LABIRINTO
TEATRO - ELPÍDIO NAVARRO - 2007
(Adaptação livre do
romance “LABIRINTO” de André de Figueiredo)
Personagens: ALFREDO,
MÃE, PESCADOR, POMPÍLIO, MULHER, MÉDICO, ENFERMEIRA,
FANTASMAS.
CENA I
(A ação se inicia com uma coreografia menos sincronizada
possível, do GRUPO DE DANÇA, cujos bailarinos brincam de
“fantasmas”, uns assustando aos outros. Iluminação tênue,
que à medida que cresce vai “expulsando” os “fantasmas” da
cena. Ao abrir totalmente a luz, é dia, numa campina, com um
casebre e um caminho do qual não se vê o fim. Em cena
Alfredo e Pescador.)
ALFREDO – Mas eu quero as casas da minha infância...
PESCADOR – Ah! Não sei não, meu senhor! Vai ver que o vento
carregou, a poeira cobriu, o fogo comeu. Vai ver, quem sabe?
ALFREDO – E aqui, onde vai dar?
PESCADOR - Não vai.
ALFREDO – Não vai o que?
PESCADOR – Não vai a lugar nenhum.
ALFREDO – Como é que não vai a lugar nenhum, se é um dos
poucos caminhos que eu vejo?
PESCADOR – Não é caminho feito por pé de gente não. Que Deus
me perdoe! (Faz o sinal da Cruz).
ALFREDO – Pé de bicho?
PESCADOR – Também não.
ALFREDO – Pé de quem, homem de Deus?
PESCADOR – Pé de morto. (Faz novamente do Sinal da Cruz)
– Isso vai dar na escola. Na antiga escola. É lá que os
mortos se encontram. Acho que todos voltaram para a escola.
A gente ouve eles cantarem, mas quando a gente entra na sala
da escola só vê ratos, baratas, teia de aranha, cobra,
lacrau, mas acho que é gente encantada. Um sapo de lá, uma
vez, olhou pra mim de um jeito que sou capaz de jurar, pelas
Cinco Chagas de Cristo, que dentro dele havia alguém.
ALFREDO – Me leva lá!
PESCADOR – Não levo não. Prometi a mim mesmo não ir mais lá.
Quando a gente não pode fazer nada pra ajudar, é melhor
deixar os mortos em paz. Acho que nem mesmo Sinhá Zeferina
bota os pés lá, doutor!
ALFREDO – Quem é sinhá Zeferina?
PESCADOR – Ninguém sabe quem é. Nem ela mesma. Apareceu.
Acho que foi depois de uma chuvarada. Chuvarada, não: vento.
Ela veio com o vento. De repente lá estava a palhoça e ela
na porta a gargalhar. “Que está fazendo aí, minha velha?”,
perguntei. E ela respondeu: (Imitando a velha) –
“Esperando. Quem me procura sempre me encontra! E agora ele
vem me procurar aqui”. Aí eu perguntei de novo: “Ele quem?”
Mas ela só disse: “Já falei demais!”
ALFREDO – Quero ver essa velha.
PESCADOR – Não acho coisa bonita para gente da cidade ver.
ALFREDO – Não vim atrás de coisas bonitas.
PESCADOR – E veio atrás de que?
ALFREDO – Como é que eu vou saber?
PESCADOR – Se o senhor não sabe, quem sabe?
ALFREDO – Alguém sabe o que eu procuro. Alguém sabe para
onde vou. O que me dana é que não sei nada e nem quem sabe!
Nunca soube onde vão dar os caminhos por onde caminho, nem
mesmo este que tenho na minha frente.
PESCADOR – Eu já disse: lá na escola.
ALFREDO –
(Tempo) -
Você sabe para onde você vai?
PESCADOR – Agora eu vou pescar. Outras horas eu apanho
mangas. Outras horas, maçaranduba, mangabas, cajus...
Outras horas... o senhor sabe!
ALFREDO – E a morte?
PESCADOR – Não é meu problema, seu doutor! Quem me botou
aqui um dia que tire. É problema Dele. Não gosto de me meter
em problema dos outros. Eu danço conforme a música. Se é pra
viver, eu vivo. Se é pra morrer, que a terra me seja leve.
