- E o TEP ganhou algum prêmio no festival de Recife?
- Ganhou. Classificou-se
entre os participantes, representantes dos Estados
Nortistas, como o segundo melhor grupo, tendo o nosso Celso
Almir Lins Falcão, conseguido o prêmio de melhor ator
coadjuvante. Os jornais da Cidade abriram suas manchetes:
“IMPRESSIONANTE PERFORMANCE DO TEATRO DO ESTUDANTE EM
RECIFE” (A União – 14-10-56); “BRILHANTE APRESENTAÇÃO DO TEP
EM RECIFE” (O Norte – 13-10-56); “BRILHA, EM RECIFE, O
TEATRO DO ESTUDANTE” (Correio da Paraíba – 17-10-56). Já no
dia 29 do mesmo mês, a imprensa publicava a seguinte nota:
“O Centro de Estudos e Debates, reconhecendo o auto espírito
artístico demonstrado pela turma do Teatro do Estudante da
Paraíba, inúmeras vezes, nos brilhantes espetáculos
realizados pelo nosso conjunto cênico no Teatro Santa Roza
e, agora tão extraordinariamente no Recife, como
participantes do II Festival Nortista de Teatro Amador –
conseguiu o TEP ficar em segundo lugar em representação,
primeiro lugar em ator coadjuvante (Celso Almir), segundo em
ator principal (Valdez Silva) e primeiro em direção (Walter
Oliveira) – prestará uma significativa homenagem ao tão
paraibano conjunto teatral, com uma sessão solene, amanhã,
na Associação Paraibana de Imprensa, quando alguns dos seus
membros ressaltarão a importância que o TEP vem tendo para a
cultura paraibana”
- “Fim de Jornada” foi
apresentada em João Pessoa?
- Só em março de 1958, mais
de um ano após o seu sucesso em Recife. É que o Teatro Santa
Roza continuou por muito tempo fechado para reforma. O
espetáculo foi remontado depois de reaberto o Teatro, já com
parte do elenco mudada.
- Causou boa impressão a
reforma do Santa Roza?
- Não. A boa intenção do
Ministro José Américo não foi correspondida pelos
responsáveis pelas obras. Seria justificável, louvável até,
se os serviços tivessem sido restritos à parte técnica, isto
é, o palco, iluminação etc.. O Santa Roza, na época, apesar
de apresentar deficiências técnicas, era, ainda assim, um
bom teatro, com boa acústica e ótima visão de palco. A
platéia, apesar de um número pequeno de lugares, ia
razoavelmente atendendo a nossa cidade e, além disso, a sua
correta arquitetura lhe dava a condição de um dos mais belos
do País, merecendo as seguintes palavras de Procópio
Ferreira: “É tão belo quanto um bolo de noiva”. E os
responsáveis pela reforma transformaram o “bolo de noiva”
num “pastelão mexicano”. Na verdade, o Santa Roza virou um
barracão, sem acústica, sem iluminação, sem ventilação e sem
boa visão do palco. O nivelamento do piso da platéia foi tão
tecnicamente errado, que o espectador que sentasse a partir
da quinta fila de cadeiras (a mesma quantidade de antes da
reforma), já não teria a visão perfeita do palco.
Determinados camarotes (e ainda hoje é assim, pois trata-se
de um erro incorrigível) transformaram-se em verdadeira
“fábricas” de torcicolos, devido às suas localizações dentro
da platéia, forçando os seus ocupantes a ficarem de lado
para o palco.
- E em que foi que
melhorou?
- É difícil dizer...
Talvez maiores dependências: o palco ficou maior, no porão
foram adaptados salões para depósitos, ensaios de peças e
para a Orquestra Sinfônica. O TEP ganhou, por cortesia de
Walfredo Rodriguez, um compartimento que passou a usar como
sede. Por outro lado, foi construída uma quantidade enorme
de sanitários, como se estivesse previsto uma diarréia
coletiva nos futuros freqüentadores. Nos sanitários
destinados ao público feminino, foram colocados dezesseis
bidês, o que serviu de gozação durante muito tempo. Só uma
coisa no velho Santa Roza não mudou, apesar da suficiente
verba deixada pelo Ministro José Américo e complementada
pelo seu sucessor: quem fosse ao Teatro numa noite chuvosa,
teria de comprar o seu ingresso na calçada, debaixo a chuva.
- E de quem foi a culpa
desse defeitos todos?
- Para mim, dos
responsáveis pela obra. Fácil de deduzir, difícil de provar.
Não tínhamos maior acesso aos trabalhos ali realizados.
Apenas ouvíamos comentários a respeito dos constantes
desentendimentos entre o Diretor do Teatro e o engenheiro do
Estado, que não era um especialista no assunto. Acusavam-se
mutuamente, cada um responsabilizando o outro pelos erros
cometidos. Na verdade todos os erros foram técnicos, que só
poderiam ter sido evitados por quem entendesse do assunto.
Quem perdeu com isso foram os paraibanos, que viram a sua
principal casa de espetáculos, transformada num exemplo do
que não se deve fazer, quando se for construir um teatro.
(Publicado em 17-02-75).
(CONTINUA)
ASCENSÃO E QUEDA
DO TEATRO PARAIBANO
( III)
- No governo seguinte, do Dr. Flávio Ribeiro, o movimento
teatral continuou em ascensão?
- Sim. Mesmo com o
Teatro Santa Roza fechado para reforma e com os serviços ali
realizados em ritmo lento, não apresentando boas
perspectivas de conclusão. Apesar da morosidade existente,
principalmente por culpa de um engenheiro do Estado chamado
Fernando do Amaral Marinho e do diretor Walfredo Rodriguez,
que divergiam, constantemente, quanto aos detalhes da obra
(assunto que trataremos com mais detalhes posteriormente), o
movimento teatral da Paraíba continuou em franco progresso
- E havia o apoio do
Governo?
- No começo, em 1956,
as coisas não foram fáceis. O Teatro do estudante da Paraíba
vivia, exclusivamente, de uma subvenção de CR$ 24.000,00
(hoje seriam vinte e quatro cruzeiros) e de rendas eventuais
obtidas com algumas promoções, como o Concurso Rainha dos
Estudantes e algumas festas dançantes. Sem ter onde
apresentar seus espetáculos em João Pessoa, o TEP partiu
para as excursões a outros Estados, o que não resultava em
algum lucro com as rendas das bilheterias, por essas
apresentações serem dispendiosas. Foi dentro desse clima que
surgiu o convite para que participássemos do II Festival
Nortista de Teatro Amador, na vizinha cidade do Recife.
Entusiasmados com o relativo sucesso alcançado no ano
anterior, quando da realização do primeiro festival em
Natal, os componentes do TEP deram inicio a uma verdadeira
batalha, no sentido de conseguir os meios necessários à
nova participação. Nessa guerra entrou muita gente: a
Imprensa paraibana através de José Souto (Jornal O Norte),
Severino Ramos (Correio da Paraíba), Geraldo Carvalho (A
União), entre outros jornalistas, participaram apoiando a
iniciativa. É bom lembrar que, naquela época., a imprensa
paraibana já dava muita importância às coisas da cultura. Os
apelos foram tantos e até do próprio Governador de
Pernambuco, que o nosso não teve como deixar de atender e
garantiu a nossa presença no mencionado conclave.
- Foi sucesso a apresentação no festival do
Recife?
- Como dizem que depois da tempestade vem a
bonança, confirmou-se o adágio popular. Já tendo como
garantida a sua participação, o TEP contratou o ensaiador
Walter de Oliveira. “Fim de Jornada” do autor inglês R.C.
