Luiz Alberto Machado

BELEZA NÃO É FUNDAMENTAL II
PAPO DE MULHER FEIA –
Gentamiga, danou-se tudo! Depois que eu postei aquele papo
de
BELEZA É MESMO FUNDAMENTAL?,
que a cambada achou de atochar uma tuia de mail a respeito.
A coisa entupiu minha caixa de mails e era só recado assim:
"Deus abençoe as mulheres bonitas, e as feias se sobrar
tempo”. Ou: "Mulher feia e limão, só com cachaça". Ou ainda:
“Mulher feia só serve para peidar em festa”. E alguns mais
desabusados: “Eu ia acabar com elas, mas aí os meninos de 14
anos iam morrer na mão... . E acrescentaram nominações para
as coitadas das barangas e trubufus, confira a quantidade de
nome que tem mulher feia: catira, bazuca, cadanga dos
inferno, bagulháo, saco malenchido, desgraça da humanidade,
erro da humanidade, hemorróida de cu-de-velho, brinquedo do
cão, coisa horrenda, bruxa, micóia, cocô de monstro, javali
das trevas, cão chupando manga, çxldkdfmgjgndika, cocoranga,
jaburanga, nhãozão, canhão, fubanga, bozenga, catita, sobra
de aborto frito, abarroamento, escracho do arregaço, tilanga,
guinú, facada no boga, rascunho do capeta, bota terror,
azeitona, azmodeu, filhote de cruiz-credo, sombra do capeta,
chupa-cabra, forma de fazer capeta, aborto de cadela vesga,
trem de dar em doido, trombada de jumento com um trem,
catiroba, caticoco, demonio das taquarera, lombriga
solitária, bosta de pomba, chulé nas teta, trabuco, pinóia,
machorra, fubanga, fumo goiano, ratazana, cambeta, mapa do
inferno, mistura de merda com bagulho, Pokemon do diabo,
eita, boba torrero! Que é que é isso?

O QUE A MULHER FAZ PRA FICAR BONITA?
O Doro sempre apronta das dele. Agora ele ganhou o opróbrio
buliçoso das distintas representantes femininas. Eis que ele
achou por bem de cascaviar nas catracas do quengo dele, o
que é que a mulher faz pra ficar bonita. Eu disse logo pra
ele: to fora, meu! E ele desaforado foi enumerando:
- Premêro, mulé pra ficá bunita se empiriquita toda, muda a
cor dos óio, se emperuca e pinta o cabelo, dá um trato na
lata e enche a cara de brebote, lambuza os beiços de batom
vivo, bota sutiã menor que o tamanho dos peito, aperta o cós
da saia pra ficá bem-feita, se depila toda, pinta as unha,
rebola toda reboculosa, empina a popa da bunda, anda de
salto alto na pontinha dos pés, bota manha na fala, se
agatinha revirando as espiada, se faz de difice, fica cheia
de nove hora, se arrocha toda, se profuma toda, se ajeita
toda, fica frochosa da gente amocegá sua trilha, eita, bicha
tinhosa da gota! Até que quano a gente se auto-endoidece-se
e leva pra casa no maior festêro, vixe que truvunca! Aí no
outro dia qunano a festa é só ressaca, quela desmonta o
teretetei todo, a gente s´assusta de dizê: - Vôte, minha
fia, de quá qui foi a boléia do tratô qui ocê caiu, hem?
Mas deixando as presepadas do Doro de lado, falando sério:
há um concurso na vera promovido pela
Vila Mulher.
O concurso pergunta: “O que uma MULHER é capaz de fazer para
ficar BONITA?” A melhor frase ganha um NOTEBOOK da marca
Dell, na cor branca! E se alguma das amigas que você indicou
ganhar, você também ganhará um prêmio super legal! Aí,
minha, boa sorte e participe. É só acessar:
Vila Mulher
e concorrer.

UMA PEIDADA BOA FAZ BEM PRA PRESSÃO (E PRA
SAÚDE TAMBÉM!!!!)
Verdade gente! O gás peidante pode ajudar a tratar pressão
alta, é o que diz um estudo pra lá de seríssimo. Apois veja:
O sulfeto de hidrogênio é conhecido por mau cheiro. Na
verdade é um gás que liberado em flatulências e em 'bombas
de cheiro' pode desempenhar o papel de regular a pressão
sangüínea, segundo um estudo da John Hopkins University,
publicado pela revista especializada Science. Na verdade,
diz o estudo que as pequenas quantidades de sulfeto de
hidrogênio – um gás tóxico gerado por bactérias que vivem no
intestino humano – é que são responsáveis pelo mau cheiro de
flatulências, mas que fazem bem pra saúde, fazem. E eles
avalizam. Apois ta. É que o estudo mostra que este gás
também é produzido por uma enzima encontrada em células que
revestem as artérias sanguíneas, chamada CSE, e ele teria o
papel de relaxar essas artérias e baixar a pressão.As
conclusões, tiradas a partir de um estudo com camundongos,
podem levar a novos tratamentos para a pressão alta.
Experiência: No estudo, camundongos geneticamente
modificados para ter deficiência da enzima CSE apresentaram
níveis de sulfeto de hidrogênio quase nulos, em comparação
com camundongos normais. As cobaias com deficiência da
enzima apresentavam pressão sanguínea cerca de 20% mais alta
do que os normais, resultados comparáveis à pressão alta em
humanos. Quando os camundongos modificados receberam um
remédio para relaxar as artérias – metacolina – não houve
diferença, indicando que o gás é responsável pelo
relaxamento. Já se sabe que outro gás, o óxido nítrico, está
envolvido no controle da pressão sanguínea. Disse o
pesquisador Solomon Snyder: "Agora que sabemos que o sulfeto
de hidrogênio tem um papel no controle da pressão, pode ser
possível criar terapias com remédios que aumentem sua
produção como alternativa para os atuais métodos de
tratamento de hipertensão",
Bem que eu desconfiava que pressão alta era falta de peidar
frouxo. Bem que eu desconfiava mesmo. Essa foi uma dica do
amigo Marcus Aranha. Afinal, Tataritaritatá também cuida da
sua saúde. Então peide, perca a vergonha e viva bem!
PS: Ah, você tá sabendo daquela da
tocha humana?
Hehehehehehehehe!
PIADINHA PRA
DESCONTRAIR:
(colaboração do amigo Chagas Lourenço).
Dois clitóris se encontram:
- Me disseram que você sofre de frigidez...
O outro rapidamente responde:
- São as más línguas...
E agora um recado pras
mulher feia:

LOAS, PETAS & PATRANHAS

Imagem:
Galo, de
Aldemir Martins.
KID MALVADEZA
Logo na arraiada ouvia-se toda fúfia no
clarinado dum galináceo peiú, num dos terreiros das casas
que possuíam seus quintais arborizados numa das margens do
rio Midibu.
Era imponente, todo espaçoso e cheio das pregas com as suas
cristas carnudas e avermelhadas, imprimindo-lhe uma robustez
invejável na variedade colorida de asas curtas e longas com
uma tonalidade mais acentuada para o preto, expondo esporas
salientes e afiadas, prontas para o que desse e viesse, num
ar altivo do seu bico semi-adunco, vigilante de num pregar o
olho no seu fiscalizar autoritário por todo o seu reduto.
Em sua magnificente atitude superior, o colendo alectório
não permitia que arremedassem seu canto ou qualquer audácia
de, pelo menos, de perto, imitá-lo em seu grandiloqüente
cocorocó, determinando o recolhimento de todos ao silêncio e
impondo uma obediência ímpar e voraz de todos os seus pares
e viventes daquela estância.
O bicho imperava, só abafando, folgado.
Após enunciar seu mavioso solfejo ele ficava de ouvido
aguçado, esperando qualquer arremedo por desafio. Ninguém
ousava tal afronta. E foi justamente por causa de uma
imitação debochada de seu sonoro alarido que se deu início a
tudo o que se narra por aí a seu respeito.
Disso, foi possível recolher um sem número de relatos
estrondosos sobre toda a galhardia pavoneada dele,
certificada por muitos de que não era à toa, pois desde
pequeno dera sinais de ostensiva malquerença.
Pois que, mal saído do ovo já demonstrava um
desassombramento em seu piado, botando até a mãe, Maria
Paulistinha, - até a mãe, reparem -, no seu devido lugar,
não permitindo nem que ela se metesse nas coisas que só a
ele diziam respeito.
É, era a besta do sétimo livro!
Para se ter uma idéia do seu avanço sobre tudo e todas as
coisas, tudo mesmo que existisse na redondeza a ele
pertencia, só dele, até o que era dos outros.
A sua intromissão destemperada afugentava dali todos os
pintinhos, galos, garnisés, concrizes, patos, marrecos,
gatos, lagartixas, besouros, cágados, sapos, rãs,
passarinhos, gansos, guinés, sagüis, porcos e até cachorros,
todos, invariavelmente, tornavam-se vítimas de sua ira,
cobaias de sua sanha.
