OS HERDEIROS

Teatro - 1999 - Elpídio Navarro                          

Personagens:

ONOFRE

PEDRO

ZÉ LUIZ

Peça teatral inspirada no conto

“O Tesouro”, de

Eça de Queiroz.

 

                                      PRIMEIRA PARTE

 Primeira Cena

 

(Fachada da “casa grande” de uma fazenda no cariri nordestino. Através de uma janela aberta, vêem-se velas acesas. Varanda, bancos e uma cadeira de balanço. Em cena os três irmãos: Zé Luiz, Pedro e Onofre).

 

PEDRO – (Em pé, encostado na varanda) - Ninguém!...

 

ZÉ LUIZ – ( Sentado no banco) – Com essa seca... O povo tá é atrás de água!

 

PEDRO -  Nos barreiros... Água de lama!

 

ZÉ LUIZ – Melhor do que nada!

 

PEDRO – O pai nunca que deixou faltar água prá gente. Da boa!...

 

ZÉ LUIZ – Comprava toda semana. Toda semana o caminhão chegava.

 

PEDRO – Nunca deixou com sede qualquer pessoa que passasse por aqui. Tinha gente que vinha buscar até de lata!

 

ZÉ LUIZ – Essa semana mesmo! Na cama, doente, mas mandava ajudar a quem procurasse ajuda. E agora está aí, sozinho... Nem prá pedir água aparece um vivente! (Tempo) - Também  podem estar caçando  “arribaçã”. De manhã cedo é mais fácil.

 

PEDRO – Matando as bichinhas! Eu tenho pena...

 

ZÉ LUIZ - Fazer o que? A fome aperta... Nem preá existe mais! Criação a seca acabou com tudo. Feijão e milho nem se fala. O jeito é comer o que existe. Nessas horas  seja lá o que Deus quiser! Matar prá não morrer...

 

PEDRO -  Morrer de fome, morrer de morte mesmo, tanto faz! Morre todo mundo. Ninguém fica prá semente... Ninguém serve de muda... Se servisse era só cortar uma perna do pai e plantar, que nascia outro pai...

 

ONOFRE - (Sentado na cadeira de balanço, comenta, com desdém) - Quanta maluquice!

 

PEDRO - (Vai responder a Onofre, mas desiste. Dirige-se somente para Zé Luiz) - Mas será que não vem ninguém? Nessas horas é que gente sabe quem é amigo!

 

ZÉ LUIZ – É isso que eu digo.

 

ONOFRE – (Ríspido) - Diz coisa nenhuma! Por que não param com essa besteira? Amigo? Que amigo? Nosso pai nunca conseguiu fazer um amigo. Não fosse a velha Cotinha, nem vela acesa ele iria ter! Nem dos filhos! Da gente, que também não era amigo dele...

 

PEDRO – Ele ajudava, ele dava as coisas.

 

ONOFRE – Dava porque sentia prazer em ver as pessoas se curvando. Ele se achava poderoso. Todo mundo dependendo dele. É!... Mas contra ela ninguém é superior. Todo mundo é uma bosta só.  A dona da foice quando chega, a pessoa foi-se! Pode ser rico, pobre, preto, branco, bom ou ruim como o pai. É derrotado da mesma maneira.

 

ZÉ LUIZ – Mas...

 

ONOFRE – Que mas que nada! O que vocês precisam é pensar na vida porque na morte ninguém dá mais jeito não.

 

ZÉ LUIZ – Mas era o pai...

 

ONOFRE – E daí? Morreu, acabou. Não manda mais em nada.

 

PEDRO – E você sentou nessa cadeira, que era dele, porque acha que vai mandar na gente, é? Pois está muito enganado!

 

ONOFRE – Eu não quero mandar em nada, seu leso! Sentei por sentar. Depois, sou o mais velho, não é? Tenho lá as minhas vantagens.

 

ZÉ LUIZ – O pai sempre dizia que tudo aqui era dos três, tudo igual.

 

PEDRO – Dizia mesmo. Cansei de ouvir ele falar: (imitando o pai)  “um abestalhado, um preguiçoso e um metido a bosta, que também não bate um prego numa barra de sabão. E eu vou deixar tudo o que tenho, todas essas minhas terras e o que nelas existe,  para esses três parasitas que nada fizeram para merecê-las. Só sendo castigo!”

 

ONOFRE – Castigo é o meu! Um pai miserável e dois irmãos da qualidade de vocês. É castigo e dos grandes!

 

ZÉ LUIZ – Castigo só vem para quem merece ser castigado.

 

ONOFRE – Cala essa boca Zé Luiz, não diz besteira. O leso daqui é o Pedro.

 

PEDRO – Eu não sou leso!

 

ONOFRE – (Tempo) - Estou aqui matutando: como vamos viver agora? Como vamos comer? Não temos dinheiro nem para comprar um caixão para o desgraçado. Nem para comprar cachaça!

 

PEDRO – Eu não bebo!

 

ONOFRE – Se bebesse, vá  ver não era do jeito que é.

 

ZÉ LUIZ – A velha Cotinha disse que só tem um resto de farinha e umas duas rapaduras. Desde que o pai arriou que não fez mais feira.

 

PEDRO – Ele me levava prá feira!

 

ONOFRE – Para não pagar carregador. Agora diga se não era você quem carregava as compras?

 

PEDRO – Era... Mas eu gostava. Tomava caldo de cana...

 

ONOFRE – Porque ele tomava também.

 

PEDRO – Ouvia os cantadores...

 

ONOFRE – Quem ouvia era ele. Você estava junto.

 

ZÉ LUIZ – (Cortando) – E agora , Onofre? O que vamos fazer sem dinheiro? O enterro...

 

ONOFRE – O enterro não interessa, o prefeito que cuide. Mandei avisar logo cedo. O pai não era eleitor do prefeito? Não obrigava a gente a votar no prefeito? Não dava dinheiro para a eleição? O que me preocupa é o nosso sustento. Com a mina fechada, essa seca danada, o gado acabado e nem um pé de planta, ficamos sem nada. Só essas terras imprestáveis que ninguém vai querer comprar. Não temos dinheiro nem para o carro pipa. Ele vai passar e a gente vai ficar sem água de beber. E para a próxima feira, muito menos.

