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José Nêumanne Pinto
E assim falou... o
nosso Clemenceau
Lula age como o curandeiro que intui o diagnóstico, mas não
sabe curar
“A guerra é uma coisa importante demais para ser deixada por
conta dos generais.” Esta frase, de precisão cirúrgica, foi
dita originalmente por um médico. E só foi adaptada e
citada, como tem sido, por ter sido cunhada por um
jornalista. Não um jornalista qualquer, mas aquele que
mandou imprimir um dos textos mais importantes do século 20,
o J’accuse (Eu acuso) com que Émile Zola denunciou um dos
mais notórios erros judiciais da história, o caso Dreyfus.
Além do mais, o autor foi estadista: senador e duas vezes
primeiro-ministro da França, nos prolegômenos e no
encerramento da 1ª Grande Guerra Mundial, Georges Clemenceau
a aprendeu na experiência no trato com militares e ainda dos
bancos escolares acadêmicos, no convívio com os luminares
das letras francesas de seu tempo e, sobretudo, nos debates
de plenários e até nas conversas descontraídas do cafezinho
do Parlamento de seu país.
Depois que os canhões da 1ª Grande Guerra silenciaram e que
os aviões da 2ª calcinaram lares em Londres, Berlim, Dresden,
Hiroshima e Nagasaki, seu sentido tem sido confirmado e
reafirmado ao longo do tempo e em todas as línguas. Sempre
que alguém quer reclamar das limitações do específico quando
mistérios genéricos assolam a saga humana na Terra, lá vem
alguma nova versão da mesma sentença adaptada aos
engenheiros que constroem, aos médicos que operam, aos
arquitetos que desenham e por aí afora. Dia virá em que
alguém dirá que jornal é uma coisa importante demais para
ser deixada por conta dos jornalistas. Agora, contudo, é a
vez dos economistas. Diante dos desafios da atual crise
econômica mundial,produzida pela explosão da bolha
imobiliária e da bomba dos derivativos, é natural que os
dedos do crítico e o clamor da turba se voltem primeiro para
os especuladores do mercado financeiro e depois para os
economistas. Nosso presidente, Luiz Inácio Lula da Silva,
com a loquacidade de que é dotado e a empáfia que lhe têm
concedido o poder republicano reafirmado nas urnas e o
prestígio popular, que não decaiu no segundo mandato,
contrariando a adaptação política da lei da gravidade na
Física, não perdeu a chance de parodiar Clemenceau. E em
Roma, diante do presidente Giorgio Napolitano no Palácio
Quirinal, ele disparou não propriamente contra os
economistas, mas contra a vaga entidade que ele chama de
“analistas de mercado”. Seu novo palpite é que “os
governantes precisam entender que precisamos ouvir menos
analistas de mercado e mais analistas de problemas sociais,
de desenvolvimento e que conhecem as pessoas”.
Antes de questionar os comandos militares, Clemenceau,
exercendo a autocrítica, deixou os pacientes para colegas
mais aptos e realizou sua vocação de crítico, tribuno e,
depois, governante – no que seria imitado por insignes
brasileiros como Juscelino Kubitschek e Antonio Carlos
Magalhães. Nestes dias de êmulo tropical de Clemenceau, o
presidente de nossa nada serena República age como um pajé
capaz de intuir o diagnóstico, mas absolutamente incapaz de
receitar a terapia. Quando começou a dedicar suas metáforas
de marinheiro à crise econômica (a das “marolinhas” não foi
propriamente a mais feliz delas), Sua Excelência respondia a
quem o indagasse sobre o assunto: “Perguntem ao Bush” ou “o
problema não é meu, é de Bush.” Típicas respostas de quem
não sabe o que responder, pois, mesmo que o problema tenha
sido originado na Casa Branca – o que é duvidoso –, certo é
que não será ao presidente dos EUA que a sociedade
brasileira terá de apelar para exigir medidas que, se não
evitarem as conseqüências malignas do quadro mundial, pelo
menos amenizem seus efeitos entre nós.
“Quem pariu Mateus que o embale” pode parecer uma boa saída
para quem não tem convicção do que dizer, porque não sabe o
que fazer para desatar o nó górdio, mas simplesmente não
ajuda a decepá-lo. Henrique Meirelles, aparentemente o oásis
de sensatez no deserto de parlapatice com que a alta cúpula
econômica federal reage aos sustos pregados pela falta de
confiança dos mercados internacionais, precisa explicar ao
chefe que, a esta altura do campeonato, o que menos importa
é definir a paternidade irresponsável da tempestade que
começa a desabar. A prioridade no momento é estabelecer um
plano coerente, efetivo e viável de enfrentamento das
calamidades públicas que o ciclone financeiro pode produzir
no crédito, no consumo e na produção, com conseqüências
nefastas no emprego e na renda de famílias que não elegeram
o Bush filho, mas Lula da Silva.
Pouco adianta constatar agora que o republicano do Texas foi
o pior presidente em todos os tempos do país mais rico do
mundo. E daí? Resta-nos evitar que a ignorância que o ajudou
a cometer os erros que podem ter levado à catástrofe se
repita aqui de forma que eles repercutam mais sobre o bolso
e o estômago do cidadão brasileiro – particularmente o mais
pobre – por doença similar. O que a ganância produziu lá não
pode pela ignorância ser anabolizado aqui – do “outro lado
do Atlântico”, como ainda repete nosso morubixaba.
A conjuntura mundial não está a exigir de Lula hoje – e não
mais de George W. Bush, que está sendo substituído por
Barack Obama – que ele seja o Clemenceau de Garanhuns nem
que exiba um diploma universitário ou notório saber em
Economia, Sociologia ou qualquer outra cadeira. O Brasil
precisa agora é que o que lhe falta em experiência para
levar o barco devagar pelo nevoeiro, como recomenda Paulinho
da Viola em seu samba, pelo menos seja compensado pelo velho
bom senso, que nunca lhe faltou. Infelizmente, quem espera
por isso nada tem a comemorar com atestados explícitos de
insensatez dados nas proclamações que o presidente tem feito
ultimamente. (17-11-2008)
José Olympio
Pereira Filho ou o homem que pôs o Brasil para ler
Enfim, à disposição dos
leitores, o editor dos livros mais importantes do Brasil no
século 20
Que interesse pode ter um
livro de capa dura, fartamente ilustrado, sobre a vida de
alguém que não foi poeta nem romancista e só esporadicamente
escreveu cartas? Esta é a pergunta que um "idiota da
objetividade" fará diante das 421 páginas da edição em
grande formato de José Olympio - O Editor e sua Casa, com
organização, pesquisa de imagens e texto por José Mario
Pereira, editado pela Sextante para fazer justiça à
trajetória de um modesto filho de português que começou a
vida lavando vidros numa farmácia e teve a morte pranteada
pelos grandes autores e leitores do País. A resposta pode
ser dada numa sentença: qualquer brasileiro que já tenha
entrado alguma vez numa livraria deveria saber que o
paulista de Batatais José Olympio Pereira Filho foi o mais
importante editor brasileiro do século 20. Mas somente lendo
este livro minucioso, examinando suas ilustrações raras e
passeando pela farta documentação, em grande parte inédita,
reunida no anexo, é possível ter uma idéia de que a
expressão a que recorreu o organizador do volume (que é
Pereira Filho, mas não é parente) - "o civilizador do
Brasil" -, embora justa, chega a ser modesta diante do que
fez o personagem.
Editor da Topbooks, que
lançou, entre outros, o portentoso A Lanterna na Popa, de
Roberto Campos, José Mario Pereira garimpou nos arquivos da
Livraria José Olympio Editora provas mais que suficientes de
que, mesmo não tendo a cultura livreira de um Antônio
Houaiss nem o gênio comercial de um Mauá, José Olympio fez
mais pela cultura nacional que a União e os Estados juntos
desde Tomé de Souza. Apesar de empregar parte dos orçamentos
anuais para o incentivo à cultura, o poder público no Brasil
nunca conseguiu fazer nada mais relevante que pagar os
vencimentos do servidor Machado de Assis, permitindo-lhe
assim legar à posteridade uma obra da qual o Brasil pode se
orgulhar muito. Após ter comprado e vendido a biblioteca de
Alfredo Pujol em São Paulo, J.O. entronizou o Rio de Janeiro
como capital cultural do País meio século antes da Rede
Globo, lançando toda a obra dos romancistas, poetas,
críticos relevantes e até do pintor Portinari, que foi
capista da editora e teve por ela lançado, logo após a
morte, um livro de poemas.
