Sebastião Milaré
O NUDISMO VISTO EM GIJÓN
Do
"destape" ao "coño" exposto de Angelica Liddell, um processo
social.
No
II Encuentro de Programadores Internacionales, promovido
pelo Instituto Cervantes em Gijón, Astúrias, de 16 a 19 de
julho de 2008, a mais importante performance apresentada foi
a de Angélica Liddell. Tal é o ponto de vista deste escriba,
evidentemente, e não parecer unânime dos cinqüenta
programadores participantes do evento, vindos de todo canto
do mundo.
Tendo acompanhado a exaustiva programação organizada pelo
Instituto Cervantes, que em quatro dias nos fez ver 13
espetáculos, participar de duas mesas redondas e duas
exposições de projetos criativos, além das festas de
abertura e de encerramento, acho-me no dever de expor meu
pensamento sobre o visto e vivenciado. Mas está fora de
hipótese a análise de obra a obra, até porque o conjunto
revela monótonos procedimentos contemporâneos nivelando
todas as produções: quase sempre é um solo ou duo, tem
compulsoriamente um projetor de vídeo (parece que sem vídeo
não se pode mais fazer teatro, dança ou performance cênica);
há um desprezo ostensivo às técnicas tradicionais e, no
entanto, parece que outras não surgem para estabelecer novos
códigos ou indicar novos caminhos; a falta de técnica é mais
evidente no trabalho vocal, pois normalmente não se entende
o que é dito, por péssima articulação dos intérpretes, ou
tem-se dificuldade em captar a construção sonora, por ser
inaudível a fala...
Contudo, não se trata de um desastre. Pelo contrário, o que
se expôs foi um conjunto de obras reveladoras de novas
tendências cênicas. Isto já se delineava no I Encuentro,
dois anos atrás, em Madrid, do qual nasceu o projeto
“Diálogos Cênicos Brasil-Espanha: Linguagens Híbridas”,
realizado no Centro Cultural São Paulo em junho deste ano,
na parceria dessa entidade com o Instituto Cervantes e o
Centro Cultural da Espanha. Dos “Diálogos” participaram
quatro grupos espanhóis e quatro brasileiros, que
desenvolvem linguagens multidisciplinares (ou
indisciplinadas), na busca de novos horizontes expressivos.
Claro que essa busca leva, com freqüência, a equívocos
estéticos.
Dos espetáculos participantes do II Encuentro, dois
estiveram também nos “Diálogos Cênicos Brasil-Espanha”. O
primeiro, “F.R.A.N.Z.P.E.T.E.R.”, é antes concerto comentado
do que espetáculo teatral. A idéia motora é colocar um grupo
de amigos para falar da vida de Schubert e ouvir uma seleção
dos seus “lieder”. Os amigos reunidos são o pianista David
Casanova, que procura dar idéia das estruturas musicais de
Schubert, sejam descritivas ou emocionais; o também pianista
Rubén Ramos, que se encarrega do som e da projeção de vídeo,
a soprano Maria Dolores Aldea, que com impecável técnica de
canto coloca a alma na interpretação dos “lieder”; por fim,
o criador do espetáculo, Sergi Faustino, que se encarrega de
comentar vida e obra do compositor em diálogo com o
pianista, com a cantora e com o seu duplo (um manequim
sentado junto à mesa). Em sua atuação, Fäustino procura
envolver também a platéia, tornando cada espectador um
participante da reunião.
