HISTÓRIA
O Teatro
na época da ditadura
Carlos Aparecido dos
Santos (*)
Independente de toda a sua pujança e
liberdade, o teatro como todas as outras expressões
artísticas sofreu um revés que tolheu toda a sua capacidade
criadora e motivadora: a censura. Nesta pesquisa abordaremos
os efeitos que a ditadura exerceu sobre o teatro no período
de 1964-1968.
O Brasil no contexto
político - 1964 -1968
Segundo Castro (2004), nos bastidores do
governo, tramava-se o pior golpe político que o país
sofreria desde o início de sua história: o movimento
político-militar deflagrado em 31 de março de 1964 com o
objetivo de depor o governo do presidente João Goulart. Sua
vitória acarretou profundas modificações na organização
política do país, bem como na vida econômica e social. Todos
os cinco presidentes militares que se sucederam desde então,
declararam-se herdeiros e continuadores da Revolução de
1964.
A crise político-institucional da qual nasce o regime
militar começa com a renúncia do presidente Jânio Quadros,
em 1961. Agrava-se durante a administração João Goulart
(1961-1964), com a radicalização populista do Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB) e de várias organizações de
esquerda e com a reação da direita conservadora. Goulart
tenta mobilizar as massas trabalhadoras em torno das
reformas de base, que alterariam as relações econômicas e
sociais no país.
Esses fatos, segundo Castro (2004) leva o empresariado,
parte da Igreja Católica, a oficialidade militar e os
partidos de oposição, liderados pela União Democrática
Nacional (UDN) e pelo Partido Social Democrático (PSD), a
denunciar a preparação de um golpe comunista, com a
participação do presidente. Além disso, responsabilizam-no
pela carestia e pelo desabastecimento.
No dia 13 de março de 1964, o governo promove grande comício
em frente da estação ferroviária Central do Brasil, no Rio
de Janeiro, em favor das reformas de base. Os conservadores
reagem com uma manifestação em São Paulo, a Marcha da
Família com Deus pela Liberdade, em 19 de março. A tensão
cresce. No dia 31 de março, tropas saídas de Minas Gerais e
São Paulo avançam sobre o Rio, onde o governo federal conta
com o apoio de setores importantes da oficialidade e das
Forças Armadas. Para evitar a guerra civil, Goulart abandona
o país e refugia-se no Uruguai.
No dia 1º de abril, o Congresso Nacional declara a vacância
da Presidência. Os comandantes militares assumem o poder. Em
9 de abril é decretado o Ato Institucional Nº 1 (AI-1), que
cassa mandatos e suspende a imunidade parlamentar, a
vitaliciedade dos magistrados, a estabilidade dos
funcionários públicos e outros direitos constitucionais.
Segundo Castro (2004), a falta de reação do governo e dos
grupos que lhe davam apoio foi notável, não se conseguiu
articular os militares legalistas. A crise econômica se
aprofunda e mergulha o Brasil na inflação e na recessão.
Crescem os partidos de oposição, fortalecem-se os sindicatos
e as entidades de classe.
De todos os setores, a imprensa foi a que sofreu a mais
profunda censura. A TV, o rádio, e todos os meios de
comunicação eram vigiados de perto pelos militares, muitos
eram perseguidos e expulsos do país, até mesmo mortos, por
irem contra tais medidas.
Foi nesse período, que o teatro sofreu a maior perseguição
de sua história.
O Teatro sob pressão
O teatro conheceu um esplendor que não
resistiria à asfixia causada pela censura e pela repressão.
Resultava do trabalho realizado, em especial, por dois
grupos, o Oficina, em torno de seu diretor José Celso
Martinez Corrêa (no exílio de 1974 a 78), e o Arena, em
torno de Augusto Boal (no exílio a partir de 1969), que se
dedicaram a criar uma dramaturgia brasileira e uma nova
formação do ator. Escreveram e encenaram com muito sucesso,
durante vários anos, originando vocações, peças, espetáculos
e revelações de ator. Extremamente engajados, e invocando
Brecht como nome tutelar, vincariam a história do teatro no
país. Ambos os grupos seriam dizimados pelo AI - 5, Ato
Institucional, que deflagrou o terror de Estado e exterminou
aquilo que fora o mais importante ensaio de socialização da
cultura jamais havido no país (Vasconcellos, 1987).


