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SUCEDIDOS
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MISTURA
DE
PAULOS
Paulo Pontes chega a João Pessoa, para iniciar os
trabalhos da montagem do espetáculo teatral
“PARAÍ-BÊ-A-BÁ”, fruto dos entendimentos que tivemos,
junto com Raimundo Nonato Batista, quando ainda
estávamos no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo foi
realizado também por Paulinho um outro espetáculo, com o
título de "Paraíba Pra Seu Governo", comemorando o
primeiro ano da gestão de João Agripino, que deu todo o
apoio necessário aos dois empreendimentos, através
também de Noaldo Dantas.
Após a conclusão desses
projetos, Paulo Pontes continuou em João Pessoa,
preparando um outro, de reestruturação e renovação da
programação da Rádio Tabajara, a pedido de Noaldo, que
lhe abriu as portas da Secretaria Para Assuntos
Extraordinários para o que precisasse naquela nova
tarefa. Assim passamos a nos encontrar sempre na
Secretaria, instalada no antigo prédio do jornal A
União, no lado que dava para a Praça 1817, palco de
várias manifestações políticas contra a ditadura militar
existente.
Estávamos no gabinete
do jornalista Biu Ramos, que fazia as vezes de
substituto eventual de Noaldo, quando, ouvindo o barulho
de gritos, protestos, tiros, procuramos ver o que estava
acontecendo e nos deparamos com uma nova manifestação
contra o regime militar, envolvendo estudantes,
operários, professores, todos confrontando-se com a
polícia, chamada para acabar com aquele ato público. Foi
quando Paulinho presenciou a polícia batendo no povo,
atirando para cima e ameaçando atirar nas pessoas. De
volta ao gabinete, indignado, pediu a Biu Ramos o
telefone direto do Governador, no que foi atendido.
Ligou, e falando com João Agripino, disse, mais ou
menos, o seguinte:
- Governador! Quem
fala aqui é Paulo Pontes. Acabo de presenciar cenas
indignas de qualquer governo. A sua polícia, Governador,
batendo no povo e ameaçando-o com metralhadoras. Quero
lançar aqui o meu protesto contra essas arbitrariedades
e solicitar as suas providências no sentido de fazer
voltar esses soldados para o quartel. Estou ainda em
João Pessoa trabalhando para o seu governo, fazendo um
trabalho na Secretaria do Dr. Noaldo Dantas, mas a
responsabilidade do que eu disse é só minha. Se o senhor
quiser pode mandar o Secretário cancelar o meu contrato,
mas o meu protesto continua.
João Agripino disse
apenas obrigado ao final do telefonema. Paulinho
continuou o seu trabalho e a polícia também, na rua, a
bater no povo. Terminado o projeto da nova programação
da Tabajara, Noaldo foi ao Governador para conseguir
recursos para a sua implantação e, naturalmente, teve
que citar o nome de Paulo Pontes. Dizem que João
Agripino reclamou:
- Esse rapaz de novo?! Eu já não o nomeei para a direção
do Teatro Santa Roza, depois que ele telefonou
protestando contra o meu Governo! O que é que ele quer
mais?
Paulo Melo era quem
havia sido nomeado Diretor do Teatro Santa Roza, a
pedido de alguns intelectuais da Cidade e, por isso,
andaram dizendo que pegou carona na brabeza de Paulo
Pontes.
47
A
SORTE DO
MINISTRO
Alguns
membros da minha família, do lado dos Navarro,
costumavam dizer que o Ministro
José Américo de Almeida dava azar. E até batiam em
alguma superfície de madeira quando se pronunciava o
nome dele, afirmando que, com aquele gesto, estariam
isolando o perigo de que acontecesse alguma coisa
negativa. Essa prática também vi de outras pessoas que
não eram Navarro, e que sem justificarem-se, apenas
diziam que o nome dava azar. A minha família usava o
episódio da morte de Antenor Navarro como razão: ele,
campeão de natação, moço, ágil, morreu afogado no mesmo
desastre de aviação - o avião caiu no mar - no qual
José Américo, que não sabia nadar, mais velho, com
problemas de visão e uma perna quebrada, conseguira
sobreviver agarrando-se a um pedaço da aeronave.
Particularmente, nunca
acreditei nessa superstição. Mantinha um bom
relacionamento com o Ministro, freqüentava vez em quando
a sua residência em visitas de cortesia ou em busca de
apoio para algum interesse pessoal. Tomei do seu uísque,
regrado, pois no momento em que Gonzaga Rodrigues, Biu
Ramos, Altimar Pimentel, Paulo Melo ou eu mesmo, já
houvéssemos tomado mais de uma dose, ele não esperava
muito tempo para anunciar: "Lourdinha, recolha essa
garrafa de uísque. Os meninos já beberam demais!"
Acho que, ao
contrário, ele sempre me deu sorte! Todas as vezes que
precisei dele fui prontamente atendido. Até num caso
estritamente pessoal, como foram as declarações que
assinou responsabilizando-se por mim e por Marileide
Araújo ( na época casada comigo e por isso Navarro
também), que foram juntadas a um processo que
respondíamos juntos no Quarto Exército em Recife,
acusados de subversivos políticos pelos caçadores de
bruxas da última ditadura militar brasileira. Não seria
nem preciso dizer que fomos absolvidos!
No Governo do
Professor Ivan Bichara Sobreira, era eu o candidato
natural a diretor do Teatro Santa Roza, com o apoio de
vários artistas e intelectuais meus amigos. Como ainda
era um governador nomeado, as restrições continuavam às
pessoas delatadas aos órgãos de (in) segurança do
Governo Federal. O assunto foi levado ao Ministro, que
convocou o Deputado Antônio Nominando Diniz e lhe deu a
seguinte missão: "Vá com Navarro procurar Adolfo e diga
a ele que resolva a situação. Eu quero ele na direção do
Teatro Santa Roza." O Coronel Adolfo Maia, então
Secretário da Segurança e Comandante da Polícia Militar,
nos recebeu muito bem, prometendo que iria ao Grupamento
de Engenharia e se nada houvesse contra mim depois de
1968, tudo estaria resolvido. Posteriormente informou-me
estar tudo resolvido, apenas que as denúncias anteriores
não seriam canceladas, ficariam arquivadas. Foi assim
que cheguei à direção do Teatro Santa Roza. Foi aí que
tive a sensação de ter entrado para a história da
Esquerda Brasileira: depois de ter sido excedente da
quota de comunistas do Governo Ernani Sátiro,
participei da quota de comunistas do Governo Ivan
Bichara!
Hoje, com tanta coisa
ruim me acontecendo, acho que a sorte me abandonou. E
pensando bem, ela começou a ir embora com a morte do
Ministro. Que azar!
48
A
TRANQÜILIDADE
DE
IVAN BICHARA
O
Secretário da Educação e Cultura, Tarcísio Burity,
fanático por música clássica, reformulou a Orquestra
Sinfônica da Paraíba em convênio com a UFPb, logo no
início do Governo Ivan Bichara, dando-lhe condições de
funcionamento. Um concerto foi marcado para o Teatro
Santa Roza, sob a regência do maestro Eleazar de
Carvalho. No dia do acontecimento a ameaça de chuva era
constante e na hora do concerto choveu forte.
No palco muitos
músicos e Eleazar de Carvalho. Na platéia, o Governador,
o Secretário e um pequeno público, por conta da chuva.
Bem não havia começado a primeira parte do programa, um
pingo d'água começou a cair em cima das partituras do
maestro, que as deslocava de um lado para o outro,
tentando evitar a incômoda goteira. Não bastasse esse
vexame, eis que surge um morcego dando vôos rasantes por
cima do maestro, o que o estava deixando visivelmente
irritado.
Rezei para que tudo
aquilo terminasse logo, pois como o novo Diretor do
Teatro eu não sabia ainda como justificar as
deficiências apresentadas. Por outro lado, a coreografia
que o morcego fazia, já estava causando o riso de alguns
espectadores menos avisados, o que, certamente, iria
aumentar a minha responsabilidade para com a situação.
Terminado o concerto,
fiquei esperando as reclamações. Não demorou muito até
alguém me informar que o Governador queria falar
comigo. É agora, pensei. E fui enfrentar a "fera":
- O senhor me chamou,
Governador?
- Você é Elpídio, o
Diretor ?
- Sim...
- Muito prazer! Tudo
bem, como está você?
- Mais ou menos...
Tentando resolver...
Eu estava era todo
enrolado. Não sabia como continuar aquela conversa, como
explicar a situação. Acho que o Governador percebeu a
minha intranqüilidade. Chamou-me à parte e perguntou:
- Elpídio, o que é que
se pode fazer para acabar com esses morcegos?
- Derrubar os
oitizeiros existentes aí na Praça Pedro Américo! Os
morcegos se alimentam do fruto deles...
Claro que era uma
solução simplória, própria de quem não tinha
conhecimento de outras soluções, porém a única que me
surgiu no momento. O Governador riu, e ainda mantendo a
mesma calma inicial, falou-me:
- É, assim é difícil!
Mas faça o seguinte: peça ao Secretário para que sejam
providenciados reparos no telhado do teatro. Quanto aos
morcegos, veja se você consegue descobrir uma outra
solução.
Educadamente me deu boa-noite e tranqüilamente
retirou-se, deixando-me com aquela sensação de ter lhe
proporcionado uma patente demonstração de
incompetência.
49
FESTIVAL DE ARTE
DE
AREIA
Durante
quatro anos consecutivos, de 1976 a 1979, a cidade de
Areia, no brejo paraibano, foi cenário do evento
cultural mais significativo de todos os que foram
realizados naquela década no País: o seu Festival de
Arte. Eles aconteceram exatamente quando o Brasil
passava pela mais violenta truculência, censura e
terror impostos por uma ditadura militar, que nunca
escondeu o seu medo e a sua reação castradora ao livre
pensamento e às ações intelectuais e artísticas
brasileiras. Embora o Festival tenha continuado após
1979, posso referir-me apenas aos quatro primeiros, pois
só deles participei.
A escolha da cidade de
Areia para sede de um festival de arte não só deveu-se à
sua tradição cultural e berço de personalidades como
Pedro Américo, Aurélio de Figueiredo, Álvaro Machado,
Coelho Lisboa e José Américo de Almeida, mas também à
sua condição de poder proporcionar espaços para a
realização do evento, como a Escola de Agronomia do
Nordeste, o Colégio Santa Rita e o Teatro Minerva (o
primeiro construído na Paraíba) e oferecer um "clima
europeu em pleno verão tropical".
