Palco&Platéia
Artes Cênicas
Cine&TV
Destaques
Literatura
Música
Opinião
 






















 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 


 

José Nêumanne Pinto

 

E assim falou... o

nosso Clemenceau
 

Lula age como o curandeiro que intui o diagnóstico, mas não sabe curar

“A guerra é uma coisa importante demais para ser deixada por conta dos generais.” Esta frase, de precisão cirúrgica, foi dita originalmente por um médico. E só foi adaptada e citada, como tem sido, por ter sido cunhada por um jornalista. Não um jornalista qualquer, mas aquele que mandou imprimir um dos textos mais importantes do século 20, o J’accuse (Eu acuso) com que Émile Zola denunciou um dos mais notórios erros judiciais da história, o caso Dreyfus. Além do mais, o autor foi estadista: senador e duas vezes primeiro-ministro da França, nos prolegômenos e no encerramento da 1ª Grande Guerra Mundial, Georges Clemenceau a aprendeu na experiência no trato com militares e ainda dos bancos escolares acadêmicos, no convívio com os luminares das letras francesas de seu tempo e, sobretudo, nos debates de plenários e até nas conversas descontraídas do cafezinho do Parlamento de seu país.

Depois que os canhões da 1ª Grande Guerra silenciaram e que os aviões da 2ª calcinaram lares em Londres, Berlim, Dresden, Hiroshima e Nagasaki, seu sentido tem sido confirmado e reafirmado ao longo do tempo e em todas as línguas. Sempre que alguém quer reclamar das limitações do específico quando mistérios genéricos assolam a saga humana na Terra, lá vem alguma nova versão da mesma sentença adaptada aos engenheiros que constroem, aos médicos que operam, aos arquitetos que desenham e por aí afora. Dia virá em que alguém dirá que jornal é uma coisa importante demais para ser deixada por conta dos jornalistas. Agora, contudo, é a vez dos economistas. Diante dos desafios da atual crise econômica mundial,produzida pela explosão da bolha imobiliária e da bomba dos derivativos, é natural que os dedos do crítico e o clamor da turba se voltem primeiro para os especuladores do mercado financeiro e depois para os economistas. Nosso presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, com a loquacidade de que é dotado e a empáfia que lhe têm concedido o poder republicano reafirmado nas urnas e o prestígio popular, que não decaiu no segundo mandato, contrariando a adaptação política da lei da gravidade na Física, não perdeu a chance de parodiar Clemenceau. E em Roma, diante do presidente Giorgio Napolitano no Palácio Quirinal, ele disparou não propriamente contra os economistas, mas contra a vaga entidade que ele chama de “analistas de mercado”. Seu novo palpite é que “os governantes precisam entender que precisamos ouvir menos analistas de mercado e mais analistas de problemas sociais, de desenvolvimento e que conhecem as pessoas”.

Antes de questionar os comandos militares, Clemenceau, exercendo a autocrítica, deixou os pacientes para colegas mais aptos e realizou sua vocação de crítico, tribuno e, depois, governante – no que seria imitado por insignes brasileiros como Juscelino Kubitschek e Antonio Carlos Magalhães. Nestes dias de êmulo tropical de Clemenceau, o presidente de nossa nada serena República age como um pajé capaz de intuir o diagnóstico, mas absolutamente incapaz de receitar a terapia. Quando começou a dedicar suas metáforas de marinheiro à crise econômica (a das “marolinhas” não foi propriamente a mais feliz delas), Sua Excelência respondia a quem o indagasse sobre o assunto: “Perguntem ao Bush” ou “o problema não é meu, é de Bush.” Típicas respostas de quem não sabe o que responder, pois, mesmo que o problema tenha sido originado na Casa Branca – o que é duvidoso –, certo é que não será ao presidente dos EUA que a sociedade brasileira terá de apelar para exigir medidas que, se não evitarem as conseqüências malignas do quadro mundial, pelo menos amenizem seus efeitos entre nós.

“Quem pariu Mateus que o embale” pode parecer uma boa saída para quem não tem convicção do que dizer, porque não sabe o que fazer para desatar o nó górdio, mas simplesmente não ajuda a decepá-lo. Henrique Meirelles, aparentemente o oásis de sensatez no deserto de parlapatice com que a alta cúpula econômica federal reage aos sustos pregados pela falta de confiança dos mercados internacionais, precisa explicar ao chefe que, a esta altura do campeonato, o que menos importa é definir a paternidade irresponsável da tempestade que começa a desabar. A prioridade no momento é estabelecer um plano coerente, efetivo e viável de enfrentamento das calamidades públicas que o ciclone financeiro pode produzir no crédito, no consumo e na produção, com conseqüências nefastas no emprego e na renda de famílias que não elegeram o Bush filho, mas Lula da Silva.

Pouco adianta constatar agora que o republicano do Texas foi o pior presidente em todos os tempos do país mais rico do mundo. E daí? Resta-nos evitar que a ignorância que o ajudou a cometer os erros que podem ter levado à catástrofe se repita aqui de forma que eles repercutam mais sobre o bolso e o estômago do cidadão brasileiro – particularmente o mais pobre – por doença similar. O que a ganância produziu lá não pode pela ignorância ser anabolizado aqui – do “outro lado do Atlântico”, como ainda repete nosso morubixaba.

A conjuntura mundial não está a exigir de Lula hoje – e não mais de George W. Bush, que está sendo substituído por Barack Obama – que ele seja o Clemenceau de Garanhuns nem que exiba um diploma universitário ou notório saber em Economia, Sociologia ou qualquer outra cadeira. O Brasil precisa agora é que o que lhe falta em experiência para levar o barco devagar pelo nevoeiro, como recomenda Paulinho da Viola em seu samba, pelo menos seja compensado pelo velho bom senso, que nunca lhe faltou. Infelizmente, quem espera por isso nada tem a comemorar com atestados explícitos de insensatez dados nas proclamações que o presidente tem feito ultimamente. (17-11-2008)

 

 

 

José Olympio Pereira Filho ou o homem que pôs o Brasil para ler

 

Enfim, à disposição dos leitores, o editor dos livros mais importantes do Brasil no século 20

Que interesse pode ter um livro de capa dura, fartamente ilustrado, sobre a vida de alguém que não foi poeta nem romancista e só esporadicamente escreveu cartas? Esta é a pergunta que um "idiota da objetividade" fará diante das 421 páginas da edição em grande formato de José Olympio - O Editor e sua Casa, com organização, pesquisa de imagens e texto por José Mario Pereira, editado pela Sextante para fazer justiça à trajetória de um modesto filho de português que começou a vida lavando vidros numa farmácia e teve a morte pranteada pelos grandes autores e leitores do País. A resposta pode ser dada numa sentença: qualquer brasileiro que já tenha entrado alguma vez numa livraria deveria saber que o paulista de Batatais José Olympio Pereira Filho foi o mais importante editor brasileiro do século 20. Mas somente lendo este livro minucioso, examinando suas ilustrações raras e passeando pela farta documentação, em grande parte inédita, reunida no anexo, é possível ter uma idéia de que a expressão a que recorreu o organizador do volume (que é Pereira Filho, mas não é parente) - "o civilizador do Brasil" -, embora justa, chega a ser modesta diante do que fez o personagem.

Editor da Topbooks, que lançou, entre outros, o portentoso A Lanterna na Popa, de Roberto Campos, José Mario Pereira garimpou nos arquivos da Livraria José Olympio Editora provas mais que suficientes de que, mesmo não tendo a cultura livreira de um Antônio Houaiss nem o gênio comercial de um Mauá, José Olympio fez mais pela cultura nacional que a União e os Estados juntos desde Tomé de Souza. Apesar de empregar parte dos orçamentos anuais para o incentivo à cultura, o poder público no Brasil nunca conseguiu fazer nada mais relevante que pagar os vencimentos do servidor Machado de Assis, permitindo-lhe assim legar à posteridade uma obra da qual o Brasil pode se orgulhar muito. Após ter comprado e vendido a biblioteca de Alfredo Pujol em São Paulo, J.O. entronizou o Rio de Janeiro como capital cultural do País meio século antes da Rede Globo, lançando toda a obra dos romancistas, poetas, críticos relevantes e até do pintor Portinari, que foi capista da editora e teve por ela lançado, logo após a morte, um livro de poemas.

