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Sebastião Milaré

O NUDISMO VISTO EM GIJÓN

 

Do "destape" ao "coño" exposto de Angelica Liddell, um processo social.

No II Encuentro de Programadores Internacionales, promovido pelo Instituto Cervantes em Gijón, Astúrias, de 16 a 19 de julho de 2008, a mais importante performance apresentada foi a de Angélica Liddell. Tal é o ponto de vista deste escriba, evidentemente, e não parecer unânime dos cinqüenta programadores participantes do evento, vindos de todo canto do mundo.

Tendo acompanhado a exaustiva programação organizada pelo Instituto Cervantes, que em quatro dias nos fez ver 13 espetáculos, participar de duas mesas redondas e duas exposições de projetos criativos, além das festas de abertura e de encerramento, acho-me no dever de expor meu pensamento sobre o visto e vivenciado. Mas está fora de hipótese a análise de obra a obra, até porque o conjunto revela monótonos procedimentos contemporâneos nivelando todas as produções: quase sempre é um solo ou duo, tem compulsoriamente um projetor de vídeo (parece que sem vídeo não se pode mais fazer teatro, dança ou performance cênica); há um desprezo ostensivo às técnicas tradicionais e, no entanto, parece que outras não surgem para estabelecer novos códigos ou indicar novos caminhos; a falta de técnica é mais evidente no trabalho vocal, pois normalmente não se entende o que é dito, por péssima articulação dos intérpretes, ou tem-se dificuldade em captar a construção sonora, por ser inaudível a fala...

Contudo, não se trata de um desastre. Pelo contrário, o que se expôs foi um conjunto de obras reveladoras de novas tendências cênicas. Isto já se delineava no I Encuentro, dois anos atrás, em Madrid, do qual nasceu o projeto “Diálogos Cênicos Brasil-Espanha: Linguagens Híbridas”, realizado no Centro Cultural São Paulo em junho deste ano, na parceria dessa entidade com o Instituto Cervantes e o Centro Cultural da Espanha. Dos “Diálogos” participaram quatro grupos espanhóis e quatro brasileiros, que desenvolvem linguagens multidisciplinares (ou indisciplinadas), na busca de novos horizontes expressivos. Claro que essa busca leva, com freqüência, a equívocos estéticos.

Dos espetáculos participantes do II Encuentro, dois estiveram também nos “Diálogos Cênicos Brasil-Espanha”. O primeiro, “F.R.A.N.Z.P.E.T.E.R.”, é antes concerto comentado do que espetáculo teatral. A idéia motora é colocar um grupo de amigos para falar da vida de Schubert e ouvir uma seleção dos seus “lieder”. Os amigos reunidos são o pianista David Casanova, que procura dar idéia das estruturas musicais de Schubert, sejam descritivas ou emocionais; o também pianista Rubén Ramos, que se encarrega do som e da projeção de vídeo, a soprano Maria Dolores Aldea, que com impecável técnica de canto coloca a alma na interpretação dos “lieder”; por fim, o criador do espetáculo, Sergi Faustino, que se encarrega de comentar vida e obra do compositor em diálogo com o pianista, com a cantora e com o seu duplo (um manequim sentado junto à mesa). Em sua atuação, Fäustino procura envolver também a platéia, tornando cada espectador um participante da reunião.

O outro espetáculo foi “Delírios de Grandeza”. Conforme a sinopse do programa, “é um solo que funde ações, texto e imagem, em mensagens instantâneas, video clips e falsos diretos”. Coloca-se como “uma reflexão crítica dos valores estabelecidos pela sociedade atual, do poder dos meios de comunicação, da busca da fama a qualquer preço, do repúdio ao fracasso, da feiúra, da necessidade de ser sempre original, mas nunca diferente, da globalização, do consumismo e de nosso ritmo de vida acelerado”. Idéias que David Espinosa, criador e intérprete do espetáculo, transforma em matéria cênica com humor e brilho, conseguindo fugir aos clichês e à comicidade gratuita, lançando seu personagem tão vazio de conteúdo quanto sedento de fama à esfera do patético, mas não do ridículo. Deve-se observar que o espetáculo é um falso solo, pois tem muito relevo a participação de Juanma Pacheco em uma das cenas.

O que esses dois espetáculos têm em comum com os demais do repertório do II Encuentro são os procedimentos da moda (sobretudo o vídeo como suporte) e a obsessiva afirmação do “eu”, que perpassa toda a produção cênica da vanguarda espanhola. De fato, no caso de David Espinosa, o “eu” é colocado em perspectiva crítica e, assim, se converte em dado coletivo. Também para Sergi Faustino o “eu” nasce da observação sobre o “outro” (Schubert), mas se impõe em cena na figura do duplo, representado pelo manequim.