Os festivais abrigaram,
nos seus diversos espaços, os nomes mais expressivos da
cultura nacional da época, como Antônio Callado, Nélida
Pinon, Ivan Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Mário
Pedrosa, Aloísio Magalhães, Ferreira Gullar, Fernando
Peixoto, Luiz Mendonça, Paulo Pontes, Nelson Xavier,
Gianfrancesco Guarnieri, Ziraldo, Dias Gomes, Marlos
Nobre, Aylton Escobar, Guerra Peixe, John Neschling,
Muniz Sodré, Moacy Cirne, João Câmara, Maurício Kubrusly,
Luiz Paulo Horta, Sérgio Cabral, Walter Lima Júnior,
Leon Hirszmann, Guido Araújo, Alex Viany, Eduardo
Coutinho, José Wilker, Jackson Ribeiro, Clyde Morgan,
Herder Parente, Wladimir Carvalho, Rui Guerra, Marcus
Vinicius de Andrade, Henfil, Pedro Santos, Flávio
Tavares, Arlindo Teixeira, Linduarte Noronha, Hermano
José, Altimar Pimentel, Luiz Augusto Crispim, Elizabeth
Marinheiro, Raul Córdula, Yara Rosas, Paulo Melo,
Alberto Kaplan, Laís Aderne, Neide Mendonça , Maria de
Lourdes Ramalho, Breno Mattos e mais um bocado de gente
importante que participou e que durante aqueles quatro
anos, reunidos numa ilha de liberdade de expressão no
Brasil, como chegou a ser denominada a cidade de Areia
pela imprensa nacional, puderam debater, analisar e até
protestar contra a situação em que se encontravam as
artes, a literatura e o jornalismo brasileiros, mesmo
informados e alertados para a infiltração entre os
participantes, de agentes da repressão oficial.
Esses Festivais
tiveram homenageados especiais como José Américo de
Almeida, no primeiro e que compareceu à sua abertura;
Paulo Pontes no segundo, infelizmente já falecido quando
homenageado; no terceiro a homenagem foi para o romance
A Bagaceira, o que resultou numa repetição de homenagem
ao seu autor e o quarto ao crítico literário Virginius
da Gama e Melo, também na época já falecido. Por tudo
isso, a história dos quatro primeiros Festivais de Arte
realizados na cidade de Areia é parte importante da vida
cultural do País e merece ser lembrada e divulgada. Mas
essa é outra história. Aqui pretendo narrar tão somente
os momentos de descontração, os acontecimentos
engraçados e as curiosidades acontecidas naqueles dias
de tanta seriedade.
Como diretor executivo
recebia, todos os dias, reclamações as mais
estapafúrdias que se possa imaginar. Lembro de uma que
era um primor de reclamação: "a minha toalha de banho eu
esqueci no banheiro e ela desapareceu; era uma toalha de
estimação, de veludo..." Geise Helena, amada e amiga,
estava comigo na ocasião e não deixou que eu
respondesse: "Oi! Toalha de estimação não se usa;
toalha de veludo não enxuga!"
Um grupo se reunia
após os trabalhos, sempre num bar, para um animado papo
acompanhado de bebidas e comidas, para desopilar,
comentar, analisar e até fofocar sobre o festival. Era
basicamente formado por Pedro Santos, Fernando Peixoto,
Marcus Vinícius de Andrade, Yara Rosas, Paulo Melo,
Mariza Melo, Altimar Pimentel, eu e meu filho Luiz
Maurício. A esses encontros o consenso denominou-os de
pesquisas. Então, após o trabalho a pergunta era: "tem
pesquisa hoje?" Numa dessas pesquisas, por falta de
outro assunto, alguém propôs uma disputa para ver quem
contava a piada mais sem graça. Foram tantas tão sem
graça que, a princípio, se achava graça por elas não
terem graça e depois ninguém achava mais graça! Mas
chegou a vez de Altimar Pimentel contar a dele e foi
logo avisando:
- Eu sei de uma que eu
acho engraçada, mas muita gente não achou quando eu
contei, por isso acredito que ela possa concorrer. É
sobre uma apresentação de um "Bumba Meu Boi" lá em
Cabedelo. A brincadeira estava acontecendo no terreiro
de uma casa, com a presença de autoridades locais,
inclusive o delegado de polícia. Um cara lá que não
gostava do dono da casa, chamou o Mateus, que é um
personagem que improvisa e ofereceu cem mil reis e uma
garrafa de cachaça, para que ele na sua improvisação,
esculhambasse o dono da casa. O Mateus aceitou a parada
e na hora que o boi vai ressuscitar, saiu-se com essa:
"Levanta-te boi sacana, balança os culhões e vem. O dono
da casa é corno e o delegado também..." O pau cantou e
acabou a brincadeira.
Todos riram bastante, principalmente Fernando Peixoto,
que quase não parava de achar graça na piada e, por
conta disso, pegou o apelido de Boi Sacana, pelo
qual atende até hoje!
Os convidados especiais, professores e organizadores dos
Festivais se hospedavam no Colégio Santa Rita, em
apartamentos coletivos e individuais. Lembro que num dos
maiores apartamentos, fiquei junto com Marcus Vinícius
de Andrade, Fernando Peixoto e Ruy Guerra. O quadro era
incrível: Ruy passava a maior parte da noite lendo e
fumando um charuto; Fernando Peixoto conversando com
ele; Marcus roncando e de vez em quando acordando com o
barulho do seu próprio ronco e, finalmente, eu, sem
conseguir dormir. Para completar, no apartamento vizinho
estavam Raul Córdula e Breno Mattos, de onde se ouvia um
roncado, seguido do ruído de uma rede balançando.
Perguntei a Raul quem estava dormindo de rede no
apartamento dele, ao que me respondeu que ninguém, pois
lá não havia rede alguma.. À noite, outra vez o ruído da
rede. Então não me contive: subi numa mesinha e fui
olhar por cima da parede divisória, constatando que não
se tratava de uma rede e sim do rangido de dentes de
Raul Córdula.
Pedro Santos estava num outro apartamento, cujas janelas
abriam para o pátio interno do Colégio. Numa das noites,
por insônia, Pedro ficou debruçado na janela durante um
bocado de tempo. Foi quando ouviu um curioso diálogo
entre duas jovens em fase de iniciação homossexual:
- Faça isso não que eu
não gosto...
- Ninguém tá vendo
não!
- Meu peito tá doendo!
- Pegue no meu também...
- Pode chegar
alguém... Pare! Eu não gosto não...
- Então eu vou embora.
- Não, vá não! Fique
aqui comigo...
- Então vamos
aproveitar! Faça em mim também...
- Ai, ai... Pare! Eu
não agüento mais... Eu não gosto dessas coisas não...
- Então pare de fazer
em mim!
- Não posso! Venha,
faça... Ai, ai, pare que eu não quero não...
Foi quando Pedro
interveio gritando de cima:
- Gozem logo de uma
vez ou acabem com essa frescura que eu quero dormir!
As duas correram
assustadas para o dormitório das alunas dos diversos
cursos que havia no Colégio, sem se deixarem
identificar. A insônia de Pedro Santos só fez aumentar.
Uma determinada
professora convidada, dormia sozinha num dos
apartamentos. À noite se ouviam sons denunciadores de
que havia mais alguém com ela. Ninguém conseguia
descobrir quem era. A curiosidade cresceu,
principalmente dentro do grupo feminino, que queria
saber quem estava ferrando a tal moça. Como o corredor
entre os apartamentos não era bem iluminado, alguém teve
a idéia de colocar, a cada noite, talco no chão da
porta de um apartamento masculino. Não precisou ir muito
longe, porque logo na primeira noite o fantasma, sem
perceber, deixou seu rastro até ao local dos gemidos e
seu nome foi revelado.
Mas deixando essas sadias safadezas de lado,
porque num lugar onde se juntam homens e mulheres o
diabo fica no meio e, por isso, tornava-se tudo natural,
também tivemos momentos sérios e, ao
mesmo tempo engraçados, durante esses quatro anos. Um
deles foi na abertura do IV Festival. O orador oficial
era o internacional crítico de artes, o pernambucano Mário Pedrosa, já de elevada
idade, denunciada pela totalidade de seus cabelos
brancos. Na mesa, Governador, Prefeito, Secretário da
Educação e Cultura, representantes de Ministérios,
Universidade, Embrafilme, Institutos e o Padre Rui
Vieira, Pároco de Areia, a maior parte dessa gente
colocada naqueles postos pela ditadura militar de 64 ou
aliados dela. Em dado momento de seu discurso, Mário
Pedrosa, em meio à atenção geral, soltou essa beleza de
frase intranqüilizadora:
- Porque nós,
comunistas, temos a responsabilidade...
Ninguém deixou de
perceber os semblantes dos ocupantes da mesa oficial:
pálidos, sérios e provocando hilaridade.
50
DE
MOTEL, MULHER
E
FEIRA
Fui
acordando devagarzinho como se estivesse saindo de um
processo anestesiante. Crescia a sensação de que havia
alguma coisa errada que eu não sabia ainda o que era. De
repente, o clarão do sol invadindo o quarto pelos
vidros da janela e o acordar para a realidade: havia
pegado no sono num quarto de motel!
Pulei da cama
apavorado, acordei a namorada, exigindo que se
aprontasse rapidamente que eu precisava ir embora. Ela,
displicentemente, virou-se para outro lado:
- Eu não tenho
problema de hora para chegar em casa...
- Mas eu tenho! Hoje é
sábado, tem a feira...
- Então vá pra feira!
- Vou embora e deixo
você sozinha aqui!
Diante da ameaça ela
resolveu me atender. Já no carro, dirigindo-me para a
casa de uma tia da namorada, onde ela se hospedava
quando vinha para João Pessoa, um grande problema
afligia-me: o que explicar à mulher quando chegasse em
casa? Para a jovem não havia nada demais, pois ela
morava em Campina Grande e a tia era uma coroa
alcoviteira. Mas comigo nunca havia acontecido uma
situação daquela. E a sacana ainda veio fazer piada
comigo ao ver a minha aflição: "então vá pra feira!"
Seis e meia da
matina, uma fria despedida e o aborrecimento pela falta
de solidariedade daquela minha companheira de farra
braba e irresponsável. E a piadinha não saía do meu
juízo: "então vá pra feira!" Espere! Pensei um pouco.
Não será que ela é quem tem razão? Mulher sempre tem!
Disse comigo: eu vou é pra feira! Não adianta nada ir
pra casa agora, a merda já está feita mesmo! E não
pensei outra vez.
Fiz uma feira
exagerada, principalmente com as coisas que satisfaziam
à mulher e aos filhos. Claro que por conta de um baita
sentimento de culpa! Terminadas as compras, carro
lotado, restava-me a pior parte dessa melódia: o que
dizer quando chegar em casa? Não adiantava protelar,
pois isso só iria piorar a situação. Por outro lado,
àquela altura, com o carro cheio de feira, eu já não
podia pensar noutra saída. Fui à luta! Guerra é guerra!
No caminho para casa
fui pensando em outras dificuldades que eu havia me
metido e nas soluções dadas. Não sei por que cargas
d'água me veio a lembrança da minha infância na Rua da
República, quando eu tive de enfrentar Toínho Baiôco
(Antônio Costa, hoje falecido coronel reformado da Polícia
Militar e meu amigo) numa briga na esquina do Cinema Astória. Toinho era mais experiente e mais forte. Se
aceitasse o desafio, certamente iria apanhar. Se não
aceitasse seria considerado medroso. Foi então que um
outro amigo, Daniel Braz, incentivou:
- Chega logo dando o
primeiro murro. Tu levas vantagem! Depois tu podes levar
um também, mas já deste o primeiro... E até não levar
nenhum, alguém pode apartar a briga!
E foi o que aconteceu:
o fator surpresa deixou Toínho, por algum tempo,
desnorteado e quando recuperou-se e partiu pra cima de
mim, já alguém acudiu e parou a briga. Restaram-me as
ameaças de que me pegaria noutra ocasião, o que não
aconteceu porque ficou meu amigo.