Sheriff, foi a peça escolhida e montada. Dessa montagem
participaram quase todos os integrantes do grupo e, como
destaque especial, contou-se com a constante colaboração do,
na época, Coronel Edson Ramalho, Comandante da Polícia
Militar do Estado, que além de fazer as vezes de instrutor
militar do espetáculo (que tinha a sua ação no campo de
batalha, durante a Primeira Grande Guerra Mundial), forneceu
todo o guarda-roupa , as armas (inclusive uma metralhadora
antiaérea Point 50) e o transporte de todo o material e
cenários para o Recife. Se não bastasse , mandou também a
banda de música da Polícia Militar fazer retreta diante do
Teatro Santa Izabel, no dia da nossa apresentação. “Fim de
Jornada” mereceu do cronista Guerra de Holanda, na Folha da
Manhã, as seguintes palavras escritas: “Mas triste do que o
tempo gastando meu corpo e cansando minh’alma, inutilmente,
é esse distanciamento que venho sofrendo, do poeta que fui.
Daquele que foi incerto como as ondas e como os saltimbancos
e hoje é um burocrata dos mais presos aos regulamentos e às
horas. Os compromissos de trabalho destruíram a beleza
antiga que havia na minha vida, aquela irresponsabilidade
feliz de quem não tinha lei, nem rei. Era dono de si mesmo,
apenas, e não queria outra propriedade, que de todas elas,
cousa alguma se leva, no fim da jornada. Estou sentindo mais
do que nunca as marcas do prisioneiro em que me transformei,
quando Recife realiza o II Festival Nortista de Teatro
Amador. Em outros tempos eu estaria lá, no velho Santa
Izabel, vendo e aplaudindo os nordestinos que aqui se
encontram para testemunhar o desenvolvimento da arte teatral
em suas terras. Dos espetáculos apresentados, assisti,
apenas, ao que levou o Teatro do Estudante da Paraíba,
dirigido por Walter Oliveira. Confesso que gostei da
representação e, embora não tenha visto as demais, entendo
que os outros conjuntos constantes da pauta do Festival
devem redobrar seus esforços, se não quiserem que os
paraibanos levem para João Pessoa, os melhores aplausos e a
maior admiração do público que vai julga-los todas as
noites. A peça de Sheriff – Fim de Jornada – cujo êxito
depende quase dos intérpretes e da direção, não se tornou
monótona, encenada pelos estudantes da Paraíba. Eles
souberam tirar um rendimento satisfatório de episódios
ocorridos numa posição avançada da linha de frente, onde
dois grupos de combate inimigos aguardavam, a hora da luta
decisiva. E o mais simpático da peça, ao meu ver, foi a
orientação que o autor lhe deu, no sentido de não explorar o
heroísmo diante da morte, forçado pelo cumprimento do dever,
salientando as virtudes de solidariedade dos chefes
militares, que continuaram, por baixo das medalhas de
guerra, seres humanos. Houve apenas, o contraste do
antipático “coronel” (Sósthenes Kerbrie) que entre os seus
companheiros era um corpo sem alma, ou uma alma sem nobreza
humana. Se os outros espetáculos estão sendo e vão ser
realizados nas dimensões artísticas apresentadas pelo
conjunto dos estudantes da Paraíba, temos a lamentar,
lamentar profundamente, a ausência daqueles que, por descaso
ou impossibilidade, como eu, não assistiram a todas as
representações do II Festival Nortista de Teatro Amador.”
(Publicado em 10-02-75, com uma foto e a legenda: Os
componentes do TEP regressam da sua vitoriosa participação
no Festival de Recife).
(CONTINUA)
ASCENSÃO E QUEDA
DO TEATRO PARAIBANO
( II )
- Quem eram o Secretário da Educação e o Diretor do Teatro
Santa Roza no Governo do Ministro José Américo?
- Quando começamos a
participar do movimento teatral da Paraíba, segundo
semestre de 1954, eram Durmeval Trigueiro e Walfredo
Rodriguez, respectivamente, pessoas que preenchiam as
condições que falamos. Como, naquela época, a Secretaria era
da Educação e Saúde, havia também outra peça importante no
esquema, o Diretor do Departamento de Educação, cargo
ocupado por Homero Leal. A nossa participação, como a de
muitos outros companheiros daquele tempo, deve-se à montagem
em João Pessoa, no adro da Igreja de São Francisco, do
espetáculo “O Grande Teatro do Mundo”, auto de Calderon de
La Barca, numa promoção conjunta do Governo do Estado,
Prefeitura da Capital e Faculdade de Filosofia, sob o
comando do professor Enrique Martinez e do teatrólogo
pernambucano Joel Pontes. Devido ao grande sucesso da
promoção, que mereceu reportagem na revista “O Cruzeiro”, a
mais importante em circulação no país, começou a despertar
entre os nossos estudantes um maior interesse pelo teatro,
pois lá estavam, naquela revista e com destaque, os nomes e
fotografias de Ruy Eloy, Fernando Macedo e Orley Mesquita,
entre outros. Então o Teatro do Estudante da Paraíba, que já
existia desde 1949, embora, oficialmente, desde 1950,
começou a receber em seu quadro social um grande número de
novatos, que na ânsia de realizar alguma coisa ou mesmo até
de aparecer de alguma forma, montaram a peça de Ariano
Suassuna “Cantam As Harpas do Sião”, primeira desse autor a
ser encenada no país. Daí em diante a coisa pegou. Se de um
lado o entusiasmo pelo teatro aumentava, por outro a
Sociedade dos Amigos da Música, dirigida pela professora
Luzia Simões, oferecia constantemente ao público concertos e
recitais de artistas famosos e sucessivas apresentações da
Orquestra Sinfônica da Paraíba, regida pelo maestro Rino
Visani. Tudo junto fazia com que o nosso Teatro Santa Roza
estivesse sempre de portas aberta. O apoio do Governo do
Estado a todas essas manifestações artísticas e,
principalmente, a presença do Governador como espectador
desses acontecimentos, que com isso carreava para o Teatro
grande número de autoridades, foram fatores decisivos para a
ascensão do movimento artístico no ano seguinte, 1955.
- Quais os
acontecimentos importantes de 1955, no campo das artes?
- Foram muitos.
Todos eles contaram com o total e decisivo apoio, do então
Governador, Ministro José Américo de Almeida. Entre os mais
importantes citamos a vinda à nossa Capital do Corpo de
Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sob o
patrocínio da Secretaria da Educação e Saúde, trazendo no
seu elenco a famosa bailarina Tatiana Leskova. Também
tivemos as presenças do conjunto coral “La Faluche” , da
Universidade Católica de Paris e do Frei José Mojica,
ex-ator de cinema, apresentando recitais de canto para o
nosso público. A Paraíba, pela primeira vez, se fez
representar num festival de teatro, através do Teatro do
Estudante da Paraíba, que participou do I Festival Nortista
de Teatro Amador, realizado na vizinha capital do Rio Grande
do Norte, encenando a peça “Festim Diabólico”, do autor
inglês Patrick Hamilton, tendo no seu elenco os nomes de
Celso Almir, Sósthenes Kerbrie, Arlindo Delgado, Diracy
Magalhães, Valdez Silva, Ruy Eloy e Carmem Costa, com
cenário de Hermano José e direção geral de Joel Pontes.
- E as condições do
Teatro Santa Roza?
-Tecnicamente não
eram boas e cada vez mais a sua platéia tornava-se
insuficiente para receber o grande número de espectadores
que comparecia às promoções culturais. Para se ter uma idéia
do desconforto, a entrada dos artistas para o palco era
feita através da própria platéia, por uma porta que havia de
um dos lados da boca de cena. O prédio carecia de urgentes
consertos, principalmente a sua fachada, enfeada pelo fato
de terem, as suas portas principais, sido serradas.
- Serradas?!
- É um dado
pitoresco na história do Santa Roza. Eram portas enormes,
todas feitas dentro do estilo arquitetônico do teatro e
tendo como matéria prima a famosa madeira pinho de Riga.
