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Hugo Caldas

Do sapato, sua origem, sua serventia

O sapato é uma peça do vestuário que tem por finalidade proteger os pés das pessoas. Em inglês a palavra shoe deriva de uma outra palavra do inglês arcaico, sckh que, por sua vez, provém do latim obscuro, vindo a significar oculto, ocultar, guardar os pés.

Os egípcios dominavam a arte de curtir o couro e eram eram hábeis confeccionadores de calçados. Seus escravos faziam sandálias de couro, palha, papiro ou de outra fibra qualquer de palmeira. No entanto, no antigo Egito, era bastante comum as pessoas andarem descalças carregando as sandálias penduradas ao pescoço. Usavam-se calçados apenas quando absolutamente necessário. Os nobres, entretanto estavam sempre calçados com sandálias coloridas. Até o grande Faraó Tutancamon usava sandálias e sapatos de couro de porco, cravejados de enfeites de ouro. Evidências, entretanto mostram, que os sapatos foram inventados, no final do Período Paleolítico.

Na Mesopotâmia eram comuns os sapatos e sandálias de couro cru, amarrados aos pés por tiras do mesmo material. Os coturnos eram entrançados nas pernas e representavam o símbolo da alta posição social do dono dos pés que os usavam.

Na Grécia Antiga, chegaram a lançar moda, como a de modelos diferentes para cada pé, direito e esquerdo. A maledicência entretanto afirma que um administrador da cidade de Atenas, meio sobre o détraqué, estando de pileque calçou inadvertidamente os pés trocados. Daí a tão propalada moda.

Na Roma Antiga, o calçado indicava a classe social. Os cônsules usavam sapatos brancos, os senadores sapatos marrons, presos por quatro fitinhas pretas de couro atadas a dois nós, e o calçado tradicional das legiões de César era a bota de cano curto que evidenciava os dedos.

Na Idade Média, tanto homens como mulheres costumavam usar sapatos de couro curtido, fétidos, porém abertos, de cores berrantes e que tinham a forma semelhante ao das sapatilhas de balé.

Nas regiões frias do planeta, o mocassim, criação dos indígenas norte-americanos, e as botas russas de cano longo, são até hoje confeccionados para a devida proteção dos pés. Nos países mais quentes a sandália, bem como o chinelo, são evidentemente os mais usados. Na Holanda, ainda é comum o uso do popular tamanco de madeira feito em uma só peça.

Na Europa do século XIV, a moda ditava calçados de bico tão fino e longo, alguns com até 50 cm de comprimento, que para conseguir caminhar, era preciso prendê-los, com um cordão de seda, à coxa ou à cintura. Haja Deus! De certa forma esse tipo de sapato deve ter inspirado nossos atuais designers que fizeram renascer algo parecido com o tal bico fino, ótimo para matar baratas, encurralando-as nos cantos da parede. Já na França de Henrique IV, os sapatos eram tão estreitos que, para conseguir calçá-los, os elegantes da época tinham que ficar pelo menos duas horas com os pés mergulhados em salmoura gelada para que encolhessem.

Nas cortes venezianas, a moda eram os calçados perpetrados em cima de plataformas altíssimas. Tão altas que se tornava praticamente impossível caminhar com eles nos pés, a não ser com a ajuda de criados que seguravam as dondocas pelos sovacos e assim as arrastavam pelos insondáveis caminhos e salões da cidade.

Mas o cúmulo dos cúmulos eram os microscópicos sapatos usados pelas mulheres chinesas, até recentemente. Medindo cerca de 15 cm, eles obrigavam as coitadas a reduzir drasticamente o comprimento do pé. Uma tortura. Vá que se goste, que nem eu, de pés pequenos, mas aí já é exagero. Para o sucesso da empreitada, as chinesas, desde o nascimento, tinham os pés amassados sobre um cilindro de metal e, então, firmemente enfaixados até quando Deus dispusesse.

Nas Filipinas, a ex primeira-dama Imelda Marcos, viúva do ditador Ferdinando Marcos está lançando sua própria grife. Ela sempre foi conhecida pela imensa coleção de sapatos, estimada em mais de 3.000 pares variados. Enquanto colecionava sapatos, o marido governava o país dominado pela pobreza. O ditador foi defenestrado e no exílio Imelda comeu do pão que o diabo amassou. Agora de volta às Filipinas, com essa grife, ela pretende vender as peças da sua coleção particular por preços que variam entre US$ 20 e US $100, valores bem modestos mas que poderá ajudar a ex primeira-dama a colocar na mesa o leite das crianças.

