SUCEDIDOS

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MISTURA DE

PAULOS

                   Paulo Pontes chega a João Pessoa,  para iniciar os trabalhos da montagem do espetáculo teatral “PARAÍ-BÊ-A-BÁ”, fruto dos entendimentos que tivemos, junto com Raimundo Nonato Batista, quando ainda estávamos no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo foi realizado também por Paulinho um outro espetáculo, com o título de "Paraíba Pra Seu Governo", comemorando o primeiro ano da gestão de João Agripino, que deu todo o apoio necessário aos dois empreendimentos, através também de Noaldo Dantas.

                  Após a conclusão desses projetos, Paulo Pontes continuou em João Pessoa, preparando um outro, de reestruturação e renovação da programação da Rádio Tabajara, a pedido de Noaldo, que lhe abriu as portas da Secretaria Para Assuntos Extraordinários para o que precisasse naquela nova tarefa. Assim passamos a nos encontrar sempre na Secretaria, instalada no antigo prédio do jornal A União, no lado que dava para a Praça 1817, palco de várias manifestações políticas contra a ditadura militar existente.

                   Estávamos no gabinete do jornalista Biu Ramos, que fazia as vezes de substituto eventual de Noaldo, quando, ouvindo o barulho de gritos, protestos, tiros, procuramos ver o que estava acontecendo e nos deparamos com uma nova manifestação contra o regime militar, envolvendo estudantes, operários, professores, todos confrontando-se com a polícia, chamada para acabar com aquele ato público. Foi quando Paulinho presenciou a polícia batendo no povo, atirando para cima e ameaçando atirar nas pessoas. De volta ao gabinete, indignado, pediu a Biu Ramos o telefone direto do Governador, no que foi atendido. Ligou, e falando com João Agripino, disse, mais ou menos, o seguinte:

                   - Governador! Quem fala aqui é Paulo Pontes. Acabo de presenciar cenas indignas de qualquer governo. A sua polícia, Governador, batendo no povo e ameaçando-o com metralhadoras. Quero lançar aqui o meu protesto contra essas arbitrariedades e solicitar as suas providências no sentido de fazer voltar esses soldados para o quartel. Estou ainda em João Pessoa trabalhando para o seu governo, fazendo um trabalho na Secretaria do Dr. Noaldo Dantas, mas a responsabilidade do que eu disse é só minha. Se o senhor quiser pode mandar o Secretário cancelar o meu contrato, mas o meu protesto continua.

                   João Agripino disse apenas obrigado ao final do telefonema. Paulinho continuou o seu trabalho e a polícia também, na rua, a bater no povo. Terminado o projeto da nova programação da Tabajara, Noaldo foi ao Governador para conseguir recursos para a sua implantação e, naturalmente, teve que citar o nome de Paulo Pontes. Dizem que João Agripino reclamou:

                  - Esse rapaz de novo?! Eu já não o nomeei para a direção do Teatro Santa Roza, depois que ele telefonou protestando contra o meu Governo!  O que é que ele quer mais?

                  Paulo Melo era quem havia sido nomeado Diretor do Teatro Santa Roza, a pedido de alguns intelectuais da Cidade e, por isso, andaram dizendo que pegou carona na brabeza de Paulo Pontes.

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A SORTE DO

MINISTRO

            Alguns membros da minha família, do lado dos Navarro, costumavam dizer que o Ministro José Américo de Almeida dava azar. E até batiam em alguma superfície de madeira quando se pronunciava o nome dele, afirmando que, com aquele gesto, estariam isolando o perigo de que acontecesse alguma coisa negativa. Essa prática também vi de outras pessoas que não eram Navarro, e que  sem justificarem-se, apenas diziam que o nome dava azar. A minha família usava o episódio da morte de Antenor Navarro como razão: ele, campeão de natação, moço, ágil, morreu afogado no mesmo desastre de aviação - o avião caiu no mar - no qual José  Américo, que não sabia nadar, mais velho, com problemas de visão e uma perna quebrada, conseguira sobreviver agarrando-se a um pedaço da aeronave.

                   Particularmente, nunca acreditei nessa superstição. Mantinha um bom relacionamento com o Ministro, freqüentava vez em quando a sua residência em visitas de cortesia ou em busca de apoio para algum interesse pessoal. Tomei do seu uísque, regrado, pois no momento em que Gonzaga Rodrigues, Biu Ramos, Altimar Pimentel, Paulo Melo ou eu mesmo, já houvéssemos tomado mais de uma dose, ele não esperava muito tempo para anunciar: "Lourdinha, recolha essa garrafa de uísque. Os meninos já beberam demais!"

                   Acho que, ao contrário, ele sempre me deu sorte! Todas as vezes que precisei dele fui prontamente atendido. Até num caso estritamente pessoal, como foram as declarações que  assinou responsabilizando-se por mim e por Marileide Araújo ( na época casada comigo e por isso Navarro também), que foram juntadas a um processo que respondíamos juntos no Quarto Exército em Recife, acusados de subversivos políticos pelos caçadores de bruxas da última ditadura militar brasileira. Não seria nem preciso dizer que fomos absolvidos!

                   No Governo do Professor Ivan Bichara Sobreira, era eu o candidato natural a diretor do Teatro Santa Roza, com o apoio de vários artistas e intelectuais meus amigos. Como ainda era um governador nomeado, as restrições continuavam às pessoas delatadas aos órgãos de (in) segurança do Governo Federal. O assunto foi levado ao Ministro, que convocou o Deputado Antônio Nominando Diniz e lhe deu a seguinte missão: "Vá com Navarro procurar Adolfo e diga a ele que resolva a situação. Eu quero ele na direção do Teatro Santa Roza." O Coronel Adolfo Maia, então Secretário da Segurança e Comandante da Polícia Militar, nos recebeu muito bem, prometendo que iria ao Grupamento de Engenharia e se nada houvesse contra mim depois de 1968, tudo estaria resolvido. Posteriormente informou-me estar tudo resolvido, apenas que as denúncias anteriores não seriam canceladas, ficariam arquivadas. Foi assim que cheguei à direção do Teatro Santa Roza. Foi aí que tive a sensação de ter entrado para a história da Esquerda Brasileira: depois de ter sido excedente da quota de comunistas do Governo Ernani Sátiro, participei  da quota de comunistas do Governo Ivan Bichara!

                   Hoje, com tanta coisa ruim me acontecendo, acho que a sorte me abandonou. E pensando bem, ela começou a ir embora com a morte do Ministro. Que azar!

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A TRANQÜILIDADE

DE IVAN BICHARA

             O Secretário da Educação e Cultura, Tarcísio Burity,  fanático por música clássica, reformulou a Orquestra Sinfônica da Paraíba em convênio com a UFPb, logo no início do Governo Ivan Bichara, dando-lhe condições de funcionamento. Um concerto foi marcado para o Teatro Santa Roza, sob a regência do maestro Eleazar de Carvalho. No dia do acontecimento a ameaça de chuva era constante e na hora do concerto choveu forte.

                   No palco muitos músicos e Eleazar de Carvalho. Na platéia, o Governador, o Secretário e um pequeno público, por conta da chuva. Bem não havia começado a primeira parte do programa, um pingo d'água começou a cair em cima das partituras do maestro, que as deslocava de um lado para o outro, tentando evitar a incômoda goteira. Não bastasse esse vexame, eis que surge um morcego dando vôos rasantes por cima do maestro, o que o estava deixando visivelmente irritado.

                   Rezei para que tudo aquilo terminasse logo, pois como o novo Diretor do Teatro eu não sabia ainda como justificar as deficiências apresentadas. Por outro lado, a coreografia que o morcego fazia, já estava causando o riso de alguns espectadores menos avisados, o que, certamente, iria aumentar a minha responsabilidade para com a situação.

                   Terminado o concerto, fiquei esperando as reclamações. Não demorou muito até  alguém me informar  que o Governador queria falar comigo. É agora, pensei. E fui enfrentar a "fera":

                   - O senhor me chamou, Governador?

                   - Você é Elpídio, o Diretor ?   

                   - Sim...

                   - Muito prazer! Tudo bem, como está você?

                   - Mais ou menos... Tentando resolver...

                   Eu estava era todo enrolado. Não sabia como continuar aquela conversa, como explicar a situação. Acho que o Governador percebeu a minha intranqüilidade. Chamou-me à parte e perguntou:

                   - Elpídio, o que é que se pode fazer para acabar com esses morcegos?

                   - Derrubar os oitizeiros existentes aí na Praça Pedro Américo! Os morcegos se alimentam do fruto deles...

                   Claro que era uma solução simplória, própria de quem não tinha conhecimento de outras soluções, porém a única que me surgiu no momento. O Governador riu, e ainda mantendo a mesma calma inicial, falou-me:

                   - É, assim é difícil! Mas faça o seguinte: peça  ao Secretário para que sejam providenciados reparos no telhado do teatro. Quanto aos morcegos, veja se você consegue descobrir uma outra solução.

                   Educadamente me deu boa-noite e tranqüilamente retirou-se, deixando-me com aquela sensação de ter lhe proporcionado  uma patente demonstração de incompetência.

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FESTIVAL DE ARTE

DE AREIA

                   Durante quatro anos consecutivos, de 1976 a 1979, a cidade de Areia, no brejo paraibano, foi cenário do evento cultural mais significativo de todos os que foram realizados naquela década no País: o seu Festival de Arte. Eles aconteceram  exatamente quando o Brasil passava pela mais violenta truculência,  censura e  terror impostos por uma ditadura militar, que nunca escondeu o seu medo e a sua reação castradora ao livre pensamento e às ações intelectuais e artísticas brasileiras. Embora o Festival tenha continuado após 1979, posso referir-me apenas aos quatro primeiros, pois só deles participei.

                  A escolha da cidade de Areia para sede de um festival de arte não só deveu-se à sua tradição cultural e berço de personalidades como Pedro Américo, Aurélio de Figueiredo, Álvaro Machado, Coelho Lisboa e José Américo de Almeida, mas também à sua condição de poder proporcionar espaços para a realização do evento, como a Escola de Agronomia do Nordeste, o  Colégio Santa Rita e o Teatro Minerva (o primeiro construído na Paraíba) e oferecer um "clima europeu em pleno verão tropical".

                  Os festivais abrigaram, nos seus diversos espaços, os nomes mais expressivos da cultura nacional da época, como Antônio Callado, Nélida Pinon, Ivan  Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Mário Pedrosa, Aloísio Magalhães, Ferreira Gullar, Fernando Peixoto, Luiz Mendonça, Paulo Pontes, Nelson Xavier, Gianfrancesco Guarnieri, Ziraldo,  Dias Gomes, Marlos Nobre, Aylton Escobar, Guerra Peixe, John Neschling, Muniz Sodré, Moacy Cirne, João Câmara, Maurício Kubrusly, Luiz Paulo Horta, Sérgio Cabral, Walter Lima Júnior, Leon Hirszmann, Guido Araújo, Alex Viany, Eduardo Coutinho, José Wilker, Jackson Ribeiro, Clyde Morgan, Herder Parente, Wladimir Carvalho, Rui Guerra, Marcus Vinicius de Andrade, Henfil, Pedro Santos, Flávio Tavares, Arlindo Teixeira, Linduarte Noronha, Hermano José, Altimar Pimentel, Luiz Augusto Crispim, Elizabeth Marinheiro, Raul Córdula, Yara Rosas, Paulo Melo, Alberto Kaplan, Laís Aderne, Neide Mendonça , Maria de Lourdes Ramalho, Breno Mattos e mais um bocado de gente importante que participou e que durante aqueles quatro anos, reunidos numa ilha de liberdade de expressão no Brasil, como chegou a ser denominada a cidade de Areia pela imprensa nacional, puderam debater, analisar e até protestar contra a situação em que se encontravam as artes, a literatura e o jornalismo brasileiros, mesmo informados e alertados para a infiltração entre os participantes, de agentes da repressão oficial.