Sete e meia abro o
portão do jardim, entro com o carro e começo a buzinar
com insistência. A mulher aparece ainda com cara de sono
e vem abrir a grade do terraço, reclamando das buzinadas
e perguntando:
- Chegando a essa
hora?!
- Da feira!
Gritei, demonstrando
estar aborrecido. E continuei o meu discurso, sem lhe dá
oportunidade de falar:
- E na próxima semana
quem vai é você! Eu não agüento mais fazer tudo sozinho
nessa casa! Estou cansado... Desde cinco horas da manhã
que estou dando duro nessa feira! Tenho que ir cedo
para poder escolher melhor! E os preços? Com essa
carestia a gente precisa procurar muito onde é mais
barato. E isso enche o saco, eu já estou de saco cheio,
chame logo a empregada para ajudar a descarregar o carro
que eu preciso ir ao banheiro, estou me cagando!...
- Calma! Não precisa
se afobar! Lembre-se que é você quem faz questão de ir
pra feira!
- Porque você não
acorda cedo e quando chega lá já não tem mais nada que
preste! Acorde cedo uma vez!
- Tudo bem! Não
precisa mais de discussão. Vá cuidar da sua barriga que
eu guardo a feira...
E ficou o acontecido
pelo não acontecido, o dito pelo não dito e o assunto
foi esquecido. Eu havia dado o primeiro murro!
51
CARAVANA
ARTÍSTICA
O
Governo do Professor Ivan Bichara, que tinha como
Secretário da Educação e Cultura um outro professor,
depois também Governador, Tarcísio Burity, e ainda Paulo
Melo como Diretor Geral de Cultura, foi um período de
ouro para as artes paraibanas. O trio não media
esforços para promover os nossos artistas dentro e fora
da Paraíba. Aconteceram importantes eventos, como o
Festival de Arte de Areia, o Festival Internacional de
Violoncelo e a recuperação e crescimento da Orquestra
Sinfônica da Paraíba, entre muitos outros. Um deles
marcou época pela sua originalidade e pela abrangência
da sua ação divulgadora do fazer artístico-cultural
paraibano. Foi a Caravana Artística da Paraíba, projeto
originado de uma idéia do Maestro Pedro Santos e que
levou às cidades de Fortaleza, Teresina, São Luís,
Belém e Manaus os nossos teatro, cinema, canto coral,
escultura, pintura, literatura e folclore. De ônibus até
Belém e de lá até Manaus de avião, os artistas
paraibanos divulgam os seus trabalhos, muito bem
recebidos por todos os públicos das capitais visitadas,
no período de 27 de agosto à 10 de setembro de 1976.
Uma das maiores
emoções que eu já senti aconteceu em São Luís do
Maranhão, na tarde do dia dois de setembro. Era o meu
aniversário e já passava do meio dia sem que ninguém
fizesse qualquer alusão ao fato. A maioria do grupo não
sabia mas algumas pessoas mais aproximadas, sim. Pedro
Santos e Mirócene Amorim sabiam e bastavam eles dois
para a notícia se espalhar. Mas nem eles falaram comigo!
A minha decepção foi crescendo à medida que se
aproximava a hora de reunir o grupo todo para dirigir-se
ao teatro, onde teríamos estréia naquela noite. Seis
horas da noite e nada! Mas o que fazer? O jeito era
começar a convocar o pessoal para o trabalho e assim foi
feito. O grupo foi chegando pouco a pouco e se juntando
para ouvir as últimas recomendações, pensava eu, quando
de repente, sob a batuta de Pedro Santos, o Madrigal
Paraíba começou a cantar uma canção dessas de feliz
aniversário e eu, sem saber como reagir, perplexo e
abestalhado, fui salvo por Mirócene que entrou em cena
trazendo um improvisado bolo com velinha e tudo, além
de uma dose de gin com água tônica, me descontraindo e,
é bem possível, evitando que eu chorasse de emoção.
Após quinze dias de
trabalho ininterrupto, os trinta e seis membros da
Caravana foram gratificados com a estada de cinco dias
livres em Manaus, para usá-los como bem entendessem.
O Coronel do Exército
José dos Passos Fernandes de Carvalho, servindo no
Colégio Militar em Manaus, assumiu a condição de bom
anfitrião e nos convidou, a mim, Breno Mattos e sua
prima Anunciada Fernandes, para um passeio pelo rio na
sua lancha. Fomos Breno, eu e Zé dos Passos, todos
trajando bermudas e calções, roupas de banho, enquanto
Anunciada se apresentou de saia rodada, blusa, sapatos
de salto alto, pulseiras, colares, penteado feito e
maquiagem. Nada poderia ser mais contrastante! Mesmo
assim, foi! E lá pras tantas, bem no meio do Rio Negro,
avistamos um barco bem maior, onde encontrava-se, também
passeando, outra parte do grupo. Anunciada apressou-se
em manifestar desejo de passar para aquele outro barco e
foi aí que aconteceu o grande vexame: a nossa lancha era
baixinha enquanto o outro barco era bastante alto e,
assim, teve Anunciada que subir por uma escada, meio
atrapalhada com o salto alto e incomodada com o vento
que levantava a sua saia generosamente, enquanto nós,
humildes observadores, aguardávamos, em baixo, o
desfecho do transbordo. Consciente de que não poderia,
ao mesmo tempo, segurar a saia e subir a escada do
barco, virou-se para o primo e sentenciou:
- Zé, mande todo mundo
fechar o olhos! E você também!...
O passeio continuou sem
Anunciada. Depois de presenciarmos de pertinho o
encontro das águas dos Rios Solimões e Negro, Zé dos
Passos nos levou a um igarapé onde havia um bar
flutuante, contornado por terraços, e dentro do salão
uma mesa de sinuca , um balcão, prateleiras com bebidas,
onde predominavam muitas garrafas de aguardente
Caranguejo, fabricada em Campina Grande, na Paraíba.
Ocupamos um mesa num dos terraços e usamos o nosso
tempo para pescar e conversar, regados à aguardente com
o único tira gosto existente no momento: charque.
Entramos tarde a dentro naquela animação de pescaria,
para mim um tanto estranha, pois os peixes embora
tivessem cores diferentes, tinham o mesmo formato: todos
eram bagres, pelo menos no jeitão! Entardeceu e o dono
do bar começou a fechar as janelas do salão, dando-me a
idéia de que era hora de batermos em retirada. Chamei a
atenção para o fato, mas Zé dos Passos disse que as
janelas estavam sendo fechadas porque estava chegando a
hora da carapanã. Como eu não sabia do que se tratava
imaginei que carapanã seria uma espécie de crença
religiosa ou coisa que o valha e, para não passar por
ignorante, fiz de conta ter conhecimento do assunto. Não
demorou muito até eu levar a maior surra de muriçocas
gigantes de toda a minha vida. Todo encaroçado pedi
ajuda ao dono do bar sob gozação de Breno e Zé dos
Passos, que nada estavam sentindo com as picadas do tal
inseto, diferentes de mim, altamente alérgico. Passada a
tal hora, voltamos para o alojamento onde estávamos
hospedados e chegamos depois de oito paradas em bares
pelo caminho, para tomar a saideira! Breno fez
questão, sob nossos protestos, de levar para o
dormitório a enfieira de peixes, pois queria
mostrar o resultado da pescaria aos companheiros.
Ninguém encontrava-se lá! Com aqueles peixes, sem poder
tratar ou guardar, saiu correndo pelo meio da rua em
busca de Zé dos Passos para devolver-lhe o troféu...
No dia seguinte foi
organizado um passeio a um balneário denominado de
"Ponte do Boliva", onde havia um banho e um restaurante
que servia um delicioso tucunaré, preparado num molho
especial. Cheguei um pouco atrasado e logo ao meu
encontro veio Ednaldo do Egipto, avisando-me
confidencialmente:
- Cuidado! O pessoal
lá no restaurante está exagerando! Já vão na quarta
travessa de peixe, que, pelo tamanho, deve ser caro e
quem entrar ali vai ter que dividir a conta! Quando eu
vi a situação, nem me aproximei, fiquei de fora!
- Ora, Ednaldo, eu vou
lá e não participo. Não sou obrigado! Mas eu tenho que
ir lá, são meus amigos... Você procurou saber o preço?
- Não, mas pelo jeito
não é barato! Eles estão pedindo sem perguntar preço!...
- Está bem, eu vou lá
saber, e se for como você diz, vou alertá-los...
- Isso! Depois você me
conta.
Entrei, falei com todo
mundo, experimentei o peixe, estava uma delícia, fui até
ao balcão e perguntei o preço. Comecei a rir: era
ínfimo! O equivalente hoje a uns dois ou três reais.
Pedi que aprontassem um outro peixe daqueles e fui
sentar-me à mesa com os companheiros, sob os distantes e
curiosos olhares de Ednaldo, que não parava de esticar o
pescoço em nossa direção! Fartos, resolvemos parar a
comilança e pagar a conta. Tudo foi feito com Ednaldo
distante, talvez pensando: “agora vão se lascar!”
Saí ao seu encontro e
ele foi logo adivinhando o que teria acontecido:
- Deu bem uns
cinqüenta pra cada um, heim!
Informei-lhe os
valores , ele não acreditou e resolveu ir até ao
restaurante e certificar-se. Diante da constatação,
sentou-se à uma mesa e pediu três peixes de uma vez!
Mas nem todas as
lembranças da Caravana são maravilhosas. A companheira
Marinete Lelis de Almeida após as nossas apresentações
em Manaus precisava urgentemente retornar a João Pessoa,
pois estava com uma cirurgia marcada para antes da volta
de todo o grupo. Nos desdobramos, eu e um irmão de Pedro
Santos que morava lá em Manaus, para conseguir uma vaga
num avião que a trouxesse de volta dentro do prazo
desejado. Conseguimos! Marinete nos agradeceu com tanta
felicidade que nos deixou também bastante felizes por
ter podido ajudá-la. Quando chegamos de volta e que o
ônibus parou em frente ao Teatro Santa Roza, a primeira
notícia que tivemos foi a do falecimento de Marinete,
vítima de hemorragia durante uma cirurgia plástica...
52
VINGANÇA
(I)
O
telefone tocou no momento em que, no televisor,
apareciam as previsões zodiacais para a semana que se
iniciaria no dia seguinte. Não ouvi logo o som da
campainha. Não que as coisas do horóscopo me fossem, de
alguma forma, importantes. Apenas, como distração,
esperava curioso o que os astros haviam me reservado
para os próximos dias. Por isso, atendi ao chamado sem
arredar a atenção da imagem que representava o signo
Virgem e daquela voz misteriosa que já começava a
decretar a minha sorte nos negócios, na saúde, nas
viagens e, principalmente, no amor! Por isso tudo,
atendi ao telefone de forma apressada, como quem quer se
livrar de um incômodo:
- Pronto? Quem é? Quer
falar com quem?
- Que é isso,
professor?! Não precisa afobação! Calma! Se não puder
atender, tudo bem, eu ligo outra hora...
Uma voz feminina
desconhecida, mas de uma pessoa que eu deveria conhecer
ou, pelo menos, deveria me conhecer, pois tratou-me por
professor. E a voz insistiu:
- Alô! Alô!...
- Sim?
- O que houve?
- Nada... Por que?
