O OUTRO VELÓRIO
TEATRO - 2004 - Elpídio Navarro
PERSONAGENS:
Delegado - Juiz - Viúva - Outra – Rita – Otávio –
Rezadeiras – Irmão – Palhaço
CENÁRIO (Sugestão: picadeiro de um circo.)
PRÓLOGO:
(O
Palhaço entra, caracterizado, dançando à frente de todo o
elenco).
PALHAÇO – (Dirigindo-se à platéia) – “Auto da
Compadecida! O julgamento de alguns canalhas, entre os quais
um sacristão, um padre e um bispo, para exercício da
moralidade.”(Ao citar os sacristão, padre e bispo, aponta
um dos atores e todos recusam a denominação).
DELEGADO – Vamos parar? A peça não é essa, é outra. Ou
melhor: é O Outro Velório!
PALHAÇO – (À platéia) – E não é que é mesmo! Como é
que eu fui me atrapalhar? Uma coisa não tem nada com a
outra... Já sei! Foi a música. Parem a música! Entraram com
a música errada!
VOZ – (De fora) – Desculpem! Peguei o disco da outra.
Já estou providenciando a do Outro.
PALHAÇO – Então vamos todos sair para uma nova entrada.
VIÚVA – Eu não saio! Não sou couro de...
PALHAÇO – (Cortando) – Eu sei que não é!
OUTRA – Tinha de ser essa dona encrenca aí!
VIÚVA – Dona encrenca é o ... (O Palhaço tapa-lhe a boca)
da mãe!
PALHAÇO – Vamos parar? Ainda não começou a peça! E sabe
mais: continua daqui mesmo. (Para fora) – Vamos ver
se manda agora a música certa... (Entra a nova música.
Todos começam a dançar. Baixa a música.) – O Outro
Velório! Um julgamento diferente, de gente diferente, com
uma sentença diferente, num lugar diferente. Nada parecido
com o julgamento da outra pecinha. Aliás, não sei por que o
título é O Outro Velório. Bem que poderia ser “O Julgamento
do Morto” ou “O Julgamento do Juiz”... Mas é que o autor tem
mania de velório. Acho que está ensaiando para o dele
próprio! Mas isso não interessa. O que interessa é que
estamos na sala principal do fórum de uma pequena cidade,
diante de um juiz recém nomeado e de um delegado
abestalhado. (Aponta para situar os dois). Agora, os
senhores verão que a justiça não é tão cega assim! Pelo
contrário, ela está de olho nas... Deixa pra lá! (Para o
restante do elenco) – Vamos saindo! Vamos saindo! Sobe a
música! (Só a Viúva permanece
parada. O Palhaço arrasta-a para fora de cena).
CENA I
(FÓRUM. Modesta
sala de julgamento. Mesa do juiz ao fundo. Em cena, a
Delegado e o Juiz).
DELEGADO – Bom,
danado! Não adianta, Doutor! Não vão chegar a um acordo.
Parecem mais duas jararacas! Que o corpo deve ir para casa
da esposa legítima, eu sei que é a lei! Não ta vendo que uma
amante, mesmo antiga como ela é, vai ter mais direito do que
a esposa de verdade! Não pode! Agora...
JUIZ – Homem,
entregue o defunto à legítima proprietária. E agora mesmo!
DELEGADO – Bom,
danado! Mas doutor, o defunto já está com a Outra, dentro de
um caixão comprado pela Outra, com velas acesas pela Outra e
tudo...
JUIZ - Não
interessa! Confisque tudo!
DELEGADO – Mas
doutor, o problema...
JUIZ – Está com
medo de que, delegado? Entregue o corpo à viúva e pronto.
DELEGADO - Bom,
danado! Mas a Outra também é viúva! Tem até uma filha dele!
E ela diz que só tiram o defunto de lá, passando por cima do
cadáver dela!
JUIZ – Danou-se!
Assim também é demais. (Tempo) - Então, leve reforço.
Se não quiserem entregar o morto, tirem na marra!
DELEGADO – Bom,
danado! Vamos ter defunto pra tudo que é lado! Quem quiser
fazer velório, não tem problema, vai ter defunto disponível!
JUIZ – Não me venha
dizer que vai ser preciso pedir reforços na Capital!
DELEGADO – Doutor,
é porque o senhor é novato aqui. O irmão da Outra é uma
peste! Brabo! Perigoso! Dizem até, mas ninguém provou ainda,
que ele andou queimando uns caras por aí, questão de
terra... E está lá, ao lado dela, não arreda o pé.
JUIZ – Ah! É isso
então! Deixe de ser frouxo, Delegado! O senhor representa a
Lei. Cumpra a sua obrigação. Um homem é um homem. Não é um
saco de batata. O senhor é uma autoridade, não pode ter
medo!
DELEGADO – Bom,
danado! Estou com medo é de piorar a situação. Mas quem
manda é o senhor! O que o senhor determinar, eu cumpro. Mas
a minha obrigação é avisar: se for para tirar o defunto na
marra, fique certo que a confusão vai ser grande! Vai ter
fartura de defunto!
JUIZ – O que pode e
o que não pode um juiz! Se não agir, vou parecer um fraco.
Se agir, vão me responsabilizar por mais defuntos.
DELEGADO – Bom,
danado!
JUIZ – Não tem nada
de bom, Delegado. Mas alguma coisa deve ser feita.
DELEGADO – O doutor
permite uma sugestão?
JUIZ –
(Hesitante) -Tem a permissão...
DELEGADO – Bom,
danado! Pois bem: como a viúva prestou queixa, eu posso
intimar as duas para depoimentos lá na delegacia e trazê-las
até aqui. Aí o senhor cuida de conversar com as duas, fazer
um acordo, qualquer coisa para resolver a situação.
JUIZ – É. Pode ser.
Mas com uma condição: que as duas venham sozinhas. Mais
ninguém! Principalmente esses tal irmão da outra!
