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SUCEDIDOS
31
NO
TEMPO
DA
CRESTOMATIA
Este
título era de Pedro Santos. O maestro falou muitas vezes
num espetáculo que retratasse o que havia significado a
Crestomatia para a formação do estudante pré ginasiano.
Para quem não conhece, a Crestomatia era uma coletânea
de textos da língua portuguesa, usada por alunos do
exame de admissão ao ginásio. Estou tomando emprestado
esse título, para narrar alguns fatos do meu tempo de
estudante dos três níveis escolares.
*
* *
O meu curso primário
foi feito no Grupo Escolar Antônio Pessoa, ainda hoje
existente na Avenida B. Rohan, pertinho da Lojas
Brasileiras, antigamente denominada de Lojas 4.400.
Sendo um estabelecimento de ensino público, já oferecia
gratuitamente uma merenda aos alunos, no meu caso às
nove horas, pois eu era do turno da manhã. Saíamos das
classes em fila indiana até ao pátio interno do Grupo,
onde, em longas mesas formadas por cavaletes e tábuas,
nos ofereciam o lanche, geralmente sopa ou mungunzá, que
comíamos de pé. Do ritual faziam parte algumas
determinações: a comida era colocada nos pratos ainda
fervendo; após todos os pratos abastecidos os alunos
eram chamados e colocados diante dos mesmos e só
poderiam começar a comer quando todos houvessem chegado,
para o que era dado uma ordem.
Certo dia, mesmo muito gripado, fui para a escola com o
nariz escorrendo, uma coriza danada. Com a ajuda do
lenço e de alguns sugados de nariz, achei-me em
condições de ir até ao pátio para merendar, sem causar
qualquer tipo de incômodo aos demais. Lá estou eu,
diante de um prato de sopa fumaçando, quando algum
companheiro diz uma coisa engraçada e eu dou uma risada,
que resultou em espirrar secreção do nariz dentro do
prato de sopa. Ninguém notou, somente eu que, como num
ato reflexo, troquei, sem que fosse visto, o meu prato
com o do vizinho de mesa. Dado o consentimento, todos
começaram a comer e quando eu vi o meu colega comendo a
sopa do prato que eu havia trocado, não consegui comer o
que estava na minha frente, mesmo sabendo que ele estava
sem qualquer mistura. Durante algum tempo, até em casa,
por mais que eu tentasse, não conseguia tomar sopa!
* * *
Os
cursos médios foram entre o Liceu Paraibano, o Ginásio
Solon de Lucena e outra vez, o Liceu Paraibano. Dessa
época, muitas histórias e, entre elas, uma que eu nunca
consegui esquecer: Humberto,
não lembro o resto do nome, era de Santa
Rita e vinha estudar em João Pessoa, no Liceu, a
princípio, depois, no Solon de Lucena. Lá o professor
de português era José Maria Barbosa, jovem saído do
Seminário, imbuído de toda aquela disciplina religiosa e
jogado no meio de péssimos alunos oriundos do Liceu
Paraibano, onde não conseguiam passar de ano por razões
unicamente de vagabundagem. Prova final oral de
português e lá, frente à frente, Zé Maria e Humberto:
- Tire o ponto, seu
Humberto.
O ponto é tirado e
entregue ao professor, que olhando na relação, anuncia:
- Pronomes pessoais!
Fale sobre o assunto, seu Humberto.
- Que azar! Caiu
exatamente o que eu não estudei!
Disse Humberto,
deixando bem claro que nada sabia sobre o assunto.
- Está bem, seu
Humberto. Vou lhe dar outra oportunidade. Tire outro
ponto.
Atendida a solicitação, o
professor procura na relação qual é o tema, olha para
Humberto, ri e dá a sentença:
- Verbos intransitivos,
seu Humberto! Pode falar!
- Agora é que eu me
lasquei mesmo! Deixe eu tirar outro ponto, professor...
Pede Humberto, enquanto
Zé Maria vai ficando vermelho e num rompante, declara:
- Não precisa, seu Humberto. Não precisa mais tirar
ponto algum. O senhor escolha qualquer ponto do programa
, qualquer assunto, qualquer coisa que o senhor souber,
contanto que faça a sua prova! Eu não quero lhe reprovar
, mas para isso o senhor precisa fazer alguma coisa!
Humberto pensa um pouco
enquanto, impaciente, o professor espera por uma
resposta, com um o semblante de quem tem certeza que
daquela mata não sairia coelho. Humberto ajeita-se na
cadeira, dá sinais de que havia tomado uma decisão e
sugere:
- Professor! Que tal
uma leiturinha?
Claro que Humberto não
foi aprovado...
*
* *
Aluno na FAFI -
Faculdade de Filosofia da UFPb. e já participante de
movimentos culturais e políticos de João Pessoa,
aproveitava os intervalos das aulas, juntamente com
outros colegas, para ouvir os papos dos intelectuais da
Cidade, que aportavam por lá, uns por ser alunos também,
outros professores e alguns viciados visitantes. Cinema
era o assunto mais em voga, principalmente devido ao
grande momento pelo qual passava a sétima arte, não só
no Brasil e, particularmente, na Paraíba, como também no
mundo inteiro. O Cinema-Novo era a vedete. Antonioni
para um lado, Godard para o outro, Glauber Rocha por cá,
Visconti por lá, Linduarte Noronha por aqui, era uma
torrente de conhecimentos cinematográficos jogados nas
nossas caras, pobres diabos ignorantes, que nem os
Cahiers du Cinema havíamos lido! Geralmente o grupo era
formado por Wills Leal, Paulo Melo, Jackson Carvalho,
Martinho Moreira Franco, Linduarte Noronha, Virginius da
Gama e Melo, entre outros e nós os menos avisados, que
ouvíamos aquela discussão teórico-técnico-filosófica
sobre diretores, filmes e fotografias, calados, é claro,
para não dizer besteiras. Certa vez um assunto polêmico
dividiu o grupo intelectual, que começou a vomitar
conhecimentos, com argumentos que só eles entendiam. Foi
quando Silvio, que pertencia ao nosso grupo de escutas,
abriu uma brecha e declarou:
- Olhe, pessoal, eu não
sei se vocês já leram, mas numa edição do Le Monde tem
uma entrevista com Mourrá Guedê, na qual ele faz
uma declaração exatamente contrária a essa discussão de
vocês! Eu tenho até o jornal em casa, que peguei
emprestado lá na Cultura Francesa. Se vocês quiserem, eu
trago amanhã!
- Quem foi?!
Quase a unanimidade do
grupo que discutia perguntou, enquanto Silvio respondeu
como se tivesse falando da pessoa mais conhecida do
mundo:
- MOURRÁ GUEDÊ
!...
Silêncio geral,
inclusive nosso. A verdade é que ninguém sabia quem era
esse Mourrá Guedê. O assunto foi mudado e, pouco
a pouco, o grupo se desfez e nós ficamos boquiabertos
com a erudição cinematográfica de Silvio. Claro que o
interrogamos:
- Rapaz, desde
quando tu estudas na Cultura Francesa?
- Desde nunca!
- Então qualquer
um pode chegar por lá e pegar jornal francês?
- E eu sei!
Aquela história eu inventei!
- Quem é esse tal
de Mourrá Guedê?
- Eu! Silvio
Moura Guedes!
32
ERNANI SATIRO,
O COMUNISMO E SATANÁS
Sua nomeação para Governador, como era esperada, saiu.
Ernani Sátiro tomou posse na data marcada, arrodeado de
bajuladores seus e da ditadura militar que, para nossa
desgraça, se instalou no país. Aí começou o festival de
besteira que assolou a Paraíba durante quatro anos, no
começo da década de setenta.
Lúcia Navarro Braga,
que dispunha de alguma influência política, resolveu
patrocinar a minha nomeação para diretor do Theatro
Santa Roza. E através de Dona Antonieta, esposa do
Governador, armou uma visita à Granja Santana,
levando-me a tiracolo.
Era natural o
meu constrangimento. A minha posição
política-ideológica, era frontalmente contrária à ordem
vigente. Mas, por outro lado, era politicamente correto
ocupar espaços, já dizia o nosso guru Pedro Santos. Como
também eu precisava ganhar mais algum dinheiro.
Fomos muito bem recebidos pela primeira dama e com ela
ficamos a conversar miolo de pote, enquanto esperávamos
a presença do Governador. Dona Antonieta explicava que
ele estava concluindo um documento e logo nos atenderia.
Mais uns vinte minutos de espera e Ernani Sátiro
aparece, dirigindo-se a Lúcia, que faz a minha
apresentação:
-
Governador esse é o meu primo, Elpídio Navarro, para o
qual eu pedi aquela nomeação de diretor do Theatro...
- Navarro? Amigo velho, o que Antenor Navarro era seu?
-
Irmão, Governador.
-
Irmão? Irmão não! Você deve ser sobrinho.
-
Governador, o meu pai também era o pai dele...
- O
Doutor João...
- O
Doutor João Navarro era o pai de Lúcia e tio meu. Lúcia
é minha prima.
- Isso eu
sei, ela me falou. Mas você é muito moço!
- Doutor
Ernani, o meu pai, que se chamava Francisco Xavier
Navarro, foi casado duas vezes. Eu sou filho da segunda
mulher dele.
- É. Assim é mesmo irmão. Mas, e Ariano Suassuna?
-
Ariano é de outra família!
- Eu
sei amigo velho. Estou perguntando o que é que você acha
dele. Já encenaram alguma peça dele aqui? Ele é
paraibano, viu! O pai dele também foi governador.
- Eu sei. Eu
conheço bem Ariano. Já montamos algumas peças dele.
Aliás, a primeira vez que eu participei de um espetáculo
de teatro, não como ator, mas na parte técnica, foi
exatamente com uma peça de Ariano: Cantam As Harpas
do Sião.
- Essa eu nunca ouvi falar. Eu li outra,
A Compadecida.
- Também já encenamos aqui.
Fizemos também O Auto de João da Cruz, A Pena e a Lei
e O Auto da Boa Preguiça. A Compadecida
foi montada três vezes..
-
Ele é bom, não é? E Luís Jardim? Ele é bom também! E é
meu amigo, viu?
- Dele só montamos
uma peça: Isabel do
Sertão.
- Então quer
dizer que o amigo velho é parente de Antenor Navarro?
- Sou,
Governador.
- Sobrinho, não
é?
- Irmão...
- Ah, irmão! É
isso mesmo, você explicou. Pois é amigo velho, a dona
Lúcia aí sugeriu seu nome para a direção do Theatro
Santa Roza e um pedido de dona Lúcia eu tenho que levar
em consideração. Agora, vou lhe perguntar uma coisa:
você é comunista?
- Eu?!... Que
eu saiba, não!
- Eu
pergunto porque esse pessoal ligado à arte todo ele é! E
a minha quota de comunistas no governo já está completa
com Linduarte Noronha e o jornalista Severino Ramos. Os
homens lá de cima reclamaram, mas eu já tinha nomeado e
não vou voltar atrás. Agora, aumentar eu não posso,
porque não quero mais discussão com esse povo. Eu sei
que você é de uma família tradicional, sobrinho de
Antenor Navarro...
- Irmão,
Governador!
- Sim! Irmão, tudo é a
mesma coisa. Então, eu vou fazer a consulta e de acordo
com a resposta eu aviso a Dona Lúcia.
