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O fim do silêncio sobre Isabella
Renata Pontes era a delegada de plantão quando a menina foi
morta. Depois de meses sem falar sobre o caso, ela revela a
ÉPOCA as evidências que pesam sobre os acusados, Alexandre
Nardoni e Anna Carolina Jatobá
Valdir Sanches

A DELEGADA
Renata Pontes comandou a investigação do
caso Isabella, que comoveu o país. Ela diz não ter dúvidas
sobre quem matou a menina
Quem conversa com Renata Pontes fora do
expediente esquece que ela é uma delegada de polícia. A
menos que a conversa seja sobre o caso que a tornou
conhecida em todo o país – a morte da menina Isabella. A
delegada que comandou as investigações e pôs os acusados na
cadeia, à espera de julgamento, tem uma fala tranqüila, uma
certa docilidade. Reza todos os dias na capela da delegacia.
Seu hobby é a pintura. Renata é uma pessoa serena como as
paisagens que pinta. Mas, quando é preciso, pega em armas.
Na Academia de Polícia, onde se formou há 11 anos, foi além
do curso obrigatório de tiro: aprendeu a manejar a pistola
calibre 45 que usa no trabalho – e metralhadoras.
Em serviço, a delegada não usa a clássica
combinação de calça e tailleur. Prefere roupas mais
confortáveis, sempre discretas – na terça-feira passada,
vestia bata e calça legging, calçando sandálias de salto
Anabela. Deixa à mão um sapato baixo, para suas saídas. Nos
atendimentos do plantão, nas delegacias em que trabalhou,
entrou em favela, pulou muro, andou em trilho de trem e
picada no meio do mato. Enquanto trabalha, ela se concentra,
procura manter um olhar técnico sobre o que investiga. No
caso Isabella, Renata não resistiu. Chegava em casa
angustiada, pensando “na mãe que não pode mais beijar sua
filha”.
Na 9ª Delegacia, no Carandiru, zona norte de
São Paulo, Renata é delegada-assistente. Em sua sala há uma
boa mesa com poltrona de encosto alto, ar-condicionado e
frigobar. A um canto, em pedestais, bandeiras do Brasil, de
São Paulo e da Polícia Civil. No ano passado, a delegacia
foi premiada por uma ONG holandesa. Às vezes, quando um
colega do plantão sai em férias, Renata assume o lugar dele.
Foi durante um plantão, das 20 horas às 8 da manhã, que o
caso da menina Isabella chegou a sua mesa.
Num primeiro momento, a delegada falou com os
jornalistas sobre o crime. Depois, decretou o sigilo do
inquérito e não deu mais entrevistas. Só rompeu o silêncio
na semana passada, ao receber ÉPOCA no elegante flat em que
mora, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. A entrevista
durou três horas. Foi à beira do jardim, numa mesa externa
do restaurante do flat. Pela primeira vez, Renata contou os
detalhes de como conduziu a investigação e apresentou todas
as razões que a levaram a acusar o pai de Isabella,
Alexandre Nardoni, e a madrasta da menina, Anna Carolina
Jatobá, como autores do assassinato que chocou o país.

A VÍTIMA
Isabella Nardoni, assassinada aos 5 anos.
O pai e a madrasta continuam presos
Enquanto investigava a morte da menina,
Renata lembrou outro crime de grande repercussão, que ela
também atendeu. Estava de plantão na Divisão de Homicídios,
em 2002, quando uma informação chegou: o empresário Manfred
von Richthofen e sua mulher, Marísia, tinham sido mortos a
pauladas enquanto dormiam, numa casa de classe média alta no
Brooklin. Antes de ir à delegacia, a jovem filha do casal se
dera ao trabalho de examinar o escritório do pai, na casa, e
de constatar que um exato valor em dólares sumira. (O caso
depois passaria para a equipe da região.) Renata estranhou a
falta de sensibilidade da moça – que seria condenada, com o
namorado e o irmão dele, pelo assassinato dos pais.
