“ESPERANDO GREAT & WESTERN”
ELPÍDIO NAVARRO - 2003
Personagens: HOMEM I – HOMEM II - MULHER
(Estação de trem.
Plataforma de embarque. Banco comprido. Lixeiras. Homem I,
sentado no banco. Mulher vestida a caráter faz a limpeza do
local. Homem II aproxima-se do Homem i, que está lendo um
livro, demonstrando ser aquela uma leitura enfadonha.)
HOMEM II
– Dá licença?
HOMEM I
– (Pára a leitura e olha aborrecido para o Homem II. Dá
uma enorme risada) –Muito engraçado este livro! Muito
engraçado mesmo! (Volta a ficar aborrecido) –O senhor
falou comigo?
HOMEM II
–Isso! Preciso de uma informação, Lá fora o guichê
está fechado...
HOMEM I
–No teatro também é assim!
HOMEM II
–No circo e no cinema!
HOMEM I
–No correio, na previdência, na prefeitura, no banco, na
empresa de luz, na empresa d’água, na empresa de
telefonia...
HOMEM II
–O do imposto de renda, não!... Nem o do cemitério...
HOMEM I
–Pode ser... Mas o que é que o senhor deseja?
HOMEM II
–Agora o senhor me criou um grande problema: não lembro!
HOMEM I
–Interessante... Sabe que isso já me aconteceu uma vez
quando eu estava tentando rebobinar uma fita de cinema?
HOMEM II
–Vou sentar e pensar.(Deita-se no banco).
HOMEM I
(Para o público) -Vou recomeçar a minha leitura na
primeira página. Não lembro onde parei...
MULHER
(Varrendo, aproxima-se dos Homens I e II, e sacudindo o
Homem II, pergunta) –Está dormindo? (Homens
permanecem imóveis) –Não entendo! A gente acorda alguém
para perguntar se estava dormindo... (Afasta-se
varrendo).
HOMEM II
(Lentamente senta-se no banco. Tempo. Grita pulando) –Já
sei! Já sei! Já sei!
HOMEM I
(Tempo. Aborrecido fecha o livro. Dá uma enorme
gargalhada) –É muito engraçado este livro! (Para
Homem II) –O senhor falou comigo?
HOMEM II
–Não, falei comigo mesmo. Mas, já que o senhor atendeu,
posso perguntar?
HOMEM I
–Depende...
HOMEM II
–De quê?
HOMEM I
–Em qual idioma vai perguntar?
HOMEM II
–Agora o senhor me criou um grande problema: não lembro!
HOMEM I
–Interessante... Sabe que isto já me aconteceu uma vez,
quando eu estava desentupindo a pia do banheiro da vizinha?
Parece-me que era de madrugada...
HOMEM II
–Vou deitar mais um pouco. Pode ser que venha a me lembrar.
(Senta-se e permanece parado, olhando para frente).
HOMEM I
–Devo recomeçar a minha leitura na primeira página. Não sei
onde interrompi. (Volta à leitura).
MULHER
(Aproxima-se dos dois homens, sempre varrendo o chão) –Se
o homem foi feito por Deus à sua imagem e semelhança, qual
de vocês dois parece com ele? (Os dois homens
entreolham-se e voltam a posição anterior. A Mulher sai
varrendo e se interrogando.) -Qual? Qual?
HOMEM II
–Um momento, minha senhora!
MULHER
-Pois não!
HOMEM II
–A senhora é faxineira aqui. Faz muito tempo?
MULHER –
Não sei! Tenho uma vaga lembrança de que sou uma atriz...
Agora o senhor me deixou com uma imensa dúvida: sou uma
atriz ou uma faxineira?
HOMEM
II – Também não sei. A senhora é quem deve escolher!
MULHER –
Vou pensar. (Afasta-se).
HOMEM II
(Olhando em frente) – Estou preocupado. Muito
preocupado mesmo! Infelizmente estou desconfiado de que Deus
existe e fico atordoado, pois acho que ainda sou ateu...
HOMEM I
(Olhando em frente) – Acho que inventei Deus para
adora-lo e também para adorar-me à minha própria semelhança!
O Evangelho não passa de história, de memória...
HOMEM II
(Levanta-se e começa a andar em torno do banco, cada vez
mais depressa. O Homem I deixa a leitura e acompanha,
sentado, o movimento do Homem II, que, de repente, pára e
exclama:) – Lembrei! Vou perguntar em português!
HOMEM I
–Tant mieux...
HOMEM II
–À volonté
HOMEM I
– En avant!
HOMEM II
–Quanto tempo terá passado do dia, no exato momento que
sobre as paralelas linhas férreas, as circunferências
localizadas nas partes inferiores do comboio arrastado
locomotivamente, deixarão de movimentar-se diante de
nós?
MULHER
(À parte) - Isto é, a que hora o trem pára aqui?
HOMEM I
– Não sei. Mas, como trago comigo um relógio, quando isto
acontecer lhe informarei imediatamente!
HOMEM II
– Ótimo! Assim terei tempo de ir ao sanitário!
HOMEM I
– Não existe sanitário aqui. Só no gabinete do prefeito.
HOMEM II
– Essas lixeiras são tão limpas e bonitas! Urinar nelas
seria um estrago...
HOMEM I
– Pode ser... Isso me faz lembrar a praia, o mar. Também não
existem sanitários dentro d’água, mesmo que a maré esteja
baixa.
HOMEM II
– Engraçado! Ainda não havia notado esse detalhe. Só na
igreja, quando uma vez fui à missa. O mar está virando
latrina! (Ambos param e permanecem contemplativos. Tempo.
Homem II deita-se e Homem I volta à leitura. Mulher volta
varrendo o chão).
