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SUCEDIDOS
16
EU SOU
DA
CASA
Dázio morava num casarão na rua da Palmeira, hoje
Rodrigues de Aquino, de frente para o início da Irineu
Joffily. Casa antiga, enorme quintal cheio de fruteiras
e, logo na entrada, uma pitangueira. A família hospedou
duas primas, vindas do interior passar alguns dias na
Capital. Dázio interessou-se pelas moças que não se
interessaram por ele, para elas, ainda um menino. Então,
ele resolveu ver as moças trocando de roupa!
Aproveitando uma saída
das primas, ficou de prontidão, esperando o retorno e,
quando avistou-as voltando para casa, aboletou-se
debaixo da cama de uma das moças e aguardou o desfecho
do seu plano. Elas entraram no quarto, começaram a
conversar sobre as compras que haviam feito e nada de
tirar a roupa, enquanto Dázio suava no seu esconderijo;
elas arrumaram as compras nas maletas e nada de tirar a
roupa, enquanto Dázio, no seu esconderijo, era só
agonia; elas tiraram os sapatos, calçaram os chinelos e
nada de tirar a roupa, enquanto Dázio já estava todo
molhado de suor e com uma perna ficando dormente por não
poder se mexer; elas sentaram na cama e começaram a
fofocar, cada uma que contasse a sua fofoca mais
comprida do que a outra e nada de tirar a roupa,
enquanto que a situação de Dázio, em baixo da cama, era
insuportável; tão insuportável que ele não conseguiu se
conter e mudou de posição, movimento que foi notado por
elas. Daí à uma reação alarmante foi um passo. Uma
enorme gritaria ecoou casa a dentro: "Tem um ladrão
dentro do quarto, debaixo da cama!" A histeria aumentou,
com a participação dos outros membros da família, e
chegou até à rua: "Polícia! Chamem a polícia! Tem ladrão
aqui!" Dázio, totalmente apavorado, não sabia o que
fazer, pois tinha medo de continuar debaixo da cama e
também tinha medo de sair.
Em frente, um pouco
para o lado, morava Seu Rui Mendonça, que acudiu o
pessoal, pois já estavam todos na rua, e de revólver em
punho bradou para dentro da casa: "Se sair eu atiro!
Chamem logo a polícia! Se sair eu atiro, estou
avisando!" O coitado do Dázio, agora, era que não podia
sair mesmo. E alguém foi procurar o Pastor Firmino lá na
Assembléia. Ele acionou a Rádio Patrulha, que compareceu
ao local com quatro patrulheiros devidamente armados.
Entraram no tal quarto e deram voz de prisão ao
assaltante. Sai de debaixo da cama um menino chorando,
com os braços para cima, dizendo:
- Eu sou da casa! Eu
sou da casa! Eu sou da casa!...
Esclarecida a
situação, a polícia se retira, no momento em que chega o
Pastor Firmino que é inteirado de todo o acontecido. Vai
ao pé de pitanga,tira um galho da árvore e Dázio leva
uma das maiores surras da sua vida.
17
PIOR FOI
A EMENDA
No início dos anos cinqüenta a festa de Nossa Senhora
das Neves era um dos eventos mais importantes de João
Pessoa, não só por tratar-se da comemoração da data da
nossa Santa Padroeira e da fundação da Cidade,
conseqüentemente do Estado da Paraíba, mas também pela
tradição de costumes que existiam, mantidos só naquele
período, que ia do dia 27 de julho a 5 de agosto. Tudo
acontecia na Rua Nova, já na época denominada de General
Osório, entre o Grupo Escolar Thomaz Mindello e a
Catedral Metropolitana, rua de largas calçadas bem
afeitas a passeios, à colocação de barracas para vender
cachorro-quente, aos cercados para os jogos de argolas,
roletas e tiro ao alvo. Também eram construídos os
pavilhões por associações beneficentes, para servir
bebidas e comidas, realização de leilões e concursos de
rainhas da festa, com o lucro destinado a uma causa
social. Indo em direção à Catedral, a última quadra do
calçadão do lado direito era destinada ao passeio do
quem me quer, onde as jovens de família
desfilavam de braços dados, flertando com os rapazes
de família que ficavam, a maioria com seus ternos
brancos, formando um cordão de isolamento à beira da
calçada. Ali surgiam os namoros, os fuxicos, os
rompimentos amorosos e ninguém pagava nada para
participar. Já ao lado esquerdo da Catedral ficava o
local denominado "a bagaceira", reservado às moças e
rapazes que não eram de família, ou seja, o
pessoal mais pobre, as piniqueiras, soldados de
polícia, guardas noturnos, cabeceiros etc., não faltando
também os rapazes de família que para lá se
dirigiam após a hora do recolhimento das moças de
família, que da bagaceira só tinham notícias ou uma
visão geral de cima da roda-gigante. Os rapazes de
família iam à procura de aventura sexual com alguma
empregadinha e tinham, geralmente, a compreensão das
suas namoradas, moças de família, que, àquela
época, ainda casavam virgens.
Uma outra tradição bem
forte eram os jornais da festa. Entre eles "O Gongo",
pelo qual eram responsáveis Arlindo Delgado, Genildon
Gomes, José Morais Souto, Valdez Silva e eu, entre
outros. O jornalzinho publicava tudo: fofocas,
aniversários, humor, pensamentos... Nessa de pensamentos
foi publicado num dos seus números: "Mais vale uma velha
do que um balaio de brotos", atribuído Biu Bate-Bate,
que era o apelido de Severino Alves de Andrade,
estudante de Direito, noivo de um moça mais velha do que
ele, porém alta funcionária federal. Dia seguinte à
publicação, já esperávamos uma reação, possivelmente
até violenta, dele. E não deu noutra: estávamos no
jornal, eu e Arlindo Delgado, quando avistamos Biu
Bate-Bate vindo em nossa direção. Não contamos conversa:
nos escondemos por trás das impressoras.
Na redação estava Humberto Melo, também estudante de
Direito, que não se dava bem com o esperado visitante e
que por uma infeliz coincidência havia nos pedido para
publicar uma notinha de aniversário, a qual estava
redigindo numa das máquinas de escrever. Biu parou na
porta da redação, olhou para Humberto e desafiou:
- Só podia ser coisa
sua, seu cabra safado! Agora venha para a rua apanhar.
Só não vou lhe quebrar a cara aí porque eu, como
estudante de Direito, conheço as leis: não posso invadir
recintos particulares. Mas aqui no meio da rua eu acabo
com você! Venha se é homem!
Humberto Melo atônito,
sem saber o que estava acontecendo e nem por que estava
sendo desacatado, não se mexeu na cadeira onde estava
sentado, não falou uma só palavra. Biu continuou
ameaçando, mas ao notar que estava chamando a atenção
das pessoas que passavam na rua, retirou-se dizendo que
iria pegá-lo noutra ocasião.
Saímos da nossa toca e
ainda encontramos Humberto sob o efeito da injusta
agressão sofrida. Quando nos viu, perguntou ainda com
certa dificuldade:
- O que foi que eu
fiz?!... O que foi que houve?!...
- Do quê você está
falando, Humberto?
Perguntou Arlindo
fingindo surpresa, enquanto eu me esforçava para não
rir. Humberto relatou o acontecido e Arlindo, mais um
vez, demonstrava ser um bom ator:
- Que absurdo,
Humberto! A gente não ouviu nada disso devido ao barulho
das máquinas... Esse Biu está ficando doido, isso é
bebida demais! Eu vou procurá-lo, Humberto. Ele vai
ouvir umas verdades...
E seguimos para o
Ponto de Cem Reis, pois já era hora do encontro diário
com o resto do pessoal, para colher as notícias,
artigos, matérias para a edição do dia do nosso "O
Gongo". Parados na calçada da Farmácia Regis, ponto
combinado com a turma, eis que surge Biu com cara de
poucos amigos:
- Acabo de ir lá
naquele jornalzinho de merda mas só encontrei o safado
do Humberto Melo, que não teve coragem de sair para
apanhar! Mas só podia ser coisa dele o que vocês
publicaram...
- Um momento Severino,
um momento! Primeiro você chamando jornalzinho de merda
não está atingindo Humberto, porque ele nem pertence ao
corpo de redatores. Se estava lá foi mera coincidência.
Segundo, você está atingindo pessoas que você nem
conhece, que são donos do jornal, como, por exemplo,
Elpídio que está aqui ao meu lado. Terceiro, explique o
que está acontecendo, o que foi que lhe deixou dessa
forma...
Sentenciou Arlindo,
encarando Biu, enquanto eu permanecia ao lado, calado e
com medo. Então, já mais calmo, o nosso agressor tenta
explicar a sua atitude:
- Aquele pensamento,
aquele negócio do balaio de brotos, aquilo foi
sacanagem...
- É, eu li quando já
estava publicado, não podia fazer mais nada... Também
não achei que fosse causar tanto descontentamento da sua
parte.. Mas certamente não foi Humberto o responsável. A
notinha chegou na redação e na pressa de fechar a
edição, alguém jogou no meio das outras... Mas eu lhe
garanto um retratamento ainda na edição de hoje!
E lá se foi Severino
mais ou menos satisfeito enquanto Arlindo aguardava
alguns segundos para desatar numa risada! Ele havia sido
o autor do tal pensamento! Ainda rindo da situação,
voltamos ao jornal para concluí-lo e foi lá que ele
escreveu e saiu publicada a seguinte jóia de pedido de
desculpas: "Nota da Redação - O Jornal O Gongo, tendo
publicado na sua edição de ontem o pensamento mais
vale uma velha do que um balaio de brotos atribuído
ao nosso futuro jurista Severino Alves de Andrade,
conhecido como Biu Bate-Bate, vem de público pedir
desculpas ao atingido pelo tal pensamento de que mais
vale uma velha do que um balaio de brotos,
afirmando que nós não achamos que mais vale uma velha
do que um balaio de brotos pois, mesmo que
comungássemos com esse pensamento de que mais vale
uma velha do que um balaio de brotos, jamais iríamos
fazer a afirmação de que mais vale uma velha do que
um balaio de brotos e atribuí-la a uma pessoa que
não acha que mais vale uma velha do que um balaio de
brotos. Assim, mais uma vez pedimos desculpas ao
nosso amigo Biu Bate-Bate, garantindo-lhe que ele nunca
mais será atingido por pensamentos iguais a esse de que
mais vale uma velha do que um balaio de brotos.