Nessa época era porteiro, zelador, bilheteiro e outras
coisas mais, um cidadão chamado Zé Pequeno, que segundo
contava Walfredo Rodriguez, foi quem pegou no serrote. Dizia
ainda que , ao sair num final de expediente, ordenou que ele
cerrasse as portas e no outro dia, quando chegou, Zé Pequeno
havia serrado as portas. Disse cerrar com C e o porteiro
entendeu serra com S. Zé Pequena negava tudo, dizendo que,
na verdade, as portas foram serradas para que o Santa Roza
pudesse ficar aberto e fechado ao mesmo tempo. Isto é, a
metade de cima aberta e a metade de baixo fechada. O fato
nunca foi esclarecido e entrou para o folclore teatral.
- E a reforma,
como veio?
- Através da Lei
Estadual número 1.308 de 05-11-55: “Abre pela Secretaria da
Educação e Saúde, o crédito especial de CR$ 1.500.000,00
destinado a atender despesas com a ampliação e reforma do
Teatro Santa Roza.” Quando essa lei foi publicada , Walfredo
Rodriguez não contou conversa e começou logo a arrancar as
cadeiras da platéia do Teatro, para que os serviços fossem
imediatamente iniciados. Dizia ele que com as cadeiras nos
lugares, ficariam aparecendo pedidos de pautas para
promoções ou apresentações de espetáculos , o que retardaria
o começo das obras. E assim, ainda no mesmo ano de 1955, os
serviços foram iniciados, tendo à frente um engenheiro do
Estado. Entretanto, o tempo que restava de governo para o
Ministro José Américo, era pouco para a conclusão das obras,
que poderiam após a sua saída virem a sofrer solução de
continuidade. Consciente disso, o Ministro nomeou uma
Comissão Especial que ficou responsável pela conclusão das
obras e depositou em conta bancária específica o numerário
destinado ao Santa Roza. Essa atitude tranqüilizou os que
faziam cultura na Paraíba , pois viram assim assegurada uma
breve reabertura da nossa principal casa de espetáculos.
- Além das pessoas já
citadas, quem mais pertencia ao movimento teatral naquele
período?
- José de Morais Souto,
Ronald Queiroz, Célio Peregrino, Eloisa Costa, Lindaura
Pedrosa , Genildon Gomes, Martinho Alencar, Carlos
Fernandes, Francisco Saraiva e outros. O Deputado Estadual
Antônio Nominando Diniz, havia sido o autor dos projetos que
tornou o Teatro do Estudante da Paraíba “de utilidade
pública” e o subvencionou em CR$ 24.000,00 por ano. Era
considerado, já naquela época, um grande incentivador do
movimento cultural da Paraíba. (Publicado em 27-01-75)
(CONTINUA)
ASCENSÃO E QUEDA
DO TEATRO PARAIBANO
( I )
Liderando um grupo de artistas brasileiros, o ator Juca de
Oliveira, Presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em
Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo, apresentou
ao Ministro do Trabalho, Sr. Arnaldo Prieto, reivindicações
consideradas de vital importância às condições de trabalho
da classe. Lembraram ao Ministro que “todos os países de
tradição artística amparam e estimulam o seu teatro, porque
através dele, de suas manifestações, podemos aferir o grau
de vitalidade e de saúde cultural de um povo”.
Temos na memória algumas
frases do Ministro Paschoal Carlos Magno, o maior
incentivador do teatro brasileiro, que foram símbolos dos
Festivais Nacionais de Teatros de Estudantes: “Um país se
apresenta pelo teatro que representa” ou “Um povo que não
ama e não cultiva o seu teatro, ou está morto ou moribundo”.
Durante muitos anos essas frases serviram de grande estímulo
ao movimento teatral brasileiro, notadamente ao amador,
berço dos grandes intérpretes, diretores e técnicos
profissionais de hoje.
Juntando uma coisa com a
outra ficamos nostálgicos e começamos a rememorar os anos
idos, quando na Paraíba havia um forte movimento teatral e
as autoridades constituídas viam nele, com bons olhos, uma
atividade importante. Daí a idéia de nos perguntar, como
numa auto entrevista, fatos de épocas anteriores , que
tínhamos conhecimento através da história ou da nossa
própria participação.
- O que é que você sabe
sobre o movimento teatral paraibano de antigamente?
- Não muita coisa, porque
uma pesquisa nesse sentido é difícil, devido ao pouco que
foi escrito a respeito do assunto. A maior parte das
informações temos do livro de Walfredo Rodriguez, editado em
1960, com o título de “História do Teatro da Paraíba” e o
sub-título “Só a Saudade Perdura”, hoje plenamente
justificado, pois do nosso movimento teatral só nos resta a
saudade. Mas o livro de Walfredo ainda é a melhor fonte a
respeito do assunto: “Jamais se tornaria realidade o sonho
do paraibano do século XVIII, de possuir o seu teatro. Essa
iniciativa não partiria então dos presidentes provinciais”.
Naquela época o teatro só existia em função de um trabalho
de catequese efetuado pelos padres jesuítas, assim mesmo,
sem continuidade, constituído de “indecisas representações”.
Foi o que poderíamos chamar de uma fase nula do teatro
paraibano. “Mas o mundo tinha que marchar” e “com ele o
tempo avançou. Muitas águas do velho rio São Domingos
deslizaram pelo passo do Varadouro, em demanda de Cabedelo,
até que surgiu o século XIX”. O que poderíamos chamar
realmente de movimento teatral na Paraíba, começou no século
passado, sob a influência da vizinha cidade do Recife,
quando o Conde de Boa Vista mandou construir o Teatro Santa
Izabel. No ano de 1852, o Presidente Sá e Albuquerque, da
Província da Paraíba, também autorizou a construção do
teatro público da nossa cidade. Mesmo assim, só no ano
seguinte seria lançada a pedra fundamental do edifício, sob
total reação da Igreja: “o vigário da Capital negou a benção
à dita pedra por se tratar de uma casa destinada a
espetáculos, declarando que ela não se prestaria por ir de
encontro aos sagrados cânones da igreja e à doutrina dos
santos padres que se opõem e reprovam as casas de teatro.”
Como vemos, foi um começo difícil. Somente quase dez anos
depois, em 1861, é que surge o grande iniciador da
atividade teatral na Paraíba: José de Lima Penante. Com a
sua dedicação e amor à arte de representar, Lima Penante deu
o impulso que fez com que o teatro paraibano ascendesse até
a alguns anos atrás. Já em 1873, o mesmo José de Lima
Penante lançava a pedra fundamental do atual Teatro Santa
Roza, fato que completou um século há cerca de dois anos,
sem que ninguém disso desse conta.
- E de quando você começou
para cá? Como foi?
- O movimento teatral da
nossa terra atingiu o século atual sempre em ascensão.
Começamos a mexer com as coisas artísticas, durante o
Governo do Ministro José Américo. E foi um bom começo. Mas
antes quero lembrar uma coisa importante: de certa época
para cá, o Teatro Santa Roza tornou-se o centro dos grandes
acontecimentos artísticos da Paraíba. Não só da arte
teatral, mas também das outras. A música, a pintura, o
canto, a dança, tiveram lá os seus mais importantes
momentos. Então, num governo qualquer, para que o movimento
cultural existisse, dependia-se fundamentalmente de que o
Diretor do Santa Roza fosse uma pessoa interessada e
batalhadora pelas artes, de que o Secretário da Educação e
Cultura não fosse somente Secretário da Educação e de que o
Governador do Estado fosse um homem sensível às coisas da
arte. Essa condição nós encontramos durante o Governo do
Ministro José Américo de Almeida. (Publicado em 20 de
janeiro de 1975).
(CONTINUA)
"Zé
Bolinho"
Uma das pessoas importantes que passaram pelo Theatro Santa
Roza, foi o maquinista (denominação dada aos
operários do palco) Zé Bolinho. Seu nome de batismo - José
Xavier da Silva - lembrava Tiradentes. Mas ele, ao
contrário, não era mártir nenhum. Era uma figura que não
sabia negar nada a ninguém, mas também era um tanto esperto.