O teatro mais artístico
refugiou-se em pequenas companhias. Com orçamentos reduzidos
e sem muito apelo ao público, ocupavam espaços alternativos,
não mais experimentais e, por vez, tentavam, suscitar uma
dramaturgia nova. Dentre elas, é necessário mencionar o
Grupo Tapa, que encenou repertório clássico internacional e
ocupou o posto de mais premiada companhia do país, Antunes
Filho que congregou uma trupe experimental, com oficina de
formação de atores, destacando-se pelas notáveis encenações
de Nelson Rodrigues, objeto de uma verdadeira descoberta.
Gerald Thomas que comandou a Ópera Seca, mais vanguardista,
com montagens espetaculares e inovadoras.
O teatro de Cacá Rosset, de pendores
circenses, que teve entre seus acertos a "Ubu Rei", de
Alfred Jarry, cujo perfil estilístico parece ter marcado as
montagens restantes. Os trabalhos de Gabriel Villela que
chamavam a atenção de crítica e público, enquanto resistiam
heroicamente o Folias D´Arte, a Companhia do Latão, a
Companhia São Jorge, Os Parlapatões, entre outros que
merecem nosso respeito.
Em artigo de Brecht (1966), ele denuncia a arte de tornar a
verdade manejável como arma e mostra como reconhecer aqueles
em cujas mãos a verdade se torna eficiente, dentro deste
contexto retornam os esporos redivivos, e aparecem os
"intelectuais institucionais".

Houve experiências
idealistas e bem intencionadas, como o CPC do movimento
estudantil. A UNE, através do CPC (Centro Popular de
Cultura), que procurava levar a arte ao povo, sem temor da
mão-de-ferro e a vontade do governo militar de dificultar
esse contato "inapropriado" a seus objetivos. Além do mais,
Brecht transformara o teatro em arma política no século XX,
sabendo se apoderar da sua grande força de comunicação e a
capacidade de mobilizar as pessoas. Atores e diretores não
podiam dar as costas a essa influência arrebatadora,
principalmente na década de sessenta, quando o mundo
assistia a uma reviravolta dos costumes e, no Brasil,
cresciam os infames mecanismos de repressão e censura. Para
bloquear o avanço desse teatro, estagnar o elo estreito
entre o palco e a política, os militares estendem um "cordon
sanitaire" entre o público e os artistas. A censura e a
perseguição acirram-se. Quem não se lembra do ator Klaus
Maria Brandauer no papel do ator devorado pela ambição em
Mephisto? Cai sobre todos que vivem a arte, o dilema cruel
que consumiu o protagonista, do diretor húngaro István Szabó
(Magaldi, 1989).
Na verdade, Gassner (1974), afirma que a tomada do poder
pelos militares havia causado aos artistas de teatro, nesses
meses iniciais, mais susto do que problema. As nuvens negras
que se avolumavam no horizonte pareciam até certo ponto
aliviadas, no que dizia respeito ao teatro, pelo notório
interesse que o presidente Castelo Branco dedicava ao
assunto, conhecido por ser freqüentador assíduo das salas de
espetáculos, característica rara nos governantes
brasileiros.
Como presidente, ele iniciou seu relacionamento com a classe
teatral nomeando, menos de dois meses depois de empossado,
uma estudiosa de grande prestígio, Bárbara Heliodóra, para a
direção do Serviço Nacional de Teatro. A campanha nacional
de teatro do mesmo órgão passou a contar com a colaboração
de um conselho consultivo de alto gabarito: Carlos Drummond
de Andrade, Décio de Almeida Prado, Adonias Filho, Gustavo
Doria e Agostinho Olavo.