DELEGADO – Bom
danado! (Sai a luz. Entra música de transição. Mesmo
cenário. A luz entra de estalo. Em cena a Viúva, a
Outra, a Filha e o Delegado). A mocinha não devia ter
vindo. O doutor Juiz quer conversar com as duas viúvas.
Quer resolver a situação sem precisar de brigas nem
arruaças.
VIÚVA – O senhor,
por acaso, está me chamando de arruaceira, é? Pois saiba...
DELEGADO – Bom,
danado! Calma, minha senhora! A senhora está num tribunal!
VIÚVA – Calma
nenhuma! Eu sou a esposa legítima, ela é que se apossou do
corpo do meu marido.
OUTRA – Grande coisa, sua quenga velha! Ele já não era teu
marido há muito tempo. Desde dos primeiros pares de chifres
que você botou nele!
VIÚVA – Arre égua,
que eu não sei onde estou com a cabeça, que ainda não
arrebentei a cara dessa rapariga de cego!
OUTRA –
(Enfrentando a Viúva) – E por que não tenta, sua velha
desprezada? Vamos, venha! Venha, para eu deixar uma mãozada
marcada nessa cara de sapo cururu! Venha!
VIÚVA – Pois eu
vou! (As duas pulam para o meio da cena e o Delegado se
interpõe entre elas. Rita participa da confusão, ajudando a
Outra).
DELEGADO – Parem,
vocês duas! Olhe o respeito!
VIÚVA – (Sem
atender ao Delegado) – Agora, sua vaca, você vai me
pagar o velho e o novo!
OUTRA – (Idem)
– Então venha, tabacuda!
DELEGADO – (Já perdendo a paciência) – Parem, eu já
disse. Se não pararem, eu não respondo por mim! (As duas
se enfrentam com socos e pontapés e o Delegado, entre as
duas, é quem recebe as agressões. Desesperado, esbraveja)
– Parem! Vocês estão pensando que estão num cabaré? Aqui é
um local de respeito, é um tribunal! Parem! (As duas não
dão importância ao Delegado e seguem com as
agressões. O Delegado empunha o revólver e grita): -
Parem, suas cachorras! (Atira pra cima. As
mulheres se jogam no chão, cada uma para um lado e a Rita,
que a tudo participava torcendo pela mãe, corre apavorada
para debaixo da mesa do Juiz. Tempo. O Delegado faz pose de
dono da situação, guarda a arma e diz): - Agora, podemos
conversar? Bom, danado! (Entra o
Juiz alarmado).
JUIZ – Que danado
está acontecendo aqui? Quem foi o maluco que atirou?...
DELEGADO – Fui eu,
doutor Juiz! Foi a única maneira que eu achei de acabar com
a briga das duas.
JUIZ – Pois sua
maneira, Delegado, quase acabou com a minha vida!
DELEGADO – Bom,
danado! Mas eu atirei pra cima!
JUIZ – E o senhor
sabe o que é aí em cima? É o quarto onde eu durmo, senhor
Delegado! A bala atravessou o forro e o assoalho bem embaixo
da cama onde eu estava dormindo. A sorte foi o pinico!
DELEGADO – O
pinico. Bom, danado! O pinico? Que pinico?
JUIZ – Em baixo da
cama, Delegado! A bala acertou mesmo no fundo! Do pinico!
Foi a sorte, Delegado! Eu podia estar morto a essa hora.
Escapei fedendo!
DELEGADO –
Fedendo? E o que tinha no pinico?
JUIZ –
(Desajeitado) - Nada!
DELEGADO - Bom,
danado! Graças a Deus...
JUIZ - Graças a
Deus, o que?
DELEGADO - O tiro
não lhe atingiu!
JUIZ – Graças ao
pinico! E o senhor, por acaso, não sabia que aí em cima...
DELEGADO –
(Desajeitado, se desculpando) – Bom, danado! Sabia,
doutor... Sabia, mas esqueci. Desculpe, doutor.
JUIZ – Está bem.
Desta vez passa. (Indicando as mulheres) – E estas
são as duas viúvas?
VIÚVA – A viúva sou
eu. Ela é a rapariga!
JUIZ – Não lhe
perguntei nada, minha senhora! Limite-se a falar quando lhe
for perguntado alguma coisa.
OUTRA – Boa, seu
Juiz! Taí o que tu querias, peste!
JUIZ – Não
perguntei nada à senhora também! (A Viúva rir da Outra. A
Outra ameaça bater na Viúva. O Juiz age com
autoridade) – Basta! Parem as duas com as agressões! Ou
mando o Delegado prendê-las até que se acalmem. (Tempo.
Dirigindo-se à Viúva) – A senhora aí, o que é que
reclama? (Voltando-se para a Outra) – E a senhora
fique calada. Depois chegará a sua vez de falar.
VIÚVA – Doutor, eu
sou a viúva legítima. Otávio era meu marido passado no
papel. Olhe aqui! (Entrega uma certidão de casamento)
- Casado no religioso e com efeito civil. Tudo como manda a
lei. Por isso, o defunto deve ir para minha casa, que era
dele também.
JUIZ –
(Dirigindo-se à Outra) – E a senhora, o que alega?
OUTRA – Tenho
aqui esses recibos. Do aluguel da casa, que ele pagava.
(Entrega os papeis).
JUIZ – Bem, mas
esses recibos só provam que ele pagava um aluguel. E daí?
OUTRA – Tenho mais!
(Entrega).
JUIZ –
(Examinando os novos documentos) – Pagamento do colégio,
caderneta de poupança... Hum! Polpuda! Contas do hospital.
Seguro... Hum! Deixa um belo seguro!
VIÚVA – Pra quem?
JUIZ – (Cortando)
– A senhora não se meta agora! (Voltando à Outra) –
Mas todos esses são documentos que comprovam pagamentos. Não
provam nenhum relacionamento maior entre a senhora e o
finado.
OUTRA – E a Rita?
JUIZ – Que Rita?
OUTRA – Rita!
Estava aqui, comigo...