-Você
calou-se! Você é sempre assim, no trato com as pessoas?
- Olha, você me
desculpe... Eu não queria ser indelicado. Apenas eu
estava distraído, vendo o jornal na televisão... Mas
diga, é comigo mesmo que você quer falar?
- Sim, é com você.
- O que é que manda?
- Foi o que você
escreveu no jornal "O Momento". Aquele recado... Eu li e
achei muito bacana! Depois reli como se o recado fosse
para mim. Por algum tempo eu fiquei tão feliz!...
- Obrigado! Pelo
menos a uma pessoa eu já dei felicidade!
- Mas ela também deve
estar se sentindo feliz. Ela deve ser uma pessoa muito
bacana também, não é?
- Ela, quem?!
Senti-me surpreendido
no mais íntimo dos meus segredos. Lembrei-me de indagar:
- Quem está falando?
- Isso não importa!
- Importa, sim.
Também não entendi essa coisa de ela se sentindo feliz,
ela ser bacana... Ela, quem?
- Ora!... Não me venha
dizer que você escreveu aquilo simplesmente por
escrever. Essa, não! O que você escreveu tem um endereço
certo, que, infelizmente, não é o meu...
A resposta me chegou
com o sabor de uma acusação ou, mais ainda, de uma
sentença. Intrigado com as minhas próprias reações e,
por outro lado, querendo saber até onde iam as
convicções da iniciadora daquele papo maluco, procurei
prolongá-lo, atacando de frente:
- Muito bem! Já valeu
o trote. Reconheço que você me pegou direitinho! Agora
diga quem está falando.
- Não é nada disso!
Você está enganado! Não existe nenhum trote, palavra!
Disse a verdade!
- Certo, certo... Mas
brincadeira tem hora e limite.
- Você não entendeu
nada! Não entendeu a minha intenção. Eu não queria te
chatear, mas se isso está acontecendo...
- Não! Claro, que não!
Desculpe-me. Só estou curioso.
- A tua curiosidade
não adianta. Você não sabe quem sou eu e nunca me viu.
Eu também não te conheço e nunca te vi. Somente li o que
você escreveu no jornal, aquele recado, e procurei o teu
número na lista telefônica para dizer o que já disse.
Simples! Nenhum mistério, nenhum trote!
- Na lista telefônica
não tem meu nome!
- Mas tem o da sua
esposa. -
- Mesmo que seja
verdade o que você diz, é difícil admitir...
- Não procure explicações para minha atitude. Receba
tudo como sinceros elogios de uma romântica admiradora
secreta. Isso basta.
- É!... Pelo visto só
me resta agradecer, sensibilizado, o seu interesse pelos
meus escritos. Quem sabe, se a gente se conhecesse, se a
gente se encontrasse... Poderíamos ser amigos, eu
poderia escrever...
- Para mim? Não! Não
precisa querer ser bonzinho comigo só por causa dos
elogios. O mais importante foi dizer o que eu disse e
você ter ouvido. Não quero nada em troca. Bastou-me
poder dizer que achei bonito o recado, sublime, tudo!
Sabe? Ela é uma mulher de sorte. Ela deve ser muito
importante para você, não é?
- Isso é verdade.
- Claro! Não se escreve
aquilo tudo para uma pessoa sem importância... Ela
também te ama?
- É possível...
- Perfeito! E o que é
que está faltando?
- Como faltando?
- Por quê os
disfarçados recados numa coluna de jornal?
- Ah, isso é coisa
nossa. Eu também digo a ela pessoalmente, o que não me
impede que escreva. Acho bom assim, sinto-me bem... Há
poucos instantes você disse que era bonito, sublime, e
pareceu-me ser uma mulher romântica...
- E sou!
- Então? Não acha romântico o que faço?
- Acho. Acho mesmo!
Você tem razão. Hoje é tão difícil encontrar pessoas
românticas como a gente. Existe tanta coisa ruim
acontecendo. Olha, eu vou te confessar umas preocupações
que trago comigo, porque você não me conhece, nunca vai
saber quem eu sou...
Deixei que ela se
abrisse completamente, sem mais interromper. Fiquei
sabendo alguns dos seus íntimos segredos. Era uma mulher
preocupada com o passar do tempo que lhe fora dado para
viver, pois, a cada momento passado, sabia tornar-se
mais difícil encontrar o que buscava; adorava viver e a
sua vida não era lá grande coisa, mesmo possuindo tudo
que uma mulher comum pudesse desejar; o marido lhe dava
tudo, menos ele mesmo; existiam outras mulheres com quem
ele dividia o seu carinho e ela era muito possessiva;
que mesmo a natureza não tendo sido muito generosa com
ela, não era uma mulher feia; carregava consigo alguns
complexos, pois nunca tinha sido alvo de galanteios
mal-intencionados, nunca levara uma cantada na rua e
sempre passava despercebida por onde andava, mesmo
quando usava roupas alegres ou avançadas , dessas que
chamam a atenção dos homens. Isso lhe fazia pensar:
- O erro só pode estar
em mim, na minha cabeça. Nunca tive coragem de enfrentar
meus problemas... Minha família é ignorante, sempre
ficando do lado do meu marido nas minhas brigas com ele.
Meu pai diz que em homem nada pega, que eu tenho todo o
conforto que uma mulher pode desejar, que não me falta
nada, essas coisas. Não vou a um cinema, não vou a um
teatro, a uma exposição de pintura que para ele é uma
coisa chata, não vou a um concerto porque ele diz que dá
sono! Aí eu me dano com a minha passividade!
Confessou ainda que até
àquele momento havia se acomodado, sem reagir, mas que
aquele telefonema representava o primeiro passo para
transformar a sua existência. Mais revelações iriam
surgir, quando ela apressou-se em anunciar:
- Vou desligar. Ele
está chegando com uns amigos. Na certa vão encher a cara
aqui em casa. Como eu não bebo, sobra pra mim o abuso e
a sujeira. Ele diz que mulher não deve tomar bebidas
alcoólicas, que isso é negócio de homem... Qualquer dia
desses sou capaz de emborcar uma garrafa cheia na boca e
depois armar um escândalo!
- Quando você quiser
vingar-se de seu marido, estou às suas ordens. Quero ser
seu amigo e amigo é para essas coisas mesmo!
- Dá certo não. Não
tenho peito para isso! Você me ajuda se continuar
escrevendo aquelas coisas apaixonantes. Escreve mais,
tá? E deixa eu pensar que é para mim. Eu vou me sentir
bem, porque essa é a única forma que eu encontro de me
vingar, de revidar a infidelidade conjugal dele.
Sem
mesmo um simples até logo, a ligação foi cortada. No
televisor a imagem de peixes e o conselho final do
horóscopo para o signo da mulher com quem eu estava
casado: "Não tome atitudes precipitadas..."
(II)
Durante algum tempo
fiquei, não nego, impressionado com o que havia
acontecido. Cheguei a discutir com algumas pessoas
amigas, todas achando que a minha história estava mais
para um trote do que para outra coisa qualquer. O tempo
foi passando e tudo aquilo caiu no esquecimento. Eu
escrevia a coluna "Palco & Platéia" para o jornal "O
Momento", onde noticiava e comentava acontecimentos
artísticos e culturais. Ao final da coluna eu sempre
mandava um recado para alguém sobre os assuntos mais
diversos, algumas vezes recados românticos para uma
paixão secreta que existia. Numa determinada semana
vi-me sem assunto para mandar o meu recado e lembrei-me
da mulher do telefonema. Não contei conversa: "Para
você, sofredora anônima, mulher submissa que vive
sufocada dentro dessa sua confortável casa e que prefere
mil vezes a liberdade de um casebre pobre num bairro
afastado, vai hoje o meu recado. Recado cheio de
esperanças de que tenha tomado um pouco mais de coragem
e tenha mudado um pouquinho de nada, essa sua vida, que
me confessou ser infeliz."
Foi tiro e queda! Na
mesma hora da outra vez, tocou o telefone. Tirei do
gancho mas não falei. Primeiro esperei que alguém
falasse, com medo de uma decepção. Mas não houve. A voz
era a mesma:
- Alô! Alô!
- Eu tinha certeza que
você iria ligar.
- Convencido, heim?!
- Não. Esperançoso!
- Claro que eu iria
ligar. O recado não foi para mim? O recado foi uma prova
de que você não me esqueceu, que estava com vontade de
falar comigo. Por isso tudo, liguei!
- Só por isso?
- E o que é que você
quer mais? Que eu esteja apaixonada por você? Eu nem lhe
vi ainda!
- Esse "ainda"
representa uma possibilidade?
- Pode ser... Depende
mais de você.
- De mim? Mas, como?!
- Descubra quem sou eu.
Descubra-me! Aí você estaria provando interessar-se
realmente por mim, mesmo correndo o risco de uma
decepção posterior.
- Decepção por quê?
- Eu posso não lhe
agradar.
- Fisicamente?
- De alguma forma. Ou
você só se interessa pelo físico das pessoas?
-
Não. Não é nada disso. O que eu desejo é te conhecer.
Gosto de conversar assim, pelo telefone, contigo... Acho
que pessoalmente deverei gostar muito mais. Só não sei
como vou conseguir , como vou descobrir...
- Bem... Você pergunta
sobre mim e o que eu considerar que posso responder eu
respondo. Uma coisa eu garanto: sempre responderei a
verdade. Vamos! Comece a perguntar.
- Tudo bem. Entrarei
no teu jogo! És morena?
- Não. Branca, dos
cabelos pretos e curtos.
- Bem, isso exclui
muita gente. Em compensação me dá um leque bem grande de
opções, numa cidade de seiscentos mil habitantes!
- Mas já é alguma
coisa, não é? Pergunte mais.
- Tua altura?
- Nem alta nem baixa.
Na faixa de um metro e sessenta.
- Um pouco mais
baixa...
- Do que Marileide ou
do que a outra?
- Que outra?! E como
você sabe o nome da minha mulher?!
- Não é tão difícil,
convenha. Você é uma pessoa conhecida na cidade. Olha,
se você duvidar eu acabo sabendo o nome da outra também!
- De que te serviria
isso, Maria?
- Maria?! Que Maria?!
Ah! Você queria era me pegar! Se o meu nome fosse Maria,
era bem possível que eu tivesse caído na sua armadilha!
Realmente, você é uma cara inteligente, como dizem. Mas
por que Maria?
- É o nome de mulher
mais comum que existe.
- Bem, isso é. Mas vou
lhe dar uma pista: meu nome não é comum, nem tão pouco
incomum.
- Pelo menos, diga a
primeira letra.
- Não! Ficaria fácil!
São poucos os nomes...
- Com a sua inicial?
Ótimo! Essa já é uma boa pista. Qual é o teu peso?
- Não sou gorda e nem
sou magra. Sou o que poderia ser chamado de uma mulher
forte. Mas muito bem feita de corpo!
- A falta de modéstia
agora é tua !
- Eu lhe prometi falar
a verdade. Tenho um espelho grande no meu quarto, não
sou cega e troco de roupa diante dele. Sou do tipo
boazuda!
- Idade?
- Passo um pouco dos
vinte.
- E quantos filhos?
- Dois: um em cada ano
dos dois primeiros anos de casada. Não dormi no ponto!
- Casou com que idade?
- Ainda ia fazer
dezessete...