 

PEDRO – Pai toda vez que ia prá feira levava um montão de dinheiro. De dez, de cinqüenta, de toda qualidade. E ainda voltava com muito!

 

ZÉ LUIZ – É isso, Onofre! Deve ter dinheiro escondido por aí. Vamos procurar!...

 

ONOFRE – Já fiz isso. Não adiantou nada.

 

ZÉ LUIZ – Como? Quando?

 

ONOFRE – Hoje cedo. Logo que o pai bateu as botas. Vocês estavam dormindo. Revirei tudo! Não achei nada! Nem um centavo. Não teve lugar nessa casa que eu não procurasse.

 

PEDRO – Se tivesse achado ficava com tudo... (Onofre encara Pedro).

 

ZÉ LUIZ – Mas Pedro deve saber. Ia prá feira com ele. Vamos, Pedro. Diga. Onde o pai ia pegar o dinheiro?

 

PEDRO – Sei lá! Eu nunca via. Quando ele me chamava já estava de saída.. Quando chegava mandava eu arrumar as compras e desaparecia.

 

ZÉ LUIZ – É um leso mesmo!

PEDRO – E vocês? Quando a gente chegava você estava roncando  e esse outro aí, (Indica Onofre) só queria saber da cachaça que a gente trazia.

 

ONOFRE – Não adianta essa discussão agora. O que passou, passou. (Tempo) Mas uma coisa é certa: o pai deixou dinheiro escondido, deixou e muito! Isso é certo. Até o dia que deixaram de descer naquela mina, o pai vendeu um bocado daquelas pedrinhas. Elas tinha muito valor. É preço de ouro! Uma vez eu ouvi aquele comprador que vinha aqui, dizendo ao pai que aquelas pedras iam todas para o estrangeiro!

 

ZÉ LUIZ – Olhe aí. Se iam para o estrangeiro era porque valiam muito. Deve haver dinheiro guardado em alguma lugar.

 

PEDRO – Dentro do baú pequeno...

 

ZÉ LUIZ –  Só se for! Baú?! Nunca vi...

 

ONOFRE – Que baú é esse, seu abestalhado? Que conversa de doido é essa?

 

PEDRO – Doido, é? Abestalhado? Pois não digo nada não!

 

ZÉ LUIZ – Deixa de besteira, Pedro! Toda vida a gente te chamou de abestalhado. Até o pai!

 

PEDRO – Mas doido, não!

 

ONOFRE – Foi sem querer...

 

ZÉ LUIZ – Vamos, Pedro. Que história de baú pequeno é essa?

 

PEDRO – (Tempo. Sentindo-se importante) – Foi na feira. No ferreiro. Mandou fazer  lá. Todo de ferro. Pesado! Eu que o diga.

 

ONOFRE – E onde ele botou esse baú?

 

PEDRO –  Mandou botar três travas e em cada uma um cadeado.

 

ZÉ LUIZ – Três?!

 

ONOFRE – (Interrogando-se) – Por que três?!

 

PEDRO – O ferreiro também ficou espantado. Mas o pai falou: tenho três filhos. Quando eu sentir que estou perto de morrer, vou entregar uma chave a cada um. Assim, um vai ficar dependendo do outro...

ONOFRE – E o desgraçado morre de repente! E as chaves?

 

ZÉ LUIZ – Então deve ter dinheiro dentro desse baú.

 

ONOFRE – Claro, Zé Luiz! Se não prá que ele havia de  querer esse baú?

 

ZÉ LUIZ – Então vamos procurar o ferreiro. O baú deve estar guardado por lá!

 

ONOFRE – Não vai precisar nem das chaves. O ferreiro arromba...

 

PEDRO – Nem pensem nisso. O baú não está lá!

 

ONOFRE – O que? Como você sabe?

 

ZÉ LUIZ – E onde está?

 

PEDRO – Não sei...

 

ONOFRE – Como não sabe? Você não disse?...

 

PEDRO – Não está porque ele veio prá cá!

 

ZÉ LUIZ – Prá cá? Onde? Onde o pai?...

 

PEDRO – Não sei! O pai botou em cima do carroção e trouxe. Eu ajudei. O bichinho era bem pesado!

 

ONOFRE – E daí? E quando chegou aqui?

 

PEDRO – Não sei! O pai mandou que descarregasse a feira e fosse arrumar. Depois saiu pros lados da serra levando o baú e aquele bornal de caça... Nem levou a espingarda! Eu até me ofereci para ir também, mas ele disse que era para eu ficar. Queria ir sozinho. Daqui eu só ouvia o ronco daquele trator velho subindo a serra. Até desaparecer. O trator e o ronco.

 

ONOFRE – Então foi assim que o motor do trator bateu. Agora é só ferro velho...

 

ZÉ LUIZ – Isso não interessa! Então era no bornal?! Antes, guardava tudo no bornal de caça! E a  gente nem desconfiava! (Tempo)  Temos que ir procurar esse maldito baú. Vasculhar essa fazenda toda. Deve estar escondido numa gruta ou num buraco na pedra.

 

ONOFRE – Pode também ter sido enterrado.

 

ZÉ LUIZ – Não. Isso não. O pai não ia ficar desenterrando e enterrando baú toda vez que precisasse tirar ou botar dinheiro. Deve estar escondido.

 

ONOFRE – Você tem razão!

 

ZÉ LUIZ – Então vamos logo! Não podemos perder tempo.

 

ONOFRE – Antes as chaves. Precisamos das chaves. Deve estar em algum lugar da casa. Vamos dar uma busca. (Sai para o interior da casa).

 

ZÉ LUIZ – Vamos! Venha também, Pedro. A casa é muito grande. (Acompanha Onofre).

 

PEDRO – (Falando para si e permanecendo em cena) – Dou um doce a quem achar! (Ri. Sai a luz.. Fim da Primeira Cena).

