...de
como aconteceu o gesto nobre de um garoto de olhos verdes
chamado Chico Buarque de Holanda.
A BANDA OU A DISPARADA? Um dos episódios
mais interessantes da Era dos Festivais é a polêmica
disputa entre Geraldo Vandré e Chico Buarque, no II
Festival de Música Popular Brasileira
o certame, “Disparada” teria empatado com
“A Banda” em seis a seis. Mesmo que as condições de escolha
fossem nebulosas para a maioria do público, essa acabou
sendo colocada como a versão oficial, que todos conhecem. No
livro Uma Parábola, Zuza Homem de Mello apresenta
toda a história. O episódio, como se sabe, é até hoje
polêmico. Ainda hoje, seria difícil colocar qual seria a
melhor, dado a qualidade e a originalidade das duas
composições. A partir de então, ficou a pergunta de inefável
resposta: qual é a melhor? “A Banda” ou “Disparada”? Sem
dúvida, a questão nunca saiu de pauta. O certo é que é muito
difícil saber qual delas é a melhor. São emblemáticas,
porém, por lembrarem sempre ao tempo em que compositores
defendiam suas canções com unhas e dentes, e seus
respectivos intérpretes as defendiam como se tal empresa
lhes valesse a vida inteira.
Chico
Buarque de Hollanda, um jovem estreante de música e
ex-calouro de arquitetura de 24 anos, conhecido por um
sambinha digno de atenção — “Pedro Pedreiro” — , estimulado
por seu pai, Sérgio e pelo quinto lugar em 1965, resolveu se
inscrever novamente naquele ano, com uma marchinha lírica e
candente — A Banda — no festival da canção da TV Record de
1966. Para defende-la, escolheu Nara Leão, que já era
conhecida como musa da bossa-nova e que fazia sucesso com o
show Opinião, com João do Vale e Zé Kéti. A produção
do festival realmente investiu em Chico, que, parecia, ia
pela contramão das canções de protesto que estavam na moda.
O diretor
artístico do Festival, Solano Ribeiro, não gostou do arranjo
que Geny Marcondes bolou para a música, na primeira fase. O
público não conseguia ouvir a voz de Nara, que se perdia no
meio dos instrumentos. A arranjadora chamou Altamiro
Carrilho e montou uma bandinha de coreto. Solano foi
enfático: “Se você for com essa bandinha, vai ser vaiado!”.
Chico e Geny defenderam o arranjo com afinco. A solução
salomônica foi colocar Chico na primeira parte, sozinho, com
violão; depois, entrava Nara com o coreto. Dessa forma, o
público poderia “entender” o que Nara cantava. E assim foi.
No fim da primeira fase, era certo que “A Banda” estava na
disputa. O concorrente, porém era fortíssimo: a toada-galope
“Disparada”, de Geraldo Vandré.
Seguido
de uma esperança sem fim, Vandré excursionou naquele mesmo
ano pelo Nordeste levando a reboque Airto Moreira (do
Sambalanço Trio), o violonista e baixista Théo de Barros e o
guitarrista Heraldo, que formaram o Trio Novo. Foi durante
aquela viagem que ele teve a idéia de escrever um longo
poema sobre um vaqueiro que foi boi e que, um dia, “se
montou”. Certo do poder de “Disparada”, Vandré mostrou a
letra a Théo, que fez a música. Tiveram tempo de inscrevê-la
no II Festival. Ambos sabiam do poder daquela melodia — que
tinha como título original "Moda para Viola e Laço" — e foi
com esse espírito que o grupo empreendeu verdadeira epopéia
para concretizar o sonho de cantá-la no certame.
Conseguir
a sonoridade ideal para “Disparada” se transformou em tarefa
de gincana: a primeira delas era elaborar uma percussão
original. Geraldo queria ruído de chicote na música.
Tentaram com barras de madeira, mas não soou como ele
queria. Então tiveram a idéia de usar uma queixada de burro.
