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  Luiz Alberto Machado

 

 

 

BELEZA NÃO É FUNDAMENTAL II

PAPO DE MULHER FEIA – Gentamiga, danou-se tudo! Depois que eu postei aquele papo de BELEZA É MESMO FUNDAMENTAL?, que a cambada achou de atochar uma tuia de mail a respeito. A coisa entupiu minha caixa de mails e era só recado assim: "Deus abençoe as mulheres bonitas, e as feias se sobrar tempo”. Ou: "Mulher feia e limão, só com cachaça". Ou ainda: “Mulher feia só serve para peidar em festa”. E alguns mais desabusados: “Eu ia acabar com elas, mas aí os meninos de 14 anos iam morrer na mão... . E acrescentaram nominações para as coitadas das barangas e trubufus, confira a quantidade de nome que tem mulher feia: catira, bazuca, cadanga dos inferno, bagulháo, saco malenchido, desgraça da humanidade, erro da humanidade, hemorróida de cu-de-velho, brinquedo do cão, coisa horrenda, bruxa, micóia, cocô de monstro, javali das trevas, cão chupando manga, çxldkdfmgjgndika, cocoranga, jaburanga, nhãozão, canhão, fubanga, bozenga, catita, sobra de aborto frito, abarroamento, escracho do arregaço, tilanga, guinú, facada no boga, rascunho do capeta, bota terror, azeitona, azmodeu, filhote de cruiz-credo, sombra do capeta, chupa-cabra, forma de fazer capeta, aborto de cadela vesga, trem de dar em doido, trombada de jumento com um trem, catiroba, caticoco, demonio das taquarera, lombriga solitária, bosta de pomba, chulé nas teta, trabuco, pinóia, machorra, fubanga, fumo goiano, ratazana, cambeta, mapa do inferno, mistura de merda com bagulho, Pokemon do diabo, eita, boba torrero! Que é que é isso?



                                       
O QUE A MULHER FAZ PRA FICAR BONITA?
O Doro sempre apronta das dele. Agora ele ganhou o opróbrio buliçoso das distintas representantes femininas. Eis que ele achou por bem de cascaviar nas catracas do quengo dele, o que é que a mulher faz pra ficar bonita. Eu disse logo pra ele: to fora, meu! E ele desaforado foi enumerando:
- Premêro, mulé pra ficá bunita se empiriquita toda, muda a cor dos óio, se emperuca e pinta o cabelo, dá um trato na lata e enche a cara de brebote, lambuza os beiços de batom vivo, bota sutiã menor que o tamanho dos peito, aperta o cós da saia pra ficá bem-feita, se depila toda, pinta as unha, rebola toda reboculosa, empina a popa da bunda, anda de salto alto na pontinha dos pés, bota manha na fala, se agatinha revirando as espiada, se faz de difice, fica cheia de nove hora, se arrocha toda, se profuma toda, se ajeita toda, fica frochosa da gente amocegá sua trilha, eita, bicha tinhosa da gota! Até que quano a gente se auto-endoidece-se e leva pra casa no maior festêro, vixe que truvunca! Aí no outro dia qunano a festa é só ressaca, quela desmonta o teretetei todo, a gente s´assusta de dizê: - Vôte, minha fia, de quá qui foi a boléia do tratô qui ocê caiu, hem?
Mas deixando as presepadas do Doro de lado, falando sério: há um concurso na vera promovido pela
Vila Mulher. O concurso pergunta: “O que uma MULHER é capaz de fazer para ficar BONITA?” A melhor frase ganha um NOTEBOOK da marca Dell, na cor branca! E se alguma das amigas que você indicou ganhar, você também ganhará um prêmio super legal! Aí, minha, boa sorte e participe. É só acessar: Vila Mulher e concorrer.

 

 

UMA PEIDADA BOA FAZ BEM PRA PRESSÃO (E PRA SAÚDE TAMBÉM!!!!)
Verdade gente! O gás peidante pode ajudar a tratar pressão alta, é o que diz um estudo pra lá de seríssimo. Apois veja: O sulfeto de hidrogênio é conhecido por mau cheiro. Na verdade é um gás que liberado em flatulências e em 'bombas de cheiro' pode desempenhar o papel de regular a pressão sangüínea, segundo um estudo da John Hopkins University, publicado pela revista especializada Science. Na verdade, diz o estudo que as pequenas quantidades de sulfeto de hidrogênio – um gás tóxico gerado por bactérias que vivem no intestino humano – é que são responsáveis pelo mau cheiro de flatulências, mas que fazem bem pra saúde, fazem. E eles avalizam. Apois ta. É que o estudo mostra que este gás também é produzido por uma enzima encontrada em células que revestem as artérias sanguíneas, chamada CSE, e ele teria o papel de relaxar essas artérias e baixar a pressão.As conclusões, tiradas a partir de um estudo com camundongos, podem levar a novos tratamentos para a pressão alta. Experiência: No estudo, camundongos geneticamente modificados para ter deficiência da enzima CSE apresentaram níveis de sulfeto de hidrogênio quase nulos, em comparação com camundongos normais. As cobaias com deficiência da enzima apresentavam pressão sanguínea cerca de 20% mais alta do que os normais, resultados comparáveis à pressão alta em humanos. Quando os camundongos modificados receberam um remédio para relaxar as artérias – metacolina – não houve diferença, indicando que o gás é responsável pelo relaxamento. Já se sabe que outro gás, o óxido nítrico, está envolvido no controle da pressão sanguínea. Disse o pesquisador Solomon Snyder: "Agora que sabemos que o sulfeto de hidrogênio tem um papel no controle da pressão, pode ser possível criar terapias com remédios que aumentem sua produção como alternativa para os atuais métodos de tratamento de hipertensão",
Bem que eu desconfiava que pressão alta era falta de peidar frouxo. Bem que eu desconfiava mesmo. Essa foi uma dica do amigo Marcus Aranha. Afinal, Tataritaritatá também cuida da sua saúde. Então peide, perca a vergonha e viva bem!
PS: Ah, você tá sabendo daquela da
tocha humana? Hehehehehehehehe!

PIADINHA PRA DESCONTRAIR
: (colaboração do amigo Chagas Lourenço).
Dois clitóris se encontram:
- Me disseram que você sofre de frigidez...
O outro rapidamente responde:
- São as más línguas...

E agora um recado pras mulher feia:


 

 

LOAS, PETAS & PATRANHAS

 

 


Imagem: Galo, de Aldemir Martins.

KID MALVADEZA



Logo na arraiada ouvia-se toda fúfia no clarinado dum galináceo peiú, num dos terreiros das casas que possuíam seus quintais arborizados numa das margens do rio Midibu.

Era imponente, todo espaçoso e cheio das pregas com as suas cristas carnudas e avermelhadas, imprimindo-lhe uma robustez invejável na variedade colorida de asas curtas e longas com uma tonalidade mais acentuada para o preto, expondo esporas salientes e afiadas, prontas para o que desse e viesse, num ar altivo do seu bico semi-adunco, vigilante de num pregar o olho no seu fiscalizar autoritário por todo o seu reduto.

Em sua magnificente atitude superior, o colendo alectório não permitia que arremedassem seu canto ou qualquer audácia de, pelo menos, de perto, imitá-lo em seu grandiloqüente cocorocó, determinando o recolhimento de todos ao silêncio e impondo uma obediência ímpar e voraz de todos os seus pares e viventes daquela estância.

O bicho imperava, só abafando, folgado.

Após enunciar seu mavioso solfejo ele ficava de ouvido aguçado, esperando qualquer arremedo por desafio. Ninguém ousava tal afronta. E foi justamente por causa de uma imitação debochada de seu sonoro alarido que se deu início a tudo o que se narra por aí a seu respeito.

Disso, foi possível recolher um sem número de relatos estrondosos sobre toda a galhardia pavoneada dele, certificada por muitos de que não era à toa, pois desde pequeno dera sinais de ostensiva malquerença.

Pois que, mal saído do ovo já demonstrava um desassombramento em seu piado, botando até a mãe, Maria Paulistinha, - até a mãe, reparem -, no seu devido lugar, não permitindo nem que ela se metesse nas coisas que só a ele diziam respeito.

É, era a besta do sétimo livro!

Para se ter uma idéia do seu avanço sobre tudo e todas as coisas, tudo mesmo que existisse na redondeza a ele pertencia, só dele, até o que era dos outros.

A sua intromissão destemperada afugentava dali todos os pintinhos, galos, garnisés, concrizes, patos, marrecos, gatos, lagartixas, besouros, cágados, sapos, rãs, passarinhos, gansos, guinés, sagüis, porcos e até cachorros, todos, invariavelmente, tornavam-se vítimas de sua ira, cobaias de sua sanha.

