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"A OSTRA E A PÉROLA"
uma visão
antropológica do corpo no teatro de pesquisa

A atriz e
antropóloga paraibana Adriana Dantas de Mariz lança livro
que propõe um mergulho no teatro de Eugenio Barba.
Antropologia Teatral e Teatro
Antropológico. Estes dois conceitos podem soar alienígenas
para uma boa parcela dos leitores brasileiros. Concebidos e
desenvolvidos pelo encenador italiano Eugenio Barba, no
entanto, têm provocado abalo na compreensão clássica do
comportamento cênico. Em quê o teatro dialoga com a
antropologia? Quanto de sua própria cultura o ator põe em
uso no momento de conceber um personagem? Como fugir dos
recursos usuais e cotidianos e surpreender o público? E o
teatro precisa mesmo de público? Agora, um livro promete
lançar uma luz sobre estas e várias outras questões que
permeiam o assunto. É A OSTRA E A PÉROLA – uma visão
antropológica do corpo no teatro de pesquisa, da atriz e
antropóloga Adriana Dantas de Mariz, que acaba de ser
editado pela Editora Perspectiva, dentro de sua coleção
Estudos. O livro será lançado em João Pessoa no próximo
dia 08 de agosto, a partir das 19h, no Zarinha Centro de
Cultura (Av. Nego, 140 - Tambaú).
A
OSTRA E A PÉROLA
apresenta uma leitura da filosofia e do processo de trabalho
do encenador italiano radicado na Dinamarca Eugenio Barba e
dos atores de seu grupo, o Odin Teatret, em contraponto com
o trabalho de outros dois mestres da encenação mundial, o
polonês Jerzy Grotowski (uma lenda do teatro contemporâneo,
falecido em 1999) e o brasileiro Antunes Filho. Cada um, a
seu modo, desenvolve(u) um caminho para a preparação
corporal do ator, compreendido como ator-pesquisador, que
enfrenta as limitações impostas pelo ambiente cultural e
extrapola as fronteiras pessoais e antropológicas. Como diz
Eugenio Barba, “um ator que enfrenta sua
própria identidade”.
A autora Adriana Dantas de Mariz tem
conhecimento de sobra para abordar o assunto. É mestre em
antropologia e atriz com larga experiência no teatro de
Brasília. Aí reside aquilo que diferencia a obra de tudo o
mais disponível no mercado sobre o assunto: a união das
trajetórias e visões da cientista social e da artista. Com
isso, como escreve o filósofo e escritor Adauto Novaes no
prefácio no livro, a obra alcança a potência de mexer com as
certezas do leitor, com sua visão de mundo e com sua idéia
de teatro. “O olhar da antropóloga procura, de maneira
incessante, decifrar o olhar do outro. (...) o olhar da
atriz, em diálogo muitas vezes silencioso com o outro,
constrói um mundo de imagens, idéias e sentimentos, que
ganham expressão no teatro. O livro é, pois, o
entrecruzamento da teoria e da experiência”.
A OSTRA E PÉROLA
nasceu, primeiro, como tese de mestrado, sob orientação do
antropólogo e professor José Jorge de Carvalho, na UnB, em
1998, para depois despertar a atenção e o interesse do
mercado editorial. Ganhou edição na prestigiada coleção
Estudos, dirigida por J. Guinsburg para a Editora
Perspectiva. José Jorge e J. Guinsburg assinam belos textos
no livro.

UM LIVRO-GUIA
O trabalho desenvolvido pelo italiano Eugenio
Barba o distingue de tudo o que é feito no mundo sobre a
arte teatral. Para Barba, o Teatro Antropológico só é
possível com uma dedicação integral do ator ao ofício
teatral, com uma viagem de prospecção do intérprete à
história e à cultura de outros países. Antropologia teatral
provoca o ator a deixar o eixo seguro e buscar o risco da
troca.
O livro (que inclui
entrevistas inéditas com Barba e Antunes) se propõe a
comentar o trabalho do diretor italiano e muitas vezes
colocá-lo à luz das experiências desenvolvidas por Grotowski
e Antunes Filho. Os três, cada um a sua maneira, trabalham
dentro de visões particulares do mundo e da arte de
interpretar, integrando elementos da filosofia, da religião,
da política, da ciência. O que está em foco é o conceito do
ator que pesquisa e desenvolve uma partitura corporal
diferente. Seja no teatro antropológico de Barba, no teatro
pobre (e sagrado) de Grotowski ou no teatro baseado na idéia
de complementariedade de Antunes (yin e yang, morte e
renascimento), o ator não se coloca como produto no mercado,
é um agente-criador que concebe uma cultura original,
inventada, própria.
Para isso, a autora empreende
um trajeto que o leitor acompanha com prazer. Adriana Dantas
de Mariz inicia seu livro comentando as noções que o teatro
tem no ocidente, passeia pela história do teatro e seus
rituais, apresenta um panorama da arte teatral no século XX
(comentando alguns dos grandes revolucionários da linguagem,
como Stanislávski e Brecht) e chega ao objeto de seu estudo:
os centros de pesquisa teatral, que, segundo a autora,
buscam o elo perdido, o teatro com seu caráter de
transcendência, de ritual.