Augusto Frederico Schmidt
descobriu Graciliano Ramos lendo o relatório do então
prefeito da remota Palmeira dos Índios, Alagoas, e dele
publicou o livro de estréia, Caetés. Mas foi na editora de
José Olympio que mestre Graça se tornou conhecido
nacionalmente. J.O. fez as melhores edições de José Américo
de Almeida, embora não tenha lançado a primeira de A
Bagaceira. Do Ceará projetou para a glória a jovem Rachel de
Queiroz, na editora a partir de seu terceiro romance,
Caminho de pedras. Guimarães Rosa perdeu um concurso
literário na Casa com os contos depois editados sob o título
de Sagarana, mas foi a LJOE que publicou em 1956 o Grande
sertão: veredas e os dois volumes de Corpo de baile.
Gilberto Freyre, gênio de Casa grande e senzala, lançado por
Schmidt em 1933, e na José Olympio a partir da 4ª edição,
ganhou na "Casa" as suas melhores edições, além de ter sido
o primeiro diretor da coleção Documentos brasileiros,
inaugurada em 1936 com Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque
de Holanda.
Pode-se discutir quem foi o
maior poeta brasileiro do século 20 - Manuel Bandeira ou
Carlos Drummond de Andrade -, mas o editor de ambos foi J.O.
E também foi ele quem fez as melhores edições de Murilo
Mendes, Cassiano Ricardo, João Cabral de Melo Neto e
Vinicius de Moraes. Sua logomarca está impressa na primeira
edição de livros fundamentais da sociologia brasileira -
como Os parceiros do Rio Bonito, de Antonio Candido. Assim
como, no campo da ensaística, a Casa foi pioneira, ao
publicar clássicos como Machado de Assis (Estudo crítico e
biográfico), de Lúcia Miguel Pereira, a série dos ensaios
literários de Álvaro Lins, ou o excelente Um estadista da
República, os três volumes em que Afonso Arinos examinou a
biografia do seu pai ilustre.
Editor importante no começo
dos anos 1930, Augusto Frederico Schmidt lançou os seus
melhores livros de poemas e de memórias, como O galo branco,
na José Olympio. A editora de J. O. publicou ainda as
memórias de Gilberto Amado e, depois que adquiriu a editora
Sabiá, editou Pedro Nava. A mesma editora que trouxe a lume
um dos mais badalados livros do gênero, Minha vida de
menina, de Helena Morley, publicou autobiografias de Brito
Broca, Café Filho, Juarez Távora e Daniel Krieger.
José Olympio foi o hábil
comerciante que lançou os grandes nomes da literatura e os
livros dos poderosos de seu tempo, notadamente Getúlio
Vargas. Mas isso não o impediu de editar adversários de
Getúlio, caso de Afonso Arinos. Os autores da Casa traduziam
obras de sucesso no exterior - como o best-seller Minha
vida, de Charlie Chaplin ou a obra completa de russo
Dostoievsky, fartamente ilustrada, ou a de A. J. Cronin.
O livro de José Mario
Pereira revela pérolas como o recibo assinado por José Lins
do Rego documentando o recebimento de uma comissão pela
venda de livros para seu Estado natal, a Paraíba. E as
muitas dedicatórias afetuosas de autores como Graciliano
Ramos, Guimarães Rosa e Carlos Drummond para J. O. Ele dá à
saga de José Olympio a dimensão que, apesar do muito que já
se escreveu sobre o editor ainda lhe era devida. Da obra de
pesquisa séria, bem-documentada, um modelo a ser seguido no
gênero, emerge um titã e um exemplo definitivo de que uma
cultura de verdade não se faz com favores oficiais, mas com
engenho, esmero e coragem.
Coronelismo,
agora com tecnologia de ponta*
Um dos clássicos do folclore político nacional selecionados
pelo jornalista baiano Sebastião Nery é o causo, segundo ele
verídico, protagonizado pelo coronel Chico Heráclio do Rego,
de Limoeiro, interior de Pernambuco. À época do episódio,
votava-se em cédulas impressas postas pelo eleitor num
envelope que, lacrado e assinado pelos mesários, este
depositava na urna. O coronel em questão reuniu seus
moradores, mandou que ficassem em fila indiana e lhes
entregou, um a um, os envelopes lacrados com as cédulas dos
candidatos sufragados. Aí era só ir à seção eleitoral, pegar
as assinaturas dos mesários e votar. Votar? Pois é! Um cabra
mais ousado resolveu perguntar: "O senhor pode me dizer pelo
menos em quem eu vou votar, coronel?" A resposta foi ríspida
e rápida: "Então, cabra ignorante, tu não sabes que o voto é
secreto?" Apois. Depois de uma campanha cívica da UDN, a
oposição da época, foi consagrada a cédula única na qual o
eleitor marcava com X o nome do candidato escolhido. Veio o
voto eletrônico, o coronel morreu, mas o coronelismo está aí
vivinho da Silva. A diferença é que os chefões políticos de
hoje em dia recorrem à tecnologia "muderna" para praticar o
"neocoronelismo". O governo federal, seja pretenso
social-democrata, seja falso socialista, distribui
cartõezinhos de plástico para dar acesso do miserável às
proteínas do Bolsa Família: este é o assistencialismo
estatal. O particular fica sob as ordens do crime
organizado. Os traficantes de drogas e os milicianos que os
combatem ordenaram a seus currais eleitorais concentrados
nos bairros miseráveis das periferias das grandes cidades
brasileiras que usassem seus telefones celulares de
tecnologia de ponta para fotografar a maquininha de votar e
assim assegurar que ninguém está traindo a promessa do voto
no candidato preferido da quadrilha ou da milícia. Precisa
dizer mais alguma coisa para o preclaro leitor sacar a
atualidade deste livro do André Heráclio, que é do mesmo clã
do Rego ao qual pertencia o velho Chico? (10-11-2008)
*(Texto
escrito para as orelhas do livro de André Heráclio do Rego
sobre coronelismo e família, que está sendo editado pela
Girafa Editora)
Um tiro no pé
calçado em salto alto
Para
ressuscitar desta hecatombe, Marta terá de respeitar
eleitores
Luiz Inácio Lula da Silva
(PT) demonstrou muita sagacidade quando disse, ao votar em
São Bernardo, que ele mesmo não foi derrotado na eleição de
domingo, já que nenhum candidato falou mal dele
explicitamente. Foi esperto, mas também foi verdadeiro. Da
mesma forma como verdadeira é a afirmação de seu principal
adversário político hoje no País, José Serra (PSDB), ao
constatar, de forma cartesiana e quase acaciana, que o
presidente não foi derrotado, pois não foi candidato. René
Descartes e o conselheiro Acácio usariam o argumento para
concluir que, por igual razão, o governador de São Paulo não
pode ser apontado como o maior vitorioso no pleito de
domingo. De fato, o maior dos vencedores foi o prefeito
Gilberto Kassab (DEM), que esmagou sua adversária, a
ex-prefeita Marta Suplicy (PT), sob uma avalanche
impressionante, ao estabelecer uma vantagem de 1,3 milhão de
votos sobre ela, superando o feito de Serra quatro anos
atrás.
Esta só será, porém, uma
meia-verdade se quem a proferir não reconhecer a
participação efetiva do titular da chapa pela qual Kassab
chegou à Prefeitura da capital há dois anos. A gestão
municipal atual atende pela denominação Serra-Kassab pelo
óbvio motivo de que, mesmo sendo de partidos diferentes, o
prefeito reeleito manteve as diretrizes do antecessor em
praticamente tudo, a exemplo do que Geraldo Alckmin havia
feito no Estado com o legado que recebeu de Mário Covas. Mas
entre reconhecer esta obviedade e estabelecer qualquer
conexão entre os resultados municipais e o que ocorrerá nas
campanhas estaduais e federal de 2010 vai uma larga e
tortuosa distância. Kassab poderá até cumprir sua promessa
de trabalhar pela candidatura do tucano à Presidência, mas
não basta ter triunfado agora para vir a ungir sozinho o
vencedor de daqui a dois anos. Jânio derrotou Fernando
Henrique numa eleição municipal, mas se aposentaria depois,
enquanto o derrotado seria duas vezes presidente da
República. Maluf elegeu-se prefeito e fez de um poste
chamado Pitta o sucessor, mas nem por isso voltou ao governo
do Estado pelo voto ou teve condições de disputar para valer
o troféu federal. Serra ganhou a disputa estadual saindo da
Prefeitura, mas só isso não bastará para realizar suas
altas pretensões.