MULHER
(Diante dos dois, observa-os. Volta-se para o público) –Se
Deus fez todos os homens iguais, por que as mulheres
escolhem tanto?
HOMEM II
(Olhando em frente) – “Rasga
meus versos e crê na eternidade...” - disse o poeta
moribundo, talvez arrependido.
HOMEM I
–O homem sofre, o homem luta, o homem morre e se a
eternidade existisse seria a perpetuação de quê? Do seu
inferno em vida?
HOMEM II
(Levantando-se, fica de pé em cima do banco) – Daqui
não se vê o horizonte. Só um muro. Deviam construir estações
de trem com horizontes de mar! Ficaríamos a ver navios
enquanto esperássemos o trem!
HOMEM I
(Fecha o livro, levanta-se, vai até a uma lixeira e o
deposita dentro. Volta e dirige-se ao Homem II) –
Porcaria de livro. Chato! Uma chatice! Sem graça alguma! E
falso! Mais falso, só a ajuda humanitária da América do
Norte... (Tempo) – Entretanto, tenho a impressão de
que o senhor dizia alguma coisa antes, quando eu ainda via
as figuras daquela revista. Lembra o que era?
HOMEM II
–Não, eu não falava. Via os veleiros passando lá no
horizonte! Carregados de sal... Era isso! Dou a minha
palavra de honra, juro por tudo que é sagrado. Eu só olhava!
HOMEM I
– E isso não é perigoso?
HOMEM II
– Pode ser...
HOMEM I
– Pode ser... Isso me faz lembrar a minha prima Judite,
quando ela veio do interior morar na minha casa por conta
dos estudos na escola normal, pois na cidade onde ela morava
só existia grupo escolar. Quem queria aprender mais do que
ensinam no começo vinha buscar o fim na cidade grande e
geralmente hospedava-se na casa de parentes, pois não
existiam internatos na minha cidade que também não era lá
essa grande coisa...
HOMEM II
(Num grito) – Pare! Minha cabeça vai estourar! O
senhor fala de uma forma tão estranha, usando umas palavras
tão difíceis que eu não consigo acompanhar as suas
respostas! Ou eram perguntas?
HOMEM I
– Perdão! Eu entendo a sua aflição. É um grande defeito esse
meu. Preciso me corrigir. É que, às vezes, no entusiasmo, o
senhor sabe, a gente perde o controle. Tentarei ser mais
claro de agora em diante.
HOMEM II
–O senhor não sabe quanto isso faz bem à saúde! É um santo
remédio!
HOMEM I
– Acredito! (A Mulher espalha todo o lixo que havia
varrido e juntado e começa a varrer novamente, permanecendo
junto aos dois, tentando ouvir a conversa.)
HOMEM II
– Agradeço-lhe pela compreensão. Concordo inteiramente!
HOMEM I
– Eu já lhe falei sobre a minha prima Judite?
HOMEM II
– Eu nem sabia que o senhor tinha uma prima!
HOMEM I
– Então eu só comecei a falar. Mas, continuando: ela veio
morar na minha casa. Eu tinha 12 anos, ela 18. Também tinha
ela uma bunda do tamanho de um tacho de fazer canjica.
HOMEM II
– Quem?
HOMEM I
– A da mãe dela, a minha tia, era maior!
HOMEM II
- E a do pai?
HOMEM I
- Nunca vi. Ele só chegava vestido!
HOMEM II
– Isso acontece.
HOMEM I
- Então fui devagarzinho, me chegando, como quem não queria
querendo... (Ele observa a Mulher) - E a senhora quem
é?
HOMEM II
– É uma atriz que virou faxineira... Ou é ao contrário?
MULHER –
Isso mesmo! O senhor está certo! Mas a culpa foi deles! Dos
autores! Toda peça que escreviam, colocavam uma faxineira. E
sempre eu era escolhida para o papel! Sempre fazendo papéis
secundários. Até que um dia surgiu uma faxineira que era
papel principal e que no fim tornava-se patroa! (Tempo) –
Escolheram outra para representar...
HOMEM II
– Fantástico!... é o destino. E a senhora não protestou, não
esperneou, não gritou, não foi às últimas conseqüências?
MULHER -
Fui muito mais longe, fui ao extremo que pode ir um ser
humano. Mas não adiantou nada. Não me deram o papel. Então
só me restou a vingança. E eu me vinguei de todos eles... A
minha vingança tirou a peça de cartaz!
HOMEM I
– Então a senhora é uma atriz?
MULHER –
Ou uma faxineira...
HOMEM I
– Ótimo! Aceita interpretar qualquer papel?
MULHER –
Claro! Contanto que não seja de faxineira.
HOMEM I
– Obrigado. Agora procure concentrar-se...
HOMEM II
– E ele? Aceitou?
HOMEM I
– Ele quem?
HOMEM II
– O pai!
HOMEM I
– Não sei. Eu nunca perguntei... Mas não estávamos falando
da prima?
HOMEM
II –Tanto melhor.
MULHER –
O que será concentrar-se? (Permanece varrendo).
HOMEM I
(Também sobe no banco) – A minha prima Judite não era
tão bonita. Mas era uma “Raimunda”, entende? Estudava pela
manhã. Eu também, noutra escola. Após o almoço, os velhos
tiravam uma ligeira soneca. Meu pai saía logo para
trabalhar. Minha mãe continuava dormindo. Meus irmãos
estudavam à tarde. Tudo perfeito! Dá para acompanhar o meu
raciocínio?
HOMEM
II –Mais ou menos. Mais pra menos do que pra mais...
HOMEM I
– Vou tentar ser mais claro.
HOMEM
II – Doutora Rosalva agradece.
HOMEM I
– É bom saber disso.