Onde encontrar? Acharam uma nas mãos de um músico de Santo
André. Tentaram alugar o “instrumento”, mas o homem só
aceitava o negócio se ele tocasse a queixada. Para levar,
tiveram que comprar o exótico objeto, que seria tocado por
Airto na apresentação. Zuza Homem conta que a queixada faz
sucesso: era incrível como um instrumento sem ressonância (a
“ressonância” ficava por conta dos dentes frouxos da
queixada) pudesse fazer um som tão alto. A segunda tarefa:
encontrar um intérprete convincente.
Todos
conheciam Jair Rodrigues como o parceiro de Elis em O
Fino da Bossa e acreditavam que ele fosse apenas um
sambista nato. Nos bastidores, o pessoal da produção do
programa sabia, porém, que Jair era um rapaz do interior, e
que até ensaiava algumas modas de viola. Foi então que
sugeriram seu nome para cantar “Disparada”. No começo, foi
uma briga fazer com que Rodrigues fosse o escolhido. Era
Vandré quem queria cantar. Solano Ribeiro insistiu: queria
um cantor. “Quem?”, perguntou o compositor. Falou em Jair.
Geraldo não quis saber. Disse que ele era sambista, e não
tinha nada a ver. Solano explicou que via Jair pelos
estúdios, sempre cantarolando modinhas sertanejas. Então
Vandré e Théo foram pessoalmente falar com ele. Foram
enfáticos: “Você tem que cantar a música sério, hein? Ela é
muito importante para nós”. Para quem conhecia Jair cantando
“Menino das Laranjas”, foi difícil acreditar que era ele,
seríssimo nos ensaios, a declamar a primeira parte,
concentrado: “Prepare o seu coração/Para as coisas que eu
vou cantar/Eu venho lá do sertão/Eu venho lá do sertão/E
posso não lhe agradar”. Solano fez Jair passar a música para
o Vandré. Após a audição, não havia qualquer rastro de
dúvida.
A APRESENTAÇÃO
A
performance do Jair Rodrigues também pegou a platéia de
surpresa, acompanhado pelo Trio Maraya e o Quarteto Novo,
com Hermeto Pascoal de pianista, Théo de Barros na viola e
Airto na percussão com a famosa queixada de burro. Nas
finais, a preferência do público se dividiu de maneira
ruidosa com a canção de Geraldo Vandré. Os dez dias entre as
eliminatórias e a grande final se transformaram numa
avalanche de opiniões. Nunca duas canções haviam dividido
tanta opinião entre tanta gente diversa. A discussão
aparecia em todos os jornais e em todas as conversas. Nos
ônubus, nas ruas, restaurantes, bondes, na frente da tevê,
nas casas, choviam bookmakers sobre quem seria o
vencedor. No Paramount, as torcidas ensaiavam um conflito
aberto. Nara e Jair interpretaram suas respectivas músicas.
Em seguida, o júri se reuniu numa pequena sala para votar.
Eram onze homens nervosos. Sete ficaram com “A Banda”,
quatro com “Disparada”. Quando todos iam comunicar o
resultado, receberam um recado de Chico: se ele fosse o
escolhido, iria se recusar a receber o primeiro lugar
sozinho.
O bode
estava na saleta. Ele não sabia da decisão, mas não queria
ser o único vencedor do certame. Inclusive, Chico gostava da
sofisticação de “Disparada” e entendia perfeitamente o
entusiasmo do público com a música. Todos estremeceram. Até
porque a platéia viria abaixo ao saber do resultado da
verdadeira decisão do júri. Pior: Chico ameaçou tomar ele
próprio a decisão diante de todos, mesmo que fosse parecer
um ato demagógico. Na parede, os onze decidiram reconsiderar
o resultado. Afinal, o que são três votos? E o público não
entendeu quando Chico Buarque sorriu ao ser anunciado o
empate. Independente de qual fosse o resultado, a decisão do
compositor o colocou no primeiro lugar junto com Vandré.