DELEGADO – (Que
observava todo o interrogatório) – Bom, danado! É mesmo!
E a menina? Onde se meteu?
OUTRA –
(Apreensiva) – Rita, minha filha! (Grita) –
Rita!
RITA – (Saindo
de debaixo da mesa do juiz) – Tou aqui, mãe! Acabou o
tiroteio?
JUIZ –
(Transparecendo admiração e interesse pela jovem) – Sua
filha, é? É um mimo... (Recompondo-se) – O que é que
tem sua filha?
OUTRA – É filha de
Tavinho também!
JUIZ – Que Tavinho?
DELEGADO – É como o
povo daqui chamava o “seu” Otávio. Bom, danado!
OUTRA – Vamos, filha!
Mostre o seu registro.
RITA – (Toda
melosa, entregando) – Pronto, doutor Juiz.
JUIZ – (Também
meloso) – Agradecido, senhorita.
VIÚVA –
(Sentindo que está perdendo terreno) – Registro não
prova nada não! Essa filha pode ser de outro e o besta do
Otávio registrou no nome dele.
OUTRA –
(Contra atacando) – Você é besta, sua vaca! Você é que
sempre foi maninha! Nunca teve a capacidade de dar um filho
para ele! (O Delegado interfere,
tentando evitar um confronto físico).
VIÚVA – E por que
ele não se casou com você, sua bruaca? Por que? Era só se
divorciar de mim e estava livre. Cadê que ele quis?
OUTRA – E você,
pestilenta? Por que você mesma não pediu o divórcio? O que
você queria era ficar com as riquezas dele.
VIÚVA – Eu nunca
quis me separar. Ele foi quem me deixou.
OUTRA – Coisa
nenhuma! Você sabia que ele tinha provas do punhado de
chifres que você botou nele! Ele tinha as provas!
VIÚVA – Mentira!
Isso é mentira. Uma infâmia!
OUTRA – Mentira uma
ova! Metade da cidade já deitou com você. (Tempo) -
Até o Delegado...
DELEGADO –
(Assustando-se) – Alto, lá! Comigo, não! (À parte)
-Eu não sou urubu!
JUIZ – (Que
durante todo o tempo ficou paparicando a moça, volta a
intervir) – Bem, o assunto é bastante complexo e eu vou
precisar de algum tempo para decidir. Preciso estudar a
situação. Já há jurisprudência e vou fazer algumas
consultas. Portanto, as duas esperem lá fora que mandarei
chamá-las, logo tenha uma solução.
VIÚVA – Virgem! Se
tudo acontecer como sempre acontece na Justiça, o defunto
vai apodrecer esperando uma decisão! (Vai saindo).
OUTRA –
(Que também vai saindo, lembra da filha) – Vamos,
Ritinha! (A filha obedece, o que
contraria o Juiz, que desconta no Delegado).
JUIZ – E o senhor?
O que quer aqui? Vá lá para fora tomar conta dessas malucas.
(Sai a luz. Transição musical. Mesmo cenário. Os mesmos
personagens. O juiz está sentado por trás da mesa. As partes
colocadas em lados opostos. Luz entra de estalo). Após
estudar bastante o caso, colher outras informações sobre
cada uma das partes e, principalmente, conferir a legislação
sobre o assunto, cheguei a uma conclusão que, modestamente,
considero a mais justa. A viúva legítima tem lá os seus
direitos devido a legalização do seu casamento com o
falecido. (A Outra vai protestar, mas o Delegado a
impede). A outra viúva, embora não seja casada
civilmente, também tem os seus direitos, pois residiu com o
falecido por mais de dezoito anos, comprovado pela bela
filha que os dois geraram, quero dizer, pelo registro de
nascimento da moça e os recibos dos aluguéis pagos durante
todo esse tempo. Assim sendo, de acordo com o artigo 123 do
capítulo quinto da lei complementar 342 etc., etc., esse
juizado decide que não haverá velório nas residências de
nenhuma das duas...
DELEGADO – Bom,
danado! E agora, como vai ser?
JUIZ – Se o senhor
deixar, Delegado, eu terminar de anunciar a minha decisão,
terá a sua resposta! (Tempo) – Continuando: assim, o
necessário velório será realizado em campo neutro e em dois
turnos, um para cada interessada, para que não voltem a se
encontrar. Ou melhor dizendo, um velório hoje, durante a
noite, e outro amanhã, durante o dia, até chegar a hora do
sepultamento.
DELEGADO –
Bom, danado! (Sorrateiramente, Rita
vai saindo para o interior do cenário, sob a aquiescência do
Juiz, sem ser vista pelos outros).
VIÚVA – Quero o
primeiro turno para mim. Se ela fica a noite toda com o
defunto, vai desaparecer com Otávio (Choro falso) e
não vou vê-lo mais, não vou poder me despedir do meu grande
amor... (Continua chorando).
OUTRA – Quem disso
cuida, disso usa.Que palhaçada! (Nota o Juiz) – Não,
não estou falando com o senhor não! É com essa fingida aí.
Amor! Amor coisa nenhuma. Só se amor for os pares de chifres
botados no coitado!
DELEGADO –
(Intercedendo) – Bom, danado! As senhoras não vão
começar tudo de novo, não é? Olhem o respeito no Tribunal!
(Voltando para o Juiz) – Tudo bem, doutor Juiz. Mas
uma coisa ta faltando o senhor resolver: onde vai ser esse
campo neutro?
JUIZ – Qualquer
lugar.
DELEGADO – Mas esse
lugar não tem por aqui não! Bom, danado!
JUIZ – Não
complique, Delegado. O clube, por exemplo?
DELEGADO – Bom,
danado! Mas não pode ser não. Tem festa hoje. “Preá Com
Melancia” e “Fruta Pão Com Bofe”.
JUIZ – Que danado é
isso?
DELEGADO – Os nomes
dos conjuntos que vão tocar. E vem da Bahia! Bom, danado!