Quando uma dessas periódicas vazantes de bilheteria colocava
a classe em pânico, o presidente recebia no palácio, às seis
horas da manhã, uma delegação da categoria, que lhe pedia
uma ajuda de emergência, concedida no ato, mediante
autorização de uma verba extraordinária a cada um dos 19
espetáculos profissionais em cartaz no Rio, auxílio
estendido também para São Paulo (Castro, 2004).
Quem iria desconfiar de que um governo chefiado por um
presidente aparentemente tão bem intencionado em relação ao
teatro iria transformar-se num inimigo dessa atividade?

Mas nesse período,
quase ninguém ousa lançar alguma proposta mais ousada, que
represente algum tipo de risco, do que as produções
meramente comerciais que predominam, às vezes, com bons
resultados artesanais, como no caso de "Descalços no
Parque", comédia de Neil Simon. A partir da metade do ano de
1964, o teatro dá um grande salto qualitativo, iniciando um
semestre excepcional.
Para Vasconcellos (1987), em São Paulo, o TBC ousa, em julho
de 1964, a sua última grande cartada: "Vereda da Salvação",
de Jorge Andrade, considerado por muitos um dos mais
perfeitos e impressionantes textos de toda dramaturgia
contemporânea. Antunes Filho realizou um espetáculo sob
alguns aspectos excessivo, mas generoso e vigoroso, que
suscitou fortes polêmicas. Lamentavelmente, o público não se
deixou envolver por essa delirante e trágica história -
baseada num episódio verídico ocorrido em Minas Gerais - e
um grupo de colonos, esfomeados, desesperados e ignorantes,
buscam refúgio num misticismo primário, que os leva ao
fanatismo e à morte. Um fracasso de bilheteria, a produção
foi o golpe de misericórdia que formalizou o fim das
atividades do TBC como companhia produtora, depois de uma
longa série de crises.
Em São Paulo, o Oficina, depois de encerrar a triunfal
carreira de "Pequenos Burgueses", monta Andorra de Max
Frisch. Não foi nenhum ponto alto do grupo, mas foi uma
iniciativa importante na trajetória do conjunto, o Oficina
começa a deixar patente o seu frontal inconformismo com o
clima político que acaba de instalar-se no país.
No Rio de Janeiro, o segundo semestre de 1964 torna-se bem
gratificante, diferente do primeiro semestre que foi
medíocre, no fim o ano de 1964 trouxeram um respeitável
recorde; nove lançamentos em dez dias. A imprensa
especializada ressaltava o elevado número de espetáculos
recomendáveis em cartaz, entre esses espetáculos estavam:
Diário de um Louco, de Gogol, cujo sucesso, devido sobretudo
a uma interpretação inesquecível de Rubens Corrêa, tira o
teatro do Rio (futuro teatro Ipanema) de um "buraco
financeiro".
Apesar de um panorama de aparente normalidade, já apareciam
no horizonte alguns discretos prenúncios do que haveria por
vir nos anos subseqüentes, em decorrência da nova situação
política. Em maio de 1965, menos de dois meses depois do
golpe, por ocasião da estréia de Antígona, a imprensa
discutia se a tragédia simbolizava a luta contra as
ditaduras e o direito de dizer "não". Em junho do mesmo ano,
o teatro do Rio, que havia mudado o título de uma comédia de
João Bethencourt de "A ilha de Circe", para, A "Intervenção
Federal", por motivos óbvios achou prudente (ou foi obrigado
a) rebatizar a peça para Mr. Sexo.
Aparecem os primeiros oportunismos: estréia uma comédia de
Raul da Mata, ambiguamente intitulada "Caiu 1º. de Abril",
com o substituto de uma comédia revolucionária. Em
Leopoldina, Minas Gerais, uma montagem local de "A Invasão",
de Dias Gomes, é impedida de estrear por um veto de
personalidades notáveis da cidade, que consideravam a peça
"pornográfica". E o Rio passa pela vergonha de ser
provavelmente a única cidade do mundo a efetuar cortes numa
peça de Shakespeare, no ano do quarto centenário do poeta. O
responsável pelo vexame é o Serviço de Censura do Governo
Carlos Lacerda, que eliminou a algumas falas da comédia,
quando da temporada carioca da sua produção curitibana.