Zuza
Homem de Mello revela que guardou no cofre de sua casa as
cédulas de votação do festival da Record de 1966. No livro,
ele diz que “A Banda” seria a real vitoriosa, por sete votos
a cinco. O fato, por sinal, não é novo, e foi mostrado em
reportagem da revista Realidade, em 1968. O fato
curioso fica por conta do dado de que Chico teria exigido o
empate, por acreditar na superioridade da canção de Vandré.
Ou, por outras palavras, acreditando ser o virtual segundo
lugar, Buarque teria, com o impasse gerado por ele,
permitido que ele vencesse de qualquer maneira o certame
sem, no entanto, saber que ele era o vencedor de fato. Chico
foi interpelado a respeito da decisão do júri. Ele apenas
disse: “O júri que decida o que quiser”. Se ele fosse
escolhido o vencedor, desistiria do prêmio no palco. Sua
demonstração de altruísmo e reconhecimento da qualidade
musical de “Disparada” justificou a vitória de ambos.
Zuza
conta a reação adversa de Jair Rodrigues na hora da
premiação. Jair, ao ver que o júri havia escolhido “Canção
para Maria” (Paulinho da Viola e Capinam), defendido também
por ele, no terceiro lugar, ficou desolado. Se o escolheram,
certamente que ele não seria o primeiro lugar. Logo ele, que
havia dado toda a sua vida em favor de “Disparada” e que
havia tanto se identificado com a letra e com o tema
sertanejo, logo ele, um filho do sertão, preterido pelo
júri, mesmo a despeito de sua interpretação convincente? Deu
de ombros e, sem que ninguém o visse, resolveu sair de
fininho e tomar uma num boteco da rua da Consolação, em
frente ao teatro, e depois sumir. Eis que, de repente,
alguém da produção lhe puxa pelo ombro. Diz para Jair
esperar. O cantor explica que ele já havia citado no
terceiro lugar. O homem insistiu: “fique, que tem uma coisa
acontecendo”. Foi quando ele descobriu tudo: para o gáudio
de gregos e troianos, “Disparada” havia empatado o primeiro
lugar!
Então
correu para o palco, feliz da vida.
A RELAÇÃO DOS PRIMEIROS
COLOCADOS NO FESTIVAL DA RECORD EM 1966
1º A BANDA (Chico Buarque) - CHICO
BUARQUE E NARA LEÃO
1º DISPARADA (Geraldo Vandré e Théo
de Barros) - JAIR RODRIGUES, TRIO MARAIÁ E TRIO NOVO
2º DE AMOR OU PAZ (Luís Carlos
Paraná e Adauto Santos) - ELZA SOARES
3º CANÇÃO PARA MARIA (Paulinho da
Viola e Capinam) - JAIR RODRIGUES
4º CANÇÃO DE NÃO CANTAR (Sérgio
Bittencourt) - MPB-4
PREPARE O SEU CORAÇÃO
A Era dos Festivais - Uma Parábola, de Zuza
Homem de Mello, revive a história e as histórias do tempo
dos festivais da canção, nas décadas de 1960 e 1970
m dos períodos mais férteis e célebres da
Música Popular Brasileira reaparece nas páginas de A Era
dos Festivais - Uma Parábola, de Zuza Homem de Mello
(Editora 34, 528 págs), 24º volume da coleção Todos os
Cantos. No livro, o musicólogo e pesquisador faz o
itinerário do nascedouro da MPB, que nasceu nos memoráveis
festivais realizados pelas emissoras Excelsior e Record, no
começo da década de 60. Na obra, Zuza se debruça sobre o
período de 1960 e 1972, desde o primeiro festival da TV
Record, a Festa da Música Popular Brasileira, ao VII
Festival Internacional da Canção, da TV Globo, já em plena
ditadura. Como qualquer livro do tipo que se preze, Uma
Parábola não deixa de correr o olhar curioso dos
bastidores de cada certame, misturando vigorosa pesquisa,
depoimento e vasta iconografia, passando ao tempo e ao lugar
onde surgiriam cantores e compositores como Geraldo Vandré,
Tuca, Maysa, Sérgio Ricardo, Raul Seixas, Hermeto Paschoal,
Antônio Adolfo, Tibério Gaspar, Chico e Caetano, entre
outros.