Augusto Frederico Schmidt descobriu Graciliano Ramos lendo o relatório do então prefeito da remota Palmeira dos Índios, Alagoas, e dele publicou o livro de estréia, Caetés. Mas foi na editora de José Olympio que mestre Graça se tornou conhecido nacionalmente. J.O. fez as melhores edições de José Américo de Almeida, embora não tenha lançado a primeira de A Bagaceira. Do Ceará projetou para a glória a jovem Rachel de Queiroz, na editora a partir de seu terceiro romance, Caminho de pedras. Guimarães Rosa perdeu um concurso literário na Casa com os contos depois editados sob o título de Sagarana, mas foi a LJOE que publicou em 1956 o Grande sertão: veredas e os dois volumes de Corpo de baile. Gilberto Freyre, gênio de Casa grande e senzala, lançado por Schmidt em 1933, e na José Olympio a partir da 4ª edição, ganhou na "Casa" as suas melhores edições, além de ter sido o primeiro diretor da coleção Documentos brasileiros, inaugurada em 1936 com Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.

Pode-se discutir quem foi o maior poeta brasileiro do século 20 - Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade -, mas o editor de ambos foi J.O. E também foi ele quem fez as melhores edições de Murilo Mendes, Cassiano Ricardo, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes. Sua logomarca está impressa na primeira edição de livros fundamentais da sociologia brasileira - como Os parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido. Assim como, no campo da ensaística, a Casa foi pioneira, ao publicar clássicos como Machado de Assis (Estudo crítico e biográfico), de Lúcia Miguel Pereira, a série dos ensaios literários de Álvaro Lins, ou o excelente Um estadista da República, os três volumes em que Afonso Arinos examinou a biografia do seu pai ilustre.

Editor importante no começo dos anos 1930, Augusto Frederico Schmidt lançou os seus melhores livros de poemas e de memórias, como O galo branco, na José Olympio. A editora de J. O. publicou ainda as memórias de Gilberto Amado e, depois que adquiriu a editora Sabiá, editou Pedro Nava. A mesma editora que trouxe a lume um dos mais badalados livros do gênero, Minha vida de menina, de Helena Morley, publicou autobiografias de Brito Broca, Café Filho, Juarez Távora e Daniel Krieger.

José Olympio foi o hábil comerciante que lançou os grandes nomes da literatura e os livros dos poderosos de seu tempo, notadamente Getúlio Vargas. Mas isso não o impediu de editar adversários de Getúlio, caso de Afonso Arinos. Os autores da Casa traduziam obras de sucesso no exterior - como o best-seller Minha vida, de Charlie Chaplin ou a obra completa de russo Dostoievsky, fartamente ilustrada, ou a de A. J. Cronin.

O livro de José Mario Pereira revela pérolas como o recibo assinado por José Lins do Rego documentando o recebimento de uma comissão pela venda de livros para seu Estado natal, a Paraíba. E as muitas dedicatórias afetuosas de autores como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Carlos Drummond para J. O. Ele dá à saga de José Olympio a dimensão que, apesar do muito que já se escreveu sobre o editor ainda lhe era devida. Da obra de pesquisa séria, bem-documentada, um modelo a ser seguido no gênero, emerge um titã e um exemplo definitivo de que uma cultura de verdade não se faz com favores oficiais, mas com engenho, esmero e coragem.


 

 

Coronelismo, agora com tecnologia de ponta*

 

Um dos clássicos do folclore político nacional selecionados pelo jornalista baiano Sebastião Nery é o causo, segundo ele verídico, protagonizado pelo coronel Chico Heráclio do Rego, de Limoeiro, interior de Pernambuco. À época do episódio, votava-se em cédulas impressas postas pelo eleitor num envelope que, lacrado e assinado pelos mesários, este depositava na urna. O coronel em questão reuniu seus moradores, mandou que ficassem em fila indiana e lhes entregou, um a um, os envelopes lacrados com as cédulas dos candidatos sufragados. Aí era só ir à seção eleitoral, pegar as assinaturas dos mesários e votar. Votar? Pois é! Um cabra mais ousado resolveu perguntar: "O senhor pode me dizer pelo menos em quem eu vou votar, coronel?" A resposta foi ríspida e rápida: "Então, cabra ignorante, tu não sabes que o voto é secreto?" Apois. Depois de uma campanha cívica da UDN, a oposição da época, foi consagrada a cédula única na qual o eleitor marcava com X o nome do candidato escolhido. Veio o voto eletrônico, o coronel morreu, mas o coronelismo está aí vivinho da Silva. A diferença é que os chefões políticos de hoje em dia recorrem à tecnologia "muderna" para praticar o "neocoronelismo". O governo federal, seja pretenso social-democrata, seja falso socialista, distribui cartõezinhos de plástico para dar acesso do miserável às proteínas do Bolsa Família: este é o assistencialismo estatal. O particular fica sob as ordens do crime organizado. Os traficantes de drogas e os milicianos que os combatem ordenaram a seus currais eleitorais concentrados nos bairros miseráveis das periferias das grandes cidades brasileiras que usassem seus telefones celulares de tecnologia de ponta para fotografar a maquininha de votar e assim assegurar que ninguém está traindo a promessa do voto no candidato preferido da quadrilha ou da milícia. Precisa dizer mais alguma coisa para o preclaro leitor sacar a atualidade deste livro do André Heráclio, que é do mesmo clã do Rego ao qual pertencia o velho Chico? (10-11-2008)


*(Texto escrito para as orelhas do livro de André Heráclio do Rego sobre coronelismo e família, que está sendo editado pela Girafa Editora)

 

Um tiro no pé

calçado em salto alto

Para ressuscitar desta hecatombe, Marta terá de respeitar eleitores

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstrou muita sagacidade quando disse, ao votar em São Bernardo, que ele mesmo não foi derrotado na eleição de domingo, já que nenhum candidato falou mal dele explicitamente. Foi esperto, mas também foi verdadeiro. Da mesma forma como verdadeira é a afirmação de seu principal adversário político hoje no País, José Serra (PSDB), ao constatar, de forma cartesiana e quase acaciana, que o presidente não foi derrotado, pois não foi candidato. René Descartes e o conselheiro Acácio usariam o argumento para concluir que, por igual razão, o governador de São Paulo não pode ser apontado como o maior vitorioso no pleito de domingo. De fato, o maior dos  vencedores foi o prefeito Gilberto Kassab (DEM), que esmagou sua adversária, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT), sob uma avalanche impressionante, ao estabelecer uma vantagem de 1,3 milhão de votos sobre ela, superando o feito de Serra quatro anos atrás.

Esta só será, porém, uma meia-verdade se quem a proferir não reconhecer a participação efetiva do titular da chapa pela qual Kassab chegou à Prefeitura da capital há dois anos. A gestão municipal atual atende pela denominação Serra-Kassab pelo óbvio motivo de que, mesmo sendo de partidos diferentes, o prefeito reeleito manteve as diretrizes do antecessor em praticamente tudo, a exemplo do que Geraldo Alckmin havia feito no Estado com o legado que recebeu de Mário Covas. Mas entre reconhecer esta obviedade e estabelecer qualquer conexão entre os resultados municipais e o que ocorrerá nas campanhas estaduais e federal de 2010 vai uma larga e tortuosa distância. Kassab poderá até cumprir sua promessa de trabalhar pela candidatura do tucano à Presidência, mas não basta ter triunfado agora para vir a ungir sozinho o vencedor de daqui a dois anos. Jânio derrotou Fernando Henrique numa eleição municipal, mas se aposentaria depois, enquanto o derrotado seria duas vezes presidente da República. Maluf elegeu-se prefeito e fez de um poste chamado Pitta o sucessor, mas nem por isso voltou ao governo do Estado pelo voto ou teve condições de disputar para valer o troféu federal. Serra ganhou a disputa estadual saindo da Prefeitura, mas só isso não bastará para realizar suas  altas pretensões.