Quando davam fé de sua presença assustadora, tratavam de correr dali para não atrapalharem sua gula.

Era, tudo favorecia para que sozinho bicasse grãos, minhocas e gusanos, mandando brasa desenfreado.

Ao que parece quanto mais se abastecia no seu repasto, mais parecia ingerir demônios.

Era o que diziam na maior tremedeira, todas as vítimas ofendidas por sua maligna impetuosidade.

O seu fastio não era lá tão exigente e se fartava com tomates, macarrão, acerolas, nacos de carne de boi, jerimum, laranja, pitanga, até chiclete, solado de sapatos, o que fosse dando logo de inchar, adquirindo proporções cada vez mais avantajadas.

Ninguém invadia o território dele - quem era doido? -, ou, se por acaso das insolências qualquer pancrácio declinasse do que era dele, enfrentaria a fundura de sua fúria de titã dos maus bofes.

Nada, arredavam logo. Ôxe, quem fosse maluvido que ficasse, tá!

Por certo, argumentavam aos cochichos alguns pávidos vizinhos, que o bicho tinha partes com o tinhoso pelo que se mostrava desaforado, arruaceiro e guardando um ódio mortal por apito de panela de pressão.

Era. Era mesmo cismado com aquela zoadinha oriunda da cozinha dando sinal de mau agouro prá banda dele. Mas, num deixava por menos e jurava contenda esmagando o algoz, destá.

- Na hora agá - ameaçava duro mais que enraivecido -, só vai dar ela! Um dia inda calo esse desaforo -, remendava.

Era um nó cego, dono absoluto daquela beira do rio Midibu, dono da situação, o roliúde, o besta-fera.

Não demorou muito, a primeira queixa já dava por questão séria:

Negão, um brutamontes da raça, achou, por bem do desavisado, de implicar com o solfejo dele.

Arrepara, só.

Houve estremecimento, no entanto, torceram para que alguém desse cabo da beligerância inata daquele todo cheio de pregas, destamaínho, borra botas, que se auto-afirmava dono dali.

Resultado: Negão sentiu de perto o que chamam de invasão de domicílio com o seu escalpelo e abocanhamento selvagem das galinhas do seu harém.

O ardiloso meteu-se na arenga não dando espaço para qualquer reação do desafiante que, com sua ofensa descabida, teve a cabeça aberta e uma espora na goela adentro. Era uma vez, desaforo esse que lhe conferiu mais prestígio, ampliando seu poder hegemônico sobre os pacíficos e covardes dali.

Foi aí que, depois disso, reuniu, então, para si, dois galinheiros e ditou as normas que passaram a ser obedecidas em cima da risca.

- Trasteje, não! Vacilou, no papo.

Outra reclamação partiu do proprietário de um pé de acerola dum quintal limítrofe, denunciando que o famigerado vivia a se fortificar com vitamina C, não sobrando fruta no pé, o penoso saqueava tudo. Isso no de menos, bote queixa no rol das desavenças.

Não demorou muito Gogó de Sola, outro afamado, achou por bem de prestar contas com o intrépido, tomando as dores do Negão.

Segura o tombo que lá vem bravata das boas.

Foi ciscado de fazer poeira. O sol escondeu-se, tudo escureceu, trilha sonora mais que funérea fez-se acompanhar o bafafá.

Ôxente, mais de hora de pena esvoaçando, Gogó de Sola, campeão de rinhas e astuto dono de grande limitação de terreno e de galinheiro, foi encontrado agonizante na beira do rio. Óóóóóóóó!

O vencedor, nem aí, bateu asas, sapecou imperativo violento e deitou maior zoadeiro confirmando mais um arrasador nocaute nos adversários. Estava coroado o seu governo.

A esta altura, de instante a instante, surgia outro ofendido desafiante. E o metido a besta cada vez mais afoito, virado na gota para desbancar qualquer troça.

Chegou a vez de Mike Tyson - ih! Agora chegou a hora do vamos ver! - que, na ocasião, pesava três quilos e duzentas gramas, uma pedreira.

Tudo pronto para mais um desmantelo. Soou o gongo! Tóin!

Logo no primeiro assalto, o Mike levou um direto cavernoso, sendo empapado sem muita resistência.

Foi aí que o valente usurpador tripudiou sobre o resto dele e aprontou malvadezas, ciscou, cantou e pegou fogo, desafiando tudo e todos para entrarem no combate para defender o perdedor, uma ufanidade de causar arrepios nas galinhas.

- Quem quiser que venha, tô pronto! Venha, magote de fresco!

Quem se arvorava? Ôxe, quem vê morre! Vai! Vai ver meio mundo de quilômetro inferno adentro, queimando o rabo de cabeça prá baixo, vai? Cada um já sabia de evitar tempo ruim. Hum!

Dias depois, espia só, um novo postulante se apresentava para a contenda.

Era o hexampeão das rinhas afamadas, o magistral Canela Branca, galo formoso e valente.

O ringue já estava pronto. Bastava qualquer audácia, a mundiça toda se aglomerava para ver no que dava. A maior gritaria na torcida. Bastava o Kid Malvadeza levantar a asa, o silêncio mandava ver. Óóóóóó. O ciscado começava. Nem mais soava o gongo, era o vale-tudo! E tome revestrés.

Do embate sabe-se, apenas, que, até a presente data, o preceptor encontra-se desaparecido em lugar incerto e não sabido, desconfiando-se ser ainda encontrado com vida, ao menos. Era de se esperar.

As vitórias constantes proporcionavam-lhe um prazer secreto, além de reunir um verdadeiro harém, entre elas, nada menos que She-ra, Raquel, Maria Pretinha, Bruna, Xuxa, Milongueta, Maria Poedeira, Dulce Danada, Tania Alves, Demi Moore, Adriana Esteves, Pituta, Adriana Galisteu, Arrazadinha, Mil-ovos, Drag Car, Radical Chic, Mulher Gato, Kim Basinger, Zefa Pernambucana, Quiba, Poiôio, Filó Doida, Tripa, Maria Trambolho e Claudia Raia, esta última a que ele mais gostava, mais ele enricava o bafejo.

Uma outra, a Quita Xangozeira, essa ele mantinha distância devido suas mandingas.

As outras, não, ele se esfregava o dia inteiro e todo dia.

Era um conjunto de beldades mais invejado pelos sultões do mundo que, invariavelmente, remetiam abelhudos para espionar aquela maravilha reunida.

O cabra era o rola doce, mesmo.

- Quando nasci, mamãezinha passou açucá ni mim!!! -, cantarolava pabo.

Certa feita, um tal intrometido, conhecido pelo alcunha de Arizona, procedente da cidade de Aracaju, achou de, por artes de não sei quem, se aprochegar de Tania Alves, causando tal petulância, uma verdadeira indignação na ruindade de senso do já indignado Malvadeza.

Uma guerra!

Do entrevero ruidoso, o dito cujo Arizona, terminou cantando igual galinha e entrando em estado de muda, perdendo, aos poucos, as penas, razão porque hoje ainda o chamam de Frango Careca.

Pelo visto, respeito restabelecido e ordem no galinheiro sob a ira de Malvadeza, já se perdeu a conta dos que foram massacrados por motivos diversos ou alheios de pouca monta, dentre os sarrabuiados o Mohamed Ali, Hércules, Costa Nua, Sansão, George Foreman, Stalone, Chuck Norris, Shwarzzeneger, Ninja Branco, Julio César Chaves, He-man, Penoso Kirkboxer, Eder Jofre, chegando, o desditoso, a ser convidado para integrar a World Boxin Association que lhe reconheceu a importância da valentia e maestria no sparring, a aplicaçãp de swings, uppercuts, cruzados, jabs, hooks, de formas a deixar qualquer um de guarda aberta levando fumo.

Era mesmo invencível na hora do vamos ver.

Ora, pudera, levantava antes das cinco, corria mais de dez mil metros, fazia ginástica de pugilista, comia de tudo que encontrasse pelo chão e se divertia com suas concubinas a tarde toda. E mais, depois do lazer, pulava com salto na corda, saco de areia, punching-ball, ducha e apetite insaciável. Pode?

A World Boxing Council também entrou na briga, recebendo até uma boa colocação no ranking, quando Pituta adulterou com o galo Vingador, pondo-lhe duas de quinhentos. Doeu o par de chifres. Ele nunca se vira com um chapéu de touro. Óóóóóóóóó. Foi barbada, como os outros, restando a morte para o intruso. No entanto, ficou remoendo como é que foi traído pela predileta e por isso, de lambuja, matou o galo cego Ray Charles para aplacar-lhe a raiva que lhe remoía por dentro.