Os vários
episódios relembram Elis imitando Lennie Dale e girando como
hélice em “Arrastão”; a guerra entre “A Banda” e
“Disparada”; a sonora e injusta vaia que Nana Caymmi levou
ao defender “Saveiros”, de Dori e Nelson Motta (que não
sabia o que é um saveiro); o ingresso da guitarra na MPB com
Gil e os Mutantes em “Domingo no Parque”; Jorge Ben fazendo
tudo mundo cantar “Fio Maravilha” na voz de Maria Alcina;
Sérgio Ricardo dando uma de Pete Townshend com “Beto Bom de
Bola” (“vocês são uns animais!”); Caetano Veloso bancando a
Molly Bloom em seu discurso delirante em “É Proibido
Proibir” e o fim do romantismo, com a “linha dura” bafejando
os derradeiros certames, já na época da TV Globo, na década
de 70. De reboque junto com Uma Parábola a Universal
vai lançar trilha sonora do livro em CD duplo.
O INÍCIO
A chamada
Era dos Festivais nasceu em São Paulo — injustamente
chamada de “Túmulo do Samba” — em meados de 1963, quando
também houve uma discreta migração de artistas cariocas para
a capital paulista, como Johnny Alf, por exemplo. Nesse
mesmo tempo, já havia gente nova fazendo música por lá:
Walter Wanderley, Ana Lúcia (que gravaria a primeira versão
de “Samba em Prelúdio” em dueto com Vandré), Claudette
Soares e César Camargo Mariano. Logo, eles e muitos outros
seriam capitaneados por Solano Ribeiro, Moacir do Val e
Franco Paulino, num projeto chamado Tardes da Bossa
Paulista. A resposta do público foi grande e imediata.
Em pouco tempo, foi preciso encontrar um lugar maior para os
encontros, como um teatro.
Optaram
pelo antigo teatro de Arena. Ali, o programa virou Noites
de Bossa e obteve sucesso enorme. Certo dia, José
Bonifácio Sobrinho (o Boni), que trabalhava na extinta TV
Excelsior, convidou Solano para trabalhar como coordenador
de programação da emissora. Com a chance de produzir um
programa, ele convidou todos para o cast do Noites
da Bossa Paulista. Com o tempo, o pessoal do Rio foi
convidado a integrar o programa que, então, virou
Primavera Eduardo É Festival de Bossa Nova (por causa do
patrocínio das Lojas Eduardo). Foi quando uma certa
gauchinha — direto da Vila IAPI para o estrelato — chamada
Elis Regina cantou pela primeira vez num teatro paulistano.
Ao mesmo
tempo em que a Excelsior apresentava as suas noites de
Bossa, o conhecido disk-jóquei Walter Silva (o do Pick-Up
do Pica-Pau) lotava o Teatro Paramount com gente até no
lustre. O motivo? Elis girando seus braços a la
Lennie Dale e os ziriguiduns de Jair Rodrigues em
Dois na Bossa. Mas, antes dos shows, havia ainda a idéia
de realizar um festival, como nos moldes do San Remo. O
problema era saber como: no modelo italiano,
gravadoras e editoras orientavam o Festival. Como os selos
daqui não aceitariam apostar em gente iniciante, o que
fazer, abrir o certame para todos? Foi a única solução. Veio
uma enxurrada de gente. Com tal demanda, nascia o I
Festival de Música Popular Brasileira, realizado na TV
Excelsior, em 1965. Foi um sucesso absoluto.
COQUELUCHE
Elis
Regina
Quem
ganhou foi “Arrastão”, de Edu Lobo, que havia apresentado
sua canção para o poeta Vinícius de Moraes, autor da letra.