Quanto a Marta, bem, a ex-prefeita acaba de mostrar que tem alguma dificuldade para perceber os fatos políticos e aprender com eles. Há quatro anos ela era aprovada pela maioria do eleitorado no dia da eleição, mas perdeu-a para o ex-ministro da Saúde que, dois anos antes, havia sido derrotado por Lula na disputa pela Presidência. Em vez de fazer uma autocrítica penitencial de sua arrogância imperial, que era desconhecida da maioria dos paulistanos antes de sua plena exibição no exercício do poder no maior município do País, ela preferiu jogar a culpa da aparente contradição nas costas largas do eleitorado. Nunca teve coragem de dizê-lo explicitamente, mas se comportou de maneira a fazer crer que considerou a população ingrata por tê-la preterido ao mesmo tempo que a aprovava. E, após o fiasco nas urnas, correu da cidade, relegando-a à própria falta de sorte nos últimos meses da gestão, em fatídico exercício de uma vingança mesquinha e pouco inteligente. Teria contribuído para reduzir a alta rejeição que interrompeu uma gestão aprovada pela maioria se tivesse agido com mais humildade e sabedoria, purgando os próprios pecados para poder agora ressurgir das cinzas.

Beneficiária do hábito de Lula de dar prêmios de consolação a companheiros recusados pelo eleitor, assumiu o Ministério do Turismo e exibiu indelicadeza, desprezo pelo desconforto alheio e autoritarismo na famosa sentença – “relaxa e goza” – disparada contra as vítimas do Caos Aéreo Nacional, de plena responsabilidade do governo federal. A frase teria tudo para ornar sua lápide política se não fosse pelo fato de o forte PT não ter outro nome para a Prefeitura e ela e seus companheiros acreditarem piamente na amnésia crônica do eleitorado. Erraram: estilhaços da frase infeliz a prejudicaram.

Mas os tucanos ajudaram o PT a avaliar mal as chances dela quando, numa insensibilidade incrível, lançaram candidato próprio numa disputa que até os postes sabiam que se travaria entre Marta e o prefeito. Isso, porém, não ficou claro no início da campanha porque o eleitor não identificava a gestão municipal, que aprovava, com Kassab, mas com o número um da chapa dos dois em 2004, Serra. Só que um eficiente trabalho de comunicação, capitaneado pelo jornalista Luiz Gonzales, tratou de colar a figura do prefeito na gestão. Alckmin ajudou na tarefa: além de se pretender candidato da situação se opondo ao prefeito, um breve contra a lógica, o ex-governador mirou neste para garantir a passagem para o segundo turno e, então, se aproveitar da rejeição da ex-prefeita. Com isso ajudou a fixar na memória do eleitor a identificação de Kassab com a gestão iniciada por Serra. Tudo funcionou com tal sincronia que, para espanto generalizado, Marta, que chegou a pensar em ganhar no primeiro turno, ficou em segundo, com Kassab à sua frente. Esta surpresa desestabilizou a campanha dela a ponto de levá-la a estraçalhar o próprio currículo de defensora das minorias ao permitir em sua propaganda eleitoral uma insinuação insidiosa sobre o estado civil e a falta de prole do adversário: um tiro no pé calçado em salto alto.

O sórdido lance sibilino pode até não ter produzido todo o efeito maligno que se imagina na avalanche de votos que sepultou suas intenções de voltar à Prefeitura já. Devem-lhe ter sido mais fatais sua fé na transferência de prestígio de Lula para ela e a estratégia estulta, do ponto de vista da comunicação, de “desconstruir” o adversário atribuindo os próprios preconceitos ao eleitorado. Agora, para sobreviver a esta hecatombe Marta terá de aprender a respeitar os adversários e, sobretudo, os eleitores. (03-11-2008)

 

Na política, golpes baixos valem mais?

A cidade elegerá o prefeito, que não tem a obrigação de ser pai de família

Diziam os antigos que a política é a arte de engolir sapos. Não deve ser fácil fazê-lo, mas na certa mais habilidade se exigirá de quem cospe para cima e não quer ser atingido pela própria cusparada. O deputado Eduardo Paes, ex-favorito à prefeitura da segunda maior cidade do País, a antigamente tida como maravilhosa São Sebastião do Rio de Janeiro, é a mais recente vítima desta lei inexorável da Física, dita da gravidade, que Isaac Newton descreveu, segundo a lenda, após a queda de uma maçã sobre sua cabeça. Ele era secretário-geral do PSDB, principal partido da oposição, quando os meios de comunicação se ocupavam quase exclusivamente do escândalo do “mensalão”. E, inflamado pelo calor dos holofotes, apressou-se a convocar o amado filho de Sua Majestade, o nunca antes tão popular presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a depor.

Mas, como deviam também saber os mais jovens, pois os provectos o afirmam faz tempo, o mundo dá muitas voltas e a noite que prenuncia o dia – e vice-versa – também aconselha a prudência como única atitude para a qual há a garantia de que represálias não virão. À época da turbulência provocada pela denúncia do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), o tucanato, em cujo ninho se aninhava o rapaz, se alvoroçou com a possibilidade de sangrar o peru às vésperas da eleição, sem imaginar que para isso teria de desinfetar as próprias vísceras. Tido como derrotado antes da hora, o fenômeno de popularidade Lula da Silva deu a volta por cima e enterrou os sonhos tucanos de voltar a galgar as rampas palacianas, como nos velhos tempos. Treinado nas manhas e mumunhas da politicagem nacional e conhecedor da inabilidade tucana para ler os desígnios do destino, Paes pulou de galho e se abrigou à sombra da frondosa árvore peemedebista, sob as bênçãos do governador fluminense, Sérgio Cabral, que fora ungido pela graça de El Rey todo poderoso. Dali partiu para disputar a prefeitura da ex-Cidade Maravilhosa e, para gozar os benefícios da fama do Supremo, mandou-lhe uma carta, extensiva à digna consorte, pedindo perdão pelo que antes dissera de seu pimpolho.

Nada houve, desde as denúncias açodadas de Sua Excelência, que o levasse a voltar atrás, da forma humilhada como o fez, nas acusações a Sua Alteza. O que o fez abjurar o que antes afirmara com tanta convicção não foi a presunção da inocência do príncipe nem o reconhecimento da própria precipitação, mas o peso a que submeteu sua coluna o projeto de se alçar a tão alto cargo, carga, pelo visto, superior à da própria palavra – e de sua biografia. Na disputa apertada que se prenuncia pelo voto carioca neste turno decisivo, importa é conseguir a bênção do Sumo Pontífice. A coerência, como dizia o velho Chatô, patrono da malandragem nacional, é a virtude dos imbecis. É de duvidar que, mesmo que ele arregaçasse as mangas da camisa e partisse para o corpo-a-corpo da campanha, o que não fará, a popularidade do Maior Magistrado, sozinha, vencesse Fernando Gabeira (PV). Mas, por mais humilhante que seja, a retratação pesa menos sobre as vértebras do candidato oficial que o risco de deixar escaparem alguns votos dos receptadores da Bolsa-Família. Seria a política um tipo de vale-tudo em que golpes baixos valem mais pontos?

Apostando nessa lei não escrita da práxis eleitoral, os marqueteiros de Marta Suplicy (PT) decidiram investir no preconceito como arma à mão para tomar do adversário na campanha paulistana, o prefeito Gilberto Kassab (DEM), a surpreendente dianteira de 17 pontos detectada pelas pesquisas na partida para o segundo turno. Os marqueteiros de Marta e a própria candidata comportam-se no caso como se os eleitores paulistanos fossem portadores da mesma miopia que os faz atuar achando estarem na posse do monopólio da virtude, certos de que a incapacidade de enxergar o próprio rabo de palha provocará cegueira generalizada na população. Na televisão, como sexóloga, e na Câmara, como deputada, ela vislumbrou na guerra ao preconceito um nicho para levá-la às alturas. E lá chegou: foi prefeita de São Paulo, como antes havia sido Luiza Erundina, e ministra do Turismo, estando seu PT no poder na República.

