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Luiz Augusto Crispim

 

O Príncipe do Bem

 


Não há registros precisos sobre  a matéria, mas imagino que o sentimento de Robespierre ao vencer o derradeiro degrau que conduz à Assembléia Nacional da França terá provocado a mesma carga de emoções experimentada pelo novo presidente dos Estados Unidos da America na manhã deste 5 de novembro de 2008, o afro-americano Barak Obama.

Reacender os destinos de uma pátria é algo que transcende a força das armas ou o poder autoritário das tiranias.

Obama é um negro de espírito incandescente. Um verdadeiro líder. Um negro de alma negra, como Martin Luther King, Desmond Tutu ou Nelson Mandela. Quase nada a ver com Robespierre, a não ser pelo amor desmedido ao seu país. E nada mais.

O primeiro presidente negro dos Estados Unidos da América é, na verdade – e aí mora o perigo – um  prisioneiro dos ideais de eficiência avaramente cultivados pelos americanos desde o fim da Guerra Civil, quando passou a assombrar o mundo com suas taxas espetaculares de desenvolvimento econômico, associadas a padrões de liberdade e de igualdade tão exaltados nas obras de Aléxis de Tocqueville (La Democratie en Amérique) e Max Weber (The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism).

Mesmo assim, proclamada berço da Democracia ocidental moderna, a América de Weber, Tocqueville e Luther King não escapa às investidas do regime que ajudou a transformá-la na maior  potência econômica e militar de todos os tempos.

O que restou? O que estarão entregando a Barak Obama no dia 20 de janeiro de 2009?

Na realidade, o que chega às suas mãos são os escombros de um complexo econômico que estende os seus tentáculos a todas as partes do mundo.

Por outro lado, essa imensa sucata da economia norte-americana continua sendo de tal forma valiosa e envolvida com tantos interesses internos e externos que talvez ainda haja tempo para que o novo presidente aceite a mão estendida do republicano John McCain, de modo a pôr em prática  uma política de entendimento e consenso do mesmo tamanho da crise financeira que corrói as entranhas da maior potência  do planeta.

O certo é que Barak Obama faz história com a dignidade de um príncipe queniano.(10-11-2008)

 

O preço da felicidade


Costuma-se dizer que o dinheiro não compra a felicidade de ninguém. É uma sentença altruísta, aparentemente cândida e virtuosa, capaz de levar todas as almas para os céus...

Até concordo com o aforismo. E se não fosse muito o adjutório para o financiamento destinado à compra da felicidade própria? Não dava para aceitar a generosidade? Digamos que viesse sob forma de uns três ou quatro salários-mínimos. Para quem vivia de biscates...

Agora me expliquem só que conceito de  felicidade é esse, que se contenta com o mal menor que o Governo pode fazer com uma única canetada. Sim, porque todo mundo fala mal do salário-mínimo, mas, na hora do benefício, só se fala de salário-mínimo.

Existem felicidades bem baratinhas, quase preço de liquidação. Outras tão caras que já foram retiradas do mercado. Mas, com certeza, algum dinheirinho bem que há de servir para financiar a felicidade dos interessados. Isso não se discute.

Curiosamente, o mundo todo vive se matando em busca de dinheiro e mais dinheiro com o propósito de fazer ainda mais  dinheiro, capaz de garantir o varejo da felicidade.

Lembro-me de um mendigo na Festa das Neves que cresceu os olhos na hora da elevação do pão que o dono da barraca fazia para chegar às mãos do freguês. Naquele momento, uma nota de dez reais teria feito toda a sua felicidade. Distraidamente, abandonei os dez reais ao alcance de sua vista. E fiquei esperando o resultado, como faz qualquer menino depois de armar a sua arapuca.

A infeliz criatura apanhou o dinheiro com a rapidez de uma serpente ferida. Enchia-se de coragem. A nota fora parar num bolso da calça, o sangue latejava-lhe nas  têmporas. Até que encomendou dois cachorros quentes: um para si e outro para o cão que o acompanhava.

Era um homem feliz. Pagara tão pouco por aquela fatia de felicidade.

E até lhe sobrava algum trocado...

O certo é que a felicidade tem seu preço, meu senhor. Quem sabe não soube o senhor fazer o seu.
(03-11-2008)

 

Luciano Morais

O que se pode chamar verdadeiramente de História? A memória do povo organizada conforme o simples registro de fatos arbitrariamente encadeados por um narrador? Ou a seqüência de uma realidade vivida quadro a quadro, como se fosse um longa metragem sem dia nem hora para findar?