No caso Isabella, a sensação se repetiu. Em
sua entrevista a ÉPOCA, Renata lembrou a longa conversa que
teve com o casal Anna e Alexandre, nas primeiras horas da
investigação. Apesar de ter notado que Anna era falante e
articulada enquanto Alexandre era bem menos eloqüente,
Renata notou uma incomum tranqüilidade nos dois, “a ponto de
o Alexandre comentar ‘Olha, eu vou sair na Rede Globo’”.
Alexandre e Anna, segundo Renata, não se emocionavam nem se
preocupavam em saber o que acontecera. O discurso de ambos
era o mesmo. Não tinham perguntas, mas respostas. “Eles não
questionavam. Vinham com uma certeza, uma afirmação: ‘O que
aconteceu foi isto’. Em momento algum perguntaram ‘por que
alguém jogou a minha filha?’” Diziam que um ladrão entrara
no apartamento deles, com uma cópia da chave. “Falavam ‘o
ladrão chegou, o ladrão cortou a tela’, usavam a palavra
‘ladrão’”. O “ladrão” teria esperado até Alexandre chegar,
com a menina dormindo, e deixá-la em sua cama. O pai teria
então voltado ao carro, na garagem, para pegar os dois
outros filhos pequenos e Anna. Nesse meio-tempo, o “ladrão”
teria esganado Isabella, apertando-lhe o pescoço, e teria
jogado a menina pela janela. E ainda teria trancado a porta
ao sair. Por quê?
A pergunta atormentaria Renata durante os
dias seguintes. “Eu estava analisando tudo, para começar a
confirmar ou descartar fatos”, diz Renata. Ela chegara à 9ª
Delegacia às 20 horas do sábado. Com a morte da menina, só
daria o plantão por encerrado às 3 horas da madrugada da
segunda-feira. Foi para casa com uma forte suspeita:
Alexandre e Anna eram os autores do crime. “Forte suspeita,
mas aberta a todas as possibilidades. Porque, afinal,
estávamos no começo de uma investigação. Muita gente
precisava ser ouvida, haveria o resultado das perícias. Nada
era descartável”.

OS SUSPEITOS
Anna Carolina e Alexandre quando foram
presos pela segunda vez. A delegada diz que a suspeita já
pesava sobre eles no início da investigação
Não era o primeiro caso de Renata com o
assassinato de crianças. Em 2005, parentes da menina Ana
Beatriz, de 4 anos, começaram a notar que ela andava sumida.
O padrasto da menina, o advogado Fernando Fortes Lopes, e a
mãe, Jaqueline, davam desculpas inverossímeis. Um dia,
Fernando disse que a menina fora seqüestrada. Não tinham
feito nem boletim de ocorrência. Renata começou a
investigar. A irmã de Ana Beatriz, de 8 anos, acabou
contando que Fernando levara a menina. Descobriu-se que ele
deixara Ana Beatriz uma semana de castigo, trancada no
lavabo. Ele maltratava as filhas, se descontrolava por
qualquer “malcriação”. No dia em que tirou a menina do
castigo, se descontrolou, espancou-a até a morte. Renata
conseguiu sua prisão temporária. Fernando acabou
confessando. O corpo de Ana Beatriz foi encontrado num
lixão, em Itaquaquecetuba. No caso Isabella, o cadáver
estava lá – estendido no chão.
Renata gosta de investigar assassinatos. No
ano em que trabalhou na Divisão de Homicídios, a seu pedido,
chegava a atender seis casos num só plantão. Aprendeu a
conhecer a reação dos parentes das vítimas. “Na primeira
hora depois do crime, o comportamento é de choque ou
questionamento, não de investigação”, afirma. Na primeira
conversa, ela viu que Alexandre e Anna queriam convencê-la
da existência de uma situação que os excluísse de suspeita.