Dia seguinte, mesma
calçada, mesmo Ponto de Cem Reis, mesmas pessoas. Surge
Biu com um semblante enigmático. Arlindo não lhe deu
oportunidade de falar primeiro:
- Leu a nota? Pedi
desculpas umas três vezes, para deixar bem claro que não
estávamos de acordo com aquele negócio... Gostou? Pela
sua reação agora, já sei que gostou! Mas não precisa
agradecer nada! Fizemos a nossa obrigação!
Torpedeado por tantas
perguntas e afirmações, Biu ficou meio confuso mas ainda
fez uma pequena reclamação:
- Eu achei meio
repetitiva, meio insistente naquela frase... Não será
que foi pior a emenda do que soneto?... Tenho a
impressão de que a nota só fez piorar a situação!
E enigmaticamente
retirou-se.
18
DIREITA,
VOLVER!
Ninguém que cumpriu o serviço militar obrigatório deixa
de ter histórias e mais histórias a contar, acontecidas
durante o seu tempo de convocado. Comigo não é
diferente, claro! Servi no 15o. Regimento de
Infantaria e, posteriormente, na 23o. Circunscrição de
Recrutamento, durante um ano e doze dias, entre 1954 e
1955. Eram companheiros de farda: Newton Leite, Iveraldo
Lucena, Ednaldo Soares, Márcio Aírton, Zenivaldo
Padilha, José Waldomiro, Ruy Eloy e Firmo Justino, entre
outros, inclusive um rapaz do interior de nome José, que
na hora da chamada, quando o sargento gritava o seu
número, ele respondia: Jugé!
Dos nossos superiores
hierárquicos boas e más lembranças. As boas por conta
dos coronéis Gastão, Renato Morais e Rodin; do major
Serrão; dos capitães Jamil Daher, Renato Macário e
Montez; dos tenentes Maul e Delfim e dos sargentos
Roberto Guimarães, Humberto e Cardoso. As más por conta
do coronel Bolívar (apelidado pela tropa de Pombo
Roxo), e pelos tenentes Máximo, Cantalice, Souza e
Facundo. Tinha também um sargento que eu não lembro o
nome e a gente o apelidou de o gordinho da banda, porque
ele era baixo, gordo e tocava um instrumento do tamanho
dele. Era apenas chato, porém muito engraçado. Quando
estava de serviço, passava a noite no pátio do quartel,
com um espeto de ferro, apanhando folhas no chão que
caiam das mangueiras. Dizia-se que ele fazia isso para
não dormir durante o seu turno e, também, porque tinha
medo de alma. O dormitório da CCS, Companhia de Comando
e Serviço, onde estávamos servindo, era no primeiro
andar do pavilhão. Certa vez, sabendo que o gordinho
estava de serviço, abrimos as janelas e, cobertos por
lençóis brancos, ficamos a fazer movimentos lentos, bem
visíveis, através delas. Quando percebemos que o
sargento corria para a escada que dava acesso ao
primeiro andar, fechamos as janelas e ficamos deitados
no maior silêncio. O sargento entrou, acendeu as
lâmpadas e todo mundo dormindo! Ele observou a todos
nós durante algum tempo, buscando, talvez, alguma prova
da nossa sacanagem e, como não encontrou, apagou a luz e
desceu. Meia hora depois resolvemos repetir a
brincadeira. Foi quando um espírito de porco desencaixou
o lastro da cama de um dos soldados fantasmas e quando o
sargento subiu correndo e todos pularam nas suas camas,
uma abriu-se, causando o maior barulho no assoalho. Ao
acender as lâmpadas, estava o soldado sentado no chão, a
cama toda escangalhada e o resto da companhia rindo. Nos
custou um fim de semana sem folga.
Outra lembrança viva é
a do dia do suicídio de Getúlio Vargas. Não tínhamos nem
dois meses de quartel e veio uma prontidão. Ninguém saía
nem entrava. Passaram para nós os apetrechos de guerra:
armas, munições, capacete, cantil, bornal, cintos e um
treco que botava nas costas, que parecia uma cangalha.
Ficamos todos como se fôssemos acampar. A diferença era
a munição, nos entregue pela primeira vez e com a
seguinte recomendação: ninguém podia carregar a arma.
Era um FO 1918, ou seja, um fuzil ordinário 1918, com
trinta e seis anos de uso.
Ainda hoje fico
pensando: e se houvesse necessidade de uma ação
qualquer? Ninguém sabia atirar! Principalmente com uma
arma descarregada! Felizmente não aconteceu nada e a
prontidão acabou.
Mas a lembrança mais
gratificante é a do primeiro acampamento, que nós
fizemos na Praia do Seixas. Três dias memoráveis, quando
aconteceram coisas incríveis. Cada barraca era ocupada
por dois soldados e lembro-me que o meu sócio era Newton
Leite. Por conta da sua astúcia, tínhamos a única
barraca do acampamento servida de luz elétrica,
fornecida por baterias e pequenas lâmpadas. Lembro-me
também de Fanta, motorista de José Waldomiro, levando
coisas enviadas por nossas famílias e entregando-as,
através do Cabo Branco, de uma forma camuflada, burlando
a vigilância.
Mas a nossa maior
glória estava reservada para o segundo dia, quando
passamos a manhã fazendo exercícios de combate, dentro
da mata que existia no altiplano do Cabo Branco. Junto
conosco estavam uns alunos de uma escola de sargentos da
polícia lá da capital do Estado do Ceará. Eram
comandados por um sargento e nós também. Entramos na
mata e começamos a caminhar. Depois de um bom pedaço de
terra, arbustos e árvores, paramos debaixo de um
frondoso cajueiro, para receber instruções sobre o
próximo passo do nosso treinamento. Alguém resolveu
contar uma anedota e foi engraçada. Outro também sabia
de uma e contou. Um tinha levado uma lata de goiabada e
abriu. Apareceu quem tivesse aguardente no cantil. E
também quem tivesse uma lata de Kitut. A festa estava
formada! A única recomendação foi que não bebêssemos
toda a água dos cantis. Determinado e cumprido.
Finalmente, chegou a hora de retornar ao acampamento e
nada tínhamos feito de instrução. Aí veio a experiência
superior:
- Com o resto da água
dos cantis molhem as roupas, principalmente nos joelhos
e cotovelos. Agora rolem no chão, se esfregando o máximo
que puderem. Todos em forma. Ordinário! Marchem!
Imundos, porém
altivos, entramos no acampamento cantando com toda força
dos pulmões o Hino do Regimento: "Somos do Quinze,
falange forte..." O Comandante da Companhia, orgulhoso,
de braços cruzados, gozava a nossa apoteótica chegada,
enquanto outros comandantes torciam a cara, naturalmente
com inveja e ao mesmo tempo sem acreditar no que estavam
vendo, pois éramos considerados as ovelhas negras do
15o. RI. O nosso Comandante fez uma preleção nos
elogiando e nos dando como exemplos a todos do
acampamento e, ao terminar, como reconhecimento ao nosso
excelente desempenho, bradou:
- Todos de folga hoje
à tarde!
19
OS
LEGIONÁRIOS
Todos os anos um bloco
de carnaval era organizado, tendo como ponto de apoio e
local para reuniões a minha casa. De 1951 a l956 foram
fantasias de pirata, do Zorro, de Mosqueteiros do Rei,
de jóquei, de presidiários e de legionários, aqueles
soldados do deserto. Éramos cerca de quinze rapazes e
quinze moças, em cima de um caminhão devidamente
ornamentado, de acordo com o tema determinado pelas
fantasias. Uma pequena orquestra tocando frevos
nos acompanhava pelas diversas residências que
visitávamos durante os três dias de folia.
O bloco ainda tinha um
jornalzinho e uma paródia de uma marchinha era
composta todo ano para ser cantada por nós, também
obedecendo ao tema das fantasias. Quando se aproximava o
carnaval, promovíamos reuniões semanais às
sextas-feiras, que sempre terminavam em festa. Nessas
reuniões tudo era discutido e decidido democraticamente.
No ano em que a
escolha do nosso tema, ou das fantasias, recaiu nos
soldados do deserto, os conhecidos legionários, fazia
parte do nosso grupo um rapaz do interior de São Paulo,
que estava trabalhando aqui no Nordeste, precisamente em
Campina Grande. Faltando poucos dias para o carnaval
chega-nos a notícia do seu falecimento, causado por um
porre de lança-perfume, tomado no quarto do hotel onde
ele se hospedava. Havia, talvez por falta de
conhecimento do perigo que corria, molhado bem o
travesseiro com o éter perfumado e metido o nariz em
cima, vindo a perder os sentidos e morrer sufocado.
Muita tristeza,
principalmente porque era uma pessoa simpática, alegre
e entrosado com o grupo, onde já estava de namorada.
Uma reunião extraordinária foi convocada para decidir o
que fazer: suspender o bloco ou continuar? Todos
votaram, menos a namorada do falecido que não quis
comparecer, e o resultado foi unânime: continuar! As
declarações de voto eram, até certo ponto, ridículas e
hipócritas: "a vida continua!"; "continuando a gente
está fazendo uma homenagem a ele"; "onde ele estiver vai
concordar conosco." E houve até quem sugerisse o uso de
uma tarja preta, de luto, nas fantasias!
A verdade é que todos queriam o
carnaval e não tinham qualquer responsabilidade com a
burrice do cara. O bloco saiu sem o casal da tragédia e,
naquele ano, foi um dos mais animados!
20
CARNAVAL
NO
ASTREA
Na
época, fim da década de cinqüenta, o Astrea era o
clube preferido pelos jovens, ficando o Clube Cabo
Branco para o pessoal mais conservador. Por isso o seu
carnaval era mais animado e mais concorrido. O
Presidente era o usineiro Renato Ribeiro Coutinho, mas
quem administrava tudo era o Vice, Desembargador Júlio
Rique, figura bastante conhecida da vida boêmia de João
Pessoa.
Estávamos todos na
maior animação quando surge o então Capitão dos Portos,
com a sua esposa. Sendo eles oriundos do sudeste ou sul
do País, não estavam muito acostumados com o
provincianismo do nosso povo e, por isso, a madame
chegou trajando uma calça comprida branca e bastante
justa, onde ficavam delineadas as marcas da calcinha que
usava por baixo. Era coisa nunca vista aqui: mulher de
calça comprida e mais justa! E o pior era que ela era
muita da bem feita de corpo e portava um generoso
traseiro! Mas o que chamava mais atenção eram as marcas
da calcinha!