                    Esses Festivais tiveram homenageados especiais como José Américo de Almeida,  no primeiro e que compareceu à sua abertura; Paulo Pontes no segundo, infelizmente já falecido quando homenageado; no terceiro a homenagem  foi para o romance A Bagaceira, o que resultou numa repetição de homenagem ao seu autor e o quarto ao crítico literário Virginius da Gama e Melo,  também na época já falecido. Por tudo isso, a história dos quatro primeiros Festivais de Arte realizados na cidade de Areia é parte importante da vida cultural do País e merece ser lembrada e divulgada. Mas essa é outra história. Aqui pretendo narrar tão somente os momentos de descontração, os acontecimentos engraçados e as curiosidades acontecidas naqueles dias de tanta seriedade.

                   Como diretor executivo recebia, todos os dias, reclamações as mais estapafúrdias que se possa imaginar. Lembro de uma que era um primor de reclamação: "a minha toalha de banho eu esqueci no banheiro e ela desapareceu; era uma toalha de estimação, de veludo..." Geise Helena, amada e amiga, estava comigo na ocasião e não deixou que eu respondesse:  "Oi! Toalha de estimação não se usa; toalha de veludo não enxuga!"

                   Um grupo se reunia após os trabalhos, sempre num bar, para um animado papo acompanhado de bebidas e comidas, para desopilar, comentar, analisar e até fofocar sobre o festival. Era basicamente formado por Pedro Santos, Fernando Peixoto, Marcus Vinícius de Andrade, Yara Rosas, Paulo Melo, Mariza Melo, Altimar Pimentel, eu e meu filho Luiz Maurício. A esses encontros o consenso denominou-os de pesquisas. Então, após o trabalho a pergunta era: "tem pesquisa hoje?" Numa dessas pesquisas, por falta de outro assunto, alguém propôs uma disputa para ver quem contava a piada mais sem graça. Foram tantas tão sem graça que, a princípio, se achava graça por elas não terem graça e depois ninguém achava mais graça! Mas chegou a vez de Altimar Pimentel contar a dele e foi logo avisando:

                   - Eu sei de uma que eu acho engraçada, mas muita gente não achou quando eu contei, por isso acredito que ela possa concorrer. É sobre uma apresentação de um "Bumba Meu Boi" lá em Cabedelo. A brincadeira estava acontecendo no terreiro de uma casa, com a presença de autoridades locais, inclusive o delegado de polícia. Um cara lá que não gostava do dono da casa, chamou o Mateus, que é um personagem que improvisa e ofereceu cem mil reis e uma garrafa de cachaça, para que ele na sua improvisação,  esculhambasse  o dono da casa. O Mateus aceitou a parada e na hora que o boi vai ressuscitar, saiu-se com essa: "Levanta-te boi sacana, balança os culhões e vem. O dono da casa é corno e o delegado também..." O pau cantou e acabou a brincadeira. 
                                                                                         
                   Todos riram bastante, principalmente Fernando Peixoto, que quase não parava de achar graça na piada e, por conta disso, pegou o apelido de Boi Sacana, pelo qual atende até hoje!

                  Os convidados especiais, professores e organizadores dos Festivais se hospedavam no Colégio Santa Rita, em apartamentos coletivos e individuais. Lembro que num dos maiores apartamentos, fiquei junto com Marcus Vinícius de Andrade, Fernando Peixoto e Ruy Guerra. O quadro era incrível: Ruy passava a maior parte da noite lendo e fumando um charuto; Fernando Peixoto conversando com ele; Marcus roncando e de vez em quando acordando com o barulho do seu próprio ronco e, finalmente, eu, sem conseguir dormir. Para completar, no apartamento vizinho estavam Raul Córdula e Breno Mattos, de onde se ouvia um roncado, seguido do ruído de uma rede balançando. Perguntei a Raul quem estava dormindo de rede no apartamento dele, ao que me respondeu que ninguém, pois lá não havia rede alguma.. À noite, outra vez o ruído da rede. Então não me contive: subi numa mesinha e fui olhar por cima da parede divisória, constatando que não se tratava de uma rede e sim do rangido de dentes de Raul Córdula.

                  Pedro Santos estava num outro apartamento, cujas janelas abriam para o pátio interno do Colégio. Numa das noites, por insônia, Pedro ficou debruçado na janela durante um bocado de tempo. Foi quando ouviu um curioso diálogo entre duas jovens em fase de iniciação homossexual:

                   - Faça isso não que eu não gosto...

                   - Ninguém tá vendo não!

                   - Meu peito tá doendo!

                   - Pegue no meu também...    

                   - Pode chegar alguém... Pare! Eu não gosto não...

                   - Então eu vou embora.

                   - Não, vá não! Fique aqui comigo...  

                   - Então vamos aproveitar! Faça em mim também...

                   - Ai, ai... Pare! Eu não agüento mais... Eu não gosto dessas coisas não...

                   - Então pare de fazer em mim!

                   - Não posso! Venha, faça...  Ai, ai, pare que eu não quero não...

                   Foi quando Pedro interveio gritando de cima:

                   - Gozem logo de uma vez ou acabem com essa frescura que eu quero dormir!

                 As duas correram assustadas para o dormitório das alunas dos diversos cursos que havia no Colégio, sem se deixarem identificar. A insônia de Pedro Santos só fez aumentar.

                 Uma determinada professora convidada, dormia sozinha num dos apartamentos. À noite se ouviam sons denunciadores de que havia mais alguém com ela. Ninguém conseguia descobrir quem era. A curiosidade cresceu, principalmente dentro do grupo feminino, que queria saber quem estava ferrando a tal moça. Como o corredor entre os apartamentos não era bem iluminado, alguém teve a idéia de colocar, a cada noite,  talco no chão da porta de um apartamento masculino. Não precisou ir muito longe, porque logo na primeira noite o fantasma, sem perceber, deixou seu rastro até ao local dos gemidos e seu nome foi revelado.

                    Mas deixando  essas sadias safadezas de lado, porque num lugar onde se juntam homens e mulheres o diabo fica no meio e, por isso, tornava-se tudo natural, também tivemos   momentos  sérios e, ao mesmo tempo engraçados, durante esses quatro anos. Um deles foi na abertura do IV Festival. O orador oficial era o internacional crítico de artes, o pernambucano Mário Pedrosa, já de elevada idade, denunciada pela totalidade de seus cabelos brancos.  Na mesa, Governador, Prefeito, Secretário da Educação e Cultura, representantes de Ministérios, Universidade, Embrafilme, Institutos e o Padre Rui Vieira, Pároco de Areia, a maior parte dessa gente colocada naqueles postos pela ditadura militar de 64 ou aliados dela. Em dado momento de seu discurso, Mário Pedrosa, em meio à atenção geral, soltou essa beleza de frase intranqüilizadora:

                    - Porque nós, comunistas, temos a responsabilidade...

                    Ninguém deixou de perceber os semblantes dos ocupantes da mesa oficial: pálidos,  sérios e provocando hilaridade.

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DE MOTEL, MULHER

E FEIRA

             Fui acordando devagarzinho como se estivesse saindo de um processo anestesiante. Crescia a sensação de que havia alguma coisa errada que eu não sabia ainda o que era. De repente, o clarão do sol invadindo o quarto pelos  vidros da janela e o acordar para a realidade: havia pegado no sono num quarto de motel!

                   Pulei da cama apavorado, acordei a namorada, exigindo que se aprontasse rapidamente que eu precisava ir embora.  Ela, displicentemente, virou-se para outro lado:

                   - Eu não tenho problema de hora para chegar em casa...

                   - Mas eu tenho! Hoje é sábado, tem a feira...

                   - Então vá pra feira!

                   - Vou embora e deixo você sozinha aqui!

                   Diante da ameaça ela resolveu me atender. Já no carro, dirigindo-me para a casa de uma tia da namorada, onde ela se hospedava quando vinha para João Pessoa, um grande problema afligia-me: o que explicar à mulher quando chegasse em casa? Para a jovem  não havia nada demais, pois ela morava em Campina Grande e a tia era uma coroa alcoviteira. Mas comigo nunca havia acontecido uma situação daquela. E a sacana ainda veio fazer piada comigo ao ver a minha aflição: "então vá pra feira!"

                    Seis e meia da matina, uma fria despedida e o aborrecimento pela falta de solidariedade daquela minha companheira de farra braba e irresponsável. E a piadinha não saía do meu juízo: "então vá pra feira!" Espere! Pensei um pouco. Não será que ela é quem tem razão? Mulher sempre tem! Disse comigo: eu vou é pra feira! Não adianta nada ir pra casa agora, a merda já está feita mesmo! E não pensei outra vez.

                   Fiz uma feira exagerada, principalmente com as coisas que satisfaziam à mulher e aos filhos. Claro que  por conta de um baita sentimento de culpa! Terminadas as compras, carro lotado, restava-me a pior parte dessa melódia: o que dizer quando chegar em casa? Não adiantava protelar, pois isso só iria piorar a situação. Por outro lado, àquela altura, com o carro cheio de feira, eu já não podia pensar noutra saída. Fui à luta! Guerra é guerra!

                   No caminho para casa fui pensando em outras dificuldades que eu havia me metido e nas soluções dadas. Não sei por que cargas d'água me veio a lembrança da minha infância na Rua da República, quando eu tive de enfrentar Toínho Baiôco (Antônio Costa, hoje falecido coronel reformado da Polícia Militar e meu amigo) numa briga na esquina do Cinema Astória.  Toinho era mais experiente e mais forte. Se aceitasse o desafio, certamente iria apanhar. Se não aceitasse seria considerado medroso. Foi então que um outro amigo, Daniel Braz, incentivou:

                   - Chega logo dando o primeiro murro. Tu levas vantagem! Depois tu podes levar um também, mas já deste o primeiro... E  até não levar nenhum,  alguém pode apartar a briga!

                   E foi o que aconteceu: o fator surpresa deixou Toínho, por algum tempo, desnorteado e quando recuperou-se e partiu pra cima de mim, já alguém acudiu e parou a briga. Restaram-me as ameaças de que me pegaria noutra ocasião, o que não aconteceu porque ficou meu amigo.

