DA POSSE

E  SUAS VARIANTES

DE ENTREGAR E RECEBER

Teatro - 1998 - Elpídio Navarro

(Inspirada no poema “Da Posse e Suas Variantes de Entregar e Receber”, de OTÁVIO SITÔNIO PINTO). 

                            Personagens:  ELZA

                                                    ANDRÉ

                                                    (Primeiro Episódio)

 

                                                    ARACI

                                                    BRUNO

                                                    (Segundo Episódio)

 

                                                   NARA

                                                   MAURÍCIO

                                                   (Terceiro Episódio)

             Cenário único. A critério do encenador, a ordem de apresentação dos episódios pode ser mudada e  os seis personagens podem ser interpretados pelos mesmos ator e atriz.

 

                                 PRIMEIRO EPISÓDIO

                                        CENA ÚNICA

(Apartamento de motel . Porta de entrada e porta do banheiro. Elza e André entram em cena juntos. Ela apressa-se em sentar-se numa poltrona e evitar olhar para ele. André fecha a porta, vai até onde está Elza e alisando carinhosamente os seus cabelos, beija-lhe a testa e, em seguida, o rosto e a boca. Ela permanece quieta e tensa. André vai sentar-se na cama e tira os sapatos e a camisa).

ANDRÉ – Elzinha! (Ela volta-se) - Venha para cá.

ELZA – (Retomando a postura anterior) – Aqui está bem... Por que não veste a camisa?

ANDRÉ – O que?!

ELZA – A camisa... Está frio. Esse ar condicionado...

ANDRÉ – Não seja por isso! Eu desligo.

ELZA – Não! Deixe como está. Você não prefere?...

ANDRÉ – Por mim não tem problema. Pensei que você estivesse sentindo frio.

ELZA – É você sem camisa... Pode ficar frio.

ANDRÉ – (Levanta-se e volta até onde está Elza) – Meu bem, o que está acontecendo? (Pegando no braço dela) – Vamos conversar na cama... (Ela puxa o braço) – Meu Deus! O que é que você tem, menina? Está tensa! (Elza começa a chorar e ele entendendo a situação, fica calado junto dela. Tempo).

ELZA – (Parando de chorar e enxugando os olhos com as mãos) – Desculpe! (Tempo) – Acho que estraguei tudo! (Volta a chorar).

ANDRÉ – (Sempre muito carinhoso) – Calma, Elzinha! Calma! Se você não está se sentindo bem aqui, nós saímos agora mesmo. Vou deixar você em casa...

ELZA – Não pode! Eu disse que ia dormir na casa de Claudinha! Se eu voltar a essa hora, o velho vai desconfiar. Você sabe como ele é grosso! Que horas são?

ANDRÉ – Então vamos para a casa de Claudinha!

ELZA – Como, se ela também disse aos pais que ia dormir lá em casa! Que horas são?

ANDRÉ – Assim fica difícil! E agora, o que você quer que eu faça? Da forma que você quiser se resolve...

ELZA – Sei lá!... Eu sou culpada mesmo! Não tinha nada que provocar essa situação. Mas que horas são?

ANDRÉ – Já passa das onze... Por que?  (Elza não responde) Você tentou, Elzinha! Eu também tenho um pouco de culpa. Sou mais velho, mais experiente... Devia ter pensado antes, que você poderia reagir, dessa forma, num quarto de motel. É um passo importante na sua vida, eu sei, mas você me ama e sabe que eu lhe amo igualmente. Pensei que houvesse chegado a hora, que a sua decisão tivesse sido uma decisão amadurecida, consciente...

ELZA – E era! Mas quando eu cheguei aqui fiquei com medo, com vergonha, pronto! (Tempo) – Você não vai me perdoar pelo vexame, não é André?

ANDRÉ – Que nada, Elzinha! Não tem vexame nenhum. Posso até estar um pouco frustrado, mas compreendo a tua atitude. Sei que não é fácil a primeira vez!

ELZA – Sou uma besta mesmo! Quando estou com você sozinha, na sala lá de casa ou no teu carro, nunca tem problema. Aqui, quando eu vi essa cama, você tirando a roupa, não sei o que deu em mim! Era tudo que eu desejava! Fui eu quem pediu para vir! No entanto!... Abestalhada é o que eu sou!

ANDRÉ – Relaxe, meu amor! É natural que isso aconteça. Na tua casa, no carro, haviam limitações. Aqui não! Aqui seria um homem e uma mulher num ato sexual completo, o que deve ter lhe assustado.

ELZA – Mas eu não mais uma criança, André! Eu sou adulta, formada, independente, já ganho o meu dinheiro!

ANDRÉ – Isso vai mudar, você vai ver.

ELZA – Ainda estou com a cabeça desse jeito! Preocupada com virgindade! Como se virgindade fosse o rompimento do hímen ! E o que nós já fazemos juntos? Já temos todas as intimidades possíveis entre noivos, que esperam vir  a casar...

ANDRÉ – Talvez seja isso! Você se guardando para o casamento.

ELZA – Não vale! Nosso casamento ainda demora! Você precisa terminar seu curso, montar consultório, trabalhar... Isso ainda leva tempo, você sabe. E se eu morro amanhã ou você morre? O que fizemos? Não conseguimos nos completar! Eu realmente não sei o que está acontecendo comigo!

ANDRÉ – Considere também os preconceitos da tua família. Teu pai mesmo, outro dia, saiu-se com uma conversa para o meu lado, que estava na cara que era um aviso! E olha, que nós namoramos desde a tua adolescência!

ELZA – O que foi?

ANDRÉ – Estávamos vendo televisão, enquanto você se aprontava para a gente sair. De repente, na novela, um casal de namorados resolvem transar e tem a compreensão da mãe da moça.   Ele foi taxativo:  “ filha minha não foi educada dessa  forma! Se a minha mulher fizesse o que essa mãe daí está fazendo, eu quebrava ela de pau e ainda botava prá fora de casa!” Tua mãe calada estava, calada ficou!

ELZA – É. Ela me contou essa história. Achou um absurdo ele dizer essa sandice na sua frente. Mas eu disse a ela que era melhor não falar nada. Evitar discussão.

ANDRÉ – Olhe aí! Eu tenho razão! Aí dentro da tua cabecinha deve estar armazenado esses mais de vinte anos de repressão! Bastaria a gente ir a um padre ou a um juiz, que você não sentiria bloqueio algum! Infelizmente isso não pode ser.

ELZA – E por que você não me leva agora para a cama, na marra, debaixo de tapa se for preciso, e  resolve tudo? (André fica calado, acha graça) – Desculpe, meu amor. Eu não sei mais nem o que digo!

ANDRÉ – Elzinha, vá para a cama. Sozinha! Você dorme e eu fico aqui na poltrona. Quando o dia amanhecer a gente resolve o que fazer. Um bom sono clareia as idéias!

ELZA – Fique você mesmo na cama.

ANDRÉ – Não,  meu amor! Venha! Você fica lá e eu me arranjo por aqui. Venha! (Elza atende o chamado dele e, com toda a roupa deita-se na cama. André veste a camisa e procura se acomodar na poltrona após desligar a lâmpada do teto, deixando apenas um quebra-luz aceso).

ELZA – (Durante algum tempo permanece calada e impaciente, mudando de um lado para outro, na cama) – Amor!

ANDRÉ – Oi?

ELZA – Você está bem, aí?

ANDRÉ – O que é que você acha?

ELZA – Eu bem que queria ficar aí e você...  Que horas são?

ANDRÉ – Já disse que passa um bocado das onze. Perto de meia-noite. Que mania! (Tempo) Mas veja: não é o fato de estar na poltrona e não na cama, Elzinha. É a situação inusitada e até certo ponto  ridícula, em que nós nos encontramos! Tomara que você não conte isso a ninguém! Nós íamos virar motivo para chacotas!

ELZA – Deus me livre! Claudinha sabendo de uma coisa dessa vai gozar com a minha cara o resto da vida! Foi ela que mais incentivou...

ANDRÉ – Pois é! Com sua amiga esse problema não existe mais! E ela não deixou de ser quem era não! Continua a mesma pessoa.

ELZA – Você diz que não, mas está zangado comigo. Está me culpando! Sua forma de falar denuncia isso...

