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OS HERDEIROS

Teatro - 1999 - Elpídio Navarro                          

Personagens:

ONOFRE

PEDRO

ZÉ LUIZ

Peça teatral inspirada no conto

“O Tesouro”, de

Eça de Queiroz.

 

                                      PRIMEIRA PARTE

 Primeira Cena

 

(Fachada da “casa grande” de uma fazenda no cariri nordestino. Através de uma janela aberta, vêem-se velas acesas. Varanda, bancos e uma cadeira de balanço. Em cena os três irmãos: Zé Luiz, Pedro e Onofre).

 

PEDRO – (Em pé, encostado na varanda) - Ninguém!...

 

ZÉ LUIZ – ( Sentado no banco) – Com essa seca... O povo tá é atrás de água!

 

PEDRO -  Nos barreiros... Água de lama!

 

ZÉ LUIZ – Melhor do que nada!

 

PEDRO – O pai nunca que deixou faltar água prá gente. Da boa!...

 

ZÉ LUIZ – Comprava toda semana. Toda semana o caminhão chegava.

 

PEDRO – Nunca deixou com sede qualquer pessoa que passasse por aqui. Tinha gente que vinha buscar até de lata!

 

ZÉ LUIZ – Essa semana mesmo! Na cama, doente, mas mandava ajudar a quem procurasse ajuda. E agora está aí, sozinho... Nem prá pedir água aparece um vivente! (Tempo) - Também  podem estar caçando  “arribaçã”. De manhã cedo é mais fácil.

 

PEDRO – Matando as bichinhas! Eu tenho pena...

 

ZÉ LUIZ - Fazer o que? A fome aperta... Nem preá existe mais! Criação a seca acabou com tudo. Feijão e milho nem se fala. O jeito é comer o que existe. Nessas horas  seja lá o que Deus quiser! Matar prá não morrer...

 

PEDRO -  Morrer de fome, morrer de morte mesmo, tanto faz! Morre todo mundo. Ninguém fica prá semente... Ninguém serve de muda... Se servisse era só cortar uma perna do pai e plantar, que nascia outro pai...

 

ONOFRE - (Sentado na cadeira de balanço, comenta, com desdém) - Quanta maluquice!

 

PEDRO - (Vai responder a Onofre, mas desiste. Dirige-se somente para Zé Luiz) - Mas será que não vem ninguém? Nessas horas é que gente sabe quem é amigo!

 

ZÉ LUIZ – É isso que eu digo.

 

ONOFRE – (Ríspido) - Diz coisa nenhuma! Por que não param com essa besteira? Amigo? Que amigo? Nosso pai nunca conseguiu fazer um amigo. Não fosse a velha Cotinha, nem vela acesa ele iria ter! Nem dos filhos! Da gente, que também não era amigo dele...

 

PEDRO – Ele ajudava, ele dava as coisas.

 

ONOFRE – Dava porque sentia prazer em ver as pessoas se curvando. Ele se achava poderoso. Todo mundo dependendo dele. É!... Mas contra ela ninguém é superior. Todo mundo é uma bosta só.  A dona da foice quando chega, a pessoa foi-se! Pode ser rico, pobre, preto, branco, bom ou ruim como o pai. É derrotado da mesma maneira.

 

ZÉ LUIZ – Mas...

 

ONOFRE – Que mas que nada! O que vocês precisam é pensar na vida porque na morte ninguém dá mais jeito não.

 

ZÉ LUIZ – Mas era o pai...

 

ONOFRE – E daí? Morreu, acabou. Não manda mais em nada.

 

PEDRO – E você sentou nessa cadeira, que era dele, porque acha que vai mandar na gente, é? Pois está muito enganado!

 

ONOFRE – Eu não quero mandar em nada, seu leso! Sentei por sentar. Depois, sou o mais velho, não é? Tenho lá as minhas vantagens.

 

ZÉ LUIZ – O pai sempre dizia que tudo aqui era dos três, tudo igual.

 

PEDRO – Dizia mesmo. Cansei de ouvir ele falar: (imitando o pai)  “um abestalhado, um preguiçoso e um metido a bosta, que também não bate um prego numa barra de sabão. E eu vou deixar tudo o que tenho, todas essas minhas terras e o que nelas existe,  para esses três parasitas que nada fizeram para merecê-las. Só sendo castigo!”