JUIZ – (Pensa um pouco) - Então, na Matriz!
DELEGADO – Bom,
danado! Mas também não dá não. Está sendo reformada,
pintada, retelhada... Ta uma sujeira só!
JUIZ –
(Lembrando) - Ah! Tem a Câmara Municipal!
DELEGADO – Bom,
danado! Mas não vai dar certo não. Estão em vigília cívica!
Sessão permanente. A oposição não quer aprovar as contas do
prefeito. Dizem que os vereadores exigem algumas
bobagens... Uma diretoria para um irmão, uma secretaria
para um filho, uma concessão de um posto de gasolina para um
primo... Essas bobagens todas!
JUIZ – Diabos! Que
cidade complicada! (Tempo) – Já sei! O problema está
resolvido. Vai ser aqui, nesta sala. Mande trazer o caixão
com o defunto, velas, flores, o que tiver, para cá. Coloque
o caixão em cima da mesa e espalhe o resto por aí.
DELEGADA – Bom,
danado! Mas... Aqui?! Bom danado, mesmo!
JUIZ – As senhoras
concordam, não é?
OUTRA – E o jeito?
VIÚVA – (Saindo)
– Vou me preparar para o meu velório.
OUTRA – E eu para o
outro, o verdadeiro. (Vai saindo e pára) – Onde será
que se meteu a Ritinha?
JUIZ –
(Apressadamente) – Ela já foi, eu vi! Saiu! (A Outra
sai. O Juiz vê o Delegado parado.) – Está
esperando o que? Vá, Delegado! Vá providenciar tudo. Vamos,
ande. (O Delegado sai. O Juiz, com
todo cuidado examina o ambiente e, em seguida, começa a
chamar a moça através de psius. A moça reaparece).
RITA – Sabe doutor
Juiz, eu queria falar com o senhor...
JUIZ – (Cortando)
– O Senhor está no céu! Chame-me pelo meu nome: Eduardo.
Dudu para os íntimos...
RITA – Só se o
senhor, quero dizer, se você me chamar também de Ritinha...
JUIZ – Eu
chamo! Chamo o que você quiser, gostosinha!
(Tenta abraçá-la e ela escapa).
RITA – Calma, Dudu. Eu
só quero lhe dizer...
JUIZ –(Cortando)
–Venha dizer lá em cima, no meu apartamento. A gente fica
mais à vontade. Você sabe que a minha decisão foi para
favorecer sua mãe. De qualquer jeito a sua mãe iria ficar
com o outro velório. É o melhor, é de dia, com mais tempo. O
povo costuma vir em maior número quando está perto de sair o
enterro. Se a viúva não tivesse escolhido o primeiro turno,
eu daria um jeito para que assim fosse. Tudo por sua causa,
para beneficiar sua mãe. Agora vamos até lá em cima!
RITA –
(Afastando-se) – Não posso, estão me esperando. Minha
mãe e meu tio! (O Juiz recua ao ser mencionado “meu tio”)
- Tenho que chegar logo em casa, se não virão me buscar.
Mas escute, Dudu. Eu volto amanhã, bem cedinho, antes de
todo mundo. Aí eu subo!
JUIZ – Você
garante, Ritinha?
RITA – Garanto,
Dudu!
JUIZ – Então
vou esperar ansioso. (A moça vai saindo, o Juiz a segura)
– Não vai me dar nem um?... (A moça beija o rosto dele e
foge) – Que maravilha! Como é bom ser juiz!
(Sai a luz. Música de transição).
CENA II
(A cena preparada para
o velório. Luz reduzida, velas acesas. O caixão aberto.
Presentes a Viúva e o Delegado).
DELEGADO – Pronto!
Tudo nos conformes. Bom, danado! Agora só falta chegar os
parentes e amigos.
VIÚVA – Por mim não
vinha ninguém. Prefiro ficar sozinha para me despedir do meu
querido maridinho, do meu Otáviosinho, do meu Tavinho, do
meu... Do meu...
DELEGADO – (À
parte) – Corninho!
VIÚVA – O que disse, Delegado?
DELEGADO – Nada não!
(Vai ao público). -Falei à parte, isto é, só para o
público ouvir. Coisa de teatro antigo. (Voltando à cena)
- Agora voltando pra lá. (Para a Viúva) - Bem, mas eu
preciso avisar em casa que vou passar a noite por aqui. O
doutor Juiz mandou. É para evitar mais confusão. Bom,
danado!
VIÚVA – E o senhor
vai ficar a noite toda aqui, comigo e o defunto?
DELEGADO – Não!
Deus me livre! Quer dizer, vou, mas não vou aqui. Vou ficar
lá fora. (Apontando para o caixão) - Essa aí não é
bem a companhia que eu gosto para passar uma noite... Eu vou
sair, mas volto logo. Qualquer coisa é só chamar. Estou lá
na entrada do prédio. Bem, até mais ver. Bom, danado!
VIÚVA – Boa noite,
Delegado. Acho que não vou precisar de mais ninguém aqui.
(O Delegado sai. Tempo. A Viúva volta-se para o caixão.
Caminha lentamente até à mesa onde está o caixão. Pára e
fica olhando o defunto. Cutuca o dito cujo. Bate no caixão,
chamando-o) – Otávio? Tais me ouvindo? Se tais, não
me negues! Responde, Otávio! (Tempo) – Responde,
desgraçado! (Tempo) – É... Acho que ta morto mesmo!
Então é a hora da despedida, seu Otávio! (Faz pose de
quem vai discursar e dirige-se ao defunto) -– Vamos seu
corno safado! Vamos! Saia daí e vá se deitar com a sua
quenga! Vá, que eu duvido! Mas Deus é justo! Eu tinha fé que
iria me vingar. Como eu desejei este momento! Seu cabra
safado! Vamos! Saia desse caixão e vá pra casa dela!