Já havia um clima de
grande euforia, pois passava da meia-noite. Juntando-se
isso às bebidas, os porres de lança perfume e,
principalmente, essa nova atração, certamente iria
aumentar o reboliço. Quando ela entrou no salão de
danças com o marido, criou uma ilha cercada de olhares
por todos os lados. Nesse momento, um maluco ou maluca
qualquer, nunca se soube quem foi, acertou uma
seringada de lança perfume bem no centro do traseiro
dela. Foi um pulo e um grito e a confusão começou. O
marido esbravejava para um lado, ela esbravejava para o
outro e os diretores do clube pedindo desculpas e
tentando acalmá-los, coisa que não conseguiram. A
orquestra parou de tocar. O casal retirou-se, com o
marido ameaçando invadir o Astrea com a Marinha,
Exército e Aeronáutica.
A única força que
apareceu por lá foi a Rádio Patrulha, barrada na porta
pelo Desembargador, que usando dos seus conhecimentos
legais, informou aos soldados que eles só poderiam
entrar no recinto, por determinação judicial ou a
pedido do próprio clube. Feito isso foi até à frente da
orquestra e usando o microfone, proferiu uma contundente
preleção contra o uso indevido de lança perfume,
principalmente contra quem estava tomando porre, o que
certamente teria sido o indutor da pessoa que havia
praticado o reprovável ato contra a esposa do Capitão
dos Portos. E aproveitou a oportunidade para
aconselhar aos astreanos de como eles deveriam usar o
lança perfume:
- Usem nas costas das
senhoritas, mas nunca para tomar porres, que são
tremendamente prejudiciais à saúde. Usem nos cabelos das
moças, mas nunca para tomar porres, porque eles tiram a
razão das pessoas e as levam a praticar atos negativos.
Usem nos colos das namoradas, mas nunca para tomar
porres, porque já são muitos os resultados fatais
provocados por eles. Agora astreanos, a orquestra vai
voltar a tocar e nós vamos brincar o nosso Carnaval sem
maiores preocupações e respeitando a proibição de se
tomar porre de lança perfume.
Fez sinal para a
orquestra reiniciar a festa e, ali mesmo, diante de
todos, tirou o lenço do bolso, encheu de lança-perfume e
saiu para o salão, dançando e tomando porre...
21
O
BATIZADO
Martinho Quintas de Alencar era funcionário da Usina São
João, no município de Santa Rita e residia na própria
usina. Nos conhecemos no Ginásio Solon de Lucena, onde
chegamos a estudar juntos. Participamos de blocos de
carnaval e posteriormente fomos companheiros no Teatro
do Estudante da Paraíba. Ao nascer Luiz Maurício, meu
primeiro filho, poucos dias antes havia nascido o
segundo dele, que recebeu o nome do pai. Eu ainda estava
com a mulher na maternidade quando ele foi nos fazer uma
visita e nos convidou para ser os padrinhos do filho
dele. Claro que aceitamos a sua deferência e a
retribuímos convidando-o também para ser padrinho do
nosso, o que ele aceitou de imediato. Depois me
confessou que nos fez o convite, certo de o
convidaríamos também. Tendo os meninos atingidos alguns
meses de idade, acertou-se os batizados que seriam
realizados no mesmo dia, na usina onde Martinho morava,
pelo padre da paróquia de Santa Rita.
Na data marcada
estávamos lá, pais, padrinhos e alguns amigos e parentes
convidados pelas duas partes. Um dos meus convidados
especiais era o maestro Pedro Santos, por quem nós todos
tínhamos especial consideração. Com os batizados
marcados para às dezesseis horas, chegamos às nove e nos
aboletamos na residência do futuro compadre. Bebes e
comes, mais bebes do que comes, almoço, mais bebes e
comes e esquecemos a hora de ir buscar o padre.
Resultado: não aconteceram os batizados.
Marcada uma nova data,
estávamos novamente todos lá. E também outra vez bebes e
comes, mais bebes do que comes, almoço, mais bebes e
comes, sendo que , dessa vez, alguém da família de
Martinho ficou atento à hora de ir buscar o padre, que
chegando, encontrou os padrinhos bastante alegres, dando
vivas a Jesus Cristo e transpirando álcool. O padre, um
tanto ranzinza e de origem holandesa, recusou-se a
realizar os atos religiosos, alegando nossa condição de
adoradores de Baco. E mais que, se quiséssemos
batizados, agora teríamos que ir até à Igreja de Santa
Rita.
Dias depois estávamos,
às oito da matina, padrinhos e madrinhas portando seus
respectivos afilhados, à porta da tal Igreja, para
iniciar o ritual do batismo. Dessa vez a coisa iria
acontecer, pois até o horário, tão cedo, foi escolhido
para que ninguém bebesse antes. Todos a postos,
inclusive o padre, quando uma beata, dessas que ficam
colaborando com a arrumação de igreja, chegou ao ouvido
do vigário e cochichou alguma coisa. Ele virou-se para
nós e decretou:
- Non fazer mais
batizadas!
E retirou-se. Ficamos
sem entender coisa alguma até que a tal beata
esclareceu:
- Aquele amigo dos senhores roubou um santo do altar e
escondeu no carro...
Havia sido Pedro
Santos, que encontrando uma imagem de um santo, feito em
madeira e desprezada lá por trás do altar, recolheu-a
para si, alegando que ela havia sido substituída por uma
de gesso, de qualidade artística inferior, porém, muito
mais vistosa. Mas o padre holandês não queria saber
disso:
- Só fazer mais
batizadas se devolver santa!
Pedro Santos atendendo
as nossas ponderações foi até ao padre e propôs um
negócio: devolveria a imagem do santo, mas o padre
deixaria ele levar uns ex-votos que também estavam
desprezados no mesmo lugar. E não é que, para o espanto
geral, o padre aceitou! Os batizados foram realizados,
enfim! Quando saímos da igreja, Pedro Santos vinha se
justificando:
- Tudo depende de
diálogo, de se saber negociar. Eu cedi um pouco, ele
também cedeu um pouco, e tudo foi resolvido sem maiores
problemas!
22
ASA
DE
BODE
Trabalhávamos
na Administração do Porto de Cabedelo: eu, Raimundo
Nonato Batista, Durval Leal de Araújo, Etiênio Campos,
Ivanildo Coelho, João Barbosa, José Moacir Porto, Celso
Otávio Novais e outros. Residíamos em João Pessoa, por
isso nos agrupávamos ao término do expediente, às treze
horas. Quando chegava a sexta-feira o agrupamento era
mais festivo e etílico. Começava no bar de Dona Nila e
terminava só Deus sabe onde!
Num desses inícios de
fim de semana, com todos concentrados no tal bar, que
era ponto de encontro e de partida, aparece um moço
querendo vender uma galinha e pedindo um preço até
razoável, pois a penosa era de bom porte e de capoeira.
Todos começaram a pechinchar, numa tentativa de levar
alguma vantagem. O moço já estava quase cedendo quando
Durval, que já havia tomado umas oito, mandou o verbo:
- Roubar! É isso que
eles querem fazer com o senhor, meu amigo! Venda não! Eu
pago o primeiro preço que o senhor pediu. Eu respeito um
pai de família que sai à rua para conseguir o sustento
dos seus... Eu pago! É minha a galinha!
Tirou o dinheiro do
bolso, pagou ao moço, pegou a galinha e guardou no
carro, dizendo que ia levar para o almoço do domingo.
Enquanto fazia isso, o resto do grupo ficou arquitetando
uma vingança pelo desaforo dele, que seria a de roubar
a ave, mandar prepará-la e chamá-lo para comer junto com
todos. Foi acordado que se daria um tempo para que ele
pudesse esquecer da sua compra e a farra continuou sem
se falar mais no assunto. Em dado momento alguém sugeriu
uma esticada até à Praia do Poço, o que foi aceito pela
maioria, inclusive por Durval, a essa altura mais alegre
ainda!
Já na Praia do Poço,
parte do grupo cuidou de distrair o dono da galinha,
enquanto outra parte encarregou-se de roubá-la para que
fosse preparada na cozinha do bar. A desculpa era a
carne de bode que seria servida, declarada como a de
melhor sabor de toda a orla marítima, o que deixou
Durval bastante impaciente:
- Porra! Esse bode sai
ou não sai?
- Calma, Durval! Está
sendo preparado, é feito na hora! Garçom, mais uma
cerveja...
Comandou alguém,
tentando evitar que ele resolvesse ir embora. Mais
alguns minutos e o cheiro da galinha/bode estava no ar e
todos repetiam: "Que bode cheiroso danado!" E,
finalmente, o prato chegou à mesa em clima de festa,
tendo alguém botado logo uns pedaços para Durval, que
não se conteve em afirmar:
- Fazia tempo que eu
não comia um bode tão gostoso!...
-
Mais um pedacinho Durval. Tome aqui a asinha do bode...
Dizia um.
- Agora coma o
pescocinho do bode...
Dizia outro.
- Coma um pedaço da
moela do bode...
Arriscou alguém.
E Durval foi comendo
e elogiando o sabor até ao fim da farra. Veio a conta,
que foi dividida igualmente, e ele acabou pagando a sua
parte do prato de carne de bode, que era apenas uma
gratificação para a cozinheira.
23
A
DIPLOMACIA
DE
ROSEMIRO
O
cargo de Superintendente do Porto de Cabedelo era
político e de confiança do Governador do Estado, que
nomeava quem quisesse, desde que fosse um engenheiro.
Quando mudava o Governador do Estado, fatalmente mudava
também o Superintendente do Porto. Em maio de 1964, logo
após o golpe militar, quando era Pedro Gondim o
Governador, fui nomeado conferente, indo trabalhar na
beira do cais, contando volumes no embarque e
desembarque de mercadorias. Mas logo fui requisitado
para prestar serviços na Administração, na Divisão de
Contabilidade e Estatística, pelo então Superintendente
Eng. Newton Fernandes Maia, saindo assim da atividade
operacional para a burocrática. Fui ficando por lá,
vindo posteriormente a exercer alguns funções de chefia
e direção.