O livro promete se
transformar num guia tanto para atores quanto para
antropólogos. Adriana Dantas de Mariz caminha com grande
intimidade entre os dois mundos. Para o ator e criador
teatral, a obra pode ser um norte para repensar a noção de
teatro e da arte de interpretar – ou reafirmar certezas. Um
fio condutor na descoberta do corpo como mapa simbólico, com
aportes para exercícios e treinamento dentro da concepção de
mundo e da anatomia teatral de cada um dos três criadores.
Para o antropólogo oferece a possibilidade original de
apresentar o estudo sobre um universo, visto de dentro e de
fora deste mesmo universo, já que Adriana olha o teatro
tendo como base sua própria vivência de atriz, rompendo
barreiras cristalizadas entre as disciplinas acadêmicas.
Adriana Dantas de Mariz é
graduada em ciências sociais e mestre em antropologia pela
Universidade de Brasília. Desde os 14 anos, atua também como
atriz, tendo já uma trajetória reconhecida na cidade.
Participou de diversos espetáculos dirigidos por alguns dos
mais importantes encenadores brasilienses e integrou grupos
marcantes como a Companhia dos Sonhos, de Hugo Rodas. Fez
cursos e treinamentos com os diretores Eugenio Barba, Ariane
Mnouchikine (do Théâtre du Soleil) e Antunes Filho. Foi das
privilegiadas “testemunhas” escolhidas para assistir a uma
das famosas “pesquisas parateatrais” dirigidas por Grotowski
em seus últimos anos de vida. Ou seja, conhece intimamente o
objeto de sua pesquisa.
UM
POUCO DE HISTÓRIA
O italiano Eugenio
Barba imigrou,
com menos de 20 anos
de idade, para a Noruega. Depois de passar três anos com
Grotowski, de 1961 a 63, viajou para a Índia, onde conheceu
o Kathakali, um teatro sagrado que transformou sua forma de
ver a arte teatral. De volta à Noruega, em 1964, decidiu
dedicar-se ao teatro como profissão. Criou o grupo de
pesquisa Odin Teatret (com atores rejeitados no teste para
Oslo’s State Theatre School), que mais tarde foi convidado a
se instalar na cidade de Holstebro, na Dinamarca, onde
permanece até hoje. À frente do Odin, Barba desenvolve um
trabalho de estudo contínuo da linguagem cênica do ator. O
diretor já recebeu alguns dos principais prêmios do teatro
mundial.
O interesse da autora pelo
Teatro Antropológico de Eugenio Barba nasceu em 1993. Um ano
depois, a atriz participou da VIII Sessão da Ista, uma
espécie de escola internacional criada por Barba (em 1979)
com a proposta de viajar pelos países propondo reflexões
sobre o ofício teatral a partir do encontro com diferentes
culturas. Foram dez dias de imersão nos fundamentos do
teatro antropológico. Em 1995, mais um encontro com o Odin,
desta vez num seminário que a atriz Iben Nagel Rasmussen,
uma das mais antigas da companhia, deu em Salvador.
Inspirada pelas
pesquisas do Odin Adriana formou, com mais duas colegas
atrizes, professoras da UnB, um grupo de pesquisa sobre o
método do diretor italiano, com alunos do Departamento de
Artes Cênicas daquela Universidade, que teve a duração de
dois anos e meio e contou com o apoio do PIBIC/CNPq.
Já
cursando o mestrado, Adriana encontraria Barba e o grupo
Odin ainda em outras duas ocasiões. Em 1996, num evento
dedicado a professores de Artes Cênicas da UnB, a autora
teve oportunidade de esclarecer algumas questões sobre
treinamento do ator e conceitos sobre a Antropologia
Teatral. E em 1998, em Belo Horizonte, no I Encontro Mundial
de Artes Cênicas, aproximou-se do encenador para uma
entrevista inédita que é reproduzida no livro. Ao longo
destes quatro anos de encontros esparsos, Adriana Mariz
ainda teve oportunidade de assistir a vários espetáculos,
demonstrações de trabalho dos atores do Odin Teatret e
palestras de Barba.
O foco
da pesquisa foi se depurando com a escolha do teatro de
Jerzy Grotowski como um dos paralelos para a análise da
concepção de corpo e teatro de Eugenio Barba. Grotowski é
uma das principais fontes de inspiração para todo teatro de
pesquisa no mundo contemporâneo. “Interessada na questão da
importância semântica do corpo no contexto do teatro de
pesquisa, fui buscar, em Antunes Filho, o contraponto
brasileiro que faltava à minha análise”, escreve Adriana. A
partir daí, a autora construiu uma narrativa que propõe o
teatro como ponte para o ator ampliar a capacidade humana,
ter o corpo como veículo para a transformação espiritual.
Ler o livro é tomar contato com criadores que querem mudar a
percepção de atores (e espectadores), levando-os a aceitar o
imponderável e a renegar as regras ditadas pela sociedade de
consumo.
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Lançamento
do livro A OSTRA E A PÉROLA
Local:
Zarinha Centro de Cultura (Av. Nego, 140 - Tambaú)
Data: 08
de agosto de 2008
Horário:
19h00
Contato
para entrevistas: William Costa (jornalista) e/ou
Adriana Dantas de Mariz – (61) 9975. 9764 |
Foto:
Maione Queiroz Silva |