DÔRA
LIMEIRA
EU
QUERO COMER BRIGADEIRO
Preto, traje roto, sandálias de dedo, ele morava num aglomerado
habitacional de taipa, na periferia. Era menino ainda, mas
suspeitaram que fosse bandido. Seu corpo amiúde fazia mogangas
sobre um monte de barro, no arruado onde morava, equilibrando-se
com agilidade. Brincava de ser cristo redentor, braços
esticados, mãos estendidas sobre um corcovado de brasilites e
isopores rasgados. Vadiava sob os aplausos da meninada e dos
adultos desocupados. De tanto repetir a brincadeira, ganhou um
apelido: “Cristo Redentor”, Cristim na intimidade. Era franzino,
comprido e não tinha medo de nada. Nos horários da escola, ora
estendia seus braços em cruz sobre o arruado, ora se postava
junto aos semáforos. Fazia malabarismos e virava cambalhotas
diante dos carros parados no sinal vermelho. Comia fogo,
canivetes, tesouras. Assim, ganhava uns trocados e entregava, em
casa, à sua mãe que também tinha apelido – Dona Maria de Cristim.
Um dia, final de tarde, parou junto à vitrine de uma lanchonete.
Foi quando suspeitaram que fosse bandido. Imóvel, avistou os
doces e brigadeiros, bolos confeitados, empadas e pastéis. As
glândulas salivaram. Com a fome nos olhos e a boca babando,
Cristim apalpou os bolsos rasos da bermuda. Ouviu o tilintar das
moedas que arrecadara comendo tesouras no último semáforo.
Retirou as moedas do bolso e pensou eu quero comer brigadeiro.
Mas não houve tempo. Um jato de sangue jorrou-lhe das entranhas
e as moedas tilintaram no chão. Rolaram ladeira abaixo, alegres.
Para Cristim, já não valiam nada. Seu corpo deu entrada no IML,
sem sinais especiais que o identificassem, sem dono. Serviu de
exemplo nos noticiários de televisão. O rosto morto foi capa de
revista policial. Tarjas pretas cobriram-lhe os olhos
desbotados, envergonhados. Cristo Redentor era menor de idade,
um menino ainda, mas pensaram que fosse bandido. Em casa, sua
mãe esperou a noite inteira. Volta para casa, Cristim, pensava.
E chorava feito uma pietá. Dona Maria não sabia que, rígido e
frio, Cristo jazia numa gaveta de frigorífico, sem túnica.
|