(Gargalha histericamente) – Você me deixava
sozinha. Enquanto eu ficava sofrendo você se divertia com
outra, Até uma filha da outra você arranjou! (Gargalhada)
– Mas rir melhor que rir por último. Foi a coisa mais certa
que já inventaram. E a miséria em que eu fiquei? Uma
porcaria de uma pensão que não dá pra nada. E as surras que
eu levei de você, seu corno velho? Inventava que eu tinha
outro, que eu estava lhe traindo, só para bater em mim.
Vamos! Bate agora! Levanta daí, valente! (Gargalhada.
tempo) – Sabe de uma coisa? Eu vou dizer a verdade: eu
lhe botava chifre mesmo! E muito! E não foi depois que você
me deixou não! Foi antes mesmo! Quer saber? Pois eu lhe traí
com o Doutor Arlindo, com o Doutor Elcir, com o Doutor
Walter, com o Doutor Zé Souto; Doutor Nominando, Doutor
Valdo, Doutor Joel, com tudo que era de doutor que existia!
E teve mais: até com o padre Martinho, "Seu" Gilson da loja
e "Seu" Genildon do jornal e também com o carvoeiro, o
verdureiro, o moço do picolé, o vendedor de mel de engenho,
o vendedor de fígado, o engraxate e até o porteiro do
cinema! Achou ruim, achou? Pois continue achando! Sabe o
sacristão, aquele tal de Ariano? Vinha buscar esmola para a
igreja e eu era generosa com o dinheiro e com a cama. Também
eu tinha dinheiro sobrando! (Gargalhada) – Sacripanta!
Largou de mim, me deixando na miséria, passando necessidade!
Tudo por causa de uma putinha que era mais moça do que eu. E
ainda vivia me acusando de botar chifres! Eu, uma mulher de
respeito! Eu nunca lhe botei chifres, seu corno! (Tempo)
– Ou botei? (Tempo) – Mas isso não interessa agora.
Agora eu quero ver é você sair desse caixão e ir pra casa
dela!
OTÁVIO –
(Levanta-se no caixão, cantando):– "Por isso eu vou pra
casa dela, ai, ai...Falar do meu amor pra ela, ai, ai...Ta
me esperando na janela, ai, ai..."
(A Viúva dá um grito e cai. Otávio sai do caixão, vestindo
um camisolão branco , ainda dançando e cantando. Sai a
luz).
CENA III
(O dia está
amanhecendo. Em cena, apenas o caixão fechado e as velas
acesas. Rita entra, sorrateiramente, e se espanta por não
encontrar ninguém. Fica à vontade diante da situação. Vai
até ao fundo da cena e bate numa porta, com pancadas suaves,
como quem não quer chamar atenção. Bate outra vez e o Juiz
aparece. Está de pijama e chinelas).
JUIZ – (Falando
baixinho) - Ah, graças a Deus é você! Já estava agoniado
de tanta ansiedade. Alguém lhe viu entrar?
RITA – Não tem
ninguém aqui! Só o Delegado, lá fora, roncando que parece
uma locomotiva!
JUIZ – (Tomando
a cena) – Então a Viúva cansou do velório. Deve ter ido
dormir também. Melhor assim. Vamos subir?
RITA –
(Encabulada) – Fazer o que, Dudu?
JUIZ – Conversar, ó
Ritinha!
RITA – E por que a
gente não conversa aqui mesmo, Dudu?
JUIZ – Ó Ritinha!
(Indicando o caixão) -Teu pai está aí. A gente tem
que respeitar!
RITA – E conversar
é falta de respeito, Dudu?
JUIZ – É não,
Ritinha. Mas você sabe: conversa vai, conversa vem, aí
termina...
RITA – Termina o que, Dudu?
JUIZ –
(Ajoelha-se, declarando-se) – Ó, Ritinha! Eu estou
apaixonado por você, estou louco por você, estou
perdidamente...
RITA – Mas Dudu, só
faz poucas horas que você me conheceu! Já deu pra isso tudo?
Olhe, só em peça de teatro e novela de TV é que isso
acontece!
JUIZ – Mas aqui é
real, Ritinha. Amor à primeira cena! Vamos, meu amor! Vamos
me dar a maior felicidade!
RITA – Dudu, eu só
tenho quase dezoito anos...
JUIZ – Uma bela
idade!
RITA - ...e sou
virgem.
JUIZ – Assumo todas
as responsabilidades! E você? Você gosta de mim?
RITA – Confesso,
Dudu, que assim que botei os olhos em cima de você, veio um
arrepio nos meus espinhaços!
JUIZ – Então vamos
subir e encontrar a nossa felicidade.
RITA – Dudu!...
JUIZ – Ritinha!...
RITA – Dudu!...
JUIZ – Ritinha!...
RITA – Não,
Dudu!... (E vai se encaminhando para a entrada do quarto).
JUIZ – Sim, Ritinha!...
(Seguindo-a).
RITA – Não,
Dudu!...
JUIZ – Sim, Ritinha!...
RITA – Então vamos
logo, Dudu!...
JUIZ – Só se
for agora, Ritinha!... (Saem
repetindo “Dudu” e “Ritinha”. Sai a luz. Entra música de
transição. À medida que a música é executada, gradativamente
a luz vai voltando. É dia. Entra o Delegado, demonstrando
ainda ter sono).
DELEGADO – Oi!
Ninguém! Bom, danado! Onde será que se meteu a viúva?
Esquisito! Brigou tanto pelo velório e agora nem sinal de
vida! Acho melhor chamar o doutor Juiz. (Vai até à porta
e bate) – Doutor Juiz! (Bate outra vez) – Doutor
Juiz!
JUIZ – (Voz do
Juiz) – Quem é?
DELEGADO – O
Delegado, doutor. É bom o senhor vir aqui. Pra mim tem
alguma coisa errada.
JUIZ – (Voz de
fora) – Um momento. Vou já descer.
DELEGADO – Pois
não, doutor. Bom, danado! (Fica olhando para os quatro
cantos da sala, como quem investiga alguma coisa.
