmosférico,
esquecida numa insignificante colgadura, só agora revela o
segredo daquele afetivo encontro amoroso: uma distorcida
imagem radiolúcida mal interpretada de um cisto residual.
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