                    Sete e meia abro o portão do jardim, entro com o carro e começo a buzinar com insistência. A mulher aparece ainda com cara de sono e vem abrir a grade do terraço, reclamando das buzinadas e perguntando:

                   - Chegando a essa hora?!

                   - Da feira!

                   Gritei, demonstrando estar aborrecido. E continuei o meu discurso, sem lhe dá oportunidade de falar:

                   - E na próxima semana quem vai é você! Eu não agüento mais fazer tudo sozinho nessa casa! Estou cansado... Desde cinco horas da manhã que estou dando duro nessa feira! Tenho que  ir cedo para poder escolher  melhor! E os preços? Com essa carestia a gente precisa procurar muito onde é mais barato. E isso enche o saco, eu já estou de saco cheio, chame logo a empregada para ajudar a descarregar o carro que eu preciso ir ao banheiro, estou me cagando!...

                   - Calma! Não precisa se afobar! Lembre-se que é você quem faz questão de ir pra feira!

                   - Porque você não acorda cedo  e quando chega lá já não tem mais nada que preste! Acorde cedo uma vez!

                   - Tudo bem! Não precisa mais de discussão. Vá cuidar da sua barriga que eu guardo a feira...

                   E ficou o acontecido pelo não acontecido, o dito pelo não dito e o assunto foi esquecido. Eu havia dado o primeiro murro!

 

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CARAVANA

ARTÍSTICA

                   O Governo do Professor Ivan Bichara, que tinha como Secretário da Educação e Cultura um outro professor, depois também Governador, Tarcísio Burity, e ainda Paulo Melo como Diretor Geral de Cultura,  foi um período de ouro para as artes  paraibanas. O trio não media esforços para promover os nossos artistas dentro e fora da Paraíba. Aconteceram  importantes eventos, como o Festival de Arte de Areia, o Festival Internacional de Violoncelo e a recuperação e crescimento da Orquestra Sinfônica da  Paraíba, entre muitos outros. Um deles marcou época pela sua originalidade e pela abrangência da sua ação divulgadora do fazer artístico-cultural  paraibano. Foi a Caravana Artística  da Paraíba, projeto originado de uma idéia do Maestro Pedro Santos e que levou às cidades de Fortaleza, Teresina,  São Luís, Belém e Manaus os nossos teatro, cinema, canto coral, escultura, pintura, literatura e folclore. De ônibus até Belém e de lá até Manaus de avião, os artistas paraibanos divulgam os seus trabalhos, muito bem recebidos por todos os públicos das capitais visitadas, no período de 27 de agosto à 10 de setembro de 1976.

                   Uma das maiores emoções que eu já senti aconteceu em São Luís do Maranhão, na tarde do dia dois de setembro. Era o meu aniversário e já passava do meio dia sem que ninguém fizesse qualquer alusão ao fato. A maioria do grupo não sabia mas algumas pessoas mais aproximadas, sim. Pedro Santos e  Mirócene Amorim sabiam e bastavam eles dois para a notícia se espalhar. Mas nem eles falaram comigo! A minha decepção foi crescendo à medida que se aproximava a hora de reunir o grupo todo para dirigir-se ao teatro, onde teríamos estréia naquela noite. Seis horas da noite e nada! Mas o que fazer? O jeito era começar a convocar o pessoal para o trabalho e assim foi feito. O grupo foi chegando pouco a pouco  e se juntando para ouvir as últimas recomendações, pensava eu, quando de repente, sob a batuta de Pedro Santos, o Madrigal Paraíba começou a cantar uma canção dessas de feliz aniversário e eu, sem saber como reagir, perplexo e abestalhado, fui salvo por Mirócene que entrou em cena trazendo  um improvisado bolo com velinha e tudo, além de uma dose de gin com água tônica, me descontraindo e, é bem possível, evitando que eu chorasse de emoção.

                    Após quinze dias de trabalho ininterrupto, os trinta e seis membros da Caravana foram gratificados com a estada de cinco dias livres em Manaus, para usá-los como bem entendessem.  

                   O Coronel do Exército José dos Passos Fernandes de Carvalho, servindo no Colégio Militar em Manaus, assumiu a condição de bom anfitrião e nos convidou, a mim, Breno Mattos e sua prima Anunciada Fernandes, para um passeio pelo rio na sua lancha. Fomos Breno, eu e Zé dos Passos, todos trajando bermudas e calções, roupas de banho, enquanto Anunciada se apresentou de saia rodada, blusa,  sapatos de salto alto, pulseiras, colares, penteado feito e maquiagem. Nada poderia ser mais contrastante! Mesmo assim, foi! E lá pras tantas, bem no meio do Rio Negro, avistamos um barco bem maior, onde encontrava-se, também passeando, outra parte do grupo.  Anunciada apressou-se em manifestar desejo de passar para aquele outro barco e foi aí que aconteceu o grande vexame: a nossa lancha era baixinha enquanto o outro barco era bastante alto e, assim, teve Anunciada que subir por uma escada, meio atrapalhada com o salto alto e incomodada com o vento que levantava a sua saia generosamente, enquanto nós, humildes observadores, aguardávamos, em baixo, o desfecho do transbordo. Consciente de que não poderia, ao mesmo tempo, segurar  a saia e subir a escada do barco, virou-se para o primo e sentenciou:

                   - Zé, mande todo mundo fechar o olhos! E você também!...

                  O passeio continuou sem Anunciada. Depois de presenciarmos de pertinho o encontro das águas dos Rios Solimões e Negro, Zé dos Passos nos levou a um igarapé onde havia um bar flutuante, contornado por terraços, e dentro do salão uma mesa de sinuca , um balcão, prateleiras com bebidas, onde predominavam muitas garrafas de aguardente Caranguejo, fabricada  em Campina Grande, na Paraíba. Ocupamos um mesa num dos terraços e  usamos o nosso tempo para pescar e conversar, regados  à aguardente com o único tira gosto existente no momento: charque. Entramos tarde a dentro naquela animação de pescaria, para mim um tanto estranha, pois os peixes embora tivessem cores diferentes, tinham o mesmo formato: todos eram bagres, pelo menos no jeitão! Entardeceu  e o dono do bar começou a fechar as janelas do salão, dando-me a idéia de que era hora de batermos em retirada. Chamei a atenção para o fato, mas Zé dos Passos disse que as janelas estavam sendo fechadas porque estava chegando a hora da carapanã. Como eu não sabia do que se tratava imaginei que carapanã seria uma espécie de crença religiosa ou coisa que o valha e, para não passar por ignorante, fiz de conta ter conhecimento do assunto. Não demorou muito até eu levar a maior surra de muriçocas gigantes de toda a minha vida. Todo encaroçado pedi ajuda ao dono do bar sob gozação de Breno e Zé dos Passos, que nada estavam sentindo com as picadas  do tal inseto, diferentes de mim, altamente alérgico. Passada a tal hora, voltamos para o alojamento onde estávamos hospedados e  chegamos depois de oito paradas em bares  pelo caminho, para tomar a saideira! Breno fez questão, sob nossos protestos, de levar para o dormitório a enfieira de peixes, pois queria mostrar o resultado da pescaria aos companheiros.  Ninguém encontrava-se lá! Com aqueles peixes,  sem poder tratar ou guardar, saiu correndo pelo meio da rua em busca de Zé dos Passos para devolver-lhe o troféu...

                   No dia seguinte foi organizado um passeio a um balneário denominado de "Ponte do Boliva", onde havia um banho e um restaurante que servia um delicioso tucunaré, preparado num molho especial. Cheguei um pouco atrasado e logo ao meu encontro veio Ednaldo  do Egipto, avisando-me confidencialmente:

                   - Cuidado! O pessoal lá no restaurante está exagerando! Já vão na quarta travessa de peixe, que, pelo tamanho, deve ser caro e quem entrar ali vai ter que dividir a conta! Quando eu vi a situação, nem me aproximei, fiquei de fora!

                   - Ora, Ednaldo, eu vou lá e não participo. Não sou obrigado! Mas eu tenho que ir lá, são meus amigos... Você procurou saber o preço?

                   - Não, mas pelo jeito não é barato! Eles estão pedindo sem perguntar preço!...

                   - Está bem, eu vou lá saber,  e se for como você diz, vou alertá-los...

                   - Isso! Depois você me conta.

                   Entrei, falei com todo mundo, experimentei o peixe, estava uma delícia, fui até ao balcão e perguntei o preço. Comecei a rir: era ínfimo! O equivalente hoje a uns dois ou três reais. Pedi que aprontassem  um outro peixe daqueles e fui sentar-me à mesa com os companheiros, sob os distantes e curiosos olhares de Ednaldo, que não parava de esticar o pescoço em nossa direção! Fartos, resolvemos parar a comilança e pagar a conta. Tudo foi feito com Ednaldo distante, talvez pensando: “agora vão se lascar!”

                   Saí ao seu encontro e ele foi logo adivinhando o que teria acontecido:

                   - Deu bem uns cinqüenta pra cada um, heim!

                   Informei-lhe os valores , ele não acreditou  e resolveu ir até ao restaurante e certificar-se. Diante da constatação, sentou-se à uma mesa  e pediu três peixes de uma vez!

                  Mas nem todas as lembranças da Caravana são maravilhosas. A companheira Marinete Lelis de Almeida após as nossas apresentações em Manaus precisava urgentemente retornar a João Pessoa, pois estava com uma cirurgia marcada para antes da volta de todo o grupo. Nos desdobramos, eu e um irmão de Pedro Santos que morava lá em Manaus, para conseguir uma vaga num avião que a trouxesse de volta dentro do prazo desejado. Conseguimos! Marinete nos agradeceu com tanta felicidade que nos deixou também bastante felizes por ter podido ajudá-la. Quando chegamos de volta e que o ônibus parou em frente ao Teatro Santa Roza, a primeira notícia que tivemos foi a do falecimento de Marinete, vítima de hemorragia  durante uma cirurgia plástica...

52

VINGANÇA

(I)

                   O telefone tocou no momento em que, no televisor, apareciam as previsões zodiacais para a semana que se iniciaria no dia seguinte. Não ouvi logo o som da campainha. Não que as coisas do horóscopo me fossem, de alguma forma, importantes. Apenas, como distração, esperava curioso o que os astros haviam me reservado para os próximos dias. Por isso, atendi ao chamado sem arredar a atenção da imagem que representava o signo Virgem e daquela voz misteriosa que já começava a decretar a minha sorte nos negócios, na saúde, nas viagens e, principalmente, no amor! Por isso tudo, atendi ao telefone de forma apressada, como quem quer se livrar de um incômodo:

                   - Pronto? Quem é? Quer falar com quem?

                   - Que é isso, professor?! Não precisa afobação! Calma! Se não puder atender, tudo bem, eu ligo outra hora...

                   Uma voz feminina desconhecida, mas de uma pessoa que eu deveria conhecer ou, pelo menos, deveria me conhecer, pois tratou-me por professor. E a voz insistiu:

                    - Alô! Alô!...

                    - Sim?

                    - O que houve?

                    - Nada... Por que?

                 -Você calou-se! Você é sempre assim, no trato com as pessoas?