O que havia assombrado o júri foi a temática, além da
expectativa do paradigma típico banquinho-e-violão e sob
forte influência da nova linguagem oriunda do teatro dos
Centros Populares de Cultura (CPC) da UNE, colocando um
toque nordestino na amena urbanidade bossa-novista . A
inspiração — segundo Zuza — foi a canção “Subdesenvolvido”,
de Carlinhos Lyra e Chico de Assis. Lançada em 1963, mesmo
no circuito alternativo dos centros acadêmicos, a canção
vendeu 10 mil exemplares em compacto. Foi essa temática que
venceria o festival e indicaria um caminho a seguir aos
próximos participantes. Mas a cereja do bolo do festival
seria a novata Elis Regina. Sua interpretação, perfeita de
tão histriônica, cheia de breques, também seria o exemplo
para os futuros concorrentes. Por conta de sua inusitada
atuação no palco, Elis ganharia o prêmio de melhor
intérprete daquele ano.
A
Excelsior insistiu em produzir uma segunda edição do
festival no ano seguinte. O vencedor foi a marcha-rancho
“Porta-Estandarte”, de Geraldo Vandré e Fernando Lona,
defendida por Tuca e Airto Moreira. Promissor, Vandré havia
se iniciado como compositor nos tempos do Centro Acadêmico
da Mackenzie e em apresentações no João Sabastião Bar, em
São Paulo. Já era famoso por interpretar “Sonho de um
Carnaval”, do desconhecido Chico Buarque, para o festival de
1965. A partir de 1966, certames desse tipo se
transubstanciariam em coqueluche e cavalo de batalha dos
puristas e dos compositores ditos “engajados” contra a onda
do rock, deflagrada com a chegada dos primeiros sucessos dos
Beatles em 1964 e o nascimento da Jovem Guarda em terras
brasileiras.
À medida
que os festivais cresciam, o pessoal engajado dos festivais
(principalmente os compositores) ia tomando a bandeira da
música autêntica e de temática social. Passaram a comprar
briga com a turma de Roberto Carlos, que só queria saber
mesmo era de mandar tudo pro inferno. Eram chamados de
“alienados” — expressão pejorativíssima, então. Já a Record,
depois de realizar o II Festival e carreada pela polêmica
entre “A Banda” e a “Disparada”, obteve tanto sucesso de
audiência que virou uma grande emissora, fato que lhe
permitiu a criação de outros programas, entre eles, o
Jovem Guarda com Roberto Carlos (para e emissora, a
briga entre enragés e roqueiros era altamente
lucrativa) e o Bossaudade com a “Divina” Elizeth
Cardoso e Cyro Monteiro (e sua caixinha de fósforo). A
Record passaria a ser líder de audiência e a “Emissora dos
Musicais”. Os programas estavam em evidência, a audiência
nas alturas.
Em
outubro de 1967, a TV Rio apresentou o primeiro Festival
Internacional da Canção (FIC) que, logo na estréia, revelou
o jovem Milton Nascimento, segundo colocado com “Travessia”
(Milton Nascimento e Fernando Brant). Perdeu para
“Margarida”, de Gutemberg Guarabira (cujas histórias durante
a repressão são esmiuçadas no livro), defendida pelo grupo
Manifesto, e que, comparada com a música de Milton, caiu no
esquecimento do público. Em terceiro chegou “Carolina”, de
Chico Buarque, interpretada por Cynara e Cybele, do Quarteto
em Cy. Mais modesta, a Tupi fazia o Festival
Universitário e, posteriormente, a Feira Permanente
da MPB, com outro formato. A partir de 1968, o FIC seria
transmitido pela TV Globo.