- Puxa!. Casou tão
moça e logo dois filhos...
-
Não se preocupe: foram dois partos cesarianos. Eu
continuo bem apertadinha!
- Ih!... Parece que eu
andei pensando alto! Bem, já que enveredastes por esse
caminho, me dás a liberdade de perguntar outras coisas.
E os seios?
- De uma tamanho que
poderia se chamar de normal. Durinhos, durinhos...
Parece até que nunca amamentaram ninguém! E os bicos são
quase cor de rosa! São lindos os meus peitos! Toda vez
que eu estou nua não me canso de olhá-los no espelho do
quarto. E termino acariciando-os, numa tesão maior do
mundo. Taí uma coisa que de ninguém eu tenho inveja!
- Pare com isso que eu
já estou ficando meio diferente!
- Ouriçado? Então eu
consegui provocar isso por telefone? Vitória! Vingança!
E foi também um honra, por tratar-se de você.
- É, mas vamos mudar
de ritmo, porque estou em casa, de bermudas, a mulher
chega e me encontra assim... Pode perceber...
- Melhor pra ela! Se
não aproveitar é porque é burra. Eu, da minha parte, já
estou toda molhadinha aqui!
- Menina, pares com
isso! Vamos voltar a um assunto mais sério!
- Ah, e você não
considera sexo um assunto sério?
- Claro que sim. Mas
eu não estou querendo masturbar-me pelo telefone!
- Olhe a grossura! Eu
desligo...
- Não, não! Desculpa!
Eu só estou querendo descobrir mais sobre tua pessoa. O
jogo não é que eu consiga descobrir quem tu és? Assim,
desse jeito, eu não vou conseguir! Vou começar a viajar
nos teus peitos...
- Está bem, volte a
perguntar.
- Trabalhas?
- Sou o que se chama
doméstica. Cuido da minha casa e de meus filhos.
- E teu marido,
trabalha?
- Claro! Senão, como
eu iria ter essa vida que levo?
- Onde ele trabalha?
- Essa, não. Aí eu vou
dizer tudo! Essa pergunta eu não posso responder. Seria
fácil demais para você...
- Está bem. Já vi que
a coisa é mais difícil do que eu pensava!
- Mas eu vou lhe dar
uma pista em cima disso: o trabalho dele, só é ele quem
faz aqui em João Pessoa.
- E o prefixo do teu
telefone é 221?
- Esse é o prefixo do
telefone do local onde o meu marido trabalha. E eu vou
parar por aqui. Ele está chegando! Vou ser boazinha com
ele depois da minha vingança de hoje, dos chifres que
você me ajudou a botar...
Desligou o telefone.
(III)
Primeira questão: ela
deu melhores pistas do marido. Sabendo-se quem é o
marido, sabe-se quem é a mulher. Elementar, meu caro
Elpídio, pensei. Segunda questão: o telefone do
trabalho do marido tinha prefixo 221. Sabendo-se
localizar a área da Cidade servida por esse prefixo,
sabe-se a área onde procurá-lo. Também elementar, porém
com um grau de dificuldade bastante alto. Essa área era
enorme. Ia ser o mesmo que procurar uma agulha no
palheiro.
A condição era:
trabalhar naquela área, num trabalho do qual era
exclusivista. De saída encontrei dezesseis pessoas e
firmas com esse perfil. Mas nenhum desses dezesseis
suspeitos era a pessoa que eu procurava. O que mais se
aproximou foi um pastor protestante, naturalmente
descartado. Eu não podia conceber um pastor protestante
chegando em casa com amigos, enchendo a cara com bebidas
num dia de sábado, em plena luz do dia. Não fazia
sentido. Mas mesmo assim procurei me certificar e acabei
conhecendo a esposa dele, magra, alta e de compridos
cabelos claros. Os demais eram sapateiro, passador de
jogo de bicho, alfaiate, todos já bem velhos e,
aparentemente, de situação financeira muito mais para
pobre. Houve também um técnico de rádio e televisão que
morava na casa onde tinha a própria oficina, sem
qualquer conforto maior. Desisti da minha investigação,
pelo menos, naquele momento. Existiam outros afazeres
mais importantes. Também estava correndo o risco de
serem enganosas aquelas pistas, mesmo tendo a minha
estranha leitora garantido não mentir nas suas
respostas. Mas mulher é mulher e Adão que o diga!
O desafio continuou
fazendo parte do meu dia a dia. Mesmo sem perder mais
tempo procurando o tal cara que me levaria à mulher
dele, pensava no assunto todo dia. Já estava se tornando
uma obsessão, acho que muito mais por conta do desafio.
Mandei um outro recado que não teve retorno, quero
dizer, o telefone não tocou mais. Mas o tempo é mesmo
senhor de tudo e a minha obsessão, aos poucos,
transformou-se em curiosidade e daí em lembrança.
Já havia praticamente
esquecido o assunto, quando mexendo nos meus arquivos no
Jornal, encontro uma folha de papel com o título de
"Premissas". Eis a relação delas: 1) telefone 221; 2)
trabalho exclusivo; 3) rico; 4) farrista; 5) mulherengo;
6) anda com amigos; 7) não gosta de artes; 8) atividade
machista que a mulher não gosta dela. Eu tinha todas
essas informações, mas durante todo o tempo só me
prendera a duas: o telefone e o trabalho. E as
outras?!
Uma nova perspectiva
surgiu por uma pequena dedução, sem maior convicção. Uma
tentativa: ele não gostava de cinema, teatro, música e
outras coisas ligadas à cultura e às artes; entretanto
chegava em casa acompanhado de amigos, vindo de algum
lugar comum a eles; bebiam, enchiam a cara e conversavam
um assunto que à esposa não interessava, pois ela disse
que detestava essas reuniões; ele devia ter uma outra
atividade, além da profissional, que normalmente homem
gosta e mulher não, ou gosta pouco, ou detesta. A chave
do mistério estava era nessa atividade e não no primeiro
caminho percorrido. Mas poderia ser tanta coisa, era um
leque enorme! Corrida de carro? Pescaria? Caçada?
Politicagem? Jogo? Esporte? Quando pensei em esporte,
veio logo um palpite e comecei a falar sozinho:
- Futebol! Por que não
imaginei isso antes? Tem outras formas de esporte, mas
futebol é a mais provável. O Brasil tri-campeão,
preparando-se para tentar o tetra pela segunda vez, o
campeonato paraibano em fase de definições, só pode ser
futebol !
- Endoidou de vez?
Assustei-me com a pergunta do
companheiro de trabalho que me presenciou falando
sozinho. Dei uma desculpa qualquer e continuei com as
minhas tentativas sherloquianas . Admitindo o
futebol, a solução do problema também não estava tão
fácil. Seria ele o quê? Dirigente, juiz, jogador ou,
apenas, um torcedor fanático? Mas com o conforto que ele
dava à mulher, só poderia ser um homem rico. Juiz ou
jogador não era rico, pelo menos na Paraíba! Restando
dirigente e torcedor a lógica apontava para um
dirigente, um cartola como chamam. É quem anda
acompanhado de uma porção de baba-ovo.
Concentrando-me
naquela alternativa, acertei na mosca! Palpite feliz!
Mas não foi tão fácil chegar a onde eu queria. Dependeu
de uma pesquisa que me levou um bocado de tempo: leitura
de jornais, conversas com pessoas do ramo, idas aos
jogos... Quando as novas informações se encaixaram com o
telefone e a profissão, o resto foi fácil. Sabendo quem
era o marido, tive o nome e o telefone da mulher. Liguei
no mesmo dia e hora que ela ligava para mim:
- Como vai essa minha
leitora incondicional?
Senti o susto que ela
sentiu ao ouvir-me. Passou algum tempo sem falar e eu
insistindo em anunciar que já sabia quem ela era, onde
morava, que não adiantava fingir. Deu-se por vencida e
ainda assustada quis saber como eu a havia descoberto.
Contei-lhe os detalhes e ao final da minha narrativa ela
já estava mais relaxada:
- Você é fogo! Pensei
em ligar para você, tinha um bocado de novidades... Mas
você não mandou mais recados!
- Mandei!
- Quando?
- Acho que na edição
da última semana do mês passado. Tá fazendo um mês.
- Ah, eu estava
viajando!
- Chique , heim?!
- Pipas! Segunda lua
de mel. Deixamos as crianças com minha mãe e fomos
comemorar!
-
Comemorar?! Algum aniversário?
- Não. Outro filho!
Estou grávida, na maior felicidade! Ele está sendo tão
bacana comigo. Eram essas as novidades que eu queria te
contar. Não é maravilhoso? E isso tudo eu devo a você!
- A mim?! Como?
- Eu contei tudo pra
ele. Os telefonemas, tudo! Só não disse o teu nome, mas
é capaz dele saber. Não se preocupe! Ele acha que você
não tem culpa de nada, que foi usado por mim! Há
princípio ficou um pouco aborrecido comigo, mas depois
entendeu que eu fiz tudo aquilo por amor. A gente está
vivendo muito bem, já fomos até ao cinema!
- Parabéns!
- Eu tenho mais é que
te agradecer. Mas eu vou desligar antes que ele chegue.
Prometi a ele nunca mais falar contigo. Mas hoje foi bom
porque eu contei as novidades. Foi uma vingança
pequenininha, que eu nem junto com as outras. Mais uma
vez, muito obrigado por tudo!
Desligou. Fiquei com a
sensação de que alguém também se vingara de mim!
53
AUS
AUS &
MIAUS
MIAUS
Eu, José Arnaldo Tavares e Ivan Bichara
Filho fomos jantar num restaurante chinês que havia em
frente ao Hotel Tambaú. Não era a primeira vez e sempre
assim procedíamos após sair da residência de Garibaldi
Cittadino, onde jogávamos partidas de buraco
semanalmente. Tudo era normalidade quando adentra ao
recinto Leila Rabay, filha de um nosso parceiro de
jogatina, Guilherme Rabay. Juntou-se a nós e, talvez
devido a aridez da nossa conversa, ficou sem participar
do papo. Na primeira oportunidade que teve não
perdeu tempo:
- Tenho um sobrinho que
troca tudo. Quando vê um gato diz: au, au... Quando vê
um cachorro diz: miau, miau... Não é muito engraçado?
Nosso silêncio respondeu. Mas não se
contendo, José Arnaldo retruca:
- Mais engraçado é o meu!
Quando vê um galo diz: béééé... Quando vê um carneiro
faz logo cu,cu,ru,cu,cu...
Todos começaram a rir e cada um que
inventasse um sobrinho trocando as vozes dos animais.
Pura falta do que fazer e uma forma de passar o tempo
enquanto esperávamos que o garçom trouxesse os nossos
pedidos.
Em dado momento um casal
conhecido, aparentado de um outro nosso companheiro do
tal joguinho de buraco, entra no restaurante e passando
por nossa mesa nos cumprimenta, acomodando-se a seguir
na mesa ao lado. Foi quando duas ações ocorreram ao
mesmo tempo: Ivan dizendo que o sobrinho dele quando via
um papagaio dizia piu, piu e chamava o pintainho de meu
louro; e a moça do casal conhecido estatelando-se no
chão ao sentar numa cadeira quebrada da mesa ao lado.