ANDRÉ – Elzinha: eu sou um homem normal,  com as funções  sexuais perfeitas, encontro-me num quarto de motel com a mulher que amo, ela também me ama e é normal. Nós dois cheios de tesão um pelo outro, e ficamos dessa forma, você na cama, eu nessa poltrona, dormindo! Você há de convir que é uma situação, no mínimo, estranha.  Não, eu não estou zangado com você. Você é quem deve estar zangada com você mesma!

ELZA – Eu vou mudar, juro! Da próxima vez... Logo eu vou estar pronta. Eu só preciso de mais um tempo.

ANDRÉ – (Cortando) - A minha dúvida é se vai haver próxima vez. Acho que depois dessa situação, você não vai se dispor a entrar novamente, comigo, num motel.

ELZA – Vou, meu amor! Eu vou! Tenha paciência! Falta pouco tempo!

ANDRÉ – Tomara!  Por que esse história de pouco tempo? Não entendi. (Tempo. ELZA fica calada) - Agora, o melhor que a gente pode fazer, é procurar dormir. A noite vai ser longa! Até amanhã, Elzinha!

ELZA – Até... (Tempo) – Não vem me dar nem um beijinho antes de dormir?

ANDRÉ – Olhe! Você está cutucando o diabo com vara curta! Se eu for aí, não me garanto!

ELZA – Então fique aí mesmo! (Tempo) – Mas venha... Eu me garanto! É só um beijinho!

ANDRÉ – (Volta-se para olhar em direção a ela. Tempo. Levanta-se e vai a cama. Curva-se a beija, rapidamente. Vai retornando para a poltrona).

ELZA – Só isso?! Esse é beijo de pai! Eu queria um beijo de verdade.

ANDRÉ – (Volta-se mais uma vez e atende ao chamamento dela, agora abraçando-a num longo beijo) – Você pediu!

ELZA – (Também abraça-o. Os dois rolam um pouco na cama. Ela reage) – Vamos parar, André! Por favor! Pare! Ainda não chegou a hora!

ANDRÉ – (Levanta-se amuado) – Está bem. Foi você quem me chamou! (Volta para a poltrona).

ELZA – (Depois de algum tempo) – Que horas são?

ANDRÉ – (Com má vontade) – Sei lá! (Olha para o relógio) – Quase meia-noite!

ELZA – Quase, como? Quanto tempo falta?

ANDRÉ – (Olha, novamente, o relógio) – Um minuto e alguma coisa...

ELZA – Então tá na hora!

ANDRÉ – De quê?

ELZA – De dormir, é claro!

ANDRÉ – Eu já devia ter feito isso!... (Acomoda-se, na poltrona, procurando a melhor posição para dormir).

ELZA – (Começa a tirar a roupa e fica só de calcinha, deitada na cama) – Amor!

ANDRÉ – Heim?

ELZA – Já passa da meia-noite?

ANDRÉ – (Olha o relógio) – Já.

ELZA – Então, venha!

ANDRÉ – Prá onde? (Volta-se, espantando-se ao ver Elza quase nua em cima da cama) – O que é isso?!

ELZA – Primeiro de abril!

ANDRÉ – O que?!

ELZA – Primeiro de abril! Agora já é dia dois! Lhe peguei direitinho! Venha logo! Eu já não estava me agüentando!

ANDRÉ – Não acredito!

ELZA – Pois acredite! Queria ver até que ponto eu me segurava ! E você também! Foi excitante! Bote a camisinha...

ANDRÉ – Estou sonhando!

ELZA – Está nada! Veja! (Começa a tirar a calcinha. Sai a luz. Fim do episódio).

 

SEGUNDO EPISÓDIO

                                              CENA I

(Ao abrir a cena, Bruno está sentado na cama, encostado aos travesseiros, de cabeça baixa, com um lençol por cima do colo. Araci, de calcinha, vestindo a camisa social de Bruno, desabotoada, deixando à mostra parte dos seios. caminhando de um lado para o outro do apartamento, fumando, preocupada).

BRUNO – Não entendo por que está acontecendo isso!...

ARACI – Não é a primeira vez!

BRUNO – É uma reclamação?

ARACI – Antes é mais uma preocupação!

BRUNO – Com o que?

ARACI – Ora, Bruno! As coisas já não são as mesmas. Você pensa que eu não já venho notando há bastante tempo?

BRUNO – O que é que você vem notando? Que eu fico na boate até de madrugada, esperando que você termine a sua dança. Fico bebendo enquanto lhe espero, e chego aqui cansado, com sono... É natural que aconteça isso!

ARACI – (Sentando-se na beira da cama) – Olhe, Bruno. Eu não sou formada, só fiz até o primeiro grau, mas não sou burra não! Não venha com essa história de cansaço, de sono, de bebida, que sempre foi assim. Desde o começo, que você espera terminar  a apresentação para poder a gente sair. E não tinha problema nenhum!

BRUNO – Eu já disse a você: alugo um apartamento, preparo um cantinho para nós dois, você terá tudo e não vai precisar ficar sem roupa para ganhar dinheiro!

ARACI – Você sabe que eu não fico sem roupa. Sou uma bailarina e não posso me apresentar com uma roupa de freira! E me orgulho de não querer viver às custas de ninguém. Já tenho o meu apartamento, graças a Deus, e mantenho ele com o meu trabalho!

BRUNO – Apartamento! Trabalho! O apartamento é da sua mãe! E ficar mexendo a bunda naquele palco é trabalho, é?

ARACI – É, e tão honesto como qualquer outro! Quanto ao apartamento da minha mãe, é mesmo que ser meu. Ela só tem a mim, sou filha única...

BRUNO – (Cortando )  - Esperando que a velha bata as botas!

ARACI – (Tempo) – Você pode até não gostar dela, Bruno. Ninguém lhe obriga! Mas não fique desejando a morte da minha mãe. Assim você me magoa muito.

BRUNO – Eu?! Desejando? Eu não sou nem herdeiro!

ARACI – E pensar que ela até gosta de você! Sempre que você vai lá ela procura lhe agrada, é mentira? Outro dia ela, que também não é burra, e que já percebeu qual é a nossa situação, veio me perguntar por que você não  fica logo lá em casa...

BRUNO – (Cortando) -  Deus me livre! Vocês duas estão loucas! Nós três juntos? Eu que não gosto nem de ouvir falar em casamento, vou querer arranjar uma sogra sem casar! Essa é boa!

ARACI – Esqueça, esqueça o eu lhe contei. O que eu lhe contei não significa também que eu queira casar com você. Longe de mim tal idéia! Agora quem diz sou eu: Deus me livre!

BRUNO – (Espantado) – Por que?! Você encontraria alguém melhor do que eu?

ARACI – Exatamente por isso! Porque você se acha bom demais para mim! Você se acha superior, é rico e eu sou pobre, é comerciante e eu sou bailarina... Nunca iria dar certo.

BRUNO – Metida a orgulhosa, heim? Também não é assim não! Se você não me interessasse eu ficaria lhe esperando cinco noites por semana, até tarde, para a gente poder ficar juntos? Você não vê o meu lado. Eu trabalho todo dia!

ARACI – E o que eu faço não é um trabalho?

BRUNO – Dançar? Dá trabalhão!...

ARACI – Mas não é um trabalho? Não é honesto? Quanto preconceito, meu Deus! Precisaria de mais alguma razão para eu não querer me casar com você? Nem me juntar num apartamento escondido em algum lugar...

BRUNO – (Cortando) – Está bem! Prove que gosta de mim: largue tudo! Depois de um tempo eu caso de verdade!

ARACI – Nunca! Nem que a vaca tussa!

BRUNO – Então é você que não quer.

ARACI – É isso mesmo! Quero não! Eu só casaria com um homem que me aceitasse do jeito que eu sou.

BRUNO – Dançando numa boate?

ARACI – Isso! Bailarina de boate com muita honra! Você já me viu com outro homem? Depois que eu estamos saindo juntos, e veja que já está perto de um ano, você já me viu ou soube de mim com outro homem? Já?

BRUNO – Também eu não largo  do seu pé! Quando você não está comigo, está dormindo ou dançando!