Quanto a Marta, bem, a
ex-prefeita acaba de mostrar que tem alguma dificuldade para
perceber os fatos políticos e aprender com eles. Há quatro
anos ela era aprovada pela maioria do eleitorado no dia da
eleição, mas perdeu-a para o ex-ministro da Saúde que, dois
anos antes, havia sido derrotado por Lula na disputa pela
Presidência. Em vez de fazer uma autocrítica penitencial de
sua arrogância imperial, que era desconhecida da maioria dos
paulistanos antes de sua plena exibição no exercício do
poder no maior município do País, ela preferiu jogar a culpa
da aparente contradição nas costas largas do eleitorado.
Nunca teve coragem de dizê-lo explicitamente, mas se
comportou de maneira a fazer crer que considerou a população
ingrata por tê-la preterido ao mesmo tempo que a aprovava.
E, após o fiasco nas urnas, correu da cidade, relegando-a à
própria falta de sorte nos últimos meses da gestão, em
fatídico exercício de uma vingança mesquinha e pouco
inteligente. Teria contribuído para reduzir a alta rejeição
que interrompeu uma gestão aprovada pela maioria se tivesse
agido com mais humildade e sabedoria, purgando os próprios
pecados para poder agora ressurgir das cinzas.
Beneficiária do hábito de
Lula de dar prêmios de consolação a companheiros recusados
pelo eleitor, assumiu o Ministério do Turismo e exibiu
indelicadeza, desprezo pelo desconforto alheio e
autoritarismo na famosa sentença – “relaxa e goza” –
disparada contra as vítimas do Caos Aéreo Nacional, de plena
responsabilidade do governo federal. A frase teria tudo para
ornar sua lápide política se não fosse pelo fato de o forte
PT não ter outro nome para a Prefeitura e ela e seus
companheiros acreditarem piamente na amnésia crônica do
eleitorado. Erraram: estilhaços da frase infeliz a
prejudicaram.
Mas os tucanos ajudaram o PT
a avaliar mal as chances dela quando, numa insensibilidade
incrível, lançaram candidato próprio numa disputa que até os
postes sabiam que se travaria entre Marta e o prefeito.
Isso, porém, não ficou claro no início da campanha porque o
eleitor não identificava a gestão municipal, que aprovava,
com Kassab, mas com o número um da chapa dos dois em 2004,
Serra. Só que um eficiente trabalho de comunicação,
capitaneado pelo jornalista Luiz Gonzales, tratou de colar a
figura do prefeito na gestão. Alckmin ajudou na tarefa: além
de se pretender candidato da situação se opondo ao prefeito,
um breve contra a lógica, o ex-governador mirou neste para
garantir a passagem para o segundo turno e, então, se
aproveitar da rejeição da ex-prefeita. Com isso ajudou a
fixar na memória do eleitor a identificação de Kassab com a
gestão iniciada por Serra. Tudo funcionou com tal sincronia
que, para espanto generalizado, Marta, que chegou a pensar
em ganhar no primeiro turno, ficou em segundo, com Kassab à
sua frente. Esta surpresa desestabilizou a campanha dela a
ponto de levá-la a estraçalhar o próprio currículo de
defensora das minorias ao permitir em sua propaganda
eleitoral uma insinuação insidiosa sobre o estado civil e a
falta de prole do adversário: um tiro no pé calçado em salto
alto.
O sórdido lance sibilino pode
até não ter produzido todo o efeito maligno que se imagina
na avalanche de votos que sepultou suas intenções de voltar
à Prefeitura já. Devem-lhe ter sido mais fatais sua fé na
transferência de prestígio de Lula para ela e a estratégia
estulta, do ponto de vista da comunicação, de “desconstruir”
o adversário atribuindo os próprios preconceitos ao
eleitorado. Agora, para sobreviver a esta hecatombe Marta
terá de aprender a respeitar os adversários e, sobretudo, os
eleitores. (03-11-2008)
Na política, golpes baixos
valem mais?
A cidade elegerá o prefeito, que não tem a obrigação de ser
pai de família
Diziam os antigos que a
política é a arte de engolir sapos. Não deve ser fácil
fazê-lo, mas na certa mais habilidade se exigirá de quem
cospe para cima e não quer ser atingido pela própria
cusparada. O deputado Eduardo Paes, ex-favorito à prefeitura
da segunda maior cidade do País, a antigamente tida como
maravilhosa São Sebastião do Rio de Janeiro, é a mais
recente vítima desta lei inexorável da Física, dita da
gravidade, que Isaac Newton descreveu, segundo a lenda, após
a queda de uma maçã sobre sua cabeça. Ele era
secretário-geral do PSDB, principal partido da oposição,
quando os meios de comunicação se ocupavam quase
exclusivamente do escândalo do “mensalão”. E, inflamado pelo
calor dos holofotes, apressou-se a convocar o amado filho de
Sua Majestade, o nunca antes tão popular presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, a depor.
Mas, como deviam também saber
os mais jovens, pois os provectos o afirmam faz tempo, o
mundo dá muitas voltas e a noite que prenuncia o dia – e
vice-versa – também aconselha a prudência como única atitude
para a qual há a garantia de que represálias não virão. À
época da turbulência provocada pela denúncia do ex-deputado
Roberto Jefferson (PTB-RJ), o tucanato, em cujo ninho se
aninhava o rapaz, se alvoroçou com a possibilidade de
sangrar o peru às vésperas da eleição, sem imaginar que para
isso teria de desinfetar as próprias vísceras. Tido como
derrotado antes da hora, o fenômeno de popularidade Lula da
Silva deu a volta por cima e enterrou os sonhos tucanos de
voltar a galgar as rampas palacianas, como nos velhos
tempos. Treinado nas manhas e mumunhas da politicagem
nacional e conhecedor da inabilidade tucana para ler os
desígnios do destino, Paes pulou de galho e se abrigou à
sombra da frondosa árvore peemedebista, sob as bênçãos do
governador fluminense, Sérgio Cabral, que fora ungido pela
graça de El Rey todo poderoso. Dali partiu para disputar a
prefeitura da ex-Cidade Maravilhosa e, para gozar os
benefícios da fama do Supremo, mandou-lhe uma carta,
extensiva à digna consorte, pedindo perdão pelo que antes
dissera de seu pimpolho.
Nada houve, desde as
denúncias açodadas de Sua Excelência, que o levasse a voltar
atrás, da forma humilhada como o fez, nas acusações a Sua
Alteza. O que o fez abjurar o que antes afirmara com tanta
convicção não foi a presunção da inocência do príncipe nem o
reconhecimento da própria precipitação, mas o peso a que
submeteu sua coluna o projeto de se alçar a tão alto cargo,
carga, pelo visto, superior à da própria palavra – e de sua
biografia. Na disputa apertada que se prenuncia pelo voto
carioca neste turno decisivo, importa é conseguir a bênção
do Sumo Pontífice. A coerência, como dizia o velho Chatô,
patrono da malandragem nacional, é a virtude dos imbecis. É
de duvidar que, mesmo que ele arregaçasse as mangas da
camisa e partisse para o corpo-a-corpo da campanha, o que
não fará, a popularidade do Maior Magistrado, sozinha,
vencesse Fernando Gabeira (PV). Mas, por mais humilhante que
seja, a retratação pesa menos sobre as vértebras do
candidato oficial que o risco de deixar escaparem alguns
votos dos receptadores da Bolsa-Família. Seria a política um
tipo de vale-tudo em que golpes baixos valem mais pontos?
Apostando nessa lei não
escrita da práxis eleitoral, os marqueteiros de Marta
Suplicy (PT) decidiram investir no preconceito como arma à
mão para tomar do adversário na campanha paulistana, o
prefeito Gilberto Kassab (DEM), a surpreendente dianteira de
17 pontos detectada pelas pesquisas na partida para o
segundo turno. Os marqueteiros de Marta e a própria
candidata comportam-se no caso como se os eleitores
paulistanos fossem portadores da mesma miopia que os faz
atuar achando estarem na posse do monopólio da virtude,
certos de que a incapacidade de enxergar o próprio rabo de
palha provocará cegueira generalizada na população. Na
televisão, como sexóloga, e na Câmara, como deputada, ela
vislumbrou na guerra ao preconceito um nicho para levá-la às
alturas. E lá chegou: foi prefeita de São Paulo, como antes
havia sido Luiza Erundina, e ministra do Turismo, estando
seu PT no poder na República.