Todos nós temos na vida, um caso a ser contado e relembrado, sobre sapatos. Às vezes histórias fantásticas povoam o nosso imaginário. Às vezes simples e doces lembranças. Quando completei quinze anos, o meu pai me presenteou com o mais recôndito sonho de consumo que povoava a minha jovem mente. Um sapato Fox. Pretinho retinto, bem confeccionado, confortável, dava ao pé uma elegância ímpar. Ótimo para dançar nos inúmeros "assustados" da época. Brilhava ao sol e às luzes da noite. Jamais esqueci o velho companheiro de guerra. Veio o ditoso mimo tomar o lugar de um horroroso sapato TANK, com chapas de metal no solado, que usávamos para irmos às lides escolares. Ainda hoje relembro com saudade o meu Fox. Era pau pra toda obra. Combinava com qualquer roupa e era "chic" usá-lo. Nunca que eu sofri de aberrações tais como calos e joanetes. Era o mesmo que pisar nas nuvens. Companheiro de todas as horas, espécie de conselheiro, não permitindo jamais que as minhas pobres canelas tremessem em situações constrangedoras.

Lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé, assim cantava o menestrel!

Nos dias de hoje, o calçado transcendeu sua finalidade inicial que é de proteção aos pés e passou a servir como adorno, acessório de moda, e bem mais recentemente lá pelas bandas de Bagdá, transformou-se em arma usada, nos momentos de ira, contra presidentes outrora poderosos, em visitas surpresas a paises que acabaram de destruir. Deve ser reconfortante quando o alvo é atingido.

Sapatadas em presidentes! Se a moda pega pelas bandas de cá não sei, mas bem que eu gostaria! (22-12-2008)


 

Uma História Natalina

Pelo fato de haver praticamente vivido dos 7 aos 12 anos de idade, dentro de um pequeno Piper Club pilotado por meu pai, histórias sobre aviadores e aviões me são bastante caras. Abaixo, relato da maneira como me foi contada essa História Natalina. Vale ressaltar que até a Segunda Guerra Mundial nós sabíamos perfeitamente quem era o mocinho e quem era o bandido. Hoje, infelizmente... H.C.

"Naquela manhã de 24 de dezembro de 1943, Charles Brown, de 21 anos, era o comandante do Boeing B-17 do 342º Grupo de Bombardeio em Kimbolton, Inglaterra. Seu B-17 era chamado “Ye Olde Pub” e se encontrava em terrível estado, após ser atingido diversas vezes por fogo antiaéreo e caças durante uma difícil missão de bombardeio de uma fábrica em Bremen, na Alemanha. Todo o equipamento de orientação, bússola, rádio, etc, estavam danificados e o avião absolutamente desorientado, se dirigia perigosamente cada vez mais para dentro do território alemão ao invés de voltar para a base em Kimbolton. Dos dez membros da tripulação sete estavam seriamente feridos e ele próprio sangrava, com um estilhaço encravado no ombro esquerdo.

Após um rasante sobre um aeroporto inimigo, Charlie Brown enquanto guiava o seu agonizante bombardeiro de volta para a base, sentiu o coração gelar quando olhou para a janela direita e viu que um Messerscmidt 109, avião de caça, armado até os dentes, voava junto à sua asa, perigosamente perto do que restava da sua Fortaleza Voadora.

O piloto de caça alemão, Franz Stigler havia sido ordenado a decolar e derrubar o que restava do B-17. Ao se aproximar do quadrimotor, o alemão não pôde acreditar no que estava vendo. Nunca tinha visto uma aeronave em estado tão ruim. Da cauda e da sessão traseira da aeronave pouco restava, o artilheiro de cauda estava ferido. O artilheiro de dorso tinha seus restos espalhados pela fuselagem. O nariz da aeronave estava esfacelado, e havia furos enormes por toda parte. Era só destruição.

Bem armado, Franz voou para o lado da Fortaleza Voadora e olhou fixamente para Charlie Brown que aterrorizado lutava para manter no ar seu destruído e ensangüentado avião. Parecia incrível que aquele B-17 tão despedaçado permanecesse no ar. Brown fazia de tudo para alcançar as costas da Inglaterra há 400 quilômetros dali.