Em 1966, o Porto era dirigido pelo Eng. Guilherme Dantas
Vilar e eu já com quase dois anos de serviços prestados,
exercia a função de Secretário da Superintendência. Bem
relacionado com os companheiros, transitava muito à
vontade, desde o cais, onde eu havia começado, até no
gabinete da direção geral.
Foi
no começo, trabalhando como conferente, que reencontrei
Rosemiro, que havia conhecido quando menino, ao
freqüentar a casa dos meus avós maternos em Jaguaribe,
de quem ele era vizinho. No Porto ele exercia a função
de empilhador, espécie de motorista de empilhadeira,
veículo que transporta e empilha cargas. Volto a ter
contato com ele algum tempo depois, quando eu já era
secretário e ele exercendo uma nova função, a de guarda,
prestando serviços, coincidentemente, no prédio central
do Porto.
Rosemiro era forte, musculoso, mas não era agressivo.
Diziam que lhe faltava algum parafuso, mas que essa
ausência só se manifestava em situações extremas. Comigo
sempre fora cordato desde o tempo de menino, e quando o
encontrei novamente no Porto, a impressão foi a mesma.
Sempre alegre, prestativo, atencioso. Muitas vezes
conversamos sobre as brincadeiras em Jaguaribe, na
oficina de carpintaria do meu avô, onde o encontrei
várias vezes fazendo caminhões de brinquedo, com as
sobras de madeira.
Rosemiro não bebia, atividade muito bem
praticada pela maioria dos funcionários do Porto. Um
dia, estando de serviço, deparou-se com dois
funcionários discutindo, dizendo palavrões um com outro,
fazendo ameaças mútuas de murros e mortes, ambos
embriagados. Era cedo da manhã ainda, havíamos acabado
de chegar para o expediente. No meio da rua, em frente
ao prédio da Superintendência, a alteração continuava,
com Rosemiro tentando, com a maior calma possível,
desfazer a briga. Vez em quando conseguia separá-los e
distanciá-los. Mas quando dava as costas, a confusão
recomeçava. Rosemiro, pacientemente, argumentava:
-
Isso não dá certo! O doutor Guilherme chega daqui a
pouco e vai pegar vocês brigando, embriagados, na hora
do expediente! Parem com isso, eu já pedi! E logo você
que é irmão dele, está dando esse mal exemplo! Vão
embora, vão tomar um banho, vão se acalmar...
Um
dos brigões era, de fato, irmão do Superintendente, o
que tornava a situação mais complicada para Rosemiro.
Ele insistia, tentando acalmar os ânimos, mas já se
notava alguma mudança no seu comportamento, embora
continuasse pregando a harmonia e o entendimento. Outra
vez separou os contendores e eles voltaram a insistir na
briga. Foi aí que Rosemiro não conseguiu mais se
segurar:
- Muito bem, vocês
dois! Estou aqui há meia hora tentando acabar essa briga
de vocês. Mas vocês querem brigar. Já fiz tudo que pude
para o bem de vocês. Mas vocês querem brigar. Está muito
bem. Vocês querem brigar, vai ter briga. Mas vai ser
comigo!...
Partiu para eles e
surrou os dois que, apavorados, bateram em retirada.
Quando o doutor Guilherme chegou, tudo funcionava
normalmente.
24
JOAQUIM
&
AGILDO
Por
conta dos bons serviços prestados à sua administração, o
Coronel Walter Moreira Lima nos concedeu bolsas de
estudos para cursarmos, eu e Raimundo Nonato Batista,
a Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação
Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Raimundo para o curso
de Organização e Métodos e eu para Relações Públicas,
Administração de Pessoal e de Material. E lá fomos nós,
sob protestos de alguns invejosos da Administração do
Porto de Cabedelo, de onde éramos funcionários, passar
uma temporada na Cidade Maravilhosa, com tudo pago.
O ano era l967, primeiro semestre. Depois de alguns dias
em contato com os nossos novos companheiros de trabalho
ou de estudo, conhecemos Joaquim, um paranaense
descendente de português. Estávamos a falar da
necessidade de alugarmos um pequeno apartamento já
mobiliado, de preferência, na Praia de Botafogo, onde
situava-se a nossa escola, quando o nosso novo amigo
mostrou-se interessado em também participar do aluguel.
Para nós, melhor, pois além dele ser uma pessoa
simpática, tinha transporte próprio e as despesas seriam
divididas por três. E assim foi.
A esse mesmo tempo, Raimundo encontra, também, Agildo,
um primo seu, que não via há algum tempo, e que passou a
freqüentar o nosso apartamento do terceiro andar do
Edifício Hindu. Com Joaquim, foi muito fácil o
relacionamento de Agildo, pois ambos eram solteiros. Com
Raimundo, esse relacionamento já existia. Comigo a
coisa foi um tanto mais difícil, pois eu não concordava
com algumas práticas dele, por demais modernas para mim,
na época. Como também pesava o fato de eu ter pouco
tempo de casado e um filho recém-nascido. Mesmo assim,
nunca fiz objeção à sua presença, embora não comungasse
totalmente com o seu comportamento. Raimundo chegou a
comentar comigo sobre uma atitude, aparentemente hostil,
da minha parte para com ele, mas ainda hoje acho que foi
sem querer e sem pensar, saiu assim, quase
automaticamente: Agildo contava bem à vontade as suas
práticas de sexo oral, com detalhes, com gestos, e eu
achava tudo aquilo uma nojeira. Certa vez, ao entrar no
apartamento, me deparo com ele bebendo água no meu copo.
Ato contínuo, jogo o copo fora!
Joaquim, uma figura
engraçada, bem humorada, solteiro e sem maiores
compromissos até com o próprio curso que fazia, estava
lá muito mais para se divertir do que para trabalhar. Eu
e Raimundo, não. Além de casados, tínhamos que prestar
contas das nossas atividades no Rio, junto à
Administração do Porto de Cabedelo, sob pena até de
sermos chamados de volta. Agildo já vivia no Rio há
algum tempo. Solteiro, trabalhava de dia e aproveitava a
noite para farrear. Claro que eles dois se entenderiam
melhor!
Para o nosso primeiro
fim de semana no apartamento, tínhamos combinado com
Joaquim ir fazer, no sábado, umas compras no
supermercado. Ele encheu a cara na véspera, dormiu tarde
e, naquela manhã se recusou a levantar-se da cama. Nos
entregou a chave e os documentos do carro, dizendo que
fôssemos nós, que ele iria ficar dormindo. Saímos, eu e
Raimundo, num Karman-Ghia, sem conhecer bem o trânsito
do Rio, a ouvir desaforos de outros motoristas que, por
sorte, olhavam para a placa do carro e gritavam: "Seus
barbeiros viados, só podiam ser do Paraná!"
Na semana seguinte,
Joaquim e Agildo, já mais íntimos, anunciaram que
estavam esperando umas amigas que haviam conhecido e que
eram perfuradoras de cartões da IBM. Elas trabalhavam
até às vinte e duas horas e depois passariam pelo
apartamento para saírem juntos. Até aí, sem problemas,
mesmo porque Joaquim também pagava o apartamento e tinha
lá os seus direitos. Ficamos os quatro conversando,
eles dois esperando as duas moças e nós, eu e Raimundo,
aguardando a saída deles, para iniciar a feitura de um
trabalho do curso, que teríamos de entregar na
segunda-feira seguinte. Quase meia hora depois da hora
marcada as moças ainda não haviam chegado e eu, querendo
fazer o trabalho antes que o sono aparecesse, estava
tentando convencê-los de que elas não viriam mais e que
era melhor eles saírem, para encontrá-las lá na IBM... A
campainha tocou. Joaquim foi abrir a porta. Entraram
oito moças!
Não precisa dizer do
nosso espanto. Oito perfuradoras era perfuração demais
para poucos cartões! Fiquei olhando abismado,
contrafeito, demonstrando a minha habitual falta de tato
com esse tipo de situação. Raimundo era muito mais
civilizado e procurou suprir a minha deficiência, sendo
atencioso com o pessoal, claro que sem qualquer
enxerimento. Agildo, bastante eufórico com o
despropositado harém, começou a fazer as apresentações e
lá estávamos eu e Joaquim, Deputados da Paraíba,
enquanto Raimundo era Senador ! Ele, por sua vez, era o
nosso assessor parlamentar no Rio de Janeiro. E em
seguida começou a preparar a nossa noitada: iríamos
primeiro a um restaurante, depois a uma boate...
Eu
parei logo com o andor, anunciando, de pronto, que não
iria sair para canto algum. E para não desmoralizar a
farsa armada por Agildo, justifiquei que tinha que
preparar um projeto que seria discutido no outro dia com
o diretor do Serviço Nacional de Teatro, lá em Arcozelo,
num encontro cultural, e mais um bocado de besteiras
para impressionar. Raimundo só fazia confirmar dizendo
"Pois é... Pois é... Pois é...", enquanto Joaquim,
irreverente como sempre, rolava de rir, dizendo-me:
"Vossa Excelência leva o trabalho muito a sério!"
A temperatura subiu um pouco, acho que por conta da
aflição e da quantidade de pessoas dentro de um pequeno
espaço, respirando, falando e se movimentando. Achei por
bem abrir o único janelão da sala e, de repente, entra
aquele vento frio no recinto. Todo mundo sentiu e se
arrepiou e eu aproveitei o fato para ser mais
contundente na minha decisão:
- Com um frio desse eu
não vou pra canto algum. Posso pegar um resfriado e
amanhã ficar impedido de trabalhar...
Joaquim trouxe uma
solução que atendia plenamente os objetivos dele e de
Agildo, deixando-nos sem condição de reagir e mudar a
situação:
- Ninguém vai mais
sair. Fica todo mundo aqui! Vou lá em baixo buscar umas
cervejas, pegar umas pizzas, umas empadinhas...
O que fazer?! Raimundo
continuava a dizer "pois é..., é isso..., está fazendo
frio,..." e na verdade estava era todo enrolado. Eu, sem
ter outra coisa melhor a dizer, falei para Joaquim:
- Aproveite e traga
também uma garrafa de conhaque!