A História não é nada disso. Antes de ser relato frio e inerme, História é vida pulsante e dinâmica.

Sempre que vejo uma manifestação respeitosa  e reverente a essa vida que pulsa nas veias da sociedade, percebo que o mundo não perdeu a perspectiva de si mesmo.

Vivo, o psiquiatra Luciano Morais estaria completando cem de nascimento. Não sei se a Universidade Federal da Paraíba está preparando algum tipo de celebração para os próximos dias, mas a proposta que me parece mais apropriada deveria passar unicamente pelo exemplo de devoção que deixou o Doutor Luciano às gerações futuras.

Isso é Historia. Protagonizada por personagens reais, verdadeiramente reais.

Quantos paraibanos de fato sabem quem foi Luciano Morais?

Pois que saibam, agora.

No caso de Morais, parecia ele muito mais encarnar a figura do anti-herói voltado para dentro de si mesmo, do que propriamente o semblante do semeador de conhecimentos, interessado em projetos sociais que, na verdade, foi.

Em sua trajetória luminosa, foi um dos fundadores da Faculdade de Medicina da Paraíba. Dedicou toda a sua vida ao estudo da psiquiatria, fazendo da medicina o mais genuíno sacerdócio.

Algumas pessoas ainda não entenderam as razões pelas quais é preciso dizer tudo isso. 

É para que a História sobreviva, distinto senhor. Para que os grandes personagens da nossa época não desapareçam na bruma do tempo.

Felizmente, aos poucos, já se verifica em nosso meio um certo interesse por parte de importantes segmentos da sociedade, no sentido de ordenar a realidade desses fatos na conformidade de um foco  substancialmente histórico-cultural.(27-10-2008)

 

Bob Rabel, superstar

O olhar deitado sobre as cordas do violão, o arpejo sutil arquitetado no ar, tudo não passaria de uma simples fotografia amarelecida do cantor Roberto Rabelo chamando para a Missa de aniversário de sua morte, não fosse a precedência do telefonema do Mestre Márcio Roberto Ferreira alertando o cronista sobre a nota publicada no dia anterior.

Conheci bem o artista e posso dizer que ele era capaz de dispensar a formalidade do convite impresso pelo simples gosto de esperar pelos amigos e parentes à porta da igreja, vestindo aquela mesma camisa listrada, presente de Pat Boone, a dedilhar o mesmo violão da foto e a mesma pulseira de prata, herança de Elvis, depois daquele  último concerto de Indianápolis...

Lá estava Bob Rabel, o único superstar do rock produzido pela minha geração. A camisa listrada, o movimento das mãos em repouso quase displicente sobre as cordas afinadas dos nossos sonhos pareciam anunciar para o seu público:
I can’t stop loving you.

Mas, em verdade, não era isso que estava escrito no anúncio fúnebre do jornal. Dizia-se ali que a família de Bob Rabel convidava para uma Missa durante a qual seria lembrado por amigos e admiradores um ano depois de sua morte.

Quem é capaz de prever as tocaias da glória?

Aquele moço enchia com suas camisas coloridas e seu vozeirão as matinais do Cabo Branco cantando Rock around the clock:
One, Two, Three O’clock, Four O’clock rock,
Five, Six, Seven O’clock, Eight O’clock rock.
Nine, Ten, Eleven O’clock, Twelve O’clock rock,
We’re gonna rock around the clock tonight.

Foi uma espécie de Bill Haley que passou que nem um cometa pelo firmamento dos nossos melhores domingos. Como esquecer suas interpretações de Love me tender, Bridge over troubled water e Can’t  help falling in Love?

A última vez que o vi, mais pesado e menos harmônico, restringira o repertorio a algumas poucas canções que não sei se alguém tomou a iniciativa de reunir às lembranças confiadas à mesa das oferendas da Missa de saudades celebradas em memória de Bob Rabel, o único superstar da minha geração.(20-10-2008)

 

Feira de mangai


Faz pouco tempo desde quando surgiu o assunto ao telefone com Nita Leão, a propósito de outra leonina figura: Danuza Leão. Ficamos entre duas crônicas antológicas e inesquecíveis: uma findava em declaração de amor à vida, a outra um testamento de memórias mais ou menos esquecidas num canto de quintal.