 

ONOFRE – Castigo é o meu! Um pai miserável e dois irmãos da qualidade de vocês. É castigo e dos grandes!

 

ZÉ LUIZ – Castigo só vem para quem merece ser castigado.

 

ONOFRE – Cala essa boca Zé Luiz, não diz besteira. O leso daqui é o Pedro.

 

PEDRO – Eu não sou leso!

 

ONOFRE – (Tempo) - Estou aqui matutando: como vamos viver agora? Como vamos comer? Não temos dinheiro nem para comprar um caixão para o desgraçado. Nem para comprar cachaça!

 

PEDRO – Eu não bebo!

 

ONOFRE – Se bebesse, vá  ver não era do jeito que é.

 

ZÉ LUIZ – A velha Cotinha disse que só tem um resto de farinha e umas duas rapaduras. Desde que o pai arriou que não fez mais feira.

 

PEDRO – Ele me levava prá feira!

 

ONOFRE – Para não pagar carregador. Agora diga se não era você quem carregava as compras?

 

PEDRO – Era... Mas eu gostava. Tomava caldo de cana...

 

ONOFRE – Porque ele tomava também.

 

PEDRO – Ouvia os cantadores...

 

ONOFRE – Quem ouvia era ele. Você estava junto.

 

ZÉ LUIZ – (Cortando) – E agora , Onofre? O que vamos fazer sem dinheiro? O enterro...

 

ONOFRE – O enterro não interessa, o prefeito que cuide. Mandei avisar logo cedo. O pai não era eleitor do prefeito? Não obrigava a gente a votar no prefeito? Não dava dinheiro para a eleição? O que me preocupa é o nosso sustento. Com a mina fechada, essa seca danada, o gado acabado e nem um pé de planta, ficamos sem nada. Só essas terras imprestáveis que ninguém vai querer comprar. Não temos dinheiro nem para o carro pipa. Ele vai passar e a gente vai ficar sem água de beber. E para a próxima feira, muito menos.

 

PEDRO – Pai toda vez que ia prá feira levava um montão de dinheiro. De dez, de cinqüenta, de toda qualidade. E ainda voltava com muito!

 

ZÉ LUIZ – É isso, Onofre! Deve ter dinheiro escondido por aí. Vamos procurar!...

 

ONOFRE – Já fiz isso. Não adiantou nada.

 

ZÉ LUIZ – Como? Quando?

 

ONOFRE – Hoje cedo. Logo que o pai bateu as botas. Vocês estavam dormindo. Revirei tudo! Não achei nada! Nem um centavo. Não teve lugar nessa casa que eu não procurasse.

 

PEDRO – Se tivesse achado ficava com tudo... (Onofre encara Pedro).

 

ZÉ LUIZ – Mas Pedro deve saber. Ia prá feira com ele. Vamos, Pedro. Diga. Onde o pai ia pegar o dinheiro?

 

PEDRO – Sei lá! Eu nunca via. Quando ele me chamava já estava de saída.. Quando chegava mandava eu arrumar as compras e desaparecia.

 

ZÉ LUIZ – É um leso mesmo!

PEDRO – E vocês? Quando a gente chegava você estava roncando  e esse outro aí, (Indica Onofre) só queria saber da cachaça que a gente trazia.

 

ONOFRE – Não adianta essa discussão agora. O que passou, passou. (Tempo) Mas uma coisa é certa: o pai deixou dinheiro escondido, deixou e muito! Isso é certo. Até o dia que deixaram de descer naquela mina, o pai vendeu um bocado daquelas pedrinhas. Elas tinha muito valor. É preço de ouro! Uma vez eu ouvi aquele comprador que vinha aqui, dizendo ao pai que aquelas pedras iam todas para o estrangeiro!

 

ZÉ LUIZ – Olhe aí. Se iam para o estrangeiro era porque valiam muito. Deve haver dinheiro guardado em alguma lugar.

 

PEDRO – Dentro do baú pequeno...

 

ZÉ LUIZ –  Só se for! Baú?! Nunca vi...

 

ONOFRE – Que baú é esse, seu abestalhado? Que conversa de doido é essa?