Quando davam fé de sua presença assustadora, tratavam de
correr dali para não atrapalharem sua gula.
Era, tudo favorecia para que sozinho bicasse grãos, minhocas
e gusanos, mandando brasa desenfreado.
Ao que parece quanto mais se abastecia no seu repasto, mais
parecia ingerir demônios.
Era o que diziam na maior tremedeira, todas as vítimas
ofendidas por sua maligna impetuosidade.
O seu fastio não era lá tão exigente e se fartava com
tomates, macarrão, acerolas, nacos de carne de boi, jerimum,
laranja, pitanga, até chiclete, solado de sapatos, o que
fosse dando logo de inchar, adquirindo proporções cada vez
mais avantajadas.
Ninguém invadia o território dele - quem era doido? -, ou,
se por acaso das insolências qualquer pancrácio declinasse
do que era dele, enfrentaria a fundura de sua fúria de titã
dos maus bofes.
Nada, arredavam logo. Ôxe, quem fosse maluvido que ficasse,
tá!
Por certo, argumentavam aos cochichos alguns pávidos
vizinhos, que o bicho tinha partes com o tinhoso pelo que se
mostrava desaforado, arruaceiro e guardando um ódio mortal
por apito de panela de pressão.
Era. Era mesmo cismado com aquela zoadinha oriunda da
cozinha dando sinal de mau agouro prá banda dele. Mas, num
deixava por menos e jurava contenda esmagando o algoz, destá.
- Na hora agá - ameaçava duro mais que enraivecido -, só vai
dar ela! Um dia inda calo esse desaforo -, remendava.
Era um nó cego, dono absoluto daquela beira do rio Midibu,
dono da situação, o roliúde, o besta-fera.
Não demorou muito, a primeira queixa já dava por questão
séria:
Negão, um brutamontes da raça, achou, por bem do desavisado,
de implicar com o solfejo dele.
Arrepara, só.
Houve estremecimento, no entanto, torceram para que alguém
desse cabo da beligerância inata daquele todo cheio de
pregas, destamaínho, borra botas, que se auto-afirmava dono
dali.
Resultado: Negão sentiu de perto o que chamam de invasão de
domicílio com o seu escalpelo e abocanhamento selvagem das
galinhas do seu harém.
O ardiloso meteu-se na arenga não dando espaço para qualquer
reação do desafiante que, com sua ofensa descabida, teve a
cabeça aberta e uma espora na goela adentro. Era uma vez,
desaforo esse que lhe conferiu mais prestígio, ampliando seu
poder hegemônico sobre os pacíficos e covardes dali.
Foi aí que, depois disso, reuniu, então, para si, dois
galinheiros e ditou as normas que passaram a ser obedecidas
em cima da risca.
- Trasteje, não! Vacilou, no papo.
Outra reclamação partiu do proprietário de um pé de acerola
dum quintal limítrofe, denunciando que o famigerado vivia a
se fortificar com vitamina C, não sobrando fruta no pé, o
penoso saqueava tudo. Isso no de menos, bote queixa no rol
das desavenças.
Não demorou muito Gogó de Sola, outro afamado, achou por bem
de prestar contas com o intrépido, tomando as dores do
Negão.
Segura o tombo que lá vem bravata das boas.
Foi ciscado de fazer poeira. O sol escondeu-se, tudo
escureceu, trilha sonora mais que funérea fez-se acompanhar
o bafafá.
Ôxente, mais de hora de pena esvoaçando, Gogó de Sola,
campeão de rinhas e astuto dono de grande limitação de
terreno e de galinheiro, foi encontrado agonizante na beira
do rio. Óóóóóóóó!
O vencedor, nem aí, bateu asas, sapecou imperativo violento
e deitou maior zoadeiro confirmando mais um arrasador
nocaute nos adversários. Estava coroado o seu governo.
A esta altura, de instante a instante, surgia outro ofendido
desafiante. E o metido a besta cada vez mais afoito, virado
na gota para desbancar qualquer troça.
Chegou a vez de Mike Tyson - ih! Agora chegou a hora do
vamos ver! - que, na ocasião, pesava três quilos e duzentas
gramas, uma pedreira.
Tudo pronto para mais um desmantelo. Soou o gongo! Tóin!
Logo no primeiro assalto, o Mike levou um direto cavernoso,
sendo empapado sem muita resistência.
Foi aí que o valente usurpador tripudiou sobre o resto dele
e aprontou malvadezas, ciscou, cantou e pegou fogo,
desafiando tudo e todos para entrarem no combate para
defender o perdedor, uma ufanidade de causar arrepios nas
galinhas.
- Quem quiser que venha, tô pronto! Venha, magote de fresco!
Quem se arvorava? Ôxe, quem vê morre! Vai! Vai ver meio
mundo de quilômetro inferno adentro, queimando o rabo de
cabeça prá baixo, vai? Cada um já sabia de evitar tempo
ruim. Hum!
Dias depois, espia só, um novo postulante se apresentava
para a contenda.
Era o hexampeão das rinhas afamadas, o magistral Canela
Branca, galo formoso e valente.
O ringue já estava pronto. Bastava qualquer audácia, a
mundiça toda se aglomerava para ver no que dava. A maior
gritaria na torcida. Bastava o Kid Malvadeza levantar a asa,
o silêncio mandava ver. Óóóóóó. O ciscado começava. Nem mais
soava o gongo, era o vale-tudo! E tome revestrés.
Do embate sabe-se, apenas, que, até a presente data, o
preceptor encontra-se desaparecido em lugar incerto e não
sabido, desconfiando-se ser ainda encontrado com vida, ao
menos. Era de se esperar.
As vitórias constantes proporcionavam-lhe um prazer secreto,
além de reunir um verdadeiro harém, entre elas, nada menos
que She-ra, Raquel, Maria Pretinha, Bruna, Xuxa, Milongueta,
Maria Poedeira, Dulce Danada, Tania Alves, Demi Moore,
Adriana Esteves, Pituta, Adriana Galisteu, Arrazadinha,
Mil-ovos, Drag Car, Radical Chic, Mulher Gato, Kim Basinger,
Zefa Pernambucana, Quiba, Poiôio, Filó Doida, Tripa, Maria
Trambolho e Claudia Raia, esta última a que ele mais
gostava, mais ele enricava o bafejo.
Uma outra, a Quita Xangozeira, essa ele mantinha distância
devido suas mandingas.
As outras, não, ele se esfregava o dia inteiro e todo dia.
Era um conjunto de beldades mais invejado pelos sultões do
mundo que, invariavelmente, remetiam abelhudos para espionar
aquela maravilha reunida.
O cabra era o rola doce, mesmo.
- Quando nasci, mamãezinha passou açucá ni mim!!! -,
cantarolava pabo.
Certa feita, um tal intrometido, conhecido pelo alcunha de
Arizona, procedente da cidade de Aracaju, achou de, por
artes de não sei quem, se aprochegar de Tania Alves,
causando tal petulância, uma verdadeira indignação na
ruindade de senso do já indignado Malvadeza.
Uma guerra!
Do entrevero ruidoso, o dito cujo Arizona, terminou cantando
igual galinha e entrando em estado de muda, perdendo, aos
poucos, as penas, razão porque hoje ainda o chamam de Frango
Careca.
Pelo visto, respeito restabelecido e ordem no galinheiro sob
a ira de Malvadeza, já se perdeu a conta dos que foram
massacrados por motivos diversos ou alheios de pouca monta,
dentre os sarrabuiados o Mohamed Ali, Hércules, Costa Nua,
Sansão, George Foreman, Stalone, Chuck Norris, Shwarzzeneger,
Ninja Branco, Julio César Chaves, He-man, Penoso Kirkboxer,
Eder Jofre, chegando, o desditoso, a ser convidado para
integrar a World Boxin Association que lhe reconheceu a
importância da valentia e maestria no sparring, a aplicaçãp
de swings, uppercuts, cruzados, jabs, hooks, de formas a
deixar qualquer um de guarda aberta levando fumo.
Era mesmo invencível na hora do vamos ver.
Ora, pudera, levantava antes das cinco, corria mais de dez
mil metros, fazia ginástica de pugilista, comia de tudo que
encontrasse pelo chão e se divertia com suas concubinas a
tarde toda. E mais, depois do lazer, pulava com salto na
corda, saco de areia, punching-ball, ducha e apetite
insaciável. Pode?
A World Boxing Council também entrou na briga, recebendo até
uma boa colocação no ranking, quando Pituta adulterou com o
galo Vingador, pondo-lhe duas de quinhentos. Doeu o par de
chifres. Ele nunca se vira com um chapéu de touro. Óóóóóóóóó.
Foi barbada, como os outros, restando a morte para o
intruso. No entanto, ficou remoendo como é que foi traído
pela predileta e por isso, de lambuja, matou o galo cego Ray
Charles para aplacar-lhe a raiva que lhe remoía por dentro.