A amiga impressionada com a expressão de liberdade da cronista anunciando como haveria de ser a vida ao virar a página do dia seguinte. E eu maravilhado com as lembranças do quintal de Danuza, que parecia invadir o meu, tantas eram as bananeiras gêmeas das minhas, as jaqueiras, primas donas do quintal, os bordados de terra pisada pelos pés das galinhas, as paliçadas dos fortes apaches terminando debaixo da janela da empregada, as catacumbas das lagartixas mumificadas – segundo o relato científico da egiptóloga Cármen Espínola de Carvalho e Silva. 
 
Juntamos as nossas crônicas numa mesma conversa e, daí, não sei bem porque, findamos falando de uma certa feira que já não existe mais. E que, no dizer de Glorinha Gadelha, chama-se feira de mangai.

É o bric-à-brac dos franceses. Cá entre nós, com esse nome meio primitivo, tem de tudo e muito mais, a nossa feira de mangai.

A começar pelo cheiro. Recendia – não sei se ainda hoje – a cominho e a charque dobrada em mantas de gordura espessa, mas não só a cominho e a charque. A fumo de rolo também, e a extratos e a essências vendidos em vidros coloridos e que só deviam ser usadas em ocasiões muito especiais, quando a moça encontrar o namorado em farda de domingo, no passeio da Bica ou na festa de noivado da irmã com o gerente da Casa Vesúvio.

Mas a feira de mangai não era só cheiro. Era lá que se podia encontrar uma peça de corda, uma bacia de ágata, uma ratoeira de molas fatais, uma alpercata com solado de pneu, um rapa-côco de sentar na ponta ou do outro, de manivela, um pilão de pilar milho e outro de pilar café, uma lamparina de lata de óleo aproveitada, um candeeiro de querosene e outro mais delicado, de vidro colorido, um blusão de zuarte, junto com uma calça de madapolão, um caneco de alumínio, daqueles de fazer a água do pote gelar, uma quartinha de barro desenhado. 
 
As feiras de mangai eram empórios muito mais importantes do que aqueles que Marco Polo encontrou pelas Índias e pelas Chinas por onde andou catando suas especiarias nas calçadas de Calcutá e trapiches de Xangai.

Duvido que lá encontrasse gaiolas de passarinho arquitetadas com tanto engenho e arte. Nem bonecas de pano tão humanamente impossíveis de reproduzir, com seus olhinhos de ponto de linha e cabelos que não negavam mulatice. Nem peixeiras mais afiadas. Nem currimboques de chifre tão polidos, guardando rapé tão aromático. Nem arreios tão rebordados. Nem ervas mais poderosas, capazes de curar sezões, espinhela caída, diarréia, prisão de ventre, mal-de-moça, reumatismo, rouquidão, mau olhado, béri-béri, sapiranga, quizomba, coqueluche, cancro mole, sarna, ferida braba, chanha...(13-10-2008)

 

Retrato de varão

Os livros são mesmo assim. Antes de dizer o que é preciso, em prosa ou em verso, certas obras têm o poder de instaurar saudades. Somente agora, meses depois de lançado, chego ao livro de Gemy Cândido, Clóvis Lima – Um homem predestinado, todo ele construído em pedra de cantaria de tempos vividos por mim na velha Faculdade de Direito da Praça João Pessoa.

Não é fácil reproduzir em texto biográfico a personalidade de um Clóvis Lima. Por mais que se detalhem os traços, sempre há de ficar faltando aquele sombreado, aquele raio de luz que acompanha o retrato das grandes figuras.

Era preciso que o retratista soubesse mais que o próprio retratado.

Eu mesmo acabei sendo vítima dessa limitação, ao suceder Clóvis dos Santos Lima na Cadeira n. 3 da Academia Paraibana de Letras. Limitações, no entanto, não intimidam. Fiz o que faria qualquer acadêmico diante da obrigação protocolar de proferir o elogio de estilo.

Depositei as minhas palavras no Panteão da Academia, como não podia deixar de ser, talhando o perfil do homem de letras, em seu estilo apurado, porém quase espartano, depois o magistrado austero e, finalmente, o Mestre das letras jurídicas criterioso e culto.

Pensei que aquele modelo estava próximo do original.

Hoje, porém, depois de ler Gemy, teria pensado em algo muito diferente.

As fotos reunidas na iconografia de Clóvis Lima – Um homem predestinado me convenceram de que a imagem do tribuno romano esculpida em mármore antigo não passava de simples refúgio ao qual recorria o pater famílias afetuoso que jamais encarava a câmera, talvez por receio de revelar a face bondosa antes de cumprir com o dever do juiz registrado pela objetiva de Mororó ou de Arion.