O ANO DOS FESTIVAIS
Caetano Veloso
O ano de
1967 foi, certamente, o auge da Era dos Festivais, em termos
de qualidade musical. O III Festival de Música Popular
Brasileira, realizado no Teatro Paramount, foi ganho por
“Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam, defendida pelo próprio
Edu, junto com Maria Medalha e o acompanhamento do Quarteto
Novo. Apesar da genialidade de Edu Lobo e Capinam, “Ponteio”
havia sofrido restrições por parte do júri, que entendeu ser
a canção uma hibridização de um verdadeiro ponteio. Este
seria também um festival divisor de águas: esta seria uma
das últimas canções estilo protesto-bossa a ganhar o gosto
do público. Logo atrás, vinha a rascante “Domingo no
Parque”, que obteve mais ou menos o impacto de Bob Dylan
cantando e eletrificada “Maggie’ Farm” em Newport. Gil havia
colocado guitarras em sua música, depois de um tímido quinto
lugar no festival de 1966, com “Ensaio Geral”, interpretada
naquele certame por Elis Regina. Logo atrás, vinham “Roda
Viva”, de Chico Buarque, cantado por Chico e a MPB-4.
Em 1967,
Caetano Veloso viraria campeão moral com “Alegria, Alegria”,
se apresentando com uma marcha-rancho com guitarras e
bateria — os Beat Boys — da mesma maneira que Gil com os
Mutantes. Na verdade, ambos haviam mudado seu estilo musical
radicalmente, após terem descoberto uma fusão natural entre
o rock e o som folclórico à moda brasileira, após terem
“descoberto” o psicodelismo dos Beatles, amálgama que seria
a raiz do Tropicalismo. Ao mesmo tempo em que o rock parecia
fazer entropia na MPB, a Jovem Guarda aparecia no FIC na
figura de Roberto Carlos. Com elegância e no melhor estilo “chicobuarquiano”,
o Rei interpretou “Maria, Carnaval e Cinzas”, de Luís Carlos
Paraná, uma mistura de “Zelão” com “Sonho de um Carnaval”.
Não levou (levaria o troféu com “Canzone Per Te”, em San
Remo) mas também entrou para a história dos festivais. Havia
tanta qualidade que muita coisa boa não se classificou: a
belíssima “Eu e a Brisa”, de Johnny Alf, não passou da
primeira fase...
“FESTIVAIAS”
Também
foi a partir de 1967 que os festivais seriam também
conhecidos como “festivaias”. Como se não bastasse a platéia
ululante de sempre, a divisão entre a preferência das
canções defendidas tinha clima de Fla-Flu. O exemplo de
Sérgio Ricardo foi simbólico. Farto de ser vaiado, a ponto
de não poder tocar, ele interrompeu o público, quebrou o
violão e jogou seus pedaços na terceira fila do Paramount.
Roberto Carlos também foi vaiado, mas tinha o aval das suas
fãs histéricas, que mostravam a língua para o público
“engajado”. Se a coisa não era natural, já que havia a
preferência do cantor às vezes, algumas gravadoras passariam
a fomentar torcida condottiere, de aluguel. A
gravadora de Jair Rodrigues, por exemplo, “contratou” uma
torcida para aplaudir “O Combatente”. Como a música também
não foi classificada, o pessoal começou a vaiar quem
aparecesse. A vaia de “Beto Bom de Bola”, por sua vez, era
mais por antipatia mesmo. Ninguém entendeu bem a música e a
platéia não via nada de mais nela. Para vaiar, seria fácil
Geraldo
Vandré
A partir
de 1968, o clima no Brasil não era favorável para quem
queria fazer música de protesto. O festival catalisava tudo
isso, transformando o certame daquele ano num happening
político. A patrulha agora era de direita, e a censura
espreitava cada gesto brusco. A fórmula foi alterada:
criou-se o júri popular e o especial. No IV Festival, em
novembro-dezembro, na Record, as vencedoras foram “Benvinda”
de Chico Buarque, com o autor interpretando-a, e “São Paulo
Meu Amor”, cantada e defendida por Tom Zé. Mas jeripoca piou
mesmo foi no certame da Globo. O produtor, Renato Corrêa e
Castro, colocou Gilberto Gil cantando a surreal “Questão de
Ordem”, Caetano Veloso com “É Proibido Proibir” e a piéce
de resistence do festival, “Para Não Dizer Que Não Falei
das Flores”, na eliminatória paulista. A apresentação no
Teatro Universitário da PUC foi caótica. Gil fundiu a cuca
do júri, Caetano tomou as dores dele, e foi massacrado como
um Orfeu, em meio a vaias a apupos. Revidou à altura: “Se
vocês forem em política como são em estética, estamos
feitos. O Júri é simpático mas é incompetente!”.