Das histórias de Zé Bolinho, conheci muitas e estive
presente em algumas delas.
Sua fidelidade ao time do Botafogo da cidade de João Pessoa
e ao bloco carnavalesco Índios Africanos, do bairro da
Torre, era à toda prova. Gastava o dinheiro que
pudesse com essas suas paixões.
Num das vezes que estava eu diretor do Theatro Santa Roza,
chegou-me a notícias que dos nossos espanadores só restavam
os cabos. A plumagem, de pavão, de todos, havia
desaparecido. As fofocas atribuíam a responsabilidade ao
nosso Zé, que a teria usado nas fantasias dos "caboclinhos".
A acusação espalhou-se tanto que me senti na obrigação de
chamá-lo para esclarecimentos. Então ele foi taxativo: "Seu
Erpídio, os africanos só usam penas de galça..."
Mandei providenciar a aquisição de outros espanadores.
Ele adorava época de eleição. Era quando conseguia construir
uma casinha lá pros lados de Cruz das Armas, bairro onde
residia. Prometia votos a vários políticos em troca de
tijolos, cimento, telhas, madeiras e todo o necessário à
construção de mais uma das suas fontes de renda: os aluguéis
de seus casebres construídos por conta das suas promessas
eleitorais. A gente nunca sabia em quem ele iria votar ou
havia votado. Sempre afirmava: "o voto é secreto"!
Viajou muitas vezes com os nossos grupos de teatro, como
responsável pela cenotécnica. Numa dessas viagens, sob
minha direção, fomos a um festival de teatro em Ponta Grossa
- Paraná. O espetáculo que levamos ("Cordel", de Orlando
Senna) tinha como cenário enormes bandeirolas que deveriam
descer do urdimento à cada início de cena. O palco do
auditório no qual deveríamos nos apresentar tinha o teto
baixo, não podendo assim esconder as tais bandeirolas.
Sabedor antecipadamente do problema, o nosso cenógrafo,
Breno Mattos, impedido de viajar conosco,
preparou um mecanismo que prendia enrolada a bandeira,
soltando-a quando fosse acionado. Mas lá, quando nos foi
liberado o palco para que montássemos nosso cenário,
constatamos que não estava funcionando o tal mecanismo
criado por Breno. Já tarde da noite, após várias tentativas,
Zé Bolinho prometeu: "pode ir dormir, seu Erpídio.
Deixe comigo que eu resolvo tudo... " O espetáculo seria
apresentado na manhã do dia seguinte. Ele nem chegou a
dormir no hotel, o que me deixou mais apreensivo. Chegando
ao teatro fui logo abordado por ele dizendo-me: "pode ficar
tranqüilo, ta tudo em ordem". E estava mesmo pois a função
aconteceu corretamente, na hora certa. Enquanto eu descia da
cabine de controle de iluminação e tentava chegar ao palco,
um tanto assediado pelas pessoas da platéia, Zé Bolinho já
desmanchara tudo que ele havia feito e encaixotava nosso
cenário. Perguntei por que e ele respondeu que não
podia deixar os outros aprenderem o seu segredo.
Posteriormente me contou: "Fiz um U!" Armou três pedaços de
sarrafo formando a letra U. Prendeu a bandeirola enrolada
com o tal U, como se fosse um grampo, preso a uma corda, que
puxado fazia acontecer seu aparecimento. Simplesmente um U.
Mas pediu segredo para o seu invento...
Mas
entre outras várias histórias de Zé Bolinho a mais antiga
delas, das que participei,, foi logo nos meus
primeiros momentos de atividade teatral.
O Teatro do Estudante da Paraíba estava
encenando a peça Fim de Jornada, cujo entrecho dramático
acontecia durante a primeira grande guerra mundial, tendo
como personagens soldados ingleses. A direção era de Walter
Oliveira e tínhamos como instrutor militar a figura
simpática do General Edson Ramalho, na ocasião Comandante da
Polícia Militar do Estado da Paraíba. Mas a colaboração
decisiva dele não se resumiu apenas às informações de
comportamentos dos militares da época, mas, também, à cessão
de armas, fardas e equipamentos para compor o espetáculo.
Por conta disso tudo nós fizemos uma apresentação para o
pessoal da Polícia Militar, com o caráter de homenagem e
agradecimento, que redundou na mais desastrada das nossas
apresentações daquele espetáculo teatral.
O cenário era uma casamata, espécie de
esconderijo subterrâneo camuflado no solo com pedras e
arbustos, que escondiam a sua entrada e uma metralhadora
antiaérea. A visão do espectador era de um cenário com dois
planos: no piso do palco estava a casamata, onde acontecia a
maior parte da encenação; num plano elevado, o solo do campo
de batalha onde aconteciam cenas de ataques aéreos e revides
pela metralhadora. O meu irmão Ednaldo Navarro
interpretava uma sentinela que passava quase
todo o decorrer do espetáculo no plano elevado, só descendo
ao esconderijo na última cena para informar ao nosso
comandante, papel desempenhado por Valdez Silva, que eu
havia sido metralhado e morto num ataque de um avião alemão
que continuava bombardeando lá em cima.
Ao final do espetáculo a casamata era
destruída e caía o teto através de um truque feito com
dobradiças que eram destravadas. Para dar a impressão de
fogo, fumaça e poeira, espalhávamos em cima do teto pó de
serra com talco comum, iluminação vermelha e focos amarelos
intermitentes para dar uma idéia de explosões, claro que
junto com os efeitos sonoros. Começamos a achar que a fumaça
resultante do pó de serra com talco, que aparecia com a
queda do teto da casamata, estava fraca, não convencia
muito. Conversamos com José Xavier da Silva, o famoso Zé
Bolinho, nosso maquinista, tentando uma solução para o
problema e ele foi taxativo: “Deixe comigo que eu resolvo!”
A metralhadora estava
sempre apontando para um lado, porque quando era detonada
expelia as cápsulas das balas de festim para detrás do palco
e, por isso, nós tínhamos muito cuidado para não mudá-la de
posição.
Assim chegamos à cena
final de Fim de Jornada naquele dia especial, com teatro
lotado de soldados, cabos, sargentos, tenentes, capitães, só
gente fardada. Eu fazia o papel de um sargento, espécie de
ordenança do comandante, que recebia ordem para ir até lá em
cima, no plano elevado, verificar como estava a situação e,
ao chegar, era metralhado. Acontece que nesse dia uma tábua
do piso do plano superior cedeu juntamente com uma das
minhas pernas, que ficou presa e aparecendo na parte de
baixo do cenário. Veio a rajada de balas e eu tive que cair
morto fora do local marcado. Ao cair, bati na metralhadora
que mudou de posição exatamente para o lado contrário. O
sentinela desceu para avisar ao comandante e ao subir de
volta, antes de também ser morto, passa correndo e pisa na
minha mão calçando aquele famoso coturno militar. Ah, dor
miserável! Foi quando aconteceu um incrível diálogo entre
nós, naturalmente sem ser ouvido pelo público:
-
Quando terminar o espetáculo vou lhe lascar, seu merda!
- Eu tive culpa, tive?!...
- Quero saber disso não,
seu filho da puta!
-
Oxente! E a minha mãe não é a mesma tua?!...
Mas a mambembada não ficou
só nisso. Valdez sobe correndo e na posição em que ficara a
metralhadora após o meu tropeço, puxa o gatilho. De onde eu
estava podia visualizar os militares nos camarotes do
Theatro Santa Roza, com as cadeiras na cabeça, para
livrarem-se das cápsulas de bala que voavam para cima deles.