ARACI – Você acaba de confirmar a minha suspeita, de justificar a razão do meu medo! Viver com você seria o mesmo que ir para uma prisão! Viver num apartamento só esperando  você chegar,  para ir para a cama! Não, Bruno! Essa não! Por acaso você iria deixar de se encontrar com os seus amigos, de freqüentar os bares, os teatros, os cinemas, as festas na casa de teus pais, de teus irmãos, da tua família toda, deixar de ver futebol, de  passear de barco, de pescar, enfim, tudo que você faz e me conta que faz sem a minha presença? Iria? Diga!

BRUNO – Você é exagerada! A gente precisava primeiro... Quer dizer, com o tempo as coisas iam acontecendo, todos iam se acostumando, quando você menos esperasse o problema, isto é,  tudo estaria resolvido...

ARACI – Eu seria um problema a ser resolvido... (Levanta-se, vai até ao frigo-bar, abre uma lata de cerveja) – Quer uma também?

BRUNO – Não. Prefiro um uísque.

ARACI – (Preparando a dose de uísque) – Preciso molhar a garganta. Acho que falei demais!

BRUNO – Também acho. (Recebe a dose de uísque) – Obrigado. Olhe, quando eu terminar essa dose eu vou dormir um pouco. Preciso descansar. Por que você não faz o mesmo? Quando a gente acordar eu vou estar disposto, vamos poder fazer amor à vontade, sem problema de tempo. Amanhã é domingo, eu não trabalho.  Posso ficar aqui o tempo que for preciso.

ARACI – Como você quiser, Bruno! Você manda, eu obedeço!

BRUNO – Ah! Agora estou reconhecendo a minha Araci! Venha! Deite junto comigo. Vamos dormir bem juntinhos. Você de costa para mim e eu encostado na sua bundinha! Isso me dá um tesão de lascar! (Põe o copo de uísque na mesinha ao lado da cama) – Venha!

ARACI – Deixe eu terminar a minha cerveja.

BRUNO – (Mais carinhoso) – Não, meu bem! Deixe a cerveja para depois. Venha logo, venha! Quero sentir você!

ARACI – Com isso aí mole?

BRUNO – Você sabe como endurecer!

ARACI – Saber, eu sei. Só não sei como fazer para que permaneça duro!

BRUNO – Depois! Você vai ver que quando a gente acordar eu vou ser outro homem!

ARACI – O grande problema é que eu não quero outro homem, eu quero você!

BRUNO – Então, venha! (Araci põe a cerveja junto à dose de uísque, tira a camisa, fica só de calcinha e deita-se ao lado de Bruno). – Vamos, fique de lado e de costa para mim. (Araci atende ao pedido. Bruno encosta-se nela e põe o lençol cobrindo os dois da cintura para baixo) – Ai como eu adora essa sua bundinha! Vamos, mexa! Mexa como você faz dançando! Mexa... (Sai a luz. Fim da cena).

 

                                            CENA II

(Araci sentada na cama, Bruno deitado, dormindo. Ela procura acordá-lo, chamando-o e sacudindo-o. Ambos estão vestidos da mesma forma como foram dormir).

ARACI – Bruno! Bruno! Acorde, Bruno! Acorde!

BRUNO – (Acordando e sentando-se) – Heim? O que foi? O que é que está havendo?

ARACI – Quem é Aline?

BRUNO – Aline? Que Aline?

ARACI – Eu é que estou perguntando: quem é Aline?

BRUNO – E eu sei lá quem é Aline! Que história é essa?

ARACI – Você dormindo e falando: onde está você, Aline? Para onde você foi, Aline? Quem é essa Aline? Vamos, diga logo!

BRUNO – Sei tanto quanto você! Devo ter sonhado!...

ARACI – Não parecia sonho, não senhor! Você estava agoniado, procurando essa Aline!

BRUNO – Araci, a única Aline que eu conheci na minha vida, faz mais de vinte anos! Eu era jovem ainda...

ARACI – Apaixonado? Ainda está apaixonado?

BRUNO – Que paixão que nada, menina! Apenas fomos namorados... Ela era estudante de medicina, formou-se, foi fazer outros cursos no exterior e quando voltou estava casada com um gringo...

ARACI – E você nunca a esqueceu!

BRUNO – Que mania essa sua! Fica querendo adivinhar as coisas! Que eu estava apaixonado, que eu não esqueci... Ora essa! Se me acordou para dizer essas besteiras, era melhor ter me deixado  dormindo!

ARACI – Então era um pesadelo! Um pesadelo que você vem tendo durante esses vintes anos!

BRUNO – Porra! Você está enchendo o saco! Desde que chegamos aqui que você só faz reclamar! Parece até que a gente veio aqui para brigar!

ARACI – Não. Não foi. Eu não quero brigar. O melhor é ir embora. Evitar mais discussões.

BRUNO – Mas você é encrenqueira mesmo! Por que ir embora? Eu já disse que essa Aline...

ARACI – (Cortando) – Não estou preocupada com isso. Falei por falar. (Levantando-se da cama e vestindo uma blusa) – Eu quero ir embora porque, para dormir, prefiro a minha cama!

BRUNO – Mas a gente não tinha combinado que quando acordasse...

ARACI – Deixe de onda, Bruno! Eu não consegui dormir um segundo sequer. Você ali, encostado em mim como quis ficar, e o tempo todinho não deu nem sinal de vida! E eu acordada, esperando feito uma besta e você nada! Agora, roncar você roncou e muito! Além de ficar procurando por essa Aline aí não sei das contas!

BRUNO  - Ora, se eu estava dormindo, como você queria que eu me excitasse! 

ARACI – Está bem, Bruno. Está bem! Já disse que não quero brigar com você. (Começa a vestir a saia) – Vamos embora que é o melhor que a gente faz.

BRUNO – É danado! Esperei pacientemente acabar aquele seu rebolado, que você apelidou de trabalho. Com a maior boa vontade...

ARACI – (Cortando) – Chega, Bruno! Não vem com essa não de querer se fazer de vítima! Estou morrendo de sono, cansada, aborrecida e querendo ir para a minha casa. Dá para entender?

BRUNO – Eu não quero ir agora, pronto! Você vai me obrigar? (Araci senta na poltrona, procura se acomodar como quem está querendo dormir. Tempo) – Ei! Vai dormir aí é? Por não vem prá cama?

ARACI – (Sem olhar para Bruno) – Estou bem aqui.

BRUNO – Venha prá cá! Vamos fazer amor! Venha!

ARACI – Como?! Com que roupa?

BRUNO – Você vindo, se enroscando em mim, sabe que funciona!

ARACI – Passei a noite toda fazendo isso e nada! Não vou perder mais tempo.

BRUNO – Quer dizer que a senhora agora está perdendo tempo comigo? Ainda diz que fui eu quem mudou!

ARACI – Você sabe que foi. De pau duro para pau mole!

BRUNO – Ih! Já está apelando! Não nega a origem! Também, com essa profissão desonesta...

ARACI – (Cortando, indignada) – Desonesta, não! Desonesta é a sua! O meu dinheiro é limpo. É pouco mas é limpo! A mesma coisa você não pode dizer!

BRUNO – Eu sou um comerciante, não sou uma dançarina de boate não!

ARACI – Grande merda! Vive fazendo falcatruas! Agora quer tirar onda de honesto! E as safadezas lá com as repartições? Você mesmo me contou! Dez por cento para os funcionários encarregados das compras e aumento de cinqüenta no preço das mercadorias! Eu não estudei muito não, mas aprendi que para isso tem um nome: corrupção!  Isso prá mim é roubo! Cuidado, viu? As vezes aparece um maluco honesto no meio dessa roubalheira toda e você pode se ferrar! Aí eu quero ver onde vai parar esse orgulho todo!

BRUNO – E por que você não vai tomar no cú, sua putinha escrota?

ARACI – Porque quando eu fui encontrei a sua mãe tomando!

BRUNO – Olhe, sua quenga! Lave a boca para poder falar da minha mãe! (Levanta-se e começa a vestir a roupa) – Sabe de uma coisa? A  baixaria já baixou por aqui e eu vou cair fora, antes que termine fazendo uma besteira!

ARACI – (Desafiadora e mais agressiva) – O que é? Vai bater em mim, é? Para isso, até que você pode ser homem! Para as outras coisas, já era!

BRUNO – Chega! Vamos parar? Termine de se arrumar. Vamos embora.