O outro espetáculo foi “Delírios de Grandeza”. Conforme a
sinopse do programa, “é um solo que funde ações, texto e
imagem, em mensagens instantâneas, video clips e falsos
diretos”. Coloca-se como “uma reflexão crítica dos valores
estabelecidos pela sociedade atual, do poder dos meios de
comunicação, da busca da fama a qualquer preço, do repúdio
ao fracasso, da feiúra, da necessidade de ser sempre
original, mas nunca diferente, da globalização, do
consumismo e de nosso ritmo de vida acelerado”. Idéias que
David Espinosa, criador e intérprete do espetáculo,
transforma em matéria cênica com humor e brilho, conseguindo
fugir aos clichês e à comicidade gratuita, lançando seu
personagem tão vazio de conteúdo quanto sedento de fama à
esfera do patético, mas não do ridículo. Deve-se observar
que o espetáculo é um falso solo, pois tem muito relevo a
participação de Juanma Pacheco em uma das cenas.
O que esses dois espetáculos têm em comum com os demais do
repertório do II Encuentro são os procedimentos da moda
(sobretudo o vídeo como suporte) e a obsessiva afirmação do
“eu”, que perpassa toda a produção cênica da vanguarda
espanhola. De fato, no caso de David Espinosa, o “eu” é
colocado em perspectiva crítica e, assim, se converte em
dado coletivo. Também para Sergi Faustino o “eu” nasce da
observação sobre o “outro” (Schubert), mas se impõe em cena
na figura do duplo, representado pelo manequim.
Dentre as obras vistas, um raro exemplo de reflexão sobre o
coletivo foi “Ángeles Resistem al Atardecer”, de Carlos
Fernández López, “uma alegoria poética sobre a
hospitalidade, as catástrofes urbanas e a incerteza das
ameaças, certas ou imaginárias”. Aqui o vídeo é substituído
pelo grafismo, desenhos sobre grandes painéis realizados em
cena. O problema é que o espetáculo não encontra síntese,
alongando-se monotonamente na narrativa de quinze “contos
tristes”. Outro que também foge aos procedimentos padrões e
à obsessão do ego, é “Kiosco das Almas Perdidas”, pelo
Centro Coreográfico Galego, sob direção de Roberto Olivan.
Nele o vídeo é substituído pela voz marcante e bela presença
cênica da cantora Mercedes Peón, mas o espetáculo em seu
conjunto (e apesar da grande força expressiva da cantora)
não vai muito além do medíocre, parecendo mais um trabalho
escolar.
Em quase todos os outros espetáculos, além de vídeo, da
ausência de técnica vocal, como se a voz não fosse elemento
estético importante, e da obsessão do “eu” há uma
insistência na prática da nudez, que se avizinha à neurose.
Repudiar a nudez, nos dias de hoje, é um despropósito, pois
ninguém mais se espanta com o corpo nu de ninguém, seja ele
belo ou feio. O problema é que tirar a roupa em cena só por
tirar, sem que nada justifique a exibição do corpo nu, faz
menos sentido ainda. Ficou pelado por quê? Há o caso em que
senhoras de corpinhos um tanto passados tiram a roupa, dão
alguns passos pela cena nuazinhas, tornam a colocar a roupa
para daí a pouco tirar tudo novamente. Para que? Não se
sabe.
Em um único caso a nudez revelou-se matéria dramática
imponente e desafiadora. Isto aconteceu no espetáculo de
Angélica Liddell “La Desobediência: 3 Acciones”. Ao se
colocar em posição ginecológica, exibindo sua vagina ao
público, executando ao longo do espetáculo ações de franco
sadomasoquismo, a atriz deu um significado simbólico,
metafísico, à nudez, tornando ainda mais carentes de
significado os inúmeros outros nudismos da mostra.
E justamente o insólito e revelador universo de Angélica
Liddell me fez pensar que tanto nudismo, aparentemente
gratuito, tem raízes profundas na sociedade espanhola. Veio
a calhar o evento ter acontecido na Laboral Ciudad de la
Cultura, conjunto arquitetônico construído na época de
Franco (por volta de 1950), e bastante representativo do
franquismo. Essas circunstâncias levaram-me a rememorar o
“destape”, ou elogio à exibição do corpo, que explodiu na
Espanha logo após a morte do ditador (1975). Algum nexo há
de existir entre essas coisas todas e a terceira ação da
obra de Angélica Liddell, apresentada na nave do templo
católico (não consagrado) que domina a Laboral, reforça
ainda mais a percepção de que nada acontece por acaso.