ALFREDO – Você fala um pouco diferente. É daqui mesmo?
PESCADOR – Sim. Mas andei por todo esse Brasil. Fugi, mas
terminei caindo aqui. De vez em quando aparecem uns
estranhos como o senhor.
ALFREDO – Não sou estranho. Meu tataravô morreu aqui, meus
bisavós, avós, mãe...
PESCADOR – E o senhor, que veio fazer aqui?
ALFREDO – Morrer também, quem sabe?
PESCADOR – Pelo jeito o senhor não sabe nada!
ALFREDO – Cheguei exatamente a este ponto: não sei nada e
gostaria de morrer sabendo que sei alguma coisa.
PESCADOR – E o senhor vai viver aqui?
ALFREDO – Vou. Quer trabalhar para mim?
PESCADOR – Já vim aqui para não trabalhar pra ninguém. Se o
senhor quiser ajuda, eu ajudo. Pra dar uma mãozinha estou
sempre disposto. Pra trabalhar, nunca.
ALFREDO – Então vamos limpar a escola. É lá que eu vou
morar.
PESCADOR – Taí uma ajuda que eu não posso dar.
ALFREDO – Você tem medo?
PESCADOR – Não é questão de medo: é de respeito. Se os
mortos estão lá, que vivam sua morte em paz.
ALFREDO – Pois é pra lá que eu vou.
PESCADOR – Doutor, se o senhor amanhecer morto, a quem devo
anunciar?
ALFREDO – Se eu amanhecer morto, me enterra no bananal.
Minha mãe sempre quis ser bananeira... (Sai a luz. Saem
os personagens. A cena volta à penumbra do início).
CENA II
(Os “fantasmas” voltam a dançar, ao mesmo tempo em que
preparam a cena em frente à Escola. Ainda é dia ao
entardecer. Portas e janelas rangem ao serem balançadas por
leve vento).
ALFREDO –
(Saindo do interior da Escola. Falando para si mesmo.) –
Ouço o ranger das portas e janelas ou suspiros dos
mortos?... (Acocora-se) – As formigas caminham em
fila indiana. Têm um destino certo, sabem para onde ir... As
folhas que carregam enfeitam de verde seus caminhares.
(Permanece contemplativo. De passagem, o velho Pompílio pára
para observá-lo. Alfredo, sem vê-lo, continua falando
sozinho, agora se referindo ao prédio da Escola) –
Telhas quebradas, teias de aranhas por todo canto, cupins
devorando o que o vento e a chuva ainda não conseguiram
destruir...
POMPÍLIO – Nem os mortos em suas longas cantorias...
ALFREDO –
(Assustando-se um pouco) –
Cantorias... Ou lamúrias, talvez!
POMPÍLIO - Boa tarde, moço!
ALFREDO – Boa tarde, meu velho. O senhor mora por aqui?...
POMPÍLIO –
(Apresentando-se) –
Pompílio Nascimento, às suas ordens... Estou de passagem.
Vivo lá em baixo, na barra. Corto caminho por dentro desses
matos. É mais curto para chegar na bodega do povoado...
ALFREDO – Na barra... É pescador, Pompílio?
POMPÍLIO – Já fui. Hoje já não tenho a mesma força... Também
a vista não ajuda muito. Pescador vai perdendo a vista com o
sol que enfrenta no mar. Tem que olhar em frente. Muitas
vezes o sol está em frente...
ALFREDO – Entendo.
POMPÍLIO – Hoje vivo mais por conta dos parentes, dos amigos
que ainda conseguem trabalhar... Um peixinho aqui, uma ajuda
ali e a gente vai levando a vida, enquanto aguarda a nossa
vez, o dia que o Todo Poderoso destinou pra gente!
ALFREDO – Sei... Até ao dia em que virá morar aqui na
escola...
POMPÍLIO – É bem factível! (Ri) – Mas o moço, o que
faz por aqui? Cuidado que esta casa pode cair a qualquer
momento. Não sei como ainda não caiu! Parece até que está
esperando alguma coisa importante, esperando alguém...