“Eles falavam, e eu ponderava: ‘Por que um ladrão vai jogar
uma criança da janela?’”. O diálogo prosseguiu. Aqui, ele é
reproduzido de acordo com o relato da delegada:
– Se o ladrão percebe que o morador chegou, a
primeira coisa que faz é fugir do local. Por que despertar
uma criança que estava dormindo e jogar pela janela? –
questiona Renata.
– Ela pode ter acordado – diz o pai.
– Se ela acordou, ele sai correndo. Uma
criança de 5 anos não vai conseguir segurar um ladrão.
– Então ela pode ter reconhecido ele.
– Nesse caso, por que criar tanta
dificuldade? Se ele tem uma faca, dá uma facada. Sabendo que
o pai ia à garagem e voltava, o que demora dois minutos, ele
não teria todo esse trabalho de procurar a tesoura, a faca,
asfixiar a menina, jogar, guardar a faca e a tesoura, sair e
ainda trancar a porta.
O casal admitiu, diz a delegada, que nada
fora levado do apartamento. E passou para outra hipótese:
vingança.
– Vocês têm inimigos, estão sendo ameaçados,
fizeram alguma coisa que justificasse uma vingança?
– Não – diz Anna –, mas ontem o zelador do
prédio ficou olhando de uma maneira estranha para a Isabella
e para mim.
– Mas isso será um motivo?
– Há também um pedreiro que veio instalar uma
antena, o Alexandre não deixou ele entrar e ele achou ruim –
afirma Anna.
O casal, diz a delegada, também tentava
apontar um suspeito: o porteiro do prédio.
Renata chegara à Rua Santa Leocádia, no
bairro do Carandiru, pouco depois da 1 hora do domingo 30 de
março. A rua estava ocupada por 11 viaturas da Polícia
Militar. Os moradores e vizinhos do Edifício London, de onde
a menina fora jogada, juntavam-se às dezenas na calçada.
Renata entrou no prédio. A menina, que caíra em um gramado
ainda com vida, já havia sido levada. O resgate chegara 15
minutos depois da queda. Acompanhada de um PM, Renata subiu
ao 6o andar. Entrou no apartamento 62. O PM chamou sua
atenção para duas ou três gotinhas de sangue, no chão da
sala. Elas faziam um trajeto da entrada até o sofá. No
corredor, em direção ao quarto mais próximo, outras gotinhas
de sangue. Mais sangue estava num lençol, no quarto. Sobre a
cama próxima à janela, uma marca de sola do sapato de um
adulto. A tela de proteção da janela estava cortada. Nela
havia uma mancha quase imperceptível de sangue.
A delegada procurou um “instrumento
cortante”, que poderia ter sido usado na tela. Não achou.
Quem cortou a tela teria levado o instrumento? Jogado pela
janela, ele não fora. Vistoriando o apartamento, encontrou
na cozinha, em cima da pia, uma tesoura de cortar frango e
uma faca, grande. As peças foram apreendidas. Na tesoura, a
perícia acharia um fragmento de fio igual ao da tela cortada
do quarto.
Quarenta minutos depois, já de saída do
prédio, a delegada conheceu o pai da menina, Alexandre
Nardoni, e o pai dele, Antonio. Voltavam da Santa Casa, para
onde Isabella fora levada – e chegara morta. Antes de
qualquer cumprimento, Alexandre perguntou para a delegada se
o ladrão já havia sido encontrado, ou suas impressões
digitais. Renata conversou rapidamente com ele. Havia muita
gente em volta.
Do local do crime, a delegada foi para a
Santa Casa. O corpo da menina estava no necrotério. Renata
analisou os ferimentos, superficialmente. Havia um corte na
testa, do qual pingara o sangue no apartamento. “Isabella
parecia um anjinho dormindo. Naquele momento senti o tamanho
do problema que tinha em mãos”, diz Renata. No Instituto
Médico-Legal (IML), os legistas tentavam desvendar um
enigma: a criança morrera ao ser jogada de 20 metros de
altura, mas tinha sinais de asfixia.