El
Destape
O livro “El Destape Nacional – Crônica Del Desnudo en la
Transición”, de José M. Ponce, é um delicioso panorama sobre
a descoberta da nudez em um país onde ela sempre foi
castigada e, ao mesmo tempo, vigoroso documento sobre os
anos 1970, época em que o reino das Espanhas despertava do
pesadelo iniciado cerca de quatro décadas antes, com a
Guerra Civil. Um documento que fala das liberdades civis sob
o ponto de vista erótico. Lembro-me da primeira viagem que
fiz à Espanha, há mais de 30 anos, logo após a morte de
Franco, quando o “destape” era a ordem do dia, todos os
dias, em todas as bancas de jornais, quiosques e livrarias.
Era como se o país estivesse recebendo uma contínua chuva de
tetas. Os ‘cullos” ainda não se viam tanto, mas tetas...
eram um Deus nos acuda! Lembro de um cartoon publicado em
jornal de grande circulação, mostrando um velhinho apoiado
na bengala, frente à torrente de tetas que despencavam de
uma banca de jornais, e o balãozinho externava seu
pensamento: “Democrácia, que tarde que hás venido!”.
Nesse cartoon estava o grande significado do destape: um
gesto cívico contra a censura que, no dizer de José M. Ponce,
mantinha a “mulher espanhola submissa à dura disciplina
paterna (sem esquecer que a maioridade feminina só era
alcançada aos 23 anos) e aos costumes impregnados de
puritanismo religioso (devia usar mangas compridas, meias e
cobrir a cabeça com um lenço ao entrar nas igrejas)”. De
fato a censura estigmatizava opositores do regime, carcomia
consciências políticas, determinava parâmetros para o
pensamento de cada cidadão, mas foi justamente a censura
sobre o corpo a que determinou um processo social importante
e libertador: o destape.
Por certo a maioria dos atores e atrizes participantes da
mostra do II Encuentro eram crianças ou estavam nascendo na
época áurea do destape. Talvez por isso esses artistas
tragam no subconsciente o valor simbólico do nudismo como
instrumento libertador. Quem sabe? Pode ser... Mas, se assim
for, por que tornam esse instrumento coisa banal, destituída
de valores significativos?
Contraditório ao extremo, por exemplo, é o discurso de Juan
Dominguez – ou melhor, os discursos. Um deles foi a
exposição sobre o projeto “De la... a la...”, patrocinado
pelo Instituto Cervantes, que vem desenvolvendo em
diferentes cidades e diferentes países, buscando levar sua
dança conceitual do verbo ao movimento, anotando as
diferentes acepções do verbo (ação) no espanhol, no alemão,
no francês e no chinês. Afirma vasculhar, com seu trabalho,
o conflito existente entre linguagem e lingüística. E que a
linguagem do corpo volta a ser preocupação linguística
quando se liga o movimento à semântica e à sintaxe, ou
quando se vai da sintaxe verbal à sintaxe do movimento. A
idéia (conceito) é provocadora, mas o outro discurso de Juan
Dominguez, desta vez em cena com Amália Fernández, na
performance “Shichimi Togarashi”, nada tem a ver com o
primeiro. A começar pelo verbo, que não aparece em cena, nem
como fala (pois o que eles dizem em espanhol é absolutamente
inaudível e só se pode saber do que se trata graças às
legendas em francês ou inglês), nem como movimento, que se
manifesta no mais pobre naturalismo. Então, onde foi parar o
conceito? Mas, de qualquer modo, Juan Dominguez não deixa de
tirar toda a roupa e ficar no chão, peladinho, com uma viga
de madeira sobre o corpo, enquanto sua parceira abandona a
cena. E assim fica ele, enquanto os espectadores também
abandonam a sala, cada qual com a sensação de que perdeu
alguma coisa, pois lhe falta entendimento (intelectual e/ou
sensorial) sobre o que presenciou.