ARACI – Agora que não quer ir sou eu! Estou sem pressa!

BRUNO – Então eu vou lhe deixar aqui! (Apressa-se em terminar de se arrumar e faz menção de sair. Araci toma-lhe a frente e empurra-o para a cama, onde ele cai sentado).

ARACI – Vai porra nenhuma! Você me trouxe para aqui e só vai sair comigo!

BRUNO – Araci, eu não vim aqui para brigar com você!

ARACI – Eu sei! Veio para trepar! Mas cadê pau? Brochado, meu filho, não trepa coisa nenhuma!

BRUNO – (Revoltando-se ) – Porra! Eu não quero confusão mas você está me obrigando!

ARACI – Brocha! Vamos! Você não diz que é macho? Macho! Com uma porcaria dessa, que a gente passa a noite toda esfregando e não consegue endurecer!

BRUNO – Sabe o que é? Não estou mais interessado em você! Estou lhe achando cada vez mais, frouxa. Frouxa não, arrombada! E esse mau hálito horrível de cerveja e cigarro! Dá vontade de vomitar! E essa sovaqueira que você tem? Horrorosa! Com isso tudo como é que eu posso ter tesão por você?

ARACI – (Explodindo) – Seu filho da puta, agora você vai ver... (Parte para cima de Bruno, agredindo-o com murros e pontapés. Ele levanta-se, defendendo-se e os dois se agarram em luta corporal, rolando por sobre a cama. Em dado momento Bruno pára ajoelhado em cima da cama, gritando. Araci permanece batendo).

BRUNO – Pára! Pára! Veja! Veja como está! (Araci pára de bater nele. Bruno grita eufórico) – Tá duro! Tá duro!

ARACI – (Depois de observar o que Bruno está lhe mostrando, cobre-lhe de carinhos) – Meu amor! Até que enfim!... (Sai a luz. Fim do episódio).

 

TERCEIRO EPISÓDIO

                                            CENA I

( Ao abrir o pano ou subir a luz, ouve-se sons de carro estacionando, portas sendo batidas, pessoas falando baixo e a porta de entrada do apartamento sendo aberta. Nara entra primeiro, com óculos escuro na mão e vai logo deixando-o em algum lugar. Desfaz-se de uma peruca de cor diferente da dos seus próprios cabelos, jogando-a em cima de uma poltrona, juntamente com uma bolsa que conduz. Senta na cama, começa a tirar os sapatos, as meias e as jóias. Maurício  entra, trancando a porta por dentro. Nara permanece sentada na cama, contemplativa).

MAURÍCIO – (Por algum tempo observa Nara) – Então? Passou o susto?

NARA -  O susto passou... Também passou o tesão!

MAURÍCIO – Eu estou bem. Com bastante disposição!

NARA – O marido não era seu!

MAURÍCIO – Tão pouco era o seu marido, Nara! Apenas uma coincidência. Não havia  razão para desespero.

NARA – Não fiquei desesperada. Apenas assustada. Fiquei assustada na hora. Você parou o carro...

MAURÍCIO – (Cortando) - E o que você queria que eu fizesse? Desembestasse estrada afora, arriscando um acidente ou até uma perseguição da Polícia Rodoviária?

NARA – E se fosse ele?

MAURÍCIO – Estava lhe levando para casa! Não é o caminho? Chegaria até a agradecer a ele por evitar a minha ida até onde vocês moram. Eu estava lhe dando uma carona, meu bem!

NARA – E o carro da repartição? Por que não foi me deixar?

MAURÍCIO – Por que eu mandei fazer outro serviço. Eu não sou o chefe?

NARA – Ele ia bem acreditar nessa história?

MAURÍCIO – Claro! Nós nos damos muito bem, eu e seu marido...

NARA – É o que você pensa! Ele anda muito cabreiro  com essa nossa amizade. Ele diz que a gente já passa o tempo todo juntos no trabalho e à noite você ainda liga lá para casa! Sábado, domingo, feriado a gente ainda sai juntos!

MAURÍCIO – Ele também não vai? A minha mulher também não vai?

NARA – Mas ele não é burro não, meu filho! Todo dia, toda hora, você sempre está por perto. Ele está desconfiado!

MAURÍCIO – Então só tem um jeito: a gente não se encontra mais.

NARA – Lá vem você com a sua chantagem emocional! Você sabe que eu não quero isso!

MAURÍCIO – Tem outro jeito: pedimos divórcio no mesmo dia. Faço isso amanhã cedo!

NARA – Você sabe que eu não posso, que eu não tenho coragem...

MAURÍCIO – (Imitando ela) “...que meus pais não suportariam mais uma separação na família, que meus filhos ainda são muito jovens  e iriam ser prejudicados...” Tudo isso você já me disse. Agora, você não é mais uma menina! Naturalmente não vai ter o mesmo tempo de vida que seus filhos vão ter;  suas irmãs se separaram e nada aconteceu com os velhos e coragem, minha filha, você tem de sobra, demonstrada nesses quatro anos que estamos nos encontrando às escondidas... (Nota que Nara está chorando. Fala carinhosamente) – O que foi, nega? Por que está chorando? O que foi que eu fiz?

NARA – Você já está me achando velha! Toda vez que a gente discute esse assunto, você diz que eu não sou mais uma menina... Precisa ficar passando isso na minha cara, precisa? Eu tenho espelho!

MAURÍCIO – Chantagem emocional é isso agora! Você sabe que eu não suporto lhe ver chorando. Apelou, não foi?

NARA – (Tempo) – É outra coisa... Preciso fazer um exame de colo do útero. Mamãe disse que eu já estou passando da idade!

MAURÍCIO – Pelo que eu sei, a mulher faz isso com qualquer idade. Qual é o problema? Ô Nara, que bobagem! Você não é nenhuma múmia de dois mil anos! Você é jovem, bonita e gostosa! Eu que o diga!

NARA – E se eu tiver um câncer?

MAURÍCIO – Câncer? Você está ficando doida?! (Tempo. Brincando com ela) – Está bem! Se você estiver com um câncer, você é jovem, bonita, gostosa e cancerosa! Para mim não muda nada! (Nara volta a chorar. Ele mostra-se carinhoso com ela) – Que bobagem, nega! Você tem é muita saúde! Apenas voltou a ser aquela mulher dramática de há pouco, quando pensava que o marido estava nos seguindo?

NARA – Mas podia ser ele, não podia? O carro da mesma marca, a cor do carro igual...

MAURÍCIO – Um dono diferente, um motorista diferente... Você é mesmo dramática! Daria uma excelente atriz de novela mexicana! Aliás, eu nunca entendi por que você não escolheu a profissão de atriz! Vive representando o papel de esposa perfeita tão bem, que chega a me deixar com ciúmes quando faz isso na minha frente! (Nara rir) – Só não sei, se quando... O que foi? Está rindo por que?

NARA – Lembranças, meu amor! Lembranças! Aquela vez, no restaurante, foi arretado! Eu tirei o pé do sapato e comecei a roçar na tua perna por debaixo da mesa, sem que tua mulher e meu marido vissem. Você ficou espantado e nervoso começou a falar sem parar.

MAURÍCIO – Claro! Eu estava preocupado em mantê-los com a atenção desviada para mim, até você terminar com aquele alisado!

NARA – Mas foi gostoso, não foi?

MAURÍCIO – Gostoso foi, mas que foi também sacanagem da sua parte, foi! Eles não notaram que estava havendo alguma coisa de burros que são! Eu teria notado logo.

NARA – É o “quem disso cuida disso usa”, meu filho! Estavam com as consciências tranqüilas, enquanto você...

MAURÍCIO – Eu? É engraçado! Você estava fazendo tudo e a minha consciência é quem paga?

NARA – Mas você foi inteligente! Puxou logo um assunto danado de polêmico: economia brasileira! E começou dizendo que o Brasil era o paraíso dos banqueiros e agiotas, logo na frente de quem! Ele não podia deixar passar em branco. A tua mulher também. Você jogou um contra o outro e ainda não queria deixar nenhum deles falar! Eu já não sabia se me concentrava na basbaquice deles ou no que estava fazendo por debaixo da mesa...

MAURÍCIO – Teu marido ficou possesso! E ele é empregado! Avalie se fosse banqueiro!