Então veio o desastre maior: o
teto da casamata
arreia e provoca uma enorme nuvem de poeira para cima da
platéia, que começa a tossir desenfreadamente. Zé Bolinho
havia colocado uma porrada de cimento misturado com o pó de
serra e o talco. Comentário de um soldado ao sair do Teatro:
- Foi a peça mais realista
que eu já vi! (21-07-2008)
"El Theatro"
O começo foi mais como uma terapia ocupacional, talvez até
uma diversão. Aproveitando o título de uma coluna que eu
mantive durante algum tempo nos jornais "O Momento" e "O
Combate", inventei, em forma de mensagem, publicar "Palco &
Platéia". A Internet me oferecia uma certa vantagem sobre os
jornais impressos: eu não tinha hora nem dia para escrever.
Só quando dava na telha.
Algumas pessoas começaram a comentar os escritos, a sugerir
assuntos e até a enviar matérias. Não cabia mais. O "Palco &
Platéia" estava ficando extenso, causando problemas
técnicos como a dificuldade de inserção de fotografias e a
coluna transformara-se num caldeirão de assuntos diversos
sobre artes.
Foi aí que o meu filho Bruno, que já mexia um pouco com
computador e Internet, sugeriu: o melhor é fazer um
site, onde os assuntos diferentes podem ser colocados em
páginas diferentes e foi dando as dicas do que fazer.
Custava alguma grana mas era pouco. Teria de pagar uma
hospedagem e um registro de domínio. Fiz as
contas. Suspendendo a aquisição de alguns supérfluos dava
para fazer... E já se foram cinco anos!
E assim começou o "El Theatro", sem fins lucrativos, sem
publicidades e com muito trabalho. A idéia sempre foi
oferecer aos artistas da Paraíba e de qualquer outro estado,
também um espaço para divulgar seus trabalhos artísticos,
literários etc. Não colou e nem cola até hoje. Os
raros releases que são enviados são prontamente publicados.
Mas a maior parte vem de pesquisas que faço em jornais,
revistas e outros sites. Os grupos de
teatro locais e da Região, não dão a mínima importância ao
nosso trabalho. Acho que acham que não vale a pena, embora
tenhamos um razoável acesso diariamente. Daí a
constante divulgação de espetáculos teatrais e outros, em
cartaz no Sudeste do País.
Por outro lado consegui juntar um plêiade importante de
articulistas, escritores sobre temas diversificados,
que vêm dando um brilho maior ao El Theatro, a maioria
autorizando a transcrição dos seus trabalhos publicados em
outros órgãos. Como já foi dito, o nosso site não tem
fins comerciais, razão porque todos eles me concedem a honra
de tê-los comigo como colaboradores.
Assim, rendo homenagem aos amigos Almandrade, Bráulio
Tavares, Carlos Cordeiro, Celly de Freitas, Clemente Rosas,
Edival Varandas, Eilzo Matos, Fátima Pessoa, Fernando
Vasconcelos, Hugo Caldas, Ivaldo Gomes, José Flávio Silva,
José Nêumanne Pinto, Luciano Pires, Luiz Alberto Machado,
Luiz Augusto Crispim, Magdala Cavalcanti, Nara Limeira,
Otávio Sitônio Pinto, Raul Córdula Filho, Sebastião Milaré,
Tarcísio Pereira, Tião Lucena, Valdez Juval, Walter Navarro
e W.J. Solha.
Quanto aos artistas, paraibanos principalmente, não
posso fazer o mesmo. Mesmo assim, nossos espaços continuam
abertos à disposição deles.
"Mambembadas"
Um dos primeiros autores brasileiros de teatro que eu li foi
Olavo de Barros. E não foi nenhum drama, tragédia ou comédia
não, que me foi emprestado por Genildon Gomes. Foi uma
coletânea de histórias engraçadas acontecidas no teatro
brasileiro: "Mambembadas".
Olavo
de Barros foi
teatrólogo,
jornalista, radialista, professor, tradutor, ator,
presidente da Casa dos Artistas, membro do Cenáculo
Brasileiro de Letras e Artes, fundador do Jornal dos
Teatros. Do seu livro consta o fato acontecido não lembro
onde, no qual um personagem teria de queimar numa lareira
uma carta sigilosa e no momento da ação a lareira havia sido
esquecida de acender pelo contra-regra. O ator não contou
conversa, rasgou a carta e jogou os pedacinhos na lareira. O
outro personagem, que tudo assistiu das coxias, teria de
entrar e dizer "que cheiro de papel queimado!" Entrou e
saiu-se com essa: "Que cheiro de papel rasgado!"
Ao longo dos meus
mais de cinqüenta anos envolvido com teatro passei por
situações engraçadas, dignas de constar como "mambembadas".
Algumas delas estão neste site e podem ser lidas clicando
AQUI.
Vez em quando
recebo de amigos internautas histórias teatrais, e de
outros assuntos, que se enquadram perfeitamente no que Olavo
de Barros considerava "mambembadas". Da odontologia,
professora, escritora e atriz Nazareth Xavier, veio a
seguinte, acontecida lá pros lados de Campina Grande, no
vilarejo São José da Mata:
"A
PAIXAO DE CRISTO ENCENADA NA PARAÍBA
O dono do circo, em
passagem pela cidade, sabendo quão religiosa era sua
comunidade, resolveu encenar a PAIXAO DE CRISTO na
Sexta-Feira Santa.
O elenco foi escolhido dentre os moradores locais e, no
papel principal – de Jesus Cristo - colocaram o cara mais
'gato' da cidade. Os ensaios iam de vento em popa quando, às
vésperas do evento, o dono do circo soube que 'Jesus' estava
de caso com sua mulher. Furioso, o corno deu-se conta que
não podia fazer escândalo pois iria por a perder todo o
trabalho e o investimento que fizera pra montar a peça.
Pensou, pensou... Na véspera do espetáculo, comunicou ao
elenco que iria participar... fazendo o papel do CENTURIÃO
!!!
-Mas como? – reclamaram todos – Você não
ensaiou...
- Não é preciso ensaiar, porque centurião não fala!
Mesmo sem gostar, o
elenco teve que aceitar; afinal, o cara era o dono do show.
Chegou o grande dia. A cidade em peso compareceu. No momento
mais solene, a platéia chorosa em profundo silêncio... Jesus
carregando a cruz... e o 'centurião' começa a dar-lhe
chicotadas. de verdade.
-Arra cara, ta machucando! Reclamou 'Jesus', em
voz baixa .
-É pra dar mais
veracidade à cena, devolveu o 'centurião' .
E tome mais
chicotada... lept, lept, o chicote comendo solto no lombo
do infeliz.
Até que 'Jesus' que já reclamara bastante,
enfureceu-se de vez, largou a cruz no chão, puxou uma
PEIXEIRA e partiu pra cima do 'centurião':
-Vou furá-lo seu filho
da puta!
A cena que se seguiu
foi inusitada: 'Jesus' com a peixeira correndo atrás do
'centurião', e a platéia em delírio gritando:
-É isso aí! Fura ele,
'Jesus'! Fura que aqui é Paraíba, não é Jerusalém não!!!"
De outro amigo,
professor e ator, Arael Menezes da Costa, uma história
que não é de teatro, mas bem que poderia ter sido:
"O
PERU DO PADRE
O vigário de um vilarejo tinha um peru como
mascote, o Valente. Certo dia, o peru Valente desapareceu,
e ele achou que alguém o havia roubado. No dia seguinte,
na missa, o vigário perguntou à congregação:
- Algum de vocês aqui tem um peru?
Todos os homens se levantaram.
Não, não, disse o vigário, não foi isso que eu quis dizer. O
que eu quero saber é se algum de vocês viu um peru?
Todas as mulheres se levantaram.
Não, não, repetiu o vigário.... o que eu quero dizer é
se algum de vocês viu um peru que não lhes pertence.
Metade das mulheres se levantou.
Não, não, disse o vigário novamente muito atrapalhado.