- Quem mandou o cego cantar a minha gaia? Quem? Sifu.

Providente aquartelou-as sob a vigilância diuturna de duzentos e cinqüenta pintos eunucos e, se um cochilasse, ele enrabava. Tome!

Nas suas pugnas o distinto confiador no seu taco, dispensava a espora e o bico de prata razão de perder por várias vezes esporas no gogó dos outros, num golpe mortal.

Tecnicamente, o bicho arredio dava de cortejar o adversário arrodeando pelo terreiro até que o outro se lançasse; a partir daí largava uma travessa, levava os ataques para o ar, se rebatendo muito, empurrando muito, não deixando ser atingido e quando o bico pegava batia fundo. Já era.

Numa luta com Jason Ford, outro que se dignou molestá-lo numa proeza acirrada, terminou vitorioso e hospitalizado com esporas fraturadas, penas quebradas, cabeça e pescoço inchados e um olho furado. Eita, quase bate as botas o tal Kid Malvadeza.

Mesmo assim, nem se comprometera o prêmio nóbel de ruindade que houvera ganho no ano passado. Estava no pódium, na primeira categoria.

O briguento meliante acabava sempre com forrobodós e, devido sua insana vontade de brigar já recebera não sei quantas ordens de prisão, bote mais habeas corpus impetrados, pagas não sei quantas fianças, sursis, liberdades condicionais, coações preventivas, buscas vigilantes, se safando com uma escondida sorrateira nas grotas do rio por um bom espaço de tempo, até que se esquecessem das ordens judiciais.

Oficial de Justiça, ó, no papo, conhecia todos, amedrontando-os com uma foda na mulher deles ou numa enrabada de arrancar-lhes as pregas.

Os mandados de prisão eram anunciados, depois os oficiais se metiam com pé na bunda, para longe daquele malfazejo.

Já havia sido enquadrado como réu em todos os artigos do Código Penal vigente, se achando já um preparado advogado criminal, tal era a sua astúcia, sabendo de cor e salteado todos os itens e parágrafos da legislação, prevendo até os desdobramentos dos trâmites processuais.

Isso sem contar com a alternativa de não sei quantas chicanas para salvar-lhe da punição.

Um outro motivo que levantou celeuma maculando sua reputação, foi a delação das más línguas, de que ele ingeria anabolizantes, tratando-o por viciado, um galo acelerado, inclusive já com flagrante e tudo, cheio dos braquearos.

Era verdade. Gostava ele de, às escondidas, invadir um território dum vizinho onde uma plantação de maconha se apresentava impune e altaneira. O bicho se fartava carburando as idéias.

- Tô ligado, meu!

Depois da quarentena, achou o destino de aprontar-lhe mais uma: apresentou-se no seu terreiro um tal Jean Claude van Damme o qual, num treino entre ambos, foram as vias de fato. Jean já era. Terminado, bateu asas e renunciou participar de um torneio em Timbauba por encará-lo uma verdadeira moleza.

- Sou lá de me virar na lambuja? Tô fora! Arriba!

O atual campeão do certame ficara ofendido e partiu, de pronto, para um confronto. Era Freddie Krueger. Pelo estardalhaço, fedeu. O negócio ficou feio. Pelo tope, ninguém sabia quem chegaria ao final como vencedor.

Sabia-se que o tal Freddie era já aclamado pelas telas cinematográficas, numa série para lá de violenta e cheia de sadismos selvagens. Era uma verdadeira parada dura. E veio o arranca-rabo!

Na peleja, foi cerca destruída, plantações inutilizadas, poeira levantada, quintais invadidos, poleiros desmanchados, pau dos grandes, requesta enorme.

Uma semana depois, estavam os dois quase que depenados, sem platéia porque foram vítimas de uma epidemia de neucastro, deportados e se tratando com um tal de Refraldin, sei lá como é que se escreve essa droga.

Freddie não resistiu, acabou o pesadelo. Ele, o Kid, não, meio capenga, foi se restabelecendo. Deu de andar de óculos Ray-ban, bermudão, camisa de meia e chinelo, saiu por aí para revigorar as energias. Lembrava das trapuchas e desprezava os galispos que já enfrentara. Apenas um adversário faltava ainda enfrentar, apenas um, seu inimigo mortal. Os outros já se curvaram mediante sua maestria e tinha de estar pronto para o embate final, seria sua última luta, depois, penduraria as chuteiras.

Dias e dias meditando na técnica para enfrentá-lo e, naquele dia, se aprontava com os apetrechos de escarapela. Sabia que seria difícil e restou por fitar o rio, a vizinhança deserta, mirando o sol. Sabia que seria mesmo uma dureza, talvez nem retornasse. Seu coração bulia frequentemente, não se continha na ansiedade, até que se desejou boa sorte e partiu. Invadiu o quintal, se esgueirou pela escadaria, batente por batente, atento, se apoderou dos recantos da cozinha, tratou de não ser surpreendido, saltou no fogão e começou a lutar. Golpes e mais golpes e nada de nocautear o desafeto. Cansou-se e reagiu, mergulhou de cabeça na luta, apenas os pés de fora, num banho de colorau, tempero, alho, sal, vinagre, óleo, verduras e fogo baixo. Este o triste fim do Kid Malvadeza: numa panela de pressão. (03-11-2008)

 

FANDANGO



Imagem: Fandango, recolhida do livro Espetáculos Populares de Pernambuco, de Carlos Fonte Filho. Recife: Bagaço. 1999.

FANDANGO DO VAI QUASE NUM VOLTA

Afogando de gole em gole mágoas e anáguas ali estavam aboletados, em destaque pelos gritos, o Divaniço, um empolado católico, todo entroncado, metido a besta, perturbador nato que quando se lavava numa pirocada saía dando tudo o que era seu e o que não era - só não dava o frosquete porque não era permitido pela religião dele, arrotava -, achegado a putas e petas nas horas vagas e a um conluio entre o trambique e a agiotagem.

Do lado dele, o Gulu, óculos no pau da venta, olhos apertados, tomador de muitas e boas, doido por mulher perdida, douto de leituras várias nas horas de ócio, puxador compulsivo do tabaco que enodoava os dedos, beiços e pulmões encardidos e achegado a pitar de outras ervas daninhas perseguidas pelo opróbrio popular.

Ao lado de ambos, o Carneirinho, era outro letrado, óculos à La John Lennon, mascando chicletes sempre, correto, avantajado, feições alouradas e destruidor de famas pelo peculiar escárnio, carregando uma hérnia que mais parecia uma lata de queijo do reino entre as pernas e uma perseguição medonha para descobrir-lhe os pais biológicos que o abandonara em tenra idade.

Outro da trupe: o Gonçalo, esse nem fede nem cheira, dominado pela mulher, cuidador dos filhos, só faltando dar o de mamar para eles, mangador e maria-vai-com-as-outras, possuidor do cacoete mais intrigante de todos: o de amolegar a bimba e depois ficar cheirando os dedos - pantim desgraçado esse, reclamavam.

Mais o Mô Desentoado, esse desinfeliz tinha o poder de trucidar tímpanos com sua viola num acorde de sol e solfejando a melodia da toada em si bemol, cheio das pregas como que abafando num show, com sua mínima diferenciação entoada mais popularmente conhecida por desafinação braba, caçula predileto da mãe, num dava um prego numa cocada mas que pelo paparicado dos pais era o mais afortunado do grupo, o mais cheio de nove horas e pabulagens.

Fechando a roda, o Selenito, magricela astuto, mentiroso de não dar dó, peiticando com tudo e acometido de uma rouquidão, que dava a impressão de que se estivesse numa câmara de hélio comprimido, ou seja, imitando Pato Donald para insultar a pacutia dos outros.

Todos bebericando descompromissadamente numa manguaça desenfreada desde das dez horas matutinas sem se dar conta da hostilidade das águas na vez dos afogamentos. Glup! Era água pelo nariz, pelos ouvidos, pelos buracos todos do corpo. Até umasoras! Era uma sede de não haver que saciasse. Vai beber assim no raio que o parta!

É que já se aproximava os festejos natalinos e confraternizavam-se antes da hora, como sempre adiantados que só disco de embreagem deslizando, Jingle Bell, Jingle Bell, acabou papel, não faz mal, não faz mal, limpe com meu pau. Assimétricas toleimas duma congregação de proscritos.

Os caras já bebiam por nada, avalie. E quando comemoravam era mais que boca aberta nas cataratas de Nova Iguaçu e não dando vencimento para sede tamanha. Num sei como as tripas do bucho agüentavam.