Nesse momento,
Lúcia é convidada por Dona Antonieta para conhecer as
reformas que havia feito na casa e ficamos na sala, eu e
o Governador, que não tendo mais o que me dizer, saiu-se
com essa:
- Bem, esse negócio de
olhar reforma de casa é coisa de mulher. Então o senhor
vá lá prá fora e fique esperando por Dona Lúcia.
Dito isso, retirou-se
para uma outra sala, que deveria ser o gabinete de
trabalho dele. E eu, literalmente botado de casa prá
fora, dirige-me à uma varanda que existia na entrada e
lá, debruçado, fiquei recolhido à minha insignificância!
O pior era ter agüentado tudo aquilo para nada. Aquela
história de ser comunista estava fichada lá no
Grupamento de Engenharia. Embora não tivessem provas,
pelo menos suspeitavam. E isso era fatal! Na verdade, eu
era mesmo! Só não podia confirmar, naquela época, sob
pena de ser preso, perder emprego, aquelas providências
patrióticas que eram tomadas pelos donos do poder.
Estava eu já deduzindo que tinha sido perda de tempo,
quando o Governador aparece na tal varanda e debruça-se
também, um pouco mais adiante e fica calado. Eu
permaneci como estava e mais ou menos depois de uns
longos trinta segundos, vira-se prá mim, anunciando:
- Eu tenho muita
admiração pelo seu tio! Antenor Navarro foi um dos
esteios da Revolução de 30! Você lembra dele? Morreu
muito moço, não foi?
Realmente meu saco já
estava estourando! Mesmo assim me controlei e resolvi
entrar no jogo dele:
- Governador, quando o
meu tio Antenor Navarro morreu, eu ainda não era
nascido!
- Não fosse aquele
desastre do avião, seu tio hoje deveria ser muito
importante nesse país!
Claro que não
agüentava mais aquele papo e fui salvo pelo aparecimento
de Lúcia e pelas despedidas. De volta comentei com ela a
minha descrença na tal nomeação e não deu outra coisa,
pois nunca fui chamado.
Mas Ernani
Sátiro continuou tirando o mandato que recebeu dos
militares, ao mesmo tempo em que se tornava o governador
mais folclórico que a Paraíba já teve. Como também não
posso deixar de registrar que ele foi um dos mais
honestos. Do lado folclórico salienta-se um fato ligado
ao Hotel Tambaú: duas placas na inauguração, uma com o
nome dele e outra com o nome de João Agripino, que foi,
realmente, quem construiu o hotel.
Tempos depois, fiquei
dono de uma gráfica e, por coincidência, Noaldo Dantas,
na época Secretário da Comunicação Social do Governo,
pediu-me para fazer o cartão de Natal de Ernani e de
Dona Antonieta. Claro que aceitei a encomenda, pois
representava faturamento. Passados uns dias, Dona Yara,
Secretária do Governador, telefona-me, dizendo que o
Doutor Ernani queria falar comigo sobre os cartões de
Natal. Eu ponderei que estava trabalhando e não estava
com roupa adequada para uma audiência com o Governador,
ou seja, paletó e gravata, condição exigida pelo
cerimonial do Palácio. Ela insistiu, dizendo que eu
fosse como estava, pois o Governador havia recebido a
prova do trabalho e queria conversar comigo. Antes de
ir, verifiquei uma cópia da prova dos cartões que havia
sido mandada para ele, preocupado com algum possível
erro que pudesse ter sido cometido. Como estava tudo
correto, fui até ao palácio apenas curioso. Introduzido
ao gabinete do governador, onde já estavam Noaldo Dantas
e Manoelzinho Gaudêncio, fui por Ernani interpelado:
"Amigo velho, eu vi a prova do cartão de natal meu e de
Antonieta e achei muito bom. Eu queria só saber uma
coisa: vai sair tudo igual?" Diante da minha
afirmativa, foi contundente: "Sendo assim, pode ir
embora, amigo velho", sem, felizmente, lembrar-se de
Antenor Navarro!
Posteriormente
reclamei de Noaldo, dizendo que ele poderia ter
explicado ao Governador que não havia como sair
diferente da amostra, uma impressão, principalmente em
off-set que a chapa é uma gravação. Ele me disse que
tinha explicado tudo, mas que o Governador queria
ouvir-me, para ter certeza!
Tempos depois dois
fatos vieram a se relacionar com Ernani, quando com
Jório Machado, Biu Ramos, Jonas Leite Chaves e outros,
fundamos o jornal O Momento, que começou a criticar o
seu governo: primeiro o Deputado Antônio Nominando
Diniz, fazendo-lhe oposição na Assembléia Legislativa e,
segundo, a exibição em João Pessoa do filme O
Exorcista. No novo jornal demos uma declaração do
Deputado como manchete de primeira página: "Ernani Está
Vendo Fantasmas!" Abaixo, ao centro, uma matéria sobre
aquela declaração, tendo à direita uma fotografia do
Governador com a cara de espanto. À esquerda, na mesma
altura da fotografia, um desenho de Satanás, olhando
para Ernani, tendo, abaixo, uma chamada para um
comentário que eu havia escrito, sobre o filme O
Exorcista. Isso junto nos levou ao Grupamento de
Engenharia, denunciados como subversivos que queriam
desestabilizar o Governo!
33
PERIGOSO
COMUNISTA
Afora José Américo de Almeida, que foi o mais importante
deles, fui eleitor e até amigo de outros políticos como
Pedro Gondim, Robson Duarte Espínola, Antônio Nominando
Diniz, Ivan Bichara, Tarcísio Burity, Raimundo Asfora,
Antônio Carneiro Arnaud, Jório Machado, Egídio Madruga
e Francisco Ramalho Leite. Nunca fui amigo e também
nunca votei em nenhum político com o pre-nome de
Fernando (portanto não sou responsável por essa
esculhambação que existe no Brasil), como também nunca
votei e nunca fui amigo de nenhum político que tivesse o
nome Cunha Lima. Mais recentemente votei em Lula , Lúcia
Navarro Braga, Luiz Couto e Orlando Madruga (e que me
perdoe o sigilo eleitoral!). Além desses todos, dois
outros tiveram, por razões diversas, importância para
mim. O primeiro foi Wilson Leite Braga, que conheci na
minha casa na Praia do Poço, onde ia encontrar, ainda
como namorado (ou noivo), Lúcia Navarro, minha prima-irmã.
O segundo foi Antônio Marques da Silva Mariz, que
conheci quando ele ainda era noivo de Mabel Dantas,
amiga da, naquela época, minha noiva e com quem casei a
primeira vez. Mariz e Mabel também fizeram o mesmo e,
posteriormente, chegamos a ser compadres. Dos dois,
Mariz e Wilson, fui eleitor e amigo.
Ficando fora da quota
de comunistas do Governador Ernani Sátiro, fui tentar a
vida noutras áreas pois, tendo pedido demissão do Porto
de Cabedelo, só me restava um contrato mixuruca no
Estado, como Técnico, no Teatro Santa Roza, o que
deveria pagar um pouco mais que o salário mínimo da
época. O Jornal Edição Extra levou-me a acertar uma
entrevista com Antônio Mariz. Após a entrevista ficamos
conversando um pouco sobre a minha saída do Porto,
quando relatei as razões que me levaram a ela. Mariz
falou-me da possibilidade de um aproveitamento na
Secretaria da Educação e Cultura, com um cargo em
comissão, uma vez que eu já estava ligado a ela através
de um contrato. Lembrei-lhe do caso da direção do
Theatro Santa Roza, quando já existia o contrato acima
citado, que vinha desde o Governo Pedro Gondim, e mesmo
assim o meu nome tinha sido vetado. E o Santa Roza
também era ligado àquela Secretaria. Ele argumentou que
para Diretor do Theatro, o Governador teria de fazer
aquela consulta aos órgãos de segurança, mas que um
cargo de direção intermediária, dentro da própria
Secretaria, não chamava a atenção dos militares e a
consulta não seria feita. Mais ainda tratando-se de um
funcionário da própria Secretaria. Quanto ao Governador,
eu ficasse tranqüilo, que àquela altura ele não se
lembraria de mais nada da minha visita à Granja Santana!
Algum tempo depois da
nossa conversa, recebo de Mariz a informação que devia
me apresentar à Secretaria de Educação e Cultura, ao
Secretário José Carlos Dias de Freitas, que queria
conversar comigo. Fui recebido imediatamente, passando
até à frente de outras pessoas que lá estavam esperando
ser atendidas. O Secretário foi atencioso, e, diante das
informações dadas por Mariz, como a de já ser
funcionário, ter cursos de administração pública na
Fundação Getúlio Vargas e experiência administrativa no
Porto de Cabedelo, convidou-me para assumir a Diretoria
Administrativa da sua Secretaria. Era bom demais para
ser verdade! Lá eu ia ganhar mais do que no Santa Roza!
Disse-me que iria preparar o ato e que aguardasse um
chamado seu.
A experiência me
impediu de comemorar o convite. Nunca fui de contar com
o ovo antes dele passar pelo fiofó da galinha. Mas
fiquei muito contente, certo de que a minha situação
financeira iria melhorar um pouco. Aguardei,
pacientemente aguardei, aguardei e aguardei.
Passados quinze dias
de esperanças, não pude mais me conter e voltei à
Secretaria, à procura de alguma notícia sobre a tal
nomeação. Fui informado que o Secretário não poderia me
receber, pois estava numa reunião com assessores devido
a uma viagem à Brasília que faria no dia seguinte e que
eu voltasse na outra semana. Pensei comigo: eu deveria
estar nessa reunião, uma vez que vou ser... Achei tudo
muito estranho! Mas só restava-me aguardar.
Deixei passar o tempo
e não voltei lá na data marcada. O Dr. José Carlos tinha
como se comunicar comigo, o melhor era esperar. E bote
esperar nisso. Já um tanto desiludido voltei à Rua das
Trincheiras, onde ficava a Secretaria. Fui informado que
o Secretário estava elaborando o expediente para levar
ao Governador ainda naquela manhã e que só poderia me
atender à tarde. Pensei: Opa! Meu ato deve estar nesse
meio! Devia ser quatro da tarde quando avisei: olha eu
aqui de novo! Soube que o Secretário havia ido para o
Recife e só voltaria na segunda-feira. Pensei em
desistir, mas a necessidade é madrasta. Na semana
seguinte lá estava eu mais uma vez: "O Secretário mandou
dizer que ainda não tem nada a dizer, que o senhor fique
aguardando, que quando ele tiver alguma notícia manda
lhe avisar." Foi a informação da funcionária do
Gabinete. Para mim, a gota d'água!
Passa-se o tempo,
acontecem na minha vida uma gráfica, o jornal O Momento,
continuei como funcionário do Teatro e Ernani
concluindo seu mandato biônico sem a minha
participação. Com o Secretário José Carlos Dias de
Freitas encontrei-me algumas vezes no Santa Roza e,
propositadamente, não o cumprimentei, afastando-me
sempre das imediações dele. Achava ter sido uma grande
sacanagem o que ele fez comigo (e ainda acho hoje!) e,
portanto, eu não queria aproximação.