Dentre as obras vistas, um raro exemplo de reflexão sobre o coletivo foi “Ángeles Resistem al Atardecer”, de Carlos Fernández López, “uma alegoria poética sobre a hospitalidade, as catástrofes urbanas e a incerteza das ameaças, certas ou imaginárias”. Aqui o vídeo é substituído pelo grafismo, desenhos sobre grandes painéis realizados em cena. O problema é que o espetáculo não encontra síntese, alongando-se monotonamente na narrativa de quinze “contos tristes”. Outro que também foge aos procedimentos padrões e à obsessão do ego, é “Kiosco das Almas Perdidas”, pelo Centro Coreográfico Galego, sob direção de Roberto Olivan. Nele o vídeo é substituído pela voz marcante e bela presença cênica da cantora Mercedes Peón, mas o espetáculo em seu conjunto (e apesar da grande força expressiva da cantora) não vai muito além do medíocre, parecendo mais um trabalho escolar.

Em quase todos os outros espetáculos, além de vídeo, da ausência de técnica vocal, como se a voz não fosse elemento estético importante, e da obsessão do “eu” há uma insistência na prática da nudez, que se avizinha à neurose. Repudiar a nudez, nos dias de hoje, é um despropósito, pois ninguém mais se espanta com o corpo nu de ninguém, seja ele belo ou feio. O problema é que tirar a roupa em cena só por tirar, sem que nada justifique a exibição do corpo nu, faz menos sentido ainda. Ficou pelado por quê? Há o caso em que senhoras de corpinhos um tanto passados tiram a roupa, dão alguns passos pela cena nuazinhas, tornam a colocar a roupa para daí a pouco tirar tudo novamente. Para que? Não se sabe.

Em um único caso a nudez revelou-se matéria dramática imponente e desafiadora. Isto aconteceu no espetáculo de Angélica Liddell “La Desobediência: 3 Acciones”. Ao se colocar em posição ginecológica, exibindo sua vagina ao público, executando ao longo do espetáculo ações de franco sadomasoquismo, a atriz deu um significado simbólico, metafísico, à nudez, tornando ainda mais carentes de significado os inúmeros outros nudismos da mostra.

E justamente o insólito e revelador universo de Angélica Liddell me fez pensar que tanto nudismo, aparentemente gratuito, tem raízes profundas na sociedade espanhola. Veio a calhar o evento ter acontecido na Laboral Ciudad de la Cultura, conjunto arquitetônico construído na época de Franco (por volta de 1950), e bastante representativo do franquismo. Essas circunstâncias levaram-me a rememorar o “destape”, ou elogio à exibição do corpo, que explodiu na Espanha logo após a morte do ditador (1975). Algum nexo há de existir entre essas coisas todas e a terceira ação da obra de Angélica Liddell, apresentada na nave do templo católico (não consagrado) que domina a Laboral, reforça ainda mais a percepção de que nada acontece por acaso.

El Destape

O livro “El Destape Nacional – Crônica Del Desnudo en la Transición”, de José M. Ponce, é um delicioso panorama sobre a descoberta da nudez em um país onde ela sempre foi castigada e, ao mesmo tempo, vigoroso documento sobre os anos 1970, época em que o reino das Espanhas despertava do pesadelo iniciado cerca de quatro décadas antes, com a Guerra Civil. Um documento que fala das liberdades civis sob o ponto de vista erótico. Lembro-me da primeira viagem que fiz à Espanha, há mais de 30 anos, logo após a morte de Franco, quando o “destape” era a ordem do dia, todos os dias, em todas as bancas de jornais, quiosques e livrarias. Era como se o país estivesse recebendo uma contínua chuva de tetas. Os ‘cullos” ainda não se viam tanto, mas tetas... eram um Deus nos acuda! Lembro de um cartoon publicado em jornal de grande circulação, mostrando um velhinho apoiado na bengala, frente à torrente de tetas que despencavam de uma banca de jornais, e o balãozinho externava seu pensamento: “Democrácia, que tarde que hás venido!”.

Nesse cartoon estava o grande significado do destape: um gesto cívico contra a censura que, no dizer de José M. Ponce, mantinha a “mulher espanhola submissa à dura disciplina paterna (sem esquecer que a maioridade feminina só era alcançada aos 23 anos) e aos costumes impregnados de puritanismo religioso (devia usar mangas compridas, meias e cobrir a cabeça com um lenço ao entrar nas igrejas)”. De fato a censura estigmatizava opositores do regime, carcomia consciências políticas, determinava parâmetros para o pensamento de cada cidadão, mas foi justamente a censura sobre o corpo a que determinou um processo social importante e libertador: o destape.

