Luciano Pires
CONFIANDO
Você
confia no governo brasileiro, seja ele do PT, PSDB, DEM,
PMDB, PSOL, PP, PV ou qualquer outro partido ou coalizão?
Carlos
Drummond de Andrade um dia escreveu que, “a confiança é um
ato de fé, e esta dispensa o raciocínio”.
Outro
dia fui almoçar no Clube Kolpinghaus, na Rua Barão do
Triunfo, em São Paulo. Lá encontrei uma banca onde dezenas
de livros usados estavam expostos, à venda. Num cantinho
havia uma caixa de papelão. Você pega os livros que quiser e
deixa o dinheiro na caixa, aberta. Não tem ninguém pra
conferir ou vigiar. A turma confia nos compradores.
Nos
EUA nunca entendi aquelas caixas automáticas que vendem
jornais. Você coloca uma moedinha e abre a tampa. Pega seu
jornal e vai embora. Mas se quiser pegar mais de um, pega.
Não tem ninguém para conferir, eles confiam nos compradores.
E
acabo de voltar da Finlândia. Lá conheci uma sociedade onde
tudo parece funcionar. Ruas limpas, tudo no lugar certo. O
check in e despacho de bagagens no aeroporto é
impressionante. O avião estaciona no terminal
pré-determinado. O ônibus está no lugar certo na hora certa.
Todo mundo tranqüilo, confiando nas outras pessoas e nos
processos.
Após a
Segunda Guerra os finlandeses, pressionados entre a Europa e
a União Soviética, escolheram o caminho do consenso, do
equilíbrio. Desde então foram governados por coalizões entre
partidos de todos os espectros políticos: da esquerda à
direita. Não há a disposição constante dos partidos de
oposição de plantar mentiras ou distorcer verdades tentando
quebrar a confiança no partido da posição. E vice-versa. E
se você examinar o mercado finlandês verá governo,
empresários, industriais, sindicatos e organizações civis
conversando civilizadamente para buscar entendimento.
A
Finlândia é uma sociedade baseada na confiança. Uma pesquisa
recente (Eurobarometer) apontou que 61% dos finlandeses
confiam no governo contra 32% da média européia.
Para
confiar no governo ou em qualquer entidade pública ou
privada temos que confiar em seus processos, na
transparência das transações, na lei tratando todos por
igual, no combate à corrupção. Mas brasileiros não confiam
em processos, confiam, quando muito, em pessoas. Precisam de
um líder virtuoso ao qual atribuir poderes e direitos. Ao
qual confiar esperança. Um líder que os conduza para o
paraíso, o que é muito perigoso – pois, “confiança é um ato
de fé, e esta dispensa o raciocínio”.
A fé
dispensa raciocínio... Fico imaginando se aqueles
finlandeses não raciocinam e concluo que - diferente dos
brasileiros – raciocinam tanto que confiam primeiro nos
processos. Sabem que a sociedade finlandesa está apoiada num
conjunto sólido de leis que serão cumpridas, seja lá quem
for o governante. E essa confiança é disseminada por toda a
sociedade.
Na
Finlândia, ladrões, assassinos, corruptores, pedófilos e
outros indivíduos com desvios de comportamento são
considerados foras-da-lei. E punidos. Sem discussões
socio-político-ideológicas em torno da culpa da
elite-burguesa-capitalista-sobre-o-bandido-pobre-preto-oprimido.
Mas
será que os finlandeses são perfeitos? Será que lá não
existem indivíduos que tentam se desviar dos processos,
tentam dar uns “jeitinhos”? Claro que existem. E lá – como
aqui - quem tiver mais dinheiro mais facilidade terá para
procurar se desviar dos processos.
Mas
essas pessoas não são tratadas como regra. São exceção.
Nas
sociedades suportadas pela cultura da confiança não existem
dúvidas sobre as leis e os processos criados para que elas
sejam cumpridas.
Quem
confia nas leis não precisa quebrá-las. (06-10-2008)
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