HOMEM II
– A Doutora Rosalva sempre reclama quando eu chego
preocupado por causa do preço do chuchu.
HOMEM I
– Já comeu macarrão ao molho pardo?
HOMEM II
– E pode?
HOMEM I
– Não sei... Nesse caso não espalhe por aí que eu já comi.
Pode ser perigoso! (Tempo) Minha prima Judite
adorava farinha de milho. Engasgava-se toda vez que comia.
Eu batia nas costas dela pra ela desengasgar. (Homem II
desce do banco e senta no chão, de frente para o Homem I)
Ninguém estava vendo. Só eu e ela na sala de jantar.
Começava a alisar as costas dela, ia descendo a mão,
descendo, descendo até o fim do espinhaço... (Para a
Mulher) Agora é a sua vez!
MULHER
(Num foco isolado.) - Menino endiabrado! Eu conto
tudo à minha tia! Pare com essa brincadeira...
HOMEM I
– Só ameaças! Com o tempo, foi deixando que eu avançasse
mais: era ela se levantar e eu chegava por trás levantando a
saia dela e apalpando a enorme bunda, protegida por uma
calcinha de morim, que tinha uma fileira de botões em um dos
lados...
MULHER –-
Que é isso, menino? Respeite! Eu sou mais velha que
você. Pare! Eu vou dizer... (Sai o foco).
HOMEM I
–Nem saía do lugar nem me denunciava... (Para o Homem
II) – Gosta de bunda? De mulher, é claro! Sem
preconceitos! (Homem II nada responde) – Acho que a
minha tara por bunda começou aí! Ela não deixava eu fazer
nada na frente! Só atrás.
HOMEM II
(Para o público) - Sabem que 80% da população do
mundo vive em casas inabitáveis?
HOMEM I
(Para o público) - O narrador esportivo atacou:
“Robson leva uma bolada no rosto e leva a mão ao rosto.”
Será que era ao saco que ele deveria levar a mão? Às vezes
não percebo onde querem chegar esses comunicadores...
HOMEM II
–Sabem que70% da população do mundo são analfabetos e 50%
sofre de desnutrição?
HOMEM I
-A comunicação é importante porque comunica algo entre duas
ou mais pessoas que querem se comunicar.
HOMEM II
–Se um de vocês acordou hoje mais saudável que doente, tem
mais sorte que um milhão de pessoas que não verão a próxima
semana.
HOMEM I
– Ao utilizarmos a comunicação nos comunicamos.
HOMEM II
– Se um de vocês tem comida na geladeira, roupa no armário,
um teto sobre sua cabeça, um lugar para dormir, considere-se
mais rico do que 75% dos habitantes deste mundo.
HOMEM I
– A comunicação é moderna porque usa modernidade da
atualidade.
HOMEM II
– Se você tiver dinheiro no banco, na carteira ou um trocado
em alguma parte, considere-se entre os 8% das pessoas com a
melhor qualidade de vida do mundo.
HOMEM I
– A comunicação é de massa porque precisamos usar a massa
cinzenta para compreendê-la.
HOMEM II
– Se um de vocês já leu a Declaração dos Direitos Humanos,
recebeu uma dupla benção, pois alguém pensou em você e você
não está entre os dois milhões de pessoas que não sabem ler,
espalhadas pelos continentes desse planeta Terra.
HOMEM I
– A comunicação é uma junção da verdade com a falsidade.
Afinal fofoca é uma coisa feia e é comunicação.
HOMEM II
(Pulando para cima do banco e anunciando) – Estas
minhas afirmações são estatísticas de um filósofo famoso!
HOMEM I
(Pulando de cima do banco e anunciando) – E as minhas
são respostas de alunos de um curso de Comunicação do Rio de
Janeiro!
HOMEM II
– Mas por que estamos dizendo essas coisas?
HOMEM I
– Não faço a menor idéia...
HOMEM II
– Comecei a falar do nada... Uma força estranha, como num
sonho, tomou conta da minha vontade. Não consigo entender
por que começo a falar assuntos que não me dizem respeito!
HOMEM I
– O amigo vai se acostumar. No começo é difícil, mas termina
se acostumando. Faz parte da situação. Com a prima Judite
deve ter acontecido a mesma coisa.
HOMEM II
– Engraçado! Esse nome, esse nome... Não sei. Ainda vou me
lembrar.
HOMEM I
– Mas a prima Judite já se acostumou há muito tempo. Bem
antes de mim.
MULHER
(Entra foco) - Pare, menino! Não faça isso! Vou
dizer a titia... Pare! Não, não pare! Vá, vá, mais...
HOMEM I –
Minha prima Judite já havia se acostumado daquele jeito.
Fingida era ali! Por conta de um bocado de botões
arrancados, quando uma das vezes eu tirei a calçola dela,
ela, dando uma de prevenida, já chegava sem nada. Ia logo
recomendando...
MULHER
–Pare, menino! Hoje não que eu estou sem a roupa de
baixo... Não! Não levante a minha saia, menino astucioso.
Não faça isso que eu grito! Ai! Vá! Faça! Faça o que você
quiser! Não! Na frente não! Só pode passar a mão! Ai! Ai!
Hum! Ah! Devagar pra não machucar... Vá! Continue atrás!
Bote mais! (Sai o foco).
HOMEM I
–Não adiantava ela pedir para eu botar mais! Era uma
pimbinha, pequenininha, querendo penetrar numa bunda do
tamanho de um bonde! Ficava só nas beiradas! (Para o
Homem II) - Não sei se já lhe perguntei: “gosta de
bunda?” (Homem II não responde e aborrecido senta no
banco) – O senhor não responde por uma questão de
comunicação ou por preconceito?