Tempo. De repente descobre.) – O caixão! O caixão estava
aberto... Por que será que está fechado agora? Acho melhor
abri-lo. (Quando vai dirigir-se à mesa, ouve um espirro.
Recua apavorado) – Santo Deus! O defunto espirrou!
(Treme de medo) – Nunca vi defunto espirrar. Valha-me
Nossa Senhora de Nazaré! (Apavorado) – Doutor! Doutor
Juiz! Acuda! Socorro! Eu não consigo correr! Dona alma
dizeis o que quereis que eu atenderei mas não me deixais
ficar assim... Eu não consigo sair do canto! Doutor Juiz,
acuda! (O Juiz entra, já vestido como no início, mas
ainda ajeitando a gravata e terminando de botar o paletó.
Rita entra também tentando ajudá-lo. O Delegado continua
apavorado)´- Doutor, o defunto espirrou! Um espirro
horrível! Parecia que vinha das profundezas...
JUIZ – Está maluco,
Delegado? Que invenção é essa? E o que é que faz aí parado?
DELEGADO –
(Recompondo-se) – Eu? Parado? É que não consigo...(Tenta
andar e consegue) – Não, não estou, olhe aqui...
Bom, danado!
JUIZ – E por que
gritava tanto?
DELEGADO – O
caixão... Está fechado!
JUIZ – E o que é
que tem isso demais? A Viúva quando foi embora deixou
fechado.
DELEGADO – Bom,
danado! Ela não foi embora, ela não passou pela portaria!
JUIZ – E como o
senhor poderia ver se estava dormindo em serviço?
DELEGADO – Eu?
Dormindo? Bom, danado!
JUIZ – Sim,
dormindo! Não viu nem quando a moça chegou.
DELEGADO – Espere!
Ela também não estava aqui. Aqui não tinha ninguém. Espere!
Ela entrou por onde? Ela estava aonde?...
JUIZ – (Cortando)
– Não interessa, Delegado. Deixe esse assunto pra lá. Eu
quero é saber se essa gritaria toda foi só porque o caixão
estava fechado?
DELEGADO – Foi o
espirro! Bom, danado!
JUIZ – Que
espirro?
DELEGADO – O
defunto espirrou!
RITA – Virgem
Maria!
JUIZ – Quer brincar
comigo, Delegado?
DELEGADO – Eu
juro!
JUIZ – Morto não
espirra, Delegado. Foi impressão sua.
DELEGADO – Depende,
doutor! A alma pode estar gripada. Penando...
RITA –
(Interferindo) – A alma do meu pai não é penante!
Respeito é bom e eu gosto!
DELEGADO – Mas ele
espirrou, eu juro! Ouvi com esses ouvidos que um dia a
terra haverá de comer. Bom, danado!
JUIZ – Deixe de
bobagem, Delegado. Cuide de abrir o caixão, arrumar o
recinto, que a outra viúva não tarda chegar. Vamos!
DELEGADO – Eu
abrir o caixão? Bom, danado! Eu? (O Juiz confirma com
um gesto. O Delegado atende a ordem bem devagar.
Arruma as cadeiras.) – Eu abrir?... (O Juiz se
impõe com gestos determinando a abertura do caixão. O
Delegado chega junto ao caixão, temeroso, muito a contra
gosto vai levantando a tampa e, de repente, vendo o
conteúdo, solta a tampa do caixão e
volta gesticulando, querendo dar alguma informação, mas não
consegue falar).
RITA – O que é que
tem meu pai? (Corre até ao caixão e levanta a tampa,
soltando-a também. Grita e começa a chorar.) –
Mataram meu pai!...
JUIZ – Como, se ele
já estava morto?
RITA –
Roubaram! (Rita continua chorando).
JUIZ - (O Juiz
vai até ao caixão e abre a tampa. Toma um susto.) – Mas
é a viúva!
OUTRA –
(Entrando, acompanhada pelo irmão) – Sim, sou eu. O que
é que tem? (Falando para fora da cena) – Vamos
entrando. Podem começar a reza. E o choro também!
(Entram algumas rezadeiras e colocam-se
diante do caixão. A chefe começa a função).
CHEFE –
(Cantando) – Uma incelença / pra entrar no paraíso /
adeus, alma coitada, / até o dia de juízo. (As rezadeiras
repetem a cantoria, enquanto a Chefe reza o Pai Nosso, do
qual só se ouve a primeira frase. Ao final choram
exageradamente.) –Duas incelenças / pra entrar no
purgatório / adeus alma coitada, /se ainda estais neste
velório. (As rezadeiras repetem
etc.).
JUIZ – (Ainda
atônito com a situação) – Que palhaçada é essa? Vamos
parar!
DELEGADO –
(Benzendo-se) – Bom, danado!
OUTRA – Mais respeito com
a religião, doutor! E com o defunto também...
JUIZ – Mas a
senhora não está sabendo... (O
Irmão apóia a Outra).
OUTRA – (Para as rezadeiras) –
Continuem! O velório é meu, o defunto é meu.
CHEFE – Três
incelenças / pra evitar o inferno / adeus, alma coitada / A
receba Pai Eterno. (Repetem, etc.) – Quatro
incelenças, / pra entrar lá no Céu / que a Virgem lá em
cima, / lhe cubra com o seu véu.
(Repetem, etc.).
RITA – Parem, por
favor!
JUIZ – No caixão! A
viúva...
OUTRA – Eu estou
aqui! Que conversa maluca é essa?
RITA – Roubaram meu
pai, mãe!
OUTRA – Parece que
todo mundo está ficando doido! (Para a filha) – E a
senhora! Quero ter uma conversinha séria com a senhora. Que
negócio foi esse de sair de casa escondida e se danar pra
cá? Quero uma explicação!
JUIZ –
(Intercedendo) – Depois, depois... Quero dizer, o
caixão... Venha ver o caixão...
OUTRA –
(Dirigindo-se ao caixão) – Que danado tem esse caixão? E
por que está fechado? Tavinho não morreu de nenhuma doença
ruim!