Talvez eu possa formular melhor a pergunta: O que eu quero
saber é se algum de vocês viu o meu peru?
Todas as freiras se levantaram. (Pano rápido)
E
lá se foram os camaradas...
Quando jovem, meus
camaradas nada tinham a ver com ideologia. Camarada era
amigo mesmo. Até conheci um cujo apelido era "pacaiada"
porque, quando garoto ainda, assim pronunciava ao
referir-se a um amigo. Após aos vinte anos, aprendi que
camaradas eram os companheiros do Pecesão
(PCB), único partido ao qual fui filiado na
clandestinidade e na legalidade.
No artigo anterior a este fiz
referência a um camarada desde os meus verdes anos: Geraldo
Correia de Oliveira. Éramos camaradas mesmo. Lembro que
tirávamos escondido a caminhoneta de seu pai, fazíamos
uma vaquinha para a gasolina e íamos ao encontro de
namoradas na praia. Era eu uma pessoa de dentro da casa
dele. Estive com ele há algum tempo em Santa Rita, onde
residia e era Secretário da Cultura do município. Havia
construído um teatro diferente: um palco cuja boca de cena
ficava na rua. Os espetáculos apresentados eram vistos pelo
povo que passava, gratuitamente. Também criara um grupo
folclórico e era artista plástico (pintor). Publiquei neste
site uma reportagem sobre sua atuação no município.
Camaradas
desde a juventude
Palco visto da rua
Agora recebo e-mail com o seguinte teor: "Ontem
faleceu Geraldo Correia de Oliveira, artista plástico,
dramaturgo, folclorista de Santa Rita. Geraldo foi
secretário de cultura da sua cidade na gestão anterior,
quando fundou um teatro e um grupo folclórico, além de ter
dado vida ao teatro amador local. Era amado e tinha seu
trabalho reconhecido por todos os artistas da cidade. Pois
quando assumiu a prefeitura, o "intelectual" Marcos Odilon,
por picuinha política, demitiu Geraldo Oliveira e acabou com
o teatro, além de ter negado pão e água ao grupo folclórico.
Geraldo sofreu muito com isso, daí sobreveio a depressão e
conseqüente morte do artista. Odilon é do tempo dos
usineiros, da escola do quero, mando e posso".
(25-06-2008)
Do camarada Geraldo,
ficaram boas lembranças de quase sessenta anos de amizade.
Do Prefeito Marcos Odilon, nenhuma surpresa. Há pouco tempo
fui convidado em seu nome, pelo professor Washington
Rocha, para uma reunião em sua residência de Tambaú, com a
finalidade de discutir a realização de um festival de arte
em Santa Rita. Eu e outras pessoas, entre elas José Bezerra
Filho, Romeu Fernandes de Carvalho, Aquidy Picado Filho,
Hidelberto Barbosa e Iremar Brozeado. Reunidos num quiosque
em frente à sua casa, fomos informados que ele não se
encontrava. Resolvemos permanecer no local e aguardar uma
possível chegada do Prefeito. Após algum tempo vimos um
carro saindo da sua garagem e tomando destino. Sem que nos
fosse dada qualquer explicação razoável, resolvemos
desmanchar a reunião. Além da descortesia para conosco ou
mesmo falta de educação, causou ao "seu amigo" Washington
um grande vexame, a quem todo o grupo, só em sua
consideração, havia aceitado o convite.
Geraldo Oliveira havia sido nomeado pelo antecessor de
Marcos Odilon.
ODUVALDO
BATISTA
Primeiro foi o Maestro
Pedro Santos, além de camarada ideologicamente, camarada
irmão na vida. Juntos fizemos o teatro de Altimar Pimentel
surgir para o mundo. Depois foi o Professor Chianca (José
Cleobaldo Chianca), outro camarada em tudo. Juntos fomos
eleitos para uma diretoria da AdufPB e juntos renunciamos
aos cargos por discordar de ações da turma do PT. Depois foi
o camarada Jório Machado, com quem participei da fundação do
Jornal "O Momento", colaborei com o Jornal "O Combate",
trabalhei com ele no Jornal "A União" e na Secretaria do
Interior e Justiça. Todos esses camaradas já deixaram a vida
e grande
falta fazem à atividade política de esquerda.
Agora foi a vez do último camarada em quem eu poderia
confiar: Jornalista Oduvaldo Batista. Trabalhamos juntos no
Jornal "O Combate", conversávamos bastante quando nos
encontrávamos e ele sempre comparecia aos espetáculos
teatrais que eu dirigia, além de noticiá-los e comentá-los
no jornal que trabalhava. Era um profissional respeitável,
um ser humano da melhor estirpe.
Dos meus todos camaradas, memoráveis lembranças.
A
minha primeira vez...
Estou falando de dançar quadrilha junina. Foi assim e já se
vão quase 60 anos. Meu amigo Geraldo Oliveira (Geraldo Padre
como era conhecido por ter estudado no Seminário
Arquidiocesano) hoje artista plástico e morando na Cidade de
Santa Rita, residia no Bairro de São Miguel, numa rua que
era chamada de Cordão Encarnado. No quintal da casa uma
vacaria e num terreno ao lado um curral. Lá, todo ano, era
organizada uma quadrilha com a participação dos
amigos de Geraldo e das amigas das suas irmãs. E eu no meio.
Na primeira vez que participei quase que fui expulso. A
cocheira, onde o gado era alimentado, lavada a capricho
ainda cheirando a creolina, era o salão de dança todo
ornamentado. Duas fogueiras: uma pequena no fundo do quintal
era para assar milho e soltar fogos; uma bem maior dentro do
cercado (o gado havia sido transferido para outro local) era
para louvar aos santos, fazer promessas para eles e as
tradicionais adivinhas, prática indispensável às
mocinhas casadoiras.
Eu
fazia par com Waldenice Nunes, amiga de infância. Aos meus
14 anos, já com um metro e setenta, fui escolhido para
conduzir o "caminho da roça", que consistia, ao comando do
"marcador", em guiar todo o grupo em torno da fogueira
menor e voltar para o salão de dança. Na hora, eu
quis inventar e rumei para dentro do cercado, em torno da
fogueira grande. Foi um desastre! O cercado estava cheio de
merda das vacas e as sandálias e sapatos dos participantes
assim também ficaram. Fui removido da minha função. E
nos anos seguintes só fui convidado por ser muito amigo do
filho do dona da casa.
A
quadrilha junina (no Brasil e joanina em Portugal) é de
origem européia. "De
acordo com historiadores, esta festividade foi trazida para
o Brasil pelos portugueses, ainda durante o período
colonial (época em que o Brasil foi colonizado e
governado por
Portugal).
Nesta época, havia uma grande influência de elementos
culturais portugueses, chineses, espanhóis e franceses. Da
França veio a dança marcada, característica típica das
danças nobres e que, no Brasil, influenciou muito as típicas
quadrilhas. Já a tradição de soltar fogos de artifício veio
da
China, região de onde teria surgido a manipulação da
pólvora para a fabricação de fogos. Da península Ibérica
teria vindo a dança de fitas, muito comum em Portugal e na
Espanha. Todos estes elementos culturais foram, com o passar
do tempo, misturando-se aos aspectos culturais dos
brasileiros (indígenas,
afro-brasileiros e
imigrantes europeus) nas diversas regiões do país,
tomando características particulares em cada uma delas."
O Nordeste Brasileiro foi a região que mais assumiu como
tradição festejar o período que começa em maio e termina em
Julho, denominado de junino. Quadrilhas, fogos de
artifícios, adivinhações, culinária à base do milho verde na
maior parte, "inocentes" balões (que antes subiam ao
céu e o tornava lindo sem causar a notícia de ter
prejudicado alguma coisa ou alguém) e as tradicionais
fogueiras.