Cego às evidências de que não
pode ser vítima de preconceito uma mulher que teve a honra
de ser escolhida para administrar o mais populoso e rico
município do País, seu ex-chefe e agora paraninfo das
ambições dela na disputa municipal, Luiz Inácio Lula da
Silva, tentou jogar a culpa da derrota da preferida no
primeiro turno nas costas da cidadania: ela teria tido menos
votos que o conservador, ex-malufista e ex-secretário de
Pitta não pelos próprios deméritos nem pelos méritos do
adversário, mas pelos preconceitos do eleitor. E, como
palavra de rei não volta atrás nem pode ser banalizada, a
candidata e seus marqueteiros resolveram adotar como
estratégia de campanha a exploração daquele que, conforme
Lula, teria sido o motivo capital da inesperada derrota em 5
de outubro: o conservadorismo preconceituoso do paulistano.
Foi por acreditar nisso que a ex-prefeita resolveu lembrar
ao eleitor, de maneira bem pouco sutil, que o adversário não
é casado nem tem filhos. Os autores dessa proeza de torpeza
sabem que estado civil e capacidade de reprodução não são
exigidos de ninguém para disputar nem assumir a Prefeitura.
Eles imaginam que essa insinuação pode levar o eleitor a
rejeitar o adversário pelo mesmo motivo que pensam que a
rejeita: seu comportamento atípico. E as tentativas
posteriores de consertar o erro em nada o modificam.
Apesar de se comportar como
se já houvera sido, a ex-prefeita ainda não teve derrotada
sua pretensão de voltar ao posto. Mas sua desastrada entrada
na reta final do pleito acrescentou um obstáculo a mais a
ser superado: ela só o vencerá se o paulistano não
perceber que mais insultado que Kassab foi o eleitor, tido
por ela na conta de preconceituoso e
intrometido.(20-10-2008)
Lula não é dono dos
votos dos cidadãos
O presidente cantou a vitória de Marta no primeiro turno em
São Paulo antes de serem contados os votos. Erro semelhante
já tinha sido cometido por Fernando Henrique e Paulo Maluf
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha razões de sobra
para estar muito eufórico anteontem em São Bernardo do
Campo: afinal, desde que assumiu o patronato explícito da
candidatura de seu correligionário e sucessor na presidência
do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, além de ex-ministro do
Trabalho e da Previdência Luiz Marinho, este saiu de índices
acanhados de preferência popular para atingir o topo das
pesquisas. O favoritismo quase levou seu pupilo à vitória no
primeiro turno. Mas, se este não fizer uma bobagem muito
grande nas três semanas que ainda faltam transcorrer para a
realização do turno final, dificilmente perderá para um
candidato antes tido como imbatível, o deputado Orlando
Morando (PSDB), afilhado político do popular prefeito Dr.
Dib (PSB). Não é, de fato, feito de pouca monta e é preciso
reconhecer com sensatez que Sua Excelência tinha motivos
para comemorar. Só não precisava exagerar: no arrebatamento
triunfalista da boca de urna, o chefe do governo comemorou a
chegada de sua favorita Marta Suplicy na frente de todos os
adversários na luta pela mais disputada das prefeituras, a
de São Paulo. Contados os votos, verificou-se que um
adversário da ex-prefeita a havia superado: Gilberto Kassab
(DEM).
É possível que nem mesmo o prefeito acreditasse na
possibilidade de chegar em primeiro lugar tendo começado a
disputa correndo atrás de dois fortes oponentes: além da
própria Marta, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que,
entre outros problemas que lhe trouxe, expôs a fratura de
uma aliança histórica e impediu o governador José Serra de
apoiá-lo explicitamente, como o próprio Lula fez com sua
preferida. No entanto, somente a reconhecida capacidade que
tem o presidente da República de não ser atingido pelos
dardos que atira contra si próprio impedirá de esta
precipitação verbal ser lembrada como muito similar à
decisão infeliz de Fernando Henrique se deixar fotografar
sentado na cadeira do vencedor Jânio Quadros, que a
desinfetou só para caracterizar ainda mais a inoportunidade
do gesto. Só que Fernando Henrique não sabia o que fazia. E
Lula sabia o que dizia.
O que talvez ele não saiba é que esse comportamento
arrogante de contar com o ovo nas entranhas da galinha
expressa de forma cabal um dos mais antigos e desprezíveis
vícios que marcam a política brasileira desde o domínio dos
coronéis da guarda nacional: a confusão entre prestígio e
posse. Muitos chefes políticos já cometeram esse erro básico
de se imaginar donatários da vontade do eleitor. Paulo Maluf
(PP) cometeu engano similar há 20 anos quando era dado como
vencedor virtual da eleição municipal e foi derrotado por
Luiza Erundina (à época no PT).
Numa democracia, o povo não tem dono e não há mais lugar
para voto de cabresto no País. (13-10-2008)
Tolo é quem pensa
que o povo é bobo
Segundo Tancredo, esperteza demais é um bicho que devora o
dono
Tendo apenas as próprias ambições pessoais a apresentar como
argumentos para convencer o eleitor a votar neles, alguns
políticos, como papagaios, repetem lemas e estratégias
cegamente, sem prestar atenção em sua óbvia inutilidade.
Membro de um grupo apelidado de “raposas felpudas” – os
pessedistas mineiros –, exatamente pelo talento para lidar
com o gosto e a preferência populares, o falecido Tancredo
Neves costumava avisar a seus correligionários que “a
esperteza, quando demasiada, é um bicho que acaba por
devorar o dono”. Eis uma frase que os pressurosos assessores
que voam rumo a seus candidatos nos intervalos dos debates
eleitorais na televisão deveriam ter sempre na ponta da
língua para impedir que estes venham a cometer tantos erros
infantis. Afinal, como já sabiam os antigos romanos, errar
não é um bicho de sete cabeças. Mas insistir no erro seria
diabólico, se o diabo fosse burro.
Comecemos pela favorita nas pesquisas, a ex-prefeita Marta
Suplicy, que desembarcou na campanha eleitoral absolutamente
convicta de que voltará para o antigo palácio dos Matarazzos
no Viaduto do Chá impulsionada pela popularidade de seu
patrono, Luiz Inácio Lula da Silva. Até agora a história
eleitoral brasileira registra raríssimos casos de
transferência de votos bem-sucedida, mas pode ser que – no
auge da glória em seu segundo mandato, outra coisa rara – o
chefe do governo quebre mais esse tabu e consiga convencer
aquele que votaria nele a sufragar o nome de sua ex-ministra
do Turismo. Afinal, esse milagre da transposição dos votos
pode não ser uma miragem, como a das águas do São Francisco
para matar a sede do sertanejo ou a das ondas do Oceano
Atlântico, que, no dizer de Sua Excelência, não serão
atravessadas pela crise dos EUA para cá, embora pertençamos,
nós e os gringos, ao mesmo continente americano e estejamos
no mesmo lado do pélago e do pré-sal. Ainda assim, seria
aconselhável que dona Marta do PT desse atenção ao fato de
que seu padrinho perdeu todas as eleições em que disputou
votos no maior município do País, entre elas a última, em
que enfrentou o mesmo Geraldo Alckmin, adversário dela hoje.
São Paulo fica muito longe de Garanhuns.
Ora, direis, citando outro mineiro sabichão, o udenista
Magalhães Pinto, política é como nuvens no céu: mudam de
figura num piscar de olhos. É verdade. Tudo muda na vida e,
sendo a política feita por políticos, ela muda mais
rapidamente ainda. Pode ser que, desta vez, haja uma
transferência maciça de votos de Lula para a candidata
petista e que sua popularidade tenha crescido de tal forma
que domingo ele pudesse ter mais votos que Alckmin, ao
contrário do que ocorreu há dois anos. Mas vamos convir que
a favorita nas pesquisas no primeiro turno melhoraria
bastante a probabilidade da própria vitória se prestasse
atenção nas lições da História e na sabedoria popular,
matéria em que seu ex-chefe é catedrático, sem ter precisado
defender tese. A insistência com que ela acusa do candidato
à reeleição Gilberto Kassab (DEM) de imitá-la ou repeti-la
dificilmente mudará a intenção de algum eleitor que votaria
nele a votar nela. Afinal, o cidadão se interessa pela obra
e pouco está ligando para quem possa ter sido o autor. Se
relacionar obras levasse ao triunfo, Paulo Maluf (PPS) não
estaria amargando o ostracismo em que afundou.