- Quem mandou o cego cantar a minha gaia? Quem? Sifu.
Providente aquartelou-as sob a vigilância diuturna de
duzentos e cinqüenta pintos eunucos e, se um cochilasse, ele
enrabava. Tome!
Nas suas pugnas o distinto confiador no seu taco, dispensava
a espora e o bico de prata razão de perder por várias vezes
esporas no gogó dos outros, num golpe mortal.
Tecnicamente, o bicho arredio dava de cortejar o adversário
arrodeando pelo terreiro até que o outro se lançasse; a
partir daí largava uma travessa, levava os ataques para o
ar, se rebatendo muito, empurrando muito, não deixando ser
atingido e quando o bico pegava batia fundo. Já era.
Numa luta com Jason Ford, outro que se dignou molestá-lo
numa proeza acirrada, terminou vitorioso e hospitalizado com
esporas fraturadas, penas quebradas, cabeça e pescoço
inchados e um olho furado. Eita, quase bate as botas o tal
Kid Malvadeza.
Mesmo assim, nem se comprometera o prêmio nóbel de ruindade
que houvera ganho no ano passado. Estava no pódium, na
primeira categoria.
O briguento meliante acabava sempre com forrobodós e, devido
sua insana vontade de brigar já recebera não sei quantas
ordens de prisão, bote mais habeas corpus impetrados, pagas
não sei quantas fianças, sursis, liberdades condicionais,
coações preventivas, buscas vigilantes, se safando com uma
escondida sorrateira nas grotas do rio por um bom espaço de
tempo, até que se esquecessem das ordens judiciais.
Oficial de Justiça, ó, no papo, conhecia todos,
amedrontando-os com uma foda na mulher deles ou numa
enrabada de arrancar-lhes as pregas.
Os mandados de prisão eram anunciados, depois os oficiais se
metiam com pé na bunda, para longe daquele malfazejo.
Já havia sido enquadrado como réu em todos os artigos do
Código Penal vigente, se achando já um preparado advogado
criminal, tal era a sua astúcia, sabendo de cor e salteado
todos os itens e parágrafos da legislação, prevendo até os
desdobramentos dos trâmites processuais.
Isso sem contar com a alternativa de não sei quantas
chicanas para salvar-lhe da punição.
Um outro motivo que levantou celeuma maculando sua
reputação, foi a delação das más línguas, de que ele ingeria
anabolizantes, tratando-o por viciado, um galo acelerado,
inclusive já com flagrante e tudo, cheio dos braquearos.
Era verdade. Gostava ele de, às escondidas, invadir um
território dum vizinho onde uma plantação de maconha se
apresentava impune e altaneira. O bicho se fartava
carburando as idéias.
- Tô ligado, meu!
Depois da quarentena, achou o destino de aprontar-lhe mais
uma: apresentou-se no seu terreiro um tal Jean Claude van
Damme o qual, num treino entre ambos, foram as vias de fato.
Jean já era. Terminado, bateu asas e renunciou participar de
um torneio em Timbauba por encará-lo uma verdadeira moleza.
- Sou lá de me virar na lambuja? Tô fora! Arriba!
O atual campeão do certame ficara ofendido e partiu, de
pronto, para um confronto. Era Freddie Krueger. Pelo
estardalhaço, fedeu. O negócio ficou feio. Pelo tope,
ninguém sabia quem chegaria ao final como vencedor.
Sabia-se que o tal Freddie era já aclamado pelas telas
cinematográficas, numa série para lá de violenta e cheia de
sadismos selvagens. Era uma verdadeira parada dura. E veio o
arranca-rabo!
Na peleja, foi cerca destruída, plantações inutilizadas,
poeira levantada, quintais invadidos, poleiros desmanchados,
pau dos grandes, requesta enorme.
Uma semana depois, estavam os dois quase que depenados, sem
platéia porque foram vítimas de uma epidemia de neucastro,
deportados e se tratando com um tal de Refraldin, sei lá
como é que se escreve essa droga.
Freddie não resistiu, acabou o pesadelo. Ele, o Kid, não,
meio capenga, foi se restabelecendo. Deu de andar de óculos
Ray-ban, bermudão, camisa de meia e chinelo, saiu por aí
para revigorar as energias. Lembrava das trapuchas e
desprezava os galispos que já enfrentara. Apenas um
adversário faltava ainda enfrentar, apenas um, seu inimigo
mortal. Os outros já se curvaram mediante sua maestria e
tinha de estar pronto para o embate final, seria sua última
luta, depois, penduraria as chuteiras.
Dias e dias meditando na técnica para enfrentá-lo e, naquele
dia, se aprontava com os apetrechos de escarapela. Sabia que
seria difícil e restou por fitar o rio, a vizinhança
deserta, mirando o sol. Sabia que seria mesmo uma dureza,
talvez nem retornasse. Seu coração bulia frequentemente, não
se continha na ansiedade, até que se desejou boa sorte e
partiu. Invadiu o quintal, se esgueirou pela escadaria,
batente por batente, atento, se apoderou dos recantos da
cozinha, tratou de não ser surpreendido, saltou no fogão e
começou a lutar. Golpes e mais golpes e nada de nocautear o
desafeto. Cansou-se e reagiu, mergulhou de cabeça na luta,
apenas os pés de fora, num banho de colorau, tempero, alho,
sal, vinagre, óleo, verduras e fogo baixo. Este o triste fim
do Kid Malvadeza: numa panela de pressão. (03-11-2008)
FANDANGO

Imagem:
Fandango,
recolhida do livro Espetáculos Populares de Pernambuco, de
Carlos Fonte
Filho. Recife: Bagaço. 1999.
FANDANGO DO VAI QUASE NUM
VOLTA
Afogando de gole em gole mágoas e anáguas ali
estavam aboletados, em destaque pelos gritos, o Divaniço, um
empolado católico, todo entroncado, metido a besta,
perturbador nato que quando se lavava numa pirocada saía
dando tudo o que era seu e o que não era - só não dava o
frosquete porque não era permitido pela religião dele,
arrotava -, achegado a putas e petas nas horas vagas e a um
conluio entre o trambique e a agiotagem.
Do lado dele, o Gulu, óculos no pau da venta, olhos
apertados, tomador de muitas e boas, doido por mulher
perdida, douto de leituras várias nas horas de ócio, puxador
compulsivo do tabaco que enodoava os dedos, beiços e pulmões
encardidos e achegado a pitar de outras ervas daninhas
perseguidas pelo opróbrio popular.
Ao lado de ambos, o Carneirinho, era outro letrado, óculos à
La John Lennon, mascando chicletes sempre, correto,
avantajado, feições alouradas e destruidor de famas pelo
peculiar escárnio, carregando uma hérnia que mais parecia
uma lata de queijo do reino entre as pernas e uma
perseguição medonha para descobrir-lhe os pais biológicos
que o abandonara em tenra idade.
Outro da trupe: o Gonçalo, esse nem fede nem cheira,
dominado pela mulher, cuidador dos filhos, só faltando dar o
de mamar para eles, mangador e maria-vai-com-as-outras,
possuidor do cacoete mais intrigante de todos: o de amolegar
a bimba e depois ficar cheirando os dedos - pantim
desgraçado esse, reclamavam.
Mais o Mô Desentoado, esse desinfeliz tinha o poder de
trucidar tímpanos com sua viola num acorde de sol e
solfejando a melodia da toada em si bemol, cheio das pregas
como que abafando num show, com sua mínima diferenciação
entoada mais popularmente conhecida por desafinação braba,
caçula predileto da mãe, num dava um prego numa cocada mas
que pelo paparicado dos pais era o mais afortunado do grupo,
o mais cheio de nove horas e pabulagens.
Fechando a roda, o Selenito, magricela astuto, mentiroso de
não dar dó, peiticando com tudo e acometido de uma
rouquidão, que dava a impressão de que se estivesse numa
câmara de hélio comprimido, ou seja, imitando Pato Donald
para insultar a pacutia dos outros.
Todos bebericando descompromissadamente numa manguaça
desenfreada desde das dez horas matutinas sem se dar conta
da hostilidade das águas na vez dos afogamentos. Glup! Era
água pelo nariz, pelos ouvidos, pelos buracos todos do
corpo. Até umasoras! Era uma sede de não haver que saciasse.
Vai beber assim no raio que o parta!
É que já se aproximava os festejos natalinos e
confraternizavam-se antes da hora, como sempre adiantados
que só disco de embreagem deslizando, Jingle Bell, Jingle
Bell, acabou papel, não faz mal, não faz mal, limpe com meu
pau. Assimétricas toleimas duma congregação de proscritos.
Os caras já bebiam por nada, avalie. E quando comemoravam
era mais que boca aberta nas cataratas de Nova Iguaçu e não
dando vencimento para sede tamanha. Num sei como as tripas
do bucho agüentavam.