ALFREDO –
(Cortando) –
Quem sabe não sou eu? Estou de mudança pra cá! (Pompílio
nada diz. Tempo) – Quer trabalhar? Quer ganhar um
dinheirinho? Vem me ajudar a limpar tudo, a consertar o
possível... Aceita?
POMPÍLIO – Hoje, não. Só se for amanhã cedo. Mas continuo
dizendo que é perigoso. Um vento forte e vai abaixo...
(Tempo) -Agora preciso ir comprar o meu fumo. Não
consigo dormir sem tirar umas baforadas do cachimbo! É o
único vício que me resta. Mas amanhã, se o moço quiser...
ALFREDO – Ficarei lhe aguardando... (Sai a luz, saem os
personagens. Sob tênue iluminação, os “fantasmas” voltam a
bailar, enquanto preparam a cena do interior da Escola).
CENA III
(Interior da Escola. Noite. Acesa e bruxuleante uma
lamparina completa a iluminação. Alfredo espanta as baratas
que teimam em passear por sobre suas malas de couro).
ALFREDO – Baratas... São eternas. Pensar que esse
bichinho nojento vem resistindo a milhares de anos, pois
foram mais fortes que os enormes dinossauros, que os
terríveis Tiranossauros Rex e os Raptors, felizmente todos
já mortos... Mortos... O velho também falou dos mortos que
habitam essa casa... (Estendendo uma manta no chão,
enquanto fala para si) – Serão esses mortos, de que
tanto falam, meus parentes? Terá voltado de Portugal o meu
tetravô para encontrar a tetravó escrava? E a minha mãe?
Será que a aceitaram nesse grupo? (Tempo) Que venham
os mortos! Que me digam o que os vivos jamais disseram!
(Tempo) – Não sei o que esperava ter ouvido dos vivos!
(Tempo) - Será que estou mesmo preparado para um
diálogo com os mortos? Ah, como é difícil ser vivo... Como é
difícil ser gente... Minha mãe! Minha mãe sempre dizia que
era melhor ser uma árvore... (Deita-se, procurando
acomodar-se na manta estendida) – Ela queria ser uma
bananeira... (Adormece. A iluminação torna-se totalmente
verde e tênue. A Mãe aparece como surgindo do nada, por
entre folhas de bananeira, conduzidas pelos “fantasmas
bailarinos” que permanecem em cena).
MÃE – Sabe, filho, às vezes eu gostaria de ser uma
bananeira. Gente sofre muito. Uma bananeira ao vento. Uma
bananeira na chuva. Debaixo de aguaceiro as bananeiras
parecem rir, gargalhar mesmo. Bananeiras não têm que amar a
ninguém e não precisam de ninguém para dar banana, cachos de
banana! Filho, se eu nascesse de novo gostaria de nascer
bananeira! Vai, filho, viaja, vai longe, bem longe e conhece
gente de todas as cores, de todas as religiões, experimentas
de tudo, procura sentir o gosto de todas as coisas e depois
volta aqui, em Gramame e conta para a tua mãe o que viste e
sentiste.
ALFREDO –
(Levantando-se) –
Álcool? Lisoforme? Que luz é essa? Que dor é essa
suspensa no teto, descendo, descendo, se espalhando pelo
corpo todo. Mãe, mãe, vem cá! Olha o que estão fazendo
comigo. (Subitamente começa a falar como um menino.) –
Folhas de bananeiras dançam no bananal! Mãe, olha aquela
folha de bananeira, parece um homem cagando!
MÃE – Deixa as folhas de bananeira em paz, Alfredo!
ALFREDO –
(Ainda como menino) –
Não são folhas. É o saci-pererê, calungas, serpentes se
enroscando, cascavel de verdade. É gente se abraçando e
dançando, se beijando... Mãe, mãe, por que está beijando
Chico de dona Amância? Aí, mãe, embaixo da mangueira-espada.
Daqui do alto estou vendo tudo! Mãe, por que está tirando o
vestido? Chico está tirando as calças. Por que se escondem
por entre as folhas, virando camaleão?... (Tempo. Volta a
ser adulto) – Não. Aquele suspiro não era da minha mãe.