De qualquer maneira, a ex-prefeita ainda está no lucro, pois
começou o ano alijada da disputa pela frase infeliz do
“relaxa e goza” aconselhado por ela às vítimas do caos aéreo
nacional: tem garantida pelas pesquisas a passagem para o
turno decisivo da disputa, por obra e graça da cizânia entre
seus principais adversários. Depois de ter conseguido
protagonizar o feito inédito de perder votos do primeiro
para o segundo turno na última disputa eleitoral, Geraldo
Alckmin faz uma campanha cujo lema poderia ser traduzido por
um assim: “Vote em mim, porque Gilberto Kassab é ruim.”
Contrariando todas as lições do beabá do marketing político,
que parece não ter aprendido na recente derrota para a
Presidência, o ex-governador de São Paulo adotou a tática de
bater antes para depois beijar, assumindo explicitamente a
idéia de que convém insultar o prefeito no primeiro turno
para superá-lo e, então, por mera conveniência política,
aceitar o apoio dele ou apoiá-lo no turno final. É a leitura
eleitoral do famoso fecho do soneto Versos íntimos, de
Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja.”
Dando como favas contadas repetir para prefeito os votos que
teve para presidente, mesmo tendo, àquela época, chupado na
TV um picolé de chuchu para fazer jus a um apelido jocoso, o
que não anima ninguém a votar nele para qualquer cargo, o
pretendente do PSDB prefere associar o adversário de hoje e
aliado de amanhã a correligionários de outrora – Orestes
Quércia, no caso. O que ele se esqueceu de perguntar – e
qualquer pesquisador poderia responder – é se algum cidadão
deixará de votar no prefeito só por ter sido ele secretário
de Celso Pitta.
Alckmin e Kassab, aliás, se acumpliciaram na tola e
oportunista tentativa de pegar uma caroninha na cauda
brilhante do cometa Lula. Dois anos depois de terem tentado
derrotar, em vão, o presidente acusando-o de acobertar os
companheiros mensaleiros, o prefeito e o ex-governador
parecem dispostos a criar um novo partido para o caso de
PSDB e DEM se darem mal domingo – o PLTB (Partido do Lula
Tudo Bem). Ainda que tenha blasfemado ao tentar superar o
Criador, que encarregou Seus representantes na Terra de
proibirem o uso de Seu santo nome em vão, o presidente tem
razão quando chama a atenção para a hipocrisia e o
oportunismo rasteiros dessa manobra espúria.
Todos esses espertinhos fariam melhor se percebessem que
bobo o povo não é: tolo é quem pensa que é e disso ainda
tenta se aproveitar. (06-10-2008)
A oposição não sabe
onde o galo canta
Lula se beneficia da adesão habitual e da incapacidade dos
adversários
Diz o presidente nacional do
PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), que “a oposição foi
revogada, saiu da moda”. O reconhecimento prévio do malogro
neste ano eleitoral reproduz, com exatidão e sinceridade, a
situação política esdrúxula que o País vive. E também ajuda
a explicar tal fiasco, pois a autocondenação à morte mostra
que o prócer, a exemplo dos colegas de bancada, sabe que o
galo cantou, mas não tem idéia de onde fica o poleiro do
qual todo dia este saúda o Sol. O desabafo de Guerra traduz
desalento e é também uma confissão de impotência, que
resulta da própria incompetência, não apenas para combater o
fenômeno que a tirou de moda, mas também para compreender a
cena política, condição básica para que a partir de tal
compreensão se esbocem as linhas-mestras para enfrentar e
resolver o problema. A maior tragédia da oposição brasileira
hoje não é a eficiência do governo, mas a própria
ineficiência para perceber e atuar.
O patamar a que galgou o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva – de 64% de
popularidade, segundo a última pesquisa Datafolha – não pode
ser produto apenas de sua inegável sorte: resulta também de
sua capacidade rara de se comunicar com os segmentos mais
pobres e numerosos da população. Para isso usa a própria
vivência e, da mesma forma, recorre a uma intuição
admirável. Além da fortuna, a virtude de saber conciliar o
levou ao governo depois de três derrotas seguidas em duas
disputas contra o tucano Fernando Henrique e outra com o
alagoano Fernando Collor. Isso não é inusitado na história
política do Brasil independente. À capacidade de dom Pedro
II de atender a liberais e conservadores – facilitada pelo
fato de que, segundo glosava uma quadrinha popular no século
19, nada mais igual a um saquarema que um luzia no poder,
apelidos jocosos dados pelo povo aos grupos que se revezavam
no poder no Segundo Império – deveu-se a longevidade de seu
reinado. Do talento do gaúcho Getúlio Vargas para reunir
grupos na aparência antagônicos sob seu tacão - os
latifundiários do PSD com os proletários do PTB - dependeu
outra bem-sucedida aliança, tal como a primeira fundida no
chumbo em que se imprimia o Diário Oficial: a conciliação
pela via da nomeação.
A diferença entre nosso atual
caudilho e os modelos históricos aqui lembrados é que ele
realizou a primeira conciliação antes de alcançar o poder,
ao submeter à disciplina partidária e a seu comando
carismático grupos antes irreconciliáveis da esquerda
armada, ao lado de lideranças sindicais e líderes da
esquerda eclesiástica. Sob o estandarte socialista da
mudança de “tudo o que está aí”, mas com um discurso
conservador na economia, para não afugentar o voto da classe
média e da classe operária especializada, ele subiu a rampa
do Palácio do Planalto. No poder, mesmo não sendo um
profundo conhecedor da história política nacional,
aproveitou-se magistralmente das lições dos grandes
conciliadores, radicalizando experiências de união nacional
que já tinham sido ensaiadas, mas nunca levadas a cabo até o
ponto em que ele as praticou. Foi além de Eurico Dutra e do
próprio Getúlio, que montaram Gabinetes de união nacional. E
conseguiu de antigos adversários políticos aparentemente
inconciliáveis – de egressos da ditadura, como Paulo Maluf,
José Sarney e Delfim Netto, a fisiológicos notórios, como
Severino Cavalcanti, Jader Barbalho e Renan Calheiros – o
que negara a Itamar Franco no grande acordo feito na
pós-queda da República de Alagoas. De fato, essa mentalidade
de mosqueteiros de fancaria (“todos por cada um e ninguém
pelo povo”) se repete monotonamente nos palácios brasileiros
desde a Independência. Mas Lula lhe deu consistência e
vigor: Fernando Henrique, seu antecessor também nisso (os
quadros de seus dois governos repetem-se no atual numa
monotonia enerviante), jamais teria estômago para fazer a
defesa vigorosa que o presidente faz de políticos e práticas
inconfessáveis: de Severino Cavalcanti aos “mensaleiros”.
Lula ganhou a primeira
eleição prometendo ser diferente dos adversários e a
segunda, garantindo que estes eram farinha do mesmo saco
onde escondeu seus companheiros apanhados em flagrante em
delitos catalogados ao longo de todo o Código Penal. Para
isso contou com a ajuda dos opositores, que lhe entregaram
as batatas da vitória no instante em que se negaram a
sacrificar a cabeça do então presidente nacional do PSDB,
Eduardo Azeredo (MG), flagrado em crime idêntico aos de que
foram acusados “companheiros” do quilate do ex-presidente do
PT do presidente, José Genoino, e de seu principal
organizador, José Dirceu. A elite oposicionista, incapaz de
enxergar um palmo além dos narizes empoados de seus
baluartes, não foi capaz de compreender o fato.