Armada a festa toda,
não precisa dizer do nosso constrangimento, enquanto que
para Joaquim, Agildo e as oito moças estava tudo muito
bem obrigado! Piadas, conversas gerais, bebida pra lá,
bebida pra cá, muita mentira sobre a nossa vida no
Nordeste, o tempo passando, a descontração chegando e de
repente, lá volta Joaquim com as suas propostas e, dessa
vez, bastante inusitada:
- Vamos brincar de
roleta carioca? Onde está o baralho? É o seguinte: cada
um pega uma carta e quem tirar a menor, tira também uma
peça da roupa. Topam?
Agildo foi o primeiro
a aceitar o jogo, enquanto que a maior parte das moças,
já com algum álcool no juízo, não se fez de rogada. E
nós ficamos no quem cala consente...
E o jogo começou após
todos encherem seus copos. Quando uma moça perdia,
tirava um brinco, um anel, uma pulseira... Já o homem,
depois do relógio, só tinha para tirar a roupa mesmo!
Foi quando Agildo levantou uma questão de ordem, dizendo
que daquele jeito estávamos levando desvantagem, no que
concordou Joaquim, trazendo a solução do problema,
através de uma das suas idéias estapafúrdias:
- É o seguinte: as
regras estão mudadas! Agora eu penso numa carta e cada
um de vocês puxa uma carta. Se coincidir com a que eu
pensei, vocês ganham. Caso contrário, vocês perdem e
tiram uma peça da roupa. Entenderam? Então, vamos
começar. Elpídio, puxe uma carta e diga qual foi.
- Quatro de copas...
- Exatamente a que eu
pensei, você ganhou. Não tira nada!
E continuou a farsa,
perguntando às outras pessoas e determinando a retirada
de uma peça de roupa de quem ele bem quisesse! E a coisa
começou a esquentar, com as pessoas já meio altas a
fazer um coro de tira, tira , tira, toda vez que uma
perdia. Em dado momento, acho mesmo que por conta da
situação, fui até à janela e olhei lá pra baixo, pra
rua. Foi aquele susto: dois carros de polícia parados em
baixo, com soldados olhando para cima e apontando na
direção da nossa janela! Alarmei!
- Tem dois carros de
polícia lá em baixo e os soldados estão subindo prá cá!
Alguém deve ter denunciado!
Agildo, demonstrando
experiência nessas situações, comandou a operação bota
fora e foi logo alertando as moças que descessem pela
escadaria e não pelo elevador, por onde deviam estar
subindo os policiais. Algumas ainda saíram se vestindo e
o que ficou de brinco, anel e pulseira no chão do
apartamento foi apanhado e guardado rapidamente. Tudo
reorganizado, ficamos aguardando a chegada das
autoridades, normalmente conversando e bebendo, para que
não desconfiassem de nada. Claro que a gente iria
sustentar que estávamos sozinhos. O tempo passou e nada!
Ninguém bateu na porta, ninguém tocou a campainha! Meia
hora depois, resolvi descer e ir até um boteco que havia
no térreo do prédio. Lá, como quem não quer, querendo,
procurei me informar e fiquei sabendo que houvera uma
briga de marido e mulher, no oitavo andar, que resultou
em lesões corporais nela e o síndico chamou a polícia.
Como o marido era da aeronáutica, só poderia ser preso
pela patrulha daquela arma. Daí a presença de dois
carros. E assim acabou o meu primeiro envolvimento numa
roleta carioca!
25
A
CIRURGIA
Ao
aproximar-se o retorno para João Pessoa, a minha mulher
foi passar os últimos dias do curso da história
anterior, comigo. A essa altura eu já morava no Leme,
bem distante do apartamento do Botafogo, de Agildo e das
suas perfuradoras da IBM. Terminado o curso, ficamos
ainda o resto da semana passeando no Rio e marcamos o
retorno para o domingo. Na véspera da volta, no sábado,
entregamos o apartamento, deixamos a nossa bagagem na
residência de um irmão meu, no Flamengo, e fomos para
Niterói visitar uns primos, na casa de quem
pernoitaríamos, saindo no outro dia para pegar a bagagem
e embarcar. Antes de entregar o apartamento do Leme,
fizemos o rapa na geladeira, comendo tudo que restava
lá. Eu, como sempre, exagerado, abusei do presunto com
ovos. A mulher apenas tomou leite.
Já no meio da
travessia da Baía da Guanabara, comecei a sentir um mal
estar, tonturas e escurecimento de vista. O pessoal da
barca achou que eu estava enjoando, ao que declarei ser
impossível, pois desde os oito anos de idade que eu
andava de barco e nunca havia sentido qualquer tipo de
enjôo. Mesmo assim me deram um comprimido e recomendaram
que eu tentasse vomitar que,
certamente, melhoraria. Até que tentei,
mas não saía nada!
Quando chegamos a
Niterói, um táxi nos levou à residência do primo
Hortêncio Navarro Mesquita, que era casado com a prima
Socorro. Fui deitar-me, numa tentativa de alguma
melhora, mas nada mudou. As tonturas, o mal estar, tudo
continuou e piorou. Então não houve saída. Fui levado ao
pronto socorro para atendimento médico. Lá examinou-me
um médico já idoso que chamou outro médico também idoso
e, entreolhando-se, deixaram a mim e a minha mulher
tremendo nas bases. Ela, mais ansiosa ainda por um
diagnóstico, quis saber qual era o meu problema, pois
teríamos que viajar no dia seguinte, para o Nordeste. Os
médicos olharam para ela e um deles informou ser aquilo
impossível, pois, naquele momento, uma ambulância havia
sido providenciada para me levar ao Hospital Santa
Bárbara, onde já estava sendo preparada a sala para eu
ser submetido a uma cirurgia de urgência. Meu problema
era uma hemorragia interna! A mulher, que era branca, aí
é que ficou branca mesmo, enquanto o meu coração
disparava adoidadamente! E pela primeira vez na minha
vida eu andei em ambulância, com direito a sirene e
tudo!...
Ao chegar ao hospital,
fui retirado numa maca e levado diretamente para o
centro cirúrgico, onde rasparam os meus pêlos e me
fizeram uma lavagem intestinal. A essa altura o medo já
havia me curado e eu não sentia mais nada! O cirurgião
chegou, um médico moço, fez o seu exame e perguntou o
que tinha acontecido, o que eu estava sentindo. Contei
todo o meu drama e ele voltou a me examinar. Em
seguida determinou que eu fosse enviado a um
apartamento e receitou apenas um soro que eu fiquei
tomando pingo a pingo. Às quinze horas eu tive alta, com
recomendações de uma dieta alimentar e a prescrição de
medicamento para a infecção intestinal que eu havia
tido, devido, possivelmente, a alimentos deteriorados.
Voltei à casa dos primos com a sensação de ter escapado
da morte.
26
ATIREI
NO
QUE
VI...
Eu ainda estava no Rio de Janeiro cursando administração
pública na Fundação Getúlio Vargas, quando um enorme
desastre aconteceu no Porto de Cabedelo: foi nomeado
Superintendente o engenheiro Fernando do Amaral
Marinho. Perseguidor e preguiçoso, fez uma das piores
administrações da história daquele ancoradouro.
Foi esse cara que
encontramos na direção do Porto quando voltamos do Rio,
eu e Raimundo Nonato Batista, após a conclusão dos
cursos que fizemos na Fundação Getúlio Vargas.
Literalmente ficamos a ver navios, pois o recalcado
engenheiro superintendente não nos designou para
qualquer função e, na falta do que fazer, íamos para o
cais observar as chegadas e saídas de navios.
Após algum tempo de
expectativa fui procurar destino, junto a Noaldo Dantas,
Secretário Extraordinário Para Assuntos Comunitários do
Governo João Agripino. A sua Secretaria era
recém-criada e precisava dos meus serviços para a sua
organização, pois eu acabara de concluir cursos de
administração de pessoal, administração de material e de
relações públicas. Noaldo mandou ofício onde solicitava
que eu fosse posto à disposição da sua Secretaria, o que
lhe foi negado pelo invejoso chefão do Porto de Cabelo.
O tal Fernando Marinho, que coincidentemente tinha o
apelido de "Fel", babava inveja de tudo que houvesse
sido feito pelo Coronel Engenheiro Walter Moreira Lima,
seu antecessor, de quem eu tinha sido auxiliar direto.
Daí a perseguição...
Então eu ia precisar
procurar amigos políticos, de alguma influência junto ao
Governador, para contar a minha história e pedir ajuda.
Mas como fazer isso, se eu era obrigado a todos os dias
estar no Porto, mesmo sem fazer nada, para não levar
faltas? Os dias que eu tinha direito a faltar no mês já
haviam sido usados nos meus entendimentos com Noaldo
Dantas. Foi conversando na beira do cais com outros
funcionários que veio a sugestão: por que não entrar em
licença médica?
-
Licença médica como? Eu não estou doente!...
- Invente! Aqui teve um
funcionário que bateu com uma pedra de calçamento em
cima do dedão do pé e passou seis meses encostado no
Instituto. Estava precisando de dinheiro!
A vantagem era a
seguinte: o funcionário do Porto, na época, pagava
obrigatoriamente duas previdências: uma do Estado - o
IPEP, por ser servidor público, e outra federal - IM
(Instituto dos Marítimos), por ser portuário. Em caso de
licença médica, o licenciado teria direito pelo Estado
aos vencimentos integrais e pelo Instituto a 70% do que
ganhava. Conclusão: licença para tratamento de saúde era
o mesmo que um aumento de 70% no ordenado!
A
idéia passou a me perseguir, não a de mutilar o meu
corpo, mas a de conseguir uma licença médica. E,
pensando nisso, fui procurar o meu amigo médico Lindberg
Farias, a quem relatei a minha situação e necessidade.
Quebrei a cara! Atestado falso não dava a ninguém,
disse-me ele. Diante do meu nervosismo e frustração,
ponderou:
- O que eu posso fazer
é solicitar alguns exames, o que lhe afastará do Porto
por uns quinze dias. Assim eu não estarei cometendo
nenhuma ilegalidade, pois o seu estado aparente me dá
razões para isso, e você aproveita alguma parte desse
tempo para resolver seu problema. Porém você vai me
garantir que fará os exames!
Não era o que eu
queria, pois os quinze dias não davam direito nem para
receber os 70% do Instituto. Mas fui em frente.
