Palco&Platéia
Artes Cênicas
Cine&TV
Destaques
Literatura
Música
Opinião
 






 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
POESIA

Projeto Poema Com Manteiga

O projeto "Poema Com Manteiga é atemporal e visa divulgar poemas de manhã cedinho. Como quem compra pão. Como pão fresquinho no café da manhã. Pão para a alma.
 

(Criado por Ivaldo Gomes)

 
 

 

Nosso namoro

 

 

 Ivaldo Gomes (Enviado em 12/06/2008)

 

 

 

Nosso namoro foi com o iniciar

Dos tempos.

Estávamos juntos naquela

Explosão.

 

Que se expande até hoje.

Como essa madrugada que

Esvai-se aos raios do sol.

 

Assim somos nós,

Apaixonados na vida.

Um juntinho do outro

Todos os dias.

 

Namorando o tempo.

O tempo todo.

Todos os dias.

 

 

 

O LUPANAR

Augusto dos Anjos ?
(Enviado em 15-06-2008)


Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!

É o afrodístico leito do hetairismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!

 

 

Assalto Cultural Sonoro

 

Francelino Lima

(Enviado em 16-06-2008)

 

 

 

Ei, Ei, Ei... Você!

Escute... Você mesmo que esta passando.... AGORA!

 

 

- Cuidado com os homens de gravata e a arte que ninguém vê

- Pelo sim pelo não veja menos televisão

- Desligue a tv que ela não te vê

- Desligue o celular para poder voar

- Vende-se pecado

- Tanto cresce como esgalha

- Firmeza no Coração

- Gentileza gera gentileza

 

Ei, Ei, Ei... Você!

Escute... Você mesmo!

 

- Do jeito que é o sujeito é o serviço

- Comida de graça deixa a gente sem pensar

- Costura-se bocas banguelas

- As artérias ainda estão sangrando

- Qual é o preço da cabeça deste povo?

- Aluga-se cérebro

- Vamos acabar com o correio das más notícias

- Quem não se comunica se trumbica!

- NÃO SOMOS PARTIDOS, SOMOS INTEIROS!

 

CONSPIRAÇÃO CULTURAL

 

Já passou...

Ficou

Já...

Passou...

FICOU.


 

Um Quociente apaixonou-se
               

Millôr Fernandes
(Enviado em 17-06-2008)

 

 


Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.
 

NU OLHAR

Ricardo Peixoto
(Enviado em 18-06-2008)

 

 

ENTRE A CORTINA DE SEGREDOS

O SENTIMENTO TRANSPARENTE REVELA

 

UM OLHAR NU

CORPO QUE FALA, ESCUTA E SENTE

REAGE NO GOZO DA FANTASIA

DA POESIA INCANDESCENTE

 

O ENSAIO É PROIBIDO, DESEJADO E AUSENTE, PRESENTE.

SEM JULGAMENTOS UNE O CÉU A TERRA, A ÁGUA.

TU, NÓS, ELA, VÓS, ELES, EU E VOCÊ!

ESCONDIDO NO CÉU ESTRELADO

QUERO MAIS... VER MAIS... SACIAR MINHA SEDE

 

DA NUDEZ CASTIGADA, PERDOADA, ADORADA,  TODOS OS DIAS.

EXPERIÊNCIA DIVINA DE EROS E ACERTOS

NA VONTADE DE VIVER SEM PECADOS. COM PECADO...

MAIS QUE PERFEITO, IMPERFEITO: TEMPLO SAGRADO.

 

COMEÇO SEM FIM, PURA IMAGINAÇÃO

REFERÊNCIA... MEMÓRIA PERDIDA AUSENTE

INDEPENDENTE

CORPO

VOA...

 

                                                                                               

 

                                                       

       O GUARDADOR DE REBANHOS

 

                                                                        Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
(Enviado em 20-06-2008)


Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido único do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela porta dentro
Dizendo-me, AQUI ESTOU!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheia de calor
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele fez, para eu ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?)
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele
E penso-o vendo e ouvindo
E ando com ele a toda hora.