A discussão começara logo cedo para ver quem pagaria a conta. O liseu estava brabo, se bem que nossos diletos pinguços não se encontravam desempregados, mas que por via de cachaçada diária, gastavam a mais da conta. E como gastavam. Num tinha mês que resistisse, quando o salário chegava num dava nem dez dias. Estavam mais liso que sabão em asfalto novo.

- A gente devia de receber por semana o salário de um mês! -, reclamou Mô Desentoado.

Logo quem dizia isso, o mais folgado de todos, ensaiando uma xêxada no dono do estabelecimento comercial.

A trupe bebarrona tinha lá seus locais prediletos, mas este mês estavam todos com o saldo estourado nos fiados dos botequins, décimo terceiro parcelado, gratificações suspensas e chegavam ali por convite do Zé Sapinho que inaugurara o bar há poucos dias e receberia aqueles inveterados bebedores para avaliação de sua empreitada e de braços abertos prontos para a crucificação. Tum! E era quiquiqui, cacacá. E tome mais.

Zé Sapinho abrira a exceção bateriam o centro no primeiro prego - olhe só que risco de xêxo; prego não, grampo de linha férrea; xêxo, o quê? Um jorge no coitado do dono, de trocar pinto por fuga de papaléguas. E: nunca mais!

Pois bem, lá estavam eles, pedindo tira-gosto aos tantos numa prova ao paladar de saborear seu tempero, de passoca injeitada à pissicas ineivadas; bebidas várias a julgarem da procedência e originalidade da sua adega, de café com coca cola a champanhe importada; música ambiente conforme o gosto deles que interrompiam tantos discos a outros mais receptivos em detrimento de outros noutras mesas, isso no xote, no frevo, no maracatu, lambadas, bossas, axés, baladas, cheganças, marujadas, cirandas, cornagens e mungangas; deitavam e rolavam assanhados, esfuziantes e dono das ventas.

- Meu, quem vai bancar essa conta? -, interrogou Gulu.

- A gente deixa no prego, depois paga, num tem serviço de proteção ao crédito que me iniba! -, finalizou Divaniço, agora mais posudo que antes.

- E se inventassem uma serasa para botequim, hem?

Às três da tarde já exigiam que Sapinho suspendesse o atendimento de outras mesas, ficando ao dispor exclusivo deles. E pela atenção meteram elogios aos condimentos apimentados das iguarias servidas, ingeriram cachaça de todas as qualidades, música de todos os gostos e, depois, calaram o maestro agulha e começaram sua própria batucada. Esquindô-dô-dô! Os bombos se arrepiaram!

"truléu, léu, léu,
truléu da Marieta,
que nós somos marinheiros
dessa Nau Catarineta..."

E navegaram no mar dos copos por todos os oceanos possíveis, remando a bombordo rumo a que lugar imaginário, alhures.

Melados, buscavam dragões mitológicos nos seus delírios, refaziam roteiros de antigos navegantes em suas ousadias, de vento em popa, atravessando tormentas até alcançarem a placidez das águas no copo beiçado e lambido que esperava enxutinho por outra talagada de três dedos.

Que latitude então bordejavam abandonando as costas insulares e continentais? Que longitude poderiam seguir uma hora seguindo a observação da Estrela Polar? Noutra, seguiam sempre pela esquerda da Ursa Maior? Por conveniência da perdição de todos, anuíram de seguir a constelação do navio dos argonautas. A direção da venta e pronto. Era cada curva do nego ficar zonzo só com a perícia, imagine.

Lá para as tantas encontraram uma garrafa e no interior dela uma carta de suicida. Choraram, lavaram a alma e a culpa. Se arrepiaram.

Divaniço de agora como oficial condecorado, Capitão de Mar-e-Guerra da nau, aboiava o cardume que se lhe seguia; acompanhado de Gulú, com o violão, que se tornara o Comandante. Carneirinho, com uma gaita, o Cirurgião-mor; Mô Desentoado, segurando um chocalho ritmado era o Vassoura Zelador proibido de emitir qualquer pigarro ou som gutural - desafinava até na tosse. E Selenito, batucando em sua disritmia capenga, era o Ermitão. Os outros, quem quisesse, seriam mouros e vassalos deles.

Começaram com ubá dum casco de pau cavado na maior tiranada. Daí foram se transformando até num transatlântico, tamanha a invencionice deles. E cruzaram com canoas, pranchas, garoupeiras, lanchas, alvarengas, pirogas, bacuçus, - eita, u-ru! - vaticanos, baleeiras, vigilengas, gambarras, galeotas, - segura o tombo, doido! - baligiras, veleiros, balsas, serradores, palhabotes, saveiros, - "quem te ensinou a nadar? Foi, foi, marinheiro, foi os peixinhos do mar!" - batelões, galés, botes, cruzadores, - "assassinaram o camarão!" - barcaças, caravelas, boieiras, escaleres, fragatas, - "o meu navio também flutua nos verdes mares de norte a sul!" - pelotas, burrinhas, paquetes, cabritas, navios, canhoneiros, - "o mari é lindo, a noite é bela, desfralda a vela, remar, remar!" - fragatas, petroleiros, oceanográficos, clíperes, rebocadores, cargueiros, - "como pode o peixe vivo viver fora da água fria, como poderei viver sem a tua companhia!" - quebra-gelos, geleiras, igarités, caçoeiras, - "nem que eu bebesse o mar encheria o que tenho de fundo..."- oiates, perus, chatas, jangadas, igaras, gambarras, piperis, cochas, catraias, - "o barco virou, tornou a virar, foi por causa..." - faluas, cúteres, almadias, catamarãs, escunas...

- Para onde será que vai todo mundo?

- Todos vão, quando não, para o vai não volta!!

E era o quadrirreme de Dias de Siracusa; os minoanos de Creta, os fenícios que iam para a Cornuália atrás de estanho; os vikings para a Groenlândia, icebergs imensos ajudando no queimor da pinga; submarinos militares; as bujarronas no gurupé das jangadas dos pescadores; o incêndio do bergantim na fuga do pirata Lancaster; o Padre Roma iniciando uma revolução; mestre Joaquim dando fuga aos negros escravos na jangada Juriquiti; as galeras de Antígono e Demétrio; o tenente João das Botas defendendo a ilha de Itaparica e derrotando a esquadra portuguesa do general Madeira, - vivaaaa!; o barco de Ptolomeu VI; Chico da Matilde na Liberdade; o mestre Filó acenando; o mestre Jerônimo mangando; o Roche-fort; o galeão das Cruzadas com os santos fajutos de Cristo; o Couronne bretão; o Royal-Louis de Toulon; o Sans-Pareil, o Clipper, o Santa Maria de Colombo nas beiras do Mundo Novo; o Great-Republic. E não parou por ai. Bordejaram mais. Encontraram a paz universal de Kublai Khan; os estudantes do Profissional List of Rio Grande do Sul Marine Molusk e os da Lista Preliminar dos moluscos marinhos de Alagoas; epidemias de escorbuto; um cruzeiro de usineiros que sonegaram impostos e se riam da leseira da população; o pirata Jean Ango; o Jacques Custeau em suas pesquisas ultramarinas; El-Rei Dom Sebastião encantado ouvindo o choro dos sacrificados que velavam a sua ressurreição; o mundo de Artur Conan Doyle; o naufrágio do Titanic; uma manifestação dos sem-terra agora jogados na água; eita!

Era o ataque de corsários furiosos a um bem perto; o velho de Hemingway; os piratas Durguay-Trouin, Jean Bart, Francis Drake, John Wawkins e Henry Morgan; as canções de Dorival Caymmi; os deputados corruptos de todas as assembléias legislativas, dando tiro pelo flagrante; o Aaron Manby; o Rhadamanthus, o Otto Mahn, o Uss Tritão, o Clermont, o Comet, o Sirlus, o Great-Western, o Britânica, o Mauritânia, o Lusitânia, o Olympic, o United States, o Queen Elizabeth, o France, o Cristóforo Colombo, o Leonardo da Vinci, o Bismark, o Enterprise, o Savannah, o Holland, o Nautilus, o Triton, o George Washington, o Batiscafo, o Hidrodeslizador Hovercraft, a importação do cedro do Líbano, os capitães da areia de Jorge Amado; as trocas de mercadorias com a biblos fenícia; a vinda da escória portuguesa para o Brasil; a nau dos vivos em petição de miséria clamando a Deus por uma salvação; a dos mortos que se safaram das broncas naturais da vida; e ainda pensavam que estavam no Sea Diver ou no Conshelf, homenageando São Pedro, invocando o santo José de Ribamar; e São Sebastião para não naufragar.