Eletrocardiograma, com Dr. Vanildo Pessoa: tudo em
ordem, a ponto do médico estranhar aquele
encaminhamento. Radiografia, com Océlio Cartaxo: uma
úlcera duodenal de origem nervosa. Bendita úlcera! Corri
para Lindberg com o exame na mão e voltei com três meses
de licença e um sério tratamento, que incluía desde uma
rígida dieta alimentar até uma determinação de repouso
absoluto. E eu que só queria trabalhar! Foi assim que
deixei Fernando Marinho a ver navios; meu ordenado
aumentou e passei, sem maiores compromissos, a
freqüentar a Secretaria de Noaldo, ajudando-o na medida
do possível.
27
MEU
PRIMO,
JOAQUIM VASCO TOLEDO NAVARRO
Vasquinho era bastante conhecido na
cidade pelas suas excentricidades. De boa índole, jamais
se teve notícias de quaisquer atos seus com a intenção
de prejudicar alguém. Embora vez em quando se excedesse
na bebida, mas só fazia mal a si mesmo. Tive a sorte de
ser uma das pessoas de quem ele dizia gostar e por isso,
quando foi cortar o cabelo numa barbearia na Avenida
Beira Rio, fez a seguinte declaração:
- Se eu estivesse
podendo beber, hoje eu tomaria uma grande! Soube de uma
notícia muito ruim, que me deixou bastante triste. Meu
primo Elpídio está canceroso! Um cara moço como ele,
cheio de vida... É muito azar!
Ele ouvira a notícia
que um Elpídio, que era artista , estava com câncer e
logo imaginou tratar-se de mim, pois sabia das minhas
ligações com teatro e cinema. A notícia, porém,
referia-se a Elpídio Dantas, o excelente pintor
paraibano. Nada demais no equívoco se outro cliente da
tal barbearia, também meu amigo, não estivesse lá na
hora. Pedro Gondim Filho, Peu para os íntimos, ouviu a
notícia e chegando ao Bar do Quintal, em Tambaú,
comunicou aos outros amigos com os quais eu me
encontrava para conversar e tomar umas e outras...
No
dia seguinte, quando apareci lá no Quintal, comecei a
ser tratado de uma forma diferente, estranha, todo mundo
me dando muita atenção, perguntando se eu precisava de
alguma coisa, se estava tudo em ordem, puxando cadeira
para eu me sentar, um derrame de gentilezas para cima de
mim. Entre outros o próprio Peu, José Maria Dantas,
Marcos Tavares e até Newton Espínola Guedes, pessoa não
muito afeita a gestos corteses. Aquelas atitudes
permaneceram durante mais algum tempo, já estando eu
ficando mal acostumado e até gostando da paparicagem.
Mas o que é bom dura pouco e depois de alguns dias,
quando eu chego, todos de uma só vez, como se fossem um
coral, gritaram:
- Vá prá merda!
Assustado mais uma vez com outro estranho comportamento,
procurei me defender:
- O que foi que eu
fiz, por que essa bronca toda?...
- Você tá lá canceroso,
porra nenhuma! Você bonzinho e a gente fazendo papel de
besta!
Disse Newton, enquanto
Peu explicava o acontecido, o que ele ouviu na
barbearia e o desmentido da notícia pelo próprio
Vasquinho, na semana seguinte. Quando entendi a
situação, jurei ao pessoal que eu não tinha a menor
idéia do que estava se passando e também aproveitei a
oportunidade para dar o troco:
-
Que bons amigos são vocês! Enquanto eu estava canceroso,
prestava; não estando mais canceroso, mandam-me prá
merda!...
Claro que eu entendia
a reação do pessoal, pois fizeram mesmo papel de besta e
até que exageraram. Depois encontrei com Vasquinho, que
explicou o seu engano ao mesmo tempo que me confortou:
- Pelo menos você passou
uma semana sendo o ídolo da turma!...
Lembro-me de outras
passagens engraçadas da vida de Vasquinho, das quais
participei ou tive conhecimento e que merecem registro,
pois definem o espírito brincalhão que era ele, o seu
grande senso de humor.
Voltávamos da posse de
Arlindo Delgado na Prefeitura do Município de Esperança,
num ônibus especial, lotado de amigos do novo Prefeito
empossado, quando passamos por Campina Grande. Ao entrar
na cidade Vasquinho jogou-se no piso do meio do ônibus,
como se temesse alguma coisa, ao mesmo tempo que pedia
para que o motorista diminuísse a velocidade. Todos
quiseram saber o que estava acontecendo e ele explicou:
- É que a discussão
mais intelectual daqui, no momento, é sobre o carro novo
que o filho de Seu Mundinho ganhou e o revólver do filho
de Seu Mundinho, que é todo folheado a ouro e tem o cabo
de madrepérola! Devagar, para não bater no carro do
filho de Seu Mundinho e eu estou deitado, tentando me
proteger dos tiros do revólver do filho de Seu
Mundinho!...
Seu Mundinho, que
devia se chamar Raimundo, era um dos comerciantes mais
ricos de Campina Grande e seu filho, segundo Vasquinho,
arrotava riqueza e ignorância.
* * *
Campanha eleitoral
para a eleição de Governador do Estado da Paraíba,
disputada por Janduí Carneiro e Pedro Moreno Gondim,
1960. Os responsáveis pela propaganda de Janduí
conseguiram colocar uma placa, com o seu nome, no centro
da lagoa do Parque Solon de Lucena, em cima da fonte
luminosa. Um verdadeiro desrespeito à paisagem do local,
considerado o cartão de visitas da cidade de João
Pessoa. Vasquinho não contou conversa: muniu-se de uma
lata de piche e um pincel e nadando com um braço só
altas horas da noite, levou a tinta até ao local da
propaganda e borrou tudo. No outro dia a Cidade
amanheceu às gargalhadas com o acontecimento e muita
gente acorreu até ao parque, só para ver o estrago,
todos indagando de quem teria sido a proeza, numa aberta
aprovação. Mas alguém o dedurou (já havia isso naquela
época) e ele foi chamado pela polícia. A minha tia Maria
Augusta terminou tendo que pagar a placa que ele havia
danificado.
* *
*
"- Você viu Irineu?
- E fôru?! "
Essa, uma das piadas
rápidas que me foram contadas por Vasquinho. Em 1981,
aluno de mestrado em direção teatral na USP -
Universidade de São Paulo, tive como atividade do curso
a participação na montagem de uma peça baseada na obra
de Gilberto Freire "Casa Grande & Senzala". Foi quando
conheci o ator Irineu Pinheiro, que tornou-se um grande
amigo meu. Certa ocasião, num momento de descontração do
elenco lembrei, por conta do nome do amigo, a piada que
me contou Vasquinho. Contei e foi aquela decepção.
Ninguém riu, ou melhor, ninguém entendeu onde estava a
graça. Então eu tentei explicar que uma pessoa perguntou
à outra se ela teria visto Irineu e a outra, pensando
tratar-se de irem neu, respondeu com a pergunta: "E fôru?!"
Não adiantou nada, pois nada significava para o
pessoal irem neu e eu passei a ser contador de piadas
sem graça. As anedotas de Vasquinho eram mesmo muito
paraibanas...
*
* *
Certa vez ele entrou
numa situação hilária: em frente da Rádio Tabajara, onde
hoje é o novo Fórum, o pessoal que trabalhava à noite na
emissora, após o término da programação, ficava batendo
papo na calçada. A casa de Vasquinho era do outro lado
da rua e quando ele chegava para dormir, juntava-se,
antes, ao grupo para as últimas conversas. Naquela
noite haviam inventado um concurso para saber quem
contaria a maior mentira, e cada um que narrasse a
história mais estapafúrdia possível. Foi quando chegou
meu primo e foi logo desafiado a participar da
brincadeira. Não se fez de rogado:
- Gente, eu vinha ali
pela rua Duque de Caxias e quando passava diante da casa
dos Sá ouvi uma voz grossa dizendo boa noite. Respondi e
quando procurei ver quem era, tinha sido um enorme
cachorro! Nesse pessoal rico, até o cachorro é educado!
Todo mundo riu mas sem
grande euforia, entretanto, um rapaz que era controlista
da Rádio começou a rir e não conseguiu parar mais. Já
com problemas respiratórios foi levado ao Pronto Socorro
e lá medicado através de calmantes quando, finalmente,
conseguiu parar de rir. Foi uma loucura! No outro dia,
pela manhã, foram visitar o rapaz que havia ficado
hospitalizado e entre os visitantes estava Vasquinho. Ao
avistá-lo, o rapaz que ficara curado do ataque de riso,
começou tudo outra vez! O médico, acho que era Humberto
Freire, proibiu a entrada de Vasquinho no Pronto
Socorro, sob pena de não poder se responsabilizar pela
vida do paciente!
*
* *
Exímio desenhista, funcionário estadual, cantor de bela
voz e já tendo sido agraciado em concurso nacional de
canto, foi atribuída a ele a paródia de uma marchinha
carnavalesca que dizia assim:
"Eu bem
sabia,
que
Campina, um dia,
ia ter seu
mar.
Essa vida é
de amargar!
Botaram um motor novo em
Bodocongó,
que agora
vai ser onda
de dá no
gogó! "
Isso por conta do
bairrismo existente entre João Pessoa e Campina Grande,
do qual Vasquinho não negava participar. A marchinha
acima fazia parte da anedota que ele contava sobre um
prefeito de Campina que resolveu construir uma praia
marítima no açude de Bodocongó, para fazer frente às de
João Pessoa. Mandou vários caminhões transportar areia
branca, para espalhar na beira do açude; quilos e mais
quilos de sal para tornar a água salgada; instalou um
motor com um enorme hélice, num ponto estratégico, para
revolver as águas e formar ondas e espalhou sargaço,
mariscos, pedrinhas por todo canto. No dia da
inauguração lá estavam políticos, autoridades, o
prefeito e sua família, a fina flor da sociedade local,
todos se banhando alegremente e já falando na
possibilidade da construção de um porto para exportar,
por lá mesmo, toda a produção de algodão e sisal do
Estado. Um pessoense, por pura maldade, foi até ao local
do motor e defecou. As ondas que ali se formavam foram
trazendo um enorme tolete em direção à “beira-mar”,
onde todos festejavam o acontecimento e o prefeito, ao
notar a aproximação do estranho objeto, não perdeu tempo
em anunciar: "Saiam todos, saiam! Vem vindo uma
caravela! Cuidado! Queima prá danado!"