                    - Olha, você me desculpe... Eu não queria ser indelicado. Apenas eu estava distraído,  vendo o jornal na televisão... Mas diga, é comigo mesmo que você quer falar?

                    - Sim, é com você.

                    - O que é que manda?

                    - Foi o que você escreveu no jornal "O Momento". Aquele recado... Eu li e achei muito bacana! Depois reli como se o recado fosse para mim. Por algum tempo eu fiquei tão feliz!...

                    - Obrigado! Pelo menos a uma pessoa eu já dei felicidade!

                    - Mas ela também deve estar se sentindo feliz. Ela deve ser uma pessoa muito bacana também, não é?

                    - Ela, quem?!

                    Senti-me surpreendido no mais íntimo dos meus segredos. Lembrei-me de indagar:

                    - Quem está falando?

                    - Isso não importa!

                    - Importa, sim. Também não entendi essa coisa de ela se sentindo feliz, ela ser bacana... Ela, quem?

                   - Ora!... Não me venha dizer que você escreveu aquilo simplesmente por escrever. Essa, não! O que você escreveu tem um endereço certo, que, infelizmente, não é o meu...

                   A resposta me chegou com o sabor de uma acusação ou, mais ainda, de uma sentença. Intrigado com as minhas próprias reações e, por outro lado, querendo saber até onde iam as convicções da iniciadora daquele papo maluco, procurei prolongá-lo, atacando de frente:

                   - Muito bem! Já valeu o trote. Reconheço que você me pegou direitinho! Agora diga quem está falando.

                   - Não é nada disso! Você está enganado! Não existe nenhum trote, palavra! Disse a verdade!

                   - Certo, certo... Mas brincadeira tem hora e limite.

                   - Você não entendeu nada! Não entendeu a minha intenção. Eu não queria te chatear, mas se isso está acontecendo...

                   - Não! Claro, que não! Desculpe-me. Só estou curioso.

                   - A tua curiosidade não adianta. Você não sabe quem sou eu e nunca me viu. Eu também não te conheço e nunca te vi. Somente li o que você escreveu no jornal, aquele recado, e procurei o teu número na lista telefônica para dizer o que já disse. Simples! Nenhum mistério, nenhum trote!

                   - Na lista telefônica não tem meu nome!

                   - Mas tem o da sua esposa. -

                   - Mesmo que seja verdade o que você diz, é difícil admitir...

                 - Não procure explicações para minha atitude. Receba tudo como sinceros elogios de uma romântica admiradora secreta. Isso basta.

                   - É!... Pelo visto só me resta agradecer, sensibilizado, o seu interesse pelos meus escritos. Quem sabe, se a gente se conhecesse, se a gente se encontrasse... Poderíamos ser amigos, eu poderia escrever...

                   - Para mim? Não! Não precisa querer ser bonzinho comigo só por causa dos elogios. O mais importante foi dizer o que eu disse e você ter ouvido. Não quero nada em troca. Bastou-me poder dizer que achei bonito o recado, sublime, tudo! Sabe? Ela é uma mulher de sorte. Ela deve ser muito importante para você, não é?

                   - Isso é verdade.

                  - Claro! Não se escreve aquilo tudo para uma pessoa sem importância... Ela também te ama?

                   - É possível...

                   - Perfeito! E o que é que está faltando?

                   - Como faltando?

                   - Por quê os disfarçados recados numa coluna de jornal?

                   - Ah, isso é coisa nossa. Eu também digo a ela pessoalmente, o que não me impede que  escreva. Acho bom assim, sinto-me bem... Há poucos instantes você disse que era bonito, sublime, e pareceu-me ser uma mulher romântica...

                   - E sou!

             - Então? Não acha romântico o que faço?

                   - Acho. Acho mesmo! Você tem razão. Hoje é tão difícil encontrar pessoas românticas como a gente.  Existe tanta coisa ruim acontecendo. Olha, eu vou te confessar umas preocupações que trago comigo, porque você não me conhece, nunca vai saber quem eu sou...

                   Deixei que ela se abrisse completamente, sem mais interromper. Fiquei sabendo alguns dos seus íntimos segredos. Era uma mulher preocupada com o passar do tempo que lhe fora dado para viver, pois, a cada momento passado, sabia tornar-se mais difícil encontrar o que buscava; adorava viver e a sua vida não era lá grande coisa, mesmo possuindo tudo que uma mulher comum pudesse desejar; o marido lhe dava tudo, menos ele mesmo; existiam outras mulheres com quem ele dividia o seu carinho e ela era muito possessiva; que mesmo a natureza não tendo sido muito generosa com ela, não era uma mulher feia; carregava consigo alguns complexos, pois nunca tinha sido alvo de galanteios mal-intencionados, nunca levara uma cantada na rua e sempre passava despercebida por onde andava, mesmo quando usava roupas alegres ou avançadas , dessas que chamam a atenção dos homens. Isso lhe fazia pensar:

                   - O erro só pode estar em mim, na minha cabeça. Nunca tive coragem de enfrentar meus problemas... Minha família é ignorante, sempre ficando do lado do meu marido nas minhas brigas com ele. Meu pai diz que em homem nada pega, que eu tenho todo o conforto que uma mulher pode desejar, que não me falta nada, essas coisas. Não vou a um cinema, não vou a um teatro, a uma exposição de pintura que para ele é uma coisa chata, não vou a um concerto porque ele diz que dá sono! Aí eu me dano com a minha passividade!

                  Confessou ainda que até àquele momento havia se acomodado, sem reagir, mas que aquele telefonema representava o primeiro passo para transformar a sua existência. Mais revelações iriam surgir, quando ela apressou-se em anunciar:

                  - Vou desligar. Ele está chegando com uns amigos. Na certa vão encher a cara aqui em casa. Como eu não bebo, sobra pra mim o abuso e a sujeira. Ele diz que mulher não deve tomar bebidas alcoólicas, que isso é negócio de homem... Qualquer dia desses sou capaz de emborcar uma garrafa cheia na boca e depois armar um escândalo!

                   - Quando você quiser vingar-se de seu marido, estou às suas ordens. Quero ser seu amigo e amigo é para essas coisas mesmo!

                   - Dá certo não. Não tenho peito para isso! Você me ajuda se continuar escrevendo aquelas coisas apaixonantes. Escreve mais, tá? E deixa eu pensar que é para mim. Eu vou me sentir bem, porque essa é a única forma que eu encontro de me vingar, de revidar a infidelidade conjugal dele.

             Sem mesmo um simples até logo, a ligação foi cortada. No televisor a imagem de peixes e o conselho final do horóscopo para o signo da mulher com quem eu estava casado: "Não tome atitudes precipitadas..."

(II)

                   Durante algum tempo fiquei, não nego, impressionado com o que havia acontecido. Cheguei a discutir com algumas pessoas amigas, todas achando que a minha história estava mais para um trote do que para outra coisa qualquer. O tempo foi passando e tudo aquilo caiu no esquecimento. Eu escrevia a coluna "Palco & Platéia" para o jornal "O Momento", onde noticiava e comentava  acontecimentos artísticos e culturais. Ao final da coluna eu sempre mandava um recado para alguém sobre os assuntos mais diversos, algumas vezes recados românticos para uma paixão secreta que existia. Numa determinada semana vi-me sem assunto para mandar o meu recado e lembrei-me da mulher do telefonema. Não contei conversa: "Para você, sofredora anônima, mulher submissa que vive sufocada dentro dessa sua confortável casa e que prefere mil vezes a liberdade de um casebre pobre num bairro afastado, vai hoje o meu recado. Recado cheio de esperanças de que tenha tomado um pouco mais de coragem e tenha mudado um pouquinho de nada, essa sua vida, que me confessou ser infeliz."

                   Foi tiro e queda! Na mesma hora da outra vez, tocou o telefone. Tirei do gancho mas não falei. Primeiro esperei que alguém falasse, com medo de uma decepção. Mas não houve. A voz era a mesma:

                   - Alô! Alô!

                   - Eu tinha certeza que você iria ligar.

                   - Convencido, heim?!

                   - Não. Esperançoso!

                   - Claro que eu iria ligar. O recado não foi para mim? O recado foi uma prova de que você não me esqueceu, que estava com vontade de falar comigo. Por isso tudo, liguei!

                   - Só por isso?

                  - E o que é que você quer mais? Que eu esteja apaixonada por você? Eu nem lhe vi ainda!

                   - Esse "ainda" representa uma possibilidade?

                   - Pode ser... Depende mais de você.

                   - De mim? Mas, como?!

                  - Descubra quem sou eu. Descubra-me! Aí você estaria provando interessar-se realmente por mim, mesmo correndo o risco de uma decepção posterior.

                   - Decepção por quê?

                   - Eu posso não lhe agradar.

                   - Fisicamente?

                   - De alguma forma. Ou você só se interessa pelo físico das pessoas?

             - Não. Não é nada disso. O que eu desejo é te conhecer. Gosto de conversar assim, pelo telefone, contigo... Acho que pessoalmente deverei gostar muito mais. Só não sei como vou conseguir , como vou descobrir...

                   - Bem... Você pergunta sobre mim e o que eu considerar que posso responder eu respondo. Uma coisa eu garanto: sempre responderei a verdade. Vamos! Comece a perguntar.

                   - Tudo bem. Entrarei no teu jogo! És morena?

                   - Não. Branca, dos cabelos pretos e curtos.

                   - Bem, isso exclui muita gente. Em compensação me dá um leque bem grande de opções, numa cidade de seiscentos mil habitantes!

                    - Mas já é alguma coisa, não é? Pergunte mais.

                    - Tua altura?

                    - Nem alta nem baixa. Na faixa de um metro e sessenta.

                    - Um pouco mais baixa...

                    - Do que Marileide ou do que a outra?

                    - Que outra?! E como você sabe o nome da minha mulher?!

                    - Não é tão difícil, convenha. Você é uma pessoa conhecida na cidade. Olha, se você duvidar eu acabo sabendo o nome da outra também!

                    - De que te serviria isso, Maria?

                   - Maria?! Que Maria?! Ah! Você queria era me pegar! Se o meu nome fosse Maria, era bem possível que eu tivesse caído na sua armadilha! Realmente, você é uma cara inteligente, como dizem. Mas por que Maria?

                   - É o nome de mulher mais comum que existe.

                   - Bem, isso é. Mas vou lhe dar uma pista: meu nome não é comum, nem tão pouco incomum.

                   - Pelo menos, diga a primeira letra.

                   - Não! Ficaria fácil! São poucos os nomes...

                   - Com a sua inicial? Ótimo! Essa já é uma boa pista. Qual é o teu peso?

                   - Não sou gorda e nem sou magra. Sou o que poderia ser chamado de uma mulher forte. Mas muito bem feita de corpo!

                   - A falta de modéstia agora é tua !

                   - Eu lhe prometi falar a verdade. Tenho um espelho grande no meu quarto, não sou cega e troco de roupa diante dele. Sou do tipo boazuda!

                   - Idade?

                   - Passo um pouco dos vinte.

                   - E quantos filhos?

                   - Dois: um em cada ano dos dois primeiros anos de casada. Não dormi no ponto!