Angélica Liddell, por sua vez, recupera o sentido histórico
do nudismo afirmando: “O meu corpo é a minha forma de
protesto”. Na primeira das três ações que compõem o
espetáculo, encenadas em diferentes ambientes, a exposição
da vagina não contém qualquer traço de provocação erótica,
pois é um libelo contra a maternidade. Eis a mulher, que não
quer ter filhos, introduzindo pedras na vagina. Lanha uma
pedra na outra, à porta do órgão genital, enquanto o texto
em áudio deixa clara a postura anti-maternal. Na segunda
ação, buscando “relativizar as conseqüências da
inteligência”, através do vídeo fala de quatro grandes
dramaturgos espanhóis contemporâneos e depois coloca
deficientes mentais para representar cada um deles. A
iconoclastia e o sadomasoquismo são ferramentas expressivas
para Angélica em seu discurso francamente escatológico, como
se verá na terceira ação. A nave da igreja virou estrebaria,
dominada por belo cavalo branco e muitos fardos de feno. Os
espectadores sentam-se sobre o feno para ouvir Angélica
relatar o ato de violência sexual, sofrido quando tinha nove
anos de idade, que por vergonha calou-se e o negou. E de
como foi o processo de superação da vergonha. Em novo ato
masoquista, faz incisões com estilete abaixo dos joelhos,
deixando o sangue correr pelos cortes.
Recupera um verso de conhecida canção infantil, que afirma
“yo no soy bonita”, dando-lhe conotação erótica e um tom de
desafio à hipocrisia que faz da criança bonita vítima
potencial.
No conjunto das obras apresentadas no II Encuentro de
Programadores Internacionales a “Desobediência” de Angélica
Liddell parece indicar novos paradigmas que, de alguma
maneira, se insinuam nas demais. E atesta que, de fato, as
novas tendências podem indicar não apenas novas formas
estéticas, amparadas pela tecnologia, mas diferentes modos
de ver as velhas coisas deste mundo.
1)
Foto de Francesca Paraguai -
Angélica come pão embebido no próprio sangue.
2) Foto de Francesca Paraguai -
Angélica Liddell: "Yo no soy
bonita".
Chegando à essência da
tragédia
As
incontáveis interpretações dadas à “Antígona” de Sófocles
por filósofos, ensaístas literários ou teóricos teatrais
incidem, quase sempre, no elogio à heroína por afirmar a
liberdade, mesmo ao preço da própria vida. Todavia, ela
transgrediu o edito de Creonte não por uma afirmação pessoal
de liberdade, mas para não transgredir as normas divinas,
“não escritas, inevitáveis”, que vigem desde os tempos mais
remotos “sem que ninguém possa dizer quando surgiram”. Esse
conflito de base gera outros, também merecedores de
discussão no âmbito filosófico, sociológico, moral e
político, como o aparente conformismo de Ismene e do coro de
anciãos, que se curvam às ordens do rei; ou da rebeldia de
Hêmon face à intransigência paterna.
Cada tema comporta um manancial de reflexões sobre a
condição humana. Não a condição humana atrelada a uma época
ou cultura específica, mas no sentido amplo, referindo-se à
espécie. Não divagações sobre a psicologia ou
posicionamentos morais dos personagens, mas a busca de
visões da totalidade através dos conflitos trágicos. Este é
o ponto de partida da concepção cênica dada por Antunes
Filho na montagem da tragédia de Sófocles, com o Grupo de
Teatro Macunaíma, conduzindo a narrativa ao plano mítico,
reino dos arquétipos, configurado no pensamento arcaico e
preso ao mito do eterno retorno.