MULHER
(Foco) – Espere! Deixe eu me virar. (Ajoelha-se)
– Eu vou beijar. (Fica de costas para o público) –Vamos!
Deite-se! Ah! É muito gostoso! Vamos! Deite-se! – Vá!
Passe a mão! Vá! Enfie o dedo! Epa! Pare! Botar aí não. Eu
sou virgem e vou casar virgem...
HOMEM I
– Ela metia a boca na minha pimba e eu enfiava um dedinho na
frente dela... (Ao Homem II) –O senhor gosta de
bunda?
HOMEM II
(Num berro) – Adoro!
HOMEM I
–Eu sabia! Pelas suas reações anteriores...
HOMEM II
– Acho “arretado”! Principalmente as bundas das mocinhas!
Ah, que coisa linda!
HOMEM I
– Já notou que quando a gente é menino, termina crescendo? E
cresce tudo! Um ano depois já não era mais uma pimbinha...
Já era uma pimba!
MULHER
(Entra o foco. Com os joelhos e as mãos apoiados no chão)
– Vá! Continue... Não pare, pelo amor de Deus... Ta cada vez
melhor! Vá! Alise mais na frente... Ai, como é bom! Não
pare... (Sai o foco).
HOMEM I
– Um dia fui taxativo: só fazia aquilo se deixasse eu fazer
também na frente. A prima Judite foi incisiva: “Se eu não
quisesse do jeito dela parava tudo por ali” Três dias depois
eu não arredava o pé. Ela também não abria mão. Os dois
arrependidos da teimosia! Mas foi ela quem ofereceu uma
saída...
MULHER
(Foco;. de costas para o público) – Mas sem botar
tudo. Só um pouquinho... (Levanta a parte da frente da
saia).
HOMEM I
– Ela era mais alta do que eu. Não alcançava!
MULHER –
Está bem... (Deita com as pernas arqueadas) – Mas só
um pouquinho! E devagarzinho! Venha! Eu ajeito... (Sai o
foco).
HOMEM II
–Foi sua primeira vez?
HOMEM I
–E não gostei! (Homem II volta-se, indagador) – Não
gostei do cara à cara, ela era feia! Não gostei da frente da
prima Judite. Escorregava pra um lado, escorregava pro
outro... Parecia que eu estava em cima de um prato de
mingau! Por outro lado, aquilo martelando o meu juízo: ela
vai casar virgem, ela vai casar virgem... Também eu ainda
não tinha uma pimba mais ou menos...
HOMEM II
(Senta no banco) – Minha única irmã morreu junto com
minha mãe, durante um parto. Eu tinha dois anos... Nunca
mais teve mulheres na família. Só a minha madrasta. Cresci
vendo ela nua agarrada com meu pai, em cima da cama, no chão
do quarto, no banho, na frente do fogão, no tanque de lavar
roupa, por todo canto. Ela dizia: “O menino está olhando”.
Meu pai respondia: “Tem nada não! Três anos, não entende
nada!” E eu olhando tudo. Fui crescendo e complicou: “Mande
esse menino chato embora!” Meu pai atendia: “Vá, filhinho.
Vá brincar no quintal.” Eu insistia em ficar, meu pai me
levava delicadamente para fora do quarto e fechava a porta.
Um dia comecei a espernear dizendo que queria ver e levei
uma surra violenta, de corda de armar rede.
HOMEM I
–Minha prima Judite casou “virgem”! Casou com um caixeiro
viajante, que trabalhava para um laboratório de
medicamentos. Casou e desapareceu por muito tempo. Só vinha
de visita à minha mãe, que ficava o tempo todo ao lado dela,
quando o marido estava viajando...
HOMEM II
– Passei a me esconder, a olhar pelo buraco das fechaduras e
a ficar debaixo da cama. Um dia fui descoberto. A madrasta
ficou zangada, gritou, reclamou, ameaçou e eu levei a
segunda surra, dessa vez com o cinturão dele. A fivela era
enorme!...
HOMEM I
–E minha mãe parecia adivinhar as minhas intenções! Não
largava a sobrinha um só momento. Ela agora era outra
mulher! Elegante, bem vestida, tinha emagrecido, tinha
melhorado muito! E eu rondando, disfarçando, embromando,
esperando uma oportunidade e nada! A prima Judite parecia se
divertir com tudo aquilo e ia embora sorridente. Quando iria
voltar? Quem sabia?
HOMEM II
-Por isso, essa surra doeu muito mais que a primeira. Fui
enviado para um internato e por bastante tempo. Só vinha em
casa nas férias. O trem que me levava era o mesmo que me
trazia. Era eu chegar e a minha madrasta fechava a cara. Não
queria conversa comigo. Tratava-me com desprezo. Eu já não
sabia se sentia maior alegria no trem que me trazia ou no
trem que me levava de volta ao colégio. Meu pai, coitado,
era dominado. Quando estava só comigo, era uma pessoa;
quando ela estava presente, era outra. Assim passaram os
tempos do primário, do ginásio e do científico. Quando não
pude mais ficar no colégio, voltei para casa. Homem feito!
Meu pai ficou feliz, pois era eu filho único e ele já não
estava tão moço. Precisava de alguém para começar a cuidar
dos negócios dele. Minha madrasta mudando, mais moça do que
ele, querendo ser boazinha comigo. Eu devolvia frieza. Assim
passamos a conviver.
HOMEM I
–Eu já não era mais uma criança. Nasceu barba, bigodes,
pentelhos, sem falar dos cabelos do sovaco e do nariz. Tudo
ralo ainda, mas havia nascido! Sem falar que já não tinha
mais uma pimbinha! (Tempo) - A prima Judite parecia
ser maninha. Já fazia alguns anos e nada de filhos. A bunda
ainda era a mesma! Inesquecível! (Tempo) - Ela notou
a minha ansiedade. Mulher é bicho danado! Essas coisas elas
percebem logo.