                   - Casou com que idade?

                   - Ainda ia fazer dezessete...

                   - Puxa!. Casou tão moça e logo dois filhos...

             - Não se preocupe: foram dois partos cesarianos. Eu continuo bem apertadinha!

                   - Ih!... Parece que eu andei pensando alto! Bem, já que enveredastes  por esse caminho, me dás a liberdade de perguntar outras coisas. E os seios?

                   - De uma tamanho que poderia se chamar de normal. Durinhos, durinhos...  Parece até que nunca amamentaram ninguém! E os bicos são quase cor de rosa! São lindos os meus peitos! Toda vez que eu estou nua não me canso de olhá-los no espelho do quarto. E termino acariciando-os, numa tesão maior do mundo. Taí uma coisa que de ninguém eu tenho inveja!

                   - Pare com isso que eu já estou ficando meio diferente!

                  - Ouriçado? Então eu consegui provocar isso por telefone? Vitória! Vingança! E foi também um honra, por tratar-se de você.

                   - É, mas vamos mudar de ritmo, porque estou em casa, de bermudas, a mulher chega e me encontra assim... Pode perceber...

                   - Melhor pra ela! Se não aproveitar é porque é burra. Eu, da minha parte, já estou toda molhadinha aqui!

                   - Menina, pares com isso! Vamos voltar a um assunto mais sério!

                   - Ah, e você não considera sexo um assunto sério?

                   - Claro que sim. Mas eu não estou querendo masturbar-me  pelo telefone!

                   - Olhe a grossura! Eu desligo...

                  - Não, não! Desculpa! Eu só estou querendo descobrir mais sobre tua pessoa. O jogo não é que eu consiga descobrir quem tu és? Assim, desse jeito, eu não vou conseguir! Vou começar a viajar nos teus peitos...

                   - Está bem, volte a perguntar.

                   - Trabalhas?

                   - Sou o que se chama doméstica. Cuido da minha casa e de meus filhos.

                   - E teu marido, trabalha?

                   - Claro! Senão, como eu iria ter essa vida que levo?

                   - Onde ele trabalha?

                   - Essa, não. Aí eu vou dizer tudo! Essa pergunta eu não posso responder. Seria fácil demais para você...

                   - Está bem. Já vi que a coisa é mais difícil do que eu pensava!

                  - Mas eu vou lhe dar uma pista em cima disso: o trabalho dele, só é ele quem faz aqui em João Pessoa.

                  - E o prefixo do teu telefone é 221?

                  - Esse é o prefixo do telefone do local onde o meu marido trabalha. E eu vou parar por aqui. Ele está chegando! Vou ser boazinha com ele depois da minha vingança de hoje, dos chifres que você me ajudou a botar...

                   Desligou o telefone.

(III)

                   Primeira questão: ela deu melhores pistas do marido. Sabendo-se quem é o marido, sabe-se quem é a mulher. Elementar, meu caro Elpídio, pensei.  Segunda questão: o telefone do trabalho do marido tinha prefixo 221. Sabendo-se localizar a área da Cidade servida por esse prefixo, sabe-se a área onde procurá-lo. Também elementar, porém com um grau de dificuldade bastante alto. Essa área era enorme. Ia ser o mesmo que procurar uma agulha no palheiro.

                   A condição era: trabalhar naquela área, num trabalho do qual era exclusivista. De saída encontrei dezesseis pessoas e firmas com esse perfil. Mas nenhum desses dezesseis suspeitos era a pessoa que eu procurava. O que mais se aproximou foi um pastor protestante, naturalmente descartado. Eu não podia conceber um pastor protestante chegando em casa com amigos, enchendo a cara com bebidas num dia de sábado, em plena luz do dia. Não fazia sentido. Mas mesmo assim procurei me certificar e acabei conhecendo a esposa dele, magra, alta e de compridos cabelos claros. Os demais eram sapateiro, passador de jogo de bicho, alfaiate, todos já bem velhos e, aparentemente, de situação financeira muito mais para pobre. Houve também um técnico de rádio e televisão que morava na casa onde tinha a própria oficina, sem qualquer conforto maior. Desisti da minha investigação, pelo menos, naquele momento. Existiam outros afazeres mais importantes. Também estava correndo o risco de serem enganosas aquelas pistas, mesmo tendo a minha estranha leitora garantido não mentir nas suas respostas. Mas mulher é mulher e Adão que o diga!

                   O desafio continuou fazendo parte do meu dia a dia. Mesmo sem perder mais tempo procurando o tal cara que me levaria à mulher dele, pensava no assunto todo dia. Já estava se tornando uma obsessão, acho que muito mais por  conta do desafio. Mandei um outro recado que não teve retorno, quero dizer, o telefone não tocou mais. Mas o tempo é mesmo senhor de tudo e a minha obsessão, aos poucos, transformou-se em curiosidade e daí em lembrança.

                   Já havia praticamente esquecido o assunto, quando mexendo nos meus arquivos no Jornal, encontro uma folha de papel com o título de "Premissas". Eis a relação delas: 1) telefone 221; 2) trabalho exclusivo; 3) rico; 4) farrista; 5) mulherengo; 6) anda com amigos; 7) não gosta de artes; 8) atividade machista que a mulher não gosta dela. Eu tinha todas essas informações,  mas durante todo o tempo só me prendera a duas: o telefone e o trabalho. E as outras?!      

                  Uma nova perspectiva surgiu por uma pequena dedução, sem maior convicção. Uma tentativa: ele não gostava de cinema, teatro, música e outras coisas ligadas à cultura e às artes; entretanto chegava em casa acompanhado de amigos, vindo de algum lugar comum a eles; bebiam, enchiam a cara e conversavam um assunto que à esposa não interessava,  pois ela disse que detestava essas reuniões; ele devia ter uma outra atividade, além da profissional, que normalmente homem gosta e mulher não, ou gosta pouco, ou detesta. A chave do mistério estava era nessa atividade e não no primeiro caminho percorrido. Mas poderia ser tanta coisa, era um leque enorme! Corrida de carro? Pescaria? Caçada? Politicagem? Jogo? Esporte? Quando pensei em esporte, veio logo um palpite e comecei a falar sozinho:

                   - Futebol! Por que não imaginei isso antes? Tem outras formas de esporte, mas futebol é a mais provável. O Brasil tri-campeão, preparando-se para tentar o tetra pela segunda vez, o campeonato paraibano em fase de definições,  só pode ser futebol !

                   - Endoidou de vez?

                   Assustei-me com a pergunta do companheiro de trabalho que me presenciou falando sozinho. Dei uma desculpa qualquer e continuei com as minhas tentativas sherloquianas . Admitindo o futebol, a solução do problema  também não estava tão fácil. Seria ele o quê? Dirigente, juiz, jogador ou, apenas, um torcedor fanático? Mas com o conforto que ele dava à mulher, só poderia ser um homem rico. Juiz ou jogador não era rico, pelo menos na Paraíba!  Restando dirigente e torcedor a lógica apontava para um dirigente, um cartola como chamam. É quem anda acompanhado de uma porção de baba-ovo.

                   Concentrando-me naquela alternativa, acertei na mosca! Palpite feliz! Mas não foi tão fácil chegar a onde eu queria. Dependeu de uma pesquisa que me levou um bocado de tempo: leitura de jornais, conversas com pessoas do ramo, idas aos jogos... Quando as novas informações se encaixaram com o telefone e a profissão, o resto foi fácil. Sabendo quem era o marido, tive o nome e o telefone da mulher. Liguei no mesmo dia e hora que ela ligava para mim:

                   - Como vai essa minha leitora incondicional?

                   Senti o susto que ela sentiu ao ouvir-me. Passou algum tempo sem falar e eu insistindo em anunciar que já sabia quem ela era, onde morava, que não adiantava fingir. Deu-se por vencida e ainda assustada quis saber como eu a havia descoberto. Contei-lhe os detalhes e ao final da minha narrativa ela já estava mais relaxada:

                   - Você é fogo! Pensei em ligar para você, tinha um bocado de novidades... Mas você não mandou mais recados!

                   - Mandei!

                   - Quando?

                   - Acho que na edição da última semana do mês passado. Tá fazendo um mês.

                   - Ah, eu estava viajando!

                   - Chique , heim?!

                   - Pipas! Segunda lua de mel. Deixamos as crianças com minha mãe e fomos comemorar!

             - Comemorar?! Algum aniversário?

                   - Não. Outro filho! Estou grávida, na maior felicidade! Ele está sendo tão bacana comigo. Eram essas as novidades que eu queria te contar. Não é maravilhoso? E isso tudo eu devo a você!

                   - A mim?! Como?

                   - Eu contei tudo pra ele. Os telefonemas, tudo! Só não disse o teu nome, mas é capaz dele saber. Não se preocupe! Ele acha que você não tem culpa de nada, que foi usado por mim! Há princípio ficou um pouco aborrecido comigo, mas depois entendeu que eu fiz tudo aquilo por amor. A gente está vivendo muito bem, já fomos até ao cinema!

                   - Parabéns!

                   - Eu tenho mais é que te agradecer. Mas eu vou desligar antes que ele chegue. Prometi a ele nunca mais falar contigo. Mas hoje foi bom porque eu contei as novidades. Foi uma vingança pequenininha, que eu nem junto com as outras. Mais uma vez, muito obrigado por tudo!

                   Desligou. Fiquei com a sensação de que alguém também se vingara de mim!

53

AUS AUS &

MIAUS MIAUS

          Eu, José Arnaldo Tavares e Ivan Bichara Filho fomos jantar num restaurante chinês que havia em frente ao Hotel Tambaú. Não era a primeira vez e sempre assim procedíamos após sair da residência de Garibaldi Cittadino, onde jogávamos partidas de buraco semanalmente. Tudo era normalidade quando adentra ao recinto Leila Rabay, filha de um nosso parceiro de jogatina, Guilherme Rabay. Juntou-se a nós e, talvez devido a aridez da nossa conversa, ficou sem participar do papo. Na primeira oportunidade que teve não perdeu tempo:

             - Tenho um sobrinho que troca tudo. Quando vê um gato diz:  au, au...  Quando vê um cachorro diz: miau, miau...  Não é muito engraçado?

             Nosso silêncio respondeu. Mas não se contendo, José Arnaldo retruca:

             - Mais engraçado é o meu! Quando vê um galo diz: béééé... Quando vê um carneiro faz logo cu,cu,ru,cu,cu...

             Todos começaram a rir e cada um que inventasse um sobrinho trocando as vozes dos animais. Pura falta do que fazer e uma forma de passar o tempo enquanto esperávamos que o garçom trouxesse os nossos pedidos.

             Em dado momento um casal conhecido, aparentado de um outro nosso companheiro do tal joguinho de buraco, entra no restaurante e passando por nossa mesa nos cumprimenta, acomodando-se a seguir na mesa ao lado. Foi quando duas ações ocorreram ao mesmo tempo: Ivan dizendo que o sobrinho dele quando via um papagaio dizia piu, piu e chamava o pintainho de meu louro; e a moça do casal conhecido estatelando-se no chão ao sentar numa cadeira quebrada da mesa ao lado. Rimos com a piada de Ivan e paramos de rir com a queda da moça, que imediatamente ajudada pelo seu parceiro, levantou-se e nos falou:

            - Podem rir, não precisa parar! Eu sei quanto é ridícula e engraçada uma queda dessa que eu levei. Mas não façam cerimônia! Riam...