Os legistas encontraram sinais de esganadura
(comuns quando o pescoço é apertado por mãos). A pressão
sobre um nervo do pescoço (o vago) desacelera o batimento
cardíaco, deixa a vítima inconsciente, pode provocar
convulsão e vômito (havia vômito no pulmão de Isabella, que
ela aspirou) e levar à morte. A delegada diz que não há um
laudo oficial com a comprovação de que uma mão feminina,
neste caso da madrasta, tenha asfixiado Isabella. No
relatório do inquérito sobre o caso, Renata conclui que foi
Anna quem apertou o pescoço de Isabella. Mas baseia-se em
depoimentos de testemunhas.
Um morador de um prédio vizinho disse ter
ouvido uma criança gritar, no apartamento do casal: “Papai,
papai, papai, pára”. Pareceu, ao depoente, que a criança não
mandava o pai parar, mas o chamava, como um pedido de
socorro. E dizia “pára” a outra pessoa. Dois dias depois, a
delegada localizou outra vizinha, que ouvira os mesmos
gritos de criança chamando pelo pai. As duas testemunhas dos
gritos não se conheciam. “Uma pessoa idônea, com
credibilidade, pode às vezes se deixar influenciar, ou se
confundir, num cenário trágico como esse”, diz Renata. “Mas,
quando vi duas pessoas que não se conheciam falando a mesma
versão, não tive mais dúvidas”. Concluiu que Pietro, o filho
de 3 anos, chamava o pai, porque Anna estava esganando
Isabella. É o que diz também nas conclusões do inquérito.
Foi naquele momento que a delegada decidiu pedir a prisão
temporária do casal.
Outro fato contribuiu para a decisão de
Renata. Dois dos moradores do prédio afirmaram, em
depoimento, ter ouvido o casal discutir no apartamento, nos
minutos que antecederam a queda da menina. Disseram que Anna
falava muito alto, muitos palavrões. Depois que Isabella
caiu, ouviram a mesma voz, falando palavrões pelo celular,
no térreo. “Se Alexandre e Anna entraram no apartamento
quando Isabella já tinha caído, como explicam a discussão
entre eles e os gritos da criança chamando o pai?”

MÃE E FILHA
Ana Carolina de Oliveira, com a filha que
perdeu nas mãos do ex-marido. Esse não foi o primeiro caso
da delegada envolvendo crianças. Mas foi o que ganhou a
maior dimensão
Na madrugada da quarta-feira, o quarto dia de
investigação, ela fundamentou seu pedido de prisão
temporária do casal. “Eu me convenci de que era o momento, a
investigação já estava bem consubstanciada.” As evidências
mostravam que Isabella fora agredida ainda no carro, a
caminho de casa. Ficara com um corte na testa, que sangrava.
Ao chegar, Alexandre a carregara no colo, pressionando sua
boca, para que não gritasse. No apartamento, a jogara no
chão, ao lado do sofá. Aí a menina foi esganada,
provavelmente por Anna. E lançada da janela, provavelmente
por Alexandre. Os peritos constataram que a marca de
calçado, sobre a cama encostada à janela, é da sandália
“preta, tamanho 41, modelo havaianas” de Alexandre. Em sua
camiseta, foram encontradas marcas em forma de losangos,
deixadas pela tela de proteção, “quando segurava a filha
pelas mãos, no momento em que foi precipitá-la”. Na noite da
quarta-feira, a Justiça decretou a prisão do casal. Nove
dias depois, o Tribunal de Justiça mandaria soltá-los.
Naqueles dias, Renata trabalhava muito além
do expediente. Dormia três a quatro horas por noite. Numa
dessas esticadas, estava na alça da Avenida 23 de Maio, para
pegar a Avenida Paulista, quando o vidro direito de seu
carro estilhaçou. Era meia-noite. Um assaltante quebrara o
vidro com uma pedra e pegara um envelope, no banco. Ali
estavam peças do inquérito. A delegada disputou o envelope
com o bandido. Feriu a mão, mas conseguiu salvá-lo.
