Setembro nos chega e já nos deixa com o seu calor
acachapante. Com as suas mazelas que tanto nos afligem a
cada fim de ano. Evidentemente que me refiro à cidade do
Recife transformada nessa época em sucursal do inferno
onde mal se consegue respirar. No entanto, para todos os
efeitos, estamos surfando em céu de brigadeiro.
"Nunca antes na história deste país a medicina beirou o
alto grau de perfeição".
Já sabem, pela verborragia quem andou deitando a falação
inconseqüente. Pois é, andamos tão bem assistidos nos
hospitais e clínicas do aparelho estatal que greves e
pedidos de demissão em massa de médicos e servidores são
meros acidentes de percurso. Ultimamente, só no Hospital
da Restauração, dos mais importantes e solicitados de
Pernambuco, duzentos pediram demissão e mais trezentos se
preparam para também requisitar o boné. Não se trata
apenas de reinvidicações salariais, mas principalmente de
condições de trabalho dignas. Como por exemplo, poder usar
mercurocromo, gaze e esparadrapo, etc. O novo Presidente
do Tribunal de Justiça, empossado recentemente, talvez
querendo mostrar serviço, do alto da sua cátedra acionou a
justiça e ameaçou os esculápios rebeldes bem como os
outros barnabés com o xilindró, que é lugar quentinho, se
não voltarem ao trabalho, imediatamente, ora onde já se
viu tamanha audácia! A resposta foi que o restante dos
médicos e funcionários entrarão em greve com pedidos de
demissão em massa na próxima semana. Comovente, não? A
aeronáutica montou, à exemplo do sul maravilha, um
hospital de campanha na praça em frente ao antigo
aeroporto, para tentar aliviar o movimento nos hospitais.
De uma inocuidade monumental. Não deu em nada. Mesma coisa
que enxugar gelo.
No meio de toda essa canseira, talvez a grande novidade
seja a visita inesperada de conhecida figura dos altos
espíritos e entidades siderais. Trata-se do Herr Doktor
Fritz. Pois é, o Doutor Fritz, aquele mesmo que morreu
durante a Primeira Guerra Mundial, e que agora,
recém-chegado do além, aportou à cidade em momento crucial
mas bastante apropriado. E, logo em seguida, ele que não é
bobo nem nada tratou de faturar o seu marketing pessoal
deslocando-se para o Ginásio da Imbiribeira onde já o
esperava colossal fila para as suas consultas e
"operações". O homem gosta mesmo é de público. É tão
chegado a um aplauso como qualquer Silvio Santos da vida.
Atualmente ele "vem" na pele de um mineiro com cara de
come-quieto.
O acaso me fez conhecer uma dessas versões com que o
falecido curandeiro costuma se apresentar para nós, pobres
mortais. Conheci o Doutor Fritz, ou melhor, o Dr. Edson
Queirós, em casa de um ex-aluno, político e empresário no
ramo da compra e venda de cavalos de raça. Confesso que
sua aparência não me foi das mais agradáveis. O homem mais
parecia uma arvore de natal com o tanto de penduricalhos
pelo corpo. Pulseiras, anéis, colares, tudo do mais
espalhafatoso ouro amarelo que chegavam a ofuscar a vista.
Falava o tempo todo em cavalos de raça e dólares, muitos
dólares. Barba por fazer, olhos injetados como se
estivesse drogado. Falava alto e roucamente, o capadócio.
Eternamente suado, cabelos desgrenhados, na realidade o
homem me inspirou um certo asco. Gratuito, é bem verdade
pois acabara de o conhecer. Eis que, pouco tempo depois,
ele termina a sua vida de modo trágico. Por tratar na
ponta do pé um dos serviçais do seu haras, levou um tiro
de espingarda 12 bem no focinho. Morreu com o peito em
festa e o coração a gargalhar. Pergunto: como é que uma
pessoa, que "recebe" o espírito de um caritativo médico
falecido durante a Primeira Grande Guerra, useiro e
vezeiro em praticar o bem, chega a ponto de levar um tiro
por humilhar um pobre e ignorante empregado? Coisas sem
explicação.
Já esse Dr Fritz de agora, (todo alemão é Fritz, pois
não?) quando "manifestado", vi pela TV, fala com sotaque
alemão ou o que ele acredita ser um sotaque alemão.
Conhece lingüística porventura, fala alemão? Palhaçada!
Coisa de fazer rir a um José Genoíno da vida. Em que se
baseia o feiticeiro para engabelar todos aqueles incautos
que acreditam no engodo e que formam piedosa fila para uma
consulta seguida de operação, onde se usa, à guisa de
bisturi, uma faca velha e rombuda?
A Triste Sina...
Por coincidência ou não, os outros "aparelhos", ou
cavalos-de-santo do Dr Fritz tiveram morte trágica. Arigó
e Edson Queiros. Será que tem lingüiça por debaixo desse
angu? Seria porventura uma terrível maldição por ter o
primeiro médico sido alemão. Nazista? Não creio. O
nazismo, como forma de governo e meio de extermínio ainda
estava no ovo da serpente. Latente. Esperando acontecer.
Preciso muitíssimo de um piedoso esclarecimento.
Cartas à Redação. (06-10-2008)