Gulu, mais espremido que nunca, já havia lido o Milhão, o livro de Marco Polo, cidadão de Veneza, chamado Milhão, onde são narradas as maravilhas do mundo, vinte e quatro anos pelo Oriente e questionava quando será que o homem fará domicílio nas águas porque a terra poluída e degradada não lhes dará razão alguma mais para moradia? Que os latifúndios avarentos expulsariam, que os poderosos excluiriam, que a fome e a desgraça afugentariam, que os impostos e o custo de vida desterrariam, que a impossibilidade de vida na crosta terrestre os transformariam em aquanautas incólumes das desigualdades do planeta terra que se transformaria para os pobres e desvalidos em água.

Deu em nada. E Gulu escapou de todos os acontecimentos entre os dedos, fazendo os outros, ouvidos de mercador. E o La Jolla? Pulmões ou guelras? Para quem leva porrada assim mesmo, melhor tentar mergulhar, num é, não? Ou se afoga ou morre pisoteado. Qual? Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Ou nada ou nada.

Gulu ainda insistia com a voz engrolada, sem saber que raciocínio concatenar, falando do compasso da Navigare, a Carta Pisana, as tabelas de Amálfi, do quadrante, do astrolábio, do sextante, que giroscópio então? Que bússola?

- Eu não sou peixe prá viver na água! Mas que aqui em cima, na crosta terreste, a coisa tá braba, tá! -, sentenciou o afônico Selenito.

- Já pensou a gente chegar o tanto de viver em menos de metro quadrado? -, Mô Desentoado contrapôs e: - morreria tudo sufocado, num era não?

- Vocês estão com muita pacutia, isso sim! -, reclamou Divaniço.

- Eu que vou mergulhar gente! -, pulou na água Gonçalo.

E mergulhou na fundura, no meio de vegetais marinhos e plânctons, buscando o búzio dourado das ilhas Fidji.

Inútil, já tinha mais de mil atrás disso. Homem ao mar! Quase morre afogado num fosse a intervenção de todos.

Carneirinho puxou a rede, desmalhou peixes e eis que veio um molusco que Gulu já trazendo consigo um galão de álcool na busca de conchas, aprofundou seus conhecimentos de malacologista, ampliando seu rol de culturas inúteis como a de interpretar sonhos enigmáticos, decifrar charadas e trava-línguas, buscas cosmogônicas de registros acásicos, primórdios teocráticos e teológicos, o que determinava seu ateísmo voluntário por descrença que qualquer religião valha mais que uma bosta fedida.

- "Venho deitar uma loa, que andei té agora estudando!"

Selenito, fanhoso e debilitado pelo excesso de álcool ingerido, se segurava no mastro real da embarcação, fingindo traquete, com três ou quatro vergas, a bandeira do Brasil num dos dois mastaréus, tendo todos os estais, brandais, ovéns, o nome Nau Catarineta escrito na proa, orgulhoso de se ter a oportunidade de estar numa verdadeira La Nave Va.

- Que broa boa!

- "Não falo em broa, parvo, senão em loa que é louvor!" -, frisou emputecido Gulu.

- Essa não é a Nau Catânia não, viu gente? -, zombou Carneirinho com uma só virada de copo, vira, vira, vira, vira, vira, vira, vira, vira, vira, virou!

- "Quando meu mestre me manda correr nau pela proa, vem-me logo na lembrança as mulheres que são boas!" -, fez munganga rouca Selenito.

Uma grande lamparina de folhas-de-flandres, a querosene e de morrão grosso à prova de vento, acesa nos mastros, iluminava os intrépidos navegadores que surrupiavam o vernáculo. Esqueceram que quando se estar no mar não se assobia, nem se canta, nem se conversa para não despertar a fúria do mar em ondas altas e espumantes. Só se reza, salvando-se de batalhas como a de Alcácer-Quibir.

Quando vão a vento, vão a vela; quando pára, vão de vara ou zunga. Fugiam das corredeiras e dos pés-de-vento. Iam a barlavento, outra hora se mordiam e já seguiam a sotavento. Depois à deriva. Bote goladas nisso. Tomavam ora direção a bombordo, mas já adernavam a estibordo.

A carranca da proa deu três gemidos, sinal de maus presságios. Ficaram atentos.

- Governa o leme, homem! -, gritou Selenito.

Desouviam. O proeiro e o bico de proa se agarravam aos cabos de espeques para melhor equilíbrio no mar. E cantaram assim mesmo, molhados até a última encarnação.

- "Marinheiros somos, marujos do mar, nós que de longe viemos para vos vir festejar!"

Eis que um estranho folgado, daqueles arregueiros que invadem a cachaçada dos outros, simpatizando dos três tempos e sapateado, adentrou na nau deles no maior arrego.

Estavam tão embevecidos com seus acordes que nem tavam nem aí praquele que se dava já por Gageiro no meio da troça.

- O rei mouro quer nos foder a alma! -, berrou o Gageiro.

- Êêêêêêêê! Tirar o tiruléu! -, todos em coro!

- Ê boi do cu cagado! -, sentenciou Divaniço Capitão.

- Tiruléu, léu, léu!

- "Aqui viemos Deus Menino, vosso festejo formar; uma cruel, longa história nós viemos relatar."-, relatou o Capitão.

- "Rema quem rema, bravo marinheiro! Quem não rema não ganha dinheiro!"

- Rema prá mim, rema prá tu, quem não rema direito, vai tomar no cu!

- "Estamos prontos para pelejar e navegar convosco sobre as ondas do mar!" -, fecharam todos.

E tomaram cada qual o seu lugar com trejeitos e rapapás nos enfrexates laterais.

O gageiro inquieto nas enxárcias, depois na verga do velacho, ou no mastro do traquete ou no mastro da mezena, um bicho arisco e estradeiro.

Veio então a fome, de tudo já comeram, acabaram todos os mantimentos. Verdadeira inanição assolada.

Foi quando tiveram a ilustre idéia dos antropófagos. Pelo jeito iam comer uns aos outros.

Aplacando os canibais, o Gageiro botou ordem na casa. Botaram no jogo da porrinha quem seria a vítima sacrificada para saciá-los. Era a sorte, quem fosse que fosse.

O Gageiro comandava a organização da pugna. E vieram chamas, palpites nos palitinhos. Vieram todos de lona, revogaram tudo e olhe que o blefe foi dos altos. De novo.

O Mô Desentoado foi o primeiro a ficar de fora. O Gulú estava esperto, adivinhou o palpite certo, eximindo-se. Carneirinho foi na medida, escapuliu. Gonçalo, numa cagada, ficou na lateral. Selenito, escapou fedendo. Divaniço, o comandante, era o desafortunado. Então, como último pedido, solicitou ao Gageiro que subisse no mastro a ver se avistava salvação.

Os outros já língua lambendo os beiços, esperavam imolá-lo vivinho.

- Avisto terras de Espanha, areias de Portugal! -, cantou o Gageiro!

- Gageiro, pela minha salvação, dou-te a filha que tenho, todas as moedas do bolso e quantas quiseres mais!

- Não quero nada, quero a tua alma!

- Vôte?

- Quero a tua alma, apenas.

- É o tinhoso gente!

- Sou regatão, negocio vidas nas águas.

Todos estremeceram. Ficaram assustados, cada qual encostado nas bordas do navio. Era um fedor de enxôfre da pôrra!

- Não adianta, é você que eu quero!

- Não vou vender minha alma ao diabo, nunca! -, e benzeu-se ininterruptamente.

- Seu destino está traçado, vou levá-lo por bem ou por mal!

- Eu sou jovem ainda, não mereço agora morrer!

- É agora ou nunca!

- Se tenho opção, prefiro nunca!

Divaniço sem saída pulou dentro do mar e eis que um anjo salvou-lhe a vida. O sangreiro velho espirrava na sua cara. Ele notou nas mãos que seu rosto estava enxaguado.

- Rárárárárá! -, riam-se todos.

- Outro tombo desses, tu perde a vida desgraçado. Como é que o cara fica bêbo de dar um cochilo no copo de quase morrer afogado? (27-10-2008)
 

COISAS DO FUTEBOL

JOGO DURO
 

O futebol sempre fora uma daquelas avassaladoras paixões do povinho simples de Alagoinhanduba. Era mesmo. Para se ter uma idéia, tirante os festejos da padroeira, da emancipação local e das quatro festas do ano, o jogo era a atração indispensável nas vinte e quatro horas que cobriam os mais recônditos e aprazíveis escaninhos dali. Basta! Ó! Fosse no mormaço do dia ou no prurido da noite, era só baralho, dominó, porrinha, gamão, fliperama, apostas, da velha, pules, palpites, adivinhações e similares, ocupando o ócio daquele povinho sem futuro no abismo dos instantes.