 

PEDRO – Doido, é? Abestalhado? Pois não digo nada não!

 

ZÉ LUIZ – Deixa de besteira, Pedro! Toda vida a gente te chamou de abestalhado. Até o pai!

 

PEDRO – Mas doido, não!

 

ONOFRE – Foi sem querer...

 

ZÉ LUIZ – Vamos, Pedro. Que história de baú pequeno é essa?

 

PEDRO – (Tempo. Sentindo-se importante) – Foi na feira. No ferreiro. Mandou fazer  lá. Todo de ferro. Pesado! Eu que o diga.

 

ONOFRE – E onde ele botou esse baú?

 

PEDRO –  Mandou botar três travas e em cada uma um cadeado.

 

ZÉ LUIZ – Três?!

 

ONOFRE – (Interrogando-se) – Por que três?!

 

PEDRO – O ferreiro também ficou espantado. Mas o pai falou: tenho três filhos. Quando eu sentir que estou perto de morrer, vou entregar uma chave a cada um. Assim, um vai ficar dependendo do outro...

ONOFRE – E o desgraçado morre de repente! E as chaves?

 

ZÉ LUIZ – Então deve ter dinheiro dentro desse baú.

 

ONOFRE – Claro, Zé Luiz! Se não prá que ele havia de  querer esse baú?

 

ZÉ LUIZ – Então vamos procurar o ferreiro. O baú deve estar guardado por lá!

 

ONOFRE – Não vai precisar nem das chaves. O ferreiro arromba...

 

PEDRO – Nem pensem nisso. O baú não está lá!

 

ONOFRE – O que? Como você sabe?

 

ZÉ LUIZ – E onde está?

 

PEDRO – Não sei...

 

ONOFRE – Como não sabe? Você não disse?...

 

PEDRO – Não está porque ele veio prá cá!

 

ZÉ LUIZ – Prá cá? Onde? Onde o pai?...

 

PEDRO – Não sei! O pai botou em cima do carroção e trouxe. Eu ajudei. O bichinho era bem pesado!

 

ONOFRE – E daí? E quando chegou aqui?

 

PEDRO – Não sei! O pai mandou que descarregasse a feira e fosse arrumar. Depois saiu pros lados da serra levando o baú e aquele bornal de caça... Nem levou a espingarda! Eu até me ofereci para ir também, mas ele disse que era para eu ficar. Queria ir sozinho. Daqui eu só ouvia o ronco daquele trator velho subindo a serra. Até desaparecer. O trator e o ronco.

 

ONOFRE – Então foi assim que o motor do trator bateu. Agora é só ferro velho...

 

ZÉ LUIZ – Isso não interessa! Então era no bornal?! Antes, guardava tudo no bornal de caça! E a  gente nem desconfiava! (Tempo)  Temos que ir procurar esse maldito baú. Vasculhar essa fazenda toda. Deve estar escondido numa gruta ou num buraco na pedra.

 

ONOFRE – Pode também ter sido enterrado.

 

ZÉ LUIZ – Não. Isso não. O pai não ia ficar desenterrando e enterrando baú toda vez que precisasse tirar ou botar dinheiro. Deve estar escondido.

 

ONOFRE – Você tem razão!

 

ZÉ LUIZ – Então vamos logo! Não podemos perder tempo.

 

ONOFRE – Antes as chaves. Precisamos das chaves. Deve estar em algum lugar da casa. Vamos dar uma busca. (Sai para o interior da casa).

 

ZÉ LUIZ – Vamos! Venha também, Pedro. A casa é muito grande. (Acompanha Onofre).

 

PEDRO – (Falando para si e permanecendo em cena) – Dou um doce a quem achar! (Ri. Sai a luz.. Fim da Primeira Cena).

 

 

 

 

 PARTE I

 Segunda Cena

 

(Mesmo cenário. Em cena, desolados,  Onofre e Zé Luiz.  Tranqüilamente,  balançando-se na cadeira, Pedro cantarola: “Só deixo o meu cariri, no último pau de arara...”) .

 

ZÉ LUIZ – Que trabalheira danada! Não estava em canto nenhum.

 

ONOFRE – A velha Cotinha disse nunca ter botado os olhos em cima dessas chaves.