            José Arnaldo tentou explicar:

            - Fulana, não é nada disso! Estávamos rindo por causa de uma brincadeira que Ivan disse. Quando você caiu nós paramos de rir...

            - Pararam porque quiseram. Se fosse um de vocês que tivesse caído eu estava rindo até agora! Não, não precisam desculpar-se, eu sei que foi engraçado!

            A partir daí ficamos prendendo uma enorme gargalhada, agora, verdadeiramente, por conta da queda e reação da tal moça.

54

PRECE À

TELPA

              1988 estava terminando e o telefone que eu havia adquirido já há bastante tempo não era ligado na minha nova residência, um apartamento em Manaíra. Após de apelar para todas as formas usuais de conseguir o meu intento, resolvi publicar na coluna Palco & Platéia,  que eu assinava no Jornal O COMBATE, uma solicitação diferente, com o título de “Prece à Telpa”:

               “Ó, Casa Santa da Comunicação, rogai por mim; fazei com que meu telefone seja ligado para que eu possa informar um possível infarto, pois de acordo com a minha idade e peso, estou a perigo; ó, Casa Santa da Comunicação, sejais piedosa, pois já fiz promessas a todos os santos daí e nenhuma graça alcancei, mesmo pedindo a São Zé da Silva, São Arnaldo, São Toledo, São Getúlio, São José Maria Fontinelli, São Zé Raimundo e a São Gervásio, o mais santo; teve até um santo que eu prometi pagar a promessa em dinheiro e não adiantou nada; imagine, ó, Casa Santa da Comunicação, existe uma coisa neste País que nem dinheiro resolve: ligar telefone! Foi aí, ó, Casa Santa, que alguém me lembrou da sabedoria popular: santo de casa não faz milagre! E eu apelei para os santos de fora: para São Jório Machado e São Guilherme Rabay, mas eu acho que eles não são muito santos não porque não obraram milagre algum. Aí pensei em outros santos como São Tarcísio Burity e Santo Antônio Mariz e quando já ia fazer as promessas, surgiu por aqui a Santa Erondina causando o maior reboliço na paróquia, mas os seus adoradores não permitiram a minha aproximação só  porque eu sou de outra religião. Ó, Casa Santa, estou desesperado, pois me informaram que o problema era um tal de cabo de entrada do edifício que estava faltando e eu disse que mandava suprir essa falta, no que fui informado ser essa uma providência exclusiva da Casa Santa e só Ela, unicamente Ela, poderia toma-la. Ó, Casa Santa da Comunicação, quase cometi um terrível pecado: uma amiga, certamente uma pecadora, aconselhou-me que eu lhe escrevesse uma carta-reclamação, com cópia para o Ministro da nossa igreja, entrando depois com uma ação judicial, porque o meu telefone foi comprado já faz cerca de vinte anos, está totalmente pago, é da mesma linha (226) da área para qual eu peço a ligação há seis meses, tratando-se, portanto, de um patrimônio que está sendo impedido de utilização e causando prejuízo ao proprietário e um bocado de coisas mais. Ó, Casa Santa, eu,  por enquanto, cometi o pecado só por pensamento, viu? Um pecado menor! Mas essa minha amiga disse que no caso dela resolveu loguinho, loguinho!  Ó, Casa Santa, e a mulher amada? O que fazer? Não consigo acertar direito os nossos encontros, estou sem telefone... Ontem mesmo quase enlouqueci, pois “o meu cigarro apagou” e a minha deusa não chegava e comecei a pensar: “ela não vem, não vem mais” e a ansiedade tomou conta de mim, pois o telefone não estava ligado, ó Casa Santa, e eu não podia falar com ela. Corro para o orelhão mas no boteco não tinha ficha para vender; corro para outro e compro ficha na barraca, mas o telefone estava com defeito, engolindo tudo que era ficha. Foi aí, ó Casa Santa, que aconteceu o pior: um dos santos daí (digo o milagre mas não digo o nome o santo) explicou que a senhora só estava interessada em ligar telefones novos, uma forma de vender mais... Mas eu não acreditei, juro! Ele deve ser um santo despeitado, daqueles ligados ao senhor anterior... Mas, ó, Casa Santa da Comunicação, mais uma vez imploro: tende piedade de mim, pois “depressa a noite passou” e certamente “ela não vem, não vem mais... e este negro telefone até agora não tocou”.

                          Não demorou muito, o problema foi sanado e o meu telefone ligado. Cheguei até a gritar Aleluia! Mas não demorou muito e me senti no dever de publicar, na mesma coluna (Palco & Platéia - dia 22.01.89) o seguinte:

                           CONCORRÊNCIA

                           Pensei estar sozinho no ramo da oração. Ledo engano. Tenho um sério concorrente na TELPA, como prova a mensagem que transcrevo abaixo, recebida juntamente com dois catálogos de telefones novos:

                           “ALELUIA, caro Elpídio

                            Finalmente o BENDITO telefone que você tanto implorou, subiu ao seu “ORATÓRIO” por obra e graça dos SANTOS INVOCADOS em sua ORAÇÃO. Esperamos ser PERDOADOS pelo pecado de tê-lo feito esperar tanto tempo. Infelizmente MAUS ESPÍRITOS provocaram atraso na entrada de um CABO - imagine um SARGENTO ou um TENENTE - no edifício, apesar das suas PRECES aos SANTOS  de sua “DEVOÇÃO”. Agora cremos que o PECADOR voltará a fazer as CONFISSÕES à sua DEUSA, se outros DEMÕNIOS não insistirem em interferir. A SANTA CASA DAS COMUNICAÇÕES continua à sua disposição e esperamos que em outras SÚPLICAS evitemos a VIA CRUCIS pela qual passou. ASSIM SEJA (Assina) SÃO JOSÉ RAIMUNDO”.

                        Agora, falando sério, obrigado por tudo pessoal. O telefone está funcionando bom danado. Muito obrigado, mesmo!

                        Obs. - José Raimundo era um simpático Diretor da TELPA.

55

A

CANTADA

              Encontrei-a, por acaso, na fila do Banespa, onde eu recebia dinheiro. Ela estava logo à minha frente e parecia preocupada, pois a todo instante olhava para a porta de entrada do Banco, como se esperasse alguém. Chamou-me a  atenção, não só pela forma como estava se comportando, mas, também, e principalmente, por ser uma jovem e bonita mulher. Ao aproximar-se a sua vez de ser atendida pelo caixa, abriu a bolsa e,  retirando  um cheque, deixou-a meio entreaberta. Era a oportunidade que estava faltando  e não perdi tempo para avisar-lhe, querendo muito mais uma aproximação do que fazer-lhe um favor. Quando toquei-lhe o braço para chamar a sua atenção ela assustou-se de uma forma tão exagerada que causou espanto a quem estava por perto, deixando-me, durante alguns momentos, sem saber o que fazer. Recompondo-me, expliquei meio desajeitado:

                   - Moça, desculpe! É a sua bolsa que ficou aberta... Eu queria lhe alertar...

                   - Heim?! 

                   - Sua bolsa ficou aberta!

                   - Obrigado.

                   Falou, secamente, a ponto da sua reação ser notada por uma senhora de idade avançada que estava na fila do caixa vizinho, e que veio em meu socorro afirmando que essa gente de hoje é mal agradecida, falando alto e  com o propósito de ser ouvida pela moça. Aí já fui eu que tratei de socorrer a jovem e tentar sair da história como um bom moço.

                  - Mas a culpa foi minha! Eu assustei-a.  Eu devia ter falado somente...

                  - Tudo bem... Eu estava distraída, foi só isso.

                  Dessa vez algum sorriso aflorou no seu rosto, deixando-me mais tranqüilo. A moça foi atendida e retirou-se sem mais uma só palavra ou um olhar, dando-me a certeza de que nunca mais nos encontraríamos. Sem qualquer pressa retirei dinheiro, requisitei um talão de cheques e ainda conversei um pouco com o gerente, para  aproveitar e tomar um cafezinho.

                   Ao sair do Banco, procurei uma descida lateral que dava acesso ao estacionamento privativo para clientes, que ficava no subsolo. Ao chegar, notei um carro manobrando lentamente. Ao aproximar-me, reconheci a moça da fila que, de dentro do carro, estirou o braço, entregando-me um cartão

                   - Eu trabalho nesse endereço. Precisando... Lá a gente pode conversar à vontade! De preferência logo cedo, pela manhã ou  depois do almoço.

                   E deu partida no carro, que não era de luxo mas era um fusquinha novo, deixando-me ali parado e abestalhado. No cartão estavam o nome, telefone e endereço de um escritório de advocacia,  afastado do centro da Cidade.

            Mesmo diante de alguma evidência, fiquei com dúvidas quanto àquela última atitude da moça, se seria ou não uma cantada. Relatei o fato ao Maestro Pedro Santos, pessoa da minha maior intimidade, que foi enfático e, ao mesmo tempo, brincalhão:

                   - Se você não procurar essa mulher ela vai achar que você é viado! Agora, se você não quiser nada com ela, passe o cartão para mim! Pode ser que eu venha a precisar de um advogado!...

                   Guardei com cuidado aquele pedacinho de papel linho,  impresso de um lado, e, do outro lado, escritas, com caneta esferográfica, as quatro letras seguintes: R i t a. O incidente não saía da minha cabeça.  Podia ser uma armadilha. Tem mulher maluca que é capaz de tudo! Podia também ser somente uma pessoa querendo desmanchar uma má impressão deixada. Bem, a verdade é que podia ser qualquer coisa e eu só saberia indo lá.

                  Atendendo a recomendação dela, cheguei no início do expediente da tarde e pedi informações ao porteiro do pequeno edifício. Fui informado que o advogado não estava:

                  - Acho que ele viajou. Não vejo o carro desde de manhã! E dona Rita não saiu para almoçar...

                  - A secretária dele?

                  - Não! Ela não é a secretária. É a mulher!

                  Tratava-se da esposa do tal advogado. Ela tomava conta e fazia os serviços do escritório. Gelei! Cuidei de dar uma desculpa qualquer ao porteiro e cair fora enquanto era tempo. Ao sair meio apressado cometi o que naquele momento considerei um erro: olhei para cima. Lá estava ela na janela do primeiro andar.

                   - Olá! É aqui em cima, pode subir.

                   Não tinha como fugir. Era uma mulher bonita! Valia todos os riscos: os da minha casa e os do marido dela. Fui em busca da nova aventura!

                    Um  escritório simples, ela estava só. No salão vizinho, uma corretora. Lá pra trás não cheguei a ver o que era. Ainda desajeitado, fui inventando uma desculpa:

                   - Ia passando aqui por perto e lembrei-me do seu convite...

                  - Que bom! Estava mesmo esperançosa. Precisava explicar ao senhor...