Se tivesse de realçar outra vez as virtudes que lhe sobravam, como fez Gemy Cândido, haveria de reconhecer aqueles traços domésticos, tão visíveis nos jardins do casarão que reunia o patriarca, a Dona Maria, os filhos Roberto e Vitória, além dos netos numa só ninhada.

Esse o Clóvis Lima que raramente se deixava flagrar. Para ser o autêntico varão extraído das páginas de Plutarco era preciso que eu tivesse dado a conhecer aquele personagem que pervaga por toda a obra que agora me chega pelas mãos do amigo Waldir dos Santos Lima. (06-10-2008)

 

O silêncio dos sábios

Os meninos foram às diversões do fim de semana e voltaram outros. Como voltam a cada fim de semana.

Os novos caminhos da moral até parecem contraditórios diante dos fatos que a vida moderna vai impondo à rotina do viver comum.

Houve tempo em que a gente ia buscar argumentos nos aforismos e nos adágios que traduziam fielmente o espírito da própria sociedade acertada em seus valores e conceitos.

Hoje não dá mais.

Quem pode proferir frases como esta, na presunção de estar definindo algo de concreto:
- Diz-me com quem andas, que eu te direi quem és...

Os nossos filhos já não andam mais com quem eles querem. O mundo é que escolhe as suas companhias. Quando muito, eles as rejeitam...quando podem.

Quase sempre, porém, não podem. E se deixam acompanhar pelas piores aberrações que saem da TV, do cinema e até, inesperadamente, do meio da rua.

Quem mais pode repetir a expressão que os Irmãos Maristas proferiam:
- A muralha é o papel do canalha.

Não é mais.

O muro passou a ser a tela do artista das garatujas. E aquilo que, nos meus tempos de menino, era tido como obra do canalha, hoje é peça artística assinada por artistas que conquistarão a eternidade e a glória sob as assinaturas de ORRATAK, LOMBRIGA et caterva...

Não se arrisque, meu caro leitor, a usar a velha sabedoria popular como suporte para suas idéias.

 Ela, de repente, caiu num imenso vazio, num insondável buraco negro sob o mais profundo silêncio. Se você abrir a boca para repetir aquele antigo refrão:
- Os últimos serão os primeiros...

Lembra-se? Pois o amigo estará pronunciando uma grande besteira.

Perdão, mas é a verdade.
 
Os últimos continuarão sendo os últimos, meu ingênuo leitor. Porque os primeiros são aqueles que furam as filas, os que subornam para tomar o nosso lugar, os que ignoram as regras para chegar na frente, os que corrompem e se deixam corromper, desde que alcancem os seus objetivos.  Esses são os primeiros. E continuarão a sê-lo enquanto durar esse estado de consciência - ou de inconsciência, conforme seja a maneira de enxergar.
 
O Procurador Francisco Porto, numa de suas tertúlias literárias, a bordo daquela caravela flutuante, que era o quarto andar da Secretaria das Finanças, em pleno oceano burocrático, dizia-me:
- Menino, não vá nessa história. De onde não se espera é que não sai nada mesmo...

E assim é. A chamada sabedoria popular, aos poucos, vai perdendo contato com a realidade, vai-se tornando inútil, vai deixando de fazer sentido.  E passa a não dizer mais nada, por falta de ressonância. (29-09-2008)

 

Cabresto eletrônico

No passado, o cabresto do coronel era curto e servia para guiar o voto para dentro dos currais eleitorais.

Veio o sufrágio universal para acabar com esse tipo de cativeiro.

Mas será que acabou mesmo? Estamos em plena era do voto eletrônico. Por mais que tente, ainda não consegui depositar a imagem sem arranhões dos meus candidatos na urna eletrônica. Os tecnocratas que me desculpem, mas, na hora de votar, ainda não aprendi a ser livre e moderno plenamente.

Votação em máquina eletrônica está mais para  aposta em caça-níquel do que para livre escolha democrática.

Se é possível fraudar as apostas nos cassinos, por que não se pode adulterar os votos nas zonas eleitorais?
 
Como toda engenhoca informatizada, a máquina de votar usada no Brasil, a meu ver, não está a salvo das fraudes.

Isso, aliás, não é uma afirmação exclusivamente minha.

O professor Edward Felten, da Universidade de Princeton (EUA), garante que essas máquinas são vulneráveis ao chamado hacking, podendo alterar perfeitamente os resultados eleitorais.