A discussão começara logo cedo para ver quem pagaria a
conta. O liseu estava brabo, se bem que nossos diletos
pinguços não se encontravam desempregados, mas que por via
de cachaçada diária, gastavam a mais da conta. E como
gastavam. Num tinha mês que resistisse, quando o salário
chegava num dava nem dez dias. Estavam mais liso que sabão
em asfalto novo.
- A gente devia de receber por semana o salário de um mês!
-, reclamou Mô Desentoado.
Logo quem dizia isso, o mais folgado de todos, ensaiando uma
xêxada no dono do estabelecimento comercial.
A trupe bebarrona tinha lá seus locais prediletos, mas este
mês estavam todos com o saldo estourado nos fiados dos
botequins, décimo terceiro parcelado, gratificações
suspensas e chegavam ali por convite do Zé Sapinho que
inaugurara o bar há poucos dias e receberia aqueles
inveterados bebedores para avaliação de sua empreitada e de
braços abertos prontos para a crucificação. Tum! E era
quiquiqui, cacacá. E tome mais.
Zé Sapinho abrira a exceção bateriam o centro no primeiro
prego - olhe só que risco de xêxo; prego não, grampo de
linha férrea; xêxo, o quê? Um jorge no coitado do dono, de
trocar pinto por fuga de papaléguas. E: nunca mais!
Pois bem, lá estavam eles, pedindo tira-gosto aos tantos
numa prova ao paladar de saborear seu tempero, de passoca
injeitada à pissicas ineivadas; bebidas várias a julgarem da
procedência e originalidade da sua adega, de café com coca
cola a champanhe importada; música ambiente conforme o gosto
deles que interrompiam tantos discos a outros mais
receptivos em detrimento de outros noutras mesas, isso no
xote, no frevo, no maracatu, lambadas, bossas, axés,
baladas, cheganças, marujadas, cirandas, cornagens e
mungangas; deitavam e rolavam assanhados, esfuziantes e dono
das ventas.
- Meu, quem vai bancar essa conta? -, interrogou Gulu.
- A gente deixa no prego, depois paga, num tem serviço de
proteção ao crédito que me iniba! -, finalizou Divaniço,
agora mais posudo que antes.
- E se inventassem uma serasa para botequim, hem?
Às três da tarde já exigiam que Sapinho suspendesse o
atendimento de outras mesas, ficando ao dispor exclusivo
deles. E pela atenção meteram elogios aos condimentos
apimentados das iguarias servidas, ingeriram cachaça de
todas as qualidades, música de todos os gostos e, depois,
calaram o maestro agulha e começaram sua própria batucada.
Esquindô-dô-dô! Os bombos se arrepiaram!
"truléu, léu, léu,
truléu da Marieta,
que nós somos marinheiros
dessa Nau Catarineta..."
E navegaram no mar dos copos por todos os oceanos possíveis,
remando a bombordo rumo a que lugar imaginário, alhures.
Melados, buscavam dragões mitológicos nos seus delírios,
refaziam roteiros de antigos navegantes em suas ousadias, de
vento em popa, atravessando tormentas até alcançarem a
placidez das águas no copo beiçado e lambido que esperava
enxutinho por outra talagada de três dedos.
Que latitude então bordejavam abandonando as costas
insulares e continentais? Que longitude poderiam seguir uma
hora seguindo a observação da Estrela Polar? Noutra, seguiam
sempre pela esquerda da Ursa Maior? Por conveniência da
perdição de todos, anuíram de seguir a constelação do navio
dos argonautas. A direção da venta e pronto. Era cada curva
do nego ficar zonzo só com a perícia, imagine.
Lá para as tantas encontraram uma garrafa e no interior dela
uma carta de suicida. Choraram, lavaram a alma e a culpa. Se
arrepiaram.
Divaniço de agora como oficial condecorado, Capitão de
Mar-e-Guerra da nau, aboiava o cardume que se lhe seguia;
acompanhado de Gulú, com o violão, que se tornara o
Comandante. Carneirinho, com uma gaita, o Cirurgião-mor; Mô
Desentoado, segurando um chocalho ritmado era o Vassoura
Zelador proibido de emitir qualquer pigarro ou som gutural -
desafinava até na tosse. E Selenito, batucando em sua
disritmia capenga, era o Ermitão. Os outros, quem quisesse,
seriam mouros e vassalos deles.
Começaram com ubá dum casco de pau cavado na maior tiranada.
Daí foram se transformando até num transatlântico, tamanha a
invencionice deles. E cruzaram com canoas, pranchas,
garoupeiras, lanchas, alvarengas, pirogas, bacuçus, - eita,
u-ru! - vaticanos, baleeiras, vigilengas, gambarras,
galeotas, - segura o tombo, doido! - baligiras, veleiros,
balsas, serradores, palhabotes, saveiros, - "quem te ensinou
a nadar? Foi, foi, marinheiro, foi os peixinhos do mar!" -
batelões, galés, botes, cruzadores, - "assassinaram o
camarão!" - barcaças, caravelas, boieiras, escaleres,
fragatas, - "o meu navio também flutua nos verdes mares de
norte a sul!" - pelotas, burrinhas, paquetes, cabritas,
navios, canhoneiros, - "o mari é lindo, a noite é bela,
desfralda a vela, remar, remar!" - fragatas, petroleiros,
oceanográficos, clíperes, rebocadores, cargueiros, - "como
pode o peixe vivo viver fora da água fria, como poderei
viver sem a tua companhia!" - quebra-gelos, geleiras,
igarités, caçoeiras, - "nem que eu bebesse o mar encheria o
que tenho de fundo..."- oiates, perus, chatas, jangadas,
igaras, gambarras, piperis, cochas, catraias, - "o barco
virou, tornou a virar, foi por causa..." - faluas, cúteres,
almadias, catamarãs, escunas...
- Para onde será que vai todo mundo?
- Todos vão, quando não, para o vai não volta!!
E era o quadrirreme de Dias de Siracusa; os minoanos de
Creta, os fenícios que iam para a Cornuália atrás de
estanho; os vikings para a Groenlândia, icebergs imensos
ajudando no queimor da pinga; submarinos militares; as
bujarronas no gurupé das jangadas dos pescadores; o incêndio
do bergantim na fuga do pirata Lancaster; o Padre Roma
iniciando uma revolução; mestre Joaquim dando fuga aos
negros escravos na jangada Juriquiti; as galeras de Antígono
e Demétrio; o tenente João das Botas defendendo a ilha de
Itaparica e derrotando a esquadra portuguesa do general
Madeira, - vivaaaa!; o barco de Ptolomeu VI; Chico da
Matilde na Liberdade; o mestre Filó acenando; o mestre
Jerônimo mangando; o Roche-fort; o galeão das Cruzadas com
os santos fajutos de Cristo; o Couronne bretão; o
Royal-Louis de Toulon; o Sans-Pareil, o Clipper, o Santa
Maria de Colombo nas beiras do Mundo Novo; o Great-Republic.
E não parou por ai. Bordejaram mais. Encontraram a paz
universal de Kublai Khan; os estudantes do Profissional List
of Rio Grande do Sul Marine Molusk e os da Lista Preliminar
dos moluscos marinhos de Alagoas; epidemias de escorbuto; um
cruzeiro de usineiros que sonegaram impostos e se riam da
leseira da população; o pirata Jean Ango; o Jacques Custeau
em suas pesquisas ultramarinas; El-Rei Dom Sebastião
encantado ouvindo o choro dos sacrificados que velavam a sua
ressurreição; o mundo de Artur Conan Doyle; o naufrágio do
Titanic; uma manifestação dos sem-terra agora jogados na
água; eita!
Era o ataque de corsários furiosos a um bem perto; o velho
de Hemingway; os piratas Durguay-Trouin, Jean Bart, Francis
Drake, John Wawkins e Henry Morgan; as canções de Dorival
Caymmi; os deputados corruptos de todas as assembléias
legislativas, dando tiro pelo flagrante; o Aaron Manby; o
Rhadamanthus, o Otto Mahn, o Uss Tritão, o Clermont, o Comet,
o Sirlus, o Great-Western, o Britânica, o Mauritânia, o
Lusitânia, o Olympic, o United States, o Queen Elizabeth, o
France, o Cristóforo Colombo, o Leonardo da Vinci, o Bismark,
o Enterprise, o Savannah, o Holland, o Nautilus, o Triton, o
George Washington, o Batiscafo, o Hidrodeslizador Hovercraft,
a importação do cedro do Líbano, os capitães da areia de
Jorge Amado; as trocas de mercadorias com a biblos fenícia;
a vinda da escória portuguesa para o Brasil; a nau dos vivos
em petição de miséria clamando a Deus por uma salvação; a
dos mortos que se safaram das broncas naturais da vida; e
ainda pensavam que estavam no Sea Diver ou no Conshelf,
homenageando São Pedro, invocando o santo José de Ribamar; e
São Sebastião para não naufragar.