* * *
Mas meu primo Joaquim
Vasco Toledo Navarro morreu, deixando uma grande lacuna
na alegria e no humor da Cidade. Morreu de uma forma
estúpida, que até hoje eu não consegui entender direito:
foi atropelado na avenida Epitácio Pessoa, quando
voltava para casa; sofreu várias fraturas e foi
hospitalizado. Depois de uns dias, já tendo sido
considerado fora de risco, estando aparentemente bem,
brincando com todo mundo que ia lá no hospital e até
pedindo bebida às enfermeiras, teve uma hemorragia
interna, uma vértebra ferindo o pulmão e morreu disso.
Enquanto os médicos cuidavam de uma perna, ou um braço,
esqueceram de verificar as costelas e lá se foi o homem.
Teve uma assistência médica de primeira e morreu,
possivelmente, devido a um erro médico!
Uma das últimas vezes
que estive com ele, fiz a pergunta de sempre:
- Tem alguma piada
nova?
- Você conhece a da bicha que morreu de repara?
- Não!
E comecei a rir
antecipadamente. Ele contou:
- O viado ia
passando, aí uma dona bem boazuda perguntou a ele se
queria ir prá cama com ela. Ele disse “repara!"
e deu uma rabissaca tão grande que quebrou o pescoço e
morreu! Morreu de repara!
28
OU DÁ
OU
DESCE
Campina Grande de muitos amores, de algumas paixões e do
amigo Antônio José Figueiredo Agra. Para lá fui
convidado, juntamente com Marcos Tavares, Carlos Aranha,
Willis Leal e Paulo Melo, para compor um júri de um
festival de música popular, um festival competitivo,
quando deveríamos escolher as melhores músicas, os
melhores intérpretes, arranjos etc., juntamente com
outros jurados convocados lá mesmo em Campina. Concorria
interpretando uma composição uma jovem que fazia parte
dos corais da Fundação Artístico Cultural Manoel
Bandeira, protegida da sua diretora, Professora
Elizabete Figueiredo Agra Marinheiro, irmã do meu bom
amigo acima citado, na época ainda vivo e muito vivo!
Também concorria uma outra jovem, Lourdes, por quem
simpatizei, tornando-se, minha amiga e, aparentemente,
protegida. Proteção prá lá, proteção prá cá, eu não
tinha qualquer intenção de não ser justo, dentro do meu
julgamento. Esqueceria quaisquer sentimentos pessoais e
votaria naquela música que eu considerasse a melhor.
As duas conseguiram classificar as suas músicas para a
grande final, merecidamente. E no dia aprazado, todos a
postos. O voto era aberto: os julgadores davam suas
notas levantando uns cartazes, onde estavam impressos
número de 1 a 10. Engraçado
o que acontecia: eram dez jurados dos
quais metade, pelo menos, não tinha a menor condição de
julgar coisa alguma; alguns, até, ficavam esperando que
outros dessem notas para dar as suas; essa falta de
personalidade levou a direção do festival a determinar
que os jurados fossem chamados nominalmente para
anunciar as suas notas. Então, como estavam sentados
todos numa mesma fila de cadeiras do Teatro Severino
Cabral, os apresentadores começavam as chamadas pelas
extremidades da fila, uma vez de um lado, outra vez do
outro. Depois dessa providência, as cadeiras do centro
da fila eram as mais disputadas, pois muita gente não
queria ser o primeiro a julgar as músicas concorrentes.
Cheguei a fazer uma brincadeira num dos julgamentos: o
jurado que me antecedia deu a nota 3 e eu, em seguida
dei a nota 10. Foi aquele espanto! Mas em nada
prejudicou o julgamento porque a tal música não merecia
mais do que 3, mesmo!
Voltando à finalíssima, houve, antes, uma reunião do
corpo de jurados com a direção do festival. Informações
diversas, inclusive sobre uma recepção de comes e bebes
na residência de Betinha, como era conhecida a
organizadora do festival. Foi aí que fui peitado a dar
nota máxima a tal concorrente protegida dela e na hora
do julgamento não dei! Não dei porque me achei
desrespeitado e também desrespeitada a sua protegida,
que tinha, sem precisar desse expediente, toda a
condição de vencer o festival. A música da protegida
dela ganhou o primeiro lugar porque era a melhor mesmo,
ficando em segundo a da minha protegida. Tudo terminado,
fomos à recepção na residência de Elizabete Marinheiro
e, como estava previsto, todos compareceram, inclusive
as candidatas vencedoras. Foi aí que aconteceu a
vingança da dona da casa contra mim: estava conversando
com a moça a quem tinha dado a maior nota, como duas
pessoas que apenas se conheciam, falando de coisas
relacionadas com o próprio festival de música ou de
amenidades, quando veio a intervenção de Betinha
Marinheiro, em alta voz:
- Sabe,
Lourdes, que Elpídio é casado e cheio de filhos? Além
disso, pelo que eu sei, adora a mulher. Portanto, você
está perdendo o seu tempo e arriscando a sua reputação,
tentando conquistar um homem casado!
Foi um vexame! A moça
chegou até a chorar e, naturalmente, ausentou-se da
festa, não pelo fato de ser eu casado, pois ela já
sabia, mas devido a forma agressiva como fora dito.
Fiquei totalmente sem graça por ter que permanecer na
casa da mestra, pois era de lá que sairia o transporte
para nos conduzir de volta a João Pessoa. Constrangido,
tendo que suportar olhares ora debochados, ora
reprovadores, não me contive e me mandei: peguei um táxi
e fui até à casa do meu dileto amigo Antônio José
Figueiredo Agra, Figueiredo Agra ou Toninho, fosse o
nome que fosse, uma pessoa altamente distinta, educada e
confiável. Lá chegando narrei todo o acontecido e ele
foi taxativo:
-
Era de se esperar! Você atende aos chamados da minha
irmã para participar desses pastoris dela, por ser um
cara bom, mas não devia se meter nisso.
Dormi na casa de Figueiredo e só no outro dia voltei
para João Pessoa. O nome da moça protegida da Professora
Elizabete Marinheiro: Elba Ramalho!
29
PODER
DE
FOGO
Não lembro qual foi o ano nem qual era
a linha do ônibus. Lembro que era época de aulas e que o
tal coletivo passava pela Universidade Federal da
Paraíba. Essa história difere um tanto das outras porque
eu não conhecia os personagens, apenas presenciei os
fatos.
A Prefeitura de João
Pessoa havia autorizado o aumento nos preços das
passagens, como sempre de forma equivocada, para uma
tarifa que envolvia centavos, o que dificultava a
passagem de troco.
O cidadão tomou o ônibus e, ao pagar, o cobrador disse
que não tinha dinheiro trocado, por isso não podia
passar o troco. O cidadão não reclamou nada, apenas
disse que lhe devolvesse o seu dinheiro e quando ele
tivesse dinheiro trocado fosse lhe cobrar. O
cobrador retrucou que ele aguardasse, que assim que
pudesse ele lhe passaria o troco. E o ônibus seguiu até
chegar ao ponto no qual o tal cidadão ia saltar. Então
ele foi até ao cobrador e pediu seu troco. O cobrador
disse ainda não ter. O cidadão já meio chateado,
insistiu:
- Se o senhor não tem o meu troco, devolva-me o meu
dinheiro.
- Ah, isso não! E eu vou pagar pelo senhor? O senhor já
passou na roleta!
Já falou
agressivamente o cobrador, enquanto o ônibus permanecia
parado, esperando a descida do passageiro que puxara a
campainha. Foi aí que o motorista entrou na história,
gritando lá da frente:
- O que é que está
havendo?
- Um passageiro que
não quer pagar...
- Como é que é a
história?!
E levantou-se meio
brabo, indo na direção do passageiro, e, ao chegar,
este voltou-se para ele, de paletó aberto, deixando à
mostra um baita de um revólver. O motorista parou e
perguntou educadamente ao passageiro o que estava
acontecendo e ele, calmamente, contou. O motorista foi
incisivo:
- Devolva o dinheiro
do cidadão!
No que foi atendido, e
continuou o seu discurso:
- Meu amigo, o senhor
pode descer e vá desculpando a mal educação desse
cafajeste. E voltando-se para o cobrador:
- Aprenda a trabalhar,
seu imbecil! O passageiro sempre tem razão..
30
"EDIÇÃO
EXTRA"
Depois de “O Gongo”, participei de outro jornal
da chamada imprensa alternativa, denominado de Edição
Extra, uma invenção de Valdez Silva, para
aproveitar o tempo ocioso de uma gráfica de sua
propriedade, a Art-Set Editora, que durante a semana
imprimia outras publicações. Do expediente do Edição
Extra constava: Diretor Presidente: Valdez Juval da
Silva; Diretor Gerente: Henriette M. Lemos Silva;
Diretor Administrativo:): Elpídio Navarro; Redator
Chefe: Luiz Andrade; Secretário: Alarico Correia ;
Editor de Humor: Anco Márcio; Editor da Cidade: Júlio
Vieira e Marcos Tavares de Miranda; Editor Político:
Gilvan de Brito; Editor de Arte: Luzardo Alves;
Fotografias: Manoel Clemente e outras participações como
as de Carlos Aranha, Barreto Neto, Roberto Carlos de
Oliveira, João(Zito) Magalhães, Flávio Tavares, J.
Crisólogo e Maciel, entre muitos outros, isso sem falar
do pessoal da montagem e impressão, gente como Tinet,
Coló, Helson Martins, Gilson Nunes e Tarcísio Delmiro.
Um time e tanto, naquele ano de 1971, fazendo um
semanário a la O Pasquim, que era um sucesso
nacional. Edição Extra tinha tudo para decolar num vôo
mais duradouro, mas, infelizmente, isso não aconteceu.
Foi como aquele espetáculo que consegue um grande
público, que assiste e elogia, mas
ninguém quer pagar o ingresso. Já
naquele tempo a pequena empresa era sufocada pela falta
de capital de giro, de financiamentos e obrigada a pagar
impostos. Mesmo assim, ainda chegamos a circular durante
mais de três meses.