CAMINHANDO E CANTANDO
Na
segunda fase, no Maracanãzinho, o circo estava armado. Seria
o ano de Vandré. Em meio à repressão política imposta pelo
regime militar, ele falava de flores vencendo canhões, e em
morrer pela Pátria a viver sem razão. No final, ordens de
cima: obrigaram a Globo a não dar a vitória ao Vandré. Ele
não poderia ganhar esse festival de jeito nenhum. Quem disse
que os militares aprovariam a vitória de uma música que
manda. A despeito da qualidade, o público não aceitava
“Sabiá”, de Chico Buarque e Tom Jobim. Chico, aliás, havia
vindo da Itália a convite de Jobim, para que recebessem o
Galo de Ouro juntos. Vandré, por sua vez, era o gênio
incompreendido, o vate solitário, o menestrel das flores, um
Guevara com um violão dois acordes e uma mensagem
“subversiva”.
A reação
do público estremeceu os militares. Não ganhou. A platéia
estava encantada com o ar de fauno triste do revolucionário
Vandré enquanto o júri preferiria a sofisticação da melodia
de Tom. Porém, uma outra “força maior” os ajudava nesse
sentido. Dessa vez, o próprio compositor defenderia
“Caminhando”, enquanto as meninas do Quarteto em Cy cantavam
a música de Tom e Chico. O ginásio inteiro entoou grossa
vaia quando o júri preteriu as flores e os canhões de Vandré
e escolheu “Sabiá” — uma dissimulada canção de protesto —
como a vencedora. Oficialmente derrotado desta vez, o autor
de “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” engoliu a sua
decepção e a do público, que se solidarizou com ele, e
bradou: “A vida não se resume a festivais. Antônio Carlos
Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem toda a nossa
consideração”.
O
FIM
Zuza
exemplifica que o que acabou com a Era dos Festivais foi,
além do esgotamento do modelo, o gradativo esvaziamento,
causado tanto pela intervenção dos militares no conteúdo das
canções quanto no desencanto de muitos compositores com o
jogo de cartas marcadas — sem falar na transformação do
espírito do festival, cujo gosto musical passava a ser
ditado por gravadoras e editoras, senão pelas próprias
emissoras. Além do mais, a maioria dos autores havia saído
do Brasil. A Globo conseguiu manter o evento por mais três
anos, mais por conta da audiência e pelo tom do espetáculo
do que da velha disputa ou a revelação de novos talentos.
O
último foi o Festival Internacional da Canção, em setembro
de 1972, Na fase nacional, o vencedor foi Jorge Ben com “Fio
Maravilha”, defendida por Maria Alcina e “Cabeça”, de Walter
Franco. “Cabeça” foi declarada a campeã pelo primeiro júri,
que foi dissolvido. Nara Leão, que era presidente do júri,
não poderia aparecer na tevê, sob ordens “de cima”. Nara
havia criticado a situação brasileira, semanas antes,
tornando-se persona non grata. Todo o corpo de
jurados tomou suas dores, e o júri se amotinou e se
auto-dissolveu. Escandalizados, os militares entenderam que
tal manobra era “antipatriótica” e “subversiva”. Em cima da
hora, foram escolhidos jornalistas estrangeiros para compor
um novo corpo — dessa vez, “isento” — a fim de pôr algodão
entre cristais. No fim, só quem reclamou foram os defensores
de Walter Franco que, sem entender nada, acharam que a troca
dos jurados foi apenas para prejudicá-lo...
No total,
entre 1960 e 1966, foram realizados oficialmente catorze
festivais, realizados entre as emissoras Excelsior, Record e
Globo. Com o fim da chamada Era dos Festivais, toda uma
época desapareceu com eles.