O recurso básico utilizado na encenação é o “teatro dentro
do teatro”, ou metateatro, como normalmente se classifica
esse recurso dramático. No presente caso, tal classificação
é extremamente pertinente, porque radicaliza o termo cunhado
por Lionel Abel, assumindo a tragédia como expressão da
totalidade, observando o ser humano na relação direta com o
Divino e não mediado por raciocínios valorativos da
realidade, nos quais psicologia e sociologia são
determinantes. A adaptação de Antunes Filho mostra Antígona
inflada de hubris – do mesmo modo que Abel a descrevia – e a
caminho de assumir a condição divina, tornando-se demônio
como seu pai, a quem amparou após a queda trágica. Tal visão
abre espaço, em contraponto, para o drama (ação) de Creonte,
com arrogância humana e não hubris, preso às conveniências
de estadista e, portanto, falso demônio, patético, incapaz
da queda trágica.
A proposta é metateatro também no sentido em que a expressão
se vulgarizou para definir a estética do teatro, quando este
se torna auto-referente. Porém, metateatro não como simples
recurso narrativo, mas instrumento para a busca de lampejos
da totalidade através da noção cíclica da História e da
atualização ritualística do ato mítico.
O tebano Dioniso surge acompanhado pelas bacantes, mulheres
que no delírio das suas danças tantas vezes fizeram “tremer
o chão de Tebas”. Como um sacerdote enfadado pela eterna
repetição do rito, ou um encenador que não persegue
originalidade, mas a competência do gesto atualizador,
Dioniso “dirige” a peça sobre Antígona. Está implícito na
ação o rito iniciático de Dioniso, que renasce do próprio
coração para uma forma superior de existência, depois de
morto pelos Titãs, sendo as orgias das bacantes a celebração
da sua morte e do seu renascimento. O eterno retorno e a
atualização do ato mítico, portanto, estão presentes nos
acontecimentos cênicos, como em qualquer rito cuja função é
religar o atual com o ancestral, o humano com o Divino.
Dessa maneira se consuma o ato teatral comandado por Dioniso
dentro de outro ato teatral, como rito de passagem de que
resulta “metateatro”.
Longe de se fechar em ação mecânica, essa proposta abre
outros horizontes que desvelam e aprofundam o pensamento
criador. Nele, a tragédia não é apenas um gênero teatral, ma
o possível relato metafísico da Humanidade.
Ao ser “dirigida” por Dioniso, a peça vira um rito de
passagem, o que se justifica, já que a heroína corre sobre
um fio, no limite da Vida e da Morte, afirmando a
continuidade de uma na outra. Quando expõe à Ismene as
razões da sua atitude, dando sepultura a Polinices, mesmo ao
custo da própria vida, Antígona é muito clara: “Repousarei
ao lado dele, amada por quem tanto amei e santo é o meu
delito, pois terei de amar aos mortos muito, muito tempo
mais que aos vivos”. Esta é uma das tantas indicações do
trânsito constante da heroína entre o mundo dos vivos e o
mundo dos mortos, se é que se trata de mundos realmente
separados.
O cenário de J. C. Serroni materializa a idéia na magnífica
representação vertical de um cemitério, com gavetas e nichos
onde repousam os restos mortais dos heróis de todas as
tragédias gregas conhecidas. Na verdade, sabe-se que na
Grécia antiga, como no Império Romano, os túmulos ficavam em
locais de grande visibilidade, contribuindo para o
embelezamento das cidades, ostentando em auto-relevo cenas
mitológicas, muitas vezes cenas dionisíacas que celebravam o
papel funerário de Dioniso.
No entanto, apesar de realista, o cenário não é uma alusão
arqueológica, mas o indutor da idéia de que a tragédia
transforma em metafísico o espaço físico (nisso está a
essência do metateatro). O ambiente da ação é ao mesmo tempo
a ágora de Tebas, no plano da realidade histórica, e uma
espécie de pátio de Hades, a região dos mortos, no plano
metafísico. Não há meio de separar cartesianamente o mundo
físico do metafísico no sítio onde vivem promiscuamente os
deuses e os mortais – sítio que conhecemos por “tragédia”.
