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José Nêumanne Pinto
Tolo é quem pensa
que o povo é bobo
Segundo Tancredo, esperteza demais é um bicho que devora o
dono
Tendo apenas as próprias ambições pessoais a apresentar como
argumentos para convencer o eleitor a votar neles, alguns
políticos, como papagaios, repetem lemas e estratégias
cegamente, sem prestar atenção em sua óbvia inutilidade.
Membro de um grupo apelidado de “raposas felpudas” – os
pessedistas mineiros –, exatamente pelo talento para lidar
com o gosto e a preferência populares, o falecido Tancredo
Neves costumava avisar a seus correligionários que “a
esperteza, quando demasiada, é um bicho que acaba por
devorar o dono”. Eis uma frase que os pressurosos assessores
que voam rumo a seus candidatos nos intervalos dos debates
eleitorais na televisão deveriam ter sempre na ponta da
língua para impedir que estes venham a cometer tantos erros
infantis. Afinal, como já sabiam os antigos romanos, errar
não é um bicho de sete cabeças. Mas insistir no erro seria
diabólico, se o diabo fosse burro.
Comecemos pela favorita nas pesquisas, a ex-prefeita Marta
Suplicy, que desembarcou na campanha eleitoral absolutamente
convicta de que voltará para o antigo palácio dos Matarazzos
no Viaduto do Chá impulsionada pela popularidade de seu
patrono, Luiz Inácio Lula da Silva. Até agora a história
eleitoral brasileira registra raríssimos casos de
transferência de votos bem-sucedida, mas pode ser que – no
auge da glória em seu segundo mandato, outra coisa rara – o
chefe do governo quebre mais esse tabu e consiga convencer
aquele que votaria nele a sufragar o nome de sua ex-ministra
do Turismo. Afinal, esse milagre da transposição dos votos
pode não ser uma miragem, como a das águas do São Francisco
para matar a sede do sertanejo ou a das ondas do Oceano
Atlântico, que, no dizer de Sua Excelência, não serão
atravessadas pela crise dos EUA para cá, embora pertençamos,
nós e os gringos, ao mesmo continente americano e estejamos
no mesmo lado do pélago e do pré-sal. Ainda assim, seria
aconselhável que dona Marta do PT desse atenção ao fato de
que seu padrinho perdeu todas as eleições em que disputou
votos no maior município do País, entre elas a última, em
que enfrentou o mesmo Geraldo Alckmin, adversário dela hoje.
São Paulo fica muito longe de Garanhuns.
Ora, direis, citando outro mineiro sabichão, o udenista
Magalhães Pinto, política é como nuvens no céu: mudam de
figura num piscar de olhos. É verdade. Tudo muda na vida e,
sendo a política feita por políticos, ela muda mais
rapidamente ainda. Pode ser que, desta vez, haja uma
transferência maciça de votos de Lula para a candidata
petista e que sua popularidade tenha crescido de tal forma
que domingo ele pudesse ter mais votos que Alckmin, ao
contrário do que ocorreu há dois anos. Mas vamos convir que
a favorita nas pesquisas no primeiro turno melhoraria
bastante a probabilidade da própria vitória se prestasse
atenção nas lições da História e na sabedoria popular,
matéria em que seu ex-chefe é catedrático, sem ter precisado
defender tese. A insistência com que ela acusa do candidato
à reeleição Gilberto Kassab (DEM) de imitá-la ou repeti-la
dificilmente mudará a intenção de algum eleitor que votaria
nele a votar nela. Afinal, o cidadão se interessa pela obra
e pouco está ligando para quem possa ter sido o autor. Se
relacionar obras levasse ao triunfo, Paulo Maluf (PPS) não
estaria amargando o ostracismo em que afundou.
De qualquer maneira, a ex-prefeita ainda está no lucro, pois
começou o ano alijada da disputa pela frase infeliz do
“relaxa e goza” aconselhado por ela às vítimas do caos aéreo
nacional: tem garantida pelas pesquisas a passagem para o
turno decisivo da disputa, por obra e graça da cizânia entre
seus principais adversários. Depois de ter conseguido
protagonizar o feito inédito de perder votos do primeiro
para o segundo turno na última disputa eleitoral, Geraldo
Alckmin faz uma campanha cujo lema poderia ser traduzido por
um assim: “Vote em mim, porque Gilberto Kassab é ruim.”
Contrariando todas as lições do beabá do marketing político,
que parece não ter aprendido na recente derrota para a
Presidência, o ex-governador de São Paulo adotou a tática de
bater antes para depois beijar, assumindo explicitamente a
idéia de que convém insultar o prefeito no primeiro turno
para superá-lo e, então, por mera conveniência política,
aceitar o apoio dele ou apoiá-lo no turno final. É a leitura
eleitoral do famoso fecho do soneto Versos íntimos, de
Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja.”
Dando como favas contadas repetir para prefeito os votos que
teve para presidente, mesmo tendo, àquela época, chupado na
TV um picolé de chuchu para fazer jus a um apelido jocoso, o
que não anima ninguém a votar nele para qualquer cargo, o
pretendente do PSDB prefere associar o adversário de hoje e
aliado de amanhã a correligionários de outrora – Orestes
Quércia, no caso. O que ele se esqueceu de perguntar – e
qualquer pesquisador poderia responder – é se algum cidadão
deixará de votar no prefeito só por ter sido ele secretário
de Celso Pitta.
Alckmin e Kassab, aliás, se acumpliciaram na tola e
oportunista tentativa de pegar uma caroninha na cauda
brilhante do cometa Lula. Dois anos depois de terem tentado
derrotar, em vão, o presidente acusando-o de acobertar os
companheiros mensaleiros, o prefeito e o ex-governador
parecem dispostos a criar um novo partido para o caso de
PSDB e DEM se darem mal domingo – o PLTB (Partido do Lula
Tudo Bem). Ainda que tenha blasfemado ao tentar superar o
Criador, que encarregou Seus representantes na Terra de
proibirem o uso de Seu santo nome em vão, o presidente tem
razão quando chama a atenção para a hipocrisia e o
oportunismo rasteiros dessa manobra espúria.
Todos esses espertinhos fariam melhor se percebessem que
bobo o povo não é: tolo é quem pensa que é e disso ainda
tenta se aproveitar. (06-10-2008)
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José
Nêumanne é Jornalista, escritor e editorialista do
Jornal da Tarde
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