Fazia-se de tudo na
redação e oficinas, que ficavam na Rua Artur Aquiles,
bem no centro da Cidade. Eu mesmo escrevia, desenhava,
montava, entrevistava, levava os jornais para as bancas,
vendia espaço para propaganda, o que
quase todos faziam também. Ainda mais,
ninguém recebia pagamento pelo trabalho, pois isso só
poderia acontecer quando o jornal desse lucro. Edição
Extra não chegou nem a pagar seu próprio custo! Mas foi
muito bom enquanto durou e a gente vivia feliz na base
do nós sofre mas nós goza!
Pesquisando alguns
exemplares que guardo comigo, e forçando um pouco a
minha vaga lembrança, encontrei escritos e lembrei de
fatos que valem à pena ser (re)publicados. As
entrevistas semanais eram gravadas em uma sala onde,
geralmente, entre uma e outra dose de uísque, todos
participavam com perguntas ao entrevistado e quando o
entrevistado também bebia, tudo ficava mais fácil. Eram
publicadas exatamente como estavam gravadas, o que dava
um sabor mais coloquial a todas elas. Uma dessas
entrevistas, literalmente, transcrevemos a seguir:
"Gilvan - Mesmo
chegando atrasado seu veto, você vetou
a lei da nova farda verde-amarela para os
alunos das escolas municipais. Você vai manter a sua
decisão?
Dorgival - A
Constituição para mim é como a Bíblia. Eu vi que a
matéria era inconstitucional. Preparei o veto e como a
Câmara estava em recesso, pensei que naquele período ela
não funcionava e não mandei. Mas parece que mesmo assim
ela estava funcionando e o veto chegou um pouco
atrasado. Mas de qualquer maneira eu não vou cumprir.
Pode parecer uma violência, mas eu não vou cumprir. É
flagrantemente inconstitucional.
Marcos - Bem,
mas dentro da mesma
Constituição, com a Câmara em recesso os dias são
contados?
Dorgival - São sim.
São contados normalmente. Eu devia ter posto esse veto
até determinado dia lá. Mas de qualquer jeito eu não
cumprirei. Inclusive o nível de poder aquisitivo dos
escolares é baixíssimo para que fôssemos forçá-los a
comprar uma nova farda. Depois a Constituição diz lá
claramente: é vedado o uso dos brasões e das cores
nacionais.
Luiz - E é
anti-estético.
Dorgival - Exato!
Elpídio - E o que é
que você acha do uso de calça comprida pelas mulheres,
na Prefeitura?
Dorgival - O uso da
calça comprida deveria ser generalizado. Aquilo, na
verdade, desembaraça a mulher, dá mais comodidade.
Deveria ser generalizado em todos os setores. Não só a
calça comprida, como também o short!
Todos - Apoiado!
Apoiado!
Anco - Dorgival,
antes da entrevista a gente estava conversando e você
afirmou achar Edição Extra um jornal efêmero. Por que
você diz isso?
Dorgival - Essas
coisas assim feitas por idealistas são sempre efêmeras,
sabe, não são duradouras não. O idealista só faz coisas
eternas quando escreve um livro, pois isso fica para
toda a vida. Mas essas obras que são obrigadas a ser
mantidas, o idealista não consegue levar em frente.(
Trecho da entrevista dada por Dorgival Terceiro Neto,
Prefeito de João Pessoa, em 16/08/71, com a participação
dos jornalistas Gilvan de Brito, Marcos Tavares, Anco
Márcio, Luiz Andrade e eu).
Mas Dorgival tinha
razão. Até que a gente sabia fazer direitinho o jornal,
agora, vendê-lo não. A publicidade era mínima. A
campanha para vender assinaturas também não deu
resultado. E foi no auge da consciência da nossa
incompetência comercial, que eu consegui a campanha
publicitária mais inusitada, mais estranha, mais
inédita, já acontecida na imprensa nacional, quiçá, no
mundo inteiro.
A Casa Mortuária São
Vicente de Paula que pertencia ao comerciante Vicente
Trevas, ficava situada na Praça Pedro Américo, cidade
baixa. Depois de muitos anos quase monopolizando o
comércio funerário de João Pessoa, pois além dele só
existiam pequenas mortuárias nos bairros, Vicente Trevas
teve o seu domínio ameaçado pelos Lucenas , que
inauguraram a Empresa Funerária São João Batista, na Rua
Miguel Couto, no centro da cidade. O meu argumento era
forte. Fui primeiro a Vicente, considerando que
antigüidade era posto, e fiz a proposta para uma
publicidade no Edição Extra, pois agora ele tinha
concorrente e precisava se cuidar. Ele foi taxativo:
naquele negócio dele publicidade era uma coisa negativa,
de mal gosto até! Não precisava de anúncio em jornal,
pois a sua firma era tradicional e estava já há muito
tempo no ramo. Que eu procurasse a firma nova, pois era
possível que ela, por ser desconhecida, precisasse do
nosso jornal.
Na redação fiquei
imaginando o que fazer. Precisava de uma forma
publicitária diferente de um simples anúncio, para
motivar a nova empresa surgida. E veio a idéia, que foi
levada aos concorrentes de Vicente, que aceitaram de
saída e que foi publicada no Edição Extra número três:
"ESSA
HISTÓRIA É DE MORTE!
O
CAIXÃO (I)
Foi o
seguinte: Vicente arranjou dinheiro com o tal de seu
Mota da farmácia, para instalar uma casa mortuária na
cidade. Não que houvesse necessidade, pois ali até que
se morria pouco. Seu Mota, dono da única farmácia
existente na cidade, tinha algum dinheiro, que
emprestava aos amigos a juros de 20%. Mas a coisa dessa
vez seria diferente: estaria entrando de meia no
negócio, que tinha como finalidade aguardar a morte do
Coronel Rabelo, o homem mais rico do lugar.
Montariam a casa
mortuária, comprariam uns caixõesinhos baratos e um de
grande luxo, com todos aqueles enfeites de enterro de
rico, onde estaria a maior perspectiva de lucro da
idéia. O Coronel estava na vez de sair dessa para outra
e Vicente tinha a garantia do médico, seu amigo, que
daquela o velho não escapava, bateria as sandálias. Tudo
planejado. Era só surgir o defunto e eles:
- Temos um
caixão digno do finado, com janelinha de vidro, etc.
..."
A história
seguia contando as desventuras de seu Vicente com a
demora da morte do Coronel, a briga dele com o amigo
que tinha arranjado o dinheiro e a maior desgraça, a ida
do Coronel para a Capital, onde seria tratado num bom
hospital. A briga dos dois terminava na polícia e todos
ficavam sabendo da verdadeira idéia da funerária e do
caixão de luxo. Ao final da história havia a seguinte
nota:
"O Coronel da
história aí de cima, acabou morrendo mesmo. A família
(dele) deu preferência para a realização dos serviços
fúnebres à EMPRESA FUNERÁRIA SÃO JOÃO BATISTA LTDA.
Aberta dia e noite. Convênios: INPS - IPASE - PREFEITURA
- POLÍCIA MILITAR. Rua Miguel Couto, 5 - Fone 4111 -
João Pessoa - Paraíba."
A coisa deu certo e antes que saísse a segunda história
de morte eu já estava sendo procurado por Vicente
Trevas, que reclamou aborrecido da minha atitude,
considerando até que, havendo um certo parentesco entre
nós, não era para eu ter feito aquilo: eu havia
colocado o nome Vicente na história, o que tornara tudo
muito direto. A verdade é que tinha corrido à boca
miúda em João Pessoa, que quando o Governador Flávio
Ribeiro Coutinho estava morre não morre, foi exposto
com destaque na Mortuária São Vicente de Paula um
luxuoso caixão, coisa ainda não vista na Cidade; que o
tal caixão fora trazido do Recife, objetivando servir ao
governador moribundo, que era um homem muito rico e, que
devido a ida do governador para o Rio de Janeiro, onde
veio a falecer, o citado caixão ficou sem serventia.
Como as duas histórias se pareciam, o leitor atinava
logo para a intenção da publicidade do concorrente. O
resultado foi que entramos num acordo e quando a
publicidade da Funerária São João Batista saiu pela
segunda vez, o nome do personagem não era mais Vicente e
sim Joaquim, e noutra página havia também uma
publicidade da Mortuária São Vicente de Paula. Edição
Extra transformara-se no primeiro jornal
funério-hilariante.
Hoje eu fico a me
perguntar se aquela minha jogada não foi uma clara
prática de imprensa marrom, ou mesmo de chantagem. Será
que foi isso?! Bem, que me perdoem os atingidos, mas que
foi engraçado, foi!
30A
BIU DO BOI
O
Theatro Santa Roza sempre teve em seu quadro de
funcionários, figuras interessantes pelos seus
inusitados comportamentos: Zé Pequeno, Zé Bolinho,
Antônio Porteiro e Biu do Boi entre outros.
Zé
Pequeno conhecido pela história de serrar ou cerrar as
portas, contada por Walfredo Rodrigues; Zé Bolinho pela
sua mania de afirmar "deixe comigo" e produzir
imprevistos, Antônio Porteiro pela capacidade de
implicar com o pessoal do Madrigal de Pedro Santos na
portaria do Theatro, em dia e ensaio e, Biu do Boi por
provocar situações vexatórias.
O
falecido Seu Severino (Biu do Boi) era auxiliar de
serviço do Santa Roza e "brincava" o Boi de Reis,
debaixo do boi. Também gostava de regar a vida com uma
cachacinha. Lembro que quando voltávamos da Caravana
Artística da Paraíba, quando levamos as nossas artes até
Manaus, ele nos esperava na Praça Pedro Américo e antes
que qualquer pessoa descesse do ônibus especial em que
viajávamos, gritou: "Dona Marinete morreu!" Embora fosse
verdadeira a notícia, a forma como foi dada chocou todo
mundo e, muito mais, uma irmã da falecida (sobre o caso
Marinete Lelis que relato no
"sucedido" 51).
Altimar Pimentel chamou Luiz Mendonça para dirigir sua
peça "Auto da Cobiça", para a qual fiz a cenografia e
iluminação. Tinha a figura de um boi desses do "Boi de
Reis". Quem foi chamado para dançar debaixo dele? Claro,
que Seu Biu! Não lembro bem se num ensaio ou numa
apresentação do espetáculo, Biu do Boi desapareceu. O
boi estava lá no palco e nada de Biu. Passado algum
tempo de preocupação alguém inventou de levantar o boi e
não é, que para espanto geral, Biu estava debaixo,
roncando! Tomara umas à mais...
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