Fernando Vasconcelos
O computador e o AVC
Pessoas mal informadas criticam, por vezes, o
computador e a Internet, alardeando seus malefícios.
Entretanto, separando o joio do trigo (como diz a Bíblia),
pode-se encontrar nessa área da tecnologia da informação,
inúmeros benefícios. É o que está acontecendo no Rio de
Janeiro, onde jogos eletrônicos ajudam vítimas de AVC.
Tratamento auxilia pacientes com seqüelas de derrames a
ativar funções de concentração, memória e coordenação
motora.
Pacientes com graves seqüelas de lesões cerebrais provocadas
por AVC (acidente vascular cerebral) ou traumas têm
reaprendido a realizar tarefas do cotidiano, e até retornar
ao mercado de trabalho, por meio de um tratamento que
envolve jogos de computador. A aparente brincadeira é
utilizada para estimular as funções de concentração,
atenção, memória e coordenação motora, que ficam
comprometidas com a lesão cerebral.
Em razão da plasticidade neural - a capacidade do cérebro de
fazer novas redes para suprir as áreas lesionadas - o treino
em computador permite que o paciente reaprenda a realizar
atividades diárias. De acordo com informações tiradas dos
sites da UFRJ e do Hospital Universitário Clementino Fraga
Filho, o hospital do Fundão, ligado à UFRJ (Universidade
Federal do Rio de Janeiro), o tratamento é considerado uma
inovação em reabilitação, já tendo sido apresentado em
congressos internacionais.
Segundo médicos envolvidos com o Projeto, foram criados
softwares que simulam cenas cotidianas. Em um dos jogos, por
exemplo, o paciente está em uma casa e deve buscar por
objetos, cômodos e fazer a higiene pessoal. Outra proposta é
o supermercado, que permite a memorização, localização de
produtos e realização de cálculos para concretizar a compra.
Atualmente, cerca de cem pacientes recebem o tratamento no
hospital -outros 50 aguardam na fila de espera. O tratamento
é realizado em sessões semanais de 40 minutos.
Antes de se submeter à terapia, os pacientes realizam exames
psicológicos, verificando-se se houve seqüela de uma doença
neurodegenerativa e analisando-se quais funções das
atividades diárias foram mais afetadas. A atividade é
planejada levando em conta a gravidade do caso e o
impedimento do paciente. Casos de doenças neurodegenerativas,
como demências e mal de Alzheimer, por exemplo, não têm
indicação para a terapia.
O tratamento começa com um jogo em 2D (duas dimensões). Logo
após, o paciente evolui para atuação em ambientes virtuais.
A média de duração do tratamento é de um ano e meio. "É
trabalhoso, mas vale a pena. Os resultados são
impressionantes", dizem os médicos. Segundo alguns deles,
todos os pacientes tratados até agora tiveram algum grau de
melhora. Dois deles voltaram a trabalhar. É o caso da
coordenadora pedagógica Selma Conceição, 60, dois filhos e
três netos. Em outubro de 2006, sofreu um AVC. "Não
conseguia falar nem o meu nome. Não sabia onde morava nem
com que trabalhava. Foi muito triste", lembra. Com a
terapia, ela conta que começou a "reaprender a viver". "As
coisas foram voltando. Aprendi a multiplicar de novo”.Ano
passado, ela voltou a coordenar uma equipe de 38 professores
na escola onde trabalhava. "Faltam ainda algumas coisas, mas
estou no caminho”.
Assim, se bem utilizados, o computador e a Internet podem
trazer inúmeros benefícios nas áreas da saúde e da educação
e, não se pode esconder, até na área da segurança pública.
(06-09-2008)
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Fernando Vasconcelos - Jornalista e professor
universitário.
É escritor, autor do livro de crônicas VÍCIOS E MEDOS MODERNOS.
ferval@terra.com.br
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