Era tudo mentira que as folhas de bananeiras desenhavam no
ar, ao vento. Mas aquela folha de bananeira bem que parecia
com a minha mãe... Que besteira! Folha de bananeira é folha
de bananeira!
MÃE –
(Aproxima-se um pouco, embora mantendo distância) –
Sou eu mesma, Alfredo. Sua mãe!
ALFREDO –
(Como quem não quer aceitar) –
Devo deixar as folhas em paz...
MÃE –
(Insiste) –
Sou eu, filho!
ALFREDO – Então não sei que é folha de bananeira?
MÃE – Não, Alfredo. Não me chamaste?
ALFREDO –
(Observa a Mãe, ainda duvidando da sua presença) -
Ora, mãe! E quantas vezes não chamei antes?
MÃE – Pois é! Mas agora eu vim.
ALFREDO –
(Observa a Mãe novamente. Tempo) –
A senhora sofreu muito?
MÃE – Quando?
ALFREDO – Ora, quando levou as peixeiradas. Eu sempre me
perguntei: como teria sido a dor? Ele deu uma, duas, três
peixeiradas, mãe? Mas eu ouvi na venda que havia sido seis.
Foram seis peixeiradas, mãe?
MÃE – Foi uma dor só, filho! E para que falar nisto? O que
importa é que você continuou com vida. É você que tem coisas
a me dizer.
ALFREDO – E a senhora é feliz como bananeira?
MÃE – Que sabemos nós das bananeiras, meu filho? A sua luta
para tirar da terra o que ela não pode oferecer. Os bichos
que nos comem as raízes, as folhas que apodrecem e caem. A
luta pelo calor sol. As chuvas que chegam e ensopam tudo –
as chuvas que nunca param e acabam com as nossas folhas.
Afinal, é tudo tão doloroso, não é mesmo? Mas fale de sua
vida.
ALFREDO –
(Sentando-se sobre a manta) –
Mãe: essa sua fala pausada, há ternura na sua voz... Sinto
que minha vida não foi inútil: tenho o que ensinar aos
mortos... (Volta a deitar-se. A iluminação verde cai
lentamente até a escuridão total.)
CENA IV
( Volta a luz. É dia. O velho Pompílio, junto a Alfredo,
procura acordá-lo).
POMPÍLIO – Moço! Moço! Vim para ajudar na limpeza de tudo
isso aqui. Vamos ter muito trabalho!
ALFREDO –
(Falando para si mesmo) –
Foi mesmo sonho. Mas era tão real!
POMPÍLIO – Podemos começar?
ALFREDO –
(Levantando-se) –
Sabe, Pompílio. Já não sei se quero mesmo mudar alguma coisa
aqui... Tudo parece ser como é para ser. Tudo parece estar
no seu devido lugar...
POMPÍLIO – O doutor dormiu aqui. Não teve medo que tudo
desabasse?...
ALFREDO – Nem cheguei a pensar nisso! Foram tantas as
recordações da minha infância... Os meus caminhos, os
passeios com minha mãe, os ciganos... (Para si) –
Minha mãe se despindo para os ciganos...
POMPÍLIO - Lembro de um bando que andou por aqui. Uma mulher
me engabelou! Levou meu dinheiro e não deu nada em troca...
Só promessa!
ALFREDO – Promessas... Lembro das pastoras que prometiam
tudo para depois da função!
POMPÍLIO –
(Canta) -“Boa
noite meus senhores todos...”
ALFREDO – Ah, se novamente surgissem fogueiras e bandeiras
nas noites de Santo Antônio, São João e São Pedro! Pastoris
anunciariam mestras e contramestras. Mulheres carregadas de
gonorréia encheriam as cabeças das crianças de sonhos
estranhos...
POMPÍLIO –
(Canta) -“Oh!
Que calor, que calor na bacorinha...”
ALFREDO -...e cantando assim, levantariam as saias curtas
mostrando onde estava o calor, e os meninos, quase homens,
sentiriam dor entre as pernas e, depois, iriam enfiar o
pinto nas galinhas, cabras, mulas... Aquelas mulheres
audaciosas guardariam seus cancros e gonorréias para homens
que tivessem dinheiro e muito cabelo na virilha e não para
meninos de pentelhos ralos!