Cego às evidências de que não pode ser vítima de preconceito uma mulher que teve a honra de ser escolhida para administrar o mais populoso e rico município do País, seu ex-chefe e agora paraninfo das ambições dela na disputa municipal, Luiz Inácio Lula da Silva, tentou jogar a culpa da derrota da preferida no primeiro turno nas costas da cidadania: ela teria tido menos votos que o conservador, ex-malufista e ex-secretário de Pitta não pelos próprios deméritos nem pelos méritos do adversário, mas pelos preconceitos do eleitor. E, como palavra de rei não volta atrás nem pode ser banalizada, a candidata e seus marqueteiros resolveram adotar como estratégia de campanha a exploração daquele que, conforme Lula, teria sido o motivo capital da inesperada derrota em 5 de outubro: o conservadorismo preconceituoso do  paulistano. Foi por acreditar nisso que a ex-prefeita resolveu lembrar ao eleitor, de maneira bem pouco sutil, que o adversário não é casado nem tem filhos. Os autores dessa proeza de torpeza sabem que estado civil e capacidade de reprodução não são exigidos de ninguém para disputar nem assumir a Prefeitura. Eles imaginam que essa insinuação pode levar o eleitor a rejeitar o adversário pelo mesmo motivo que pensam que a rejeita: seu comportamento atípico. E as tentativas posteriores de consertar o erro em nada o modificam.

Apesar de se comportar como se já houvera sido, a ex-prefeita ainda não teve derrotada sua pretensão de voltar ao posto. Mas sua desastrada entrada na reta final do pleito acrescentou um obstáculo a mais a ser superado: ela só o  vencerá  se o paulistano não perceber que mais insultado que Kassab foi o eleitor, tido por ela na conta de preconceituoso e intrometido.(20-10-2008)

 

Lula não é dono dos

votos dos cidadãos

O presidente cantou a vitória de Marta no primeiro turno em São Paulo antes de serem contados os votos. Erro semelhante já tinha sido cometido por Fernando Henrique e Paulo Maluf

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha razões de sobra para estar muito eufórico anteontem em São Bernardo do Campo: afinal, desde que assumiu o patronato explícito da candidatura de seu correligionário e sucessor na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, além de ex-ministro do Trabalho e da Previdência Luiz Marinho, este saiu de índices acanhados de preferência popular para atingir o topo das pesquisas. O favoritismo quase levou seu pupilo à vitória no primeiro turno. Mas, se este não fizer uma bobagem muito grande nas três semanas que ainda faltam transcorrer para a realização do turno final, dificilmente perderá para um candidato antes tido como imbatível, o deputado Orlando Morando (PSDB), afilhado político do popular prefeito Dr. Dib (PSB). Não é, de fato, feito de pouca monta e é preciso reconhecer com sensatez que Sua Excelência tinha motivos para comemorar. Só não precisava exagerar: no arrebatamento triunfalista da boca de urna, o chefe do governo comemorou a chegada de sua favorita Marta Suplicy na frente de todos os adversários na luta pela mais disputada das prefeituras, a de São Paulo. Contados os votos, verificou-se que um adversário da ex-prefeita a havia superado: Gilberto Kassab (DEM).

É possível que nem mesmo o prefeito acreditasse na possibilidade de chegar em primeiro lugar tendo começado a disputa correndo atrás de dois fortes oponentes: além da própria Marta, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que, entre outros problemas que lhe trouxe, expôs a fratura de uma aliança histórica e impediu o governador José Serra de apoiá-lo explicitamente, como o próprio Lula fez com sua preferida. No entanto, somente a reconhecida capacidade que tem o presidente da República de não ser atingido pelos dardos que atira contra si próprio impedirá de esta precipitação verbal ser lembrada como muito similar à decisão infeliz de Fernando Henrique se deixar fotografar sentado na cadeira do vencedor Jânio Quadros, que a desinfetou só para caracterizar ainda mais a inoportunidade do gesto. Só que Fernando Henrique não sabia o que fazia. E Lula sabia o que dizia.

O que talvez ele não saiba é que esse comportamento arrogante de contar com o ovo nas entranhas da galinha expressa de forma cabal um dos mais antigos e desprezíveis vícios que marcam a política brasileira desde o domínio dos coronéis da guarda nacional: a confusão entre prestígio e posse. Muitos chefes políticos já cometeram esse erro básico de se imaginar donatários da vontade do eleitor. Paulo Maluf (PP) cometeu engano similar há 20 anos quando era dado como vencedor virtual da eleição municipal e foi derrotado por Luiza Erundina (à época no PT).

Numa democracia, o povo não tem dono e não há mais lugar para voto de cabresto no País. (13-10-2008)

 

Tolo é quem pensa

que o povo é bobo

Segundo Tancredo, esperteza demais é um bicho que devora o dono

Tendo apenas as próprias ambições pessoais a apresentar como argumentos para convencer o eleitor a votar neles, alguns políticos, como papagaios, repetem lemas e estratégias cegamente, sem prestar atenção em sua óbvia inutilidade. Membro de um grupo apelidado de “raposas felpudas” – os pessedistas mineiros –, exatamente pelo talento para lidar com o gosto e a preferência populares, o falecido Tancredo Neves costumava avisar a seus correligionários que “a esperteza, quando demasiada, é um bicho que acaba por devorar o dono”. Eis uma frase que os pressurosos assessores que voam rumo a seus candidatos nos intervalos dos debates eleitorais na televisão deveriam ter sempre na ponta da língua para impedir que estes venham a cometer tantos erros infantis. Afinal, como já sabiam os antigos romanos, errar não é um bicho de sete cabeças. Mas insistir no erro seria diabólico, se o diabo fosse burro.

Comecemos pela favorita nas pesquisas, a ex-prefeita Marta Suplicy, que desembarcou na campanha eleitoral absolutamente convicta de que voltará para o antigo palácio dos Matarazzos no Viaduto do Chá impulsionada pela popularidade de seu patrono, Luiz Inácio Lula da Silva. Até agora a história eleitoral brasileira registra raríssimos casos de transferência de votos bem-sucedida, mas pode ser que – no auge da glória em seu segundo mandato, outra coisa rara – o chefe do governo quebre mais esse tabu e consiga convencer aquele que votaria nele a sufragar o nome de sua ex-ministra do Turismo. Afinal, esse milagre da transposição dos votos pode não ser uma miragem, como a das águas do São Francisco para matar a sede do sertanejo ou a das ondas do Oceano Atlântico, que, no dizer de Sua Excelência, não serão atravessadas pela crise dos EUA para cá, embora pertençamos, nós e os gringos, ao mesmo continente americano e estejamos no mesmo lado do pélago e do pré-sal. Ainda assim, seria aconselhável que dona Marta do PT desse atenção ao fato de que seu padrinho perdeu todas as eleições em que disputou votos no maior município do País, entre elas a última, em que enfrentou o mesmo Geraldo Alckmin, adversário dela hoje. São Paulo fica muito longe de Garanhuns.

Ora, direis, citando outro mineiro sabichão, o udenista Magalhães Pinto, política é como nuvens no céu: mudam de figura num piscar de olhos. É verdade. Tudo muda na vida e, sendo a política feita por políticos, ela muda mais rapidamente ainda. Pode ser que, desta vez, haja uma transferência maciça de votos de Lula para a candidata petista e que sua popularidade tenha crescido de tal forma que domingo ele pudesse ter mais votos que Alckmin, ao contrário do que ocorreu há dois anos. Mas vamos convir que a favorita nas pesquisas no primeiro turno melhoraria bastante a probabilidade da própria vitória se prestasse atenção nas lições da História e na sabedoria popular, matéria em que seu ex-chefe é catedrático, sem ter precisado defender tese. A insistência com que ela acusa do candidato à reeleição Gilberto Kassab (DEM) de imitá-la ou repeti-la dificilmente mudará a intenção de algum eleitor que votaria nele a votar nela. Afinal, o cidadão se interessa pela obra e pouco está ligando para quem possa ter sido o autor. Se relacionar obras levasse ao triunfo, Paulo Maluf (PPS) não estaria amargando o ostracismo em que afundou.