MULHER
(Foco. Agora traja roupas elegantes, curta saia plissada,
dessas de colegiais) –Tia! Faça um favor. Vá ao
armarinho da sua amiga e compre a camisola que está na
vitrine. Eu pago no fim do mês. Compre como se fosse pra
senhora.
HOMEM I
–Minha santa mãezinha acreditou na sinceridade da sobrinha!
MULHER
(De costas para o público, levanta a saia e tira a
calcinha) –Venha! Depressa, que temos pouco tempo.
Venha, ajoelhe-se aqui e comece lambendo...
HOMEM I
–Fazer o que? Que é isso?
MULHER
–Depressa! Não perca tempo! Meu marido faz isso comigo! Eu
não fazia com você? (Gesto de quem segura alguma coisa
contra seu corpo) –Não fique encabulado. Você vai
gostar... E eu já estou gostando! Vá! Lamba mais, mais,
ai... (Sai foco).
HOMEM I
–Ela enfiou a minha cabeça entre as pernas dela e não pude
fazer nada porque ela queria assim... Também porque eu
queria agradar, pensando na bunda dela! O que você
acha disso tudo? (Pergunta ao Homem II).
HOMEM II
–De repente ela mudou da água para o vinho. Era meu enteado
pra lá, meu enteado pra cá... Ou será ao contrário? Meu
enteado pra cá, meu enteado pra lá... Eu permanecendo à
margem, sem me aproximar. Certo dia meu pai pediu-me que
fosse em casa levar o dinheiro da feira. Ela estava só...
MULHER
(Foco. Outro personagem. Outra roupa caseira. Fala na
direção do Homem II) –Sabe? Ainda lembro de quando você
era um menino. Ficava olhando eu e seu pai... Tudo mudou.
Seu pai me procura muito pouco. Acho que perdeu o interesse
por mim. Ou então tem outra! Está sempre cansado...
HOMEM II
– Esse é um problema de vocês dois. Não me diz respeito, não
tenho nada com isso.
MULHER –
Tem! Seu pai pode estar doente. Pra você é mais fácil
conversar com ele. Ele gosta muito de você. (Sai o foco)
HOMEM II
(Para Homem I) – Ele gosta... (Tempo) - Duas
surras, uma vida inteira afastada... Será isso gostar?
(Tempo)
– Passar
a maior parte da infância e da adolescência interno, num
colégio que mais parecia uma prisão. Será isso gostar?
MULHER
(Foco) -Graças ao internato você cresceu educado,
sabendo ler e escrever e brevemente vai poder ingressar na
faculdade... (Sai o foco).
HOMEM II
–Era o que dizia meu pai e ela repetia. Tinha alguma razão.
Mas algum carinho, amor por eles, nada disso cresceu comigo.
Só respeito. Respeito ao Mandamento. Respeito imposto pelo
colégio, pelas aulas de religião, pela obrigação religiosa:
respeitar pai e mãe! Não era minha mãe. Não a via assim. Via
a mulher que jogou meu pai contra mim. Meu pai era meu pai.
Respeitava-o. Mesmo com as duas surras, mesmo com a corda e
com o cinturão.
HOMEM I
–Depois daquela primeira vez, depois dela casada, eu é que
visitava a prima Judite. Visitava, não. Levava recado da
minha mãe. Levava encomendas, presentes... Eu mesmo
inventava: “Mãe! Tem tanto mamão amarelando no pé, que se
amadurecer tudo junto, vai se perder!” (Imitando a mãe)
“- Se sua prima Judite aparecer por aqui eu ofereço...
“ “-Quem oferece não está querendo dar. Eu posso, muito
bem, levar e deixar na casa dela, quando eu for para o curso
de francês. Passo perto!”
HOMEM II
– Francês quem dava era dona Auxiliadora. A única mulher que
a gente via dentro do internato. Sempre vinha de saia justa,
abaixo do joelho, blusa e uma espécie de paletó, que sempre
tirava antes de começar a aula e colocava-o no encosto da
cadeira. Era bonitona! Usava meias claras que se perdiam
saia adentro. Às vezes, ao sentar, ficava alguma coisa à
mostra acima dos joelhos. Ela parecia um pouco com a minha
madrasta. Eu ficava imaginando ela sozinha com meu pai,
lembrando do que eu via pelo buraco da fechadura...
HOMEM I
–Francês no meu colégio era com um professor francês... Acho
que ele sabia francês, mas não sabia ensinar. Ou mandava a
gente conjugar verbos ou dizia poesias...
HOMEM II
–No meu internato poesia era com o Padre Rui. Adorava falar
de poesia nas aulas de português! Quando ele começava a aula
dizendo: “Citem um poeta brasileiro!” A turma inteira
respondia: “Augusto dos Anjos!” Mas aí o padre reagia:
“Nunca! Esse é um herege ateu! Poeta brasileiro é Cassimiro
de Abreu, o poeta do amor e da saudade!” Ninguém agüentava
mais as “aurora da minha vida” e chegava-se a um acordo com
Jorge de Lima.
HOMEM I
–Bendito Jorge de Lima! O poeta mais declamado nos saraus
que meu pai realizava na nossa casa...
HOMEM II
–Interessante! Meu pai contava: “Sua mãe gostava muito de
Jorge de Lima. Até declamava algumas poesias dele de cor!”
Acho que foi por isso a minha predileção no colégio. Li
muito a sua poesia. Quase tudo!