Mas a vida seguiu a
sua inexorável caminhada do nascimento para a morte, e
todos nós seguimos juntos, sujeitos às mutações naturais
e às provocadas pelos interesses pessoais. Haja
frescura! E no meio dessas mudanças um recado me
surpreendeu consideravelmente. Veio através de Paulo
Albuquerque Melo, que era Diretor Geral de Cultura:
- Rapaz, o Dr. José
Carlos Dias de Freitas está lhe convidando para um
almoço lá na casa dele, na Av. Epitácio Pessoa, sábado
próximo. Ele quer explicar a você o que aconteceu
naquele episódio da tua nomeação, quer acabar com essa
tua rejeição à pessoa dele... Pelo que ele me disse e eu
não estou autorizado a lhe adiantar, você vai dar razão
a ele... Acho que você deve aceitar... Sim, o convite é
extensivo à sua família, à sua mulher...
Em casa conversei
sobre o assunto e a mulher foi favorável a nossa ida,
justificando que eu precisava ouvir as pessoas para
compreender os motivos delas, pois não se devia
julgá-las pela primeira impressão, etc., aquele papo de
bom senso, próprio de pessoas que se fazem de passivas,
que não reagem às agressões sofridas, aguardando o
momento certo para um revide, comportamento muito
próximo do dela.
Fomos
nós ao tal almoço, eu meio empurrado mas, ao mesmo
tempo, ansioso por saber as razões que seriam dadas
pelo anfitrião. Também compareceram Paulo Melo e Carlos
Pereira da Silva, ambos com suas respectivas esposas.
Bem recebidos com bebidas, comidas e amenidades
conversadas, parecia até que se estava comemorando
alguma coisa, tal era a alegria reinante. Somente eu
estava me sentindo um tanto peixe fora d'água em meio
àquela confraternização. Devem ter notado, pois não
demorou para Paulo Melo chamar-me, pedindo que eu fosse
conversar com o Dr. José Carlos, num desse balanços de
dois assentos que havia no quintal da casa. Lá, pouco à
vontade, ouvi o seguinte:
- O Deputado Wilson
Braga me pediu aquele cargo para um candidato seu, um
cabo eleitoral lá de Conceição, José Pires. Eu lhe disse
que já existia uma pessoa indicada pelo Deputado Antônio
Mariz. Mas que ele também estaria contemplado, pois se
tratava de um parente dele, um primo de Dona Lúcia.
Quando ele soube que era você, perguntou se eu estava
louco! Disse que lhe conhecia, que você era um comunista
fichado, um elemento perigoso, e que iria causar
problemas ao Governador, que quando soubesse quem era
você não iria gostar. Eu fiquei sem saber o que fazer,
nem como lhe dizer o que estava acontecendo. Pediu-me
sigilo sobre ter sido ele a dar aquela informação,
argumentando querer evitar problemas dentro da família,
o que você, certamente, iria criar, se soubesse da
intervenção dele. Inventar uma desculpa, eu não sei
fazer isso. Achei melhor evitar você. Hoje estou lhe
dizendo tudo isso porque estou sabendo que você não é
nada disso, que foi tudo uma intriga, uma forma de
conseguir aquele cargo...
Calado estava, calado
fiquei. Tinha a sensação de que alguma coisa não se
encaixava naquilo tudo. Que o tal José Pires tinha sido
nomeado, isso eu sabia e batia com o relato que eu
ouvira. Que era uma pessoa ligada a Wilson Braga eu
também sabia, e na época achei muito natural que ele
pedisse pelos seus correligionários. Eu só tinha o meu
voto e esse José Pires, pelo que me informaram, tinha
votos lá no sertão. Isso dava-lhe vantagem num governo
altamente politiqueiro como eram os daquela época e como
o são todos até hoje. Se não fosse a deduragem de
Wilson, também dedurada pelo Dr. José Carlos, o assunto
não me causaria a menor reação. Agora a história de
"comunista fichado e elemento perigoso", eu achei uma
sacanagem da grossa! Pelos favores que eu devia a
Wilson, pelo parentesco próximo com Lúcia, pelo fato de
eu ter votado nele mais de uma vez, não havia razão para
o uso de um expediente tão mesquinho. Ele tinha a
condição de me procurar e dizer que estava precisando do
cargo. Eu poderia até ficar chateado, mas entenderia.
Ficaria esperando uma outra oportunidade.
Era em tudo isso que
pensava, quando voltamos a nos juntar ao resto do grupo,
bastante animado e risonho. Se antes já estava difícil a
minha ambientação, agora mais ainda. Além de não me
sentir à vontade, as informações fervilhavam na minha
cabeça. Até aquele momento eu vinha tendo um bom
relacionamento com Wilson. E agora, como iria ficar?
Procurá-lo para esclarecimentos seria uma bobagem. Fosse
verdade ou mentira ele iria ter a mesma atitude: negar
tudo! Também não via vantagem em ser pivô de um
confronto entre ele e o Dr. José Carlos. Então comecei
a optar por um afastamento em silêncio, não o procurando
mais e recusando qualquer tipo de aproximação. E foi
exatamente essa a minha atitude a partir daquele dia.
O almoço continuou
bastante animado e eu continuei estranhando a situação,
achando que aquele convite não objetivava somente a
oportunidade de uma explicação, mas haviam outros
interesses embutidos naquela reaproximação. Hoje eu
tenho quase certeza disso. Só não posso provar. Quanto à
minha postura com referência ao Deputado Wilson Braga,
não sei se foi a mais correta. Mas foi a que eu tomaria
novamente hoje.
Algum
tempo após aquele almoço fui ao Aeroporto Castro Pinto
esperar alguém e, coincidentemente, Wilson chegou no
mesmo vôo. Ao me ver, naturalmente sem saber o que havia
acontecido no tal almoço, veio me cumprimentar, certo
de que eu estava ali para recebê-lo. Aceitei o
cumprimento e essa foi a última vez que nos encontramos.
P.S. - Voltei a encontrar Wilson Braga alguns anos
depois, numa solenidade no Teatro Santa Catarina, em
Cabedelo. Apenas nos cumprimentamos.
34
A
MAQUIAGEM
O que era mais
gratificante para os amadores de teatro, ou seja,
aquelas pessoas que encenavam peças teatrais sem
qualquer tipo de remuneração, era viajar com o
espetáculo para apresentá-lo noutra cidade ou noutro
estado. Quando uma peça estava sendo montada para
participar de algum festival de teatro, aí o interesse
de fazer parte era grande e bem disputadas as vagas. É
claro que no preenchimento delas entravam certas
determinantes que variavam de uma simples amizade até a
uma possível relação amorosa. Dependia muito dos
responsáveis pelo grupo, do diretor do espetáculo e, por
fim, do talento do ator ou atriz.
Fiz muitas viagens
com grupos de atores e atrizes, sedentos de novas
paisagens e cenários para as suas realizações artísticas
e pessoais. As fantasias eram muitas e, no mínimo,
acreditavam em ser descobertos por alguma emissora de
televisão, equipe de cinema ou até mesmo por alguma
companhia teatral do sul maravilha. Bem que algumas
vezes dava sorte, pois temos valores que estão se
destacando nacionalmente. Mas só para uma pequena
parcela, o resto era ilusão! Se há de convir que não é
só da Paraíba que saem essas pessoas em busca do
sucesso. O país inteiro exporta, internamente, talentos.
Mas de todas essas viagens o que ficava mesmo eram os
passeios, as farras, os
namoros e as amizades com as pessoas dos
outros grupos que participavam de um festival.
Com a peça "Auto de
Maria Mestra", texto de Altimar Pimentel, sob a minha
direção , com música de Pedro Santos e cenários de
Flávio Tavares, participamos de um festival no Rio de
Janeiro. O grupo, com aproximadamente vinte moças e
rapazes, era muito animado e, no Rio, ganhou a simpatia
de vários paraibanos que estavam por lá, entre eles
Paulo Pontes, no auge da sua carreira como dramaturgo.
Numa das noites, após o espetáculo, Paulinho convidou
algumas pessoas para ir dançar e fomos eu, Anunciada
Fernandes, Zélia Costa e Niedja, levados por ele, a um
inferninho chamado Kid’s Bar, lá para os lados de
Copacabana. Dançamos, bebemos, namoramos, e ao final da
noite procuramos um restaurante para forrar a barriga.
Anunciada Fernandes queixava-se de dor de cabeça.
Paulinho pediu ao garçom que providenciasse Sonrizal e
Engov. E ela tomou sem a preocupação de perguntar o que
era. Dia claro estávamos voltando para a nossa
hospedaria, a que ficava perto dos arcos da Lapa.
Dez horas da manhã fui
acordado pelo Diretor da Casa do Estudante do Brasil por
ser o dirigente do grupo, para tomar providências
urgentes de um atendimento médico, pois uma das nossas
moças estava passando mal. Desci até ao alojamento
feminino e dei de cara com Anunciada Fernandes toda
inchada, com uma bruta intoxicação provocada pela
medicação tomada no restaurante. Muito nervosa e
chorando, preocupada com o seu estado de saúde e com um
possível impedimento de se apresentar à noite no teatro,
confessou que era alérgica e só tomou o Sonrizal e o
Engov porque não sabia o que era. Imediatamente pedi
socorro a Paulo Pontes que, ainda bocejando, disse-me
para levá-la ao Souza Aguiar, que ele também iria para
lá com um amigo que era médico. Pegamos um táxi eu,
Anunciada, Zélia e Niedja e seguimos para o hospital.
Quando chegamos, eu, que ia no banco da frente, fui o
primeiro a sair do carro e procurar ajudar a doente, que
vinha no banco traseiro. Desceram Zélia e Niedja e nada
de Anunciada sair. Baixei-me um pouco para ver o que
estava acontecendo e me deparo com ela de estojo na
mão, fazendo maquiagem: base, batom, sombras e lápis de
sobrancelha. Estourei:
- Isso é hora
Anunciada?! Você está precisando é atendimento médico!
- Você quer bem que eu
entre no hospital sem me pintar?...
Disse e continuou
tentando encobrir as marcas da sua alergia. Finalmente
saltou do carro e entramos no Souza Aguiar. Logo na
entrada, também chegava, numa maca, um homem esfaqueado
e todo molhado de sangue. Anunciada deu meia volta e
disse:
- Não fico aqui de
jeito nenhum!.
E saiu correndo pela
rua com a gente tentando alcançá-la. Pegamos um táxi e
voltamos para o alojamento. Eu lavei as mãos e disse que
não tomava mais nenhuma providência. Por sorte, Paulo
Pontes, tendo ido ao hospital e não nos encontrando,
levou o médico até onde estávamos hospedados. Ela foi
medicada e à noite fez o espetáculo.
35
AS
FRONTEIRAS
DA
PARAÍBA
Outra vez, no Rio de Janeiro, com um novo espetáculo:
"Viva A Nau Catarineta", texto também de Altimar
Pimentel, também com música de Pedro Santos e cenários
de Flávio Tavares, sob a minha direção.