Em outubro de 1965, por imposição do regime, passaram a
existir apenas dois partidos reconhecidos
institucionalmente: a situacionista Aliança Renovadora
Nacional (Arena) e a oposição "construtiva" e moderada do
Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que viria a ser
calada com cassações de políticos e outros mecanismos,
sempre que se excedesse aos olhos dos governantes (Gassner,
1974).
Em dezembro do mesmo ano, nascia a primeira semente daquilo
que viria a ser uma das mais fortes trincheiras teatrais
contra o regime militar: o show "Opinião", dirigido por
Augusto Boal e interpretado por Nara Leão (depois
substituída por Maria Bethânia). Por um tempo, O show foi
apresentado em nome do teatro de Arena de São Paulo e, por
ocasião da estréia, Boal declarou que o novo núcleo carioca
do Arena, reunindo, entre outros, Milton Gonçalves, Nelson
Xavier, Vianinha, Chico de Assis, Flavio Migliaccio, Vera
Gertel e Isabel Ribeiro, desenvolveria no Rio um trabalho
permanente, independente da matriz paulista, mas entrosado
com ela; um projeto que nunca chegaria a ganhar corpo,
diante da criação autônoma do Grupo Opinião.

De um modo geral,
aqueles momentos de perplexidade que bruscamente se abatem
sobre o teatro, permitiu que as máscaras e as ilusões
caíssem o longo de 1965.
Em março deste ano aconteceu no Rio, a primeira proibição
total de um texto, "O Vigário", de Rolf Hochhuth. Em maio, a
atriz Isolda Cresta é detida, antes de uma sessão de
Electra, por ter lido na véspera um manifesto contra a
intervenção na República Dominicana. Em julho, o conflito se
exacerba, com a primeira proibição de um espetáculo prestes
a estrear, "O Berço do Herói", de Dias Gomes. O governador
assume pessoalmente a iniciativa da proibição, que é
formalizada pelo seu secretário de segurança, coronel
Gustavo Borges, que acusa os responsáveis pela montagem de
estarem "engajados na implantação de uma ditadura cultural,
através do abuso de liberdades democráticas e em estreita
obediência à recente diretriz do PCB" - uma linguagem que se
tornaria rotineira de então em diante (Vasconcellos, 1987).

Ao longo do ano, vários
textos são proibidos, e outros como "Os inimigos e Morte e
Vida Severina" sofrem interdições posteriormente levantadas;
outros ainda só conseguem estrear mutilados, como
"Liberdade, Liberdade", que na sua temporada em São Paulo
recebeu 25 cortes. A classe teatral mobilizava-se contra o
arbítrio: em agosto, uma carta aberta com 1.500 assinaturas
é entregue a Castelo Branco, protestando contra os abusos da
censura; e, em outubro, um telegrama enviado à Comissão de
Direitos Humanos da ONU denuncia os atentados contra a
liberdade de expressão no Brasil. O tempo encarregou-se logo
de demonstrar a inocuidade de tais reclamações.
Por um lado, os responsáveis pela revolução da linguagem
cênica que tomaria corpo a partir de 1966, sentem-se
inconformados e impotentes diante do sistema repressivo que
controla cada vez mais radicalmente a vida do país, riscando
do mapa qualquer noção de consulta popular, instalando de
cada vez mais um rígido sistema de censura, impondo como
obrigatória uma escala de valores morais alheios aos anseios
espontâneos da juventude. Uma válvula de escape para esse
inconformismo, no campo teatral, consistiu em contestar os
códigos expressivos tradicionalmente aceitos como corretos e
bem comportados, substituindo-os por alternativas nas quais
os fatores de novidade e de provocação atuassem como molas
propulsoras (Veríssimo, 1976).
Começam a penetrar nos ouvidos da juventude teatral os
primeiros ecos de uma grande revolução cultural que se
desenhava. Esse movimento, parte de uma sensação de
insatisfação, no caso, não com esquemas militares, mas com
valores culturais e éticos legados pelas gerações
anteriores, que são repudiados como caducos e necessitados
de urgente substituição por comportamentos radicalmente
diferentes.