RITA – Roubaram meu
pai!
OUTRA – Pára com
essa ladainha, menina! (Abre o caixão. Assusta-se) –
Deu a gota serena! O que é que essa bexiga taboca está
fazendo no caixão de Tavinho? (Juiz gesticula
informando que não sabe. O irmão também olha o interior do
caixão) – Isso é lá lugar de dormir! Vamos, seu Juiz.
Acorde essa leprosa, mande-a desocupar o caixão!
IRMÃO – Acorde!
JUIZ – Acordar
como? Ela está morta!
OUTRA – Morta?
JUIZ – E fria!
OUTRA – Agora
piorou! E o que é que essa rapariga de padre está fazendo
nesse caixão? O caixão foi comprado por mim. É meu! Ela não
tem esse direito. (Para o Juiz) – Era só o que
faltava! E a gente vai ficar com esse bagulho dentro do
caixão, vai? Arranque ela daí!
IRMÃO – Arranque!
RITA – Jogue no meio da rua!
OUTRA – Ou então no lixo!
IRMÃO – No lixo!
JUIZ – Nada disso!
(O irmão encaram o Juiz, que fala se desculpando)
Entenda! Não é que eu queira. É que ninguém pode
mover o corpo! Houve uma morte e ninguém sabe como foi.
Portanto, é um caso de polícia! Vai haver investigação.
CHEFE – E a gente?
Como fica?
OUTRA – Vocês não
ficam! Podem ir embora. Não tem defunto, não tem reza nem
choro!
CHEFE – E o
pagamento?
OUTRA – Que
pagamento? Não teve reza, não tem pagamento.
CHEFE – Agora eu
achei! Não tem pagamento, uma ova! A gente trabalhou...
OUTRA – Começaram!
REZADEIRA 1 – Não
interessa. A gente não tem culpa se a senhora perdeu seu
defunto. Vá ver que ele não queria vê-la por perto nem
depois da morte!
OUTRA –
(Ameaçadora) – O que, sua lacraia?
REZADEIRA 2 –
(Afrontando) – É o que a senhora quiser! (As outras
rezadeiras se juntam à Chefe e a Outra recua). –
Vou dá parte na polícia...
DELEGADO – Eu sabia
que ia terminar sobrando pra mim! Bom, danado!
CHEFE – Vou
procurar o Juiz... (O Juiz disfarça e se afasta). Vou
procurar meus direitos! (Para as outras rezadeiras) –
Vamos meninas. (Vai saindo).
OUTRA – Já
vai tarde, fora de hora, calça rasgada, bunda de fora!
(As rezadeiras ameaçam voltar e a
Outra procura amparo no Delegado).
DELEGADO –
Bom, danado! Calma, minha gente! Vão procurar o Juiz...
(As rezadeiras saem).
JUIZ – Muito
bonito, delegado! Jogando pra cima de mim!
DELEGADO – Foi a
maneira que eu achei de...
JUIZ – Suas
maneiras são sempre perigosas para mim! Muito bem. Agora
tome as devidas providências! Chame a polícia para resolver
o problema da defunta.
DELEGADO– (Vai
saindo e lembra) -Mas... A polícia sou eu!
JUIZ – Então
investigue o caso.
DELEGADO– (Meio
gago) – Tudo é eu... Bom, danado!
OUTRA – (Para a
Delegado)– O senhor tem que dar conta do Tavinho. O
senhor estava responsável pelo velório. O senhor passou a
noite aqui. O senhor é um suspeito!
DELEGADO–
(Indignado)-Eu? Uma ova! Bom, danado! Suspeita é a
senhora que vivia brigando com ela. Quem sabe se não veio
aqui de madrugada, executou essa outra doida, roubou o
defunto e colocou a Viúva no caixão, heim?
(O Irmão encara o Delegado que se ampara no
Juiz que, por sua vez, se ampara em Rita).
OUTRA – Era só o
que faltava! O senhor me respeite!
JUIZ – Isso é coisa
que se diga, Delegado! Não se acusa ninguém sem provas e
testemunhas. O melhor que o senhor faz é cuidar de começar
as investigações. Achar o defunto Nº 1 e descobrir como
morreu a número 2... (SAI A LUZ. Transição Musical).
CENA IV
(Mesmo cenário, agora
sem o caixão. Em cena o Juiz, a Outra e a Filha e o Irmão. A
Outra e a Filha conversam baixinho num canto da sala. O
Juiz, impaciente, caminha de um lado para o outro, vez em
quando desviando o olhar para as duas. O Irmão está num
canto. Tempo. Entra o Delegado).
DELEGADO–
(Anunciando) – Pronto, doutor Juiz. Positivo e operante!
Foi morte morrida. Infarto! Bom, danado!
JUIZ – Quem?
DELEGADO– Ela lá! A
Viúva.
JUIZ – E o defunto
nº 1?
RITA – E meu pai?
OUTRA – E Tavinho?
E o caixão dele?
DELEGADO– Bom,
danado! Não encontrei nenhum dos três.
JUIZ – Que três?
DELEGADO -Bom,
danado! Quero dizer que nem o pai, nem “seu” Tavinho, nem o
defunto! Ninguém encontrou o corpo de “seu” Otávio. E o
caixão está na delegacia. A família da viúva providenciou
outro.
RITA – Então ele
está vivo! Meu pai está vivo! Vivo!
OUTRA – Vivo como,
minha filha? Eu mesma vesti o defunto e com a ajuda do teu
tio botei no caixão, espalhei as flores...
RITA – E já viu
defunto morto sair do caixão e desaparecer?
OUTRA – Não!
Mas...
JUIZ – Minha gente,
vamos descomplicar!
DELEGADO -Bom,
danado!