POMPÍLIO –(Canta)
-
“A barra do dia, já vem clareando...”
ALFREDO – Nunca cheguei a ver a despedida das pastoras.
Botavam-me para dormir antes. Só vi a barra do dia clarear
uma vez, na festa de fim do ano. Todos foram para a
beira-mar ver o dia amanhecer no novo ano...
POMPÍLIO – Eu torcia pelo Cordão Azul!
ALFREDO – E eu pelo Encarnado! Minha mãe era do Encarnado...
POMPÍLIO –
(Tempo) –
O que vamos fazer agora, doutor?
ALFREDO – Ah, sim! Vamos ver o que é possível ajeitar no que
resta da escola. Está tudo tão acabado... Acho que vamos
precisar de algum material e ferramentas.
POMPÍLIO – E muita sorte também! (Sai a luz. Fim da
Cena).
CENA V
(Telão com indicações de uma cidade grande: Rio de Janeiro.
Sombras de multidão no vai e vem das ruas. Alfredo interpela
uma transeunte.)
ALFREDO – Por acaso o seu nome é Paulo Soares? (Negativa
do transeunte. Interpela outro) – Seu nome é Paulo
Soares? (Nova negativa. Chama alguém) – Paulo Soares!
(Ninguém responde. Pára cansado da sua busca inútil.
Tempo) – Minha mãe assassinada, meu pai desaparecido...
Depois da tragédia, uma só informação: vivia no Rio de
Janeiro. Onde estaria ele agora? (Tempo) –
Ninguém jamais o encontrou... Essa minha vontade doentia de
encontrá-lo leva-me a sacrilégios: “Pai! Onde estais que não
respondes?” Nem Cristo sentia uma vontade maior! (Tempo)
Muitas vezes, caminhando pela Avenida Rio Branco,
olhando os edifícios, as vitrines, as caras das pessoas, os
automóveis, sou nada mais, nada menos, do que um homem à
procura do pai. Publico contos e poemas nos suplementos
literários, pensando sempre que ele pode ler nesses jornais:
autor, Alfredo Soares. Na minha memória o paterno andar
balanceado e as repetidas afirmações: você é cagado e
cuspido a cara de seu pai! Assim, quando vejo alguém
ligeiramente parecido comigo e bem mais velho, sinto o
coração bater apressado e não foram poucas as vezes que ouvi
respostas negativas: não me chamo Paulo Soares. Certa vez
segui um senhor idoso até o sanitário de um bar. (Foco em
um sanitário. Um velho de costas para o público numa atitude
de quem está urinando. Alfredo aproxima-se e faz o mesmo e
interpela o velho) – O senhor por acaso não se chama
Paulo Soares?!
VELHO – (Agressivo e com repulsa) – Veado sem
vergonha! (Aos gritos) No Rio de Janeiro não se pode
mais nem mijar, é veado por tudo que é lugar! (E
apontando para Alfredo, como se falasse para os
freqüentadores do bar) – Esse cara me seguiu desde a
Cinelândia até aqui, só para me atazanar no mictório! Não
sei onde estou que não lhe quebro a cara... (Luz cai em
resistência. Telão sobe.)
CENA VI
(Outra vez em frente da escola. Luz esverdeada, crescendo à
medida da aparição da mãe. Tenta ir ao seu encontro e ela o
impede com um gesto).
MÃE – Antes de morrer, filho, gostaria de ter tido
sombrinhas de todas as cores. Verde-amarela que nem a
bandeira nacional, uma preta, cor de anum brilhando ao sol
do meio-dia, uma azul que nem o céu sem nuvens, uma roxa que
nem as roupas dos santos na Semana da Paixão, uma verde que
nem a folha de bananeira lavada com água de temporal, uma
branquinha que nem a alma de negro bom, uma vermelha como
sangue de justo. E quando eu morresse não gostaria que
botassem flores no meu caixão e sim as minhas sombrinhas de
todas as cores. E quando eu virasse pó, junto com as minhas
sobrinhas, seria um pó colorido e eu ficaria debaixo da
terra, que nem arco-íres enterrado. Foi um desejo...