De qualquer maneira, a ex-prefeita ainda está no lucro, pois começou o ano alijada da disputa pela frase infeliz do “relaxa e goza” aconselhado por ela às vítimas do caos aéreo nacional: tem garantida pelas pesquisas a passagem para o turno decisivo da disputa, por obra e graça da cizânia entre seus principais adversários. Depois de ter conseguido protagonizar o feito inédito de perder votos do primeiro para o segundo turno na última disputa eleitoral, Geraldo Alckmin faz uma campanha cujo lema poderia ser traduzido por um assim: “Vote em mim, porque Gilberto Kassab é ruim.” Contrariando todas as lições do beabá do marketing político, que parece não ter aprendido na recente derrota para a Presidência, o ex-governador de São Paulo adotou a tática de bater antes para depois beijar, assumindo explicitamente a idéia de que convém insultar o prefeito no primeiro turno para superá-lo e, então, por mera conveniência política, aceitar o apoio dele ou apoiá-lo no turno final. É a leitura eleitoral do famoso fecho do soneto Versos íntimos, de Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja.” Dando como favas contadas repetir para prefeito os votos que teve para presidente, mesmo tendo, àquela época, chupado na TV um picolé de chuchu para fazer jus a um apelido jocoso, o que não anima ninguém a votar nele para qualquer cargo, o pretendente do PSDB prefere associar o adversário de hoje e aliado de amanhã a correligionários de outrora – Orestes Quércia, no caso. O que ele se esqueceu de perguntar – e qualquer pesquisador poderia responder – é se algum cidadão deixará de votar no prefeito só por ter sido ele secretário de Celso Pitta.

Alckmin e Kassab, aliás, se acumpliciaram na tola e oportunista tentativa de pegar uma caroninha na cauda brilhante do cometa Lula. Dois anos depois de terem tentado derrotar, em vão, o presidente acusando-o de acobertar os companheiros mensaleiros, o prefeito e o ex-governador parecem dispostos a criar um novo partido para o caso de PSDB e DEM se darem mal domingo – o PLTB (Partido do Lula Tudo Bem). Ainda que tenha blasfemado ao tentar superar o Criador, que encarregou Seus representantes na Terra de proibirem o uso de Seu santo nome em vão, o presidente tem razão quando chama a atenção para a hipocrisia e o oportunismo rasteiros dessa manobra espúria.

Todos esses espertinhos fariam melhor se percebessem que bobo o povo não é: tolo é quem pensa que é e disso ainda tenta se aproveitar. (06-10-2008)

 

A oposição não sabe

onde o galo canta
 

Lula se beneficia da adesão habitual e da incapacidade dos adversários

Diz o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), que “a oposição foi revogada, saiu da moda”. O reconhecimento prévio do malogro neste ano eleitoral reproduz, com exatidão e sinceridade, a situação política esdrúxula que o País vive. E também ajuda a explicar tal fiasco, pois a autocondenação à morte mostra que o prócer, a exemplo dos colegas de bancada, sabe que o galo cantou, mas não tem idéia de onde fica o poleiro do qual todo dia este saúda o Sol. O desabafo de Guerra traduz desalento e é também uma confissão de impotência, que resulta da própria incompetência, não apenas para combater o fenômeno que a tirou de moda, mas também para compreender a cena política, condição básica para que a partir de tal compreensão se esbocem as linhas-mestras para enfrentar e resolver o problema. A maior tragédia da oposição brasileira hoje não é a eficiência do governo, mas a própria ineficiência para perceber e atuar.

O patamar a que galgou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva – de 64% de popularidade, segundo a última pesquisa Datafolha – não pode ser produto apenas de sua inegável sorte: resulta também de sua capacidade rara de se comunicar com os segmentos mais pobres e numerosos da população. Para isso usa a própria vivência e, da mesma forma, recorre a uma intuição admirável. Além da fortuna, a virtude de saber conciliar o levou ao governo depois de três derrotas seguidas em duas disputas contra o tucano Fernando Henrique e outra com o alagoano Fernando Collor. Isso não é inusitado na história política do Brasil independente. À capacidade de dom Pedro II de atender a liberais e conservadores – facilitada pelo fato de que, segundo glosava uma quadrinha popular no século 19, nada mais igual a um saquarema que um luzia no poder, apelidos jocosos dados pelo povo aos grupos que se revezavam no poder no Segundo Império – deveu-se a longevidade de seu reinado. Do talento do gaúcho Getúlio Vargas para reunir grupos na aparência antagônicos sob seu tacão - os latifundiários do PSD com os proletários do PTB - dependeu outra bem-sucedida aliança, tal como a primeira fundida no chumbo em que se imprimia o Diário Oficial: a conciliação pela via da nomeação.

A diferença entre nosso atual caudilho e os modelos históricos aqui lembrados é que ele realizou a primeira conciliação antes de alcançar o poder, ao submeter à disciplina partidária e a seu comando carismático grupos antes irreconciliáveis da esquerda armada, ao lado de lideranças sindicais e líderes da esquerda eclesiástica. Sob o estandarte socialista da mudança de “tudo o que está aí”, mas com um discurso conservador na economia, para não afugentar o voto da classe média e da classe operária especializada, ele subiu a rampa do Palácio do Planalto. No poder, mesmo não sendo um profundo conhecedor da história política nacional, aproveitou-se magistralmente das lições dos grandes conciliadores, radicalizando experiências de união nacional que já tinham sido ensaiadas, mas nunca levadas a cabo até o ponto em que ele as praticou. Foi além de Eurico Dutra e do próprio Getúlio, que montaram Gabinetes de união nacional. E conseguiu de antigos adversários políticos aparentemente inconciliáveis – de egressos da ditadura, como Paulo Maluf, José Sarney e Delfim Netto, a fisiológicos notórios, como Severino Cavalcanti, Jader Barbalho e Renan Calheiros – o que negara a Itamar Franco no grande acordo feito na pós-queda da República de Alagoas. De fato, essa mentalidade de mosqueteiros de fancaria (“todos por cada um e ninguém pelo povo”) se repete monotonamente nos palácios brasileiros desde a Independência. Mas Lula lhe deu consistência e vigor: Fernando Henrique, seu antecessor também nisso (os quadros de seus dois governos repetem-se no atual numa monotonia enerviante), jamais teria estômago para fazer a defesa vigorosa que o presidente faz de políticos e práticas inconfessáveis: de Severino Cavalcanti aos “mensaleiros”.

Lula ganhou a primeira eleição prometendo ser diferente dos adversários e a segunda, garantindo que estes eram farinha do mesmo saco onde escondeu seus companheiros apanhados em flagrante em delitos catalogados ao longo de todo o Código Penal. Para isso contou com a ajuda dos opositores, que lhe entregaram as batatas da vitória no instante em que se negaram a sacrificar a cabeça do então presidente nacional do PSDB, Eduardo Azeredo (MG), flagrado em crime idêntico aos de que foram acusados “companheiros” do quilate do ex-presidente do PT do presidente, José Genoino, e de seu principal organizador, José Dirceu. A elite oposicionista, incapaz de enxergar um palmo além dos narizes empoados de seus baluartes, não foi capaz de compreender o fato.