HOMEM I
(Declamando) –“Esta estrada de ferro Great Western /
feita de encomenda para o Nordeste / é a mais pitoresca do
Universo, / com suas balduínas sonolentas / e seus carrinhos
de caixa de fósforos marca olho.”
HOMEM II
(Também declama) –“Devo fazer um poema em louvor
dessa estrada / com todos os bemóis da minha alma lírica /
porque ela, na minha inocência de menino, / foi a minha
primeira mestra de paisagem.”
HOMEM I
–“Ah! a paisagem da linha: / uma casinha branca, / uma
cabocla à janela, / um pedaço de mata, / as montanhas, / o
rio. / e as manhãs, / e os crepúsculos, / e o meu trenzinho
romântico indo devagarinho / para que o poeta provinciano /
visse o cair da tarde, / e visse a paisagem passando... “
HOMEM II
–“E à languidez quente da hora, / noivam cães pelas ruas, /
potros perseguem éguas nos campos, / e a mulher proibida,
que não é pura como os animais, / vem à soleira da choupana
/ dá um adeus ao maquinista que ela nunca há de beijar.”
HOMEM I
–Tudo muito real! E a “negra Fulo” ?
HOMEM II
– Essa eu sei toda! O Padre Rui não gostava: dizia ser um
tanto obscena... A turma não perdoava: “O Sinhô foi ver a
negra / levar couro do feitor. / A negra tirou a roupa. / O
Sinhô disse: Fulo! / (A vista se escureceu / que nem a negra
Fulo.)” O Padre Rui gritava: “Essa não entra na minha aula!”
A turma toda repetia: “entra, entra, entra...” (Risos).
HOMEM I
(Pára de rir. Tempo) – A primeira vez ela não me mandou
entrar. Ficamos conversando no portão e após algum tempo ela
percebeu a minha frustração.
MULHER
(Foco. Volta ao primeiro personagem) – Não lhe chamo
para entrar porque eu sei o que você vai querer. Estou com
vontade também! Mas não posso! Ele vai chegar a qualquer
momento! Não! Não está viajando! Eu juro! (Sai o foco).
HOMEM I
– De fato, o marido da prima Judite chegou de repente e
sabendo da razão da minha presença, agradeceu-me pelo
presente, convidou-me para entrar e ainda observou à mulher
a sua falta de educação em deixar-me prostrado no portão da
casa. Agradeci-lhe pelo convite, dizendo da minha falta de
tempo, pois estava passando, ia para o curso... Mandou
recomendações para minha mãe e ainda me ofereceu pastilha de
hortelã! Também me convidou a visitá-los quando eu quisesse!
(Tempo) -Era só o que eu queria!
HOMEM II
–Uma vez ou outra, meu pai mandava-me ir até à nossa casa,
enquanto ficava trabalhando. Sempre para entregar ou buscar
alguma coisa. Uma vez foi um documento importante que ele
havia deixado na escrivaninha do quarto. A minha madrasta
demorava a encontrar e a minha missão exigia pressa. Então
fui até à porta do quarto para saber o que estava
acontecendo...
MULHER
(Foco. Segundo personagem) – Não estou encontrando.
Você sabe como é esse documento? Venha, entre, ajude a
procurar...
HOMEM II
– Pressenti que ela estava mentindo. Mas havia a urgência
declarada pelo meu pai. (Vai até ao foco) – Deixe-me
procurar...
MULHER
(Enquanto o Homem II procura, ela encosta-se nele,
acariciando-lhe; o Homem II reage contra a investida da
madrasta) – Calma! Não vou arrancar pedaço!
HOMEM II
– Meu pai está precisando da certidão...
MULHER
(Mostrando um papel) - Está aqui, comigo! Eu já havia
achado... (Volta a aproximar-se do enteado) – Não
tenha medo. Você vai gostar...
HOMEM II
(Esquivando-se) – Meu pai está esperando...
MULHER
–Só um minuto! Vou lhe entregar. Tome. (Entrega o
documento, mas fica segurando também) – Quero uma
promessa: você não vai mais fugir... (Sai o foco).
HOMEM I
– Depois de levar recados inexistentes, um pacote de
pimentões e espigas de milho verde escondidos da minha mãe,
tive a notícia desejada. A prima Judite foi lá em casa
anunciando:
MULHER
(Foco) - Viajou! Vai passar uns quinze dias fora. Por
isso vim aqui, lhe visitar titia. Aproveitar para não ir à
cozinha hoje! Tem almoço?
HOMEM I
- Foi um resto de dia e uma noite de ansiedade. Dessa vez ia
dar certo! Cheguei lá levando um cesto cheio de frutas e
verduras, capadas do nosso pomar e da nossa horta. Veio
receber-me escancarando o portão. Disfarçando, olhei para um
lado e para o outro e nenhum vizinho à vista, como eu havia
sonhado!
MULHER
– Venha! (Homem I entra no foco) – Está tremendo!
HOMEM I
– Não! Quer dizer: nervoso...
MULHER –
Não precisa. A casa está toda fechada. Se aparecer alguém,
vai pensar que eu saí. Vamos começar por onde?
HOMEM I
– Você manda... (Os dois deitam-se e sai o foco).
HOMEM II
(De volta ao banco) – Era escura a noite e
silenciosa... (Tempo) – Alguém morreu na estranha
madrugada... (Para o Homem I, também de volta ao banco)
– Não sei onde ouvi essas coisas...
HOMEM I
– Não terá sido no passado? No tempo, quero dizer... Ele
guarda tudo! Até que um dia acontece um incêndio geral e
tudo deixa de existir: os nascimentos, as mortes, as
vitórias, as derrotas, as festas, as guerras, a realidade, a
ficção... Tudo! Tudo o que estava nos arquivos, nos filmes,
nas fitas gravadas...