A equipe de Felten descobriu meios de efetuar o carregamento de programas tendenciosos e até mesmo a possibilidade de instalar um tipo de vírus com capacidade de se multiplicar na própria rede.

Isso sem despertar qualquer suspeita.

Os pesquisadores de Princeton revelam também que conceberam um  software capaz de modificar todos os registros, totais de votos, audit logs e contadores mantidos pela máquina de votar, assegurando que um exame judicial nada descobriria de errado.

A despeito de toda a firmeza dos que defendem a  invulnerabilidade do sistema eletrônico de votação, não se pode desconsiderar o fato de que pouquíssimos países de primeiro mundo optaram por esse modelo, preferindo manter o velho esquema voto a voto criado pelos gregos em suas ágoras.

Em todas as eleições anteriores aqui ocorridas, nunca faltaram denúncias de fraudes tendo essas caixas pretas no papel principal. 

Este ano, os americanos também vão escolher o novo presidente dos Estados Unidos, mas poucas são as unidades federadas que se utilizam do processo eletrônico. Por que será que resistem tanto ao método? Logo eles que introduziram a automação no mundo!

Pelo jeito, os nossos amigos do Norte inventam, mas não arriscam...

Já os brasileiros, esses têm pressa em chegar com o futuro mais imediato possível. Não importa quanto lhes custe. (22-09-2008)

 

A perdição da flor

 

– A mina estava a fim, mas a galera ficou toda ouriçada, mano. E não deu pra curtir numa boa a parada, que podia ter sido o maior barato...

Se algum estrangeiro, por mais familiarizado que fosse com a nossa língua, ouvisse esta frase, com certeza não entenderia absolutamente nada. Estará morrendo a “última flor do Lácio”?

Não creio. Mas sofre a língua portuguesa. Como sofre nas mãos iletradas desses novos bárbaros que invadem os meios de comunicação.

Ensinam os grandes mestres da palavra que a língua é um organismo vivo sujeito a influências externas e movimentos de renovação os mais imprevisíveis. A linguagem popular, a gíria não quer saber de regras. Procura os caminhos mais fáceis da comunicação. São os atalhos da expressão.

Quando esses atalhos se tornam mais usados do que as estradas reais, é sinal de que o viajante está sem rumo, perdido em seu próprio país.

– Se liga, meirmão.
É o que restou da língua de Camões.

De quem será a culpa? Da escola que já não sabe mais ensinar os caminhos para além da Taprobana? Ou será culpa dos pais, eles próprios desacostumados aos hábitos da boa leitura?
A esta altura, com a barbárie às nossas portas, já não interessa identificar os culpados. Não muda em nada a dimensão do flagelo.

Na verdade, a crise começa com a identificação dos valores cultivados pela sociedade em que vivemos. Ninguém precisa de tantas leituras assim para chegar ao topo. Aí estão os exemplos clássicos dos que trocam o caminho da escola pelos atalhos do sucesso imediato.

Além disso, em que Fernando Pessoa ou Guimarães Rosa pode ajudar?
– Saca essa, cara.

Mesmo assim, as estatísticas oficiais insistem nas comemorações.

Toda vez que vejo as autoridades anunciarem resultados de avaliações do desempenho das universidades, fico pensando na solidão de Fernando Pessoa ou no olhar melancólico de Guimarães Rosa perdidos nesse grande sertão. (15-09-2008)

 

Memórias do Céu

Pelas escassas provas que se tem do outro mundo, não acredito num Céu estático, povoado de ociosos querubins tangendo as cordas de suas cítaras ou doutrinando sobre o sexo de seus angelicais confrades.

O Céu terá de ser um sítio animado e feliz como felizes eram os tempos em que Jesus andava ausente dos textos das Escrituras e dos relatos proféticos que só começam a invadir a sua privacidade a partir daquelas bodas de Caná.

Sabe no que acredito? Num Paraíso meio parecido com a Pensão da Paz Dourada, mergulhada naquela atmosfera de in ocência marota, na qual só Jorge Amado e Dona Margarida sabiam se entender.

Outro dia, sonhei com Dona Margarida, Caribé e Arnaldo Tavares conversado, os três, no bar de Camafeu de Oxóssi. Isso fou antes de Flávio Tavares pintar aquele seu monumento da Estaçao Ciencia do Cabo Branco.

Está certo. Tudo não passava de um sonho. O repique meio histérico do berimbau havia se dissipado no ar e até o cheiro do acarajé morria no fundo borbulhante da frigideira de ferro fundido.