NARA – Ficou tão envolvido na conversa,  que nem prestou atenção na minha insistência de que tinha muriçoca mordendo as minhas pernas. Pude me baixar para coçar o pé e aproveitar para pegar naquilo!

MAURÍCIO – Que estava duro!

NARA – Duríssimo! Também, com o alisado que eu estava fazendo!

MAURÍCIO – Diga-se de passagem, foi um grande alisado! Não sei como você imaginou aquilo tudo. A gente teve um pouco de sorte.  Conseguir uma condição tão propícia!...

NARA – Sorte nada! Cabeça, meu filho! Por que foi que eu insisti para todo mundo sair de bermudas? As pernas de fora, meu filho! Por que eu me antecipei em sentar ao teu lado e não de frente? Para facilitar as coisas, meu filho! Aqui é juízo, viu? (Ri. Tempo) - Mas quando eu senti que você estava pronto, me deu um tesão danado! Comecei a imaginar tua mulher discutindo com Eduardo e nós dois fazendo amor em cima da mesa, na frente deles! 

MAURÍCIO – Você é mesmo maquiavélica!

NARA – Fantasias, meu filho! Fantasias! E inteligência!

MAURÍCIO – Isso ninguém pode lhe negar. (Tempo) – Tem uma coisa que eu tenho vontade de dizer, mas não sei se você vai entender.

NARA – Diga, meu filho! De você eu aceito tudo!

MAURÍCIO – Garante que não vai se chatear comigo?

NARA – Juro!

MAURÍCIO – Acho que errei quando disse que você tinha se enganado de profissão, que você devia ter abraçado a carreira de atriz. Sua vocação é outra. Você devia ter abraçado aquela profissão que dizem ser a mais antiga que existe! Estaria muito rica hoje! (Nara fica séria) – Eu nunca conheci uma puta, das mais famosas que eu conheci, e olha que eu conheci muitas, que na cama ou fora da cama chegasse perto de você! (Nota que Nara está séria) – O que foi? Zangou-se com a minha brincadeira? Você prometeu...

NARA – Não é nada disso. O que você falou, para mim foi elogio! Eu me senti bem mulher, ainda com todas as condições de ser desejada pelos homens e isso é muito bom! Foi outra coisa.  Foram algumas lembranças... Já haviam me dito isso antes!

MAURÍCIO – Quem?

NARA – Quem?! Eduardo! Logo que nos casamos. Quando tudo ainda era paixão e ele não pensava só em dinheiro. Quando o nosso casamento era só alegria. Depois as coisas foram esfriando, problemas surgindo, filhos, algumas dificuldades financeiras e tudo mudando... Nunca mais ele me viu como antes. O que toda mulher gosta mesmo, é de ver-se desejada, amada...

MAURÍCIO – Quanto a isso você  sente falta, não é? Eu garanto que vai continuar sendo assim!

NARA – E se eu tiver câncer?

MAURÍCIO – O que?! Lá vem você com essa bobagem de novo! Que câncer coisa nenhuma! Você não sente nada, é uma mulher saudável.

NARA – Você pensa! Você não sabe! Ultimamente, na menstruação, as cólicas estão mais fortes. Por isso é que mamãe disse para eu fazer o exame... (Tempo) - Estou com medo, pronto!

MAURÍCIO – (Senta-se também na cama. Abraça-se com ela, beijando-a) – Ô, meu amor! (Brincando) – Meu docinho de câncer! (Ri) - Que tolice! Deve ser normal isso. É que quanto mais o tempo passa, mais...

NARA – (Cortando) – Mais eu me aproximo da menopausa, não é?

MAURÍCIO – Você está ficando louca! Que mania, meu Deus! Ia dizer que quanto mais o tempo passa, mais você fica gostosa, bacana, mais eu te amo, meu amor! Você só pensa no pior! E o que é que tem demais com a menopausa? Desejo muito que nós ainda estejamos juntos quando ela chegar, para eu poder lhe provar que nada vai mudar. Quando chegar a menopausa, melhor para você! Acabam as cólicas!

NARA – E se acabar também o fogo? Aí eu não vou ser mais aquela mulher que você diz gostar tanto!

MAURÍCIO – Eita mulherzinha danada de dramática! Assim é foda! Só pensa negativamente! Relaxa, diabo! E nós viemos aqui para trepar ou para conversar?!

NARA – Veja como estou preocupada. Esquecendo o que mais gosto na vida! (Procura ser carinhosa com ele, beijando-o. Ele retribui o gesto, abraçam-se deitando na cama. Acariciam-se, ele procurando tirar a roupa dela, enquanto rolam na cama. De repente, Nara pára tudo, levantando-se em seguida).

MAURÍCIO – (Espantado) – O que houve?!

NARA – Nada! Vou tomar um banho antes.

MAURÍCIO – Não precisa. Depois! Já perdemos muito tempo, meu amor. Venha!

NARA – Não posso.  Estou... Você sabe!

MAURÍCIO – Menstruada?! Logo hoje, meu amor? Que azar!

NARA – Veio mais cedo este mês. É outra coisa que também está me preocupando.

MAURÍCIO – Pronto! Agora completou! Era só o que faltava! Preocupada com a coisa mais natural da mulher! Está bem, assim.  Só é chato porque hoje não vai rolar tudo.

NARA – Você é quem sabe. Se quiser dar uma de vampiro!... (Tirando o vestido, apanha uma toalha e dirigindo-se ao banheiro) – Veja se tem vinho no frigo-bar. (Sai).

MAURÍCIO – (Vai até ao frigo-bar, abre uma miniatura de garrafa de uísque, põe num copo com gelo e toma um gole. Nara cantarola no banheiro. Maurício vai até ao telefone, tirando-o do gancho) – Alô! Providencie uma garrafa de vinho e taças. (Tempo) – “Rosé”. (Tempo) – É sim. Apartamento 28. (Desliga o telefone e começa a despir-se, ao mesmo tempo que fala mais alto, para ser ouvido no banheiro) – Acho que vou me juntar a você! Não dá para esperar!

NARA – (Grita do banheiro) – Venha! Venha quente que eu já estou fervendo e molhadinha! Em todos os sentidos!(Sai a luz. Fim da cena).

 

                                       CENA  II

(A cena inicia-se com Nara e Maurício sentados no meio da cama, enrolados nas toalhas de banho, tomando vinho).

NARA – Vinho antes, vinho após! Quando a gente começou, era um cigarro após!

MAURÍCIO – Felizmente deixamos de fumar! Quanto tempo perdido!

NARA – É. Mas até que era relaxante. Ajudava a diminuir as tensões.

MAURÍCIO – E os tesões também!

NARA – É o que dizem. (Move-se na direção de um botão de controle, ao lado da cama) – Vamos ver que música está tocando. Pode ser uma  das nossas!

MAURÍCIO – “Menino Passarinho” ou  “Moça”? “Eu quero me enrolar nos teus cabelos...”

NARA – Qualquer uma das duas. Ou das outras! (Liga o som. Ouve-se música romântica, que deverá permanecer até ao final da cena. Nara baixa o volume e volta para junto de Maurício).

MAURÍCIO – Outra coisa que eu acho que nos junta, é esse nosso romantismo exagerado. Todos os meus momentos, todos os lugares que eu vou, tudo que eu faço, tudo me faz lembrar você! Na verdade, não são os momentos, os lugares ou o que eu faço. É que eu não consigo e nem procuro tirar você da cabeça! Você está sempre presente a qualquer hora...

NARA – Que lindo! Adoro quando você declara sua paixão. Faz com que eu esqueça o resto.

MAURÍCIO – Pena que você também não esteja apaixonada!

NARA – Você sabe que eu não estou,  mas que eu sou! Sou! Sou! Sou! Sou apaixonada por você e você sabe disso! Você é a pessoa mais importante da minha vida! (Maurício fica calado, parado, fitando-a) – Ô, meu amor! Não fique me olhando dessa maneira que eu me derreto todinha! Já estou ficando com vontade de novo! (Abraça-o e beijam-se). Vamos?!

MAURÍCIO – Calma! Também não sou de ferro! Duas vezes já!

NARA – Duas?!

MAURÍCIO – Sim! E lá no banheiro?

NARA – Ah!, aquela não conta. Em pé!