Roberto Rabelo, que
adotara o nome artístico de Bob Rábel, encontrava-se no
Rio tentando a sua carreira de cantor e já era
crooner de um conjunto que tocava na boate
Hecatombe, na Galeria Alasca, em Copacabana. Foi
assistir ao nosso espetáculo, principalmente para
rever o pessoal da terrinha e aproveitou a oportunidade
para convidar o grupo a ouvi-lo na tal boate. Fomos
recebidos com aplausos e elogios dele, ao microfone da
casa. Uma grande mesa estava reservada para nós e lá
fomos acomodados. Cervejas, petiscos e dança, e assim
estávamos a participar da noite carioca. Ele dividia o
tempo entre a nossa mesa e o palco e a cada momento
fazia uma referência elogiosa a alguém do grupo ou a
alguma coisa importante relacionada com a Paraíba. No
início até que ficamos lisonjeados e felizes, sem
quaisquer constrangimentos, bem à vontade, mesmo porque
éramos praticamente os únicos fregueses da boate, pois
havíamos chegado bastante cedo. No entanto, uma
meia hora depois a Hecatombe começa a
receber o seu público habitual e foi ficando cheia, com
quase todas as mesas sendo ocupadas. Não bastasse o fato
de estarmos numa posição de destaque no salão, o que já
poderia provocar algum tipo de reação dos
freqüentadores, Roberto não parava de falar sobre nós
durante os breves intervalos entre uma música e outra
que cantava, o que já começava a causar algum vexame. O
pior era que não tínhamos a menor condição de pedir para
que ele parasse, pois seria, no mínimo, uma indelicadeza
da nossa parte. Fomos salvos, momentaneamente, pelo
intervalo feito pelo conjunto musical, quando ele veio
á mesa pedir a nossa opinião sobre o que estava
fazendo, recebendo, naturalmente, agradecimentos e
elogios de todos, pois ninguém tinha a coragem de dizer
que ele não estava agradando aos outros
freqüentadores...
Alguém teve a idéia de
pedir que, quando reiniciasse a apresentação, ele
cantasse uns tangos, pois gostávamos muito. Na verdade,
o que se queria era não dar oportunidade para ele fazer
citações sobre a Paraíba, pois com samba dava Paraíba,
com baião também, com marcha e frevo aí era que dava
mesmo, e até com bolero ele fez referência as noitadas
dos clubes sociais de João Pessoa, conseqüentemente,
Paraíba! Agora, com tango julgamos ser impossível.
Apenas ele poderia dizer que estava atendendo algum
pedido nosso, o que não era nada, comparando com o que
estava acontecendo. O nosso Roberto Rabelo sobe ao
palco, pega o microfone e lasca um discurso:
- Para começar, vamos
atender a um pedido do pessoal da Paraíba cantando
tangos. Como vocês sabem, o nosso querido Estado faz
fronteira com a Argentina, por isso, há uma grande
influência da música portenha em toda a região. Maestro!
“Corrientes, três, quatro, oito...”
Por fim, a orquestra
ataca de samba canção e arrisco-me ir até ao salão para
dançar. Durante a dança ouço uma jovem dizendo para o
seu parceiro:
- Esse pessoal da
Paraíba é metido a coisa... Eu já fui lá, não tem nada
demais! Só dois clubes, um chamado Astrea e outro
chamado Cabo Branco... Querem ser importantes só porque
moram perto da Argentina...
Tenho certeza de que
ela falava alto, propositadamente, para que eu ouvisse!
36
O CERTO
QUE
SAIU ERRADO
Com o mesmo espetáculo teatral da história anterior, nós viajamos à cidade paulista de São Carlos,
São Paulo, para apresentá-lo num festival que ali seria
realizado. Ônibus lotado, muita animação e brincadeiras,
claro que ajudadas por alguma bebida. Nessa época estava
em voga uma bebida chamada Drink Dreher, apreciada por
todos, inclusive pelas moças. Quando entramos em
território baiano já havíamos tomado dezesseis litros do
tal Drink e o último gole estava com Pereira Nascimento,
que não demorou muito a emborcar a garrafa e, com o
vasilhame vazio, abre uma das janelas do ônibus para
jogá-lo fora. Zé Bezerra Filho grita para que ele não
fazer aquilo, dando vez a uma discussão:
- Por quê? Todo mundo
não fez isso, por que eu não posso fazer?
- É o lado Pereira,
desse lado não!
- O que tem esse lado?
Você tá é com mania de querer mandar em todo mundo...
- Não é isso
Pereira... Desse lado aí cai no meio da pista, pode
causar um acidente. Jogue do outro lado, que vai cair
dentro do mato e não vai fazer mal a ninguém!
- Pois então tome,
jogue você que sabe mais das coisas do que os outros...
Entregou a garrafa a Zé Bezerra Filho e ficou
resmungando, próprio de quem já havia bebido demais. Zé
Bezerra nem pestanejou: abriu uma janela do lado direito
e jogou fora a garrafa que foi cair, exatamente, junto
de um carro da Polícia Rodoviária, aos pés de dois
patrulheiros! O motorista do nosso ônibus nada percebeu
e seguiu normalmente a viagem, enquanto nós víamos o
carro da Polícia nos perseguindo. Não tive outra saída:
fui até ao motorista e pedi que ele parasse o ônibus
imediatamente, no que fui atendido na condição de
responsável pelo grupo.
A Polícia parou à
frente do ônibus e eu já estava do lado de fora para
tentar explicar a situação. Contei tudo exatamente como
tinha acontecido e pedi desculpas pela lamentável
coincidência. Os policiais demoraram a engolir a nossa
história, mas foi o jeito, pois deram uma busca no
ônibus todo e não encontraram qualquer anormalidade.
Fizeram algumas recomendações, nos informando ser
proibida a condução de bebidas alcoólicas em transporte
coletivo, mesmo tratando-se de uma viagem especial. Nos
dispensou, desejando boa viagem!
Acho que o que mais
pesou a nosso favor foi o fato de termos parado o ônibus
antes que eles determinassem isso, o que não nos
transformou em fugitivos. Refeitos do susto, seguiram-se
aqueles momentos de reflexão, quando ninguém se arriscou
a comentar nada, preferindo cantarolar as músicas de
Viva A Nau Catarineta... Menos duas pessoas:
-
Eu estava certo!... Viram como eu estava certo?...
Resmungava Pereira
Nascimento.
- Mais de três mil
quilômetros de estrada... Que azar! Eu vou acertar
exatamente naqueles três metros!... Que azar!
Repetia Zé Bezerra
Filho.
E a viagem foi até ao
fim sem que víssemos mais um só carro da Polícia
Rodoviária...
37
LEMBRANÇAS DE
JOÃO
FRANCA FILHO
Eu não poderia nessa série de histórias da minha vida,
deixar de reconhecer a grande participação de João
Franca Filho, funcionário de muitos cargos da Prefeitura
Municipal de João Pessoa. Dele, repito, eu assimilei
forma, jeito e espontaneidade de contar as histórias
como elas se passaram, como a gente gostaria que elas
tivessem se passado ou, ainda, como é possível a gente
contar como elas se passaram. Um jogo! E João era um
enorme jogador que não jogava a dinheiro para prejudicar
alguém. Isso eu também aprendi, acho!
O conheci, através do
seu concunhado Adão Navarro, que era meu primo , quando
ele morava na Rua da Palmeira (Rodrigues de Aquino). A
nossa convivência foi facilitada pela aproximação
residencial, pois eu morava na Rua das
Trincheiras, imediatamente atrás da sua rua, se
considerarmos o leste como frente. Nessa mesma minha
situação estavam os Fernandes, Ronaldo, Romeu, Assis e
Reginaldo; os Araújo, Normando, Marconi e Marcos; os
Soares Silva, José Paulo e Roberto Paulo; os Mendonça,
Ronaldo e Roberto e os Tavares, José Arnaldo, Paulo
César e Flávio. Do grupão também faziam parte outras
pessoas, oriundas das suas incontáveis amizades,
principalmente na Prefeitura.
Presenciei
em meio a esse ajuntamento de amigos, alguns fatos que
considero ontológicos: nas pescarias, nas farras e,
principalmente, no convívio com esse guru-geral, tão
estimado por todos. Ele ainda hoje é considerado um
marco em todas as nossas vidas, pois quando, por acaso,
ainda nos encontramos, as lembranças nunca deixam de
acontecer e de ser registradas.
José Paulo Soares (Zezito)
e Ronaldo Mendonça, o primeiro, hoje, agrônomo e
fazendeiro, e o segundo médico ortopedista, na época
eram estudantes pobres. Num sábado de carnaval ambos
queriam ir ao Clube Astrea, mas o dinheiro estava curto
e sabiam que não dava para as despesas na festa. João
Franca e Adão Navarro, que não iam a baile de carnaval,
queriam parceiros para um joguinho de buraco. Então João
Franca propôs o seguinte: vamos jogar a dinheiro, o
pouco que vocês têm contra o da gente valendo dobrado.
Se vocês ganharem vão para o Astrea cheios da grana. Se
perderem, ficam com a gente por aqui, bebendo e jogando
até amanhecer. Para a dupla jovem era o mesmo que matar
pra roubar! Os véios, João e Adão, já haviam
bebido o suficiente para ser enrolados. Começaram o jogo
e as apostas. João cochilava a todo momento. Adão estava
tão cheio de bebida que as cartas escorregavam das suas
mãos e caíam à vista dos adversários, em cima da mesa.
Zezito e Ronaldo trocavam cartas, tiravam coringas dos
jogos já expostos na mesa, faziam toda sorte de roubo no
jogo. Zezito e Ronaldo perderam o pouco
dinheiro que tinham! João Franca e Adão, não só não
prenderam Zezito e Ronaldo no jogo, como também
devolveram o dinheiro ganho e ainda acrescentaram alguma
coisa para que eles pudessem ir para o Clube Astrea.
* * *
Uma
pescaria programada em pleno inverno. Para tanto João
arranjara emprestado uma lona grande na Prefeitura.
Fomos para a Barra do Gramame, estuário existente no
litoral do Município do Conde, aqui mesmo na Paraíba.
Fomos eu, João Franca, é claro, Zezito, Ronaldo, Marcos
Araújo, Pessoinha e Sebastião da Prefeitura. Lá em
Gramame foi armada uma enorme barraca onde cabia a todos
nós. João havia prometido aos meninos (Zezito, Ronaldo e
Marcos) que voltaríamos no dia seguinte. Entretanto,
quando chegamos, resolveu que permaneceríamos mais
tempo, decisão que revoltou os três. Para complicar a
situação, começou a chover forte. João pescava na praia,
debaixo de toda a chuva. Eu, Pessoinha e Sebastião o
acompanhamos. Os meninos, revoltados, dentro da barraca,
permaneciam indóceis à situação. O inverno tornou-se
mais forte e nós voltamos para a barraca. O assunto era
o retorno para casa e João revidava declarando:
- Vocês vieram de
livre e espontânea vontade. Eu não obriguei a ninguém!
A revolta dos meninos era do tamanho
da chuva. Cada um na sua cama procurava vencer aquela
etapa dormindo. Em dado momento descobriram um pacote de
broas de milho que Pessoinha havia levado. O mais
safado, José Paulo, embebia d'água, na biqueira da
barraca, uma broa e jogava em cima de um de nós,
principalmente de João Franca. Em pouco tempo todos eles
estavam fazendo a mesma coisa. João exasperou-se e fez
ameaças diversas, que foram assumidas por nós outros. Eu
mesmo fui até à beira-mar, debaixo da chuva, e enchi um
balde de água salgada, com o qual ameacei os meninos,
caso eles continuassem jogando aqueles petardos. Deixei
o balde junto à minha cama e deitei-me. Não demorou
muito e veio outra broa voadora. Levantamos ao mesmo
tempo eu e Sebastião e fomos pegar o balde d'água. João
levanta-se e atravessa no meio da gente, no exato
momento em que arremessávamos a água na direção dos
agressores. Foi quem levou o banho! Ficou inteiramente
molhado!
* * *
De outra pescaria em
pleno inverno, os meninos não participaram, é claro!