Sem falar com a imprensa, Renata se trancava
em sua sala, com um retrato de Isabella sobre a mesa. Para
chegar à delegacia, parava antes num posto de gasolina.
Falava ao celular, e um carro vinha apanhá-la. Com 1,74
metro de altura, ela se escondia deitando-se no banco de
trás. Entrava no prédio por uma porta lateral. “Se eu
falasse passo a passo o que já sabia, prejudicaria a
investigação. Nem os policiais da delegacia tinham ciência”.
Ela diz que não lia sobre o caso nos jornais nem acompanhava
o noticiário na TV. “Não queria me deixar influenciar”.
Renata achava que ficaria tentada a explicar informações
imprecisas e que isso desviaria seu tempo da investigação.
Divulgou-se, por exemplo, que uma tia de Isabella, ou um dos
avôs, entrou no apartamento antes da perícia e limpou o
sangue. Isso seria impossível, diz Renata, porque a Polícia
Militar chegou quase imediatamente depois da queda e, desde
então, preservou o lugar. “Quem limpou o sangue foi o casal,
antes de atirar a menina pela janela”, afirma.
As investigações prosseguiam. “Chegavam
denúncias anônimas sem coerência, mas a gente ia atrás,
checava, ouvia a pessoa para esgotar todas as
possibilidades”. No inquérito, havia outros depoimentos que
comprometiam Alexandre e Anna. O porteiro Valdomiro da Silva
Veloso foi o primeiro a ver o corpo de Isabella caído sobre
o gramado. Ouviu um baque, abriu a janela da guarita e
deparou com aquela cena. Ligou para Antonio Lúcio Teixeira,
que mora no 1º andar. Este saiu à sacada de seu apartamento
e viu a menina. Chamou o 190, do Copom, o Centro de
Operações da Polícia Militar. Ainda estava falando quando
Alexandre surgiu no térreo, gritando sobre um ladrão no
apartamento. Por isso, Antonio Lúcio pôde acrescentar na
conversa com o Copom o detalhe de que havia um ladrão e
dizer que a menina caíra do 6º andar (sabia o andar de
Alexandre). O telefonema ficou registrado. Calcula-se que a
menina tenha sido jogada por volta de 23h49m. Às 23h49m59s,
Antonio Lúcio começou a falar. Momentos depois Alexandre
surgiu no térreo, gritando.
Alexandre e Anna afirmavam ter descido juntos
do apartamento, ao ver que Isabella tinha caído. Mas
confirmou-se o seguinte: Antonio Lúcio ainda estava falando
com o Procom quando Anna, do apartamento, ligou para seu
pai. Treze segundos depois, nova ligação, agora para o pai
de Alexandre. Quando Antonio Lúcio terminou de falar, ela
continuava ao telefone, no apartamento. Alexandre já estava
no térreo. Para Renata, o casal poderia estar tramando um
ardil contra o porteiro Valdomiro.
"Para ter forças, ficar sem dormir e seguir investigando,
eu pensava na mãe que não podia beijar sua filha"
Renata volta a lembrar a primeira conversa
com o casal, no domingo depois do crime. Diz que Alexandre e
Anna falaram muito sobre Valdomiro. Perguntavam se ele já
tinha sido investigado. “O Alexandre já chegou à portaria
gritando ‘tem um ladrão, tem um ladrão’ e mandando o
porteiro subir ao apartamento”, diz Renata. “O Antonio Lúcio
disse para ele: ‘Não saia aí da guarita’. Se tivesse subido,
o que estava disposto a fazer, Valdomiro teria encontrado
Anna e de alguma forma poderiam tentar vinculá-lo ao crime”.
Nessa primeira conversa, já havia uma questão
em aberto: o horário. Se Alexandre deixou Isabella no
apartamento, voltou para o carro, retornou com Ana e os dois
filhos e viu que a menina fora jogada, deixou muito pouco
tempo para um estranho agir. Alexandre alegou que ficaram
alguns minutos dentro do carro, na garagem, porque havia ali
outro carro, com som alto, que poderia acordar as crianças.