Para Courtney
(1980:106):
Para dar a essas experiências uma legitimação, os escritos
do diretor e ensaísta francês Antonin Artaud, que na época
da sua publicação - os anos 1930 e 1940 - não foram levados
a sérios, são reabilitados e consagrados como uma bíblia do
novo teatro, e passa a ser o arsenal estético dos jovens
experimentadores.
Mesmo com esses pensamentos e atitudes vindas de fora, por
intelectuais e escritores, a censura continuava frenética.
Alguns dos seus desatinos: invasão do teatro jovem, no Rio,
para impedir a realização de um debate sobre Brecht, que
seria autorizado alguns dias depois; cortes em "Terror e
Miséria do III Reich"; detenção e Maceió, de um elenco
carioca que apresentava "Joana em Flor", de Reinaldo Jardim,
seguida de queima de exemplares do livro em praça pública;
eliminação do texto de "O Homem do Princípio ao Fim", após
vários meses em cartaz.
Michalski (1985), comenta que o anarquismo e as pressões a
que a nação se achava submetida, produziria em 1967 o seu
primeiro marco decisivo. Tão decisivo que se constituiria na
consagração de uma verdadeira proposta estética e cultural,
que abriria uma nova etapa do teatro brasileiro e serviria
de inspiração a inúmeros desdobramentos e imitações.
Vestido de noiva, um texto anárquico que Oswald de Andrade
escreveu entre 1933 e 1937, e no qual submeteu os
corrompidos esquemas de funcionamento do capitalismo
brasileiro a uma análise crítica de uma virulência sem
precedente. Em compensação, esse espírito parecia feito sob
medida para veicular a rebeldia dos jovens de 1967. Tanto,
que antes da estréia de "O Rei da Vela", de Oswald de
Andrade, o Oficina resolveu considerar o texto como seu "espetáculo-manifesto".
O espetáculo explodiu como uma bomba, arrancando aplausos da
maioria da crítica, deixando perplexo e abalado o
tradicionalmente burguês paulistano, e despertando, pelo seu
tom provocativo, desconfiança das autoridades.
Peixoto relata o
seguinte (1980:94):
A temporada em São Paulo seria tumultuada. Críticos
espantados, público entre o fascínio e o ódio. Em algumas
sessões havia gente que se levantava e agredia os atores
(verbalmente). Ameaças quase diárias. Publico sendo
revistado na entrada, um precário sistema de segurança
armado nos bastidores. Ameaças de depredação do teatro;
tínhamos um plano para escapar pelos fundos, se a
resistência fosse inútil. Esta tensão engravidava o
espetáculo. A censura agüentou em inesperado e surpreendente
silêncio. Às vezes telefonavam dizendo que as denúncias,
inclusive de militares, aumentavam. E que a pressão de
Brasília crescia. Mas nos recomendavam certa moderação, para
que tudo continuasse na santa paz.
Mas outras peças também foram perseguidas pela censura, e
sofreram cortes em seus textos, como por exemplo: "Dois
Perdidos", "Navalha na Carne" e "Volta ao Lar". Outras, como
"O homem e o Cavalo", de Oswald de Andrade, e "Os Sinceros",
de César Vieira, são sumariamente proibidas.

Toda a censura de
textos que até então era realizado de modo descentralizado
nos Estados, passou a ser concentrada por completo em
Brasília, obrigando os autores e produtores a deslocarem
suas tentativas freqüentes de resolver tais assuntos com as
autoridades censoras.
Gaspari(2002:131)
afirma que:
Talvez o ano mais trágico de toda história do teatro
brasileiro foi 1968. A censura assume um papel de
protagonista na cena nacional, declara guerra contra a
criação teatral, torna-se incomodamente presente no
cotidiano dos artistas. Em janeiro o general Juvêncio
Façanha que no ano anterior mandou o ameaçador recado para
os artistas "Ou vocês mudam, ou acabam", da uma
estarrecedora declaração, que define com clareza a atitude
do regime com à atividade cênica: "A classe teatral só tem
intelectuais, pés sujos, desvairados e vagabundos, que
entendem de tudo, menos de teatro".
