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Luiz Augusto Crispim

 

Retrato de varão

 

Os livros são mesmo assim. Antes de dizer o que é preciso, em prosa ou em verso, certas obras têm o poder de instaurar saudades. Somente agora, meses depois de lançado, chego ao livro de Gemy Cândido, Clóvis Lima – Um homem predestinado, todo ele construído em pedra de cantaria de tempos vividos por mim na velha Faculdade de Direito da Praça João Pessoa.

Não é fácil reproduzir em texto biográfico a personalidade de um Clóvis Lima. Por mais que se detalhem os traços, sempre há de ficar faltando aquele sombreado, aquele raio de luz que acompanha o retrato das grandes figuras.

Era preciso que o retratista soubesse mais que o próprio retratado.

Eu mesmo acabei sendo vítima dessa limitação, ao suceder Clóvis dos Santos Lima na Cadeira n. 3 da Academia Paraibana de Letras. Limitações, no entanto, não intimidam. Fiz o que faria qualquer acadêmico diante da obrigação protocolar de proferir o elogio de estilo.

Depositei as minhas palavras no Panteão da Academia, como não podia deixar de ser, talhando o perfil do homem de letras, em seu estilo apurado, porém quase espartano, depois o magistrado austero e, finalmente, o Mestre das letras jurídicas criterioso e culto.

Pensei que aquele modelo estava próximo do original.

Hoje, porém, depois de ler Gemy, teria pensado em algo muito diferente.

As fotos reunidas na iconografia de Clóvis Lima – Um homem predestinado me convenceram de que a imagem do tribuno romano esculpida em mármore antigo não passava de simples refúgio ao qual recorria o pater famílias afetuoso que jamais encarava a câmera, talvez por receio de revelar a face bondosa antes de cumprir com o dever do juiz registrado pela objetiva de Mororó ou de Arion.

Se tivesse de realçar outra vez as virtudes que lhe sobravam, como fez Gemy Cândido, haveria de reconhecer aqueles traços domésticos, tão visíveis nos jardins do casarão que reunia o patriarca, a Dona Maria, os filhos Roberto e Vitória, além dos netos numa só ninhada.

Esse o Clóvis Lima que raramente se deixava flagrar. Para ser o autêntico varão extraído das páginas de Plutarco era preciso que eu tivesse dado a conhecer aquele personagem que pervaga por toda a obra que agora me chega pelas mãos do amigo Waldir dos Santos Lima. (06-10-2008)

 

Luiz Augusto Crispim é escritor, jornalista, advogado e professor da UFPB e da UNIPE.  Escreve para o Jornal Correio da Paraíba.

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