Percebendo que os americanos não tinham a menor idéia de onde se encaminhavam, o piloto alemão começou a balançar as asas indicando que ele deveria virar 180 graus. Assim foi feito e Franz voou ao lado, escoltando o bombardeiro até o Mar do Norte, em direção à base na Inglaterra. Então, inesperadamente ele saudou Charlie Brown e voltou ao continente.

Ao pousar Franz, preencheu os formulários de praxe atestando haver derrubado o B-17 em pleno mar. Ele nunca disse a verdade a ninguém. Na chegada à Base, Charlie Brown e seus tripulantes contaram a verdade no relatório, mas receberam ordens de não comentar o incidente.

Mais de 40 anos se passaram e Charlie Brown não conseguia esquecer o incidente e queria encontrar o piloto da Luftwaffe que tinha salvado sua tripulação. O episódio do piloto alemão que recusou-se a atacar o adversário ferido continuava a lhe perseguir. Brown continuava no firme propósito de encontrar o piloto inimigo que o havia ajudado a chegar a base distante. Franz por sua vez jamais falou sobre a aventura, nem mesmo em reuniões no pós-guerra.

Quis o destino que eles se encontrassem numa reunião do 342º Grupo nos EUA em 1989, junto com outros cinco tripulantes do B-17. Brown escreveu numerosas cartas para fontes militares alemãs, mas teve pouco ou nenhum sucesso. Finalmente, uma pequena nota em jornal de veteranos da Luftwaffe exibiu uma resposta de Franz Stigler, ás de 28 vitórias aéreas. Ele, descobriu-se finalmente, foi aquele anjo misericordioso nos céus da Alemanha naquele fatídico 24 de dezembro, Véspera do Natal de 1943.

Foram 46 anos de espera, mas em 1989 Charles Brown, após uma troca de cartas, encontrou o misterioso homem do Me 109. Sabatinado, Stigler discorreu sobre detalhes comuns aos dois aviadores e não restou a menor dúvida sobre sua identidade. Na sua primeira carta para Brown, Stigler escreve:

- “Após todos esses anos, imagino o que aconteceu com o B-17, ele sobreviveu?”

Sobreviveu, por pouco. Mas porque o alemão não destruiu sua presa, absolutamente indefesa?

- “Não tive coração para aniquilar aqueles bravos homens, disse Stigler. Voei ao lado deles por um longo tempo. Eles tentavam desesperadamente voltar para a Base, e eu ia permitir que o fizessem. Eu não podia ter atirado neles”.

Após a guerra Stigler emigrou, para o Canadá e viveu perto de Vancouver, na Columbia Britânica. Um certo dia Brown voou para lá para uma reunião. Confraternizaram.

- "Ele quase quebrou minhas costelas, tão forte foi o seu abraço, disse Brown”.

Dai em diante os dois se visitaram com freqüência e apareceram juntos em eventos militares nos EUA e Canadá. No Air Force Ball de Miami em 1995, os dois receberam diversas honrarias. Franz Stigler faleceu no dia 22 de março de 2008, aos 92 anos de idade.

Toda essa história aconteceu porque Franz Stigler não disparou suas armas naquele dia."

Um Feliz Natal para todos. (15-12-2008)

 

Se o Reisinho da Casa Vai Demais ao Troninho

Amigos, eu ando estupefato, perplexo, preocupado, aturdido, pasmado, entorpecido, atônito e assombrado. Temo que o Brasil esteja se encaminhando ao perigoso terreno da galhofa, como muito bem dizia o patrono deste Blog, o Excelso Mestre Stanislaw Ponte Preta, lá pelos anos sessenta. Essa história de querer taxar como "coloquial" as diatribes do rei, querendo livrar a cara de certas pessoas é absolutamente desastroso. Pessoas que, ocupam cargos ditos importantes mas que ao simples fato de abrir a boca já denotam de onde vieram. É baixo calão mesmo, senhores. É linguagem chula, dona moça, que não se admite a um chefe de estado. É puro desrespeito. É a santa ignorância. Por onde anda a tão falada "Liturgia do Cargo"? Juro que não é preconceito ou puritanismo. É nojo mesmo. Será que alguém em sã consciência pode dormir com todo esse ruído?