Rimos com a piada de Ivan e paramos de rir com a queda
da moça, que imediatamente ajudada pelo seu parceiro,
levantou-se e nos falou:
- Podem rir, não precisa
parar! Eu sei quanto é ridícula e engraçada uma queda
dessa que eu levei. Mas não façam cerimônia! Riam...
José Arnaldo tentou explicar:
- Fulana, não é nada disso!
Estávamos rindo por causa de uma brincadeira que Ivan
disse. Quando você caiu nós paramos de rir...
-
Pararam porque quiseram. Se fosse um de
vocês que tivesse caído eu estava rindo até agora! Não,
não precisam desculpar-se, eu sei que foi engraçado!
A partir daí ficamos prendendo uma enorme
gargalhada, agora, verdadeiramente, por conta da queda e
reação da tal moça.
54
PRECE
À
TELPA
1988 estava terminando e o telefone que eu havia
adquirido já há bastante tempo não era ligado na minha
nova residência, um apartamento em Manaíra. Após de
apelar para todas as formas usuais de conseguir o meu
intento, resolvi publicar na coluna Palco & Platéia,
que eu assinava no Jornal O COMBATE, uma solicitação
diferente, com o título de “Prece à Telpa”:
“Ó,
Casa Santa da Comunicação, rogai por mim; fazei com que
meu telefone seja ligado para que eu possa informar um
possível infarto, pois de acordo com a minha idade e
peso, estou a perigo; ó, Casa Santa da Comunicação,
sejais piedosa, pois já fiz promessas a todos os santos
daí e nenhuma graça alcancei, mesmo pedindo a São Zé da
Silva, São Arnaldo, São Toledo, São Getúlio, São José
Maria Fontinelli, São Zé Raimundo e a São Gervásio, o
mais santo; teve até um santo que eu prometi pagar a
promessa em dinheiro e não adiantou nada; imagine, ó,
Casa Santa da Comunicação, existe uma coisa neste País
que nem dinheiro resolve: ligar telefone! Foi aí, ó,
Casa Santa, que alguém me lembrou da sabedoria popular:
santo de casa não faz milagre! E eu apelei para os
santos de fora: para São Jório Machado e São Guilherme
Rabay, mas eu acho que eles não são muito santos não
porque não obraram milagre algum. Aí pensei em outros
santos como São Tarcísio Burity e Santo Antônio Mariz e
quando já ia fazer as promessas, surgiu por aqui a Santa
Erondina causando o maior reboliço na paróquia, mas os
seus adoradores não permitiram a minha aproximação só
porque eu sou de outra religião. Ó, Casa Santa,
já estou desesperado,
pois me informaram que o problema era um tal de cabo de
entrada do edifício que estava faltando e eu disse que
mandava suprir essa falta, no que fui informado ser essa
uma providência exclusiva da Casa Santa e só Ela,
unicamente Ela, poderia toma-la. Ó, Casa Santa da
Comunicação, quase cometi um terrível pecado: uma amiga,
certamente uma pecadora, aconselhou-me que eu lhe
escrevesse uma carta-reclamação, com cópia para o
Ministro da nossa igreja, entrando depois com uma ação
judicial, porque o meu telefone foi comprado já faz
cerca de vinte anos, está totalmente pago, é da mesma
linha (226) da área para qual eu peço a ligação há seis
meses, tratando-se, portanto, de um patrimônio que está
sendo impedido de utilização e causando prejuízo ao
proprietário e um bocado de coisas mais. Ó, Casa Santa,
eu, por enquanto, cometi o pecado só por pensamento,
viu? Um pecado menor! Mas essa minha amiga disse que no
caso dela resolveu loguinho, loguinho! Ó, Casa Santa, e
a mulher amada? O que fazer? Não consigo acertar direito
os nossos encontros, estou sem telefone... Ontem mesmo
quase enlouqueci, pois “o meu cigarro apagou” e a minha
deusa não chegava e comecei a pensar: “ela não vem, não
vem mais” e a ansiedade tomou conta de mim, pois o
telefone não estava ligado, ó Casa Santa, e eu não podia
falar com ela. Corro para o orelhão mas no boteco não
tinha ficha para vender; corro para outro e
compro ficha na barraca, mas o telefone
estava com defeito, engolindo tudo que era ficha. Foi
aí, ó Casa Santa, que aconteceu o pior: um dos santos
daí (digo o milagre mas não digo o nome o santo)
explicou que a senhora só estava interessada em ligar
telefones novos, uma forma de vender mais... Mas eu não
acreditei, juro! Ele deve ser um santo despeitado,
daqueles ligados ao senhor anterior... Mas, ó, Casa
Santa da Comunicação, mais uma vez imploro: tende
piedade de mim, pois “depressa a noite passou” e
certamente “ela não vem, não vem mais... e este negro
telefone até agora não tocou”.
Não
demorou muito, o problema foi sanado e o meu telefone
ligado. Cheguei até a gritar Aleluia! Mas não demorou
muito e me senti no dever de publicar, na mesma coluna
(Palco & Platéia - dia 22.01.89) o seguinte:
CONCORRÊNCIA
Pensei estar
sozinho no ramo da oração. Ledo engano. Tenho um sério
concorrente na TELPA, como prova a mensagem que
transcrevo abaixo, recebida juntamente com dois
catálogos de telefones novos:
“ALELUIA, caro Elpídio
Finalmente o BENDITO
telefone que você tanto implorou, subiu ao seu
“ORATÓRIO” por obra e graça dos SANTOS INVOCADOS em sua
ORAÇÃO. Esperamos ser PERDOADOS pelo pecado de tê-lo
feito esperar tanto tempo. Infelizmente MAUS ESPÍRITOS
provocaram atraso na entrada de um CABO - imagine um
SARGENTO ou um TENENTE - no edifício, apesar das suas
PRECES aos SANTOS de sua “DEVOÇÃO”. Agora cremos que o
PECADOR voltará a fazer as CONFISSÕES à sua DEUSA, se
outros DEMÕNIOS não insistirem em interferir. A SANTA
CASA DAS COMUNICAÇÕES continua à sua disposição e
esperamos que em outras SÚPLICAS evitemos a VIA CRUCIS
pela qual passou. ASSIM SEJA (Assina) SÃO JOSÉ
RAIMUNDO”.
Agora, falando sério, obrigado por tudo
pessoal. O telefone está funcionando bom danado. Muito
obrigado, mesmo!
Obs. - José Raimundo era um simpático
Diretor da TELPA.
55
A
CANTADA
Encontrei-a,
por acaso, na fila do Banespa, onde eu recebia dinheiro.
Ela estava logo à minha frente e parecia preocupada,
pois a todo instante olhava para a porta de entrada do
Banco, como se esperasse alguém. Chamou-me a atenção,
não só pela forma como estava se comportando, mas,
também, e principalmente, por ser uma jovem e bonita
mulher. Ao aproximar-se a sua vez de ser atendida pelo
caixa, abriu a bolsa e, retirando um cheque, deixou-a
meio entreaberta. Era a oportunidade que estava
faltando e não perdi tempo para avisar-lhe, querendo
muito mais uma aproximação do que fazer-lhe um favor.
Quando toquei-lhe o braço para chamar a sua atenção ela
assustou-se de uma forma tão exagerada que causou
espanto a quem estava por perto, deixando-me, durante
alguns momentos, sem saber o que fazer. Recompondo-me,
expliquei meio desajeitado:
- Moça, desculpe! É a
sua bolsa que ficou aberta... Eu queria lhe alertar...
- Heim?!
- Sua bolsa ficou
aberta!
- Obrigado.
Falou, secamente, a
ponto da sua reação ser notada por uma senhora de idade
avançada que estava na fila do caixa vizinho, e que veio
em meu socorro afirmando que essa gente de hoje é mal
agradecida, falando alto e com o propósito de ser
ouvida pela moça. Aí já fui eu que tratei de socorrer a
jovem e tentar sair da história como um bom moço.
- Mas a culpa foi
minha! Eu assustei-a. Eu devia ter falado somente...
- Tudo bem... Eu estava
distraída, foi só isso.
Dessa vez algum sorriso
aflorou no seu rosto, deixando-me mais tranqüilo. A moça
foi atendida e retirou-se sem mais uma só palavra ou um
olhar, dando-me a certeza de que nunca mais nos
encontraríamos. Sem qualquer pressa retirei dinheiro,
requisitei um talão de cheques e ainda conversei um
pouco com o gerente, para aproveitar e tomar um
cafezinho.
Ao sair do Banco,
procurei uma descida lateral que dava acesso ao
estacionamento privativo para clientes, que ficava no
subsolo. Ao chegar, notei um carro manobrando
lentamente. Ao aproximar-me, reconheci a moça da fila
que, de dentro do carro, estirou o braço, entregando-me
um cartão
- Eu trabalho nesse
endereço. Precisando... Lá a gente pode conversar à
vontade! De preferência logo cedo, pela manhã ou depois
do almoço.
E deu partida no
carro, que não era de luxo mas era um fusquinha novo,
deixando-me ali parado e abestalhado. No cartão estavam
o nome, telefone e endereço de um escritório de
advocacia, afastado do centro da Cidade.
Mesmo diante de alguma evidência, fiquei com dúvidas
quanto àquela última atitude da moça, se seria ou não
uma cantada. Relatei o fato ao Maestro Pedro Santos,
pessoa da minha maior intimidade, que foi enfático e, ao
mesmo tempo, brincalhão:
- Se você não procurar
essa mulher ela vai achar que você é viado! Agora, se
você não quiser nada com ela, passe o cartão para mim!
Pode ser que eu venha a precisar de um advogado!...
Guardei com cuidado
aquele pedacinho de papel linho, impresso de um lado,
e, do outro lado, escritas, com caneta esferográfica, as
quatro letras seguintes: R i t a. O incidente não saía
da minha cabeça. Podia ser uma armadilha. Tem mulher
maluca que é capaz de tudo! Podia também ser somente uma
pessoa querendo desmanchar uma má impressão deixada.
Bem, a verdade é que podia ser qualquer coisa e eu só
saberia indo lá.
Atendendo a
recomendação dela, cheguei no início do expediente da
tarde e pedi informações ao porteiro do pequeno
edifício. Fui informado que o advogado não estava:
- Acho que ele viajou.
Não vejo o carro desde de manhã! E dona Rita não saiu
para almoçar...
- A secretária dele?
- Não! Ela não é a
secretária. É a mulher!
Tratava-se da esposa do
tal advogado. Ela tomava conta e fazia os serviços do
escritório. Gelei! Cuidei de dar uma desculpa qualquer
ao porteiro e cair fora enquanto era tempo. Ao sair meio
apressado cometi o que naquele momento considerei um
erro: olhei para cima. Lá estava ela na janela do
primeiro andar.
- Olá! É aqui em cima,
pode subir.
Não tinha como fugir.
Era uma mulher bonita! Valia todos os riscos: os da
minha casa e os do marido dela. Fui em busca da nova
aventura!
Um escritório
simples, ela estava só. No salão vizinho, uma corretora.
Lá pra trás não cheguei a ver o que era. Ainda
desajeitado, fui inventando uma desculpa:
- Ia passando aqui por
perto e lembrei-me do seu convite...
- Que bom! Estava mesmo
esperançosa. Precisava explicar ao senhor...
- Senhor? Pareço tão
velho?