 

 

 

 

 PARTE I

 Segunda Cena

 

(Mesmo cenário. Em cena, desolados,  Onofre e Zé Luiz.  Tranqüilamente,  balançando-se na cadeira, Pedro cantarola: “Só deixo o meu cariri, no último pau de arara...”) .

 

ZÉ LUIZ – Que trabalheira danada! Não estava em canto nenhum.

 

ONOFRE – A velha Cotinha disse nunca ter botado os olhos em cima dessas chaves.

 

ZÉ LUIZ – Sempre foi cega!

 

ONOFRE – E esse abestalhado aí nem prá ajudar serve! Mas não tem nada não. A gente acha o baú e arrebenta os cadeados! É besteira! Uma alavanca e pronto! Tudo resolvido.

 

PEDRO – (Balbuciando)  Pode não...

 

ONOFRE – O que? Você falou o que?

 

ZÉ LUIZ – Você falou que não podia?

 

PEDRO – Foi, pronto! Falei! Não pode, pronto!

ZÉ LUIZ – Não pode por que? Hein? Hein? (Insistente)

 

PEDRO – Eu digo! (Tempo)  O pai queria botar era fechadura. O ferreiro foi quem inventou: três cadeados por dentro da tampa do baú. Ele fez três buraquinhos. Só aparece o lugar de botar a chave. O pai experimentou mais de uma vez: quando abre os três cadeados, a trava cai, aí pode abrir a tampa. Foi um tempão prá fazer isso! Tudo de ferro. Tudo soldado. 

 

ONOFRE – Isso é o que vamos ver! Quando a gente achar esse desgraçado desse baú, quero ver se não arrombo ele!

 

PEDRO – (Rindo) – Nunca!... Só no fogo! Mas aí...

 

ONOFRE – Compro um maçarico! Meto fogo!

 

PEDRO - ... pode queimar o dinheiro!

 

ZÉ LUIZ – Besteira! (Para Onofre) – E onde vai arranjar dinheiro para comprar um maçarico? Tem outros jeitos... O mais importante é achar logo o baú e trazer prá cá. Como abrir, se resolve depois.

 

PEDRO – Abre com as chaves...

 

ZÉ LUIZ – Claro, abestalhado! Agora, onde estão as chaves? Você sabe, hein sabidinho?

 

PEDRO – (Com desdém)  - Até que sei...

 

ONOFRE – O que!? Que palhaçada é essa, seu leso?

 

ZÉ LUIZ – Ah! Por isso não foi procurar com a gente! Você sabia onde estava!

 

PEDRO – Sabia, pronto! Sabia.

 

ONOFRE – E escondeu da gente?

 

PEDRO – Eu não escondi nada. Foi o pai quem escondeu.

 

ZÉ LUIZ – E por que não disse logo que sabia?

 

PEDRO – Vocês não perguntaram!

 

ONOFRE – Queria ficar com tudo, não era? Queria era botar a gente prá traz! Era isso. Queria ficar com tudo.

 

PEDRO – Prá que? Não preciso. Eu trabalho. Todo sábado vou prá feira. Lá não falta o que fazer. Sempre dá um dinheirinho. Eu ganhava quando ia com o pai... Depois, se eu quisesse não tinha dito que sabia onde as chaves estavam. Depois, também, ninguém sabe o que tem dentro daquele baú. Pode ser até nada...

 

ZÉ LUIZ – Mas eu quero saber. Vamos, diga logo!

 

PEDRO – Tá lá com o pai...

 

ONOFRE – Onde?!

 

PEDRO – Com o pai!

 

ZÉ LUIZ – Onde? No bolso da calça?

 

PEDRO – Nada! Pior!...

 

ONOFRE – Vamos, Pedro. Fala logo de uma vez.

 

PEDRO – (Com um gesto um tanto confuso) – Lá!... Eu vi. Um dia, quando a gente voltava da feira, eu vi. Com esse dois olhos que a terra...

 

ZÉ LUIZ – (Cortando) – Fala de uma vez, homem! Deixa de arrodeio!

 

PEDRO – Ele parou o trator e desceu prá mijar na beira da estrada. Eu estava no carroção. Quando ele abriu a braguilha eu vi aquele negócio brilhando na luz do sol. Apurei a vista, e quando ele balançou a pica, aí deu prá ver as três chaves também balançando. Estavam amarradas no botão da cueca. Só podia ser!

 

ZÉ LUIZ – (Para Onofre) - E agora? Quem vai lá ver se a história desse leso é verdadeira?

 

ONOFRE – Nem olhe prá mim, que eu não vou! Eu vou lá abrir a braguilha do defunto com a velha Cotinha junto? Vai ser um escândalo! Vá você!

 

ZÉ LUIZ – Tá doido?! A gente não tinha intimidade quando ele era vivo, quanto mais agora!

 

ONOFRE – Então que vá o abestalhado, que era o filhinho querido dele!

 

ZÉ LUIZ – É, Pedro. Vai você! Você não é quem sabe direito onde estão as chaves? Então você vai buscar!

 

PEDRO – Tudo sou eu!... (Tempo) – O que é que eu ganho com isso? O que vocês vão me dar?

 

ONOFRE – Dar, como? Ninguém tem nada ainda?

 

PEDRO – Tem, sim: o jumento fica só prá mim.

 

ZÉ LUIZ – (Olhando para Onofre) – Por mim, tudo bem... Eu não vou mesmo precisar dele prá nada!

 

ONOFRE – Está certo. O jumento é todo seu.

 

PEDRO – E o radiozinho de pilha também!

 

ZÉ LUIZ – Assim você já está abusando!

 

PEDRO – Vocês resolvam. Então vão buscar as chaves!

 

ONOFRE – (Diante do impasse) – Está bem. Você fica com a bosta daquele rádio também! Agora vá!

 

PEDRO – Vou! (Sai, demonstrando satisfação).

 

ONOFRE – Esse desgraçado não é tão abestalhado como a gente pensava não!

 

ZÉ LUIZ – É... Tá sabido demais prá meu gosto! Ganancioso! Vai dar trabalho quando for repartir tudo. Escute o que eu estou dizendo.

 

ONOFRE – Ele que não se meta a besta. Não pense que por ser irmão eu vou me sujeitar...