 

                                            

Conta e Tempo

                            Frei Antônio das Chagas
                          
 (Enviado em 21-06-2008)



Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta.
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo...
____________________________________________________
Esse poema foi feito por Frei Antônio das Chagas, Por volta do Século XVII.

 

 

HUGH SELWYN MAUBERLEY

(VIDA E CONTACTOS)

                                                                                 

 Ezra Pound - 1920
tradução de Augusto de Campos
(Enviado em 26-06-2008)
 

X

Num barraco precário,

Sem glória e sem salário,

O estilista acha abrigo

Contra o mundo inimigo.

 

A natureza o oculta.

Na amante calma e inculta

Exerce seus talentos.

E o solo acolhe os seus lamentos.

O abrigo dos requintes e contendas

Vaza por entre o zinco.

Ele faz comida suculenta.

A porta não tem trinco.

___________________________________

Ezra Pound poeta e crítico norte-americano (30/10/1885-1/11/1972). Desenvolve um dos principais estudos sobre literatura moderna, criando critérios para análise da poesia baseados na ciência. Nascido em Hailey, no estado de Idaho, Ezra Loomis Pound forma-se em filosofia e estuda várias línguas, além de gramática e literatura inglesas.

Em 1908 muda-se para Londres. Lá faz amizade com os poetas William Butler Yeats e T.S. Eliot, que ajuda a tornar conhecidos. Escreve sobre literatura para pequenos jornais londrinos e publica, em 1909, Personae e Exultations e, no ano seguinte, The Spirit of Romance (O Espírito das Línguas Românicas).

Entre 1912 e 1914 torna-se líder do movimento imagista, que prega que a poesia deve ter uma eficácia informativa, sem excessos nem rebuscamentos, e dizer o máximo possível com o mínimo de palavras. Em 1925, na Itália, publica o primeiro volume de Cantos, sua principal obra, que havia começado em 1915 e só finaliza em 1960.

 

 Durante a II Guerra Mundial (1939-1945), declara-se favorável às idéias fascistas e é internado sob o pretexto de ter problemas mentais. Morre em Veneza, na Itália.

 

 

 

COGITO

                        Torquato Neto
(Enviado em 27-06-2008)

 

Eu sou como eu sou

pronome

pessoal intransferível

do homem que iniciei

na medida do impossível

 

Eu sou como eu sou

agora

sem grandes segredos dantes

sem novos secretos dentes

nesta hora

 

Eu sou como eu sou

presente

desferrolhado indecente

feito um pedaço de mim

 

Eu sou como eu sou

vidente

e vivo tranqüilamente

todas as horas do fim

 

Torquato Neto era filho de um promotor público e de uma professora primária de Teresina. Mudou-se para Salvador aos 16 anos para os estudos secundários, onde foi contemporâneo de Gilberto Gil no Colégio Nossa Senhora da Vitória e trabalhou como assistente no filme Barravento, de Gláuber Rocha.

Torquato envolveu-se ativamente na cena cultural soteropolitana, onde conheceu, além de Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia. Em 1962, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar jornalismo na universidade, mas nunca chegou a se formar. Trabalhou para diversos veículos da imprensa carioca, com colunas sobre cultura no Correio da Manhã, Jornal dos Sports e Última Hora. Torquato atuava como um agente cultural e polemicista defensor das manifestações artísticas de vanguarda, como a Tropicália, o Cinema Marginal e a Poesia Concreta, circulando no meio cultural efervecente da época, ao lado de amigos como os poetas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos, o cineasta Ivan Cardoso e o artista plástico Hélio Oiticica. Nesta época, Torquato passou a ser visto como um dos participantes do Tropicalismo, tendo escrito o breviário "Tropicalismo para principiantes", onde defendeu a necessidade de criar um "pop" genuinamente brasileiro: "Assumir completamente tudo que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido". Torquato também foi um importante letrista de canções icônicas do movimento tropicalista.