A sensaboria só abandonava aquilo ali apenas nas eleições, nos escândalos, nos adultérios flagrados, nas ostentações ruidosas dos pirobos, nas festas do calendário oficial ou no azáfama de uma competição marcada para o estádio local.

Ah, o campo não era nenhum Maracanã, mas era o orgulho dos munícipes, principalmente nas decisões dos clubes que se digladiavam num campeonato cheio de rodadas, quadrangulares, melhor de três, na vera, valendo, revanche, desforra, nêga, repescagens, cartolagem, conchavos e arrumações, para uma inequívoca decisão entre os favoritos Anhaguera Sporting Club Alagoinhandubense e o Gremio Esportivo Usina Santa Anunciação dos Martírios, popularmente conhecidos como Anhaguera e Martírios, as cores mais favoritas, com privilégios até superiores aos da Seleção Brasileira. Ôxe, bote fé.

Os protagonistas desta maratona batiam o pontapé inicial a primeiro de janeiro, nos festejos do ano novo, encerrando a temporada com uma decisão ruidosa e cheia de animosidade no dia 24 de dezembro, sob as bênçãos fraternais do momento natalino.

Apesar de se encerrar a contenda às vésperas do Natal, o resultado do certame não era tão altruístico assim, como se exigia que fosse. Mas, destá! Vôte! A decisão sempre vinha acompanhada de vandalismo dos espíritos beligerantes que arengavam por todas as ruas, artérias, logradouros, recantos, transversais, avenidas, becos, vielas, cancelas, mata-burros, rodagens, rodovias, ferrovias, distritos, vilarejos, arruados, esquinas, veredas, alhures, antros, capoeiras, várzeas, travessas, rincões e algures. Ufa! Era mesmo. Isso porque sempre findavam indignados com a lebre levantada de uma suspeitável ladroagem dos cartolas, mais apimentada pelas arbitragens duvidosas que apadrinhavam um ou outro naquele pleito futebolístico.

Menino, na vera, o negócio era fogo na roupa!

Não havia como a parcialidade tomar conta dos resultados, pendendo para um ou para outro, balanceando os títulos entre os de maior torcida, acirrando ainda mais os ânimos dos fanáticos mais febris.

Na verdade, era um tanto de nebulosas negociações que expectoravam nos comentários mais cabeludos dos torcedores, invariavelmente, em pé de guerra contra o favorecimento deste ou daquele time.

Dá, então, para se entender que ali eram todos contra todos, envolvendo nervos, músculos e desaforos, até findar na rebentada braba lascando a fachada dos fariseus ardorosos.

Quem lucrava com isso era o farmacêutico Jactâncio Numeriano e seus enfermeiros. Quanto mais a turba fosse incontrolável, mais ele torcia para ver os aleijões de fora. E tinha mais: quem não podia pagar as intervenções cirúrgicas ou as prescrições doidas do único ser que mais ou menos entendia de desaleijar os arrebentados, tinha de ser bancado ou pela prefeitura, ou pelos políticos apadrinhadores ou mesmo pelos próprios clubes futebolísticos. Senão, já viu, a vaca tossia e novos escândalos arrebentavam sob a ira dos familiares do vitimado.

Cada um dos patrocinadores livravam logo a sua pele, avalizando o atendimento necessário. Quem era doido avolumar mais ainda as ingrezias? Quem? Isso sem contar com os coadjuvantes que não possuíam protetorado algum, como Flamengo Barro Duro, Coité do Nóia Futebol Clube, Sociedade Esportiva Alagoinhandubense, Canavieiro Esportivo, Calunga Escrete de Ouro, Mata Garrote Esporte Centenário, Biriteiros Esporte Social, entre outros. Aliás, este último, era o principal lanterninha e, às vezes, maior azarão dos grandes clubes, devido posicionamento irregular de seus atletas antes, durante e depois das competições.

Outros escretes de pega-na-rua incrementavam os turnos esportivos, ora causando dor de cabeça nos majoritários, ora se desfazendo após a primeira derrota clamorosa, agigantando o miúdo confronto entre os de maior torcida.

Os dois principais líderes massacravam seus adversários com goleadas estrondosas, garantindo uma competição no confronto da final das finais, com uma expectativa de emoções muitas e desacertos demasiados.

Naquele ano, ao final de uma ruidosa e irregular trambicagem no tapetão, o Anhanguera tornara-se octacampeão. Por isso, os índices de mortalidade aumentaram de bater recorde nas estatísticas locais.

Nunca tanta gente virara alvo de balas, facadas, esfoladas, cacetadas, foiçadas e petecadas. E o pior, era que cada morto arrastava mais outros tantos para a cova, devido rixa que nascia e não terminaria nem tão cedo.

Com o título do clube, estava prevista a festa da entrega de faixas. E depois de muita noite de sono, escolheram uma agremiação de renome, o Escolinha Futebol Clube, time de uma cidade vizinha que se sagrara nebulosamente campeão estadual, derrotando as equipes favoritas da capital. Fora, sem dúvida, um certame duro, desmoralizador, zebra das zebras, a ponto de todo futebol do estado ficar de cabeça baixa.

Alagoinhanduba nem se parecia com aquela pasmaceira de dias longos e noites maiores, como sempre. Uma algazarra esfuziante tomava conta da cidade.

Logo de manhã o prefeito inaugurara um montão de obras públicas, retribuindo como gratidão tanto aos atletas do Anhaguera pelo feito bravo e histórico, quanto aos eleitores e desafetos do lugar.

Para isso inventara de última hora a entrega das faixas de campeão aos atletas oito vezes consecutivos líderes na história do futebol daquela cidade, para premiá-los com uma parafernália sem precedentes na história do município.

A festa, grande, com inaugurações do chafariz da rua São Lucas dos Desesperados, com discursos e encerramento do pavilhão local tremulando ao lado das bandeiras estaduais e nacionais. Era o calçamento do bairro do Caçotinho, com uma passeata rumorosa e pesunhando forte sobre o paralelepípedo invés de massapé; Era a arborização da Praça Santo Aquino dos Embriagados, mais lugar próprio para mijada de cachorro e homenagem a uma palmeira centenária no meio da rua. A iluminação da rua Santo Antão dos Devedores, antes escuridão de breu. E tantas e tantas outras realizações da administração pública de somenos importância, complementando a efeméride.

Houve discurseira braba dos mais importantes da região, augurando melhorias para aquela gente pacata, mera demagogia dos políticos aplaudidos com fervor.

Os mais importantes como o Padre Lucidalvo, o major Ernestildo Cavalcante, o fiscal de rendas, pretenso candidato a prefeito, Edtelmo Justiniano, o presidente da Câmara de Vereadores, o bodegueiro Joventino Emereciano, o tabelião Adautino Lopes, e a primeira-dama e cafetina Lindinaldita e seu marido puxando o saco do Deputado João-dos-cavalos pelos melhoramentos empreendidos com sua interveniência ali, se ajuntavam num palanque, gritando seus propósitos inúteis para esquentar a festividade.

Ao meio dia em ponto, toda a população se espremia concentrada em frente ao palanque armado na calçada da catedral da matriz, portando faixas e cartazes em homenagem ao Anhaguera.

A expectativa era grande e as emissoras de rádio das cidades vizinhas se aboletaram ali, instalando seus equipamentos e locutores para cobrir todo evento, dos discursos inflamados até a partida que estava por acontecer.

Era uma gritaria, um puxa-e-encolhe e todos apinhados, aguardando a hora do confronto e a chegada do visitante.

Na cabeça de cada um, estava a imagem da pompa com que eles chegariam, beiçudos e metidos-a-merda, cheios de nove horas. Não era prá menos, aqueles eram os atuais campeões do estado. Deveriam de chegar num daqueles ônibus executivo, de vidros fumê e ar refrigerado, daquele de não sei quantos pneus e de uma elegância autoritária só vista na televisão.

Com mais de hora de gritaria, eis que surge um caminhão desgovernado, indo direto para foder a multidão. Era um daqueles caindo os pedaços, com um bocado de marmanjo na carroceria e um desatinado gritador na boléia, vociferando para os da frente saírem por motivos de ausência dos respectivos freios.

Nossa, que vexame!!