 

ZÉ LUIZ – Nem eu também! Não aceito sacanagem nem dele nem de ninguém.

 

ONOFRE – (Tempo) - Esse ninguém , por acaso, é comigo?

 

ZÉ LUIZ – Não. Não quis dizer com você não. Mas vale também prá você!

 

ONOFRE – E eu já fiz alguma sacanagem com  você?

 

ZÉ LUIZ – Não. E eu não disse isso.

 

ONOFRE – Mas pensou!

 

ZÉ LUIZ – Eu não pensei em nada. E sabe de uma coisa? Parece que você está querendo criar encrenca! Por que isso agora?

 

ONOFRE – Encrenca tá querendo você...

 

PEDRO – (Entrando) – Já estão brigando?!

 

ONOFRE – (Tempo) – E as chaves? Achou?

 

PEDRO – Estão aqui! (Mostra duas chaves amarradas num cordão).

 

ZÉ LUIZ – Não eram três?!

 

PEDRO – Eram. Mas uma não era minha? Já está guardada. No pé do cipó como fazia o pai! (Entrega um chave a cada irmão).

 

ONOFRE – Você de leso não tem é nada!

 

ZÉ LUIZ – E a velha Cotinha?  Viu você mexendo no defunto?

 

PEDRO – Que nada! Pedi prá botar água no fogo. Fazer um café. Ainda tem um resto de pó.

 

ONOFRE – De burro também não!

 

PEDRO – (Debochado) – Obrigado!

 

ZÉ LUIZ – Mas vamos cuidar de achar logo esse baú. Quanto mais cedo melhor!

 

ONOFRE – Isso! Vamos lá!

 

PEDRO – Menos eu.

 

ONOFRE – O que?!

 

ZÉ LUIZ – Você não vai procurar?

 

PEDRO – Agora, não! Só depois do enterro.

 

ZÉ LUIZ – Mas isso não tá certo! Não se sabe nem a hora desse enterro ainda!

 

PEDRO – Não vou deixar o pai sozinho.

 

ZÉ LUIZ – Mas a velha Cotinha não está?...

PEDRO – Fazendo o café.

 

ZÉ LUIZ – Então, depois do café...

 

PEDRO – Só vou depois do enterro.

 

ONOFRE – (Desconfiado) – Você não está escondendo alguma coisa da gente não, não é? Sabe o que está parecendo? Que você sabe onde está o baú e não quer dizer. Olhe...

 

PEDRO – (Cortando) – Agora o leso é você, viu? E eu não sabia onde estavam as chaves? Precisava dizer a vocês, precisava? E também não fui eu quem contou a história do baú? Precisava contar a vocês, precisava?

 

ZÉ LUIZ – (Cordato) – É, Onofre, ele tem razão! Não fosse ele a gente não sabia de nada, não tinha nada!

 

ONOFRE – Mesmo assim...

 

PEDRO – Vocês vão na frente. Eu fico com o pai, fico aguardando o café que a velha Cotinha está fazendo. Vocês vão na frente. Cada um não está com a sua chave? Se acharem logo o baú, vem alguém me buscar...

 

ONOFRE – (Entreolha-se com Zé Luiz) – Nesse caso, eu vou esperar o café.

 

ZÉ LUIZ – E eu também!

 

PEDRO – Eu vou esperar até o pai ser enterrado... (Começa a cantar baixinho, como se fosse prá si mesmo) “Só deixo o meu Carirí, no último pau de arara...”  (Tempo. A luz sai em resistência. As velas que aparecem acesas através da janela, são apagadas.. Fim da Parte I).

 

 

 

 

 

PARTE II

Primeira Cena

(Campo aberto. Pedras e arbustos. Manhã clara, Sol a pino. Os irmãos, sentados nas pedras, descansam da busca ao baú, até ali inútil).

 

ONOFRE – (Para Pedro) – A culpa é sua! O enterro só saiu à noitinha. Perdemos o dia todo de ontem!

 

PEDRO – E a noite também...

 

ONOFRE – E quem danado vinha procurar no escuro? De dia não estamos encontrando, avalie de noite!

 

ZÉ LUIZ – E ainda se podia pisar numa cobra.

 

PEDRO – Que cobra? Nunca mais se matou uma cobra por aqui!

 

ZÉ LUIZ – Pior! Se nunca mais se matou, deve ter muitas!

 

PEDRO – Vocês estavam era com medo!

 

ONOFRE – Claro! Faz medo. Uma mordida de cobra pode matar!

 

PEDRO – Não estou falando de cobra não! Estou falando da alma do pai!

 

ZÉ LUIZ – Que alma? Que alma que nada! Que besteira! E o que o pai ia fazer penando por aqui? A gente não está fazendo nada contra ele. O baú não era prá gente mesmo?

 

ONOFRE – (Para Pedro) -  Quando penso que você está melhorando... Tem jeito não! É abestalhado mesmo! Que alma, rapaz? Alma não existe. E se existisse não podia ser a do pai! O pai não teve nem tempo ainda de pagar os pecados dele lá por cima, já ia estar assombrando alguém aqui em baixo? Medo, eu tenho é de gente viva! Vivo é quem faz mal!

 

PEDRO – Ele está perto, o pai! Eu sinto! O melhor é voltar para a busca.

 

ZÉ LUIZ – Vamos descansar mais um pouco. Desde cedinho que a gente está nessa luta! Vamos deixar o sol esfriar um pouco.

 

ONOFRE – É melhor mesmo. Vamos esfriar a cabeça que a gente pensa melhor.

 

ZÉ LUIZ – É o certo. Vamos botar a cabeça para pensar direito. De acordo com a história de Pedro, o pai trouxe o baú prá cá no carroção, puxado pelo trator.

 

PEDRO – E foi assim mesmo.

 

ONOFRE – Isso a gente já sabe. Até as marcas das rodas do trator a gente encontra na subida.