Lula não dormiu sobre os
louros do triunfo nas urnas, conseguido pelos próprios
méritos e pela incompetência dos adversários: seu oponente,
Geraldo Alckmin (PSDB-SP), conseguiu o feito de ser menos
votado no segundo turno que no primeiro. E no segundo
governo faz mais do mesmo, ao repetir a fórmula testada e
aprovada de encher os cofres dos banqueiros e a barriga dos
miseráveis. Essa fórmula mágica, capaz de içar candidaturas
municipais do limbo ao topo (como as de João da Costa, no
Recife, e Luiz Marinho, em São Bernardo do Campo), produz
efeito de avalanche ameaçando sepultar os sonhos
oposicionistas de voltar ao Planalto em 2010. Mas, a bem da
verdade, Lula nada tem que ver com a lambança de seus
adversários Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM),
únicos responsáveis pelo oxigênio injetado na candidatura
petista de Marta Suplicy no maior município do País. A
eleição paulistana prova que a oposição sai da moda por
méritos de Lula e deméritos próprios. Doses de adesão alheia
e da falta de visão dela mesma é que podem vir a revogá-la.
(22-09-2008)
Discurso de posse na
Academia Paraibana de Letras
Parece ser de uma ironia atroz o fato irrecusável de que eu
esteja aqui diante de vocês para celebrar a imortalidade
saudando cinco mortos, o primeiro dos quais o poeta por
excelência da morte. Há nesta festa, contudo, meus queridos
amigos, mais que ironia, sabedoria. A lição foi ministrada
antes de tudo pelos antigos gregos e romanos e recentemente
trazida a este mesmo convívio – e muitos de nós somos
testemunhas disso – pelo acadêmico Manuel Batista de
Medeiros ao saudar outro confrade, Guilherme Silveira
d’Ávila Lins, na última posse celebrada na Casa de Coriolano
de Medeiros. Trouxe-nos o professor de Latim as mais sábias
e mais profundas reflexões produzidas pelas mentes
privilegiadas de outros mortais como nós, que viveram e
morreram numa época distante já soterrada pela poeira do
tempo. Nada teria este imodesto ex-seminarista menor nenhuma
meditação tão arguta e tão profunda a lhes trazer para
acrescer-se a elas.
A primeira faceta que me ocorre para abordar a imortalidade,
queridos convidados nossos, é aquele antigo dito popular
repetido quando encontramos outrem a respeito de quem
falávamos ou pensávamos no momento. “Você não morre mais”,
dizemos, não é mesmo? Pois. Trata-se da vitória da esperança
sobre o medo, uma aposta na continuidade, que, contudo, não
interrompe a inexorável extinção futura de quem diz, de quem
ouve e das outras testemunhas, certo?
Há, ainda outro aspecto contido no verso célebre do soneto de
Vinicius de Moraes, “e que seja infinito enquanto dure”.
Este conceito está contido no poema que nosso amigo e agora
também confrade Damião Cavalcanti resumiu num verso muito
feliz com o qual abre o poema que dedicou a este noviço da
imortalidade e está obtendo grande êxito entre nós e no
exterior pela internet. No poema curto, que lhes peço
licença para ler aqui, permito-me destacar os dois versos
iniciais e o fecho. Ei-lo:
*IMORTAL
Ao poeta Neumanne
Se os momentos são bem vividos,
Viverei eternidades.
Cada um em cada uma
Com início, mas sem fim.
Se a morte ameaçar a vida,
Chame-me até de imortal.
Esses momentos de ida
Confundem-se com os da vinda.
E o chorar parecerá sorrir,
A matemática a mãe da música,
O preferível a sabedoria,
Almas gêmeas dos antigos.
Ao pensar assim também,
A montanha será topo
E seu caminho a planície,
Espaço e tempo um só ente.
Não importam distantes astros
E viagens transcendentes,
Nem tampouco as idades.
Nas circunstâncias de eclipse,
Viverei eternidades.
Gostaria de lhes chamar a atenção para duas reflexões
preciosas que afloram do poema. A primeira delas é aquela
sensação que muitas vezes nos assola de estarmos vivendo
algo que não termina. É o que ocorre normalmente quando
chegamos ao ápice no ato sexual, ao orgasmo, que,
significativemente, os franceses chamam de “petit mort”,
pequena morte. No caso do sexo, agradabilíssima forma de
reprodução da vida, a expressão francesa é particularmente
feliz, porque associa a morte ä renovação da vida, conceito
posto a circular por dois judeus que viveram há dois
milênios: o profeta Jesus Cristo e seu apóstolo Saulo de
Tarso. A morte, para os cristãos, e aprendi isso desde cedo,
nada mais é que o começo da vida eterna. Cristão como eu e
como a maioria dos aqui presentes, também Damião subverte o
conceito de eternidade, substituindo-o pelo de infinito: não
se trata de algo que não começa nem termina, mas sim de algo
que tem começo, mas não tem fim. Para os cristãos, a morte
não é o fim, mas o começo do sem fim, o princípio do que não
acaba.
Nesta época em que a tecnologia prolonga, mas não espanta a
morte, recebi uma mensagem por e-mail de um amigo,
profissional de Direito como Manuel Batista, o representante
da Academia Pernambucana de Letras nesta assembléia, Dr.
José Paulo Cavalcanti, em que esta situação aparentemente
paradoxal de herdar a imortalidade de quem já morreu.
“Agora”, escreveu Zé Paulinho, “você já pode morrer”. A
sentença serve ao mesmo tempo de consolo e de condenação:
lembra a finitude, que não é só minha nem de Zé Paulinho,
mas de todos nós aqui, ao mesmo tempo que nos afaga com a
perspectiva de não ser aquela que Manuel Bandeira chamou de
a Indesejada das Gentes a coveira dos pensamentos e obras
que produzimos nesta terra. Não nos reunimos aqui para
cortejar a morte, mas para celebrar a vida que fica, mesmo
de quem já não está mais conosco – a escrita da construção
da obra humana, pois, como diziam os mesmos antigos que
inventaram esta celebração, a vida é curta, mas a arte é
longa e, assim sendo, o que é humano é breve, mas o que diz
respeito à humanidade se prolonga pelo tempo afora, de tal
maneira e a um tal ponto que se eterniza.
O tema, então, não é a morte, mas a ressurreição. Cada vez que
um ocupante desta cadeira 01 da Academia Paraibana de Letras
saudar seus antecessores – e isso voltará a ocorrer quando
eu não estiver mais entre vocês – Augusto dos Anjos
ressuscitará. E sua obra acenderá dentro de nós a chama da
vida, o lampejo da existência curta, mas profícua. Não será
uma ruína, como a do faraó Ramsés 2º, que o poeta inglês
Percy Bysche Shelley descreveu num dos mais célebres sonetos
da literatura universal em todos os tempos. Peço-lhes vênia
para lhes dizer em inglês e depois traduzir esta peça
magnífica para que vocês compartilhem comigo o prazer do
ritmo e a bênção da compreensão da inutilidade do poder
efêmero e das obras de pedra que viram pó.
Ozymandias
I met a traveller from an antique land
Who said:—Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!"
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.
Ozymandias
Encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas imensas pernas de pedra sem tronco
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio enterrado, jaz um rosto despedaçado e em sua fronte
De lábio enrugado e em seu sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor leu bem suas paixões
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal estão escritas estas palavras:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Apreciem minha obra, poderosos, e se desesperem!"
Nada mais resta: em redor da decadência
Daquela ruína colossal, sem limite e vazia
As areias solitárias e planas espalham-se ao longe.
Este soneto foi escrito em 1818, portanto há 190 anos, meus
amigos, e cada dia que passa ele fica mais atual,
tornando-se a prova viva, embora imaterial, de que a obra de
Ramsés foi meio enterrada pela areia, mas nos traz lições
para viver ainda hoje, graças ao olhar de lince do poeta. E
é de um poeta assim que me cabe falar: um artista da palavra
que usou as imagens da degeneração, da finitude, da
putrefação para nos falar da permanente vida que surge dos
escombros. Todos se lembram do Augusto dos Anjos do “Tome,
Dr., esta tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa” do
soneto “Budismo moderno”. Mas é preciso ter presente que o
patrono desta cadeira 01 também escreveu num poema longo,
forma na qual, segundo o colega e exegeta Ferreira Gullar,
fala melhor o artífice da palavra que nos sonetos, embora
estes sejam sempre de magnífica artesania, o “Poema negro”,
um verso que bem poderia servir de epígrafe a estas palavras
que vocês ouvem com paciência e esperança: “Não! Jesus não
morreu! Vive na serra / Da Borborema, no ar de minha terra!”