Dessa vez compareceu um parente de João Franca chamado
Sérgio Pires, mais conhecido por Banoite, apelido
arranjado porque nunca dizia boa-noite. Tudo corria bem
até que Banoite, de posse duma lanterna, começou a
acendê-la e apagá-la na direção do mar, sem qualquer
objetivo. Não demorou para surgir vários
policiaisfederais, que estavam nas imediações à espreita
de contrabandistas, pois a região era de desova.
Foi um enorme vexame ter que provar que estávamos apenas
pescando. Em dado momento os policiais solicitaram
documentos do chefe do grupo, no caso João Franca.
Sebastião foi buscar os documentos e trouxe um saco
plástico onde eles estavam e também um baita Taurus 38,
que João portava quando ia para um lugar deserto como
aquele. Outro vexame! A sorte foi a existência de um
porte de armas. Quando os policiais foram embora, João
Franca explodiu:
- Isso é coisa que se
faça, seu Sérgio Banoite? É por isso que a turma vive
lhe gozando. Só faz merda! E você Sebastião? Queria me
ver saindo daqui algemado, era? Essa tua burrice é
doença sem cura mesmo! E sabe de uma coisa? Vamos
levantar acampamento! Vou embora agora mesmo!
- Mas João! E a gente?
Viemos aqui para pescar, não fizemos nada...
Foi a reação do
restante do grupo, onde eu me incluía. Nós ainda não
havíamos arredado o pé do acampamento, preferindo ficar
sentados, conversando e tomando umas e outras. Então
João foi incisivo:
- Vocês têm razão! E
em respeito a vocês eu vou ficar e continuar a pescaria.
Por esses dois bostas aí eu ia embora imediatamente!
Está bem, vamos continuar a pescaria. E saiu para pescar
junto com Sérgio Banoite e Sebastião, enquanto nós
outros continuamos na mesma: conversando e bebendo até
de madrugada.
38
CONVICÇÃO
Era
um dos nossos fins de semana na Barra de Gramame, praia
do litoral sul, pertencente ao município do Conde, na
Paraíba. Ficávamos numa caiçara sem portas e sem
paredes, só tinha a coberta feita de palha, bem à
beira-mar. Ali se aguardava a hora de ir buscar as redes
colocadas no meio do maceió, para capturar, através das
suas malhas, as tainhas tão desejadas. Também era ali
que se fazia as refeições, que se bebia, que se cantava
e que se dormia. Nesse fim de semana, enquanto
esperávamos a hora que maré iniciasse o período do
remanso, começamos a conversar sobre diversos assuntos.
Em dado momento estávamos discutindo a existência ou não
de Deus. Isso tudo impulsionado pelas doses de
aguardente já bebidas, que nos dava, principalmente a
mim, uma certa convicção de que Deus não existia. E o
meu discurso atrevido, próprio de quem quer aparecer,
deixava o nosso canoeiro Wilson apavorado com tanta
falta de respeito às coisas religiosas.
Chegada a hora de
recolher as redes, todos dentro da canoa rumo ao centro
do maceió. Era uma maré de lua nova, por isso de fortes
ondas e de noite totalmente escura. Levávamos um
candeeiro a gás para poder executar a nossa tarefa. E no
momento em nos encontrávamos temerosos com o balanço da
canoa, com a correnteza das águas e com a escuridão da
noite, Wilson fez a pergunta:
- Quer dizer que vocês
não acreditam que Deus existe?
Silêncio geral. Eu,
Assis, Reginaldo, Ronaldo e Romeu Fernandes e
Anchieta, ninguém se atreveu a responder e ele
insistiu, dirigindo-se a mim:
- Como é? Deus existe
ou não existe?
Dessa vez eu não
poderia ficar calado e o jeito foi sair pela tangente
mandando as minhas convicções para o inferno:
- Wilson, esse é um
assunto que a gente discute quando voltar para terra
firme, quando chegar na caiçara. Aqui não! Aqui a gente
tem de puxar essas redes... Você sabe, é perigoso se
distrair...
39
CARNAVAL
EM
GRAMAME
Passar o carnaval em Gramame era uma forma de não
participar da maior festa brasileira. Quatro dias
pescando e caçando era uma decisão aprovada pelos
familiares, principalmente as esposas, porque ficavam
com a certeza de estarmos livres dos perigos oriundos do
período carnavalesco, como bebidas, mulheres, brigas e
outras coisas negativas. Então, com o espírito de um
retiro ecológico, fomos mais uma vez curtir a generosa
obra da natureza, a praia de Barra de Gramame, uma das
mais belas da Paraíba.
Com os carros lotados
de equipamentos e feira, seguimos numa manhã de sábado
para o nosso paraíso, certos de um fim de semana
tranqüilo e pleno de satisfações. Éramos oito e chegamos
com a disposição de oitenta. Armamos o acampamento,
preparamos a cozinha que era a peça mais importante da
nossa estada, escolhemos os lugares para armar as nossa
redes de dormir e começamos a exercitar os nossos dotes
pesqueiros.
Tudo correu exatamente
como o previsto até à noite da terça-feira, quando
alguém, por conta de bebida, teve a infeliz idéia de
desafiar o grupo a ter
coragem de brincar a última noite de
carnaval, no América do Varjão, clube de um bairro
intermediário entre onde morávamos e a Barra de Gramame.
O presidente do clube
era um amigo nosso, Genivaldo Fausto, que nos recebeu
com a maior animação, nos deixando bem à vontade e
determinando: aqui tudo é de vocês!
No estado eufórico em
que nos encontrávamos, era o mesmo que passar manteiga
em focinho de gato. Fomos acomodados numa mesa enorme da
diretoria do clube e servidos com o que bem
quiséssemos. Em dado momento perguntei:
- E as mulheres?
- Pegue a que você
quiser... Todas brincam!...
Eu já estava,
realmente, carregado de álcool, razão porque sem
qualquer cuidado dirigi-me ao salão de danças para a
caça! Não deu nem para pensar... No salão, pulando,
cantando, alegre e cheia de álcool, igual a mim, estava
Maria, a empregada lá de casa! Dei uma meia volta volver
que fazia inveja a qualquer militar de carreira. Corri
para a mesa e escandalizei:
- Maria, a empregada
lá de casa, está dançando aí!
Foi água fria na
fervura. Teve nego que nem bebeu o primeiro gole de
cerveja! A correria foi geral! João Franca, o mais
afoito, disse que quem não tem culpa não teme e estava
ali só para tomar uma! Não tinha nada com empregada da
casa de ninguém! Mas, mesmo assim também caiu fora!
Voltamos para a Barra
de Gramame, feito cachorro apanhado, com o rabo entre as
pernas! Amanheceu a quarta-feira de cinzas sem mais
novidades. Hora de desarrumar e arrumar tudo para a
volta. E assim foi....
Quando cheguei em casa
era exatamente a hora do almoço. Tendo tomado banho e
beijado os filhos, sentei-me à mesa, com aquele ar
superior de dono da situação. Maria veio lá da cozinha
para nos servir e, não nego, me deixou um tanto
intranqüilo. Botou a mesa e foi incisiva:
- Seu Elpídio, eu não
lhe conto! Ontem, no América do Varjão, tinha um homem
tão parecido com o senhor, que se eu não soubesse que o
senhor estava viajando, eu tinha ido lá falar com ele!
Com toda dignidade de
senhor e dono da casa, ataquei, me defendendo:
- Eu, Maria?! Que
conversa é essa?
- Não, o senhor não!
Estou só dizendo que era parecido!
40
DIA DE
PAGAMENTO
Milton Almeida, ex-vereador em João Pessoa e
funcionário aposentado da Prefeitura Municipal, soube
que seu colega, também aposentado, João Franca Filho,
armara um esquema para receber os seus proventos sem ir
à repartição no dia do pagamento: havia acertado com o
pessoal da tesouraria que, para evitar entrar na fila ou
furá-la, seu pagamento fosse feito a Mané Bocó, caseiro
que tinha esse apelido por ser um tanto quanto
abobalhado. Milton procurou então o amigo para que lhe
fosse facultado o uso daquela comodidade, no que foi
atendido, passando assim a, no lugar de ir à Prefeitura,
esperar na casa de João Franca que Mané trouxesse o
dinheiro. No primeiro mês ficou um tanto apreensivo,
pois conhecendo o executor da operação, ainda tinha
dúvidas de que ela daria certo:
- João, eu acho Manoel
tão abestalhado! Será que ele vai dar conta mesmo do
recado?
- Claro, Milton! Ele é
assim mas é um cara muito honesto.
E para a tranqüilidade
geral Mané Bocó chegou, trazendo as encomendas todas
certinhas, sem faltar um tostão, tarefa pela qual
recebia alguns trocados. Um, dois, três, quatro meses e
tudo correndo bem, um grande achado para Milton, que no
lugar de entrar numa fila, o que é sempre ruim, ficava,
agradavelmente, sentado numa cadeira de balanço, batendo
papo com João Franca.
Naquele mês Mané Bocó
estava passando da hora de chegar de volta. Milton
começou a ficar apreensivo, e João Franca, ainda calmo,
dizia:
- Nada demais, Milton!
O pagamento atrasou um pouco, a fila grande, isso
acontece...
O tempo foi passando
enquanto crescia a ansiedade de Milton, que já não
conversava e balançava-se com mais vigor na cadeira.
João, por sua vez, também começou a se preocupar e
demonstrou isso balançando acentuadamente a rede onde
estava deitado. Balanços de cá, balanços de lá, o clima
estava formado. Milton querendo se convencer de que
tudo corria bem, dizia:
- É como você falou...
Deve ter havido algum atraso no início do pagamento...
- Deve ser, deve
ser... Já já Mané aparece ali no portão...
Confirmava João, sem
muita convicção. E o tempo passando e os dois
desesperando.
João Franca já havia
se levantado para telefonar pedindo informações à
tesouraria da Prefeitura, quando ouviu o rangido do
portão se abrindo e surgindo Mané Bocó com o seu riso
apalermado, aliviando a situação. Mas à medida que se
aproximava do alpendre da casa, ostentando um pacote e
dizendo "Seu João! Seu Milton! Estamos ricos!" , João
entendeu logo o que havia acontecido:
- Mané, filho da puta!
Você foi, foi roubado! Cadê o nosso dinheiro?
E Mané abriu o pacote,
onde encontraram uma porção de tiras de papel jornal!
Havia caído no conto do paco, com bilhete de loteria e
tudo, um dos golpes mais manjados que existia. João e
Milton tiveram que conseguir dinheiro emprestado para
passar o mês, e no seguinte estavam lá, na fila, para
receber pessoalmente suas remunerações.
41
NOS
BARES
DA
VIDA
Havia, na região
central de Tambaú, alguns bares diferentes e bastante
procurados, talvez mais pela fama, que mesmo por
quaisquer serviços ou produtos que oferecessem. Entre os
mais conhecidos estavam o Bar do Meu Cacete, de nome
assumido até na placa, devido ao seu proprietário que, a
toda sentença pronunciada incluía, como reforço, a
expressão "meu cacete!"; o Bar da Xoxota, acho que
assim denominado para chamar atenção, pois proprietários
e freqüentadores, na sua maioria, eram homossexuais e,
por fim, o bar O Quintal, que para não fugir à regra e
mesmo porque quintal é coisa que fica atrás, foi
apelidado de Bar do Cú, nome que nunca assumiu.