“Eles foram aumentando esse período para dar tempo de o
suposto estranho fazer alguma coisa”, diz Renata.
Mais tarde, ao depor no inquérito, o casal
calculou ter gasto 19 minutos entre sua chegada à garagem e
a entrada de toda a família no apartamento. O carro de
Alexandre, no entanto, tinha monitoramento por satélite. E
esse sistema registrou a hora exata em que o motor foi
desligado: 23h36m11s. O telefonema de Antonio Lúcio para a
PM, falando da queda de Isabella, foi às 23h49m59s.
Portanto, entre a chegada e a queda da menina transcorreram
13 minutos e 48 segundos.
Outra questão: a chave usada pelo suposto
ladrão ou vingador para entrar no apartamento. Moradoras do
prédio disseram a Renata que Alexandre falara em
arrombamento da porta (que estava intacta, como a perícia
constataria). Na delegacia, o casal falou na cópia da chave
que existiria na portaria. O apartamento é novo, foi
entregue em setembro do ano passado. O casal trocou portas e
fechaduras, estas pelo modelo tetra, de quatro gomos. Os
técnicos que fizeram o serviço, chamados a depor,
confirmaram o trabalho. Cópias das chaves só haviam ficado
na portaria enquanto os apartamentos não estavam ocupados.
Depois, não. No fim da investigação, Anna Jatobá deu outra
versão: tinha perdido a chave. E o assassino a teria achado.
O sangue que Renata não viu, ao vistoriar o
apartamento no primeiro dia, apareceu quando os peritos
usaram um reagente químico, chamado bluestar. Com ele,
tornaram-se visíveis uma mancha de sangue perto do sofá e o
sangue numa fralda que fora lavada e estava num balde. A
delegada diz que a peça foi usada para limpar o apartamento
ou estancar o sangue da testa da menina, no trajeto do carro
para a moradia. “O sangue no apartamento foi suficiente para
provar que era de Isabella”, diz Renata. Pelo mesmo
processo, foram detectadas gotas de sangue com o perfil
genético da menina no carro de Alexandre. Ali foi encontrado
material genético de outras pessoas da família, que poderia
ser vômito ou saliva das crianças. Mas só Isabella teve
sangramento. “Por isso, posso afirmar que o sangue é dela”.
No começo das investigações, Renata não
esperou pelos laudos. Foi direto aos peritos. “Fiz várias
reuniões com eles. Estive no IML e saí às 3 horas manhã”.
Eram seis médicos, cada um explicando conclusões ligadas a
sua especialidade. “As provas convergiam, uma encaixava na
outra”, diz Renata. Os peritos concluíram que Alexandre
entrou no apartamento com a filha no colo, sangrando, e a
atirou no chão, junto do sofá. As manchas de sangue da
entrada da sala até o sofá são compatíveis com essa
situação.
Sobre o ferimento na testa: a menina viajava
atrás do pai, que dirigia, com Anna no banco a seu lado.
Renata concluiu que foi Anna quem acertou a menina na testa,
erguendo o braço esquerdo. Uma hipótese é que tenha usado a
chave tetra do apartamento – compatível com o ferimento.
Isabella também tinha lesões na parte interna da boca e nos
lábios. Sinal de que alguém comprimiu sua boca com força.
Concluiu-se que Alexandre fez isso para impedir que Isabella
chorasse alto ou gritasse enquanto a levava, no colo, para o
apartamento.