                   - Senhor? Pareço tão velho?

                   - Não é isso, não. Lá no Banco, quando o senhor falou comigo eu tive a certeza que já lhe conhecia. Só não sabia de onde. Quando cheguei no carro foi que lembrei. Aí fiquei pensando: ele falou comigo porque me conhecia e eu fui tão indiferente. O que é que ele não pode estar pensando? No mínimo que sou uma mal educada!

                  - E você me conhece de onde?

                  Que pergunta idiota , pensei na hora.  Não era isso! Eu devia ter dito que também sabia que já a conhecia de algum lugar, mas ela sendo mais jovem era mais fácil de se lembrar e papeava tentando ganhar tempo, até que ela desse alguma luz. Mas não! Fui grosso e ela não perdeu tempo para lançar uma chantagenzinha emocional:

                 - Já vi que sou mesmo muito insignificante! Faz tão pouco tempo, professor!...

                 Ela não era insignificante e eu não tinha a menor lembrança dela. Estava claro que havia sido minha aluna. Mas onde? Quando? Em qual disciplina? Que merda de cabeça! Precisava reverter a situação e para isso tinha que pensar rápido numa saída. Como meu maior tempo de magistério estava sendo na Universidade Federal da Paraíba, resolvi investir nesse caminho. Eu era professor do Curso de Educação Artística, o qual, certamente, ela não freqüentou, pois teria passado seis períodos letivos lá, nos encontrando quase que diariamente, e uma mulheraça como aquela eu jamais teria esquecido! Dei também uma disciplina de Relações Públicas no Curso de Comunicação Social.  Por ter sido há pouco tempo, eu lembrava de todos os alunos e ela com certeza não estava entre eles. No meu rápido raciocínio só restava a História da Arte,  oferecida pelo meu Departamento, para alunos de outros cursos. Era uma disciplina optativa, durante apenas um semestre e que a maior parte dos alunos se matriculavam nela apenas para conseguir créditos. Estava resolvido! Ia me arriscar:

                   - História da Arte, na Central de Aulas!

                   - Que alívio, professor ! Pra mim o senhor não ia se lembrar! Eu que adorava aquelas aulas, que participava tanto... O senhor lembra? Chegou até a me emprestar um livro...

                   Apesar do meu acerto,  eu continuava a não me lembrar dela. Também era tanta gente. Quarenta alunos todo semestre e só passavam comigo cerca de três meses! Agora , entretanto, existia um novo detalhe: eu emprestei um livro a ela. Isso eu só fiz uma vez e a um determinado grupo, que interessou-se bastante pela disciplina. Aí resolvi arriscar outra vez:

                   - Ah! Agora lembro perfeitamente. Você cursava  Serviço Social! Certo?

                   - Isso, professor! Já sou formada. Só  não sei para que vai servir!

                    Eu também não sabia, pois era casado com uma assistente social que também não sabia! Por outro lado, fiquei sabendo que Rita fora minha aluna, que formara-se em Serviço Social, que era casada com um advogado e trabalhava no escritório dele. Mas continuava sem ter a menor lembrança dela, fato que, a partir de então,  passou a não  ser importante.  O que ia valer era o que pudesse vir a acontecer. E com esse objetivo continuei perguntando sobre ela e respondendo sobre mim.

                    Naquele dia no banco ela estava apreensiva por causa da hora. Havia saído do escritório para descontar um cheque mas, no meio do caminho, encontrara uma amiga e conversando  esquecera a hora. Estava com medo que o marido chegasse a qualquer momento com sua estupidez costumeira, para reclamar da demora. Para mim pareceu uma história má contada, a dela. O medo do marido deveria ser por outra coisa, pensei.

                    Era casada há alguns anos. Não tinha filhos e nunca os tinha evitado. O marido era ciumento, grosseiro e quando bebia era metido a brigão. Mesmo assim era medroso. Mais de uma vez presenciara ele fugir da raia com ela defendendo-o de uma possível briga, sempre provocada por ele. Seu casamento não prestava mas não podia fazer nada, pois não tinha emprego, seus pais eram pobres e ela não teria como se manter.

                   - Pois é professor, quando quiser aparecer... É melhor na parte da manhã. Eu chego cedo aqui. Meu marido me deixa e vai trabalhar. Pelo manhã a gente pode conversar à vontade, pois ele só volta após as dez horas.

                   Fiquei sabendo também que o marido, pela manhã, prestava serviços de assistência jurídica a uma empresa e que, à tarde, na maior parte dos dias da semana, estava no Fórum, quando não viajava para a cidade de Sapé, onde tinha algumas causas. Deu todas aquelas informações um tanto apressada e com alguma preocupação estampada no rosto, procurando disfarçar quando olhou para o relógio mais de uma vez. Não precisava ser muito inteligente para perceber que era hora de bater em retirada. Prometendo voltar, despedi-me com um simples aperto de mão, pois durante o tempo todo do nosso encontro ela ficara sentada atrás de um birô. Já com o carro em movimento, saindo do estacionamento do edifício, percebi a chegada do fusquinha que ela dirigia quando a encontrei no banco.

                   Relatei os acontecimentos ao meu experiente amigo Pedro Santos, excelente conselheiro para assuntos femininos:

                   - O comportamento dela é de uma pessoa confusa. Ao mesmo tempo que lhe convida para vê-la sem a presença do marido, não proporciona, ou até evita, qualquer aproximação maior. No teu lugar eu teria resolvido logo a situação. Ou dá ou desce! Aliás, considerando onde vocês estavam , seria o caso de ou dá ou eu desço e desapareço!

                  - Você queria que fosse ali mesmo, no escritório?...

                  - Não, claro que não! Mas, pelo menos, marcasse alguma coisa... E se ela não estivesse a fim, acabava o papo naquele momento. Outra coisa: se você pretende voltar por lá, arranje uma boa desculpa para o caso do marido chegar de repente. Invente uma questão qualquer para consultar.

                   Pedro tinha razão. Era uma maluquice sem qualquer resultado prático. Esse negócio de que não existe mulher difícil e sim homem fraco de cantada, eu não concordava. Ou será que eu era  fraco de cantada? Entre a emoção e a razão, fui ficando com a segunda, esquecendo do meu fracasso donjuanesco com aquele pedaço de mal caminho, que me deixou abestalhado nas duas vezes que estivemos próximos.   

                  Entre o esquecimento e a pouca lembrança eu já estava, quando, de repente, numa tarde de inverno, tenho, outra vez, a visão majestosa daquela beleza de fêmea. Não nego os pulinhos do coração! Veio em minha direção desmanchando-se em sorriso de cumplicidade, deixando os arredores boquiabertos. Não teve jeito. Fiz outra pergunta idiota:

                   - O que é que você está fazendo aqui?

                   - Vim lhe ver, professor!

                   Foram inevitáveis os huns!, os hans! e os hais! dos alunos e professores que estavam ali, em frente ao Departamento de Artes. Apressei-me em conduzi-la até a uma sala de aula vazia, onde poderíamos fugir um pouco dos olhares maldosos.

                   - Menina, você tem coragem! Fazer uma declaração daquela no meio de tanta gente! E se tivesse alguém conhecido? Alguém que pudesse dizer para o teu marido?...

                   - Ou para a mulher do senhor, não é, professor?

                   - Ela não se incomodaria com isso.

                   - E meu marido está sabendo que eu vim aqui, quero dizer, lá na Reitoria, pegar uns documentos da minha formatura.

                   - E veio para isso mesmo?

                   - Também! Mas o que eu queria mesmo era me encontrar com o senhor.

                   - Você não acha que esse negócio de me chamar de senhor é sem sentido? Pode até criar alguma barreira entre nós!

                   - É costume meu. Lá no escritório todo cliente que chega a gente trata por senhor. Meus professores eu sempre tratei assim.

                   - Mas eu não sou mais seu professor, nem tão pouco seu cliente.

                   - Eu sei. Agora é meu amigo.

                   A minha impaciência aumentava diante daquela conversa boba. Resolvi seguir os ensinamentos de Pedro Santos quanto ao ou ata ou desata! Ataquei sem medir fronteiras:

                   - Mas eu não quero ser seu amigo!

                   - Não?!

                   - Queria ser mais alguma coisa.

                   - Não entendi!

                   - Mas vai entender. Que tal sermos amantes?

                   Tomou ou fingiu que tomou um susto. Corou e baixou a cabeça, deixando seus cabelos de comprimento médio cobrirem-lhe o rosto. Silenciou enquanto eu fiquei aguardando qual seria a sua próxima reação ao que eu havia proposto. Como estava demorando, tomei a iniciativa:

                   - E aí? Como é que ficamos depois do que te perguntei?

                   - Estou morta de vergonha, professor. Eu não esperava isso do senhor! Eu pensava que o senhor queria ser só meu amigo, pra gente conversar... Nunca imaginei que o senhor quisesse essas coisas!  Estou morta de vergonha, mas eu topo! Eu queria desde o começo, só não imaginava que o senhor quisesse também...

                   É fácil saber o tamanho do meu espanto. Inocência ou loucura? Era o que eu me perguntava. Ela não podia ser uma mulher normal, era a minha conclusão. E foi ela quem continuou surpreendendo:

                   - Depois de amanhã meu marido  vai para Sapé e passa a tarde inteira. Como eu fico sem carro, quando sair para almoçar  posso voltar um pouco mais tarde. A gente podia se encontrar depois de meio-dia  para almoçar juntos...

                   - Num motel?

                   Ataquei forte com o objetivo de definir aquela situação. Outra vez quebrei a cara! Ela era realmente fora do comum:

                   - Claro, professor! E dava pra gente ir a um restaurante? Na frente de todo mundo? E o que era que a gente poderia fazer num restaurante? Almoçar olhando um para a cara do outro! Não é isso o que o senhor quer, é?

                   Após os últimos detalhes para o nosso encontro, retirou-se, dessa vez permitindo uma despedida mais afetuosa, com beijinhos na face e fortes apertos de mão, promessas de futuras emoções.

                    Estávamos a caminho de um motel, quando ela teve a impressão que havíamos cruzado com o carro do seu marido. Ficou um tanto apreensiva e ao olhar para trás julgou que o carro do marido havia voltado e estava nos seguindo. Eu fiquei um pouco nervoso e ela caiu no desespero gritando: "Corra, corra, corra, ele não pode me pegar aqui com o senhor, corra mais!..." O aperreio era tão grande que a minha noção de perigo desaparecera. Então tomei a decisão de parar o carro no acostamento da estrada: "Se for ele fica logo tudo resolvido, eu enfrento a situação. Se não for, acaba a agonia!" Ela parecia morta de tão pálida! O carro que ela pensava que nos seguia passou e foi embora, dirigido por uma pessoa desconhecida e tinha a placa diferente da do carro do seu marido. Apenas as marca e cor eram as mesmas! Depois de toda a confusão perguntei se ela desejava continuar, pois achava não haver mais clima. Levei outra cipoada:

                    - Não! Ficou bom  foi agora! O perigo não lhe excita? Eu adoro correr riscos! É um santo remédio para o sistema nervoso!