Em fevereiro, um fato que deixou a classe teatral indignada,
foi a retirada da peça, "Um Bonde Chamado Desejo", de
Tennesse Williams, e ainda por cima de impor à atriz Maria
Fernanda, e ao produtor, Oscar Araripe uma suspensão de 30
dias. Os teatros do Rio e de São Paulo declaravam-se em
greve, em protesto liderados por personalidades como:
Cacilda Becker, Glauce Rocha, Tônia Carrero, Ruth Escobar e
Walmor Chagas. São realizadas por esses grupos, diversas
vigílias cívicas nas escadarias dos teatros das duas
cidades, e ocorrem vários conflitos com a polícia.
Em função do prestígio dos manifestantes e do ineditismo da
greve, o protesto toma uma repercussão que assusta as
autoridades. Em defesa de sua imagem, o governo institui um
grupo de trabalho, integrado por representantes das
entidades de classe e por técnicos do ministério, e elaboram
um projeto de uma nova lei sobre censura. Ao instalar a
comissão, o ministro Gama e Silva procura tranqüilizar os
artistas com a seguinte frase: "O teatro é livre; a censura
não os incomodará mais".
Continuando no mesmo raciocínio de Gaspari (2002), todos
levam à promessa como uma cínica piada, pois as proibições
não só não pararam, como se intensificaram. A tensão chega
ao auge em julho, quando o Comando de Caça aos Comunistas
invade, em São Paulo, o teatro onde estava em cartaz a peça,
"Roda Viva", de Chico Buarque, espancando e maltratando
vários membros do elenco e destruindo o cenário e o
equipamento técnico. Em setembro, no Rio Grande do Sul, a
mesma peça estava em cartaz, e voltaram a ser agredidos, e a
censura acabando por proibir o espetáculo.
Teatros como o Gil Vicente (RS) e o Opinião (RJ), sofrem
atentados a bomba, o ator Flavio Rangel é parado na rua e
tem sua cabeça raspada, a atriz Cacilda Becker é demitida do
seu emprego na TV Bandeirantes, por pressão dos órgãos de
segurança.
Dentro de toda essa perseguição, o grupo de trabalho criado
pelo ministro Gama e Silva, entregou em suas mãos um
anteprojeto de censura bem mais liberal o que estava em
vigor. Para o teatro, o projeto previa uma censura
classificatória por faixas etárias, o ministro porém
congelou o projeto durante alguns meses, e o encaminhou ao
presidente Costa e Silva, descaracterizado por um artigo que
mantinha, em parte, a censura interditória.
Nem por isso o teatro se acomodou. Procurou frestas inventou
uma linguagem cifrada ou aproveitou entrelinhas, refugiou-se
em locais onde não era possível o exercício da censura
prévia, trocou muitas vezes a palavra pelo gesto
significativo. Olhando essa década de vigência do Ato, é
impressionante constatar o quanto foi feito quando nada era
permitido.
Dentro deste contexto, o teatro fez o que pôde para
sobreviver com seus pensamentos, idéias e maneira de atuar,
sem ter que recuar diante de um governo autoritário e
violento. E o faz com uma raiva que as circunstâncias
justificam e que talvez, seja reforçada pelos ecos que
anunciam a radicalização dos movimentos da juventude em
vários países. Mas ao mesmo tempo, preocupa-se com o que a
violência no teatro tem de potencialmente irracional (Michalski,
1985).