Em 29 de abril, Renata Pontes terminou o
inquérito e pediu a prisão preventiva do casal. Alexandre e
Anna estão presos, à espera de julgamento. O advogado do
casal, Marco Pólo Levorin, acusa a polícia de ter “criado e
imaginado” os fatos e de ter sido tendenciosa. Diz deduzir,
de um laudo oficial, que Isabella não foi esganada e que a
asfixia deveu-se à queda. Afirma existir outro laudo,
segundo o qual Alexandre não poderia, sozinho, ter jogado a
menina pela janela. “Os fatos não poderiam ter ocorrido como
foram demonstrados”, afirma. Para ele, a perícia oficial só
comprovou a existência de sangue humano em quatro peças de
roupa, o que exclui o apartamento, o carro e a fralda
lavada. As peças, diz Levorin, são a calça de Isabella, uma
blusa feminina, uma bermuda e uma camiseta de manga longa,
encontrada no apartamento vizinho. Para ele, a camiseta “é
da terceira pessoa”, o autor do crime. Levorin diz que não
foram investigadas “possíveis rotas de fuga” dessa terceira
pessoa. Afirma ter provas de que uma casa, que dá para os
fundos do prédio, foi arrombada na noite do crime. Diz ainda
que a polícia não investigou funcionários e prestadores de
serviço do prédio.
Com o fim do inquérito, a foto de Isabella
saiu da mesa de trabalho de Renata – e foi para seu
apartamento. “A foto era para me dar motivação. Para ter
forças, ficar sem dormir e seguir investigando, eu pensava
na mãe que não podia mais beijar sua filha”. Pediu à mãe da
menina, Ana Carolina de Oliveira, fotos para colocar no
inquérito. A professora Paula Cristiane de Aquino, da Escola
Isaac Newton, onde Isabella estudava, levou cerca de cem
fotos. Nesse dia, Renata, que é solteira, se emocionou.
Colocou no inquérito 20 fotos de Isabella. A primeira é do
dia do nascimento. A última, da menina morta.
Isabella, de 5 anos, foi arremessada pela janela do
apartamento do pai. Ele e a madrasta da menina são acusados
de homicídio
29 MAR 2008 -
Isabella morre depois de ser jogada pela
janela do apartamento do pai, no 6º andar, de um prédio em
São Paulo.
3 ABR 2008 -
Alexandre Nardoni, pai de Isabella, e a
madrasta, Anna Carolina Jatobá, se entregam depois que a
prisão deles é decretada.
11 ABR 2008 -
Alexandre e Anna Carolina são libertados. A
Justiça considera não haver motivos para manter a prisão
temporária.
18 ABR 2008 -
Depois de prestar depoimento, Alexandre e
Anna Carolina são acusados formalmente pelo assassinato.
20 ABR 2008 -
O pai e a
madrasta de Isabella dão entrevista ao programa
Fantástico.
Ambos negam ter matado a menina.

27 ABR 2008 -
Peritos fazem a “reprodução
simulada”
do crime no prédio onde Isabella foi assassinada. Os
acusados não participam
30 ABR 2008 -
A polícia entrega à Justiça o inquérito sobre
o crime. Ele conclui que Anna Carolina e Alexandre mataram
Isabella
6 MAIO 2008 -
O Ministério Público denuncia os acusados
pelo homicídio. Anna Carolina teria asfixiado Isabella.
Alexandre a teria atirado pela janela.
7 MAIO 2008 -
Anna Carolina e
Alexandre
voltam à prisão depois de o juiz Maurício Fossen acatar a
denúncia do MP contra o casal.
16 MAIO 2008 -
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) nega o
pedido de liberdade provisória ao casal.

26 MAIO 2008 -
Peritos contratados pela defesa de Alexandre
e Anna Carolina alegam que os laudos produzidos pela polícia
são falhos.
27 MAIO 2008 -
A quinta
turma do STJ nega, por unanimidade, novo pedido de
habeas corpus
para Anna Carolina e Alexandre.
17 JUN 2008 -
Testemunhas de acusação prestam depoimento. O
casal comparece à audiência com uniforme da cadeia e algemas
2 JUL 2008 -
Testemunhas de defesa começam a ser ouvidas
no Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo.

5 AGO 2008 -
O Supremo Tribunal
Federal mantém a prisão do pai e da
madrasta
de Isabella.
FONTE: REVISTA
ÉPOCA
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