HOMEM II
–A tesouraria do quartel pegou fogo e todos os documentos
viraram cinzas. Até hoje ninguém sabe como foi nem de quanto
foi o “prejuízo” para os cofres públicos. Se na época
houvesse computadores, seria do mesmo jeito.
HOMEM I
–O dono do posto de gasolina foi assassinado. Toda a cidade
sabia por que e por quem. Superfaturamento de combustível
ameaçado de denúncia. Chefes de repartições públicas não
podiam admitir serem acusados. Queimaram o arquivo vivo!
Hoje nada mais pode ser feito: estão todos mortos.
HOMEM II
–Os incendiários do quartel também. Mas por que estamos
falando dessas coisas?
HOMEM I
–Foi o amigo quem começou.
HOMEM II
– De fato. Eu comecei... (Tempo, cantarola) “Lá
detrás daquele morro, tem um pé de manacá. Nós vamos casar,
e vamos pra lá...” (Tempo) -Não! Foi a minha
madrasta! Foi ela! Eu já disse isso. Cada dia que passava,
ela inventava mais... Ficou doente! De mentira! Pediu a meu
pai que me deixasse em casa, pois poderia precisar chamar o
médico ou comprar algum remédio. Meu pai, na sua santa
inocência, acatou o pedido, ainda dizendo: “Estou muito
feliz por vocês dois agora estarem se dando bem.”
MULHER
(Foco. Deitada, gemendo) – Ai, que moleza danada! Dói
o corpo todo... (Tempo) – Ele já foi? Heim? Venha
cá... Ajeite aqui o travesseiro... (Homem II levanta-se e
vai até ao foco) – Ajude, vamos! (Homem II agacha-se
e é puxado pela Mulher, que se atraca com ele, beijando-o.
Sai o foco).
HOMEM I
– Depois daquela vez, não paramos mais. Era o marido viajar
que a prima Judite dava o sinal. Tenho a impressão de que a
minha mãe chegou a desconfiar de tanta irmandade:
(Imitando a prima) –“Primo, passe lá em casa para me
ajudar a arrastar a mesa da cozinha mais para o lado do
armário; primo, passe lá em casa que tem uma torneira
vazando; primo, passe lá em casa que eu vou lhe dar dinheiro
para comprar veneno para as formigas do jardim...” Um dia
disse com a voz baixa para que a minha mãe não ouvisse: -
“Primo, passe lá em casa que eu tenho um presente para
você!” Um presente era uma coisa que eu adorava. Ela sempre
que podia dava. Foi uma camisa, foi uma caneta tinteiro e
até um relógio. Eu escondia tudo para não precisar explicar
aos meus pais... Daquela vez cheguei todo fogoso, fazendo de
conta que não estava ligando para o presente anunciado, mas
na verdade era mais nele que eu pensava: se deu camisa, se
deu uma parker, se deu um relógio, o presente de agora teria
de ser uma coisa melhor ainda! Procurei acariciá-la e ela
interrompeu perguntando: - Não quer primeiro o presente?
Respondi, procurando aparentar não muito interesse, que ela
era quem sabia... Então ela foi curta e grossa: - Seu
presente, meu primo, está aqui na barriga! Estou grávida! E
o filho é seu!
HOMEM II
(Foco. Em pé. Mulher, sentada) – Grávida?! De mim? E
agora? Minha Nossa Senhora, o que vamos dizer? E o pai?
Estamos perdidos!...
MULHER
(Como madrasta) – Nada disso! Ele vai achar que é
dele! Essa semana mesmo ele andou deitando-se comigo e eu
conseguindo fazer com que ele chegasse até ao fim... Eu
estava desconfiada da gravidez, resolvi me prevenir.
HOMEM II
–Então pode ser dele também...
MULHER –Ta
ficando abestalhado, é? Como? Já faz uns quinze dias que eu
estou sabendo. Depois, teu pai é estéril. Há quantos anos
vivemos juntos e eu nunca evitei nada e nunca engravidei. Só
depois que começamos...
HOMEM II –
E eu? Como foi que eu nasci? Como foi que minha mãe
engravidou?
MULHER –
Danou-se! Aí eu não sei... Ele pode ter ficado doente depois
que você nasceu... Sei lá! (Sai o foco).
HOMEM I
–Fiquei abestalhado! Grávida! E agora?
MULHER
(Foco. Como prima) – Não tem problema. Antes de ele
viajar, teve relações comigo. Quando chegar, vai ficar feliz
com a surpresa! Mas já estou pensando no trabalho que vamos
ter... Agora que conseguiu ser pai, vai querer mais outro
filho, mais outro, mais outro, e vai caber a você essa
produção... Você começou, vai ter que terminar! Agora está
provado que quem não podia ter filhos era ele e não eu. Mas
ele não vai desconfiar de nada, pois se acha muito macho
para admitir uma coisa dessas... (Sai o foco).
HOMEM II
(Retorna ao banco durante a fala da Mulher) – E o
amigo continuou?...
HOMEM I
– Eu era tão inexperiente com essas coisas que passei uma
porção de dias sem poder dormir direito. Pensava muito na
possibilidade de o marido da prima Judite descobrir tudo.
Depois, com a barriga dela crescendo, fiquei desajeitado
para trepar com ela, com medo de machucar a criança. Ela
explicava que não ofendia se fizesse com um certo cuidado,
de bandinha, essas coisas. Para o marido, ela recusava
apelando para o risco de um aborto! Ele insistia e tentava
outras vias, no que ela refutava: “Na bunda, não! Isso é
perversão sexual!” (Ambos riem) – Foi por onde nós
começamos! E terminamos, quando a barriga dela já estava
grande demais.