Lula não dormiu sobre os louros do triunfo nas urnas, conseguido pelos próprios méritos e pela incompetência dos adversários: seu oponente, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), conseguiu o feito de ser menos votado no segundo turno que no primeiro. E no segundo governo faz mais do mesmo, ao repetir a fórmula testada e aprovada de encher os cofres dos banqueiros e a barriga dos miseráveis. Essa fórmula mágica, capaz de içar candidaturas municipais do limbo ao topo (como as de João da Costa, no Recife, e Luiz Marinho, em São Bernardo do Campo), produz efeito de avalanche ameaçando sepultar os sonhos oposicionistas de voltar ao Planalto em 2010. Mas, a bem da verdade, Lula nada tem que ver com a lambança de seus adversários Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM), únicos responsáveis pelo oxigênio injetado na candidatura petista de Marta Suplicy no maior município do País. A eleição paulistana prova que a oposição sai da moda por méritos de Lula e deméritos próprios. Doses de adesão alheia e da falta de visão dela mesma é que podem vir a revogá-la. (22-09-2008)

 

Discurso de posse na Academia Paraibana de Letras

Parece ser de uma ironia atroz o fato irrecusável de que eu esteja aqui diante de vocês para celebrar a imortalidade saudando cinco mortos, o primeiro dos quais o poeta por excelência da morte. Há nesta festa, contudo, meus queridos amigos, mais que ironia, sabedoria. A lição foi ministrada antes de tudo pelos antigos gregos e romanos e recentemente trazida a este mesmo convívio – e muitos de nós somos testemunhas disso – pelo acadêmico Manuel Batista de Medeiros ao saudar outro confrade, Guilherme Silveira d’Ávila Lins, na última posse celebrada na Casa de Coriolano de Medeiros. Trouxe-nos o professor de Latim as mais sábias e mais profundas reflexões produzidas pelas mentes privilegiadas de outros mortais como nós, que viveram e morreram numa época distante já soterrada pela poeira do tempo. Nada teria este imodesto ex-seminarista menor nenhuma meditação tão arguta e tão profunda a lhes trazer para acrescer-se a elas.

A primeira faceta que me ocorre para abordar a imortalidade, queridos convidados nossos, é aquele antigo dito popular repetido quando encontramos outrem a respeito de quem falávamos ou pensávamos no momento. “Você não morre mais”, dizemos, não é mesmo? Pois. Trata-se da vitória da esperança sobre o medo, uma aposta na continuidade, que, contudo, não interrompe a inexorável extinção futura de quem diz, de quem ouve e das outras testemunhas, certo?

Há, ainda outro aspecto contido no verso célebre do soneto de Vinicius de Moraes, “e que seja infinito enquanto dure”. Este conceito está contido no poema que nosso amigo e agora também confrade Damião Cavalcanti resumiu num verso muito feliz com o qual abre o poema que dedicou a este noviço da imortalidade e está obtendo grande êxito entre nós e no exterior pela internet. No poema curto, que lhes peço licença para ler aqui, permito-me destacar os dois versos iniciais e o fecho. Ei-lo:

*IMORTAL
Ao poeta Neumanne
Se os momentos são bem vividos,
Viverei eternidades.
Cada um em cada uma
Com início, mas sem fim.
Se a morte ameaçar a vida,
Chame-me até de imortal.
Esses momentos de ida
Confundem-se com os da vinda.
E o chorar parecerá sorrir,
A matemática a mãe da música,
O preferível a sabedoria,
Almas gêmeas dos antigos.
Ao pensar assim também,
A montanha será topo
E seu caminho a planície,
Espaço e tempo um só ente.
Não importam distantes astros
E viagens transcendentes,
Nem tampouco as idades.
Nas circunstâncias de eclipse,
Viverei eternidades.

Gostaria de lhes chamar a atenção para duas reflexões preciosas que afloram do poema. A primeira delas é aquela sensação que muitas vezes nos assola de estarmos vivendo algo que não termina. É o que ocorre normalmente quando chegamos ao ápice no ato sexual, ao orgasmo, que, significativemente, os franceses chamam de “petit mort”, pequena morte. No caso do sexo, agradabilíssima forma de reprodução da vida, a expressão francesa é particularmente feliz, porque associa a morte ä renovação da vida, conceito posto a circular por dois judeus que viveram há dois milênios: o profeta Jesus Cristo e seu apóstolo Saulo de Tarso. A morte, para os cristãos, e aprendi isso desde cedo, nada mais é que o começo da vida eterna. Cristão como eu e como a maioria dos aqui presentes, também Damião subverte o conceito de eternidade, substituindo-o pelo de infinito: não se trata de algo que não começa nem termina, mas sim de algo que tem começo, mas não tem fim. Para os cristãos, a morte não é o fim, mas o começo do sem fim, o princípio do que não acaba.

Nesta época em que a tecnologia prolonga, mas não espanta a morte, recebi uma mensagem por e-mail de um amigo, profissional de Direito como Manuel Batista, o representante da Academia Pernambucana de Letras nesta assembléia, Dr. José Paulo Cavalcanti, em que esta situação aparentemente paradoxal de herdar a imortalidade de quem já morreu. “Agora”, escreveu Zé Paulinho, “você já pode morrer”. A sentença serve ao mesmo tempo de consolo e de condenação: lembra a finitude, que não é só minha nem de Zé Paulinho, mas de todos nós aqui, ao mesmo tempo que nos afaga com a perspectiva de não ser aquela que Manuel Bandeira chamou de a Indesejada das Gentes a coveira dos pensamentos e obras que produzimos nesta terra. Não nos reunimos aqui para cortejar a morte, mas para celebrar a vida que fica, mesmo de quem já não está mais conosco – a escrita da construção da obra humana, pois, como diziam os mesmos antigos que inventaram esta celebração, a vida é curta, mas a arte é longa e, assim sendo, o que é humano é breve, mas o que diz respeito à humanidade se prolonga pelo tempo afora, de tal maneira e a um tal ponto que se eterniza.

O tema, então, não é a morte, mas a ressurreição. Cada vez que um ocupante desta cadeira 01 da Academia Paraibana de Letras saudar seus antecessores – e isso voltará a ocorrer quando eu não estiver mais entre vocês – Augusto dos Anjos ressuscitará. E sua obra acenderá dentro de nós a chama da vida, o lampejo da existência curta, mas profícua. Não será uma ruína, como a do faraó Ramsés 2º, que o poeta inglês Percy Bysche Shelley descreveu num dos mais célebres sonetos da literatura universal em todos os tempos. Peço-lhes vênia para lhes dizer em inglês e depois traduzir esta peça magnífica para que vocês compartilhem comigo o prazer do ritmo e a bênção da compreensão da inutilidade do poder efêmero e das obras de pedra que viram pó.

Ozymandias

I met a traveller from an antique land
Who said:—Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!"
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

Ozymandias

Encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas imensas pernas de pedra sem tronco
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio enterrado, jaz um rosto despedaçado e em sua fronte
De lábio enrugado e em seu sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor leu bem suas paixões
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal estão escritas estas palavras:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Apreciem minha obra, poderosos, e se desesperem!"
Nada mais resta: em redor da decadência
Daquela ruína colossal, sem limite e vazia
As areias solitárias e planas espalham-se ao longe.

Este soneto foi escrito em 1818, portanto há 190 anos, meus amigos, e cada dia que passa ele fica mais atual, tornando-se a prova viva, embora imaterial, de que a obra de Ramsés foi meio enterrada pela areia, mas nos traz lições para viver ainda hoje, graças ao olhar de lince do poeta. E é de um poeta assim que me cabe falar: um artista da palavra que usou as imagens da degeneração, da finitude, da putrefação para nos falar da permanente vida que surge dos escombros. Todos se lembram do Augusto dos Anjos do “Tome, Dr., esta tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa” do soneto “Budismo moderno”. Mas é preciso ter presente que o patrono desta cadeira 01 também escreveu num poema longo, forma na qual, segundo o colega e exegeta Ferreira Gullar, fala melhor o artífice da palavra que nos sonetos, embora estes sejam sempre de magnífica artesania, o “Poema negro”, um verso que bem poderia servir de epígrafe a estas palavras que vocês ouvem com paciência e esperança: “Não! Jesus não morreu! Vive na serra / Da Borborema, no ar de minha terra!” Meus amigos, não consigo ler ou dizer este verso sem emoção, pois ele fala do que há de mais transcendente, de mais relevante numa simplicidade e num bom gosto que desautoriza os críticos da complexidade e do mau gosto de nosso poeta maior.