Reunidos na Associação Brasileira de Imprensa, artistas de
teatro e cinema protestaram contra a invasão e depredação do
Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, e o espancamento do
elenco e de membros da equipe técnica do espetáculo "Roda
Viva". Os artistas presentes à reunião, entre eles Tônia
Carrero, Paulo Autran, Norma Benguel, Oduvaldo Vianna Filho,
Osvaldo Loureiro, Flávio Rangel, Norma Blum e Cecil Thiré,
exigiram a detenção dos culpados e a condenação "do
terrorismo de direita". O espetáculo já havia terminado
quando cerca de 20 pessoas começaram a depredar tudo,
gritando que eram do CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e
que não admitiam obscenidades no teatro. O público
retirou-se rapidamente, enquanto os agressores partiram em
direção ao camarim dos atores, quebrando o que encontrassem
pela frente. Armados de revólveres, cassetetes, soco-inglês
e martelos, espancaram o elenco da peça, despiram as atrizes
e obrigaram Marília Pêra e Rodrigo Santiago, também
despidos, irem para a rua (Michalski, 1985).
Os agressores, após a depredação e a violência, debandaram e
fugiram numa perua Kombi e num sedan Volkswagen bege claro,
mas alguns atores conseguiram deter três desses elementos.
Um primeiramente, que foi entregue a policiais da Rádio
Patrulha, que os deixaram escapar. Outros dois que foram
levados pessoalmente por atores e um de seus advogados ao
DOPS. Um deles foi identificado como advogado formado no
Mackenzie: Flavio Ercole. O outro como estudante de Economia
do Mackenzie, que seria também sargento do Exército segundo
foi dito na Assembléia realizada, logo após, no teatro Ruth
Escobar (Dort, 1977).
Para se defender de um possível ataque do CCC, a turma do
Oficina inventou uma grade de madeira ocupando todo o palco,
que descia no fim da peça. Além de fazer parte do cenário,
ela defendia os atores contra o CCC e dava o sentido ao
texto da peça (prisão de Galileu, de Brecht), que era, de
certa maneira, a mesma do grupo. Comentava-se que o CCC era
uma das mais raivosas e violentas facções da época, à
direita da burguesia, e que certamente seria protegida pela
polícia, no caso de agressões físicas aos artistas.
O clima de perseguições aos intelectuais e artistas
comunistas, e aos democratas de uma maneira geral - todos
igualmente considerados malditos -, continuava nas piores
proporções de violência possível. O ápice de todos foi a
invasão policial ao restaurante do Calabouço no Rio quando
mataram o estudante Édson Luís. Seus colegas levaram o corpo
para a Assembléia Legislativa. Teatros suspenderam os
espetáculos.
Segundo Gaspari (2002), a nação estava apavorada e sem rumo,
terminavam sendo educados a serem cada dia pior,
desconfiados, dedos-duros, falsos e mais pobres
culturalmente. O medo da inteligência instalava-se como um
vírus na população.
A classe média se afastou de vez do teatro, influenciada
pela campanha que o esquema dominante havia desfechado
contra ele, fazendo-o aparecer perante a opinião pública
como um antro de perversões, violências e subversão. O mais
prudente para o potencial espectador era passar longe das
bilheterias.
Não há como negar, que a barulhenta arte do chamado teatro
de agressão, assustou bastante o público tradicional, e, em
vez de fazer de tudo para não perder o espectador e forçá-lo
a participar ativamente dos acontecimentos cênicos, fizeram
o inverso, e o assustaram ainda mais, tornando as salas de
teatro mais vazias do que nunca.
Segundo afirmações de
Michalski (1985:39):
A qualidade dos espetáculos tende a nivelar por baixo, a
maioria não passa, compreensivelmente, de uma prudente
rotina. Mas o impulso de experimentação não se perde de
todo; pelo contrario, as poucas realizações que se opõem à
prudência reinante e escapam às malhas da censura revelam
múltiplas formas de talento e mantém vivo um sadio clima de
polemica.
Nesta época, houve muitos acontecimentos de violência,
agressões e traumáticas ocorrências no setor cultural. Mas o
teatro sobreviveu no sentido emocional, e novas e grandiosas
peças foram lançadas sem o teor da violência nos palcos.
Textos como "Na selva das cidades" de Brecht, trouxeram de
volta o espectador às cadeiras dos palcos teatrais, e dessa
forma os artistas foram se superando, e o glamour do teatro
começou a ser resgatado passo a passo.