MAURÍCIO – Aquela é que conta mesmo. Brincadeira! Eu segurando teu peso com você  escanchada em cima de mim... As pernas ficaram bambas quando terminou! Se não fosse a ducha. Por isso é que, na cama,  eu demorei mais um pouco a gozar!

NARA – E eu adorei. Achei arretado. Cheguei lá duas vezes! Com a do banheiro, três. Estou vencendo: três a dois! (Riem. Nara fica de pé em cima da cama e começa a dançar a música que estiver tocando) – E ainda tenho forças para dançar. Está vendo o risco que você corre junto a uma mulher quinze anos mais moça? (Brinca) – Vamos lá, vovô: anime-se!

MAURÍCIO – (Levantando-se) – É um desafio? Eu não fujo! (Abraça-a e dançam juntos) – O vovô aqui ainda dá muito caldo.

NARA – Espero que seja só para mim.

MAURÍCIO – Depende unicamente de você. Se topar, sai na hora, como churrasco! Amanhã mesmo eu começo a providenciar a minha parte.

NARA – (Parando de dançar, sentando-se) – Não volte ao assunto, você sabe que eu não posso.

MAURÍCIO – Poder, pode. Você pode não querer!

NARA – Querer, eu quero. Mas não posso. Você está cansado de saber disso. Por favor, não vamos brigar. Está tudo tão lindo! Venha, sente-se aqui. (Maurício atende-a) – Vamos falar de outra coisa.

MAURÍCIO – Tudo bem...

NARA – Não fique zangado. Não vamos estragar o nosso tempo, o tempo que temos juntos,  com coisas menores. Vamos... Lembra-se? (Declama)  - “ Se eu pudesse agora estar/ ao teu lado a olhar a lua/ sentir o calor das tuas mãos/ entrelaçadas às minhas, tão seguras,/ te apertaria contra mim bem forte/ para ter a certeza da tua presença.” Foi bonito demais! Você me telefonou para dizer essa coisa maravilhosa... Quase que eu chorava de felicidade na frente de Eduardo. O pior foi explicar para ele o que danado você queria comigo, telefonando aquela hora da noite! Mas ele caiu na desculpa que inventei!

MAURÍCIO – E você decorou esses versos?

NARA – Claro! E tinha como eu esquecer? Na hora inventei que ia beber água e sai para o terraço. Fui olhar a lua, certa de que você, lá da tua casa,  também estava olhando. Me deu uma vontade danada de correr nua pelas ruas até me encontrar com você! Fiquei ali, sentada, sozinha... (Tempo. Declama) – “Lembro-me daquela noite/ que a lua nos olhava/tristonha, como se pedisse/ um pouco do nosso amor./ Acendo o meu cigarro/ e lembro-me que não gostavas/ da fumaça./ Lembro-me que sorrias/quando o cigarro ao longe/eu atirava./ Lembro-me de ti em tudo./ Até nos meus vícios!” (Tempo) – Então? Que tal? 

MAURÍCIO – É!... Nunca ouvi você declamando antes! Não esse tipo de poesia. Você que era muito mais “Senhores barões da terra preparai vossas mortalhas...” Bem, e essas lembranças apaixonadas, você tirou de onde?

NARA – De onde? De canto nenhum!

MAURÍCIO – Quer dizer que você?...  Não acredito!

NARA – Atestado de que, você está me dando? Que eu não sou capaz de escrever umas bobagens dessas?

MAURÍCIO – Não! Não é isso, meu amor. Eu é que não conhecia esse seu lado. Mas fiquei contente! Quer dizer, você escreveu para mim, não foi?

NARA – Foi. Mas não vá ficar muito convencido não! Deixe isso para mim. Eu sou convencida, sim. Você me ama! Só a mim! Agora diga que não é verdade!

MAURÍCIO – Claro que é, meu amor! Eu confesso isso a você todas as vezes que estamos juntos e a mim mesmo, em todos os segundos da minha vida!

NARA – (Levantando-se) – Pois é, meu bem! (Começa a desfilar , rebolando, em cima da cama) – Quem manda eu ser gostosa?

MAURÍCIO – (Rindo) – E fogosa! (Levanta-se da cama. Põe mais vinho nas taças. Entrega uma a Nara e vai sentar-se numa poltrona. Ela permanece em pé, em cima da cama, cantarolando e dançando com a música que está sendo ouvida no quarto. Ele fica um tempo observando. Põe a peruca dela na cabeça e começa a imitá-la.  Riem).

NARA – (Parando com a dança) – Estou parecendo uma louca, não é? Você está rindo de mim?

MAURÍCIO – Não! Que é isso, meu amor? Estou aqui rindo de nós, das nossas loucuras todas. Lembrando o que a gente já aprontou!

NARA – (Sentando-se na cama, de frente para Maurício) – É verdade! Foram loucuras mesmo! Mas eu acho que é também o que nos une, essa coisa de querer desafiar, de correr riscos... Somos amantes do perigo, meu filho! Lembra-se da viagem a serviço da repartição? Passamos um dia e uma noite no motel só viajando, viajando, viajando... (Riem) – Foi bom demais! Já pensou se alguém lá do serviço tivesse ligado  para minha casa, perguntando por mim?

MAURÍCIO – Mas eu avisei que você estava com criança doente.

NARA – Mesmo assim. Alguém que não soubesse. Você não, você é o chefe, falta quando quiser. Não tem que dar satisfação.

MAURÍCIO – Foram muitas emoções, como diz Roberto Carlos! Mas a maior foi aquela do remédio. Eu precisando deixar o remédio do menino em casa e você dentro do carro. Eu estacionei na porta da minha casa com você escondida no banco traseiro! Buzinei, Marta veio até ao carro, recebeu o remédio, conversou comigo e não percebeu nada!

NARA – E eu me mijando de medo! Mas gostando do risco. (Tempo) - E se ela tivesse me visto?

MAURÍCIO – Eu diria que era uma brincadeira. Que você havia se escondido para fazer um susto a ela ou outra coisa qualquer...

NARA – E ela iria acreditar! Tua mulher é muito sem maldade. Confia em todo mundo. Até em mim!

MAURÍCIO – O que não deixa de ser uma vantagem para nós. Agora, já o teu marido não. Com ele é preciso ter muito cuidado. Ele é meu amigo, tudo bem, mas confiança em mim ele não tem não! Antes da gente começar a se encontrar,  Eduardo já  conhecia as minhas pernadas fora de casa! Até saiu algumas vezes comigo...

NARA – O que?! Aquele safado também ?

MAURÍCIO – Deixe prá lá! Você não tem muito direito de reclamar dele não!

NARA – Ah, se eu pego!

MAURÍCIO – Ia fazer o que? Pedir a separação? Se me garantir que pede, armo uma arapuca prá ele e lhe dou todas as coordenadas!

NARA – Não é isso não... Eu quero é ficar na vantagem! Eu pegando ele com outra, passo a ser a vítima. Inclusive aos olhos da minha família. Ele fica sem moral para reclamar de mim qualquer coisa que eu faça e que ele não goste. Se você fizer isso, meu bem, vai ser ótimo para nós dois. Vamos ter mais liberdade. (Tempo)  Topas? Vamos! Prepare tudo e me avise!

MAURÍCIO – Desse jeito não! Para arranjar briga com teu marido, meu amor, tem que ser briga grande logo! Se eu preparar a coisa e na hora você aparecer, ele vai saber que fui eu quem armou tudo. Não tem como não saber. Só faço isso pelo maior prêmio que eu posso receber na minha vida: você! Com todos os direitos de uma substituição legal e declarada, sem mais nada a esconder.

NARA – Não adianta eu pedir. Volta e meia você vem tocar na mesma tecla. Já lhe disse que para isso, pelo menos no momento, não tenho condições.

MAURÍCIO – Então, meu amor, eu não posso fazer o que você quer. Ele iria perceber tudo. Iria entender o meu interesse e aí, ao contrário do que você pensa, a nossa vida  viraria um inferno. Dificilmente a gente conseguiria continuar se encontrando. Depois eu vacilei muito. Você tem razão. Aqueles telefonemas foram  uma burrice, um risco sem necessidade. Se ele tivesse ouvido uma só conversa nossa na extensão do telefone,  estava tudo perdido! Você seria adúltera perante  a lei e ninguém poderia avaliar as conseqüências disso. Teu marido não é nenhum manso não!