ALFREDO – Eu prometo, mãe! Vou buscas as suas sombrinhas,
mãe, e arrebento o teu túmulo para enfiá-las lá dentro, para
você ser transformada em arco-íris, mãe! Juro...(Tempo)
Mas eu não sei onde está o seu túmulo, eu não sei onde lhe
enterraram, me levaram daqui antes...
MÃE – Estava tudo verde. Tinha chovido. O verde parecia tudo
querer incendiar naquela tarde. Era verde por tudo quanto
era lado... Verde como os homens que acamparam, com suas
barracas verdes, espalhadas pelo verdejante mato rasteiro...
ALFREDO – E como se não bastasse o verde de tudo, o seu
vestido de seda era branco de bolinhas verdes e, naquela
tarde, elas pareciam querer saltar do vestido e se perder
nas roupas dos soldados, acampados aqui...
MÃE – Havia uma guerra. Era preciso matar todos os alemães
do mundo, comedores de fígados de criança. Aqueles soldados
não estavam ali por outra razão. Ai dos alemães se
aparecessem. Aqueles homens verdes, fortes e de sorrisos
fáceis matariam todos os brancos de merda e de cabelos de
milho que surgissem...
ALFREDO – E enquanto os alemães não vinham, os homens verdes
ficavam na beira do caminho assobiando para as mulheres que
passavam. Eram assobios que atraíam mais do que canto de
sereia, pois mulheres sem conta, em Gramame, tinham se
desnudado para os soldados, à sombra das barracas verdes.
MÃE – Eles eram fascinantes! As fivelas douradas, os botões
prateados, as botinas lustrando e o verde do resto, tudo
fascinava... (A luz cai em resistência e a Mãe sai).
ALFREDO – Naquela tarde os assobiados eram endereçados à
senhora, mãe! Seu caminhar à minha frente deixava-me ver: a
bunda bailava debaixo do vestido branco de bolinhas verdes.
Quanto mais assobiavam os soldados, mais a bunda parecia
dançar, como se não estivesse ouvindo assobios de homens
limpos, fortes e de sorrisos fáceis... (Pára. Contempla
um horizonte. Tempo. Explode) – Eu queria gritar: mãe, a
bunda está balançando muito! Mas não disse nada... (Luz
sai de estalo).
CENA VII
(Interior da escola. Tudo limpo, arrumado, mesa posta com
comida e um lampião. Alfredo observa tudo um tanto
espantado. Tempo. Pompílio entra).
POMPÍLIO – Dá licença?
Estou
de passagem e vim saber se vai precisar de mim...
ALFREDO – Ah! Foi você então? Não precisava se incomodar
tanto, Pompílio. Em todo caso, muito obrigado pela ajuda!
POMPÍLIO – Eu não fiz nada!...
ALFREDO – Você ainda acha que tudo isso não é nada?!
POMPÍLIO – Não, moço, eu não fiz nada mesmo! É a primeira
vez que estou vindo aqui hoje!
ALFREDO –
(Desconfiado)
– E essa limpeza toda? Essa cama de vara, um colchão forrado
com lençol. Esse lampião aceso, uma mesa também forrada,
pratos, camarões torrados, frutas... Temos aqui manga, caju,
banana, graviola, tudo isso... Se não foi você, quem foi?
(Pompílio gesticula que não sabe) –
Ontem, nós só fizemos uma limpeza superficial!
POMPÍLIO – Foi, sim senhor!
ALFREDDO – E então? Como explicar esta fartura toda?
POMPÍLIO – O doutor não pediu a ninguém que possa?...
ALFREDO - Não! Não conheço ninguém por aqui. Não comprei
nada. Não contratei nenhum serviço.
POMPÍLIO –
(Falando para si)
– Ela voltou!...
ALFREDO – Como? Quem voltou?
POMPÍLIO – A velha. A sinhá Zeferina. Só pode ser.
ALFREDO – Que velha é essa? Onde ela mora?
POMPÍLIO – Ninguém sabe. Vez em quando ela aparece e
desaparece. Sempre vem por aqui, pela escola. Dizem que é
alma penada...