No final da década de 1960, com o AI-5 e o exílio dos amigos e parceiros Gil e Caetano, viajou pela Europa e Estados Unidos com a mulher Ana Maria e morou em Londres por um breve período. De volta ao Brasil, no início dos anos 1970, Torquato começou a se isolar, sentindo-se alienado tanto pelo regime militar quanto pela "patrulha ideológica" de esquerda. Passou por uma série de internações para tratar do alcoolismo, e rompeu diversas amizades. Em julho de 1971, escreveu a Hélio Oiticica: "O chato, Hélio, aqui, é que ninguém mais tem opinião sobre coisa alguma. Todo mundo virou uma espécie de Capinam (esse é o único de quem eu não gosto mesmo: é muito burro e mesquinho), e o que eu chamo de conformismo geral é isso mesmo, a burrice, a queimação de fumo o dia inteiro, como se isso fosse curtição, aqui é escapismo, vanguardismo de Capinam que é o geral, enfim, poesia sem poesia, papo furado, ninguém está em jogo, uma droga. Tudo parado, odeio."

Torquato se matou um dia depois de seu 28º aniversário, em 1972. Depois de voltar de uma festa, trancou-se no banheiro e abriu o gás. Sua mulher dormia em outro aposento da casa. O escritor foi encontrado na manhã seguinte pela empregada da família.

Sua nota suicida dizia: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar". Thiago era o filho de três anos de idade.

Frases

"Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela (...). Quem não se arrisca não pode berrar."

 

 

Soneto de Fidelidade

                                                            Vinícius de Moraes
(enviado em 29-06-2008)

 

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

 

 

 
 

SONETO DA ELETRICIDADE
(Enviado em 30-06-2008)


 

 

De tudo, ao meu computador, serei atento,
antes e com tal zelo, e sempre, e de modo tão terno
que mesmo em face de um modelo mais moderno
dele serei sempre o tiete mais sedento.

Quero vivê-lo em cada vã momento
e em seu louvor hei de pagar as contas da Light
que alimenta seus megabytes
sem nenhum pesar ou descontentamento.

E assim, quando mais tarde, num outro dia,
quem sabe a assistência técnica, angústia de quem vive,
pedir pelo seu conserto uns 800 paus,

Eu possa dizer do computador que tive:
Que não seja imortal, posto que é fabricado em Manaus,
mas que seja infinito enquanto dure (a garantia)

________________________________________________________

Autoria: LÍNGUA DE TRAPO, grupo musical brasileiro, em 1986.

 

 

 

O Analfabeto Político

 

 

                                                               Berthold Brecht
(Enviado em 07-07-2008)

 

 

 

O pior analfabeto é o analfabeto político.
 

Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.
 

Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas.
 

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito, dizendo que odeia a política.
 

Não sabe que da sua ignorância nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto, explorador das empresas nacionais e multinacionais.

 _____________________________________

Berthold Brecht (1898-1956) poeta, escritor, dramaturgo e militante comunista alemão, revolucionou a dramartugia neste século, desenvolvendo uma arte de conscientização comprometida com a vida e a luta por uma nova sociedade. O Analfabeto Político é um dos seus textos mais conhecidos.

 

 

 

Tenho tanto sentimento

 

 Fernando Pessoa
(Enviado em 08-07-2008)

                   

           

Tenho tanto sentimento 

Que é freqüente persuadir-me 

De que sou sentimental, 

Mas reconheço, ao medir-me, 

Que tudo isso é pensamento, 

Que não senti afinal. 

.

Temos, todos que vivemos, 

Uma vida que é vivida 

E outra vida que é pensada, 

E a única vida que temos 

É essa que é dividida 

Entre a verdadeira e a errada. 

.

Qual porém é a verdadeira 

E qual errada, ninguém 

Nos saberá explicar; 

E vivemos de maneira 

Que a vida que a gente tem 

É a que tem que pensar. 

 

 

 

 

O Projeto Poema com Manteiga traz agorinha pela manhã,
parte de um longo poema de Waldemar Solha chamado 
"Trigal com Corvos", que ganhou o Prêmio João Cabral de
Melo Neto, da U.B.E Rio em 2005. 

(Enviado em 09-07-2008)

 

Minha missão 
como a sua
é a de expandir os limites do melhor todo dia.

E eu tento

tento

                        mas nunca senti o borbulhar do gênio.