NARA – É. Pensando bem, você tem razão. (Tempo) – Os telefonemas eram bacanas, mas ainda bem que você parou! A gente estava cada vez mais facilitando.

MAURÍCIO – É isso aí!

NARA – Agora me diga uma coisa: quem você iria arranjar para ter um caso com Eduardo? Não é quem eu estou pensando não, é?

MAURÍCIO – Eu não sei em quem você está pensando!

NARA – Sabe sim! Não se faça de doido não!

MAURÍCIO – Só, se por acaso, você está se referindo àquela jovem, sua amiga...

NARA – (Cortando) - Ex–amiga! Foi minha amiga até o dia que deu em cima de você!

MAURÍCIO - (Meio debochado) – Ah! Então é uma tal de... Como é mesmo o nome dela?

NARA – Pare com suas gracinhas, que já estão me irritando!

MAURÍCIO – Eu adoro ver você irritada, enciumada!

NARA – Olhe, eu aceito que você vá prá cama com a sua mulher, faça o diabo com ela em cima da cama. Não gosto, é claro, mas aceito. Agora, com outra eu não admito! E se for com Fabíola, aí é que eu vou me considerar traída mesmo! Porra! Fui eu que te apresentei a ela, como marido de uma amiga minha. Mas ela entendeu logo que  havia  algo  entre nós. Mesmo assim, a primeira coisa que faz é dar em cima de você! Sacanagem, não é?

MAURÍCIO – (Se fazendo de inocente) – Eu não sei de nada! Nem notei que esta jovem... Como é mesmo o nome dela? Eu nem notei que ela estava interessada em mim...

NARA – Vá! Brinque! Se eu souber de alguma coisa, minha primeira atitude vai ser procurar Marta e contar tudo a ela!

MAURÍCIO – Você só iria antecipar uma separação que, fatalmente, irá acontecer de todo jeito.

NARA – Uma não! Duas! Eu também caía fora. Não iria querer mais nada com você.

MAURÍCIO – (Brincando) - Assim, também, é jogo duro! Não! Deus me livre! Xô, xô Fabíola! Vai-te retro, Satanás! 

NARA – Você não me conhece direito. Não sabe do que sou capaz!

MAURÍCIO – Vamos parar? Esse papo não está levando a nada! E depois, nós não viemos aqui para brigar.

NARA – Nem para conversar.

OS DOIS – (Gritando e rindo) - Foi para trepar! (Maurício pula para cima da cama, em cima de Nara, abraçam-se, beijam-se, e sai a luz. Fim da cena).
 

                                                 CENA III                                          

(Penumbra. Maurício e Nara dormem. Música suave, abafada. Tempo. De repente fortes batidas na porta do apartamento. Sem roupas, os dois pulam da cama. Nara corre para o banheiro. Maurício acende a luz e procura vestir a roupa às pressas. Outras batidas fortes e ele tira da bolsa de Nara, um revólver).

MAURÍCIO – Quem é?

VOZ – (Fora do quarto) – É da copa. A atendente. Mandaram saber se queriam mais vinho?

MAURÍCIO – Não. Obrigado. Já estamos de saída.

VOZ – Tá certo. Trago a nota para cá ou o senhor paga na portaria?

MAURÍCIO – Pode deixar na portaria.

VOZ – Tá certo. Obrigado, também.

MAURÍCIO – É cada uma! (Recoloca  a arma dentro da bolsa de Nara, que voltando do banheiro, já vestida, assusta-se).

NARA – Oi! Por que isso? Ia atirar em alguém?

MAURÍCIO – Sei lá!... Claro que não! Foram as batidas fortes na porta. Quando dei conta de mim estava com a arma na mão!

NARA – Eu vi. Isso me preocupa!...

MAURÍCIO – Não sei por que? 

NARA – Em quem você poderia usar a arma? Num assaltante? Aqui é difícil...

MAURÍCIO – Já houve um caso antes!

NARA – Então você pensou que era um assalto?

MAURÍCIO – Não... Eu não sei. As batidas fortes me assustaram. Você mesma,  saiu correndo para o banheiro!

NARA – Claro! Eu pensei que era meu marido! Você também pensou, não foi? Confesse!

MAURÍCIO – Bem... Eu...

NARA – Pensou, não foi? Por isso pegou o revolver. Quer dizer: se fosse o Eduardo, poderia haver tiros e alguém sair ferido ou morrer!

MAURÍCIO – Deixe de drama! Lá vem você outra vez com essa mania.

NARA – Eu pensei estar sendo seguida quando vínhamos para cá, o que nos deixou bastante tensos e quase estragava o nosso encontro. Agora eu, como num ato reflexo, corro para me esconder e você para apanhar uma arma. Outra vez a tensão, o medo, o pavor, seja lá o que for, mas que acaba estragando os bons momentos de amor que podemos ter. Não me parece legal isso tudo! Precisamos mudar nossos hábitos, usar outras estratégias, enfim, fazer alguma coisa para evitar tudo isso.

MAURÍCIO – Só há uma saída! E você já sabe qual é.

NARA – Pensa que é fácil? Chegar para Eduardo e dizer: olha, eu não quero mais viver com você porque vou viver agora com Maurício, que também não quer mais viver com a Marta e sim comigo, por isso resolvemos jogar tudo para o alto e ficar juntos...  Como você acha que eles iriam reagir? Você tem perto de vinte anos de casado e uma porção de filhos. Eu já passo dos dez anos e também tenho filhos. E como é que ficam os filhos? Os teus e os meus? Vão aceitar tudo na maior tranqüilidade, não é? Você sabe que não! Já são garotos com alguma compreensão das coisas, mas não ao ponto de entender a nossa situação, conviver com ela ou até nos perdoar.

MAURÍCIO – Considerando esse seu discurso, não há outra solução para nós, que não seja o rompimento, não é?

NARA – Não é nada disso! Eu não falei isso! O que eu quero dizer é que não podemos, de repente...

MAURÍCIO – Que de repente que nada, Nara! Faz mais de um ano que eu venho propondo a você que tomemos uma atitude mais definitiva que, para mim, seria o mais correto. Mas até agora você não tomou, nem permitiu que eu tomasse qualquer iniciativa no sentido de terminar com os nossos casamentos.

NARA – Não houve oportunidade. Você não entende? É preciso que aconteça alguma coisa que justifique. Algo forte, que me coloque na condição de vítima, que todos possam dizer que eu tenho razão... A mesma coisa com você!

MAURÍCIO – Comigo eu não vejo problema. Acho até que vou agradar a platéia, pois as coisas lá por casa há muito que deixaram de ser o que era antes. Quanto aos filhos, sem maiores problemas. Um dia desses perguntei à mais velha, que já está uma mocinha: eu me separando da sua mãe com quem você vai preferir ficar? Respondeu-me prontamente: “com os dois!” Então eu julguei que ela estava dizendo que não queria a separação e insisti: mas não pode ser, minha filha, eu me separando da sua mãe cada um vai para o seu lugar, não vamos ficar morando na mesma casa. Ela, então, também prontamente, definiu: “eu sei! Fico um tempo com o senhor e outro tempo com mainha.”  Percebeu?!

NARA – Se é assim, o problema  é só meu. Por isso tanta cobrança da sua parte! Mas a minha situação é diferente. Eu não posso arriscar. Tenho que agir em cima de certezas. E por falar em riscos, você precisa parar com essa mania de botar seu revólver na minha bolsa, todas as vezes que saímos juntos. Já pensou se um dia você esquece e eu vou para casa com uma arma carregada?...

MAURÍCIO – Nunca isso aconteceu e nem vai acontecer. Quando entramos no carro o revólver é logo jogado debaixo do banco e, geralmente, é você que faz isso.

NARA – Mas se um dia eu esquecer e você esquecer também?

MAURÍCIO – Se minha avó tivesse duas carreiras de peitos, era uma porca! Ora, Nara! Vamos discutir hipóteses agora?

NARA – Não precisa engrossar!

MAURÍCIO – (Procurando nos bolsos da calça e do paletó, colocado no encosto de uma cadeira) – Onde danado botei as chaves do carro? Você viu? 