O Quintal era o
preferido por um grupo de amigos do qual eu participava
e ponto de encontro para muitas coisas e até mesmo para
beber. Jogava-se dominó, preenchia-se formulários do
imposto de renda, marcava-se pescarias e passeios,
vendia-se carros, tudo isso, geralmente, no período
entre onze e treze horas. Duas pessoas apareciam mais
por conta dos seus comportamentos: Newton Espínola
Guedes, por ser o mais assíduo; normalmente chegava às
oito da manhã e saía às seis da tarde, e Zé do Bar, o
garçom e espécie de gerente, por ser o mais sabido dos
garçons da redondeza.
Famoso por falsificar
as coisas, Zé do Bar chegou ao auge da sua carreira
quando falsificou água de coco para servir a Assis
Fernandes, convalescente de uma cirurgia: na falta do
produto na casa, deu de garra de um coco com um resto
d'água, completou com água da torneira e açúcar e
serviu. Assis não conseguiu beber devido ao sabor
estranho e, posteriormente, a astúcia foi descoberta. O
cliente pedindo uma cerveja Antártica e só tendo Brahma,
era só uma questão de segundos, o tempo necessário para
trocar os rótulos!
O engenheiro e
professor universitário José Maria Dantas, camarada que
já subiu para o andar de cima, desconfiado do uísque que
era servido para Newton Guedes, pegou a garrafa
sutilmente e fez uma marca com a ponta da chave do
carro. Dois dias após, quando Newton pediu uísque e veio
uma garrafa cheia, Zé Maria Pirrita, como era mais
conhecido, de posse da garrafa verificou ser a mesma que
havia feito a marca. Denunciou, chamou Zé do Bar e disse
querer comprar a garrafa toda, pois iria levar para
análise no laboratório e provar que era falsificado. O
garçom tomou a garrafa da mão dele e disse que não era
mais para vender, recolhendo-a . Newton danou-se,
dizendo que Zé Maria não tinha nada com a vida dele, que
tomava o uísque que quisesse porque era ele quem pagava.
Zé Maria chateou-se, chamou Newton de mal agradecido,
pois ele estava tentando protegê-lo econômica e
fisicamente, porque ninguém sabia o que Zé do Bar usava
naquela falsificação, mas que ele tomasse até mijo, se
quisesse, que ele não se metia mais na vida dele e, por
fim, retirou-se d'O Quintal insatisfeito.
Tempos depois,
esquecido o incidente, Zé Maria preparou toda a
declaração de imposto de renda de Newton, que nunca
interessou-se em aprender a lidar com aqueles
formulários, por isso nada entendia do assunto. Foi
quando veio a idéia de pregar uma peça em Newton e Zé
Maria não perdeu tempo: telefonou para a "Peixada do
Wilson" que era vizinha ao bar e pediu para chamar o Dr.
Newton Guedes. Quando ele chegou, disfarçando a voz,
disse ser da Receita Federal e convocou-o para
comparecer na delegacia às quatorze horas a fim de
resolver um problema grave na sua declaração, sob pena
de ser multado. Newton ficou numa situação difícil:
doido para beber, mas não podia começar, pois quando
fosse a hora de comparecer à Delegacia da Receita
Federal possivelmente já estaria alto e isso poderia lhe
causar problema. O jeito era aguardar a chegada de Zé
Maria para receber instruções e deixar a bebida para
depois de tudo. Nesse dia, propositadamente, Zé Maria
chegou mais tarde que nos outros dias, deixando Newton
numa total aflição. Ao entrar no bar foi logo informado
da situação e respondeu que desconhecia que tipo de
problema poderia ser, mas, que na hora determinada,
acompanharia Newton para esclarecer a situação.
Sentou-se, começou a beber, despreocupadamente, e aqui
e ali emitia opiniões do tipo "se for inevitável a
multa, a gente ainda tem o recurso de solicitar um
parcelamento...", o que deixava o companheiro mais
agoniado ainda. Enquanto confidenciava aos outros
presentes o que tinha feito, deu margem a diversas
opiniões que iam deixando Newton Guedes cada vez mais
apavorado. Já passava das treze horas quando pediu a
conta, pagou e fez menção de retirar-se. Newton foi logo
perguntando:
- Espere aí! A gente
não vai lá na Receita ?
E Zé Maria, rindo,
respondeu:
- Eu, não!
- Mas você não
prometeu?!...
- Fazer o quê lá?
- Tá ficando doido, é?
O negócio do telefonema que eu recebi...
- Você está falando do
telefonema que eu dei, mudando a voz?
- Como?!
E sob o riso geral, Zé
Maria contou a Newton, detalhadamente, toda a história
do trote, concluindo:
- Evitei para você,
umas três horas de uísque falsificado!
Embora Newton não
tenha simpatizado com a brincadeira, aceitou-a devido ao
alívio que o seu desfecho trouxe, a certeza de não ter
problemas com o Leão. E a vida por lá seguiu sua rotina,
com todos fazendo as mesmas coisas que sempre fizeram.
Zé Maria, por exemplo, chegando após às onze horas com
um jornal ou revista, ocupando uma mesa, pedindo uma
bebida e lendo as manchetes e resumos das matérias,
deixando o texto completo para ler em casa. Ao sair,
sempre esquecia o óculos de grau, o que só constatava ao
chegar à sua residência, sendo forçado a voltar a
tardinha para pegá-lo. Numa dessas vezes que esqueceu o
óculos, voltando ao O Quintal outra hora para
recuperá-lo, ao chegar foi ler o jornal e não conseguia
ler coisa alguma. Muito preocupado, correu ao
oftalmologista:
- Doutor, acho que
estou perdendo a visão. Até ontem eu estava conseguindo
ler com esse óculos, hoje eu não vejo nada!
O médico examinou o
paciente e o óculos e deu seu diagnóstico:
- O senhor está
usando um óculos sem grau algum. O que tem nele não são
lentes e sim dois pedaços de vidro!
Newton Guedes havia
aproveitado o esquecimento dele, foi até a uma ótica no
centro da cidade e providenciara a troca, guardando as
lentes para posterior devolução, embalado no deleite de
uma doce vingança.
42
BAIA
FORMOSA
Lembro que era junho
porque houve a procissão marítima pela passagem do dia
de São Pedro. Um barco conduzindo a imagem do santo
padroeiro dos pescadores e muitos outros o seguindo,
seguidos pelos golfinhos saltitantes, uma festa bonita
de se ver. De volta, na chegada muitos foguetões, rezas,
cânticos e mais uma procissão, dessa vez terrestre.
Estávamos em Baia
Formosa, litoral do Rio Grande do Norte. Eu, com mulher
e filhos, e José Arnaldo Tavares, também. Chegamos antes
para pernoitar e aguardar, no dia seguinte, a chegada de
outros companheiros de mais uma aventura divertida. A
casa ficava no pé da barreira, portanto um tanto
elevada. Lá em baixo a praia, cheia de arrecifes à
beira-mar. Para o lado do sul, outras casas, um delas
ocupada por um grupo de surfistas e suas acompanhantes.
Esse cenário, com os
arrecifes à beira-mar, levou-me ao desejo da procura
noturna de possíveis lagostinhas, uma vez que aquelas
pedras, com as suas locas, eram habitat preferido por
aquela espécie de crustáceo. Tentei convencer Zezinho
(José Arnaldo) a emprestar-me a sua lanterna importada,
muito mais potente que a minha, o que me foi negado sob
a alegação de que também iria pesquisar nos arrecifes.
Assim, munido da minha mais fraca e própria lanterna e
de um tridente ( espécie de espeto para fisgar lagosta),
fui à luta.
Procuro aqui, procuro
ali, procuro acolá e nada. Nada de lagosta, nem sinal.
Já resolvido dar por encerrada a inútil busca, volto-me
para retornar à casa e deparo-me com uma linda mulher
de, no máximo, dezoito anos, de biquíni. Que susto! Era
tão alva que parecia uma alma... No entanto, boa prá
cacete!
Refeito da surpresa,
baixei a lanterna que a encandeava e perguntei uma
besteira:
- O que você está
fazendo aqui?
- Querendo saber o que
você está fazendo...
Respondeu em tom de
gracejo. Então procurei explicar a caça às lagostinhas,
que ela não sabia ser "bicho" que se encontrava naquelas
pedras, pois nunca tinha visto nenhuma por ali, mas
também só ia naquelas pedras durante o dia e só estava
ali naquela noite por sentir-se chateada.
- Estou naquela casa
dos surfistas. Meu namorado é um deles. Todos os dias,
pela manhã, eles vão pegar ondas. Quando voltam estão
cansados demais. Comem a comida e dormem. Essa hora tá
tudo na maconha. Eu não gosto... A gente só serve para
arrumar as coisas da casa, fazer a comida, lavar os
troços... Hoje eu fiquei puta da vida e disse que não
fazia nada. Vi uma luz aqui e vim ver o que era...
Foi a minha vez de
confessar:
- A sua aparição
encantou-me! Não esperava ter uma visão tão bonita aqui!
-
Não vai continuar procurando as lagostas?
- Pra que? Achei uma
bela sereia, vou lá me preocupar com uma coisa feia
daquela...
- Feia, mas muito
gostosa
- Nisso você também
não fica atrás...
Sorriu e propôs:
- Dá para apagar essa
lanterna?
- Claro!
- Ela fica chamando a
atenção de quem está lá nas casas...
- Certo.
Apaguei a lanterna.
Sentamos nos arrecifes. Início de um papo não muito
inteligente mas bastante promissor, considerando as
minhas boas intenções:
- Você está passeando ou
mora aqui?
- Passeando. Moro em João
Pessoa.
- Eu sou de Natal.
- Sei...
- Você é casado
- Sou.
- Mas está sozinho aqui?
- Não. Minha família está
naquela casa ali...
- Eu sabia!...
- Como?
- Um cara assim,
sobrando... Era bom demais pra não ser!...
- Sou apenas casado...
- E não é capado! Já
conheço a piada.
- Estou brincando...
- Mas eu não! Estou a fim. Pena que você
não possa...
- Pra tudo tem jeito! O
povo lá em casa também dorme cedo...
Já arquitetando um plano
para um reencontro mais tarde, fomos surpreendidos por
um potente facho de luz interrompendo tudo. Olhando na
direção de onde vinha a inoportuna claridade, diviso a
casa onde eu estava passando aqueles dias com todos os
seus ocupantes nos observando: mulher, filhos, cunhada,
sobrinhos e Zezinho segurando a sua importada lanterna:
- Filho da puta!
Foi a minha reação. A moça,
que nem o nome fiquei sabendo, apressou-se em cair fora,
antes perguntando:
- É amigo seu?
- O que é que você acha?
- Um fresco!
E o facho de luz continuou só
em cima de mim, pois a minha sereia deu no pé, me
deixando com aquela sensação de ter acordado de um sonho
erótico, exatamente na hora do orgasmo. Voltei para casa
tão chateado que não pensei em nenhuma explicação para
dar...
43
OS
TAVARES
DE
MELO
Numa narrativa anterior fiz referências a essa família,
encabeçada por Arnaldo e Otaviana, hoje já falecidos.
Pensem os leitores num casal fascinante como anfitriões
dos amigos dos seus filhos. Quando estávamos na casa
deles, eu e mais de uma dezena de amigos, éramos como se
fôssemos filhos também. Lá, tínhamos as portas
escancaradas para nos receber, isso sem contar com as
delícias da culinária de Dona Otaviana, principalmente o
vatapá e a feijoada, pratos que nunca comi igual noutro
canto. Sérgio, o intelectual, José Arnaldo, o cientista
louco, Paulinho, o alvoroçado, Flávio, o artista,
Teresa Helena, a única irmã e Carlos Alberto, o caçula
brigão, eram os filhos, fazendo parte da família, ainda,
vários agregados.