 

ZÉ LUIZ – Então? Pedro não disse que, lá de baixo, viu desaparecer o trator?  O que a gente tem que fazer,  é ir para o lugar do caminho de onde não se avista mais a casa lá em baixo. É de lá que deve se começar a busca. A gente perdeu muito tempo rodando por ai, feito barata tonta. O baú só pode estar perto do caminho. O velho, sozinho, não ia poder arrastar o baú prá muito longe.

 

PEDRO – Então vamos logo prá lá.

 

ZÉ LUIZ – Calma! Tem tempo. Deixe o sol baixar mais um pouco.

 

PEDRO – E se ficar de noite?

 

ZÉ LUIZ – A gente volta amanhã.

 

ONOFRE – (Tempo. Os três demonstram bastante cansaço) - Pedro. Quando a gente achar o baú, o que você vai fazer com a sua parte do dinheiro?

 

PEDRO – Ainda não sei direito tudo o que vou fazer. Acho que vou mandar furar um poço prá ter água prá plantar uma roça. Acho que vou comprar um bocado de criação. Fazer um chiqueiro prá porco. Um bocado de coisa mais... Hum! Vou também mandar caiar a casa.

 

ONOFRE – E você, Zé Luiz?

 

ZÉ LUIZ – Primeiro quero achar o baú! Não adianta ficar pensando no dinheiro sem ter encontrado ainda.

 

PEDRO – Mas vamos achar! Eu tenho certeza. E você Onofre? Que vai fazer com o seu?

 

ONOFRE – Vou embora daqui prá nunca mais voltar. Vou para o Rio de Janeiro. Pego o ônibus amanhã mesmo! Vou viver na boa, no Rio...

 

PEDRO – E o dinheiro será que dá prá isso? E quando acabar?

 

ZÉ LUIZ – Por que? Você sabe quanto tem lá?

 

PEDRO – Eu não sei de nada!

 

ZÉ LUIZ – Então pare de dizer besteira! Sente aí e fique quieto!

 

PEDRO – Não sei ficar parado não. Vou dar uma voltinha aqui por perto. Quando vocês resolverem sair, chamem que eu volto. Vou ver se encontro algum buraco de peba. (Sai de cena, cantando) – “Só deixo o meu Carirí, no último pau de arara...”.

 

ZÉ LUIZ –  (Gritando) - Não vá prá longe!

 

ONOFRE – Estou achando Pedro meio estranho. Parece que ele não está preocupado com nada! A gente procurando o baú e ele atrás de buraco de peba! Essa  história não está muito certa não!

 

ZÉ LUIZ – Você está desconfiado de alguma coisa?

 

ONOFRE – Acho que ele sabe mais do que o que já contou prá gente.

 

ZÉ LUIZ – O que? O que você acha que ele não contou?

 

ONOFRE – Tenho prá mim que ele sabe onde encontrar o baú.

 

ZÉ LUIZ – Ora!...  E por que não já mostrou prá gente?

 

ONOFRE – Sei lá!

 

ZÉ LUIZ – Ele contou tudo, entregou as chaves, por que agora?... Não. Não acredito que ele saiba.

 

ONOFRE – Zé Luiz!... Pense bem! O Pedro passou quinau na gente! Com aquele jeitão de leso, ele sabia era de tudo! A gente sempre foi  sacana com ele. Gozava com a cara dele, sempre falava mal dele e mesmo assim ele deu uma de bonzinho com a gente! Isso não tá certo! Tem alguma coisa errada! Você agüentava calado tudo o que a gente já fez com ele? Agüentava?  Que santo é ele? Não! Nem um santo, Frei Damião que fosse, ia ficar do lado da gente depois de tudo que ele passou.

 

ZÉ LUIZ – É... Pensando bem.

 

ONOFRE – Tudo tá muito esquisito! Nessa história tem alguma coisa que a gente não sabe.

 

ZÉ LUIZ – É bem factível...

 

ONOFRE – Eu tenho é certeza! Só não sei qual é a armadilha dele. Mas que ele está armando uma contra a gente, tá!

 

ZÉ LUIZ – Sendo assim, a gente precisa ter mais cuidado com ele. (Tempo)  Só não atino para o que pode ser! Contou tudo, entregou as chaves...

 

0NOFRE – Só se ele estiver esperando o momento certo?

 

ZÉ LUIZ – Que momento? Não vejo o que ele pode fazer. Somos dois.

 

ONOFRE – Depois de achar o baú. Quando a gente voltar prá casa... Tem a velha Cotinha! Você sabe que ela não gosta muito da gente. Gosta mais dele. Pode ajudar em alguma traição, não pode?

 

ZÉ LUIZ – Poder, pode! Agora, como? Como? Por falar nisso, será a comida? Será que estão pensando em envenenar a gente?

 

ONOFRE – Ora!... Se eu soubesse não estava aqui matutando! (Ouve-se a voz de Pedro, cantarolando “Só deixo o meu Carirí...”)  Já está de volta. Precisamos pensar em alguma coisa...

 

PEDRO – (Entra cantarolando) - ... no último pau de arara...” (Senta numa pedra. Onofre e Zé Luiz permanecem calados) – Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

 

ONOFRE – Por que? Era prá ter acontecido?

 

PEDRO – Sei lá! Todo mundo calado!

 

ZÉ LUIZ – Essa sua cantoria não sai disso?

 

PEDRO – Não sei o resto! Mas sei outra: aquela do peba na pimenta...

 

ONOFRE – Por falar nisso, achou o que estava procurando?

 

PEDRO – Achei.

 

ZÉ LUIZ – Pelo menos temos o que comer hoje! É grande ou pequeno?

 

PEDRO – Do tamanho que sempre foi! Nem grande nem pequeno demais. Mas vou precisar da ajuda de vocês dois. Não pude arrastar ele sozinho...

 

ZÉ LUIZ - Que danado de peba é esse?!

 

ONOFRE – De que diabo você está falando, Pedro?

 

PEDRO – Do baú do pai! (Black-out. Fim da cena).

 

 

PARTE II

Segunda Cena

(Mesmo ambiente, com o baú em cena. Preparam-se para abri-lo).

 

ZÉ LUIZ – Que bicho pesado danado! Quase que a gente não arrastava prá cá!

 

PEDRO – E só veio porque foi descendo ladeira! Vamos abrir logo!