Todos esses acontecimentos acima se deram no histórico ano
de 1968. Um ano que foi marcado pela sucessão de fatos
históricos. Segundo Ventura (1988), a geração de 1968 o
chamou de "o ano do novo", pois parecia ser o início de
alguma coisa. Por outro lado esta não pode ser considerada
uma geração falida, porque apesar de ambicionar uma
revolução total, não conseguiu mais do que uma revolução
cultural. Porém, para Ventura (1988:16): "arriscando a vida
pela política, ela não sabia, porém, que estava sendo salva
historicamente pela ética".
O conteúdo moral foi a melhor herança que a geração de 1968
deixou para um país cada vez mais governado pela falta de
memória e pela ausência de ética.
O tempo passou e passaram muitos dos acontecimentos para
essa nossa já histórica falta de memória cultural. Mas o
teatro se mantém e se renova a cada dia.
Com um maior número de atores se formando, surgem mais
grupos teatrais e o teatro brasileiro passa a se
diversificar. Comédia e drama se ramificam de modo criativo,
com montagens inesperadas. Muitos atores se unem para fazer
a criação coletiva do espetáculo. Dos grupos permanentes em
plena atividade hoje em dia podemos destacar o Grupo Tapa,
Parlapatões Patifes e Paspalhões, Cia do Latão, Teatro da
Vertigem e o grupo do diretor Antunes Filho, além do Teatro
Oficina de Zé Celso, entre outros. Cada um segue uma linha
de atuação e conquista seu público.
Segundo Alexandre Elias (2004), atualmente o TBC não se
encontra em posição confortável, estando prestes a fechar de
novo. O Teatro Brasileiro de Comédia foi reaberto em 1999,
depois de um processo de reforma e restauração de R$ 4
milhões, financiados pelo empresário Marcos Tidemann. Mais
de 50 peças já foram realizadas lá, desde sua reinauguração
até hoje. O teatro reconquistou seu público, e aparentemente
estava tudo dando certo. Mas funcionários já foram
demitidos, as chaves já foram entregues. Ou seja, mesmo com
o investimento feito, mesmo com público, o TBC fechará suas
portas. Não existem explicações declaradas sobre o novo
fechamento do TBC. Procuramos na Internet e nenhuma
explicação existe. Ainda, segundo Elias (2004) "Um famoso
diretor brasileiro disse que o Teatro (ou a arte teatral)
vai acabar, em mais ou menos 30 anos. Será que é isso mesmo?
Será que não adiantam esforços, o Teatro está mesmo
condenado?"
E do inesquecível TBC, apenas restarão as lembranças dos
tempos dos aplausos e sorrisos e o orgulho de seus nobres
artistas remanescentes como Fernanda Montenegro e Flavio
Rangel, que participaram de corpo e alma daquela época de
luta e coragem, ainda permanece em seus interiores, e jamais
serão esquecidos por eles, que vivenciaram épocas tão
difíceis para o teatro brasileiro.
São Paulo é ainda o principal pólo de teatro do Brasil. O
grande número de salas, escolas de teatro e cursos livres
possibilita uma renovação e crescimento constantes. Dentre
eles pode-se destacar aqueles que proliferam dentro das
universidades como na Unicamp, a Escola de Artes Dramáticas
da Universidade de São Paulo - USP, a Faculdade Paulista de
Artes e também no Centro de Comunicação de Artes (Senac), e
nas escolas teatrais como; Célia Helena, Macunaíma e Carmina
Domus. Podemos contar com cursos livres também, como por
exemplo: Casa do Teatro, Studio Cristina Mutarelli, Espaço
do Ator, Oficina Cultural Oswald Andrade e muitos outros.
Devemos lembrar a importância que o valor dos artistas de
teatro deram ao cumprir a tarefa de replicar e dar voz à
cidadania. No entanto, a sombra do autoritarismo que teve no
teatro a sua maior vítima ainda permanece. Ainda é possível
perceber, dentro da comunicação, os resquícios de seus
efeitos fatais.
(*) Carlos Aparecido dos
Santos é bacharelado e licenciado em História pela
Fundação Santo André - SP e professor de História no
Ensino Médio no Instituto de Ensino de São Caetano do Sul.
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