A presença das bacantes acompanhando Dioniso traz à cena um
coro que não existe no original de Sófocles, convivendo com
o coro de anciãos solicitado pelo mesmo original. Porém os
dois conjuntos não interagem, já que pertencem a diferentes
realidades: as bacantes estão no plano do narrador, daquele
que conta a história; ao passo que os anciãos fazem parte da
história narrada. Desse modo, o ponto de vista da narrativa
é o do mito, pois o deus Dioniso narra a história dos
mortais e da passagem de Antígona da condição de mortal para
a de demônio. Todavia, nada está separado de modo absoluto e
assim como as representações metafísicas invadem a realidade
física, esta também invade aquelas.
Os limites entre as realidades são abstratos, meras
convenções. Coisa que a entrada de Creonte torna evidente:
ele está em uma gaveta funerária, ou caixão de defunto, que
o coro dos anciãos remove da estrutura tumular do fundo e
traz para o centro da cena. Quando o caixão é colocado de
pé, Creonte “revive” para, mais uma vez, representar a
história do seu sacrilégio fundamental: o de deixar um morto
insepulto e sepultar uma criatura viva – ato abominável, que
ofende aos deuses.
Muitas vezes Dioniso gira em torno do caixão, gesto repetido
por uma ou outra bacante ao longo da narrativa, evidenciando
a representação cíclica da História, ou o eterno retorno.
Não há nada de subjetivo na atitude, pois o pensamento
arcaico lida com elementos concretos, ainda quando
simbólicos (como nos sonhos, conforme a concepção de Jung).
Assim, a última entrada de Antígona, manietada em camisa de
força e conduzida em uma cadeira de rodas, é simbólica, mas
não subjetiva. Com os braços presos, impossibilitada de
movimentos, Antígona revela-se mais forte, é pura energia, e
roga ao deus dos mortos que a leve viva aos seus domínios,
dizendo numa espécie de lamento: “Sem que alguém cante o
himineu por mim, sem que na alcova nupcial me acolha um
hino; caso-me com o negro inferno”. Revela desse modo o
pesar da despedida dos vivos e da própria vida, mas junta na
mesma expressão a alegria por ver no fim da passagem a sua
transformação divina. Também o fato de estar na cadeira de
rodas tem fundamento arcaico: nos relevos e desenhos
tumulares da antiga Grécia, a figura do morto ali sepultado
aparece sempre sentada, muitas vezes sobre um cavalo
(cadeira de rodas) que a conduzirá na jornada às profundezas
do Hades, enquanto as demais figuras, representando as
pessoas que ficam na terra guardando-a na saudade, são
vistas de pé.
Assim, a proposta cênica apresentada por Antunes Filho com o
Grupo de Teatro Macunaíma para a “Antígona”, de Sófocles,
respeita a poética impregnada de religiosidade que marca a
obra do grande trágico, e a atualiza, no sentido mais
estrito da atualização do gesto mítico, buscando, em última
análise, os fundamentos da própria tragédia e uma maneira de
torná-los acessíveis ao homem contemporâneo.
O elenco, tendo à frente Juliana Galdino (Antígone), Rodrigo
Fregnan (Creonte) e Carlos Morelli (Dioniso/ Tirésias),
confirma o triunfo do antigo sonho de Antunes Filho:
preparar atores capazes de dar nova dimensão estética à
tragédia grega.
[]Foto:
Juliana Galdino é Antínone.
Na Rua Teodoro Baima, ao lado do histórico
Teatro Arena, o Espaço Cenográfico também faz história.