Foi uma correria, de resultar meio mundo de gente nas calçadas arranhando as fuças, testas, braços, antebraços, queixos, orelhas, mãos, dedos, pernas e troncos; uns tantos com membros fraturados, fissuras musculares, pescoços entronchados, colunas desminliguidas, pernas desconjuntadas, gaias arrancadas, dedos desmentidos, côxas contundidas, olhos enviesados, dentes extraídos, cotovelos assambocados, pulsos imobilizados, clavículas arreadas, costelas partidas, até um certo maluvido que não entendera o que ocorria, findava por perder os documentos sexuais pendurado no pára-choque do caminhão enfesado.

- Tô capado, gente! Tô capado! -, era o grito de desespero do anônimo.

O que antes era alegria resultou num atendimento hospitalar das maiores conseqüências, uma vez que o comercial pesado de marca não-identificada e surgido do inopinado quase atropelara a população inteira, causando uma catástrofe sem precedentes na história do município.

Felizmente o desgraçado veículo esbarrou na palmeira centenária que estava fincada há anos no meio da rua.

- Isto é lá lugar de plantar uma árvore!

- Ela num saiu da frente, ó!

O povo, ôxe, mordido e ouriçado, protestava veementemente contra o veículo que se intrometera no meio das comemorações.

Um dos ocupantes da boléia já se refazendo do incidente, ainda conseguiu indagar de um transeunte salvo, onde se estabelecia a prefeitura.

- É ali mas trate logo de tirar esta merda véia da frente que o ônibus da escolinha tá vindo aí!

Depois de muito empurra-empurra e safanões, certificaram-se ser aquele veículo desgraçado o que dava por condução da famigerada Escolinha.

Ah! O que? É nada!? O quê? Sim... mas pia só?

Foi muito apupo e revolta.

- Tão querendo acabar a festa, é?

- É mentira!

- Bota logo eles pra correr, gente!

Foi pra mais de uma hora de discussão.

Era, não era!

Até que conciliaram: para tirar a dúvida era só chamar o contato. Era exatamente Zé Bolo Crú.

- Cadê ele?

- Tá na feira de Ribingudo!

Era dia de domingo, saíram procurando, caçando agulha num palheiro, encontraram três meninos perdidos dos pais; um desaparecido de sessenta e quatro; três pés de cobra; duas moscas azuis; um saci-pererê que insistia em ser sobrinho de Pelé; um fiscal de renda liso; o décimo terceiro de um trabalhador desatento completamente intacto; e o contato que era bom, nada.

O prefeito vendo aquele esforço deles de se autenticarem originais, legítimos e indubitáveis integrantes da famigerada Escolinha, levou-los para um canto, arquitetando um plano onde tudo ficaria o dito por não dito e politicamente o edil solucionou a questão secretamente, uma vez não sendo aqueles intrusos os tais da atual campeã estadual, perderiam o jogo para o Anhanguera, engrandecendo o clássico com uma vitória, a bem da população local, premiada então com uma goleada.

E tudo acertado nas secretas, o homem achou de encaminhá-los para o banquete comemorativo.

Os visitantes respiraram aliviados não sabendo da tramóia em que se metiam.

O banquete, mesmo, mais parecia um defunto estirado coberto por um longo pano branco encardido.

- Isto é um restaurante ou um necrotério?

Aquilo na mesa era um leitão cozido, isto é, mal cozido, acompanhado de um macarrão grosso que o cozinheiro dispunha nos pratos com as mãos mesmo, mais enrolados que festival de minhocas numa esplendorosa suruba. Além disso, um ponche alaranjado bem escuro mais parecendo mijo de doente renal, conferindo que aquela cor escurecida era proveniente da qualidade de açúcar que se fabricava por ali. Ainda era servido um arroz que mais parecia papa, mais umas tantas iguarias peculiares da região, visitadas constantemente pelas simpáticas moscas e mosquitos, dando uma idéia da higiênica comilança.

O ambiente não era lá tão imundo. Não, que é isso? Só havia uma pocilga na vizinhança causando uma fedentina dos diabos, um chiqueiro dos mais fedorentos, uns duzentos guenzos que não sabiam o que era água há mais de dez anos, que não ficavam quietos com patas sobre a mesa, fiscalizando as guloseimas e deixando cair no assoalho de cimento batido, uns carrapatinhos indesejáveis.

Ôxe, o que tinha de gatos, galinhas, sagüis, cavalos, garnisés, patos, marrecos, concrizes, bicharada toda com várias espécies de insetos que futucavam um ou outro presente, tudo reunido numa estrebaria nos fundos do estabelecimento.

Na hora do vamos ver, o prefeito achou por bem de abrir o apetite com seu proeminente ar de orador de plantão, proferindo um discurso entediante sobre landraces, wissex, duroc, sobre os mamíferos artiodáctilos da família dos suínos e suas espécies caetetu ou queixada, a canastra, a caruncho, a piau e a dos cerdos de um modo geral.

Durou uns cinqüenta minutos de palavrório, discorrendo detalhadamente sobre a apetitosa carne vermelha, destacando o pernil e o lombo como de sua preferência alimentar, concluindo ser ele, além de criador, um profundo conhecedor dos suínos.

Quando ninguém aguentava mais o saco, ele conclamou a todos a comer e beber comedidamente, vez que ainda restavam tantos outros bichos para serem devorados pela gula de todos naquela solenidade ímpar em Alagoinhanduba, terra querida, berço incólume das riquezas dele. Aplausos rápidos e avanço na amolagem dos dentes.

A multidão se aglomerara dum jeito de deixar neguinho distante mais de metro para alcançar a mesa.

- Eu mesmo engoli, agora mesmo, um mosquito! -, reclamava quem ainda não havia nem tocado em nada.

A fome era grande e atacaram assim mesmo a comida regada a uma boa lapada de cana-de-açúcar lavada com uma cerveja choca, mergulhada, cheia de gelo, no pé do pote.

A bebida e a comida, pelo que foram reabastecendo, dava para muitos dias de refrega.

Os da Escolinha, a-há, acharam de encher o tampo na bebida, apostando os copos e goles, esquentando as orelhas.

Post meridiem.

Lá para as tantas, quando o sol já ameaçava descansar, rumaram para o campo.

Chegaram todos no estádio, cada atleta se dirigindo para o vestiário. E o povo amontoando-se nas beiradas do campo.

Os da Escolinha foram persuadidos a entregar seus pertences ao representante responsável pela comitiva e depositaram nas mãos dele todos os objetos de uso e os que traziam consigo. Entregaram um por um, depositando-os num saco. O diretor da equipe achou por bem conferir tudo: quinze relógios, nove trancelins, seis carteiras – fazendo questão de contar o dinheiro depositando-o em seu próprio bolso de forma escondida – quatro santinhos, oito camisinhas, um anel, duas alianças, sete carteiras de moedas, quatro pulseiras, dois brincos, uma foto de Zico, dois escudos do Corinthians, seis moedas, três pentes, um espelho, dezessete camisas, onze cuecas, cinco bermudas, quatro calças, cinco sandálias, três chinelos, dois tênis, dois sapatos, um par de meias com chulé, uma sunga suja de mais de oito dias com uma lista de merda na bunda, um óculos de lentes arranhadas, três bonés encardidos, uma viseira, um walkman, uma gargantilha, duas lentes de contato, uma camiseta, uma oração-da-cabra-preta, três dentes de alho, uma fita cassete de Roberto Carlos, um engov, duas cibalenas, um colírio, uma baga de maconha, um galho de arruda, três revólveres, duas facas peixeiras, uma pistola sete-meia-cinco, três pares de meiões, um short, um alka-seltzer, duas envelopes de alcachofra, um galho de arruda, um desenho de Jesus Cristo e os apóstolos, um copo, dois garfos, seis tralheres, três pratos, uma bandeja, um candelabro, duas velas, um incensário, um xarope vick, um talismã, três crucifixos, uma flâmula do Flamengo, um cartão de cartomante, três ossos, uma dentadura, um aparelho auditivo, uma chuteira velha, um rádio de pilha, uma pasta de dentes, dois gels, dois shampoos, um condicionador de cabelo, três lâminas, um chuncho, um pé de coelho, quatro senhas para o show dos concluintes do Colégio Presbiteriano, um poster da Xuxa, um livro de química inorgânica, uma revista pornô, um cartão postal de Maceió, um recorte de revista com a foto de Tereza Collor, uma página dobrada com o desenho da Drag Car, um controle remoto, dois desodorantes, cinco calendários de mulher nua com a boceta arreganhada, três revistas em quadrinhos com trepadas muitas, uma agulha, um retrós, um carretel de linha, uma presilha de cabelo, duas tiaras, uma chave de fenda, uma foto de uma namorada de não sei quem, um pneu de bicicleta, uma chave de cinto de castidade, duas camisinhas de Vênus, um folder do motel Tremedeira Louca, uma válvula de botijão de gás, uma oração de mãe, duas canetas esferográficas e sete fotos de turma no maior pileque.