Gulu, mais espremido que nunca, já havia lido o Milhão, o
livro de Marco Polo, cidadão de Veneza, chamado Milhão, onde
são narradas as maravilhas do mundo, vinte e quatro anos
pelo Oriente e questionava quando será que o homem fará
domicílio nas águas porque a terra poluída e degradada não
lhes dará razão alguma mais para moradia? Que os latifúndios
avarentos expulsariam, que os poderosos excluiriam, que a
fome e a desgraça afugentariam, que os impostos e o custo de
vida desterrariam, que a impossibilidade de vida na crosta
terrestre os transformariam em aquanautas incólumes das
desigualdades do planeta terra que se transformaria para os
pobres e desvalidos em água.
Deu em nada. E Gulu escapou de todos os acontecimentos entre
os dedos, fazendo os outros, ouvidos de mercador. E o La
Jolla? Pulmões ou guelras? Para quem leva porrada assim
mesmo, melhor tentar mergulhar, num é, não? Ou se afoga ou
morre pisoteado. Qual? Se correr o bicho pega, se ficar o
bicho come. Ou nada ou nada.
Gulu ainda insistia com a voz engrolada, sem saber que
raciocínio concatenar, falando do compasso da Navigare, a
Carta Pisana, as tabelas de Amálfi, do quadrante, do
astrolábio, do sextante, que giroscópio então? Que bússola?
- Eu não sou peixe prá viver na água! Mas que aqui em cima,
na crosta terreste, a coisa tá braba, tá! -, sentenciou o
afônico Selenito.
- Já pensou a gente chegar o tanto de viver em menos de
metro quadrado? -, Mô Desentoado contrapôs e: - morreria
tudo sufocado, num era não?
- Vocês estão com muita pacutia, isso sim! -, reclamou
Divaniço.
- Eu que vou mergulhar gente! -, pulou na água Gonçalo.
E mergulhou na fundura, no meio de vegetais marinhos e
plânctons, buscando o búzio dourado das ilhas Fidji.
Inútil, já tinha mais de mil atrás disso. Homem ao mar!
Quase morre afogado num fosse a intervenção de todos.
Carneirinho puxou a rede, desmalhou peixes e eis que veio um
molusco que Gulu já trazendo consigo um galão de álcool na
busca de conchas, aprofundou seus conhecimentos de
malacologista, ampliando seu rol de culturas inúteis como a
de interpretar sonhos enigmáticos, decifrar charadas e
trava-línguas, buscas cosmogônicas de registros acásicos,
primórdios teocráticos e teológicos, o que determinava seu
ateísmo voluntário por descrença que qualquer religião valha
mais que uma bosta fedida.
- "Venho deitar uma loa, que andei té agora estudando!"
Selenito, fanhoso e debilitado pelo excesso de álcool
ingerido, se segurava no mastro real da embarcação, fingindo
traquete, com três ou quatro vergas, a bandeira do Brasil
num dos dois mastaréus, tendo todos os estais, brandais,
ovéns, o nome Nau Catarineta escrito na proa, orgulhoso de
se ter a oportunidade de estar numa verdadeira La Nave Va.
- Que broa boa!
- "Não falo em broa, parvo, senão em loa que é louvor!" -,
frisou emputecido Gulu.
- Essa não é a Nau Catânia não, viu gente? -, zombou
Carneirinho com uma só virada de copo, vira, vira, vira,
vira, vira, vira, vira, vira, vira, virou!
- "Quando meu mestre me manda correr nau pela proa, vem-me
logo na lembrança as mulheres que são boas!" -, fez munganga
rouca Selenito.
Uma grande lamparina de folhas-de-flandres, a querosene e de
morrão grosso à prova de vento, acesa nos mastros, iluminava
os intrépidos navegadores que surrupiavam o vernáculo.
Esqueceram que quando se estar no mar não se assobia, nem se
canta, nem se conversa para não despertar a fúria do mar em
ondas altas e espumantes. Só se reza, salvando-se de
batalhas como a de Alcácer-Quibir.
Quando vão a vento, vão a vela; quando pára, vão de vara ou
zunga. Fugiam das corredeiras e dos pés-de-vento. Iam a
barlavento, outra hora se mordiam e já seguiam a sotavento.
Depois à deriva. Bote goladas nisso. Tomavam ora direção a
bombordo, mas já adernavam a estibordo.
A carranca da proa deu três gemidos, sinal de maus
presságios. Ficaram atentos.
- Governa o leme, homem! -, gritou Selenito.
Desouviam. O proeiro e o bico de proa se agarravam aos cabos
de espeques para melhor equilíbrio no mar. E cantaram assim
mesmo, molhados até a última encarnação.
- "Marinheiros somos, marujos do mar, nós que de longe
viemos para vos vir festejar!"
Eis que um estranho folgado, daqueles arregueiros que
invadem a cachaçada dos outros, simpatizando dos três tempos
e sapateado, adentrou na nau deles no maior arrego.
Estavam tão embevecidos com seus acordes que nem tavam nem
aí praquele que se dava já por Gageiro no meio da troça.
- O rei mouro quer nos foder a alma! -, berrou o Gageiro.
- Êêêêêêêê! Tirar o tiruléu! -, todos em coro!
- Ê boi do cu cagado! -, sentenciou Divaniço Capitão.
- Tiruléu, léu, léu!
- "Aqui viemos Deus Menino, vosso festejo formar; uma cruel,
longa história nós viemos relatar."-, relatou o Capitão.
- "Rema quem rema, bravo marinheiro! Quem não rema não ganha
dinheiro!"
- Rema prá mim, rema prá tu, quem não rema direito, vai
tomar no cu!
- "Estamos prontos para pelejar e navegar convosco sobre as
ondas do mar!" -, fecharam todos.
E tomaram cada qual o seu lugar com trejeitos e rapapás nos
enfrexates laterais.
O gageiro inquieto nas enxárcias, depois na verga do velacho,
ou no mastro do traquete ou no mastro da mezena, um bicho
arisco e estradeiro.
Veio então a fome, de tudo já comeram, acabaram todos os
mantimentos. Verdadeira inanição assolada.
Foi quando tiveram a ilustre idéia dos antropófagos. Pelo
jeito iam comer uns aos outros.
Aplacando os canibais, o Gageiro botou ordem na casa.
Botaram no jogo da porrinha quem seria a vítima sacrificada
para saciá-los. Era a sorte, quem fosse que fosse.
O Gageiro comandava a organização da pugna. E vieram chamas,
palpites nos palitinhos. Vieram todos de lona, revogaram
tudo e olhe que o blefe foi dos altos. De novo.
O Mô Desentoado foi o primeiro a ficar de fora. O Gulú
estava esperto, adivinhou o palpite certo, eximindo-se.
Carneirinho foi na medida, escapuliu. Gonçalo, numa cagada,
ficou na lateral. Selenito, escapou fedendo. Divaniço, o
comandante, era o desafortunado. Então, como último pedido,
solicitou ao Gageiro que subisse no mastro a ver se avistava
salvação.
Os outros já língua lambendo os beiços, esperavam imolá-lo
vivinho.
- Avisto terras de Espanha, areias de Portugal! -, cantou o
Gageiro!
- Gageiro, pela minha salvação, dou-te a filha que tenho,
todas as moedas do bolso e quantas quiseres mais!
- Não quero nada, quero a tua alma!
- Vôte?
- Quero a tua alma, apenas.
- É o tinhoso gente!
- Sou regatão, negocio vidas nas águas.
Todos estremeceram. Ficaram assustados, cada qual encostado
nas bordas do navio. Era um fedor de enxôfre da pôrra!
- Não adianta, é você que eu quero!
- Não vou vender minha alma ao diabo, nunca! -, e benzeu-se
ininterruptamente.
- Seu destino está traçado, vou levá-lo por bem ou por mal!
- Eu sou jovem ainda, não mereço agora morrer!
- É agora ou nunca!
- Se tenho opção, prefiro nunca!
Divaniço sem saída pulou dentro do mar e eis que um anjo
salvou-lhe a vida. O sangreiro velho espirrava na sua cara.
Ele notou nas mãos que seu rosto estava enxaguado.
- Rárárárárá! -, riam-se todos.
- Outro tombo desses, tu perde a vida desgraçado. Como é que
o cara fica bêbo de dar um cochilo no copo de quase morrer
afogado? (27-10-2008)
COISAS DO FUTEBOL
JOGO DURO
O futebol sempre fora uma daquelas
avassaladoras paixões do povinho simples de Alagoinhanduba.
Era mesmo. Para se ter uma idéia, tirante os festejos da
padroeira, da emancipação local e das quatro festas do ano,
o jogo era a atração indispensável nas vinte e quatro horas
que cobriam os mais recônditos e aprazíveis escaninhos dali.
Basta! Ó! Fosse no mormaço do dia ou no prurido da noite,
era só baralho, dominó, porrinha, gamão, fliperama, apostas,
da velha, pules, palpites, adivinhações e similares,
ocupando o ócio daquele povinho sem futuro no abismo dos
instantes.