 

ZÉ LUIZ – Sempre foi cega!

 

ONOFRE – E esse abestalhado aí nem prá ajudar serve! Mas não tem nada não. A gente acha o baú e arrebenta os cadeados! É besteira! Uma alavanca e pronto! Tudo resolvido.

 

PEDRO – (Balbuciando)  Pode não...

 

ONOFRE – O que? Você falou o que?

 

ZÉ LUIZ – Você falou que não podia?

 

PEDRO – Foi, pronto! Falei! Não pode, pronto!

ZÉ LUIZ – Não pode por que? Hein? Hein? (Insistente)

 

PEDRO – Eu digo! (Tempo)  O pai queria botar era fechadura. O ferreiro foi quem inventou: três cadeados por dentro da tampa do baú. Ele fez três buraquinhos. Só aparece o lugar de botar a chave. O pai experimentou mais de uma vez: quando abre os três cadeados, a trava cai, aí pode abrir a tampa. Foi um tempão prá fazer isso! Tudo de ferro. Tudo soldado. 

 

ONOFRE – Isso é o que vamos ver! Quando a gente achar esse desgraçado desse baú, quero ver se não arrombo ele!

 

PEDRO – (Rindo) – Nunca!... Só no fogo! Mas aí...

 

ONOFRE – Compro um maçarico! Meto fogo!

 

PEDRO - ... pode queimar o dinheiro!

 

ZÉ LUIZ – Besteira! (Para Onofre) – E onde vai arranjar dinheiro para comprar um maçarico? Tem outros jeitos... O mais importante é achar logo o baú e trazer prá cá. Como abrir, se resolve depois.

 

PEDRO – Abre com as chaves...

 

ZÉ LUIZ – Claro, abestalhado! Agora, onde estão as chaves? Você sabe, hein sabidinho?

 

PEDRO – (Com desdém)  - Até que sei...

 

ONOFRE – O que!? Que palhaçada é essa, seu leso?

 

ZÉ LUIZ – Ah! Por isso não foi procurar com a gente! Você sabia onde estava!

 

PEDRO – Sabia, pronto! Sabia.

 

ONOFRE – E escondeu da gente?

 

PEDRO – Eu não escondi nada. Foi o pai quem escondeu.

 

ZÉ LUIZ – E por que não disse logo que sabia?

 

PEDRO – Vocês não perguntaram!

 

ONOFRE – Queria ficar com tudo, não era? Queria era botar a gente prá traz! Era isso. Queria ficar com tudo.

 

PEDRO – Prá que? Não preciso. Eu trabalho. Todo sábado vou prá feira. Lá não falta o que fazer. Sempre dá um dinheirinho. Eu ganhava quando ia com o pai... Depois, se eu quisesse não tinha dito que sabia onde as chaves estavam. Depois, também, ninguém sabe o que tem dentro daquele baú. Pode ser até nada...

 

ZÉ LUIZ – Mas eu quero saber. Vamos, diga logo!

 

PEDRO – Tá lá com o pai...

 

ONOFRE – Onde?!

 

PEDRO – Com o pai!

 

ZÉ LUIZ – Onde? No bolso da calça?

 

PEDRO – Nada! Pior!...

 

ONOFRE – Vamos, Pedro. Fala logo de uma vez.

 

PEDRO – (Com um gesto um tanto confuso) – Lá!... Eu vi. Um dia, quando a gente voltava da feira, eu vi. Com esse dois olhos que a terra...

 

ZÉ LUIZ – (Cortando) – Fala de uma vez, homem! Deixa de arrodeio!

 

PEDRO – Ele parou o trator e desceu prá mijar na beira da estrada. Eu estava no carroção. Quando ele abriu a braguilha eu vi aquele negócio brilhando na luz do sol. Apurei a vista, e quando ele balançou a pica, aí deu prá ver as três chaves também balançando. Estavam amarradas no botão da cueca. Só podia ser!

 

ZÉ LUIZ – (Para Onofre) - E agora? Quem vai lá ver se a história desse leso é verdadeira?

 

ONOFRE – Nem olhe prá mim, que eu não vou! Eu vou lá abrir a braguilha do defunto com a velha Cotinha junto? Vai ser um escândalo! Vá você!