- Esses meninos têm cada costume estranho, virgem!

O povo se ouriçou mesmo quando viu o visitante no gramado, fazendo o aquecimento com ginásticas e acrobacias estranhas. Isso tudo sob vaias irritantes.

O trio de arbitragem se encaminhava para o centro do campo, conferindo tudo, afastando o povo, ordenando isso e aquilo.

- Vamos começar o jogo! – reclamou o juiz ao time local ainda na concentração do estádio.

- Pode não, falta Bolo Cru!

- Quem?

- Bolo Cru.

O tal Bolo Cru além de contato era a principal estrela do time, um craque para ela. Mais ainda: era cabo eleitoral do Deputado João dos Cavalos, o padrinho da equipe, homem mais rico do lugar, mais forte e poderoso, e, ainda, possuía umas afeições familiares pelo tal Bolo Cru que desenrolava tudo para ele sem cobrar tostão, coisa de filho para pai. Por aí se vê.

O juiz retornou ao centro do gramado, chamou os bandeirinhas e numa atitude insólita agita os braços de um lado para o outro, bota as mãos na cabeça e, por fim, começa a jogar palitinhos com os seus auxiliares.

Depois de um aquecimento longo no gramado, o capitão da Escolinha reclamou do juiz para que ele começasse o jogo senão ficariam todos cansados devido demora do adversário.

Oxe. Haja espera.

Não obtendo sucesso, ele reuniu seus comandados e objetivou se preparar melhor para a peleja porque no almoço os caras tomaram muitas grades de cervejas além da conta, nego ía cansar logo logo.

Aí vestiram o padrão, ouviram o apito do juiz e se organizaram entre as quatro linhas do gramado na maior doideira. Mal sinal.

A equipe local ainda se encontrava nos vestiários.

Pela demora, deu uma mijadeira nos visitantes, um por um se espremendo até o banheiro; outros que não aguentavam, mijavam ali mesmo, depois, uns dois foram presos por indecência e despudor públicos – queriam urinar na torcida.

Ôxe, e deu tempo? Deu o maior mijadeiro no time, de quase afogar todo mundo.

Danaram-se de novo a fazer aquecimento intensivo, se exercitaram além da conta, deram uma carreira no gramado atrás da bola e apagaram o fogo.

Um deles deu logo uma vomitada no pé do bandeirinha, ficando verde que só pé de coentro. Arreado, foi de maca para o banco de reservas.

Outro bem chamuscado do aperitivo, num treinamento, pediu um cruzamento, bola na área, ele chutou, errou a pelota, caiu dentro do gol e quis, por fim da força, que o juiz validasse o gol quando a partida nem tinha começado.

O técnico da Escolinha teve que rever umas quinhentas vezes a escalação do time visto que alguns apresentavam, após aquela comilança, sinais visíveis de debilidade física. E aumentando o seu prejuízo, teve um outro bem dosado que armou a maior confusão, xingando todo mundo e dizendo que ali só tinha corno e provocou o maior auê, a ponto de levar um corretivo no maluvido, caindo estendido fora de campo, sem sentido.

Depois de uns entreveros endemoniados, por fim, ou melhor, por enquanto, reinou a calma. Isso porque, três horas e meia de atraso, noite escurecida, metade dos refletores acesos e a outra sem dá sinal de vida, sorrateiramente adentra os portões do colosso das multidões, todo engalanado, recém-saído de uma cama quentinha com a amásia – com quem havia derrubado três trepadas da boa –, ajeitando o pixaim no maior rebolo, e dirigindo-se para o vestiário com ar de mister universo sob aplausos da platéia eufórica, quem ? Quem? Zé Bolo Cru, em carne e osso, ao vivo e em cores, num verdadeiro ouriço da torcida do Anhanguera.

Alguns minutos depois, devidamente paramentado, numa indumentária hilária do padrão doado pelo Deputado João dos Cavalos, com a propaganda do estabelecimento comercial do parlamentar nos costados, Funerária Morra Feliz, Bolo Cru deu tres saltos soltos no ar, cinco cambalhotas ineivadas, mesuras para a platéia, deferência para o deputado nas gerais e fez um sinal pro juiz iniciar a partida.

- A saída é deles! – ordenou duro pro juiz.

O árbitro exigiu silêncio, contou os onze jogadores de cada lado e, peraí, um detalhe: o de preto que todo mundo esculhambava a mãe e familiares, se encontrava no centro do gramado, urubu desalmado e xingado a plenos pulmões, era aleijado, coitado, e fiscalizaria tudo dali mesmo do meio de campo. Era respeitado pelos jogadores porque a moleta era a sua arma, viesse não jogador malcriado prá banda dele que o cacete comia no centro.

Antes do início da contenda, ajoelhou-se com dificuldade no círculo central do tapetão e começou a rezar. Depois de uns minutos, orou, se benzeu e deu o apito inicial.

A resenha esportiva toda assanhada se pôs a anunciar a escalação dos clubes, comentando o favoritismo da Escolinha, provando por a mais b, na prova dos nove, que o atual campeão estadual massacraria a agremiação do Anhanguera.

Pro negócio pegar mais fogo ainda, a torcida do Martírios virou-se toda a favor dos visitantes, alimentando a intriga provinciana.

Logo aos dois minutos, num ataque velocíssimo Bolo Cru humilhou a zaga da Escolinha, driblando tudo e dando tres voltas de caírem sentados, verdadeira bunda no chão. Por causa disso, um dos zagueiros ofendidos deu-lhe uma raquetada daquelas de lhe arrancar o samboque da cara dele com a chuteira. O pau comeu.

O juiz ficou observando tudo sem se meter no rebuliço. O zagueiro só deu umas tres voltas no campo com a torcida toda atrás dele, pega mas num pega, enveredou no avelóis e só foi encontrado tres semanas depois na cidade de Rodamundo, uns setenta quilômetros dali.

Ânimos arreados, ninguém expulso já que o ofensor voluntariamente se evadira deixando a Escolinha desfalcada, apenas com dez jogadores em campo, reiniciando tudo no meio do maior tumulto.

Pouco tempo depois um certo jogador apelidado por Manjuba, sujeito dum porte de umas toneladas, centroavante do Anhaguera, parou a bola, alisou a pêia e deu um toque para Bolo Cru que se encontrava ainda meio zonzo com a pernada do zagueiro. Era uma jogada ensaiada, já que Manjuba sabia que Bolo ía fazer uns estragos danados, esperando o desfecho do lance para receber o toque na caixa torácica e levar todo mundo da defesa contrária no peito para dentro das redes; goool! Anhaguera. Ovação! Um a zero no placar.

Nem meio minuto depois, se repetia a mesma jogada, Manjuba segura o caralho que se sobressai do seu calção branco com sua cueca bem avermelhada, aí se prepara para a devastação, quando Bolo perde o domínio da pelota caindo com ela na linha de fundo. Aaaaaaaaaaaaaaah!

Batido o tiro de meta, a bola foi cair justamente num rebolado do time visitante, um ponta direito avexado que saiu na carreira, passou pitu no lateral, deu um banho de cuia no volante, deixou o líbero sentado, a torcida apavorada, só parando o reboliço porque sentiu nas costas um indigesto prato de bosta de boi. Foi o técnico do Anhanguera que invadira o campo e tascou-lhe a meleca nas costas com raiva do capeta que, sem dúvida, reverteria o escore do jogo.

Vistas grossas no lance, novo tiro de metas foi batido, e ninguém sabe como, de sopetão, a Escolinha empatou a partida. Ó ó óóóóóóóóó...

Os xingamentos ganharam proporção com adjetivos e apupos nada alvissareiros, mau presságio para o final da partida.

- Sai prá lá Suco de Pneu!

- Cana Queimada!

- Stibiu!

- Ôi de Bomba!

- Bailarina da meia noite!

Foi com tal provocação que o beque do visitante se encostou no Bolo Cru, marcação cerrada, e não era para declaração de amor para todo o sempre, amém; nada, e numa jogada de somenos, o atacante desferiu-lhe um certeiro depois de um traço da vaca, quebrando três dentes do infeliz do beque. O pau cantou de novo.

- Ou perde no campo ou apanha na rua!

Nesse tumulto passaram uma rasteira na moleta do juiz e o buruçu estava pronto.

A polícia entrou em campo e ao invés de garantir a partida, meteu o cacete nos jogadores.

O rolo cresceu de volume e sem a menor previsão para terminar.

É certo que àquela altura já havia saído bala, uns trezentos tiros com um total de quatro vítimas fatais e cento e sessenta e oito em estado grave, f