 

ONOFRE – Cada um acha onde cabe a chave...

 

PEDRO – (Introduzindo a chave num dos cadeados) – Da minha eu já achei.

 

ONOFRE – (Trocando olhares de desconfiança com Zé Luiz)  - O lugar da minha não é este (Mudando), é este aqui... Então o seu, Zé Luiz, só pode ser o outro! (Com as três chaves introduzidas, abrem os cadeados. Ouve-se um estalo metálico. Tempo. Levantam a tampa do baú. Grito de espanto dos três. Tempo).

 

ZÉ LUIZ – (Já refeito e indignado) – O que é isso?! Tá cheio de pedra!

 

PEDRO – Tem um pouco de dinheiro aqui... (Retira algumas cédulas).

 

ONOFRE – (Arrebatando as cédulas da mão de Pedro) –Entrega isso!

 

ZÉ LUIZ – Esperem! Essas pedras... São aquelas pedras! O baú tá cheio delas!

 

ONOFRE – (Pegando uma das pedras) – É turmalina! Estamos ricos!

 

PEDRO – Ricos de pedras... Precisa vender primeiro.

 

ONOFRE – Como a gente vai levar esse baú prá casa? É pesado demais!

 

PEDRO – O trator não tem mais. Nem a corroça sobe até aqui...

 

ZÉ LUIZ – Não leva o baú. Cada um leva a sua parte das pedras.

 

PEDRO – Como?

 

ZÉ LUIZ – Como? Ora, levando. Num saco... Cada um arranja seu jeito!

 

PEDRO – Não tem saco por aqui!

 

ONOFRE – Espera, gente! Tive uma idéia: com esse dinheiro se compra três bolsas de couro. A gente divide as pedras e cada um levas as suas...  É só ir comprar. Quem vai? Olhe aqui o dinheiro.

ZÉ LUIZ – Eu não vou! A cidade é muito longe. Eu não agüento!

 

ONOFRE – Então vai você, Pedro!

 

PEDRO – Eu? Por que eu? Por que não vai você?

 

ONOFRE – Pelo mesmo motivo de Zé Luiz: é longe e eu não agüento.

 

PEDRO – E eu vou agüentar?

 

ONOFRE – Vai. Você é quem tem montaria! Esqueceu que agora é dono do jumento? Então vá! Tome o dinheiro. Monte no jumento e vá comprar as bolsas.

 

ZÉ LUIZ – E ainda pode ir ouvindo o rádio de pilha pelo caminho...

 

PEDRO – Sou burro não! Vocês ficam sozinhos com essas pedras todas, quando eu voltar não tem mais nada!

 

ZÉ LUIZ – Tá chamando a gente de ladrão, é? Quem disso usa disso cuida!

 

PEDRO – Não sei de nada, só sei que não vou!

 

ONOFRE – Bem, se você não confia na gente, tem um jeito: vamos fechar o baú. Ele fica fechado. Você leva a sua chave. A gente só vai poder abrir quando você voltar! Tá acertado assim?

 

PEDRO – (Desconfiado. Pensa um pouco e resolve-se) – Tá bem. Eu vou. Agora vamos trancar o baú. Vamos logo que eu quero volta antes de escurecer. (Os três fecham o baú).

 

ONOFRE – Tome o dinheiro. Veja se não gasta tudo.

 

PEDRO – Posso tomar um caldo de cana?

 

ONOFRE – Tá bem... Ah! Aproveite e traga uma garrafa de aguardente prá gente comemorar!

 

PEDRO – Tinha pensado nisso também... Vou indo. (Vai saindo, um tanto desconfiado, olhando para traz. Tempo. Zé Luiz senta de um lado do baú. Onofre senta do outro). Não vão esconder o baú noutro canto...

 

ONOFRE - Vá embora, Pedro! Ninguém vai fazer nada, vai ficar esperando...  (Pedro sai).

ZÉ LUIZ –  (Tempo) - O que você está achando?

 

ONOFRE – Que ele está querendo passar a gente prá traz. Tenho certeza!

 

ZÉ LUIZ – Mas como?

 

ONOFRE – Ora, Zé Luiz! Tem muitas formas.

 

ZÉ LUIZ – Só se ele trouxer mais gente, porque sozinho ele se estrepa. E gente armada!

 

 ONOFRE - Pode até... Espere! Eu não tinha pensado nisso!

 

ZÉ LUIZ – Nisso o que?

 

ONOFRE – Uma arma! Você está armado?

 

ZÉ LUIZ – Eu não!

 

ONOFRE – E eu só tenho esse punhal! (Mostra o punhal).

 

ZÉ LUIZ – Por que? Não estou entendo! O que é que você está imaginando?

 

ONOFRE – Calma. Eu explico. (Pausa) – Ele pode voltar armado!

 

ZÉ LUIZ -  A espingarda do pai!

 

ONOFRE – Também pode ser... (Tempo) Acho que não. Uma espingarda a gente via de longe. Mas pode ser um revólver! Ele pode comprar um! Quando chegar aqui... Dentro da bolsa dele... Quando a gente tiver dividindo as pedras, ele acaba com a gente. É isso! Só pode ser isso!

 

ZÉ LUIZ – Não posso acreditar. Pedro não seria capaz.

 

ONOFRE – Por que não? Fica com a riqueza. Fica com a fazenda só prá ele. É fácil esconder o que sobrar da gente nessas furnas que tem por aqui. Ninguém vai nunca achar. E ele diz que a gente foi embora. E ninguém vai ligar prá isso! Lembra o que ele disse que ia fazer com a parte dele quando achasse o baú? Cuidar da fazenda! Então? Foi tudo pensado. Foi ele quem encontrou as chaves. Foi ele quem encontrou o baú. Se ele não já soubesse onde estava esse baú eu me dane! Até na hora de abrir ele já sabia qual era o lugar da chave dele!

 

ZÉ LUIZ – Mas não é possível... É difícil de acreditar...

 

ONOFRE – Pois eu não preciso acreditar: tenho certeza! Ele vai voltar prá acabar com a gente!