ALFREDO – O senhor é a segunda pessoa que me fala dessa
velha...
POMPÍLIO – Eu? E o doutor falou mais com quem?
ALFREDO – Com velho pescador que mora lá em baixo, na Barra.
POMPÍLIO – Acho que sei de quem está falando... Quando a
velha Zeferina aparece ele também aparece e é com ele que
ela conversa. Só com ele! Parece até que se conhecem de
outra vida...
ALFREDO – Que outra vida? Não está querendo dizer que eles
não são...
POMPÍLIO – Dessa vida não. Não pode ser... Ninguém aparece e
desaparece sem deixar rastro algum. Para um vivente fica
difícil isso acontecer. Somente...
ALFREDO – Não pode ser, digo eu! O velho pescador mora lá em
baixo, na Barra, o senhor deve vê-lo por lá...
POMPÍLIO – Ele disse ao doutor que morava lá?
ALFREDO – Bem... Não sei... Pensando bem, acho que não. Mas
eu julguei que sim porque ele falou que ia pescar...
POMPÍLIO – Alma é como gente viva: mente, engana, brinca...
Também tem alma ruim, que procura fazer o mal...
ALFREDO – Ora, meu amigo, não me venha com histórias...
Quem nos pode fazer mal é gente viva! Os mortos só deixam
lembranças. Só voltam nos sonhos...
POMPÍLIO – Cada cabeça pensa do jeito que quer. Cada um sabe
das suas verdades...
ALFREDO - Tudo bem. Concordo. Essa conversa não nos leva a
lugar algum. Vamos aproveitar a mesa que está bem
apetitosa...
POMPÍLIO – Eu não, doutor. Se não foi o senhor quem preparou
tudo isso que está aí, quem preparou, preparou só para o
senhor. Não foi para mais ninguém. Mesmo que tivesse sido o
senhor, eu já tomei o meu café hoje, logo cedo... Enquanto
isso vou procurar uns paus aí pela mata, que sirva pra gente
começar a escorar a casa. Com licença, doutor!
(Sai a luz)
CENA VIII
(Mesmo cenário. Não há mais a mesa posta, apenas a lamparina
permanece. Alfredo dorme. Os fantasmas bananeiras saltitam .
Brincam entre si. A Mãe, ajoelhada , destaca-se num foco:)
MÃE – Essa história de paraíso é conversa pra boi dormir,
padre! Nunca houve paraíso e se houve não pode ter sido como
o senhor conta. Porque no momento em que Deus disse a Adão
e Eva:
Este é o fruto do mal , se comeres patati-patatá...
Aí, neste exato momento, começou o inferno. Que paraíso é
esse onde havia coisas proibidas, onde uma cobra diabólica
podia entrar e tentar Adão e Eva? Paraíso seria paz, e este
paraíso de que o senhor fala, não me cheira a paz. Deus
começou a aperrear o homem nesse paraíso e até hoje ainda
não descansou. É seu divertimento!
ALFREDO –
(Levantando-se) –
Mãe? É a senhora?
(Os fantasmas-bananeiras o envolve) –
E essas bananeiras? Como vieram parar aqui?
MÃE – Elas sempre me acompanham. Não me deixam solitária...
(E cada fantasma-bananeira entrega a Alfredo uma flor
amarela, que forma um buquê e leva-o até à Mãe. A mãe recebe
sorridente.) –
Filho, que bonito! As primeiras flores que você me deu...
Agora só falta você trazer as minhas sombrinhas coloridas...
(Conduzindo-o)
Vamos filho! Vamos nos deitar. Já chegou a hora...
(Deitam na manta onde Alfredo dormia. A Mãe puxa-o para cima
de si, como quem prepara uma pessoa para o coito. Alfredo,
ato contínuo, começa a beijar e abraçar a Mãe. Os
fantasmas-bananeiras reverenciam o casal com gestos em
volta do mesmo. A Mãe vai levantando a saia à medida que a
luz vai caindo. Ao escurecer totalmente, grito lancinante de
Alfredo).
ALFREDO – Mãe!...
(Fim da cena.)
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