 

ZÉ LUIZ – Tá doido?! A gente não tinha intimidade quando ele era vivo, quanto mais agora!

 

ONOFRE – Então que vá o abestalhado, que era o filhinho querido dele!

 

ZÉ LUIZ – É, Pedro. Vai você! Você não é quem sabe direito onde estão as chaves? Então você vai buscar!

 

PEDRO – Tudo sou eu!... (Tempo) – O que é que eu ganho com isso? O que vocês vão me dar?

 

ONOFRE – Dar, como? Ninguém tem nada ainda?

 

PEDRO – Tem, sim: o jumento fica só prá mim.

 

ZÉ LUIZ – (Olhando para Onofre) – Por mim, tudo bem... Eu não vou mesmo precisar dele prá nada!

 

ONOFRE – Está certo. O jumento é todo seu.

 

PEDRO – E o radiozinho de pilha também!

 

ZÉ LUIZ – Assim você já está abusando!

 

PEDRO – Vocês resolvam. Então vão buscar as chaves!

 

ONOFRE – (Diante do impasse) – Está bem. Você fica com a bosta daquele rádio também! Agora vá!

 

PEDRO – Vou! (Sai, demonstrando satisfação).

 

ONOFRE – Esse desgraçado não é tão abestalhado como a gente pensava não!

 

ZÉ LUIZ – É... Tá sabido demais prá meu gosto! Ganancioso! Vai dar trabalho quando for repartir tudo. Escute o que eu estou dizendo.

 

ONOFRE – Ele que não se meta a besta. Não pense que por ser irmão eu vou me sujeitar...

 

ZÉ LUIZ – Nem eu também! Não aceito sacanagem nem dele nem de ninguém.

 

ONOFRE – (Tempo) - Esse ninguém , por acaso, é comigo?

 

ZÉ LUIZ – Não. Não quis dizer com você não. Mas vale também prá você!

 

ONOFRE – E eu já fiz alguma sacanagem com  você?

 

ZÉ LUIZ – Não. E eu não disse isso.

 

ONOFRE – Mas pensou!

 

ZÉ LUIZ – Eu não pensei em nada. E sabe de uma coisa? Parece que você está querendo criar encrenca! Por que isso agora?

 

ONOFRE – Encrenca tá querendo você...

 

PEDRO – (Entrando) – Já estão brigando?!

 

ONOFRE – (Tempo) – E as chaves? Achou?

 

PEDRO – Estão aqui! (Mostra duas chaves amarradas num cordão).

 

ZÉ LUIZ – Não eram três?!

 

PEDRO – Eram. Mas uma não era minha? Já está guardada. No pé do cipó como fazia o pai! (Entrega um chave a cada irmão).

 

ONOFRE – Você de leso não tem é nada!

 

ZÉ LUIZ – E a velha Cotinha?  Viu você mexendo no defunto?

 

PEDRO – Que nada! Pedi prá botar água no fogo. Fazer um café. Ainda tem um resto de pó.

 

ONOFRE – De burro também não!

 

PEDRO – (Debochado) – Obrigado!

 

ZÉ LUIZ – Mas vamos cuidar de achar logo esse baú. Quanto mais cedo melhor!

 

ONOFRE – Isso! Vamos lá!

 

PEDRO – Menos eu.

 

ONOFRE – O que?!

 

ZÉ LUIZ – Você não vai procurar?

 

PEDRO – Agora, não! Só depois do enterro.

 

ZÉ LUIZ – Mas isso não tá certo! Não se sabe nem a hora desse enterro ainda!

 

PEDRO – Não vou deixar o pai sozinho.

 

ZÉ LUIZ – Mas a velha Cotinha não está?...

PEDRO – Fazendo o café.

 

ZÉ LUIZ – Então, depois do café...

 

PEDRO – Só vou depois do enterro.

 

ONOFRE – (Desconfiado) – Você não está escondendo alguma coisa da gente não, não é? Sabe o que está parecendo? Que você sabe onde está o baú e não quer dizer. Olhe...

 

PEDRO – (Cortando) – Agora o leso é você, viu? E eu não sabia onde estavam as chaves? Precisava dizer a vocês, precisava? E também não fui eu quem contou a história do baú? Precisava contar a vocês, precisava?