Veja abaixo:

"DIARRÉIA BRAVA" e "SIFU"...acabam de entrar em cena esta semana e vieram se juntar ao que já existia de puro besteirol,  "PONTO G DA ECONOMIA," e outras baboseiras do ramo, além de umas metáforas futebolísticas e malucoides, absolutamente inadequadas para um Presidente da República. E pasmem, o site oficial do Planalto, devidamente orientado, censurou a joia da arenga presidencial, ao substituir a palavra "sifu" pela expressão "inaudível". Que coisa ridícula! Que palhaçada. A que ponto chegamos!

Enquanto isso na Brasílha da Fantasia...

Muito se fala "nas justas aposentadorias concedidas aos perseguidos pela ditadura". Quais, cara-pálida?  A viúva do operário Manuel Fiel Filho, por exemplo, não recebeu indenização alguma, apenas uma pensão mixuruca no valor de dois salários mínimos. Já o Jaguar, que passou a  vida toda biritando, e o chato do Ziraldo, que nunca arriscaram o pêlo e só foram em cana por alguns dias (a milicada tinha receio de arranjar mais problemas com esses mocinhos bonitos de Ipanema), receberam um milhão cada um, além de uma pensão de mais de 20 mil. O Carlos Heitor Cony, embora  tenha, no início da quartelada encarado os generais com seus artigos no Correio da Manhã, também levou o dele. E cuido que ainda existe uma enorme fila de "perseguidos" à espera do bem-bom. Estou a me repetir, já falei sobre o assunto em postagem anterior.

Termos escatológicos, (será que ele sabe o significado?) senhores, não são evidentemente recomendáveis para citações em cerimônias oficiais. Respeite o Brasil presidente, que nós o respeitaremos. Mas como tudo hoje esbarra no palavrão... Palavrão, no cinema, no teatro e na televisão nos dias de hoje, é quase como vírgula, é pausa para respiração dos atores. Na boca do presidente, então...

E a porra-louquice das Cotas? O bom senso me faz crer que esse pessoal que instituiu esta coisa ridícula de cotas para negros, está variando. Em qual planeta do Sistema Solar eles vivem? A dificuldade de definir quem é ou não negro, agora é o de menos. Já engendraram que deverão embarcar no mesmo barco das cotas, os índios, os pobres (sic) e os alunos oriundos de escolas públicas. É certo que o problema existe. Mas desconfio que a solução seja outra. Tem mais é que voltar lá na base. Não se pode, em pleno século 21 ficar acreditando em varinha de condão. Atualmente já passam o aluno automaticamente de uma série para outra. A reprovação é proibida. As estatísticas mentirosas, tão orgulhosamente apresentadas (98% das crianças estão na escola), mas esse mesmo alunado se compõe de pessoas semi-analfabetas que mal sabem assinar o próprio nome ao final do que antigamente se chamava Ginásio. E ler então é uma tragédia, não conseguem mesmo. Conclusão: Estamos na iminência de formar um bando de médicos, engenheiros, advogados, etc. sejam negros, índios ou pobres, absolutamente incompetentes. Além de apresentar um ranço preconceituoso ao contrário. Há que se trabalhar e muito para se obter mais do que um Certificado de Torneiro Mecânico.

E aí vêm as estatísticas e o Apedeuta atinge 70% de aprovação como bom ou ótimo. Dá pra acreditar? A canalha empoleirada no poder revira os olhinhos. Qual o critério ou segmento da população usados para se chegar a tal conclusão? Qualquer que tenha sido pode ser enganoso, como tudo na estatística. "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade", lembram? Hitler tinha noventa por cento de aceitação. Os outros dez ele mandava para as câmaras de gás. Chegaremos a isso? Temo que sim, pois se já esquecemos Mensalões, Delúbios, dólares na cueca, Marcos Valério, Genoíno e o assassinato do prefeito Celso Daniel, entre outros crimes.

Dia desses um amigo querido à propósito dos escatologismos tão em moda hoje em dia, saiu-se com essa: "Merda deve ser muito bom mesmo, pois um trilhão de moscas não podem estar enganadas." Um sábio, evidentemente. (08-12-2008)
 

Hugo Caldas é Professor de inglês e Ator     http://hugocaldas.blogspot.com/   -  hucaldas@gmail.com