Iniciando as comemorações dos seus dez anos
de existência, o Espaço Cenográfico de J. C. Serroni foi
inteiramente tomado pela exposição Modos Cenográficos,
aberta ao público no dia 1 de junho. Além de maquetes,
figurinos e objetos cênicos produzidos pela equipe da casa,
a exposição incorpora o próprio Espaço, com seus arquivos,
estantes de livros, mesas de trabalho, com absoluta
pertinência, pois em tudo ali pulsa e respira o fazer
cenográfico. Ao mesmo tempo a exposição faz explícita
homenagem a grandes nomes da cenografia brasileira e
internacional. E, de alguma maneira, discorre sobre as
atividades criativas, profissionais e didáticas, ali
desenvolvidas nesses dez anos, materializando nos
corredores, de modo belo e vigoroso, fatos e idéias
abordados por J. C. Serroni em “O Espaço 10 Anos Depois”,
matéria editorial do nº 35 do “Espaço Cenográfico News”,
lançado também nesse dia, como parte das comemorações.
"Trabalho
com e em prol da cenografia há exatos 30 anos”, é como
inicia o depoimento, que prossegue: “Os primeiros 10 mais
intensamente na televisão, mas já com trabalhos no teatro e
na área de shows musicais”, nomeando em seguida algumas
emissoras (TV Cultura e TV Globo), companhias de teatro
(destacando a de Antônio Fagundes) e estrelas da música
(Roberto Carlos, João Bosco, Maria Bethânia) para as quais
fez cenários nesses inícios. Lembra, em seguida, dos dez
anos que dirigiu o Núcleo de Cenografia do CPT-Centro de
Pesquisa Teatral. Período de intensa e brilhante parceria
com Antunes Filho, que lhe serviu para alicerçar “as bases
do Espaço Cenográfico”. E na última década, afirma Serroni
ter se esforçado no sentido de manter o Espaço “para a
discussão e a reflexão da cenografia e da arquitetura
teatral”.
J. C. Serroni
“Hoje, com dez anos de atividade”, prossegue o artista, “vi
a cenografia mudar muito em relação a quando comecei, 30
anos atrás. Pude ver também, mais claramente, um grande
salto nos últimos 10 anos em muitos aspectos da cenografia.
Já não se confunde mais cenografia com coreografia ou
oceonografia... Já temos algumas publicações em português,
alguns cursos, e o Brasil se fortaleceu em vários aspectos
da cenografia, inclusive internacionalmente”.
Sem dúvida ao Espaço Cenográfico e à intensa atividade do
seu criador deve ser creditada boa parte dos estímulos e de
atitudes concretas para a transformação daquela acanhada
realidade, de 30 anos atrás. Não só pela repercussão
internacional do trabalho de J. C. Serroni e da sua
importante participação na representação brasileira que
levantou prêmios na Quadrienal de Praga, mas por todas as
atividades desenvolvidas no Espaço Cenográfico, que inclui
cursos de cenografia ministrados gratuitamente a alunos
selecionados por testes. Além de publicações, alianças com
instituições internacionais, exposições, palestras e tantas
outras atividades que tornam a cenografia um tema vivo e
palpitante. (09-06-2008)
Falso
Espetáculo
Será a
vida um "falso espetáculo"? Este pode ser um modo de ver a
manifestação da Cia. Vazia.

“Uma festa à incerteza”, como afirma sua
criadora Elisa Ohtake, ou o elogio à precariedade, “Falso
Espetáculo” constitui precioso exemplo das possibilidades
que se abrem para as artes cênicas nesta época pós-moderna.
Quando se rompe com o iluminismo e com o determinismo
cartesiano é possível encarar sem vergonha intelectual ou
temores existenciais a nossa própria falência cotidiana.
Somos falíveis, graças a Deus! É o que parecem apregoar os
três intérpretes de “Falso Espetáculo”, com o prazer quase
sensual que lhes dá a constatação.