HOMEM II
–Mas o amigo continuou, quero dizer, com a produção?
HOMEM I
– E o jeito? Depois de algum tempo, porque o parto havia
sido meio complicado, e o garoto demorou muito a nascer...
HOMEM II
– Meu pai me contava que o meu nascimento também foi
complicado. A gravidez da minha mãe era difícil. Tão difícil
que ela morreu do segundo parto. Acho que isso justificava o
fato de não ter tido logo filhos com a segunda mulher. Mas a
minha madrasta não era nada disso. Nasceu para parir. Era
chegando a hora, abrindo as pernas e se ouvindo o choro! A
parteira dizia que trabalhar para ela era moleza!
HOMEM I
–Então, vocês tiveram muitos filhos?
HOMEM II
–Muitos! Só gêmeos foram três vezes: Genival e Genildo,
Francisco e Francelino, Cosme e Damião. Foram treze filhos
ao todo.
HOMEM I
–E seu pai pensando que eram todos deles?...
HOMEM II
– Até morrer... Oito! Depois que ele morreu, vieram mais
cinco. Mas aí eu já havia casado com a minha madrasta. Todos
aceitaram bem a situação. Meu filho mais velho dizia que
família era pai, mãe e três filhos. Depois disso virava
mundícia! Nós nos transformamos numa mundícia feliz...
(Tempo) – E o amigo? Quantos filhos mais?
HOMEM I
– Com a prima, nenhum. Meus pais transferiram-se para o Sul
e eu fui com eles.
HOMEM II
–Mas o amigo disse...
HOMEM I –Deixei a prima de barriga cheia. Lá eu soube que
ela havia morrido de eclampsia, no segundo parto. A menina
também não escapou. Foi uma tragédia...
HOMEM II –Quanta coincidência! As nossas histórias se
parecem!
HOMEM I –Lá no Sul eu casei. Quando a mulher engravidou,
fiquei apavorado. Mas a primeira filha nasceu sem problemas.
A segunda também. Aí eu não temi mais... Tivemos mais dois
filhos.
HOMEM II
–Nesse ponto eu avancei mais que o amigo.
HOMEM I
–Também! Estava tudo em família!
HOMEM II
–È verdade. Estava tudo em família e continuou...
HOMEM I
–O amigo teve mais sorte. Meus pais nunca souberam da prima
Judite nem de mim, quero dizer, da nossa intimidade. O
marido dela também. Morreu pensando ser o pai de Western!
HOMEM II
–De quem?!
HOMEM I
–De Western. Era esse o nome do nosso filho. Escolha da
prima querendo agradar ao marido.
HOMEM II
–Esquisito!
HOMEM I
–Também achei. Mas ela dizia que assim contentaria os dois.
Eu, o pai verdadeiro e ele, o marido.
HOMEM II
–Mais esquisito! Por que os dois?
HOMEM I
–Onde estamos agora? Na estação da Great & Western! Venho
sempre aqui esperar o trem, para olhar os passageiros...
Espero o trem do último raio de sol...
HOMEM II
–Continuo achando esquisito... Ou melhor: sem entender
direito. Onde o amigo entra?...
HOMEM I
–Sim! Meu nome é Everaldo, mas a prima Judite, secretamente,
só para nós dois me chamava de Great. É que o marido viajava
muito nos trens... Aí, passou a me chamar de Great, dizendo
que eu parecia uma locomotiva quando estava com ela!
MULHER
(Foco. Como prima) –Quero botar o nome de nosso filho
de Western, em homenagem a você, que viaja tanto de trem. É
um nome tão bonito! (Tempo. Noutra direção) – Vai ser
Western. Ele aceitou. Ficou até agradecido pela minha
lembrança! Agora ficou completo: o pai é Great, o filho é
Western! E eu? Eu sou a estação para onde eles sempre
chegarão! (Sai o foco).
HOMEM I
–Mas não foi assim. Nossos destinos diferentes impediram
que Great e Western continuassem existindo. Eu fui embora,
ela morreu e nunca mais vi o meu filho... (Tempo) –Sentado
neste banco, nesta estação, que era a Great & Western, sonho
com a chegada de um trem que não chega...
HOMEM II
–Que estranho! A semelhança das nossas vidas é incrível!
HOMEM I
–Nem tanto! Todas as vidas, como todas as mortes, não são só
parecidas, são iguais. O que difere são apenas alguns
artifícios impostos pelo tempo. Todo ser, na sua essência,
nasce e morre da mesma forma. Nasceu porque nasceu, morreu
porque morreu... Nascer e morrer são atos imutáveis.
HOMEM II –Somos semelhantes até nos artifícios que o tempo
nos impôs: meu nome é Western, minha mãe era Judite...
HOMEM I
(Tempo. Contempla o Homem II) -Que estranho! Somos
muito semelhantes, não acha?
HOMEM II
–Acho que sim... Ontem sofri um enfarte.
HOMEM I
–Eu também! Quero dizer: já faz tempo. Não sei quanto, não
lembro.
HOMEM II
– São nossas semelhanças!
HOMEM I
–São. Podem ser... Mas você está tão velho!
HOMEM II
–Setenta e sete anos.
HOMEM I
–Mais coincidência: essa foi a minha última idade, quase há
vinte anos!
HOMEM
II (Homem/1 baixa a cabeça. Durante algum tempo os dois
permanecem calados) - Algum problema?
HOMEM I
– É... Não! Bem, eu estava pensando: treze filhos! Existem
treze homens que pensam em você! A vida não me deu a
oportunidade...
HOMEM II
– A maior parte também já não existe. Algumas tragédias
foram roubando meus filhos, um a um, impiedosamente,
fazendo-me passar enormes provações. A última foi há pouco
te |