Doutor Arnaldo era
médico dermatologista e professor da Universidade
Federal da Paraíba, considerado o melhor na sua
especialidade. Era também fotógrafo, pintor, compositor,
desenhista, enxadrista, repentista e tocador de
castanholas, de imaginação e inteligência brilhantes.
Ouvi-lo sobre qualquer assunto, para nós era palavra
final. Certa vez lembro de ter encontrado
o meu primeiro filho, Luiz Maurício, ainda de braço e
nos braços da mãe que já chorava, com graves problemas
respiratórios, provocados por uma crise de asma
alérgica da qual era portador. Os
remédios passados pelo seu médico nada estavam
resolvendo, pois o menino, ao contrário, piorava quando
os tomava. Diante do quadro, só me restava correr em
busca de socorro e a primeira pessoa que me veio à
cabeça foi Doutor Arnaldo Tavares, que interrompeu o
almoço e veio nos atender, mesmo sem ser pediatra.
Observou todos os remédios que estavam em cima da mesa,
pediu desculpas e jogou tudo fora. Escreveu alguma coisa
e disse-me para ir até à farmácia de "Seu" Teixeira,
mandar preparar aquela fórmula. Antes das treze horas
estava eu de volta e aplicando a nova medicação. Antes
das quinze, Luiz Maurício já sorria e brincava, com
visíveis sinais de plena recuperação.
Doutor Arnaldo
costumava estacionar o seu Aero-Willys nas proximidades
da sede do Clube Cabo Branco, na Rua Duque de Caxias,
onde sempre jogava xadrez antes de ir para o
consultório, também ali perto. Certo dia, ao sair do
consultório, não encontrou o carro no local que
costumava estacionar. Convocou os filhos que convocaram
alguns amigos para as providências cabíveis: Polinter,
Polícia Rodoviária, queixa de roubo. Voltavam para casa
a fim de aguardar o resultado das investigações quando
encontraram o carro em frente ao Cinema Plaza, no Ponto
de Cem Reis. Naquele dia, por falta de vaga, ele
estacionara o carro noutro local!
***
Foi
jantar com Dona Otaviana no Restaurante Casa Grande, nas
proximidades do Hotel Tambaú. Agora já havia trocado de
carro e possuía um Maverick, que estacionou ao lado do
restaurante. Concluída a refeição, regada a um bom
vinho, conhaque e licor, Dr. Arnaldo voltou para o
carro, ligou, engrenou uma ré e deu partida para
manobrar e deixar o veículo na direção desejada. Colidiu
com uma árvore que havia atrás. Diante das reclamações
de Dona Otaviana, argumentou:
- Otaviana, eu tenho
certeza que essa árvore não estava aí quando chegamos...
A velha gameleira já
existia ali há cerca de duzentos anos!
***
Dona Otaviana era uma
pessoa que não admitia que pisassem nos seus calos e a
maior pisada de calo que podiam fazer a ela era alguma
coisa contra um dos seus filhos. Aí então aparecia a
super mãe, disposta a tudo.
Em plena efervescência
da quartelada iniciada em 1964 e em plena vigência dos
famigerados atos complementares, um dos chefes da caça
às bruxas aqui em João Pessoa, era um tal de major
Cordeiro, do, na época, 15 RI, que andou prendendo um
bocado de gente supostamente comunista, subversiva ou de
esquerda. Foi quando levaram José Arnaldo preso, acusado
de simpatizante do regime de Moscou. Dona Otaviana não
perdeu muito tempo. Foi até ao quartel e apresentou-se
para falar com o tal major Cordeiro que, de pronto,
recusou-se a recebê-la. Então, ela mandou o seguinte
recado para o major:
- Diga que é Otaviana
Tavares de Melo, que foi sua vizinha e que sabe um
bocado de coisa sobre a vida dele. Pergunte se vai me
receber ou se quer eu diga a todo mundo o que sei!
Não só Dona Otaviana
foi recebida, como José Arnaldo foi logo solto...
44
A
BOLSA
DE
ESTUDOS
O
convite foi feito com bastante insistência: à noite, na
casa de João Franca Filho, um joguinho de buraco, regado
a uísque importado, oferecido por José Arnaldo Tavares e
Marcos Melquíades que o haviam recebido de presente não
sei de quem. Na hora aprazada estávamos lá, eu, Assis
Fernandes, Sebastião da Prefeitura e outros que não me
lembro bem. Indaguei do dono da casa sobre o uísque e
seus ofertantes, ao que João Franca respondeu:
- Está aqui, já estou
até tomando uma! Zezinho esteve mais cedo, deixou a
encomenda e saiu com Marcos para resolver não sei o que,
mas que voltaria mais tarde...
Disse tudo isso
jogando ping-pong com a meninada da redondeza, enquanto
nos dirigíamos ao vasilhame de atração da festa. Era um
tal de Buchanas , que a gente só conhecia de nome
e da fama de ser caro, mesmo porque éramos mais chegados
à cerveja e aguardente, bebidas viáveis ao nosso padrão
de vida. Já estava preparando a minha dose quando Assis
advertiu:
- Água de coco não!
Não se bota água de coco em uísque escocês, é um
contra-senso. A maior preocupação dos produtores é a de
retirar ao máximo o açúcar existente no malte, o que
determina a sua qualidade. E nós aqui, metemos açúcar
nele! Para sentirmos o verdadeiro sabor de um bom
uísque, devemos no máximo, tomá-lo com uma pedra de
gelo...
Desisti da água de
coco e experimentei o primeiro gole. Entrou queimando um
pouco. Falta de costume, pensei. Assis saboreou o dele e
estalou a língua:
- Isso é que é bebida!
Que sabor!
Sebastião não contou
conversa e tacou água de coco no seu copo, ao mesmo
tempo que confessava:
- Tá doido! Tomei uma
vez isso puro e queimou foi minha boca. Só vai com água
de coco, que se danem os escoceses!
E, da mesa de
pingue-pongue, arrematou João Franca:
- Eu preparei a minha
lapada com bastante água de coco!
E quando sentamos em
volta da mesa para começar a partida de buraco, todos já
colocavam água de coco nas suas doses! Lá pras tantas,
quando paramos o jogo, comentou-se o não retorno de
Zezinho Tavares e o seu desprendimento, por não ter
feito questão em deixar a bebida para nós. João Franca
chegou a declarar que, se pudesse, vez por outra
comprava um litro daquele negócio. E encerramos a
noitada acordando que o vasilhame daquele uísque deveria
ser guardado como um símbolo de amizade, como um troféu.
Na manhã seguinte acordei com a cabeça maior que o resto
do corpo. Não podia mexer com ela que tudo começa a
rodar à minha volta e a vontade de vomitar chegava. Que
puta ressaca! Sonrizal, Engov e uma xícara de café
forte. Mais tarde telefonei para Assis e Gelza, a mulher
dele, informou:
- Está deitado ainda
com uma danada de uma enxaqueca! O que foi que vocês
andaram fazendo ontem à noite? Beberam onde, comeram o
que?
Respondi que ninguém
havia saído da casa de João Franca, só para vir para
casa... Telefonei para João e Dona Maria José foi logo
dizendo:
- Tá aqui na rede,
morrendo de medo de uma dor de cabeça que está sentindo.
Quer que chame?
Respondi que não,
deixando um recado de que depois telefonava. Sem
conseguir voltar a dormir, enchi um copo com gelo e meti
Coca Cola dentro, pois outras vezes, tomar aquilo, tinha
melhorado a cabeça. Minutos depois, quando já estava
culpando a água de coco de ser a causadora daquela
reação em cadeia, o telefone toca e é Assis:
- Bicho, Zezinho
telefonou procurando saber como eu estava e morrendo de
rir confessou que encheu a garrafa de Buchanas
com Drurys quebra queixo. Aquele uísque que
tomamos de escocês só tinha o vasilhame!
- Filho da puta! E eu
aqui me acabando de dor de cabeça...
- E eu?! Levantei à
força!
-
João Franca está arriado numa rede! Só não sei de
Sebastião.
Depois soubemos que
Sebastião nada sentiu, talvez por ter bebido muito menos
que nós três. Por tudo isso fizemos um pacto de
vingança, que caiu no esquecimento, até por conta da
volta de Zezinho para Ribeirão Preto, São Paulo, onde
cursava o mestrado em genética.
Numa manhã de sábado,
alguns meses depois, recebo um recado de Assis, marcando
encontro na Churrascaria Bambu. Chegou todo misterioso,
semblante maquiavélico e com o riso de quem começava a
gozar alguma coisa, foi logo perguntando:
- Soube que Zezinho
chegou?!
- Soube. Mas não
estive com ele não. A gente tem de fechar o jornal na
sexta-feira e eu não tive condição de procurá-lo. Talvez
vá hoje lá na casa dele.
- Talvez não! Você
vai...
- O que foi que houve,
algum problema?
- Está esquecido do
nosso pacto, da vingança?
- Sim! É mesmo... Mas
fazer o que?
- Estive com ele
quando chegou. Contou-me que o orientador dele lá do
curso de Ribeirão Preto, está tentando uma bolsa da ONU,
para ele ir estudar nos Estados Unidos!
- E daí? Não estou...
- Calma! Vou explicar
o plano: a gente passa um telegrama em nome do
orientador dele, dizendo que a bolsa chegou e que é para
ele se apresentar urgentemente lá em Ribeirão. Quando
ele estiver pronto para viajar, nós descobrimos a coisa
toda!
- Porra, que idéia
arretada! Espere aí, mas ele vai notar que o telegrama
foi passado em João Pessoa. Aparece isso no telegrama.
Ele vai logo descobrir que é um trote.
- Tens razão...
- Espera! Tive uma
idéia! Vamos até lá na redação do jornal...
Nessa época eu
gerenciava o jornal "O Momento" que ainda era um
semanário de propriedade de Jório Machado e do qual eu
tinha as chaves da redação. Recebíamos telegramas de
toda parte do país e era só aproveitar um daqueles
formulários com origem de São Paulo, arrancar as
tirinhas onde estava escrita a mensagem enviada e compor
outras com a nossa mensagem, colando-as no lugar das
primeiras. Teríamos também de modificar a data. Pensado
e feito.
- Vamos ver como
ficou. Vou ler: "Urgente presença Ribeirão Preto motivo
assinar aceitação até impreterivelmente próxima
segunda-feira vg bolsa estudo ONU Estados Unidos
conseguida Pt Caso não atenda prazo a mesma será
destinada outro candidato Pt Abraços..." E como é o
nome do orientador?
- Doutor Kerr: k, e,
r, r... Tá bom que tá danado!
Para
fazer a entrega contratamos por uma mixaria um guarda da
Prefeitura, que, devido a farda, se parecia com um
estafeta dos Correios e Telégrafos. Botamos ele no carro
e fomos deixá-lo bem próximo à casa de Zezinho, onde,
munido do telegrama e de um recibo que também
havíamos preparado, bateu palmas e foi atendido por
Dona Otaviana, mãe da vítima. Assinado o recibo, ela
voltou para o interior da casa e o guarda para o carro e
nós três para a Churrascaria, onde pagamos ao nosso
mensageiro e pedimos cerveja para comemorar a nossa
vingança.