Já não é necessário superar todas as limitações físicas e
intelectuais para expressar minha alegria ou meus medos,
meus anseios ou minhas frustrações, ou qualquer outra
atitude representativa de sentimentos inerentes ao Ser. O
“mundo dado” não encerra todas as possibilidades. As
habilidades podem ser verdadeiras ou fingidas e nem vem ao
caso saber se são assim ou assado, por que às vezes o
importante não é a excelência da performance, ou a coisa em
si, mas a representação da coisa. Inaugura-se, desse modo, o
direito de cantar, ainda que desafinado, de dançar balé,
ainda que recalcitrante e trêmulo.
Será um olhar superficial o de quem confundir essa
manifestação com o velho conceito da caricatura ou da
sátira, que expunha a inabilidade do sujeito para
determinada performance com o objetivo de mostrar o ridículo
e arrancar a gargalhada fácil da platéia, porque o ridículo
humano sempre foi considerado desprezível e risível. Essas
sátiras estabelecem cumplicidade entre os atores e os
espectadores para rir do ridículo alheio, tentando exorcizar
deles mesmos a aludida falha social. “Nós somos melhores!”
Todo o contrário é a proposta ideológica do “Falso
Espetáculo”, que no dizer de Elisa Ohtake visa a “criar
brechas para que contornos possíveis ou impossíveis,
verdadeiros ou falsos, otimistas ou pessimistas, quiçá
momentaneamente possam se abrir a experimentações, a
liberdades artísticas, à pergunta de Espinosa: ´O que pode
um corpo´?”.
Uma proposta humanista, de “borrar contornos” do já
estabelecido propiciando o emergir de coisas novas, ainda
que impuras, ainda que imperfeitas, mas denunciadoras de
facetas inexploradas desse “mundo dado”. Oscilando “entre um
relativismo niilista e seu oposto”, os intérpretes partem da
idéia de que “tudo é impossível” para a de que “tudo é
possível”. E não há contradição entre uma coisa e outra,
porque ambas se validam, conforme o olhar que lhes for
lançado.
Comungando as mesmas idéias e (in)certezas, Elisa e seus
parceiros cênicos, Emerson Meneses e Ricardo Oliveira, têm
por rede de segurança um conjunto de idéias filosóficas que
vão de Espinosa até Willem Reich, mas não as usam como álibi
ou escudos acadêmicos, e sim como setas indicativas dos
caminhos do pensamento neste mundo ideológico em que “pensar
é impossível”. São as contradições com que se debatem em
volúpia de intérpretes, até o desespero e a vontade de
fugir. E a fuga, que sendo verdadeira é também fingida
(estamos no mundo dos signos, da ficção que propõe
realidades), resulta na volta. Fortalecidos pela falsa fuga,
partem para um desmonte final dos conceitos, das estruturas
intelectuais e físicas, ampliando o espaço do espectador do
micro para o macrocosmo.
E lá no infinito, entre as estrelas que enfeitam este céu de
abril, divisamos a grandeza que está implícita em nossa
ínfima forma, em nosso pequeno corpo ante a vastidão
cósmica. Talvez (certeza não há jamais) quanto mais
conscientes formos de nossa pequenez, melhor vislumbre
teremos do Infinito. Quem sabe nesse aspecto Elisa Ohtake
esteja sendo estimulada pela sua porção oriental, para uma
visão zen de mundo. E neste caso, “Falso Espetáculo” ganha
novas tonalidades filosóficas e espirituais. Hipótese que é
reforçada pelo próprio nome escolhido para o seu grupo: Cia.
Vazia. Nada por acaso. (08-05-2008)
Na foto: Ricardo Oliveira, Elisa
Ohtake e Emerson Meneses na cena inicial de "Falso
Espetáculo".
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Sebastião Milaré
é critico teatral em São Paulo, editor do site
http://www.antaprofana.com.br/ e
sócio honorário da Associação dos Dramaturgos do Nordeste - ADN |
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