- Não é isso, não. Lá
no Banco, quando o senhor falou comigo eu tive a certeza
que já lhe conhecia. Só não sabia de onde. Quando
cheguei no carro foi que lembrei. Aí fiquei pensando:
ele falou comigo porque me conhecia e eu fui tão
indiferente. O que é que ele não pode estar pensando? No
mínimo que sou uma mal educada!
- E você me conhece de
onde?
Que pergunta idiota ,
pensei na hora. Não era isso! Eu devia ter dito que
também sabia que já a conhecia de algum lugar, mas ela
sendo mais jovem era mais fácil de se lembrar e papeava
tentando ganhar tempo, até que ela desse alguma luz. Mas
não! Fui grosso e ela não perdeu tempo para lançar uma
chantagenzinha emocional:
- Já vi que sou mesmo
muito insignificante! Faz tão pouco tempo, professor!...
Ela não era
insignificante e eu não tinha a menor lembrança dela.
Estava claro que havia sido minha aluna. Mas onde?
Quando? Em qual disciplina? Que merda de cabeça!
Precisava reverter a situação e para isso tinha que
pensar rápido numa saída. Como meu maior tempo de
magistério estava sendo na Universidade Federal da
Paraíba, resolvi investir nesse caminho. Eu era
professor do Curso de Educação Artística, o qual,
certamente, ela não freqüentou, pois teria passado seis
períodos letivos lá, nos encontrando quase que
diariamente, e uma mulheraça como aquela eu jamais teria
esquecido! Dei também uma disciplina de Relações
Públicas no Curso de Comunicação Social. Por ter sido
há pouco tempo, eu lembrava de todos os alunos e ela com
certeza não estava entre eles. No meu rápido raciocínio
só restava a História da Arte, oferecida pelo meu
Departamento, para alunos de outros cursos. Era uma
disciplina optativa, durante apenas um semestre e que a
maior parte dos alunos se matriculavam nela apenas para
conseguir créditos. Estava resolvido! Ia me arriscar:
- História da Arte, na
Central de Aulas!
- Que alívio,
professor ! Pra mim o senhor não ia se lembrar! Eu que
adorava aquelas aulas, que participava tanto... O senhor
lembra? Chegou até a me emprestar um livro...
Apesar do meu acerto,
eu continuava a não me lembrar dela. Também era tanta
gente. Quarenta alunos todo semestre e só passavam
comigo cerca de três meses! Agora , entretanto, existia
um novo detalhe: eu emprestei um livro a ela. Isso eu só
fiz uma vez e a um determinado grupo, que interessou-se
bastante pela disciplina. Aí resolvi arriscar outra vez:
- Ah! Agora lembro
perfeitamente. Você cursava Serviço Social! Certo?
- Isso, professor! Já
sou formada. Só não sei para que vai servir!
Eu também não sabia,
pois era casado com uma assistente social que também não
sabia! Por outro lado, fiquei sabendo que Rita fora
minha aluna, que formara-se em Serviço Social, que era
casada com um advogado e trabalhava no escritório dele.
Mas continuava sem ter a menor lembrança dela, fato que,
a partir de então, passou a não ser importante. O que
ia valer era o que pudesse vir a acontecer. E com esse
objetivo continuei perguntando sobre ela e respondendo
sobre mim.
Naquele dia no banco
ela estava apreensiva por causa da hora. Havia saído do
escritório para descontar um cheque mas, no meio do
caminho, encontrara uma amiga e conversando esquecera a
hora. Estava com medo que o marido chegasse a qualquer
momento com sua estupidez costumeira, para reclamar da
demora. Para mim pareceu uma história má contada, a
dela. O medo do marido deveria ser por outra coisa,
pensei.
Era casada há alguns
anos. Não tinha filhos e nunca os tinha evitado. O
marido era ciumento, grosseiro e quando bebia era metido
a brigão. Mesmo assim era medroso. Mais de uma vez
presenciara ele fugir da raia com ela defendendo-o de
uma possível briga, sempre provocada por ele. Seu
casamento não prestava mas não podia fazer nada, pois
não tinha emprego, seus pais eram pobres e ela não teria
como se manter.
- Pois é professor,
quando quiser aparecer... É melhor na parte da manhã. Eu
chego cedo aqui. Meu marido me deixa e vai trabalhar.
Pelo manhã a gente pode conversar à vontade, pois ele só
volta após as dez horas.
Fiquei sabendo também
que o marido, pela manhã, prestava serviços de
assistência jurídica a uma empresa e que, à tarde, na
maior parte dos dias da semana, estava no Fórum, quando
não viajava para a cidade de Sapé, onde tinha algumas
causas. Deu todas aquelas informações um tanto apressada
e com alguma preocupação estampada no rosto, procurando
disfarçar quando olhou para o relógio mais de uma vez.
Não precisava ser muito inteligente para perceber que
era hora de bater em retirada. Prometendo voltar,
despedi-me com um simples aperto de mão, pois durante o
tempo todo do nosso encontro ela ficara sentada atrás de
um birô. Já com o carro em movimento, saindo do
estacionamento do edifício, percebi a chegada do
fusquinha que ela dirigia quando a encontrei no banco.
Relatei os
acontecimentos ao meu experiente amigo Pedro Santos,
excelente conselheiro para assuntos femininos:
- O comportamento dela
é de uma pessoa confusa. Ao mesmo tempo que lhe convida
para vê-la sem a presença do marido, não proporciona, ou
até evita, qualquer aproximação maior. No teu lugar eu
teria resolvido logo a situação. Ou dá ou desce! Aliás,
considerando onde vocês estavam , seria o caso de ou dá
ou eu desço e desapareço!
- Você queria que fosse
ali mesmo, no escritório?...
- Não, claro que não!
Mas, pelo menos, marcasse alguma coisa... E se ela não
estivesse a fim, acabava o papo naquele momento. Outra
coisa: se você pretende voltar por lá, arranje uma boa
desculpa para o caso do marido chegar de repente.
Invente uma questão qualquer para consultar.
Pedro tinha razão. Era uma maluquice
sem qualquer resultado prático. Esse negócio de que não
existe mulher difícil e sim homem fraco de cantada, eu
não concordava. Ou será que eu era fraco de cantada?
Entre a emoção e a razão, fui ficando com a segunda,
esquecendo do meu fracasso donjuanesco com aquele
pedaço de mal caminho, que me deixou abestalhado nas
duas vezes que estivemos próximos.
Entre o esquecimento e a pouca lembrança eu já estava,
quando, de repente, numa tarde de inverno, tenho, outra
vez, a visão majestosa daquela beleza de fêmea. Não nego
os pulinhos do coração! Veio em minha direção
desmanchando-se em sorriso de cumplicidade, deixando os
arredores boquiabertos. Não teve jeito. Fiz outra
pergunta idiota:
- O que é que você
está fazendo aqui?
- Vim lhe ver,
professor!
Foram inevitáveis os huns!, os
hans! e os hais! dos alunos e professores
que estavam ali, em frente ao Departamento de Artes.
Apressei-me em conduzi-la até a uma sala de aula vazia,
onde poderíamos fugir um pouco dos olhares maldosos.
- Menina, você tem
coragem! Fazer uma declaração daquela no meio de tanta
gente! E se tivesse alguém conhecido? Alguém que pudesse
dizer para o teu marido?...
- Ou para a mulher do
senhor, não é, professor?
- Ela não se
incomodaria com isso.
- E meu marido está
sabendo que eu vim aqui, quero dizer, lá na Reitoria,
pegar uns documentos da minha formatura.
- E veio para isso
mesmo?
- Também! Mas o que eu
queria mesmo era me encontrar com o senhor.
- Você não acha que
esse negócio de me chamar de senhor é sem sentido? Pode
até criar alguma barreira entre nós!
- É costume meu. Lá no
escritório todo cliente que chega a gente trata por
senhor. Meus professores eu sempre tratei assim.
- Mas eu não sou mais
seu professor, nem tão pouco seu cliente.
- Eu sei. Agora é meu
amigo.
A minha impaciência
aumentava diante daquela conversa boba. Resolvi seguir
os ensinamentos de Pedro Santos quanto ao ou ata ou
desata! Ataquei sem medir fronteiras:
- Mas eu não quero ser
seu amigo!
- Não?!
- Queria ser mais
alguma coisa.
- Não entendi!
- Mas vai entender.
Que tal sermos amantes?
Tomou ou fingiu que
tomou um susto. Corou e baixou a cabeça, deixando seus
cabelos de comprimento médio cobrirem-lhe o rosto.
Silenciou enquanto eu fiquei aguardando qual seria a sua
próxima reação ao que eu havia proposto. Como estava
demorando, tomei a iniciativa:
- E aí? Como é que
ficamos depois do que te perguntei?
- Estou morta de
vergonha, professor. Eu não esperava isso do senhor! Eu
pensava que o senhor queria ser só meu amigo, pra gente
conversar... Nunca imaginei que o senhor quisesse essas
coisas! Estou morta de vergonha, mas eu topo! Eu queria
desde o começo, só não imaginava que o senhor quisesse
também...
É fácil saber o
tamanho do meu espanto. Inocência ou loucura? Era o que
eu me perguntava. Ela não podia ser uma mulher normal,
era a minha conclusão. E foi ela quem continuou
surpreendendo:
- Depois de amanhã meu
marido vai para Sapé e passa a tarde inteira. Como eu
fico sem carro, quando sair para almoçar posso voltar
um pouco mais tarde. A gente podia se encontrar depois
de meio-dia para almoçar juntos...
- Num motel?
Ataquei forte com o
objetivo de definir aquela situação. Outra vez quebrei a
cara! Ela era realmente fora do comum:
- Claro, professor! E
dava pra gente ir a um restaurante? Na frente de todo
mundo? E o que era que a gente poderia fazer num
restaurante? Almoçar olhando um para a cara do outro!
Não é isso o que o senhor quer, é?
Após os últimos
detalhes para o nosso encontro, retirou-se, dessa vez
permitindo uma despedida mais afetuosa, com beijinhos na
face e fortes apertos de mão, promessas de futuras
emoções.
Estávamos a caminho
de um motel, quando ela teve a impressão que havíamos
cruzado com o carro do seu marido. Ficou um tanto
apreensiva e ao olhar para trás julgou que o carro do
marido havia voltado e estava nos seguindo. Eu fiquei um
pouco nervoso e ela caiu no desespero gritando: "Corra,
corra, corra, ele não pode me pegar aqui com o senhor,
corra mais!..." O aperreio era tão grande que a minha
noção de perigo desaparecera. Então tomei a decisão de
parar o carro no acostamento da estrada: "Se for ele
fica logo tudo resolvido, eu enfrento a situação. Se não
for, acaba a agonia!" Ela parecia morta de tão pálida! O
carro que ela pensava que nos seguia passou e foi
embora, dirigido por uma pessoa desconhecida e tinha a
placa diferente da do carro do seu marido. Apenas as
marca e cor eram as mesmas! Depois de toda a confusão
perguntei se ela desejava continuar, pois achava não
haver mais clima. Levei outra cipoada:
- Não! Ficou bom foi
agora! O perigo não lhe excita? Eu adoro correr riscos!
É um santo remédio para o sistema nervoso!