Hoje
cria-se uma polêmica sobre ser correta ou não a prática de
queimar fogueiras em homenagem aos santos do período, sob a
alegação que contribui ainda mais para o aquecimento do
planeta. É possível que contribua sim, mas de uma forma tão
ínfima que é até ridículo defender essa tese. As fogueiras
de São João são uma agulha no palheiro e duram apenas uma
noite. Aquecer o planeta é propriedade das grandes queimadas
dos plantadores de soja principalmente no Brasil Central e
na Amazônia, que duram dias e até meses e contra elas nenhum
governo toma providências de verdade para não perder seus
aliados ruralistas no Congresso; aquece o planeta a
combustão dos veículos automotores em profusão que podem ser
adquiridos para pagar em sessenta meses, com a primeira
prestação três meses após a compra; aquece o planeta as
explosões diárias de bombas nas guerras acobertadas pelo
país mais poluidor do planeta, a América do Norte, onde os
constantes incêndios em florestas chegam a matar pessoas e
que de quebra ainda oferece as muitas chaminés poluidoras
das suas fábricas.
Então, querer apagar as fogueiras
do São João como um
ato em defesa do planeta é o mesmo que matar uma formiga sem
destruir o formigueiro. Um amigo meu apregoava: "faça sua
boa ação de hoje - mate um americano" (do Norte). Mas o que
ia adiantar? Nasciam mil todos os dias. Por isso nunca matei
nenhum!
Quando o inverno chegou
Chegou com tudo: não dá
praia, não dá pesca, não dá bar à beira mar, não dá passeio
de barco, não dá quase nada! Só televisão, computador e uma
leiturinha. Aproveitei, mesmo debaixo de chuva, e fui
ao cinema ver o novo Indiana Jones mais velho. Fantástico! A
seqüência logo no início, da fuga numa motocicleta, é de se
mijar de rir. Aliás, todo o filme é uma ruma danada de
mentiras divertidíssimas. A gente vê a enrascada em que ele
se mete, fica imaginando como ele vai se sair e sempre um
desfecho surpreendente acontece. E olha que eu tenho em casa
os três primeiros filmes, os revejo vez em quando, e me
divirto ainda com eles. Sem dúvidas, em matéria de comédia,
deixou o 007 para trás. Até o medo de cobra que
Indiana tem foi apresentado diferente: ele é obrigado a
pegar numa cobra enorme para poder sair de um atoleiro de
areia movediça. E quase tudo acontece na América do Sul, no
Peru, lembrando de "Eram os deuses astronautas?" com um
disco voador de volta para o espaço. Valeu! Que Spielberg
faça mais. Indiana Jones é como vinho bem conservado: quanto
mais velho, melhor. Ainda espero vê-lo resolvendo tudo
em riba de uma cadeira de rodas.
E
por falar em velho, que eu também já o sou, recebi a visita
de uma jovem velha amiga com os seus 92 anos: Lindaura
Pedrosa. Aliás, minha primeira inimiga no teatro e
responsável, em 1952, pela minha chegada ao Teatro do
Estudante da Paraíba. Foi assim: ia haver uma eleição para a
nova diretoria do TEP e Genildon Gomes arrebanhou os amigos
de bloco de carnaval (Martinho Alencar, Carlos Fernandes,
Chico Saraiva e eu, entre outros) para associarem-se ao
Grupo e votarem contra uma sua eterna rival, Lindaura. E lá
fomos nós e a briga era tão grande que eu acabei eleito para
a nova diretoria sem nunca ter entrado antes no Theatro
Santa Roza, pois minha praia era outra. Depois,
a fila andou, trabalhamos juntos em espetáculos, viajamos
juntos a festivais de teatro, viramos amigos. E hoje, aos 92
anos, a lucidez em pessoa, sai da sua casa para visitar dois
velhos amigos mais moços reunidos aqui no meu esconderijo:
Valdez Silva e eu. E depois de comes e bebes e música, ainda
nos acompanhou em visita a outro velho amigo, Vanilton
Souza. Fiz as contas e juntos éramos donos de quase duzentos
anos de teatro. Juntados ainda a nós, estavam
além de familiares, o médico-músico José Augusto Maropo e o
médico-músico-escritor Romeu Fernandes, nos dando proteção
ao corpo e ao espírito. Tudo isso em pleno inverno!
ISABELLA
Assunto esgotado? Quem
disse? A mídia (principalmente a TV Record e o programa
"Hoje Em Dia") ainda continua faturando a tragédia ocorrida
em São Paulo, semelhante à tantas outras que vêm acontecendo
no País inteiro sem a grande divulgação dada ao caso
Isabella.
Agora, vem à cena um
novo e duvidoso personagem: George Sanguinetti. Perito,
legista, polêmico contratado pela quixotesca defesa dos réus
para jogar água na fervura do processo iniciado. O
médico Sanguinetti é aquele mesmo do caso PC Farias, que
ainda hoje briga na justiça com Badan Palhares, por ter
discordado do seu laudo, faturou um livro sobre o assunto e
anda dando palestras pelo Brasil afora. O Palhares,
comprovadamente flor que não se deve cheirar, envolveu-se
também no caso Raimundo Asfora, atestando um mentiroso
suicídio, contestado pelo advogado Geraldo Beltrão, pelo
médico-legista Genival Veloso e pelo jornalista e escritor
Otávio Sitônio Pinto, que é competente conhecedor de
armas.
Ao que parece, o doutor Sanguinetti adora se envolver em
polêmicas. Agora discorda dos laudos dos peritos do IML de
São Paulo e afirma que Isabella não foi asfixiada e foi
jogada pela janela, caindo de cabeça para baixo. As
declarações de Sanguinetti, acusando os profissionais de São
Paulo de incompetentes, poderão levá-lo a terminar na
justiça também.
Não há dúvida que o
doutor Sanguinetti está faturando uma boa grana
envolvendo-se no caso. De graça é que ninguém é contratado.
E a mídia feliz por ter assunto que provoca audiência.
Ninguém duvide que terminem concluindo que a menina Isabella
teve um acesso de loucura, tentou se enforcar, ato que foi
impedido pelo pai, que ameaçado por facas e tesouras,
nada pôde fazer enquanto ela cortava a malha protetora
da janela e jogava-se do sexto andar no exato momento em que
a madrasta ajoelhada pedia que ela não fizesse aquilo: um
trágico SUICÍDIO!
PS - Como a página
"Palco & Platéia" trata de artes, mesmo já tendo falado da
arte de faturar a desgraça alheia, acrescento abaixo um
"conto infantil" enviado pela amiga Tina de Sá.
(02-06-2008)
"ISA
QUE ERA BELLA
Tina de Sá – Maio 2008
Era uma vez uma princesinha que se chamava Isa que era Bella.
Ela morava com sua mãe, Lady Carol e também com seus avós
maternos. Vez por outra ela passava o final de semana com
seu pai, Alexandre, o Grande “Monstro”. Ele era casado pela
segunda vez com Caroline Jatoba, que se dizia boadrasta da
princesa, mas na verdade, ela não passava de uma bruxa má e
perversa. Um belo dia de sol ou chuva, não sei ao certo, os
cinco saíram para passear no bosque. Falo de cinco pessoas,
pois a princesa Isa tinha dois irmãos por parte de pai, João
e Miguel. Espera aí, esses são os irmãos da Wendy da
história do Peter Pan. Enfim, não importa, continuemos nossa
história. Era tarde, muito tarde, quase meia-noite, quando
todos voltaram do passeio. Vieram numa KArruagem pequena,
tão pequena que todos se comprimiam e se apertavam tanto,
que a boadrasta, Caroline Jatoba, pegou algum objeto
perfuro-cortante para golpear a testa da pobre princesa.
Pensava ela que com aquele gesto poderia diminuir o tamanho
da princesa Isa, e assim, o espaço estaria maior na pequena
KArruagem. Os bonecos, como o João Teimoso, são cheios de
ar. Será que ela estava na ilusão de que a princesa Isa era
como o João Teimoso? Contudo, a mágica não foi bem sucedida.