A sensaboria só abandonava aquilo ali apenas nas eleições,
nos escândalos, nos adultérios flagrados, nas ostentações
ruidosas dos pirobos, nas festas do calendário oficial ou no
azáfama de uma competição marcada para o estádio local.
Ah, o campo não era nenhum Maracanã, mas era o orgulho dos
munícipes, principalmente nas decisões dos clubes que se
digladiavam num campeonato cheio de rodadas, quadrangulares,
melhor de três, na vera, valendo, revanche, desforra, nêga,
repescagens, cartolagem, conchavos e arrumações, para uma
inequívoca decisão entre os favoritos Anhaguera Sporting
Club Alagoinhandubense e o Gremio Esportivo Usina Santa
Anunciação dos Martírios, popularmente conhecidos como
Anhaguera e Martírios, as cores mais favoritas, com
privilégios até superiores aos da Seleção Brasileira. Ôxe,
bote fé.
Os protagonistas desta maratona batiam o pontapé inicial a
primeiro de janeiro, nos festejos do ano novo, encerrando a
temporada com uma decisão ruidosa e cheia de animosidade no
dia 24 de dezembro, sob as bênçãos fraternais do momento
natalino.
Apesar de se encerrar a contenda às vésperas do Natal, o
resultado do certame não era tão altruístico assim, como se
exigia que fosse. Mas, destá! Vôte! A decisão sempre vinha
acompanhada de vandalismo dos espíritos beligerantes que
arengavam por todas as ruas, artérias, logradouros,
recantos, transversais, avenidas, becos, vielas, cancelas,
mata-burros, rodagens, rodovias, ferrovias, distritos,
vilarejos, arruados, esquinas, veredas, alhures, antros,
capoeiras, várzeas, travessas, rincões e algures. Ufa! Era
mesmo. Isso porque sempre findavam indignados com a lebre
levantada de uma suspeitável ladroagem dos cartolas, mais
apimentada pelas arbitragens duvidosas que apadrinhavam um
ou outro naquele pleito futebolístico.
Menino, na vera, o negócio era fogo na roupa!
Não havia como a parcialidade tomar conta dos resultados,
pendendo para um ou para outro, balanceando os títulos entre
os de maior torcida, acirrando ainda mais os ânimos dos
fanáticos mais febris.
Na verdade, era um tanto de nebulosas negociações que
expectoravam nos comentários mais cabeludos dos torcedores,
invariavelmente, em pé de guerra contra o favorecimento
deste ou daquele time.
Dá, então, para se entender que ali eram todos contra todos,
envolvendo nervos, músculos e desaforos, até findar na
rebentada braba lascando a fachada dos fariseus ardorosos.
Quem lucrava com isso era o farmacêutico Jactâncio Numeriano
e seus enfermeiros. Quanto mais a turba fosse incontrolável,
mais ele torcia para ver os aleijões de fora. E tinha mais:
quem não podia pagar as intervenções cirúrgicas ou as
prescrições doidas do único ser que mais ou menos entendia
de desaleijar os arrebentados, tinha de ser bancado ou pela
prefeitura, ou pelos políticos apadrinhadores ou mesmo pelos
próprios clubes futebolísticos. Senão, já viu, a vaca tossia
e novos escândalos arrebentavam sob a ira dos familiares do
vitimado.
Cada um dos patrocinadores livravam logo a sua pele,
avalizando o atendimento necessário. Quem era doido avolumar
mais ainda as ingrezias? Quem? Isso sem contar com os
coadjuvantes que não possuíam protetorado algum, como
Flamengo Barro Duro, Coité do Nóia Futebol Clube, Sociedade
Esportiva Alagoinhandubense, Canavieiro Esportivo, Calunga
Escrete de Ouro, Mata Garrote Esporte Centenário, Biriteiros
Esporte Social, entre outros. Aliás, este último, era o
principal lanterninha e, às vezes, maior azarão dos grandes
clubes, devido posicionamento irregular de seus atletas
antes, durante e depois das competições.
Outros escretes de pega-na-rua incrementavam os turnos
esportivos, ora causando dor de cabeça nos majoritários, ora
se desfazendo após a primeira derrota clamorosa, agigantando
o miúdo confronto entre os de maior torcida.
Os dois principais líderes massacravam seus adversários com
goleadas estrondosas, garantindo uma competição no confronto
da final das finais, com uma expectativa de emoções muitas e
desacertos demasiados.
Naquele ano, ao final de uma ruidosa e irregular trambicagem
no tapetão, o Anhanguera tornara-se octacampeão. Por isso,
os índices de mortalidade aumentaram de bater recorde nas
estatísticas locais.
Nunca tanta gente virara alvo de balas, facadas, esfoladas,
cacetadas, foiçadas e petecadas. E o pior, era que cada
morto arrastava mais outros tantos para a cova, devido rixa
que nascia e não terminaria nem tão cedo.
Com o título do clube, estava prevista a festa da entrega de
faixas. E depois de muita noite de sono, escolheram uma
agremiação de renome, o Escolinha Futebol Clube, time de uma
cidade vizinha que se sagrara nebulosamente campeão
estadual, derrotando as equipes favoritas da capital. Fora,
sem dúvida, um certame duro, desmoralizador, zebra das
zebras, a ponto de todo futebol do estado ficar de cabeça
baixa.
Alagoinhanduba nem se parecia com aquela pasmaceira de dias
longos e noites maiores, como sempre. Uma algazarra
esfuziante tomava conta da cidade.
Logo de manhã o prefeito inaugurara um montão de obras
públicas, retribuindo como gratidão tanto aos atletas do
Anhaguera pelo feito bravo e histórico, quanto aos eleitores
e desafetos do lugar.
Para isso inventara de última hora a entrega das faixas de
campeão aos atletas oito vezes consecutivos líderes na
história do futebol daquela cidade, para premiá-los com uma
parafernália sem precedentes na história do município.
A festa, grande, com inaugurações do chafariz da rua São
Lucas dos Desesperados, com discursos e encerramento do
pavilhão local tremulando ao lado das bandeiras estaduais e
nacionais. Era o calçamento do bairro do Caçotinho, com uma
passeata rumorosa e pesunhando forte sobre o paralelepípedo
invés de massapé; Era a arborização da Praça Santo Aquino
dos Embriagados, mais lugar próprio para mijada de cachorro
e homenagem a uma palmeira centenária no meio da rua. A
iluminação da rua Santo Antão dos Devedores, antes escuridão
de breu. E tantas e tantas outras realizações da
administração pública de somenos importância, complementando
a efeméride.
Houve discurseira braba dos mais importantes da região,
augurando melhorias para aquela gente pacata, mera demagogia
dos políticos aplaudidos com fervor.
Os mais importantes como o Padre Lucidalvo, o major
Ernestildo Cavalcante, o fiscal de rendas, pretenso
candidato a prefeito, Edtelmo Justiniano, o presidente da
Câmara de Vereadores, o bodegueiro Joventino Emereciano, o
tabelião Adautino Lopes, e a primeira-dama e cafetina
Lindinaldita e seu marido puxando o saco do Deputado
João-dos-cavalos pelos melhoramentos empreendidos com sua
interveniência ali, se ajuntavam num palanque, gritando seus
propósitos inúteis para esquentar a festividade.
Ao meio dia em ponto, toda a população se espremia
concentrada em frente ao palanque armado na calçada da
catedral da matriz, portando faixas e cartazes em homenagem
ao Anhaguera.
A expectativa era grande e as emissoras de rádio das cidades
vizinhas se aboletaram ali, instalando seus equipamentos e
locutores para cobrir todo evento, dos discursos inflamados
até a partida que estava por acontecer.
Era uma gritaria, um puxa-e-encolhe e todos apinhados,
aguardando a hora do confronto e a chegada do visitante.
Na cabeça de cada um, estava a imagem da pompa com que eles
chegariam, beiçudos e metidos-a-merda, cheios de nove horas.
Não era prá menos, aqueles eram os atuais campeões do
estado. Deveriam de chegar num daqueles ônibus executivo, de
vidros fumê e ar refrigerado, daquele de não sei quantos
pneus e de uma elegância autoritária só vista na televisão.
Com mais de hora de gritaria, eis que surge um caminhão
desgovernado, indo direto para foder a multidão. Era um
daqueles caindo os pedaços, com um bocado de marmanjo na
carroceria e um desatinado gritador na boléia, vociferando
para os da frente saírem por motivos de ausência dos
respectivos freios.
Nossa, que vexame!!