Meus amigos, não consigo ler ou dizer este verso sem emoção,
pois ele fala do que há de mais transcendente, de mais
relevante numa simplicidade e num bom gosto que desautoriza
os críticos da complexidade e do mau gosto de nosso poeta
maior.
Estou aqui diante de ilustríssimos exegetas de nosso patrono comum,
particularmente o acadêmico que me saudará com o talento e a
verve de sempre, meu querido amigo Ronaldo Cunha Lima, e
será muito arriscado meu próximo passo. Mas minha pretensão
de menino sertanejo que conseguiu sobreviver, passando
incólume pelo primeiro ano de vida e chegar à imortalidade
aos 57, este tipo de ousadia não é de assombrar e espero que
nem os choque. Há algum tempo venho buscando desafiar o
conceito comum de que Augusto dos Anjos é o poeta da
tristeza, do pessimismo, o cantor dos vermes, o bardo da
dissecação cadavérica. Desde os idos de 60, quando o lia
sofregamente no quarto dos fundos da casa dos meus pais na
rua Ruy Barbosa, atrás do Colégio dos Damas,
em Campina
Grande, esta identificação do maior poeta paraibano de todos os tempos – e um
dos três maiores de meu panteão poético, ao lado de Castro
Alves e Manuel Bandeira – com o fúnebre e o atro me parece
mais uma destas confusões que se costuma fazer entre o autor
e sua obra. Esta experiência vivo-a eu mesmo e, sendo esta a
noite de minha imodéstia, peço-lhes vênia para lhes contar
que não sou tão religioso nem tão triste nem tão ético nem
tão desapegado dos bens materiais como minha poesia revela.
Meu amado amigo e crítico Álvaro de Sá, que foi chamado para
o andar de cima quando preparava um ensaio sobre minha
poesia, é que me chamou a atenção para o fato de uma pessoa
pândega ser um poeta grave e um cristão rebelde aos cânones
e rituais da Igreja ser tão canônico e pouco rebelde ao
tratar da fé em seus versos. Antes que torne este discurso
enfadonho pela autocomiseração e levando em conta que jamais
conseguirei falar tão bem de mim como Ronaldo o fará, retomo
a questão de Augusto a partir da definição magnífica da
colega mineira Adélia Prado, segundo quem da poesia que
escreve dela só é a letra. Ninguém precisa ter a fé dela nem
a minha para entender que a poesia, mais que qualquer outro
gênero literário, mais até que qualquer arte, é a expressão
de uma voz interior, de uma alma independente que pode
habitar o coração, mas não o corpo efêmero de quem cria.
Agora não estou sozinho nesta tarefa aparentemente inglória.
Ana Isabel, aqui presente, e Socorro Aragão, representada
por Afrânio, meu ex-vizinho na Rua Ruy Barbosa, me revelaram
que em suas pesquisas sobre nosso patrono descobriram ser
ele também um satírico colaborador dos jornais da festa das
Neves. Os estudiosos sérios de sua vida já descobriram há
muito mais tempo que tísico não era o poeta, mas seu
alter-ego confessado nos versos. Considerar Augusto apenas
um pálido reflexo magro e encurvado desta sua persona é
desmerecer sua artesania verbal, é não lhe dar o devido
valor.
Agora, graças a meu amigo e colega poeta capixaba Aricy
Curvello, que me mandou pelo correio, como se fazia nos
velhos tempos heróicos pré e-mail, um estudo completo de
Ferreira Gullar, grande crítico de literatura e arte e poeta
maior, encontro apoio para minha rebeldia juvenil contra a
sombra magra do tísico pessimista que tem coberto a obra
agostina como uma pele de rinoceronte.
Em seu ensaio “Agusto dos Anjos ou vida e morte nordestina”, o
grande maranhense encontra o ambiente de decadência, doença
e luto que perpassa a obra poética de nosso patrono, não na
alma doentia de um pessimista crônico, mas no ambiente em
que ele viveu. Decadência financeira da família de senhores
de engenho, de que foi rebento, que o fez mendigar dinheiro
público para editar seus versos e ouvir a desaforada
resposta do governador João Machado – “não amola, seu
Augusto”-, o que, por si só faz deste político um exemplo
acabado dos estadistas de sempre dentro ou fora dos limites
de nosso Estado e lhe tira o merecimento com que tem sido
lembrado até hoje em nomes de logradouros públicos. Que
mérito pode ter um governante que se nega a dar uma migalha
para trazer a lume uma obra-prima definitiva da literatura
nacional? Mas deixando de lado a grosseria que fez nosso
conterrâneo partir daqui e proibir que os pósteros
permitissem o sepultamento de suas cinzas na terra que o viu
nascer, voltemos ao que interessa, a análise aguda e
precisa, cirúrgica, do colega que realmente soube amar e
compreender a obra que João Machado não quis publicar.
O Augusto que emerge da análise de Gullar é o poeta que
desafiou a futilidade que imperava na poesia brasileira na
virada do século, responsável pela definição de “sorriso da
sociedade”, dada por Francisco de Assis Barbosa, que conheci
pessoalmente na casa senhorial de José Rufino, em companhia
de José Américo de Almeida, primo deste,
em Areia.
Mais ainda: é o introdutor da realidade corriqueira, do cotidiano, do factual
numa poesia embebida de ideais e devaneios. Ferreira Gullar
se deu ao trabalho de listar termos retirados de sua obra
para concluir: “Essa quantidade de palavras de uso corrente,
que na sua maioria indicam utensílios, fenômenos e atos da
vida de todos os dias, poderá surpreender aqueles que se
habituaram – conforme as definições simplistas e errôneas –
a ver em ‘Augusto um simbolista ou um “cientificista’, nos
dois casos um poeta afastado do cotidiano”. Sem querer me
alongar nos argumentos com os quais o poeta maranhense
situou o vate paraibano como precursor da poesia moderna no
Brasil, peço vênia para acrescentar que à associação que
críticos iluminados como Manuel Bandeira faziam entre
Augusto e seu contemporâneo Euclydes da Cunha na prosa
Gullar acrescenta as de Guimarães Rosa e João Cabral de Melo
Neto. Gullar lembra a recorrência nas obras de Augusto e
Cabral da morte – no primeiro noturna e orgânica, no segundo
diurna e mineral. E concluiu o ensaio aduzindo que, do mesmo
modo que a poesia brasileira contemporânea se tornou fâmula
do formalismo pós-cabralino sem o talento de Cabral, Augusto
pagou o preço de ter sido “o primeiro a pôr em versos a
indigência da morte (e vida) nordestina”, em outras palavras
“vida e morte severina”.
É de todo conveniente lembrar aqui que o Augusto que ficou não
foi o analisado pela crítica nem sempre brilhante como a de
Gullar, mas o popular, recitado pelos corais de colégios e
pelos declamadores amadores e amorosos. Isso foi possível
graças a sua técnica apurada, capaz de alcançar em sua obra
momentos à altura dos maiores “ritmistas” da poesia em
língua portuguesa, de Joaquim du Bocage a Antônio Frederico
de Castro Alves. Em “O artesanato em Augusto dos Anjos”,
estudo clássico a respeito, o clebrado crítico Manuel
Cavalcanti Proença fez uma decupagem de seus poemas
mostrando como ele dominava com maestria o decassílabo,
verso fundador da língua, usado por Camões nos Lusíadas,
manejado com destreza por nossos repentistas populares e
considerado um desafio por poetas com menos capacidade de
superar suas dificuldades. A preferência pelo decassílabo
deve-se, segundo o crítico ao fato de este permitir mais que
todos a variedade de ritmo baseada na distribuição das
tônicas. É este o segredo da fácil memorização da obra
poética de Augusto – e aqui está Ronaldo que não me deixa
mentir. É a natureza mnemônica do decassílabo que o torna
favorito dos violeiros. E foi ela também que me permitiu
decorar meu soneto favorito, “Vandalismo”, um dos raros
exemplares simbolistas de sua obra inteira e um primor de
artesanato. Nélida já me ouviu recitá-lo na solenidade de
recebimento do prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da
Academia Brasileira de Letras, para meu romance O
silêncio do delator, e tenho certeza de que ela não se
aborrecerá de ouvi-lo novamente. Chamo a atenção para o fato
de eu não ser capaz de decorar nem mesmo os poemas que faço:
Vandalismo, de Augusto dos Anjos
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde o nume de amor em serenatas
Canta a aleluia virginal das crenças.