                    Quanta surpresa e quanta besteira dita! Mas ela também foi surpreendente na cama. Deixou-me preocupado com o risco de até me apaixonar! Quando chegou a hora de voltar outro problema: na loucura toda da chegada, eu havia fechado a porta da Belina com a chave dentro! Não tinha como abrir o carro. Exasperei-me um pouco, já pensando em usar uma pedra e quebrar o vidro da porta, quando ela apertou a maçaneta do lado dela e a porta abriu normalmente. Ela, também na danação da chegada, não a havia travado! Foi um alívio geral e quando eu estava me preparando para ligar o carro, veio, dessa vez, um verdadeiro coice:

                    - Vamos voltar para o quarto? Vamos comemorar?! Hoje está tudo é dando muito certo! Que se dane tudo! Eu arranjo uma desculpa por ter chegado atrasada. Ele acredite se quiser!

                   E a segunda vez foi melhor que a primeira. Na volta pediu-me para não procurá-la no escritório, pois era perigoso. Ela poderia não se conter e dar motivo para a desconfiança dos vizinhos. Telefonasse naqueles horários que ela estaria sozinha. Mas ela queria algum tempo para pensar com calma na nossa situação e que eu também pensasse, pois a gente ainda não tinha idéia de como tudo aquilo iria terminar, essas coisas que sempre se diz nesses casos, quando existe algum sentimento de culpa!

                   Para mim estava  tudo bem. Já havia conseguido o que queria, o que acontecesse depois era lucro. Cheguei a telefonar uma vez e atendeu uma voz de homem. Perguntei se era da Receita Federal e diante da negativa, disse ter sido engano e pedi a costumeira desculpa. Segui respeitando a promessa de não procurá-la por algum tempo e este foi passando. Mais de um mês depois da nossa aventura eu ainda não a havia esquecido totalmente, e, num dos momentos de lembrança, liguei para ela:

                   - Então? Como ficamos?

                   - Não vai dar certo não, professor. Naquele dia eu estava no meu período de fertilidade. Tivemos relações duas vezes e eu estou aqui menstruada! Também não consegui engravidar com o senhor!

                   - Espere! Eu tenho...

              
    - Eu sei que o senhor tem filhos. Eu sabia antes. Eu pensava que o problema era do meu marido, mas estou vendo que é meu. Vou procurar um médico...

56

ANTHENOR

NAVARRO

          Escolhemos encenar o texto “Uma Canção dentro do Pão”, de R. Magalhães Jr., por ser o ano de 1989 o marco dos duzentos anos da Revolução Francesa e a peça ter a sua ação desenvolvida naqueles espaço e tempo. A produção era da Fundação Casa de José Américo que, na época, tinha na sua presidência o Professor Sales Gaudêncio. Escolhida a cidade de Cajazeiras para a estréia do espetáculo, para lá viajamos com todo o elenco e ficamos hospedados no Hotel de Brejo das Freiras, na vizinha cidade de São João do Rio do Peixe, antes Anthenor Navarro. Numa das idas e vindas entre Cajazeiras e Brejo das Freiras, demos carona a umas jovens estudantes que declararam ir para Anthenor Navarro. Atendidas no seu pedido e acomodadas no veículo, procurei ser cordial e perguntei:

              - Vocês vão para Anthenor Navarro ou São João do Rio do Peixe?

            - É a mesma coisa... A gente não consegue se acostumar com esse outro nome não!

             Respondeu a mais falante, ao tempo em que Fernando Mercês de Oliveira, mistura de engenheiro, advogado, fiscal do Ministério do Trabalho e ator,    que nos acompanhava naquele momento, perguntou curioso:

              - Então por que mudaram o nome?

         - Sei lá! – Respondeu, acrescentando um gesto de desconhecimento do assunto. Uma outra das jovens “caronas” apressou-se a informar:

             - Meu pai disse que foi porque esse tal de Anthenor Navarro era um miserável! Na época da seca veio pra cá distribuir farinha com os pobres. Só que a farinha era envenenada, pra matar todo mundo! Queria se ver livre dos pobres!

                   Eu fiquei sério e Fernando Mercês deu uma enorme gargalhada e anunciou:

                   - Menina, você sabe o que está dizendo? Pois olhe, esse rapaz aí é Elpídio Navarro e é irmão de Anthenor Navarro!

                   A garota virou-se pra mim, desconfiada:

                   - É não,  não é?... É?

                   Confirmei. E ela, sem a menor cerimônia, foi logo dedurando:

                - Pois quem contou essa história ao meu pai foi o Deputado José Aldemir!

                 Mudamos de assunto. Fiquei a pensar com os meus botões: é, faz sentido. O tal deputado lutou na Assembléia Legislativa, para aprovar aquela mudança. Até que eu entendi ser por conta de uma tradição, ser um ponto de vista pessoal e até uma questão estética: também acho o nome São João do Rio do Peixe mais bonito que Anthenor Navarro. Podia também ter as suas razões políticas, pois já não se dava bem com o seu antigo benfeitor  Tarcísio Burity, casado com Gláucia, que também é Navarro.  Mas se ele falou aquilo que a moça disse, se ele falou, não fez outra coisa senão uma grande e covarde sacanagem. É o vale tudo para justificar os fins. E por que ele não colocou essa história do veneno junto aos argumentos que foram usados no projeto de mudança do nome? O certo é que, que eu saiba, a sua ação parlamentar não o reelegeu. Por outro lado, dizem que quem deve, um dia paga. Paga de alguma forma. Pra quem acredita em uma outra vida, paga até depois da morte! Pra mim, que não acredito, conto história!

57

A

VILLAGE

                   O condomínio fechado “Village Atlântico Sul” , na Praia do Seixas, foi, durante algum tempo, moradia minha. Dessa época péssimas lembranças, porém também boas lembranças, por conta das amizades ali cultivadas e por fatos inusitados, que alegravam a comunidade de cerca de cinqüenta residências. Da casa onde morei,  o jardim com mais de cinqüenta roseiras que consegui cultivar próximo à beira-mar, cada uma com uma tonalidade de cor diferente das outras. 

                   O funcionário aposentado da previdência José Ataíde era uma daquelas figuras queridas, por ser amigo e prestativo. Precisou de uma ferramenta, Ataíde  tinha, emprestava e ainda ia ajudar a usá-la. Geralmente tinha tudo em quantidade: três alicates, três serrotes, três martelos, três tudo. Tinha uma sirene que ligava por motivos diversos, como comemorações, protestos e até quando tomava uma dose a mais. Coração de criança, colecionava brinquedos que fazia questão de mostrar aos garotos do condomínio. Ele é uma grata lembrança.

                    O “Village” agregava algumas figuras engraçadas, como era o caso de Zé Corninho (não fazia questão de assim ser chamado), que morando em Oitizeiro, passava semanas fazendo serviços gerais no condomínio, sem sequer ir em casa. Era o faz tudo de lá: hidráulica, eletricidade, saneamento e alvenaria. Também consertava relógios e antena de televisão. Certa feita foi encarregado de instalar uma gambiarra com cerca de cinqüenta lâmpadas, para iluminar um recinto ao ar livre, onde iria acontecer uma festa. Instalou, ligou e pipocaram-se as lâmpadas. Instalação errada em corrente de 380. Justificou dizendo que a culpa era dos fios que por serem velhos, estavam entupidos. Zé era cabra bom e honesto, o que fazia dele se perdoar tudo e até achar graça nas suas tiradas.

                     Um moço de lá, não lembro o nome, resolveu comprar peixe na praia da Penha e revender para os restaurantes do centro de Tambaú. Numa das vezes, adquiriu logo cedo da manhã uma enorme cavala e de volta, não querendo, para não sujar o chão,   entrar com o peixe casa a dentro,  deixou-o no jardim enquanto preparava-se para levá-lo a um seu comprador. A cavala estava pendurada na cerca, próximo ao depósito de lixo. O funcionário que recolhia o lixo das residências, levou tudo, inclusive o peixe, que ao chegar à portaria e examinado por outros empregados, foi dividido entre eles após constatarem que ainda estava fresco. Quando o peixeiro conseguiu encontrar a cavala desaparecida, já haviam postas cozidas.

                     Um grupo de adolescentes etilicamente influenciados, danificou algumas mesas e cadeiras do bar existente, jogando os pedaços em cima do meu jardim. Reagi à molecagem reclamando ao síndico que tentou, em reunião no alpendre da casa do professor  Silvino Espínola, resolver o problema. Em dado momento um dos condôminos sai em defesa dos garotos, dizendo que eu não tinha o direito de chamar o fato de molecagem, pois eles não eram moleques. Indaguei dele que nome eu poderia dar a quem agia daquela maneira, no que, prontamente me respondeu:

                     - Aquilo tudo foi vandalismo. Eles podem ser vândalos, moleques não!.

                     Como aceitei a nova denominação, a reunião foi encerrada sob a promessa de que novos atos de vandalismo não iriam mais acontecer.

                     A criação de cães soltos no condomínio era proibida pelo regulamento. Cachorro só preso em casa. Mesmo assim alguns não cumpriam corretamente essa parte do regulamento. Um morador tinha um cachorrinho que deixava fugir tarde da noite, para que ele tivesse um pouco de liberdade sem incomodar.  Numa dessas fugidas o cão depois de correr o condomínio todo, foi esbarrar em frente ao terraço de Silvino Espínola, onde ele dormia numa rede. E tome latidos que acordaram Silvino que enxotava o cachorro que fugia mas voltava para latir. Depois de algumas tentativas de expulsar o inconveniente visitante, Silvino não contou conversa: foi até à casa do proprietário do animal e bateu palmas. Acordados assustados à uma hora da manhã, encontraram Silvino bem sentado numa das cadeiras do terraço e cordialmente anunciando:

                     - Vim chamar vocês para ficar aqui conversando comigo. Batendo papo, não sabe?

                     Diante da perplexidade dos acordados, ele explicou:

                     - É que o cachorrinho de vocês está na porta da minha casa latindo, sem deixar que eu durma. Então eu achei que era justo que vocês também não dormissem, pois são os donos dele...  

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IMPEDINDO

O CRUZEIRO DO SUL

                   Na "Village Atlântico Sul" as casas foram construídas em várias ruas e locadas umas de frente para outras ou então com os pequenos quintais encostados uns aos outros.  O quintal da casa do professor Silvino Espínola fazia fronteira com o quintal da casa adquirida pelo comerciante  Garibaldi Cittadino, juntamente com o seu genro na época, médico Fábio Rocha. Garibaldi entusiasmado com o novo investimento, resolveu construir mais um cômodo de primeiro andar, em cima da garagem da sua casa. Entretanto, a nova construção, embora não invadisse o terreno da casa do professor Silvino, poderia fechar o seu espaço alto do lado sul da garagem. Quando a obra ainda estava no seu início o professor foi até Garibaldi, preocupado com a possibilidade de ser prejudicado.

                     Não havendo um acordo, entrou com uma ação judicial para impedir a obra tendo como principal argumento que ficaria, da sua garagem-terraço, impedido de avistar o Cruzeiro do Sul...

                     E ganhou a questão!

 

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