Foi uma correria, de resultar meio mundo de gente nas
calçadas arranhando as fuças, testas, braços, antebraços,
queixos, orelhas, mãos, dedos, pernas e troncos; uns tantos
com membros fraturados, fissuras musculares, pescoços
entronchados, colunas desminliguidas, pernas desconjuntadas,
gaias arrancadas, dedos desmentidos, côxas contundidas,
olhos enviesados, dentes extraídos, cotovelos assambocados,
pulsos imobilizados, clavículas arreadas, costelas partidas,
até um certo maluvido que não entendera o que ocorria,
findava por perder os documentos sexuais pendurado no
pára-choque do caminhão enfesado.
- Tô capado, gente! Tô capado! -, era o grito de desespero
do anônimo.
O que antes era alegria resultou num atendimento hospitalar
das maiores conseqüências, uma vez que o comercial pesado de
marca não-identificada e surgido do inopinado quase
atropelara a população inteira, causando uma catástrofe sem
precedentes na história do município.
Felizmente o desgraçado veículo esbarrou na palmeira
centenária que estava fincada há anos no meio da rua.
- Isto é lá lugar de plantar uma árvore!
- Ela num saiu da frente, ó!
O povo, ôxe, mordido e ouriçado, protestava veementemente
contra o veículo que se intrometera no meio das
comemorações.
Um dos ocupantes da boléia já se refazendo do incidente,
ainda conseguiu indagar de um transeunte salvo, onde se
estabelecia a prefeitura.
- É ali mas trate logo de tirar esta merda véia da frente
que o ônibus da escolinha tá vindo aí!
Depois de muito empurra-empurra e safanões, certificaram-se
ser aquele veículo desgraçado o que dava por condução da
famigerada Escolinha.
Ah! O que? É nada!? O quê? Sim... mas pia só?
Foi muito apupo e revolta.
- Tão querendo acabar a festa, é?
- É mentira!
- Bota logo eles pra correr, gente!
Foi pra mais de uma hora de discussão.
Era, não era!
Até que conciliaram: para tirar a dúvida era só chamar o
contato. Era exatamente Zé Bolo Crú.
- Cadê ele?
- Tá na feira de Ribingudo!
Era dia de domingo, saíram procurando, caçando agulha num
palheiro, encontraram três meninos perdidos dos pais; um
desaparecido de sessenta e quatro; três pés de cobra; duas
moscas azuis; um saci-pererê que insistia em ser sobrinho de
Pelé; um fiscal de renda liso; o décimo terceiro de um
trabalhador desatento completamente intacto; e o contato que
era bom, nada.
O prefeito vendo aquele esforço deles de se autenticarem
originais, legítimos e indubitáveis integrantes da
famigerada Escolinha, levou-los para um canto, arquitetando
um plano onde tudo ficaria o dito por não dito e
politicamente o edil solucionou a questão secretamente, uma
vez não sendo aqueles intrusos os tais da atual campeã
estadual, perderiam o jogo para o Anhanguera, engrandecendo
o clássico com uma vitória, a bem da população local,
premiada então com uma goleada.
E tudo acertado nas secretas, o homem achou de encaminhá-los
para o banquete comemorativo.
Os visitantes respiraram aliviados não sabendo da tramóia em
que se metiam.
O banquete, mesmo, mais parecia um defunto estirado coberto
por um longo pano branco encardido.
- Isto é um restaurante ou um necrotério?
Aquilo na mesa era um leitão cozido, isto é, mal cozido,
acompanhado de um macarrão grosso que o cozinheiro dispunha
nos pratos com as mãos mesmo, mais enrolados que festival de
minhocas numa esplendorosa suruba. Além disso, um ponche
alaranjado bem escuro mais parecendo mijo de doente renal,
conferindo que aquela cor escurecida era proveniente da
qualidade de açúcar que se fabricava por ali. Ainda era
servido um arroz que mais parecia papa, mais umas tantas
iguarias peculiares da região, visitadas constantemente
pelas simpáticas moscas e mosquitos, dando uma idéia da
higiênica comilança.
O ambiente não era lá tão imundo. Não, que é isso? Só havia
uma pocilga na vizinhança causando uma fedentina dos diabos,
um chiqueiro dos mais fedorentos, uns duzentos guenzos que
não sabiam o que era água há mais de dez anos, que não
ficavam quietos com patas sobre a mesa, fiscalizando as
guloseimas e deixando cair no assoalho de cimento batido,
uns carrapatinhos indesejáveis.
Ôxe, o que tinha de gatos, galinhas, sagüis, cavalos,
garnisés, patos, marrecos, concrizes, bicharada toda com
várias espécies de insetos que futucavam um ou outro
presente, tudo reunido numa estrebaria nos fundos do
estabelecimento.
Na hora do vamos ver, o prefeito achou por bem de abrir o
apetite com seu proeminente ar de orador de plantão,
proferindo um discurso entediante sobre landraces, wissex,
duroc, sobre os mamíferos artiodáctilos da família dos
suínos e suas espécies caetetu ou queixada, a canastra, a
caruncho, a piau e a dos cerdos de um modo geral.
Durou uns cinqüenta minutos de palavrório, discorrendo
detalhadamente sobre a apetitosa carne vermelha, destacando
o pernil e o lombo como de sua preferência alimentar,
concluindo ser ele, além de criador, um profundo conhecedor
dos suínos.
Quando ninguém aguentava mais o saco, ele conclamou a todos
a comer e beber comedidamente, vez que ainda restavam tantos
outros bichos para serem devorados pela gula de todos
naquela solenidade ímpar em Alagoinhanduba, terra querida,
berço incólume das riquezas dele. Aplausos rápidos e avanço
na amolagem dos dentes.
A multidão se aglomerara dum jeito de deixar neguinho
distante mais de metro para alcançar a mesa.
- Eu mesmo engoli, agora mesmo, um mosquito! -, reclamava
quem ainda não havia nem tocado em nada.
A fome era grande e atacaram assim mesmo a comida regada a
uma boa lapada de cana-de-açúcar lavada com uma cerveja
choca, mergulhada, cheia de gelo, no pé do pote.
A bebida e a comida, pelo que foram reabastecendo, dava para
muitos dias de refrega.
Os da Escolinha, a-há, acharam de encher o tampo na bebida,
apostando os copos e goles, esquentando as orelhas.
Post meridiem.
Lá para as tantas, quando o sol já ameaçava descansar,
rumaram para o campo.
Chegaram todos no estádio, cada atleta se dirigindo para o
vestiário. E o povo amontoando-se nas beiradas do campo.
Os da Escolinha foram persuadidos a entregar seus pertences
ao representante responsável pela comitiva e depositaram nas
mãos dele todos os objetos de uso e os que traziam consigo.
Entregaram um por um, depositando-os num saco. O diretor da
equipe achou por bem conferir tudo: quinze relógios, nove
trancelins, seis carteiras – fazendo questão de contar o
dinheiro depositando-o em seu próprio bolso de forma
escondida – quatro santinhos, oito camisinhas, um anel, duas
alianças, sete carteiras de moedas, quatro pulseiras, dois
brincos, uma foto de Zico, dois escudos do Corinthians, seis
moedas, três pentes, um espelho, dezessete camisas, onze
cuecas, cinco bermudas, quatro calças, cinco sandálias, três
chinelos, dois tênis, dois sapatos, um par de meias com
chulé, uma sunga suja de mais de oito dias com uma lista de
merda na bunda, um óculos de lentes arranhadas, três bonés
encardidos, uma viseira, um walkman, uma gargantilha, duas
lentes de contato, uma camiseta, uma oração-da-cabra-preta,
três dentes de alho, uma fita cassete de Roberto Carlos, um
engov, duas cibalenas, um colírio, uma baga de maconha, um
galho de arruda, três revólveres, duas facas peixeiras, uma
pistola sete-meia-cinco, três pares de meiões, um short, um
alka-seltzer, duas envelopes de alcachofra, um galho de
arruda, um desenho de Jesus Cristo e os apóstolos, um copo,
dois garfos, seis tralheres, três pratos, uma bandeja, um
candelabro, duas velas, um incensário, um xarope vick, um
talismã, três crucifixos, uma flâmula do Flamengo, um cartão
de cartomante, três ossos, uma dentadura, um aparelho
auditivo, uma chuteira velha, um rádio de pilha, uma pasta
de dentes, dois gels, dois shampoos, um condicionador de
cabelo, três lâminas, um chuncho, um pé de coelho, quatro
senhas para o show dos concluintes do Colégio Presbiteriano,
um poster da Xuxa, um livro de química inorgânica, uma
revista pornô, um cartão postal de Maceió, um recorte de
revista com a foto de Tereza Collor, uma página dobrada com
o desenho da Drag Car, um controle remoto, dois
desodorantes, cinco calendários de mulher nua com a boceta
arreganhada, três revistas em quadrinhos com trepadas
muitas, uma agulha, um retrós, um carretel de linha, uma
presilha de cabelo, duas tiaras, uma chave de fenda, uma
foto de uma namorada de não sei quem, um pneu de bicicleta,
uma chave de cinto de castidade, duas camisinhas de Vênus,
um folder do motel Tremedeira Louca, uma válvula de botijão
de gás, uma oração de mãe, duas canetas esferográficas e
sete fotos de turma no maior pileque.