A princesinha ao invés de diminuir de tamanho, sangrou,
sangrou, sangrou em jatos. Pois, até a cadeirinha do seu
irmão menor tinhas marcas desse sangramento. Seu pai,
Alexandre, o Grande “Monstro” tratou logo de tirá-la da
KArruagem. Ainda bem, que já estavam estacionando no porão
do palácio. Ele pegou Isa nos braços. Tapou o ferimento com
uma fralda e subiu pelo elevaDOR. Chegando ao palácio, ele
tratou logo de levá-la para o quarto e colocá-la na cama.
Quando Caroline Jatoba chegou ao quarto, não hesitou de
esganar a princesa Isa, que ficaria adormecida, mas ainda
com vida. Alexandre, o Grande “Monstro” talvez, quis
intervir. Porém, Caroline gritava como louca, pois o seu
ciúme era mais forte que ela. Sempre que podia ia ao espelho
e perguntava: Espelho, espelho meu! Existe alguém mais bela
do que eu? E o espelho sempre respondia: Existe sim! A mais
bela é a princesa Isa que será sempre Bella. Então, para
terminar essa triste história, aliás, essa tragédia, mais
trágica do que a própria tragédia grega. Vamos então ao
final. Depois de muito andar para lá e para cá, gastando
todo o solado da sandália, andando sobre as camas do
palácio, Alexandre, o Grande “Monstro” teve a maléfica
idéia: Jogaria a princesa Isa pela janela e diria que teria
aparecido um fantasma e o mesmo teria feito todo aquele ato
insano. Mas esperem... Que tal se chamássemos os
Caça-Fantasma ou a turma do Scooby Doo para desvendar esse
mistério? Não, não... Não vamos perder nosso tempo com
fantasmas. Vamos aos fatos concretos. Alguém cortou com faca
e tesoura a tela de proteção da janela do quarto e
arremessou uma princesinha linda que se chamava Isa que era
Bella, viva, bem viva. Ela ficou imóvel no chão e não
apareceu nenhum príncipe para salvá-la, beijá-la para
despertá-la do sono eterno. Nem seu pai e nem Caroline
Jatoba tentaram tirá-la dali. Por quê? Não entendo até hoje.
Por que não levaram a princesa Isa para um hospital? Por que
queriam tanto que ela ficasse ali no frio, congelando todos
os seus órgãos e articulações, desfalecendo aos poucos?
Não sabemos ao certo o que aconteceu no palácio dos
Nardônicos, pois depois dessa malfeitoria, os culpados
teriam que ficar mofando em algum pântano frio e sombrio,
onde cobras e lagartos iriam ser confundidos com tais
pessoas que se dizem humanos. Pessoas que fecundam pessoas.
Pessoas que convivem com pessoas. Pessoas que tratam seus
animais como se fossem pessoas. Todavia, nem todo animal
irracional tem o instinto perverso desses seres. Nem todos
os seres são passiveis de tal ato de horror. O que
aconteceu, realmente, naquela noite fria? Tão fria quanto os
corações daqueles dois jovens, principiantes, aprendizes de
atitudes perniciosas. Por que Isa foi arremessada como uma
simples boneca de pano? No tempo que eu brincava de bonecas,
nunca joguei nenhuma delas ao menos no chão. Eu era mãe e a
boneca, minha filhinha. Carinho, amor e cuidados não
faltavam na inocente brincadeira de casinha. Por que os
meninos não podem brincar de bonecas? Maricas? Será? Se
meninos não brincam de bonecas, deveriam experimentar pra
não ter de crescer sem ter um pinguinho de instinto
paternal. Deveriam dar mais valor às bonecas, sejam de pano,
de plástico, de porcelana ou de carne e osso." FIM
A Morte Anunciada
Preso em casa por conta
de uma baita conjuntivite e sem poder receber fortes
claridades nos olhos, o que resultou foi aguçar outros
sentidos, principalmente a audição. Ainda bem que uso a
tática de iniciar a feitura do Eltheatro no começo da
semana, fazendo um pouco cada dia. Mesmo assim houve atraso
na presente edição. Foi inevitável.
Mas com a audição
aguçada passei a ouvir melhor os sons que me cercam: uma
farra qualquer na casa vizinha, com direito à falação alta,
violão e cantorias. Ainda Roberto Carlos no ar: amada
amante... Quanta gente cantando ruim! De repente me dou
conta que nas minhas farras musicais devo cantor pior que
eles, incomodando outros vizinhos.
Não pude ver,
infelizmente, na transmissão da TV, o Fluminense perdendo
para o Sport do Recife. Em compensação ouvi o Botafogo
conseguindo empatar com o Vascão através de um pênalti que
não existiu. Um roubo!
O punhado de areia que
a gente sente ter dentro dos olhos tira o sono. Dorme-se à
prestação. Uma das vezes acordado ouço, outra vez, na
calada da noite, os gemidos da vizinha misturados com
uns "meu amor" ditos ao marido, suponho. Bichinha
escandalosa!
Por fim e enfim,
durante todo um dia, ouço a morte anunciada. O carro de som
fica de um lado para o outro, tendo como fundo musical a Ave
Maria, e anunciando: a família de José Xavier do Nascimento
comunica o seu falecimento no hospital central, vítima de
uma parada cardíaca. Convida os parentes e amigos para o
velório que está acontecendo no Cemitério Santa Catarina. O
sepultamento está marcado para as 16 horas.
PS - Espero que na
próxima edição eu não seja obrigado a enrolar tanto...
Cristovam Tadeu
e a Record
Leio a notícia no jornal:
"Cristovam Tadeu começa a
gravar DVD de humor
Para terminar definitivamente a temporada e também finalizar
seu DVD, o humorista Cristovam Tadeu está de volta com seu
show “RisoPontoCom”, no Teatro Santa Roza, todas as
quartas-feiras, a partir de hoje, sempre às 18:30h.
Tadeu começou a carreira artística em 1980, participando de
peças de teatro e já apresentando a sua veia cômica. De lá
para cá foram mais de 100 comerciais de TV, 15 shows, 25
peças, uma dúzia de programas de TV e centenas de
apresentações por todo o país. Sua carreira atingiu o
estrelato nacional quando participou do programa “Só Riso”
na Rede Bandeirantes de TV, em São Paulo, em 1989. Trabalhou
como dublador de desenhos e atualmente faz o Caetano Meloso
do “Show do Tom”. Também é o idealizador do site de humor
politico
www.chargespb.com.br.
"
Assisti à duas
participações de Cristovam Tadeu no "Show do tom". A
primeira bem interessante, como mostra o tape abaixo:
A segunda num quadro do programa do mesmo humorista, uma
espécie de concurso para premiar contadores de piadas. Aí foi decepcionante. Não
a participação de Cristovam Tadeu, pois ele contou uma piada inteligente, sem
palavrões, sem gestos obscenos, sem trejeitos. Foi derrotado por um comediante
(?) travestido, que contou uma dessas piadas que se sustentam pelos palavrões e
os duplo sentidos. Uma baixaria. E a emissora, a Record, é chegada à "virtuosa"
Igreja Universal.
Mas o problema não foi a "putaria" da piada vencedora. E sim a
falta de bom gosto dos jurados e do público que prefere, que gosta mesmo é de
ouvir só sacanagens. Acho até que os jurados não entenderam bem a piada contada
por Cristovam e o público do auditório ainda menos. Ou então tratava-se de uma
disputa com cartas marcadas.
Mas não é só a Record, com toda a sua religiosidade, que apela
na sua programação. Ontem, 18 de maio,
a Bandeirante homenageou a bunda da "Mulher Melancia". Ela tirou o chapéu, mexeu o
avantajado traseiro algumas vezes e