Quanta surpresa e
quanta besteira dita! Mas ela também foi surpreendente
na cama. Deixou-me preocupado com o risco de até me
apaixonar! Quando chegou a hora de voltar outro
problema: na loucura toda da chegada, eu havia fechado a
porta da Belina com a chave dentro! Não tinha como abrir
o carro. Exasperei-me um pouco, já pensando em usar uma
pedra e quebrar o vidro da porta, quando ela apertou a
maçaneta do lado dela e a porta abriu normalmente. Ela,
também na danação da chegada, não a havia travado! Foi
um alívio geral e quando eu estava me preparando para
ligar o carro, veio, dessa vez, um verdadeiro coice:
- Vamos voltar para o
quarto? Vamos comemorar?! Hoje está tudo é dando muito
certo! Que se dane tudo! Eu arranjo uma desculpa por ter
chegado atrasada. Ele acredite se quiser!
E a segunda vez foi
melhor que a primeira. Na volta pediu-me para não
procurá-la no escritório, pois era perigoso. Ela poderia
não se conter e dar motivo para a desconfiança dos
vizinhos. Telefonasse naqueles horários que ela estaria
sozinha. Mas ela queria algum tempo para pensar com
calma na nossa situação e que eu também pensasse, pois a
gente ainda não tinha idéia de como tudo aquilo iria
terminar, essas coisas que sempre se diz nesses casos,
quando existe algum sentimento de culpa!
Para mim estava tudo
bem. Já havia conseguido o que queria, o que acontecesse
depois era lucro. Cheguei a telefonar uma vez e atendeu
uma voz de homem. Perguntei se era da Receita Federal e
diante da negativa, disse ter sido engano e pedi a
costumeira desculpa. Segui respeitando a promessa de não
procurá-la por algum tempo e este foi passando. Mais de
um mês depois da nossa aventura eu ainda não a havia
esquecido totalmente, e, num dos momentos de lembrança,
liguei para ela:
- Então? Como ficamos?
- Não vai dar certo
não, professor. Naquele dia eu estava no meu período de
fertilidade. Tivemos relações duas vezes e eu estou aqui
menstruada! Também não consegui engravidar com o senhor!
- Espere! Eu tenho...
-
Eu sei que o senhor tem
filhos. Eu sabia antes. Eu pensava que o problema era do
meu marido, mas estou vendo que é meu. Vou procurar um
médico...
56
ANTHENOR
NAVARRO
Escolhemos
encenar o texto “Uma Canção dentro do Pão”, de R.
Magalhães Jr., por ser o ano de 1989 o marco dos
duzentos anos da Revolução Francesa e a peça ter a sua
ação desenvolvida naqueles espaço e tempo. A produção
era da Fundação Casa de José Américo que, na época,
tinha na sua presidência o Professor Sales Gaudêncio.
Escolhida a cidade de Cajazeiras para a estréia do
espetáculo, para lá viajamos com todo o elenco e ficamos
hospedados no Hotel de Brejo das Freiras, na vizinha
cidade de São João do Rio do Peixe, antes Anthenor
Navarro. Numa das idas e vindas entre Cajazeiras e Brejo
das Freiras, demos carona a umas jovens estudantes que
declararam ir para Anthenor Navarro. Atendidas no seu
pedido e acomodadas no veículo, procurei ser cordial e
perguntei:
- Vocês vão
para Anthenor Navarro ou São João do Rio do Peixe?
- É a mesma
coisa... A gente não consegue se acostumar com esse
outro nome não!
Respondeu a mais falante, ao tempo em que
Fernando Mercês de Oliveira, mistura de engenheiro,
advogado, fiscal do Ministério do Trabalho e ator,
que nos acompanhava naquele momento, perguntou curioso:
-
Então por que mudaram o nome?
- Sei lá! –
Respondeu, acrescentando um gesto de desconhecimento do
assunto. Uma outra das jovens “caronas” apressou-se a
informar:
-
Meu pai disse que foi porque esse tal de
Anthenor Navarro era um miserável! Na época da seca veio
pra cá distribuir farinha com os pobres. Só que a
farinha era envenenada, pra matar todo mundo! Queria se
ver livre dos pobres!
Eu fiquei sério e
Fernando Mercês deu uma enorme gargalhada e anunciou:
- Menina, você sabe o
que está dizendo? Pois olhe, esse rapaz aí é Elpídio
Navarro e é irmão de Anthenor Navarro!
A garota virou-se pra
mim, desconfiada:
- É não, não é?... É?
Confirmei. E ela, sem
a menor cerimônia, foi logo dedurando:
- Pois quem contou essa história ao meu pai foi o
Deputado José Aldemir!
Mudamos de assunto. Fiquei a pensar com os meus botões:
é, faz sentido. O tal deputado lutou na Assembléia
Legislativa, para aprovar aquela mudança. Até que eu
entendi ser por conta de uma tradição, ser um ponto de
vista pessoal e até uma questão estética: também acho o
nome São João do Rio do Peixe mais bonito que Anthenor
Navarro. Podia também ter as suas razões políticas, pois
já não se dava bem com o seu antigo benfeitor Tarcísio
Burity, casado com Gláucia, que também é Navarro. Mas
se ele falou aquilo que a moça disse, se ele falou, não
fez outra coisa senão uma grande e covarde sacanagem. É
o vale tudo para justificar os fins. E por que ele não
colocou essa história do veneno junto aos argumentos que
foram usados no projeto de mudança do nome? O certo é
que, que eu saiba, a sua ação parlamentar não o
reelegeu. Por outro lado, dizem que quem deve, um dia
paga. Paga de alguma forma. Pra quem acredita em uma
outra vida, paga até depois da morte! Pra mim, que não
acredito, conto história!
57
A
VILLAGE
O
condomínio fechado “Village Atlântico Sul” , na Praia do
Seixas, foi, durante algum tempo, moradia minha. Dessa
época péssimas lembranças, porém também boas lembranças,
por conta das amizades ali cultivadas e por fatos
inusitados, que alegravam a comunidade de cerca de
cinqüenta residências. Da casa onde morei, o jardim com
mais de cinqüenta roseiras que consegui cultivar próximo
à beira-mar, cada uma com uma tonalidade de cor
diferente das outras.
O funcionário
aposentado da previdência José Ataíde era uma daquelas
figuras queridas, por ser amigo e prestativo. Precisou
de uma ferramenta, Ataíde tinha, emprestava e ainda ia
ajudar a usá-la. Geralmente tinha tudo em quantidade:
três alicates, três serrotes, três martelos, três tudo.
Tinha uma sirene que ligava por motivos diversos, como
comemorações, protestos e até quando tomava uma dose a
mais. Coração de criança, colecionava brinquedos que
fazia questão de mostrar aos garotos do condomínio. Ele
é uma grata lembrança.
O
“Village” agregava algumas figuras engraçadas, como era
o caso de Zé Corninho (não fazia questão de assim ser
chamado), que morando em Oitizeiro, passava semanas
fazendo serviços gerais no condomínio, sem sequer ir em
casa. Era o faz tudo de lá: hidráulica, eletricidade,
saneamento e alvenaria. Também consertava relógios e
antena de televisão. Certa feita foi encarregado de
instalar uma gambiarra com cerca de cinqüenta lâmpadas,
para iluminar um recinto ao ar livre, onde iria
acontecer uma festa. Instalou, ligou e pipocaram-se as
lâmpadas. Instalação errada em corrente de 380.
Justificou dizendo que a culpa era dos fios que por
serem velhos, estavam entupidos. Zé era cabra bom e
honesto, o que fazia dele se perdoar tudo e até achar
graça nas suas tiradas.
Um moço de lá, não
lembro o nome, resolveu comprar peixe na praia da Penha
e revender para os restaurantes do centro de Tambaú.
Numa das vezes, adquiriu logo cedo da manhã uma enorme
cavala e de volta, não querendo, para não sujar o
chão, entrar com o peixe casa a dentro, deixou-o no
jardim enquanto preparava-se para levá-lo a um seu
comprador. A cavala estava pendurada na cerca, próximo
ao depósito de lixo. O funcionário que recolhia o lixo
das residências, levou tudo, inclusive o peixe, que ao
chegar à portaria e examinado por outros empregados, foi
dividido entre eles após constatarem que ainda estava
fresco. Quando o peixeiro conseguiu encontrar a cavala
desaparecida, já haviam postas cozidas.
Um grupo de
adolescentes etilicamente influenciados, danificou
algumas mesas e cadeiras do bar existente, jogando os
pedaços em cima do meu jardim. Reagi à molecagem
reclamando ao síndico que tentou, em reunião no alpendre
da casa do professor Silvino Espínola, resolver o
problema. Em dado momento um dos condôminos sai em
defesa dos garotos, dizendo que eu não tinha o direito
de chamar o fato de molecagem, pois eles não eram
moleques. Indaguei dele que nome eu poderia dar a quem
agia daquela maneira, no que, prontamente me respondeu:
- Aquilo tudo foi
vandalismo. Eles podem ser vândalos, moleques não!.
Como aceitei a nova
denominação, a reunião foi encerrada sob a promessa de
que novos atos de vandalismo não iriam mais acontecer.
A criação de cães
soltos no condomínio era proibida pelo regulamento.
Cachorro só preso em casa. Mesmo assim alguns não
cumpriam corretamente essa parte do regulamento. Um
morador tinha um cachorrinho que deixava fugir tarde da
noite, para que ele tivesse um pouco de liberdade sem
incomodar. Numa dessas fugidas o cão depois de
correr o condomínio todo, foi esbarrar em frente ao
terraço de Silvino Espínola, onde ele dormia numa rede.
E tome latidos que acordaram Silvino que enxotava o
cachorro que fugia mas voltava para latir. Depois de
algumas tentativas de expulsar o inconveniente
visitante, Silvino não contou conversa: foi até à casa
do proprietário do animal e bateu palmas. Acordados
assustados à uma hora da manhã, encontraram Silvino bem
sentado numa das cadeiras do terraço e cordialmente
anunciando:
- Vim chamar vocês
para ficar aqui conversando comigo. Batendo papo, não
sabe?
Diante da
perplexidade dos acordados, ele explicou:
- É que o
cachorrinho de vocês está na porta da minha casa
latindo, sem deixar que eu durma. Então eu achei que era
justo que vocês também não dormissem, pois são os donos
dele...
58
IMPEDINDO
O
CRUZEIRO DO SUL
Na "Village Atlântico Sul" as casas foram construídas em
várias ruas e locadas umas de frente para outras ou
então com os pequenos quintais encostados uns aos
outros. O quintal da casa do professor Silvino
Espínola fazia fronteira com o quintal da casa adquirida
pelo comerciante Garibaldi Cittadino, juntamente
com o seu genro na época, médico Fábio Rocha. Garibaldi
entusiasmado com o novo investimento, resolveu construir
mais um cômodo de primeiro andar, em cima da garagem da
sua casa. Entretanto, a nova construção, embora não
invadisse o terreno da casa do professor Silvino,
poderia fechar o seu espaço alto do lado sul da garagem.
Quando a obra ainda estava no seu início o professor foi
até Garibaldi, preocupado com a possibilidade de ser
prejudicado.
Não havendo um acordo, entrou com uma ação judicial para
impedir a obra tendo como principal argumento que
ficaria, da sua garagem-terraço, impedido de avistar o
Cruzeiro do Sul...
E ganhou a questão!
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