Estou aqui diante de ilustríssimos exegetas de nosso patrono comum, particularmente o acadêmico que me saudará com o talento e a verve de sempre, meu querido amigo Ronaldo Cunha Lima, e será muito arriscado meu próximo passo. Mas minha pretensão de menino sertanejo que conseguiu sobreviver, passando incólume pelo primeiro ano de vida e chegar à imortalidade aos 57, este tipo de ousadia não é de assombrar e espero que nem os choque. Há algum tempo venho buscando desafiar o conceito comum de que Augusto dos Anjos é o poeta da tristeza, do pessimismo, o cantor dos vermes, o bardo da dissecação cadavérica. Desde os idos de 60, quando o lia sofregamente no quarto dos fundos da casa dos meus pais na rua Ruy Barbosa, atrás do Colégio dos Damas, em Campina Grande, esta identificação do maior poeta paraibano de todos os tempos – e um dos três maiores de meu panteão poético, ao lado de Castro Alves e Manuel Bandeira – com o fúnebre e o atro me parece mais uma destas confusões que se costuma fazer entre o autor e sua obra. Esta experiência vivo-a eu mesmo e, sendo esta a noite de minha imodéstia, peço-lhes vênia para lhes contar que não sou tão religioso nem tão triste nem tão ético nem tão desapegado dos bens materiais como minha poesia revela. Meu amado amigo e crítico Álvaro de Sá, que foi chamado para o andar de cima quando preparava um ensaio sobre minha poesia, é que me chamou a atenção para o fato de uma pessoa pândega ser um poeta grave e um cristão rebelde aos cânones e rituais da Igreja ser tão canônico e pouco rebelde ao tratar da fé em seus versos. Antes que torne este discurso enfadonho pela autocomiseração e levando em conta que jamais conseguirei falar tão bem de mim como Ronaldo o fará, retomo a questão de Augusto a partir da definição magnífica da colega mineira Adélia Prado, segundo quem da poesia que escreve dela só é a letra. Ninguém precisa ter a fé dela nem a minha para entender que a poesia, mais que qualquer outro gênero literário, mais até que qualquer arte, é a expressão de uma voz interior, de uma alma independente que pode habitar o coração, mas não o corpo efêmero de quem cria. Agora não estou sozinho nesta tarefa aparentemente inglória. Ana Isabel, aqui presente, e Socorro Aragão, representada por Afrânio, meu ex-vizinho na Rua Ruy Barbosa, me revelaram que em suas pesquisas sobre nosso patrono descobriram ser ele também um satírico colaborador dos jornais da festa das Neves. Os estudiosos sérios de sua vida já descobriram há muito mais tempo que tísico não era o poeta, mas seu alter-ego confessado nos versos. Considerar Augusto apenas um pálido reflexo magro e encurvado desta sua persona é desmerecer sua artesania verbal, é não lhe dar o devido valor.

Agora, graças a meu amigo e colega poeta capixaba Aricy Curvello, que me mandou pelo correio, como se fazia nos velhos tempos heróicos pré e-mail, um estudo completo de Ferreira Gullar, grande crítico de literatura e arte e poeta maior, encontro apoio para minha rebeldia juvenil contra a sombra magra do tísico pessimista que tem coberto a obra agostina como uma pele de rinoceronte.

Em seu ensaio “Agusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”, o grande maranhense encontra o ambiente de decadência, doença e luto que perpassa a obra poética de nosso patrono, não na alma doentia de um pessimista crônico, mas no ambiente em que ele viveu. Decadência financeira da família de senhores de engenho, de que foi rebento, que o fez mendigar dinheiro público para editar seus versos e ouvir a desaforada resposta do governador João Machado – “não amola, seu Augusto”-, o que, por si só faz deste político um exemplo acabado dos estadistas de sempre dentro ou fora dos limites de nosso Estado e lhe tira o merecimento com que tem sido lembrado até hoje em nomes de logradouros públicos. Que mérito pode ter um governante que se nega a dar uma migalha para trazer a lume uma obra-prima definitiva da literatura nacional? Mas deixando de lado a grosseria que fez nosso conterrâneo partir daqui e proibir que os pósteros permitissem o sepultamento de suas cinzas na terra que o viu nascer, voltemos ao que interessa, a análise aguda e precisa, cirúrgica, do colega que realmente soube amar e compreender a obra que João Machado não quis publicar.

O Augusto que emerge da análise de Gullar é o poeta que desafiou a futilidade que imperava na poesia brasileira na virada do século, responsável pela definição de “sorriso da sociedade”, dada por Francisco de Assis Barbosa, que conheci pessoalmente na casa senhorial de José Rufino, em companhia de José Américo de Almeida, primo deste, em Areia. Mais ainda: é o introdutor da realidade corriqueira, do cotidiano, do factual numa poesia embebida de ideais e devaneios. Ferreira Gullar se deu ao trabalho de listar termos retirados de sua obra para concluir: “Essa quantidade de palavras de uso corrente, que na sua maioria indicam utensílios, fenômenos e atos da vida de todos os dias, poderá surpreender aqueles que se habituaram – conforme as definições simplistas e errôneas – a ver em ‘Augusto um simbolista ou um “cientificista’, nos dois casos um poeta afastado do cotidiano”. Sem querer me alongar nos argumentos com os quais o poeta maranhense situou o vate paraibano como precursor da poesia moderna no Brasil, peço vênia para acrescentar que à associação que críticos iluminados como Manuel Bandeira faziam entre Augusto e seu contemporâneo Euclydes da Cunha na prosa Gullar acrescenta as de Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. Gullar lembra a recorrência nas obras de Augusto e Cabral da morte – no primeiro noturna e orgânica, no segundo diurna e mineral. E concluiu o ensaio aduzindo que, do mesmo modo que a poesia brasileira contemporânea se tornou fâmula do formalismo pós-cabralino sem o talento de Cabral, Augusto pagou o preço de ter sido “o primeiro a pôr em versos a indigência da morte (e vida) nordestina”, em outras palavras “vida e morte severina”.

É de todo conveniente lembrar aqui que o Augusto que ficou não foi o analisado pela crítica nem sempre brilhante como a de Gullar, mas o popular, recitado pelos corais de colégios e pelos declamadores amadores e amorosos. Isso foi possível graças a sua técnica apurada, capaz de alcançar em sua obra momentos à altura dos maiores “ritmistas” da poesia em língua portuguesa, de Joaquim du Bocage a Antônio Frederico de Castro Alves. Em “O artesanato em Augusto dos Anjos”, estudo clássico a respeito, o clebrado crítico Manuel Cavalcanti Proença fez uma decupagem de seus poemas mostrando como ele dominava com maestria o decassílabo, verso fundador da língua, usado por Camões nos Lusíadas, manejado com destreza por nossos repentistas populares e considerado um desafio por poetas com menos capacidade de superar suas dificuldades. A preferência pelo decassílabo deve-se, segundo o crítico ao fato de este permitir mais que todos a variedade de ritmo baseada na distribuição das tônicas. É este o segredo da fácil memorização da obra poética de Augusto – e aqui está Ronaldo que não me deixa mentir. É a natureza mnemônica do decassílabo que o torna favorito dos violeiros. E foi ela também que me permitiu decorar meu soneto favorito, “Vandalismo”, um dos raros exemplares simbolistas de sua obra inteira e um primor de artesanato. Nélida já me ouviu recitá-lo na solenidade de recebimento do prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, para meu romance O silêncio do delator, e tenho certeza de que ela não se aborrecerá de ouvi-lo novamente. Chamo a atenção para o fato de eu não ser capaz de decorar nem mesmo os poemas que faço:

Vandalismo, de Augusto dos Anjos

 

Meu coração tem catedrais imensas,

Templos de priscas e longínquas datas,

Onde o nume de amor em serenatas

Canta a aleluia virginal das crenças.

 

Da olgiva fúlgida e das colunatas

Vertem lustrais irradiações intensas,

Cintilações de lâmpadas suspensas

E as ametistas, os florões, as pratas.