- Esses meninos têm cada costume estranho, virgem!
O povo se ouriçou mesmo quando viu o visitante no gramado,
fazendo o aquecimento com ginásticas e acrobacias estranhas.
Isso tudo sob vaias irritantes.
O trio de arbitragem se encaminhava para o centro do campo,
conferindo tudo, afastando o povo, ordenando isso e aquilo.
- Vamos começar o jogo! – reclamou o juiz ao time local
ainda na concentração do estádio.
- Pode não, falta Bolo Cru!
- Quem?
- Bolo Cru.
O tal Bolo Cru além de contato era a principal estrela do
time, um craque para ela. Mais ainda: era cabo eleitoral do
Deputado João dos Cavalos, o padrinho da equipe, homem mais
rico do lugar, mais forte e poderoso, e, ainda, possuía umas
afeições familiares pelo tal Bolo Cru que desenrolava tudo
para ele sem cobrar tostão, coisa de filho para pai. Por aí
se vê.
O juiz retornou ao centro do gramado, chamou os bandeirinhas
e numa atitude insólita agita os braços de um lado para o
outro, bota as mãos na cabeça e, por fim, começa a jogar
palitinhos com os seus auxiliares.
Depois de um aquecimento longo no gramado, o capitão da
Escolinha reclamou do juiz para que ele começasse o jogo
senão ficariam todos cansados devido demora do adversário.
Oxe. Haja espera.
Não obtendo sucesso, ele reuniu seus comandados e objetivou
se preparar melhor para a peleja porque no almoço os caras
tomaram muitas grades de cervejas além da conta, nego ía
cansar logo logo.
Aí vestiram o padrão, ouviram o apito do juiz e se
organizaram entre as quatro linhas do gramado na maior
doideira. Mal sinal.
A equipe local ainda se encontrava nos vestiários.
Pela demora, deu uma mijadeira nos visitantes, um por um se
espremendo até o banheiro; outros que não aguentavam,
mijavam ali mesmo, depois, uns dois foram presos por
indecência e despudor públicos – queriam urinar na torcida.
Ôxe, e deu tempo? Deu o maior mijadeiro no time, de quase
afogar todo mundo.
Danaram-se de novo a fazer aquecimento intensivo, se
exercitaram além da conta, deram uma carreira no gramado
atrás da bola e apagaram o fogo.
Um deles deu logo uma vomitada no pé do bandeirinha, ficando
verde que só pé de coentro. Arreado, foi de maca para o
banco de reservas.
Outro bem chamuscado do aperitivo, num treinamento, pediu um
cruzamento, bola na área, ele chutou, errou a pelota, caiu
dentro do gol e quis, por fim da força, que o juiz validasse
o gol quando a partida nem tinha começado.
O técnico da Escolinha teve que rever umas quinhentas vezes
a escalação do time visto que alguns apresentavam, após
aquela comilança, sinais visíveis de debilidade física. E
aumentando o seu prejuízo, teve um outro bem dosado que
armou a maior confusão, xingando todo mundo e dizendo que
ali só tinha corno e provocou o maior auê, a ponto de levar
um corretivo no maluvido, caindo estendido fora de campo,
sem sentido.
Depois de uns entreveros endemoniados, por fim, ou melhor,
por enquanto, reinou a calma. Isso porque, três horas e meia
de atraso, noite escurecida, metade dos refletores acesos e
a outra sem dá sinal de vida, sorrateiramente adentra os
portões do colosso das multidões, todo engalanado,
recém-saído de uma cama quentinha com a amásia – com quem
havia derrubado três trepadas da boa –, ajeitando o pixaim
no maior rebolo, e dirigindo-se para o vestiário com ar de
mister universo sob aplausos da platéia eufórica, quem ?
Quem? Zé Bolo Cru, em carne e osso, ao vivo e em cores, num
verdadeiro ouriço da torcida do Anhanguera.
Alguns minutos depois, devidamente paramentado, numa
indumentária hilária do padrão doado pelo Deputado João dos
Cavalos, com a propaganda do estabelecimento comercial do
parlamentar nos costados, Funerária Morra Feliz, Bolo Cru
deu tres saltos soltos no ar, cinco cambalhotas ineivadas,
mesuras para a platéia, deferência para o deputado nas
gerais e fez um sinal pro juiz iniciar a partida.
- A saída é deles! – ordenou duro pro juiz.
O árbitro exigiu silêncio, contou os onze jogadores de cada
lado e, peraí, um detalhe: o de preto que todo mundo
esculhambava a mãe e familiares, se encontrava no centro do
gramado, urubu desalmado e xingado a plenos pulmões, era
aleijado, coitado, e fiscalizaria tudo dali mesmo do meio de
campo. Era respeitado pelos jogadores porque a moleta era a
sua arma, viesse não jogador malcriado prá banda dele que o
cacete comia no centro.
Antes do início da contenda, ajoelhou-se com dificuldade no
círculo central do tapetão e começou a rezar. Depois de uns
minutos, orou, se benzeu e deu o apito inicial.
A resenha esportiva toda assanhada se pôs a anunciar a
escalação dos clubes, comentando o favoritismo da Escolinha,
provando por a mais b, na prova dos nove, que o atual
campeão estadual massacraria a agremiação do Anhanguera.
Pro negócio pegar mais fogo ainda, a torcida do Martírios
virou-se toda a favor dos visitantes, alimentando a intriga
provinciana.
Logo aos dois minutos, num ataque velocíssimo Bolo Cru
humilhou a zaga da Escolinha, driblando tudo e dando tres
voltas de caírem sentados, verdadeira bunda no chão. Por
causa disso, um dos zagueiros ofendidos deu-lhe uma
raquetada daquelas de lhe arrancar o samboque da cara dele
com a chuteira. O pau comeu.
O juiz ficou observando tudo sem se meter no rebuliço. O
zagueiro só deu umas tres voltas no campo com a torcida toda
atrás dele, pega mas num pega, enveredou no avelóis e só foi
encontrado tres semanas depois na cidade de Rodamundo, uns
setenta quilômetros dali.
Ânimos arreados, ninguém expulso já que o ofensor
voluntariamente se evadira deixando a Escolinha desfalcada,
apenas com dez jogadores em campo, reiniciando tudo no meio
do maior tumulto.
Pouco tempo depois um certo jogador apelidado por Manjuba,
sujeito dum porte de umas toneladas, centroavante do
Anhaguera, parou a bola, alisou a pêia e deu um toque para
Bolo Cru que se encontrava ainda meio zonzo com a pernada do
zagueiro. Era uma jogada ensaiada, já que Manjuba sabia que
Bolo ía fazer uns estragos danados, esperando o desfecho do
lance para receber o toque na caixa torácica e levar todo
mundo da defesa contrária no peito para dentro das redes;
goool! Anhaguera. Ovação! Um a zero no placar.
Nem meio minuto depois, se repetia a mesma jogada, Manjuba
segura o caralho que se sobressai do seu calção branco com
sua cueca bem avermelhada, aí se prepara para a devastação,
quando Bolo perde o domínio da pelota caindo com ela na
linha de fundo. Aaaaaaaaaaaaaaah!
Batido o tiro de meta, a bola foi cair justamente num
rebolado do time visitante, um ponta direito avexado que
saiu na carreira, passou pitu no lateral, deu um banho de
cuia no volante, deixou o líbero sentado, a torcida
apavorada, só parando o reboliço porque sentiu nas costas um
indigesto prato de bosta de boi. Foi o técnico do Anhanguera
que invadira o campo e tascou-lhe a meleca nas costas com
raiva do capeta que, sem dúvida, reverteria o escore do
jogo.
Vistas grossas no lance, novo tiro de metas foi batido, e
ninguém sabe como, de sopetão, a Escolinha empatou a
partida. Ó ó óóóóóóóóó...
Os xingamentos ganharam proporção com adjetivos e apupos
nada alvissareiros, mau presságio para o final da partida.
- Sai prá lá Suco de Pneu!
- Cana Queimada!
- Stibiu!
- Ôi de Bomba!
- Bailarina da meia noite!
Foi com tal provocação que o beque do visitante se encostou
no Bolo Cru, marcação cerrada, e não era para declaração de
amor para todo o sempre, amém; nada, e numa jogada de
somenos, o atacante desferiu-lhe um certeiro depois de um
traço da vaca, quebrando três dentes do infeliz do beque. O
pau cantou de novo.
- Ou perde no campo ou apanha na rua!
Nesse tumulto passaram uma rasteira na moleta do juiz e o
buruçu estava pronto.
A polícia entrou em campo e ao invés de garantir a partida,
meteu o cacete nos jogadores.
O rolo cresceu de volume e sem a menor previsão para
terminar.
É certo que àquela altura já havia saído bala, uns trezentos
tiros com um total de quatro vítimas fatais e cento e
sessenta e oito em estado grave, f |