E aquele livro depositado sobre o tampo da minha mesa de trabalho?
 
Faria parte da minha piedosa alucinação dos céus?

Ali estavam os poemas inéditos de Arnaldo Tavares, caprichosamente reunidos pelo filho escritor Carlos Alberto e ilustrados pelo pintor Flávio Tavares. Claro que não era alucinação. Caribé, Jorge, Arnaldo estão todos vivos na companhia e Deus e de Dona Margarida,  eliciando-se com bolinhos de fubá e bebericando licor de jenipapo no salão principal da Pensão da Paz Dourada.
Aquilo tudo era real.

A começar pela silhueta, em bico e pena, da linda andaluza vestida de negro a contorcer o copo esguio em torno das estrofes secas das castanholas que Arnaldo conhecera em alguma taberna de Sevilha ou ao pé de alguma fonte murmurejante nas cercanias de Córdoba.

Arnaldo Tavares mora em excelente companhia. Estou certo que sim. E, como Neruda, aproveita para tecer os melhores poemas que nunca me mostrou em vida.... (08-09-2008)


 

Domingo de primavera

Quando o cheiro da maresia tomou conta do ônibus, os quarenta passageiros convidados pela Prefeitura de B... ameaçaram descer todos de uma vez, cruzando a porta dianteira numa espécie de ejaculação precoce do proletariado no ventre da luminosa manhã dominical.

Controlado o breve tumulto, já no calçadão da praia, o mais ligadão dos desembarcados, um caboclo alto, meio desengonçado, quarto suplente de vereador na cidade e que acabara de trocar de partido, pensando nas próximas eleições, lançou a questão:
 – Ei, pessoal, cadê a bola? O principal era a bola...

O diretor do Colégio Estadual, que acompanhava o grupo de excursionistas, homem de excelsas virtudes, conforme ele mesmo gostava de saudar todos os excelsos virtuosos, ao ouvir a expressão do vereador regra três, sentiu-se ofendido e criou logo o incidente:
 – Aí é que te enganas, moço. O tal objeto esférico, revestido de couro, destinado a suportar os teus coices e patadas de alimária ignara, em absoluto, não é o principal. Principais somos todos nós, ó silvícola botocudo. 

 Ninguém entendeu nada. Principalmente o suplente de vereador, que, devidamente uniformizado com a camisa do Flamengo, saiu em disparada à caça de uma bola de futebol. Não precisou andar dez metros para encontrar uma turma local, escalando o time. Zeca fica no gol. Tonhão joga mais adiantado e Lesbão, plantado aqui na defesa, que é pra não deixar passar nada. O resto do time avança, abrindo pelas pontas. Entendeu??

O parlamentar também escalou o seu time e partiu logo para o ataque. Os visitantes ganharam pelo placar de três a dois e foram comemorar na barraca do caranguejo. O bodum da pelada misturado com o cheiro da cachaça e os aromas da cozinha especializada em caranguejada ao coco era o que se podia chamar de sincretismo cultural-gastronômico  absoluto.

Só o professor, naquela sua postura de tribuno abusado, fazia questão de liderar a dissidência antidesportiva. Reclamava o tempo todo do desperdício de tempo. A manhã toda perdida ao sol, escoiceando uma bola de um lado para o outro da praia. E agora aquela bebedeira. Nem ao menos uma visita ao parque ecológico logo adiante. Aquilo era uma manada de irracionais – sentenciava o iluminado mestre.
  
Enquanto isso, a meninada rolando na areia adquiria o tradicional aspecto de moleques à milanesa. A carapinha arranhando de tanta areia, o outro chorando com queimadura de caravela, mais adiante o sarará vomitando a vitamina de banana do lanche por conta do excesso de água salgada engolida, a mocinha toda lampeira, de short bem curtinho, tentando chamar atenção do motorista de táxi, o velho pai do vereador subitamente atacado por uma dor de barriga traiçoeira, que o obriga a aliviar-se no canto do muro, por trás do outdoor que anuncia as belezas da cidade.

É o primeiro domingo da primavera na praia. Até que chega a hora de voltar. O suplente de vereador bêbado, discursando no corredor do ônibus, o menino à milanesa ameaçando ao mundo externo novas devoluções da vitamina de banana e o professor sacudindo a cabeça com ar de olímpica reprovação. Tudo pago pela Prefeitura de B... (01-09-2008)

 

Luiz Augusto Crispim é escritor, jornalista, advogado e professor da UFPB e da UNIPE.  Escreve para o Jornal Correio da Paraíba.