 

ZÉ LUIZ – Mas se ele estava querendo fazer  isso, por que foi dizer tudo, dizer as chaves, o baú, tudo? 

 

ONOFRE - Não sei...

 

ZÉ LUIZ - Bastava ficar calado! A gente terminada indo embora...

 

ONOFR - Vendia a fazenda! Isso! Vendia a fazenda!  Ia ter de vender a fazenda prá dividir pelos três. Ele seria obrigado a vender também. E aí, como era que ia ficar? Ele teria de dizer o negócio do baú, senão também ficava sem nada.

 

ZÉ LUIZ - É. Pode ser... E vamos fazer o que?

 

ONOFRE – Primeiro, ficar prevenidos. Vamos logo preparar tudo, porque se ele tentar alguma coisa a gente acaba com ele primeiro!

 

ZÉ LUIZ – Matar?!

 

ONOFRE – Ou ser morto...  O que é que você prefere?

 

ZÉ LUIZ – É danado! E quem vai fazer isso?

 

ONOFRE – Nós dois. Você fica com o punhal!

 

ZÉ LUIZ – Eu?!

 

ONOFRE – Sim, você. Ele sabe que você não anda armado! Ele sabe que eu sempre ando com esse punhal (Entrega o punhal. Zé Luiz quer rejeitar mas acaba ficando com o punhal) – Então, com você ele vai estar mais descuidado.

 

ZÉ LUIZ – E o que é que eu vou fazer?

 

ONOFRE – Prestar bem atenção. Quando ele chegar eu fico de frente prá ele e, para distrair ele de você, pergunto alguma besteira. Ele vai entregar as bolsas e dizer alguma coisa para distrair a gente. Aí você precisa prestar bem atenção. Se ele só entregar duas bolsas e ficar segurando a dele, é porque escondeu o revólver nela! Aí você não conta conversa. Faça o serviço certo. Não dê tempo dele se mexer.

 

ZÉ LUIZ – Eu vou matar?...

 

ONOFRE – Vai, porque é preciso.

 

ZÉ LUIZ – Isso eu não posso fazer. Eu nunca fiz! Não tenho coragem não.

 

ONOFRE – Sempre existe a primeira vez prá tudo, Zé Luiz. Pedro vai trair a gente! Acredite! E de traição ninguém escapa, a não ser que já esteja prevenido. Isso é coisa antiga, Zé Luiz. Tá nas Escrituras: o primeiro homem foi traído! Esqueceu do que o padre falou?

 

ZÉ LUIZ – Aquilo foi coisa de mulher...

 

ONOFRE – E Caim e Abel? Também é coisa de mulher? Eram irmãos!...

 

ZÉ LUIZ – Sei lá... Isso é história de igreja. Pedro não é assim. É abestalhado, mas nunca fez mal a uma mosca, nunca...

 

ONOFRE – Você parece que não quer entender a situação. É ele ou a gente!

 

ZÉ LUIZ – E se nada disso acontecer? E se ele só quiser a parte dele?

 

ONOFRE – Melhor! Aí não acontece nada. Mas preste atenção: se ele pensa em acabar com a gente, vai começar por mim. Vai, porque ele sabe que você é mais fraco, não anda armado, é mais fácil de pegar depois. Então a gente depende de você. Ele não vai imaginar que você está armado. Não pense muito, senão morrem os dois: eu e você!

 

ZÉ LUIZ – E depois, como vai ser?

 

ONOFRE – A gente prova que ele tentou nos matar e a gente se defendeu. Mostra o revólver. Alguém na cidade deve saber onde ele comprou. Há jeito prá tudo. Só não há prá morte! Então? Fica tudo acertado?

 

ZÉ LUIZ – Tem outro jeito? (Black-out. Fim da parte).

 

 

 PARTE III

(Mesmo cenário. Onofre sentado, parece calmo. Zé Luiz, andando de um lado para o outro, demonstra intranqüilidade).

 

ONOFRE – Pare com essa agonia, homem! Termina me deixando nervoso também!!

 

ZÉ LUIZ – É essa demora...

 

ONOFRE – Essa demora prova que eu tenho razão! Comprar um revólver não é a mesma coisa que comprar uma garrafa de cachaça. Tem que procurar...

 

ZÉ LUIZ – Já era prá ter voltado há muito tempo. Vá ver que aquele leso ficou ouvindo os cantadores!

 

ONOFRE – Hoje não tem feira, Zé Luiz! A demora só pode ser por outra coisa. Estou avisando: se ele me matar primeiro, você está frito!

 

ZÉ LUIZ – E por que você mesmo não mata?

 

ONOFRE – Outra vez, Zé Luiz? Eu não já expliquei? De mim ele espera alguma coisa, está prevenido. De você não, nem vai olhar prá teu lado. Você vai ter a prova disso quando ele chegar.

 

(Impaciente, Zé Luiz volta a andar na cena. Tempo. Ouve-se alguma música  e sinais de alguém se aproximando. Onofre e Zé Luiz preparam-se. Expectativa.. Pedro entra, carregando três bolsa de couro e um radio de pilha ligado, que coloca no chão). 

 

PEDRO – Pronto! Fiz tudo! Meu jumento ajudou muito.  (Joga, para cada um, uma bolsa) –Tomem as bolsas de vocês. (As bolsas caem próximas a cada um e Onofre e Zé Luiz não se movem. Trocam olhares cúmplices e permanecem na expectativa do que pode acontecer. Pedro põe no chão a bolsa que ficou prá ele e procura abri-la) – Comprei o que vocês pediram e mais alguma coisa. Vou mostrar! (Onofre faz sinal para Zé Luiz usar o punhal e este reluta. Onofre insiste, enquanto Pedro vai retirando algum  objeto de dentro da bolsa) – Tá aqui! É prá vocês também!

 

ONOFRE – (Desesperando-se, grita) – Agora, Zé Luiz! Você quer morrer?