Uma hora depois
resolvemos ir até à casa do contemplado para gozar a
nossa desforra. Em lá chegando fomos logo notando a
agitação, um reboliço danado. O mais entusiasmado era
Doutor Arnaldo Tavares, o pai, que acorreu a nos contar
a novidade, repetindo sempre: "Esse menino vai longe!"
"Esse menino vai longe!" Por outro lado, Marceleuse
Melquíades, a noiva, chorava feito Madalena
Arrependida, com a perspectiva de ficar sem o noivo
durante algum tempo. Dona Otaviana arrumava a maleta
dele para a viagem, enquanto Flávio Tavares, a estrela
máxima da família, pois já era famoso como pintor,
estava encolhido num canto, ofuscado pelo recente
sucesso do irmão. Um quadro ridículo, patético, mas
muito engraçado, digno da nossa vingança! O próprio, o
centro, a vítima, andava de um lado para o outro, feito
barata tonta, sem saber o que fazer. Veio ao nosso
encontro informar que estava indo para o Recife tentar
uma vaga num vôo para São Paulo, pois era imprescindível
estar em Ribeirão Preto na próxima segunda-feira. Foi aí
que tomamos pé da gravidade da situação. Era sacanagem
demais deixá-lo viajar para nada. E a decepção, e as
despesas e o transtorno? Mas o que fazer? Confessar,
ali, naquele momento de tensão, a nossa brincadeira,
arriscávamos até a ser linchados! Conseguimos, eu e
Assis, discutir sozinhos o problema e chegamos a
conclusão que a saída era tirar Zezinho de casa e,
noutro canto, revelar toda a verdade. Veio uma idéia e a
pusemos em prática:
- Zezinho, vamos até à
telefônica, você liga para o Doutor Kerr, se inteira
melhor da situação, para depois poder tomar uma decisão.
- É possível até que
você nem precise viajar com tanta urgência. Você diz que
aceita e ele lá dá um jeito...
- Vocês não conhecem
as coisas de lá. Tem tanta gente com olho nessa bolsa,
que eu não posso facilitar!
- Mas não custa nada
ligar antes. Estou de carro aí e num instante a gente
vai lá e volta...
Diante da insistência
ele aceitou a nossa ponderação e saímos, os três, em
direção à Companhia Telefônica, pois nesse tempo não
tínhamos ainda DDD. No carro, enquanto aguardávamos o
retorno de Zezinho, ficamos decidindo como provar pra
ele o blefe. O recibo! Sim, a posse do recibo, assinado
pela própria mãe dele, provaria que a gente tinha feito
tudo.
Uns vinte e cinco à
trinta minutos depois, chega de volta a nossa vítima,
com cara de tacho e dizendo que não estava entendo mais
nada, ao que perguntamos:
- A bolsa não
chegou?!...
- Pelo contrário,
chegou! Mas foi dada para outra pessoa e agora a
confusão lá está formada, pois estão acusando o Doutor
Kerr de ter me telegrafado para com isso criar um clima
contra uma colega dele, com a qual não se dá bem, e que
havia designado um protegido seu receber a referida
bolsa. O Doutor Kerr não estava e eu só pude falar com
ela. Acho que vou viajar , porque isso tudo pode ser
enrolada...
Aí, nós é que ficamos
enrolados. O que fazer? Sem outra saída, o mais racional
era esclarecer tudo e assim o fizemos. Ele reagiu com
indignação e tentou rasgar o recibo assinado por sua
mãe, o que não permitimos, pois era a única prova da
nossa vingança. Chegando em casa relatou tudo: o pai
disse "bem feito", por ter sido ele quem começou a
brincadeira de mau gosto; a mãe passou a desarrumar a
maleta, dizendo que concordava com o marido; a noiva
parou de chorar e intrigou-se comigo e Flávio Tavares
ergueu-se e começou a andar pela sala repetindo: "Esse
menino vai longe!" "Esse menino vai longe!"
45
PARAÍ-BÊ-A-BÁ
Sob
a coordenação de Paulo Pontes, juntaram-se, na segunda
metade de 1967, vários paraibanos em torno de uma
produção teatral denominada "Paraí-Bê-A-Bá" que, embora
jogasse no palco especificamente o nosso Estado, teve a
sua estréia no Teatro Nacional de Comédias, no Rio de
Janeiro, no dia 29 de janeiro de l968 e apresentou-se
pela primeira vez na Paraíba, no dia 16 de fevereiro
daquele ano, no Teatro Santa Roza, com um elenco de
atores composto por Ednaldo do Egipto, Jomar Souto,
Márcia Guedes Pereira, Roosevelt Sampaio, Sérgio
Tavares, Socorro Albino e Walderedo Paiva, tendo ainda a
participação especial do Coral da Universidade Federal
da Paraíba e dos músicos Geraldo, Genildo e Codó, sob a
direção musical de Arlindo Teixeira e Pedro Santos. A
montagem do espetáculo foi dirigida por mim e Rubens
Teixeira, também sob a coordenação de Paulo Pontes.
Paraí-Bê-A-Bá recebeu a colaboração de várias outras
pessoas, como Padre Francisco Pereira, Altimar Pimentel,
Yara Rosas, Edvanda Oliveira, Jório Machado, Severino
Ramos, Gonzaga Rodrigues, José Morais Souto, Linduarte
Noronha, Moisés de Almeida, Marconi Altamirando, Marcus
Vinícius de Andrade, João Manoel de Carvalho e Pedro
Moreno Gondim. Havia também o envolvimento do Governo do
Estado,
gestão de João Agripino, através das
Secretarias da Educação e Para Assuntos Extraordinários.
Após a temporada em
João Pessoa, o espetáculo foi apresentado em várias
cidades do Estado, notadamente na região sertaneja, como
Patos, Pombal, Catolé do Rocha, Sousa e Cajazeiras. Dos
ensaios até à última apresentação muitos foram os fatos
inusitados acontecidos, que ficaram na memória dos seus
participantes e ainda hoje são lembrados.
Ensaio geral para a
censura da Polícia Federal. Dois censores, um homem e
uma mulher, o espetáculo sendo apresentado e nós
preocupados com o corte de alguns trechos como, por
exemplo, a crítica que era feita ao latifúndio quando um
personagem era obrigado a tomar um litro de óleo de
rícino e proibido de cagar nas terras do seu patrão,
fazendo uma cena onde corria de um lado para o outro,
com as mãos na barriga e gemendo por conta das cólicas,
sempre dizendo “Ô doutorzinho para ter terra, meu
Deus!”. Terminado o ensaio fomos chamados pelos censores
e, como estávamos prevendo, disseram que precisávamos
modificar a citada cena. Foi aí que eu ouvi um incrível
diálogo entre eles e Paulo Pontes, que reproduzo abaixo:
Paulo Pontes - Com o
que é que os senhores não concordam na cena?
Censores - Com a
palavra cagar, quando o patrão diz ao empregado “se
cagar nas minhas terras, morre”. A palavra é obscena e
vai de encontro a moral da família paraibana ou de
qualquer parte.
Paulo Pontes - E os
senhores têm alguma sugestão de modificação?
Censores - Vocês
poderiam mudar para “se fizer serviço nas minhas terras,
morre”.
Paulo Pontes - Mas
“fazer serviço” ninguém vai entender! O personagem era
empregado do fazendeiro, fazer serviços era o que ele
fazia sempre, vai confundir o público, essa peça vai
estrear no Rio de Janeiro... Não poderia ser, por
exemplo, “fazer cocou” ?
Censores - Fazer cocou
é a mesma coisa de cagar! Desse jeito a gente vai ter de
censurar para dezoito anos.
Paulo Pontes - Como,
senhores? Ontem mesmo eu estava na residência desse meu
amigo aqui, Elpídio, e o filho dele que deve ter uns
dois anos, dirigiu-se à mãe e disse: “quero fazer
cocou”! Será que há imoralidade nisso? Por acaso os
senhores nunca ouviram uma criança dizendo isso?!
Os censores pensaram
um pouco e concordaram com “fazer cocou”! Até que ficou
mais engraçada a cena! Paulinho ainda perguntou se havia
mais alguma restrição e apenas a censora achou as saias
das moças um tanto curtas... Politicamente estávamos
salvos!
Para viajar pelo
interior teríamos que antes solicitar à Censura Federal
a liberação do espetáculo, dando um roteiro com os dias,
horas e locais das apresentações. Eles iriam enviar
agentes para fiscalizar se estávamos cagando ou fazendo
cocou. Isso foi feito corretamente por nós. Aconteceu
que um repórter pegou o nosso roteiro para publicação e
na feitura da matéria misturou um pouco as datas.
Resultado: quando nos apresentamos em Patos, a censura
encontrava-se em Catolé do Rocha; a gente em Sousa, ela
em Cajazeiras; a gente em Catolé, ela em Patos e por aí
foi... Quando voltamos eu fui chamado a dar explicações
sobre os desencontros:
- Nós cumprimos
exatamente o roteiro que entregamos aqui na Censura.
- Mas o jornal
publicou diferente...
- Não somos
responsáveis por erros do jornal. Os senhores deviam ter
considerado o documento que assinamos e entregamos aqui.
- Pensamos que vocês
tinham dado um roteiro e iriam fazer outro, o que estava
no jornal.
De todas as cidades
programadas, só não nos apresentamos em Cajazeiras por
total falta de condições auditivas. Entregávamos o
espetáculo às prefeituras ou entidades filantrópicas,
para que elas vendessem os ingresso em benefício de
alguma obra social. Isso fazia o controle do público e
evitava superlotações que poderiam prejudicar o nosso
trabalho. O Prefeito de Cajazeiras achou por bem,
politiqueiramente, dar tudo de graça e convocou o
público através das duas emissoras de rádio da Cidade.
Na hora da apresentação havia três vezes mais público do
lado de fora do auditório do que poderia caber dentro,
querendo entrar a qualquer custo. Quando iniciamos o
espetáculo e Márcia Guedes Pereira apareceu com a tal
saia curta reclamada pela censora, que deixava à mostra
parte das suas belas pernas, o público explodiu em
fiu-fius e gritarias. Os atores e o coral dependiam de
ouvir a música para poder seguir com seu trabalho, mas a
platéia não permitia, tamanho era o barulho feito. Fomos
obrigados a parar e deixar o palco. Paulo Pontes foi até
ao público e explicou a situação, pedindo que, pelo
menos no começo, fizessem um pouco de silêncio para que
os atores pudessem começar a apresentação. Uma nova
tentativa e outra vez o impedimento. Então o Bispo da
Cidade, Dom Rolin, levantou-se e fez um discurso
condenando a falta de educação de parte dos presentes,
lembrando a hospitalidade com que nós deveríamos ser
recebidos, que já havíamos nos apresentado em várias
cidades sem quaisquer problemas e não era possível que
logo em Cajazeiras, que havia ensinado a Paraíba a ler,
acontecessem tanta mal educação. A medida que o Bispo
falava a platéia foi silenciando, chegando ao final do
discurso a um silêncio sepulcral. Então ele sentou-se e
fez sinal para nós de que poderíamos começar. Foi aí, em
meio àquele grande silêncio, que uma voz falou lá de
trás:
- Cala a boca bode
velho...
A platéia veio abaixo
e aqui pra nós, até eu ri! Voltamos para João Pessoa sem
que Cajazeiras visse "Paraí-Bê-A-Bá".
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