Por certo a maioria dos atores e atrizes participantes da mostra do II Encuentro eram crianças ou estavam nascendo na época áurea do destape. Talvez por isso esses artistas tragam no subconsciente o valor simbólico do nudismo como instrumento libertador. Quem sabe? Pode ser... Mas, se assim for, por que tornam esse instrumento coisa banal, destituída de valores significativos?

Contraditório ao extremo, por exemplo, é o discurso de Juan Dominguez – ou melhor, os discursos. Um deles foi a exposição sobre o projeto “De la... a la...”, patrocinado pelo Instituto Cervantes, que vem desenvolvendo em diferentes cidades e diferentes países, buscando levar sua dança conceitual do verbo ao movimento, anotando as diferentes acepções do verbo (ação) no espanhol, no alemão, no francês e no chinês. Afirma vasculhar, com seu trabalho, o conflito existente entre linguagem e lingüística. E que a linguagem do corpo volta a ser preocupação linguística quando se liga o movimento à semântica e à sintaxe, ou quando se vai da sintaxe verbal à sintaxe do movimento. A idéia (conceito) é provocadora, mas o outro discurso de Juan Dominguez, desta vez em cena com Amália Fernández, na performance “Shichimi Togarashi”, nada tem a ver com o primeiro. A começar pelo verbo, que não aparece em cena, nem como fala (pois o que eles dizem em espanhol é absolutamente inaudível e só se pode saber do que se trata graças às legendas em francês ou inglês), nem como movimento, que se manifesta no mais pobre naturalismo. Então, onde foi parar o conceito? Mas, de qualquer modo, Juan Dominguez não deixa de tirar toda a roupa e ficar no chão, peladinho, com uma viga de madeira sobre o corpo, enquanto sua parceira abandona a cena. E assim fica ele, enquanto os espectadores também abandonam a sala, cada qual com a sensação de que perdeu alguma coisa, pois lhe falta entendimento (intelectual e/ou sensorial) sobre o que presenciou.

Angélica Liddell, por sua vez, recupera o sentido histórico do nudismo afirmando: “O meu corpo é a minha forma de protesto”. Na primeira das três ações que compõem o espetáculo, encenadas em diferentes ambientes, a exposição da vagina não contém qualquer traço de provocação erótica, pois é um libelo contra a maternidade. Eis a mulher, que não quer ter filhos, introduzindo pedras na vagina. Lanha uma pedra na outra, à porta do órgão genital, enquanto o texto em áudio deixa clara a postura anti-maternal. Na segunda ação, buscando “relativizar as conseqüências da inteligência”, através do vídeo fala de quatro grandes dramaturgos espanhóis contemporâneos e depois coloca deficientes mentais para representar cada um deles. A iconoclastia e o sadomasoquismo são ferramentas expressivas para Angélica em seu discurso francamente escatológico, como se verá na terceira ação. A nave da igreja virou estrebaria, dominada por belo cavalo branco e muitos fardos de feno. Os espectadores sentam-se sobre o feno para ouvir Angélica relatar o ato de violência sexual, sofrido quando tinha nove anos de idade, que por vergonha calou-se e o negou. E de como foi o processo de superação da vergonha. Em novo ato masoquista, faz incisões com estilete abaixo dos joelhos,
deixando o sangue correr pelos cortes. Recupera um verso de conhecida canção infantil, que afirma “yo no soy bonita”, dando-lhe conotação erótica e um tom de desafio à hipocrisia que faz da criança bonita vítima potencial.

No conjunto das obras apresentadas no II Encuentro de Programadores Internacionales a “Desobediência” de Angélica Liddell parece indicar novos paradigmas que, de alguma maneira, se insinuam nas demais. E atesta que, de fato, as novas tendências podem indicar não apenas novas formas estéticas, amparadas pela tecnologia, mas diferentes modos de ver as velhas coisas deste mundo.



1) Foto de Francesca Paraguai - Angélica come pão embebido no próprio sangue.
2) Foto de Francesca Paraguai - 
Angélica Liddell: "Yo no soy bonita".

 

Sebastião Milaré é critico teatral em São Paulo, editor do site http://www.antaprofana.com.br/ e sócio honorário da Associação dos Dramaturgos do Nordeste - ADN

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