 

Como os velhos templários medievais,

Entrei um dia nestas catedrais

E nestes templos claros e risonhos.

 

E erguendo os gládios e brandindo as hastas

Com o desespero dos iconoclastas

Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.

É provável que provenha do ritmo o prestígio da obra de Augusto mesmo entre pessoas simples que não tenham o hábito da leitura. Acrescento-lhe também a predileção popular pelo linguajar indecifrável. Parte do segredo da popularidade de Jânio Quadros, por exemplo, deve-se às palavras que pronunciava e poucos entendiam, mas achavam bonito aquele discurso. O mesmo vale para nosso patrono. E para nós, seus leitores e admiradores devotos. Ocorreu-me hoje escrevendo este discurso que nunca me havia interessado para buscar no dicionário o sentido da palavra “moneras”. Apesar de citar e recitar sempre aqueles versos magníficos do “Monólogo de uma sombra”. E cito de cor, sem saltear: “Sou uma sombra, venho de outras eras, / Do cosmopolitismo das moneras / pólipo de recônditas reentrâncias”. Bonito, hein? Pois é. Só esta minha obrigação de lhes falar aqui me fez recorrer ao dicionário, hábito freqüente de minha lida de profissional da palavra. E aí fiquei sabendo que monera quer dizer bactéria. Vivendo e aprendendo. Mesmo na imortalidade.

Antes de encerrar este breve introdução ao patrono da cadeira 01 desta egrégia Academia, gostaria de abordar a releitura crítica sobre ele empreendida por um dos maiores poetas, críticos literários e intelectuais do Brasil hoje, Mário Chamie. O moço de Cajobi, São Paulo, com sua irreverência habitual, contestou, num estudo reproduzido em seu livro A palavra inscrita, a crença comum de que Augusto seria um pregador evolucionista pelo fato de citar freqüentemente em seus versos o pensamento científico de Ernst Haeckel e Herbert Spencer, teóricos do “evolucionismo”, leitura filosófica da obra do biólogo Charles Darwin. O instaurador da Práxis, habituado a recursos lingüísticos como a ironia e a carnavalização, vê no autor de Eu um “involucionista”, alguém que prega a volta ao estado original da matéria como contrapartida à decomposição, à degeneração e à putrefação da matéria extinta. Para ele, em Augusto “o triunfo da crença ergue a hipótese da esperança que nos livra da impotência absoluta e abjeta, salvando-nos da condição de ‘cósmico zero’ ou da ‘mônada vil’. Essa crença, com efeito, impede-nos a queda no vazio do nada e, em contrapartida, nos ergue ao vazio pleno do Nirvana”. Tomo a liberdade de, mesmo sem a licença do autor, assegurar que mais que Haeckel, que tanto citou nos versos, Augusto foi mais fiel a Georg Friederich Hegel, o pai da dialética, ao narrar em seu ritmo alucinante de violeiro a tese e a antítese se encontrando no infinito da síntese.

Antes de incorrer na ira dos cultores do poeta triste, prefiro avançar no discurso rumo ao primeiro ocupante desta cadeira, o filósofo do direito José Flóscolo da Nóbrega. Este e eu compartilhamos a sina do proparoxítono. Meu segundo prenome, Nêumanne, resultado de um erro da tabeliã encarregada de meu registro, incapaz de reproduzir a vontade de minha mãe de me batizar de Newman como o orador John Henry Newman, cardeal inglês e santo católico, permite-me, depois de tantos anos de soletrá-lo, a oportunidade de me aproximar de meu antecessor e xará, José como eu e proparoxítono como eu, embora ele duplamente, também Nóbrega, e eu, apenas Pinto, um reles, simplíssimo paroxítono desacentuado.

Gostaria de ter herdado do lente de Direito, hoje injustamente, se não esquecido, pouco celebrado, como me lembrou seu colega e leitor Rodrigo Toscano, o saber filosófico e a capacidade de manejar as palavras como Didi fazia com a bola de futebol. Seu discurso de posse nesta Casa de Coriolano de Medeiros é uma das mais perfeitas e bem acabadas peças retóricas – e até literárias – que já li na vida. E me deu o tema de que precisava para não deixar esta oração limitada a uma espécie de confeito de bolo sem bolo. Flóscolo se queixou de um fato que hoje se pereniza, é até o caso de dizer que parece se eternizar e que merece nosso repúdio e nossa luta para impedir que ele se afirme. Disse o mestre: “A tremenda desordem moral que lavra no mundo bem evidencia a fase de degradação que ora vivemos. Assistimos àquela invasão vertical de bárbaros, de que falava Rathenau”. Aqui, mais uma vez, sem querer furtar um pouco do brilho dele para a opaca condição deste meu discurso, mas já o fazendo, quero lembrar que A invasão dos bárbaros, continuação de A queda do império americano, ambos filmes do canadense Denys Arcand, inspirou meu romance O silêncio do delator, aqui já citado.

Coincidências à parte, voltarei ao tema no final desta fala, pois antes ainda terei o prazer de me referir aos imortais que me antecederam nesta cadeira, o primeiro deles, Flóscolo, nascido em 1898 em Santa Luzia do Sabugi e falecido em 1969, nesta capital paraibana. O pessoense Humberto Carneiro da Cunha Nóbrega sucedeu-o fazendo um discurso de pesquisador, que era, no qual recompôs as raízes genealógicas do patrono, aparentado com o mais importante político do Estado, Epitácio Pessoa, como ele fez questão de lembrar. Cronista de fatos curiosos protagonizados pelo antecessor, o ex-reitor da Universidade Federal da Paraíba, nascido em 1912 e falecido em 1988, deixou a marca de uma obra capaz de justificar os acadêmicos que o elegeram para esta cadeira em 1971, aos 59 anos de idade.

Substituiu-o o bibliófilo Waldemar Duarte. Bem biografado pelo promotor Antônio Batista Neto na revista de Uiraúna, nossa cidade comum, editada por minha prima Terezinha Vieira, sobrinha do grande orador sacro e educador monsenhor Manuel Vieira, este imortal era um homem dedicado ao serviço público e à organização bibliográfica. Em comum com ele temos o sertão do Rio do Peixe de onde emigramos – ele para cá e eu para Campina Grande. Não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Além de ter nascido em Uiraúna como eu, ele em 1923, eu em 1951, temos em comum a amizade com o poeta e funcionário público Eurícledes Formiga, da mesma patota boêmia a que pertencia, entre outros, Osíris de Belli, Filho de São João do Rio do Peixe, a cujo município nossa Uiraúna pertencia quando Waldemar e eu nascemos, antes da emancipação conseguida pelo médico e político Oswaldo Cascudo, obstetra que me puxou a fórceps do ventre da minha mãe, Formiga conheceu meu pai, Anchieta Pinto, adolescente aprendendo pistom na casa de sua irmã, minha tia Floripes, em sua cidade natal. Ganhou a vida pela memória espantosa que o permitiria, por exemplo, dizer novamente este discurso, palavra por palavra, e repeti-lo ao contrário, se é que vocês ainda teriam paciência para isso. Waldemar, o amigo de Formiga, entrou nesta Academia em 1991, aos 68 anos, e aqui foi recebido pelo poeta Jansen Filho, cuja obra, como a de Castro Alves, minha mãe costumava dizer de cor nas noites de breu da calçada quente e sem brisa do sertão, antes de a luz de Paulo Afonso chegar a Uiraúna. Minha mãe gostava particularmente de seu poema “Renata”.

A morte de Waldemar, há três anos, levou Ronaldo Cunha Lima a me sugerir disputar-lhe a vaga pelas condições de uiraunense, admirador de Augusto dos Anjos e amigo comum de Formiga, estas duas condições compartilhadas com o poeta de Guarabira, campinense por adoção e devoção que nem o orador que vos fala. Cheguei a me inscrever, mas desisti de participar da disputa, vencida com todos os méritos pelo dramaturgo e folclorista Altimar de Alencar Pimentel, Nascido em 1936, em Maceió, Alagoas, mas mo