CONTO

 

Estar Alvorada

 

 

                                            Glória Gadelha

                               Era como caminhar do azul ao verde. Do verde ao amarelo, depois ao vermelho. Como possuir os olhos através dos quais o outro gostaria de olhar o mundo. Também assim como quem não teme o escuro e encontra o caminho para empregar a luz do seu amor, indo cada vez mais fundo na quadra florida do seu interior. Era como se os recursos da sua alma fossem suficientes para suprirem alguns desejos do seu guloso coração, ao qual pertencia o sonhar tontamente feliz. 

                              Seu peito havia sofrido o ultraje da dilaceração.  O pranto chorado, e o que ainda chorava, era brasão do seu desmedido afeto. A primeira lágrima surgia como um rio rolando pela sua visão, antes de começar a clareá-la. Como mãe da alma, trazia o sal do batismo e orientava o fluxo das outras lágrimas que desciam barulhentas, como tudo que tem o cunho revolucionário do renascer. Vinham de mundos tão longínquos que ficavam imunes as influências da região da dor que as geravam e, assim, lavavam a poeira trazida pelos ventos do medo do abandono que ameaçavam varrer sua existência. E desaguavam como bênção.

                              A noite estava se aprofundando e ela sentia a alvorada pedindo entrada na alma. Esforçou-se para continuar olhando o moço abrir os buraquinhos num guardanapo de papel com a ponta de um broche que instantes antes prendia a parte da blusa que servia de berço para seus frondosos seios. Havia contado trinta e seis orifícios que desenhavam a palavra amor. E apesar de achar delicado o gesto do moço, ela não podia deixar de pensar nas emoções do passado do qual ainda não havia se despedido totalmente. Lembranças que eriçavam suas penugens e lambiam suas mucosas, catando pelo chão da sua memória as cinzas abrasadas daquela paixão, dentadas até os ossos. Mesmo achando sedutor o gesto do moço, ela rebuscava nas lembranças as flamas que ficaram no seu ventre e as vezes que precisou suportar o ardor que urgia em sair do seu esfalfado corpo, deixando fluir seus líquidos sobre a fina pele das suas coxas. Seu mundo desabando sob coloridos catchups e mostardas, na mesma lanchonete onde, naquele momento, olhava o moço a lhe ofertar um sexo cheio de mimos, mas taboca.          

                              Naquela noite, após o último dia de um outono particularmente abafado, havia um leve toque de inverno nas pessoas. A fresca brisa era bem vinda, pois amenizava as zangas e tranqüilizava o tônus cardíaco da mulher, que intuía ser qualquer emoção perigosamente contagiosa naquela situação. Às duras penas, estava seguindo os passos do poderoso destino que toda natureza fêmea, quando ferida, advoga. Conseguia belos espécimes de consciência, o que facilitava aquele encontro na lanchonete, palco dos seus mais intensos devaneios, cenário dos encontros com o homem que, juntamente com ela, tramou a paixão que ajudou a compor seu delicado tecido de mulher fazendo-a entender os pecados das manhãs, admitindo gostar de pecar com elas. Descobria que não tinha mais vontade de enforcá-lo com um cordão de palavras cruéis. Quando ele tomou o chá de sumiço, havia conhecido a gelada lâmina do silêncio - coração e tripa da traição. Ficou o vazio perturbador, arrastando desolações pelos seus corredores internos, fazendo muitas das suas noites passarem sonâmbulas pelos seus dias magros e dispersos. Sentia a natureza como uma rotina chata e frações do seu espírito beirando as portas da rendição. Quando se apaixonou por tão pradoso homem, havia criado possibilidades de espaços mais amplos dentro dela e descoberto que, qualquer criatura quando gesta, os vigorosos chamados da criação ecoam imperativos e urgentes.

                                Naquele momento o moço pisava estrelas e tirava do bisaco da sua memória vivaldina selecionadas anedotas que aprendera juntamente com o ofício de desfilar pela vida o seu sangue borbulhante. Ofertava-as com espantosa criatividade, tornando-as cada vez mais picantes e reveladoras de um afeto úmido e escorregadio. Insistia em beber na taça de uma boca que ainda não sabia perdida. Queria que ela entendesse o que o coração feminino já intuía muito antes de cevadas canções de amor serem escritas: a paixão tem flechas que se afinam no ar, exige o arrebato do momento, reclama a marca do desejo na fibra do olhar, requer a certidão do amor romântico que, naquele momento, a ele não mais se destinava.

                                Ela não estranhou que daquele encontro resultasse uma cadeia de emoções tão bem harmonizadas com a nova pose da sua alma, artesã de um espírito revigorado, que tecia um novo sonho para seu coração e suas sedas bem cuidadas. Levemente tocou o sorriso do moço, que sempre considerou como o pedaço mais bem exercitado da sua sexualidade. E noutro guardanapo de papel fez dezenas de buraquinhos abrirem mais luz  para sua alma já alvorada.