 

ZÉ LUIZ – (Instigado por Onofre, emitindo sons incompreensíveis e de punhal na mão, joga-se para cima de Pedro, apunhalando-o várias vezes. Pedro, sem entender o que está acontecendo, volta-se para os irmãos, tenta levantar-se e cai morto. Na sua mão uma pequena estatueta de Frei Damião. Onofre permanece onde estava. Zé Luiz, deixando o punhal cair ao chão, vai até ao irmão morto e examina o que ele segurava. Olha para Onofre e vai até à bolsa de Pedro, examinando-a) –Não tem revólver aqui! Não existe revólver! Ele não estava armado! (Vai até ao morto e arranca-lhe a estatueta. Dirige-se a Onofre) – Olhe aqui! Frei Damião! Uma imagem! Não era revólver! (Desesperando-se) – Ele era inocente! Você me fez matar um inocente! E agora? O que vamos fazer? (Notando suas mãos ensangüentadas, começa a sentir náusea) – Foi você, Onofre! Você foi o culpado de tudo, inventando aquela história... (Desolado senta numa pedra).

 

ONOFRE – Você também! Você concordou com tudo, com a suspeita! Não venha agora bancar o inocente não!

 

ZÉ LUIZ – E agora? Ele era inocente... Ninguém vai provar que ele queria matar a gente!

 

ONOFRE – Ora, Zé Luiz, a gente enterra ele e pronto! Quando alguém perguntar a gente diz que ele desapareceu de casa ... A gente dá fim também ao jumento e diz que ele fugiu de casa levando o jumento e o rádio de pilha. Todo mundo na cidade deve ter visto ele com o jumento! É isso: roubou o jumento e o rádio e fugiu!

 

ZÉ LUIZ – Isso não resolve nada. Ele era inocente! Tá aqui no meu juízo!

 

ONOFRE – Então trate de tirar! Não tem mais  que fazer: Pedro está morto! Agora, o melhor que a gente faz, é enterrar num lugar bem escondido por aí. Dentro de um buraco ou de uma gruta nessas pedras...

 

ZÉ LUIZ – (Desesperado, vai até ao rádio que continuava ligado e chuta-o para fora de cena. Voltando-se, depara-se com o cadáver do irmão e novamente sentindo enjôo, ameaça) – Vou contar tudo! Vou falar a verdade, vou dizer tudo... Você também é culpado, Onofre! (Vem a vontade, cai ajoelhado e começa a vomitar). – Foi você, Onofre! Você é o culpado de tudo! Vou dizer a verdade...

 

ONOFRE – (Sai da sua imobilidade, apanha o punhal e desfecha golpes em Zé Luiz) – Você pediu, Zé Luiz! Você pediu! (Zé Luiz, ainda volta-se para o irmão e cai morto) – Foi você quem quis assim! (Vai ao baú e senta-se, procurando relaxar. Após algum tempo, levanta-se e vai até aos irmãos, retirando de cada um as suas chaves. Volta e abre o baú. Admira as pedras. Apanha uma bolsa onde começa a colocar  as pedras. Falando para si) – Depois preciso esconder esses dois... Na gruta! Na gruta onde estava o baú. Arrasto tudo prá lá. Eles e o baú. (Tempo. Continua colocando as pedras na bolsa) – Como vou carregar as três bolsas? E à velha Cotinha, o que é que eu vou dizer? Tenho que inventar uma história. O jumento! O jumento carrega as bolsas, é isso... E se ela se meter a besta eu acabo com ela também! Agora que eu comecei não posso parar no meio do caminho. De jeito algum! (Termina de encher a primeira bolsa) – Agora, vamos prá outra. (Indo apanhar a bolsa de Pedro) – Quando descobrirem alguma coisa eu já vou estar longe... (Ao pegar a bolsa) – Oi! Essa está pesada. Tem alguma coisa dentro! (Retirando da bolsa uma garrafa e um pequeno pacote) – A cachaça! Não é que o abestalhado comprou mesmo! E isso aqui o que é que pode ser? (Abrindo o pacote) – Jabá! Lembrou-se de tudo. Era um leso, coitado! O mundo não perdeu nada! Trouxe até a bebida para eu comemorar! (Baixa a tampa do baú e senta-se nele) – Agora a minha vida vai mudar. Vou para o Rio de Janeiro. É só conseguir vender essas pedras. Mas do jeito que estão procurando, é prá já já! (Abre a garrafa e toma um gole da aguardente  Arranca, com os dentes, um pedaço da carne e mastiga-o, voltando a tomar outro gole de aguardente. Brinda) – Ao Rio! À boa vida! Não tá vendo! Um queria gastar o dinheiro nessa porcaria de terra. Era o mesmo que jogar fora! O outro nem sabia o que fazer com a parte dele! Não ia fazer nada. Nunca fez! (Toma outro gole. Sente alguma coisa e largando a garrafa, leva as mãos ao estômago) – O que é isso?! Ai, que ardor é esse?! (Cospe)  Ai, tá aumentando! Deve ter sido a carne! (Cheirando a carne) - Aquele leso deve ter comprado carne estragada... Não. Não está com cheiro ruim!... O que diabo será isso? Nada que mais uns goles não resolva! (Bebe novamente. Tempo. Cheira a conteúdo da garrafa) – É aguardente. O cheiro não é dos melhores...  Está piorando!... O melhor é vomitar...   (Tenta vomitar. Grita de dor e cai se contorcendo e gritando) – Socorro! Socorro! Ai , está doendo muito, está queimando... Acudam, pelo amor de Deus! Zé Luiz! Água! Onde está a água? (Arrasta-se até onde está o irmão) – Zé Luiz... a água.... Pedro! (Volta a arrastar-se na direção de Pedro) - Foi você! Miserável!... Queria ficar com tudo... Queria enterrar o nosso dinheiro nessa terra miserável.... Pedro... Traidor... Você pois o veneno, seu leso! Você não era leso coisa nenhuma! (As dores aumento) – Socorro! Eu não agüento tanta dor... Zé Luiz, acorde! Pelo amor de Deus, acorde! Venha me ajudar...  Pedro, seu leso...  Veneno... na cachaça...  (As últimas palavras são balbuciadas. Onofre procura erguer-se e grita com todas as forças que ainda tem)  - Meu pai!       ( Morre. A luz sai em resistência. Pano).