NARA – Eu, não! Eu saí primeiro. Você ficou fechando o carro, eu acho! (Maurício acha um folha de papel dobrada, dentro do bolso do paletó. Procura ver o que é) – O que é isso?

MAURÍCIO – (Sorrir) – Um poema!

NARA – Seu?

MAURÍCIO – Não.

NARA – Por que está rindo?

MAURÍCIO – Lembrando! Conversando com um amigo meu, poeta, contei o nosso drama...

NARA – (Cortando) – Contou o que?! Você foi contar?!

MAURÍCIO – Claro que não, Nara! Contei o milagre sem dizer quem era o santo! Ele não tem a menor idéia de quem seja a pessoa. Você acha que eu seria tão irresponsável assim? De nós dois só quem sabe somos nós mesmo e aquele nosso padrinho. 

NARA – Grande padrinho! É a nossa sorte! Sem ele tudo ia ficar muito mais difícil. Cara legal!

MAURÍCIO – É mesmo. O Carlão tem quebrado um  galho danado! Acoberta e protege o nosso amor! (Guarda o papel).

NARA – Espere! Eu não vou conhecer o nosso poema?

MAURÍCIO – Nosso? Como você sabe que é nosso?

NARA – Claro que é, meu amor! Se não fosse você estaria com ele, no bolso, guardadinho? Vamos, leia!

MAURÍCIO – Pensei que não estivesse interessada!...

NARA – (Vai até junto dele, carinhosamente) – Ó, meu amor, não fique amuado! O que é que você quer que eu faça? Peça? Por você, faço qualquer coisa!...

MAURÍCIO – Então, sente-se.

NARA – Só isso? (Senta-se na beira da cama). Seja feita a vossa vontade, aqui no quarto, como em qualquer outro lugar!

MAURÍCIO – Quer mesmo ouvir?

NARA – Quero, sim!

MAURÍCIO – Então, cale-se! Vou ler. (Declama) – “Quem jardina/ não é responsável pelos espinhos/ ou pelos orvalhos/ que as rosas usurpam da vida./ (As rosas, sado-masoquistas,/ ferem  e choram a dor que brota/ do estrume)./ O jardineiro é responsável/ pelas mãos que sorvem/ a cor, a lágrima/ e o breve espinho que fere eternamente./ Se algum dia ou noite que desponte/ em tua quotidiana treva,/ receberes alguma rosa mascarada de luz,/ tende cuidado com os falsos espinhos/ que ferem e que não doem:/ a dor é necessária a quem espera uma aurora./ Ela adverte se o sol que nasce/ é um aborto de Janaína.” 

NARA – Lindo! Olhe aí: “a dor é necessária a quem espera uma aurora”!

MAURÍCIO – Gosto muito do título também: “Da posse e suas variantes de entregar e receber”.

NARA – Combina. Mas,  meu filho,  atenda a um pedido meu: não traga mais essa arma quando a gente sair outra vez. Traga só poesia!

MAURÍCIO – Tudo bem! Agora, vamos admitir que fosse teu marido batendo nessa porta. Como eu iria me defender? Ele é muito mais forte do que eu.

NARA – Mas não anda armado.

MAURÍCIO – Então você acha que ele tendo descoberto que nós dois estávamos num motel, vinha até aqui de peito aberto? Ele sabe que eu ando armado.

NARA – Acredito, sim! Pelo que eu conheço de Eduardo, e você também conhece,  ele vinha sim, de peito aberto, querendo arrebentar tudo com as próprias mãos.

MAURÍCIO – É melhor a gente não pensar mais nisso. E você sabe que a arma é apenas proteção. Desde aquele dia que fomos ameaçados.

NARA – Foi você quem inventou! A gente não tinha nada que ir fazer amor ao ar livre, à luz da lua. Romântico, mas perigoso...  

MAURÍCIO – Aquela praia sempre foi deserta.

NARA – Tive muito medo. Aquele cara se aproximando e você fazendo a manobra... E se o carro não pegasse? E se atolasse na areia? Foi um risco danado!

MAURÍCIO – Se eu estivesse armado...

NARA – Você poderia ser obrigado a atirar num homem! Qual era a vantagem disso? Iríamos terminar na polícia! E como ficava a minha situação? Olhe, meu filho, lugar para a gente transar é o motel. É o mais seguro que existe. Fora esse, só a tua casa!

MAURÍCIO –(Rindo) - Lembrou-se, é? Foi sensacional! E foi você que arranjou tudo. Levou os processos, a calculadora, o orçamento... Você foi mesmo inteligente na enrolada.

NARA – E Marta colaborou bastante,  nos deixando sozinhos no gabinete. Também  proibiu aos meninos de perturbarem e ainda fechou a porta ao sair! E nós ficamos trabalhando, trabalhando, trabalhando... Tua mulher é mesmo uma inocente!

MAURÍCIO – Foi a primeira vez que a gente fez tudo em pé!

NARA – Foi... (Tempo) – Bem, a conversa está animada, tudo está muito bom, mas chegou a hora de cair fora. Preciso chegar em casa antes de Eduardo! Meu expediente termina primeiro.

MAURÍCIO – Tem razão. Mas, e a chave que eu não acho?

NARA – Como vou saber? Ficou com você. Veja se não caiu no chão, lá na garagem. Ou se ficou na porta do carro. (Ele sai para procurar, Nara fica acabando de se arrumar, botando as jóias, a peruca, etc.. Tempo. Ele volta apressado).

MAURÍCIO – Aconteceu o pior!

NARA – O que foi, pelo amor de Deus?

MAURÍCIO – Fechei o carro com a chave dentro!

NARA – Pronto! E agora? Eu preciso voltar urgente para casa! Você sabe...

MAURÍCIO – Eu sei! Eu sei! Mas eu não fui culpado! Foi aquela danação, com você pensando que Eduardo estava nos seguindo. Sei lá! Eu entrei apressado, ainda sob o efeito da situação...

NARA – Quer dizer que a culpa foi minha? 

MAURÍCIO – Não estou dizendo isso! Esse carro também trava as portas com a chave dentro! Os mais modernos não fazem isso.

NARA – Volto a perguntar: e agora? 

MAURÍCIO – Você está apressada, o jeito é quebrar o vidro da porta! Amanhã mando botar outro.

NARA – Eu sabia! Eu sabia que ia terminar dando alguma coisa errada! Bem que eu queria voltar para casa naquela hora!

MAURÍCIO – Não precisa se afobar! Deixe que eu resolvo tudo. (Sai. Tempo. Ouve-se o barulho de porta batendo com alguma violência. Maurício volta, sorridente) – Felizmente! Felizmente você é irresponsável!

NARA – Eu?! O que foi que eu fiz, dessa vez?

MAURÍCIO – Não travou a porta do seu lado!

NARA – Eita! Deve ter sido pela mesma razão que você travou o seu lado com a chave dentro! (Riem. Abraçam-se e beijam-se).

MAURÍCIO – Bem, vamos embora. Olhe o adiantado da hora!

NARA – Vamos, então. (Apanha a bolsa. Pára. Tempo) – Espere! Vamos começar tudo de novo?

MAURÍCIO – Como?!

NARA – Comemorar! Você não vai precisar quebrar o vidro do carro. E eu preciso esfriar a cabeça. E só esfrio, meu filho, fazendo amor! Vamos voltar para a cama? A gente veio aqui prá quê? Não agüenta mais?

MAURÍCIO – Por que não?   Mas...  E  a  hora?   Quando  você chegar em casa vai ter problema! Teu marido vai ficar uma fera! Depois não diga que eu não preveni.

NARA – Que se dane  o  resto do mundo!  Hoje  está  é  dando tudo certo! Eu invento uma desculpa quando chegar. Vamos?

MAURÍCIO – Mas  era   tudo  que  eu  queria!   Arranjar  uma grande briga entre vocês! Assim pode começar a solução do nosso problema! Vamos, sim! (Jogam-se na cama. Começam   a tirar as roupas um do outro, enquanto a luz vai caindo e a música vai subindo, gradativamente) – Amanhã mesmo começo a resolver a minha parte. Vou pedir divórcio!

NARA – Nem pense nisso! Não faço amor com homem solteiro! (A música sobe de estalo. Sai  rápida a luz. PANO).

FIM