Da olgiva fúlgida e das colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas, os florões, as pratas.
Como os velhos templários medievais,
Entrei um dia nestas catedrais
E nestes templos claros e risonhos.
E erguendo os gládios e brandindo as hastas
Com o desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.
É provável que provenha do ritmo o prestígio da obra de
Augusto mesmo entre pessoas simples que não tenham o hábito
da leitura. Acrescento-lhe também a predileção popular pelo
linguajar indecifrável. Parte do segredo da popularidade de
Jânio Quadros, por exemplo, deve-se às palavras que
pronunciava e poucos entendiam, mas achavam bonito aquele
discurso. O mesmo vale para nosso patrono. E para nós, seus
leitores e admiradores devotos. Ocorreu-me hoje escrevendo
este discurso que nunca me havia interessado para buscar no
dicionário o sentido da palavra “moneras”. Apesar de citar e
recitar sempre aqueles versos magníficos do “Monólogo de uma
sombra”. E cito de cor, sem saltear: “Sou uma sombra, venho
de outras eras, / Do cosmopolitismo das moneras / pólipo de
recônditas reentrâncias”. Bonito, hein? Pois é. Só esta
minha obrigação de lhes falar aqui me fez recorrer ao
dicionário, hábito freqüente de minha lida de profissional
da palavra. E aí fiquei sabendo que monera quer dizer
bactéria. Vivendo e aprendendo. Mesmo na imortalidade.
Antes de encerrar este breve introdução ao patrono da cadeira
01 desta egrégia Academia, gostaria de abordar a releitura
crítica sobre ele empreendida por um dos maiores poetas,
críticos literários e intelectuais do Brasil hoje, Mário
Chamie. O moço de Cajobi, São Paulo, com sua irreverência
habitual, contestou, num estudo reproduzido em seu livro
A palavra inscrita, a crença comum de que Augusto seria
um pregador evolucionista pelo fato de citar freqüentemente
em seus versos o pensamento científico de Ernst Haeckel e
Herbert Spencer, teóricos do “evolucionismo”, leitura
filosófica da obra do biólogo Charles Darwin. O instaurador
da Práxis, habituado a recursos lingüísticos como a ironia e
a carnavalização, vê no autor de Eu um “involucionista”,
alguém que prega a volta ao estado original da matéria como
contrapartida à decomposição, à degeneração e à putrefação
da matéria extinta. Para ele, em Augusto “o triunfo da
crença ergue a hipótese da esperança que nos livra da
impotência absoluta e abjeta, salvando-nos da condição de
‘cósmico zero’ ou da ‘mônada vil’. Essa crença, com efeito,
impede-nos a queda no vazio do nada e, em contrapartida, nos
ergue ao vazio pleno do Nirvana”. Tomo a liberdade de, mesmo
sem a licença do autor, assegurar que mais que Haeckel, que
tanto citou nos versos, Augusto foi mais fiel a Georg
Friederich Hegel, o pai da dialética, ao narrar em seu ritmo
alucinante de violeiro a tese e a antítese se encontrando no
infinito da síntese.
Antes de incorrer na ira dos cultores do poeta triste, prefiro
avançar no discurso rumo ao primeiro ocupante desta cadeira,
o filósofo do direito José Flóscolo da Nóbrega. Este e eu
compartilhamos a sina do proparoxítono. Meu segundo prenome,
Nêumanne, resultado de um erro da tabeliã encarregada de meu
registro, incapaz de reproduzir a vontade de minha mãe de me
batizar de Newman como o orador John Henry Newman, cardeal
inglês e santo católico, permite-me, depois de tantos anos
de soletrá-lo, a oportunidade de me aproximar de meu
antecessor e xará, José como eu e proparoxítono como eu,
embora ele duplamente, também Nóbrega, e eu, apenas Pinto,
um reles, simplíssimo paroxítono desacentuado.
Gostaria de ter herdado do lente de Direito, hoje
injustamente, se não esquecido, pouco celebrado, como me
lembrou seu colega e leitor Rodrigo Toscano, o saber
filosófico e a capacidade de manejar as palavras como Didi
fazia com a bola de futebol. Seu discurso de posse nesta
Casa de Coriolano de Medeiros é uma das mais perfeitas e bem
acabadas peças retóricas – e até literárias – que já li na
vida. E me deu o tema de que precisava para não deixar esta
oração limitada a uma espécie de confeito de bolo sem bolo.
Flóscolo se queixou de um fato que hoje se pereniza, é até o
caso de dizer que parece se eternizar e que merece nosso
repúdio e nossa luta para impedir que ele se afirme. Disse o
mestre: “A tremenda desordem moral que lavra no mundo bem
evidencia a fase de degradação que ora vivemos. Assistimos
àquela invasão vertical de bárbaros, de que falava Rathenau”.
Aqui, mais uma vez, sem querer furtar um pouco do brilho
dele para a opaca condição deste meu discurso, mas já o
fazendo, quero lembrar que A invasão dos bárbaros,
continuação de A queda do império americano, ambos
filmes do canadense Denys Arcand, inspirou meu romance O
silêncio do delator, aqui já citado.
Coincidências à parte, voltarei ao tema no final desta fala,
pois antes ainda terei o prazer de me referir aos imortais
que me antecederam nesta cadeira, o primeiro deles, Flóscolo,
nascido em 1898
em Santa
Luzia do Sabugi e falecido em 1969, nesta capital paraibana. O pessoense
Humberto Carneiro da Cunha Nóbrega sucedeu-o fazendo um
discurso de pesquisador, que era, no qual recompôs as raízes
genealógicas do patrono, aparentado com o mais importante
político do Estado, Epitácio Pessoa, como ele fez questão de
lembrar. Cronista de fatos curiosos protagonizados pelo
antecessor, o ex-reitor da Universidade Federal da Paraíba,
nascido em 1912 e falecido em 1988, deixou a marca de uma
obra capaz de justificar os acadêmicos que o elegeram para
esta cadeira em 1971, aos 59 anos de idade.
Substituiu-o o bibliófilo Waldemar Duarte. Bem biografado pelo
promotor Antônio Batista Neto na revista de Uiraúna, nossa
cidade comum, editada por minha prima Terezinha Vieira,
sobrinha do grande orador sacro e educador monsenhor Manuel
Vieira, este imortal era um homem dedicado ao serviço
público e à organização bibliográfica. Em comum com ele
temos o sertão do Rio do Peixe de onde emigramos – ele para
cá e eu para Campina Grande. Não tive o prazer de conhecê-lo
pessoalmente. Além de ter nascido em Uiraúna como eu, ele em
1923, eu em 1951, temos em comum a amizade com o poeta e
funcionário público Eurícledes Formiga, da mesma patota
boêmia a que pertencia, entre outros, Osíris de Belli, Filho
de São João do Rio do Peixe, a cujo município nossa Uiraúna
pertencia quando Waldemar e eu nascemos, antes da
emancipação conseguida pelo médico e político Oswaldo
Cascudo, obstetra que me puxou a fórceps do ventre da minha
mãe, Formiga conheceu meu pai, Anchieta Pinto, adolescente
aprendendo pistom na casa de sua irmã, minha tia Floripes,
em sua cidade natal. Ganhou a vida pela memória espantosa
que o permitiria, por exemplo, dizer novamente este
discurso, palavra por palavra, e repeti-lo ao contrário, se
é que vocês ainda teriam paciência para isso. Waldemar, o
amigo de Formiga, entrou nesta Academia em 1991, aos 68
anos, e aqui foi recebido pelo poeta Jansen Filho, cuja
obra, como a de Castro Alves, minha mãe costumava dizer de
cor nas noites de breu da calçada quente e sem brisa do
sertão, antes de a luz de Paulo Afonso chegar a Uiraúna.
Minha mãe gostava particularmente de seu poema “Renata”.
A morte de Waldemar, há três anos, levou Ronaldo Cunha Lima a
me sugerir disputar-lhe a vaga pelas condições de
uiraunense, admirador de Augusto dos Anjos e amigo comum de
Formiga, estas duas condições compartilhadas com o poeta de
Guarabira, campinense por adoção e devoção que nem o orador
que vos fala. Cheguei a me inscrever, mas desisti de
participar da disputa, vencida com todos os méritos pelo
dramaturgo e folclorista Altimar de Alencar Pimentel,
Nascido em 1936, em Maceió, Alagoas, mas mo |