JUIZ – É claro que
o defunto... (Para Rita) -Desculpe... É claro que o
falecido seu pai não sairia sozinho daquele caixão. Alguém o
tirou de lá e colocou a viúva. Resta descobrir quem fez
isso, a que horas fez isso, por que fez isso, com a ajuda de
quem fez isso, como fez isso, qual foi a vantagem de fazer
isso... Ou seja: sabendo quem fez isso, sabe-se o resto!
DELEGADO -Bom,
danado!
OUTRA – Só pode ter
sido o Delegado! Foi ele quem ficou por aqui.
DELEGADO –
Bom, danado! Olhe, minha senhora a Outra, se existe uma
coisa de que eu quero distância é coisa do outro mundo. Pra
mim, “defuntou”, já é de outro mundo. Depois, andou muita
gente por aqui!... (Insinuando a
presença de Rita).
JUIZ – Essa discussão
não leva a nada.
RITA – Eu quero meu
pai! Ele veio para cá sob a responsabilidade do Delegado e
do Juiz. Vão ter que dá conta!
JUIZ – Mas Ritinha!
RITA – Mas Dudu!
OUTRA – Mas vocês!
Já estão assim, é? Já vi que o negócio foi longe demais!
IRMÃO – Longe,
como?
DELEGADO– (À
Parte) – Foi nada! Ficou por aqui mesmo! Só subiu! Bom,
danado!
OUTRA – O que foi
que disse, Delegado?
DELEGADO– Bom,
danado!
OUTRA – Esse seu
‘bom danado”já está ficando ruim. O senhor falou alguma
coisa de “subiu”. Quero saber quem subiu. Que subiu é esse?
IRMÃO – O que foi
que subiu?
JUIZ –
(Apressando-se) – Foi o tiro!
DELEGADO– Foi! Foi
um tiro bom danado! Acertou no pinico!
OUTRA – Vamos parar
com essa palhaçada? Eu quero lá saber de tiro nem de pinico.
Eu quero é o meu defunto!
RITA – E eu quero
meu pai...
OUTRA – Pra que
danado você quer teu pai, Ritinha? De que serve um pai
morto? Agora, eu, preciso do defunto. Se não houver enterro
e documento passado, como eu vou receber o seguro?
JUIZ – A senhora
tem razão. Um desaparecido para ser dado como morto leva
muito tempo. Mas a senhora não tem o atestado de óbito? Está
resolvido!
OUTRA – O médico
ficou de assinar depois. Com o corpo desaparecido será que
ele ainda vai assinar?
JUIZ – Ele ainda
não deve estar sabendo...
DELEGADO -
Oxente! Toda a cidade já sabe. Essa história já correu
meio mundo! Bom, danado!
JUIZ – Então algum
fofoqueiro já saiu alardeando tudo por aí, não foi Delegado?
DELEGADO - Eu não
sei. Eu não sei de nada! Só sei que foi assim... (À
Parte) – Só sei que foi assim! Alguém já disse isso numa
peça de teatro! Bom, danado!
OUTRA – (Todos
vão se aproximando do Delegado, cercando-o) Tenho pra
mim que o Delegado sabe de mais coisas do que a gente!
RITA – É!... Parece
que mãe tem razão...
JUIZ – Também acho,
Ritinha! Vamos, Delegado. Desembuche!
IRMÃO – Não fale
não, pra ver! Quer dizer... é pra falar! É pra falar!
DELEGADO -
(De costas para a platéia, olhando para o fundo da cena.
Cena escurecendo e foco em cima dos quatro. O Juiz, a Outra
e Rita, continuam atacando o Delegado com perguntas.)
– Mas eu não sei de nada! Eu confesso! Eu confesso!
(Tempo. Expectativa) – A verdade é que eu tenho medo de
alma! Pronto, já disse! Eu tenho vergonha de dizer, mas o
medo é maior. Não passei a noite aqui foi por medo! Tenho
medo que me pelo, dessas coisas de gente morta. Como danado
eu iria tirar um defunto do caixão?
(Toda a cena no escuro e um foco em cima dos
quatro. De estalo, surge outro foco em cima da mesa, onde
“seu” Otávio está sentado, ainda de camisolão.O Delegado é o
primeiro a ver e perde a fala e fica emitindo sons estranhos
. Os outros ficam questionando o Delegado até que o
aparecido fala).
OTÁVIO – (Com
voz em falsete) – Muito bonito! (O Delegado desmaia.
Os outros se unem com medo, um querendo se proteger no
outro. O Juiz, disfarçando, dirige-se para a saída.)
– Não adianta fugir, senhor Juiz. Chegou a hora do
julgamento! O julgamento que o senhor não vai julgar. Vai
ser julgado!
RITA - Julgamento?
(Para o publico) – Também tem julgamento nessa peça!
OUTRA – Homem, que
negócio é esse? Se você é alma, onde está o corpo? É preciso
enterrar, se não...
OTÁVIO –
(Cortando) – Não recebe o seguro, não é?
OUTRA – E é mesmo!
E esse dinheiro vai se perder é? Vou bem deixar pra
companhia de seguros? Preciso de você defunto para resolver
tudo.
RITA – Mas mãe, não
ta vendo que pai está vivo! Quem já viu morto falar?
OTÁVIO – Menina
incrédula, respeite a situação. Você também será julgada.
Quanto a você, minha ex-amante, tem toda a razão! Ta sendo
honesta!
RITA – (Cortando) –
Vamos, pai! Pára com essa frescura! O senhor não me engana
não! O senhor está é vivo!
OTÁVIO – (Começa
rir e emenda numa gargalhada “sinistra”. Rita também começa
a rir. Otávio pára.) – Está bem, minha filha. Não
adianta mais representar. Vamos parar com a palhaçada. (A
Outra e o Juiz, boquiabertos. Rita corre para juntar-se ao
pai.) – Como é? Gostaram da minha aparição? Teatral, não
foi? (Dar um sinal para as coxias e a luz volta
totalmente.) – Viram? Um sinal e tudo volta ao normal. Em
teatro tudo é fácil. Ou falso! Bem, mas vamos terminar essa
chanchada, antes que o público comece a sair. |