                        Nunca essa força
                        esse gás
                        esse prêmio.
Nunca esse impulso que fez com que os arquitetos góticos
erguessem catedrais sem cálculos e cada vez mais altas
até que o teto de alguma delas desabava
e que fez com que Elvis e  Elis Regina e o Hendrix e a
              Janis Joplin forçassem a barra    
e arrebentarem na overdose

              e com que o Caruso alcançasse os sustenidos que alcançou
              até estourar as veias da garganta

e com que o Van Gogh e o Artaud e o Nietzsche
            avançassem até a loucura.

 

O que me falta pra ser um deles é exatamente
            o que faz a diferença entre a lhama
e o camelo
as  pirâmides aztecas e as egípcias ou entre
            o escoteiro e a Polícia Montada:
 "quase nada".
Quantos já disseram que gênio é 1% de inspiração 
e 99 de trans-piração!
Mas como esse 1% faz falta!

 

Por isso lhe digo que gostaria de lhe deixar um livro
               grosso chamado "Fruto de Uma Grande
Experiência"

            mas não dá:

              o Universo é curvo e o mundo uma esfera

              e o mais longe que pude ir

                       foi aqui mesmo.

 
_____________________________________________________________________________

Waldemar Solha é poeta, escritor, ator, artista plástico e já recebeu vários prêmios, dentre eles o Prêmio Fernando Chinaglia pelo romance Israel Rêmora em 74; o Prêmio Instituto Nacional do Livro  pelo romance A Batalha de Oliveiros em 88, ganhou o Graciliano Ramos 2006 pelo livro História Universal da Angústia e o João Cabral de Melo Neto 2005 pelo poema longo Trigal com Corvos.

 

A MÁQUINA DE ESCREVER

Por Giusepe Ghiaroni
(Enviado em 10-07-2008)

Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.
 

********************************************************************************************

Poeta, radialista e jornalista, natural de Paraíba do Sul, RJ, Giuseppe Ghiaroni, por volta de 1940, radicou-se no Rio de Janeiro, onde trabalhou na redação de A Noite e na Rádio Nacional. Em 1941, com 22 anos, publica seu primeiro livro, O Dia da Existência. Nos anos 40 e 50, era comum ouvir-se sua voz forte e seus trabalhos literários na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Ele escrevia novelas, fazia poemas, programas humorísticos. O Antigo Testamento foi transformado por ele em uma novela radiofônica épico/religiosa no final dos anos 50. Voltava semanalmente à sua terra natal, Paraíba do Sul. Ele chegava no último ônibus vindo do Rio de Janeiro e jantava, como último cliente, no restaurante da dona Noemia, na Rua Marechal Deodoro, entre a alfaiataria do Senhor Perkins e o armazém de secos e molhados do Nestor Xisto, próximo da travessia férrea da Igreja Matriz de São Pedro e São Paulo. A propósito, era natural de Paraíba do Sul, também, o escritor Agripino Grieco.
 

 

"A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem."
Pablo Neruda  - Fonte: http://mnegocio.blog.uol.com.br:80/ 
 
 (Enviado em 19-07-08)
 
Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
 
 
 
                                . : .
                                  
 
 
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
 
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
 
Pablo Neruda, pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, nasceu a 12 de julho de 1904, em Parral, no Chile. Poeta chileno, considerado um dos mais importantes literatos do século XX. Seu pseudônimo foi escolhido para homenagear o poeta tcheco Jan Neruda. Sua obra é lírica, plena de emoção e marcada por um acentuado humanismo. Em seu livro de estréia, com apenas 20 anos, Crepusculário (1923), já se assinou Pablo Neruda que, em 1946, passou a usar legalmente. Sua fama tornou-se maior com a publicação de vinte poemas de amor e uma canção desesperada (1924).
 
Alternando a vida literária com a diplomática, Pablo Neruda era o embaixador chileno na França quando ocorreu o golpe de Estado que depôs o presidente Salvador Allende. De volta ao Chile, sofreu perseguições políticas e morreu pouco depois, sendo enterrado em sua casa de Isla Negra, ao sul do Chile. Em sua obra destacam-se Residência na Terra (1933), España en el corazón (1937, inspirado na Guerra Civil Espanhola), Canto Geral (1950), Cem sonetos de amor (1959), Memorial de Isla Negra (1964), A espada incendiada (1970) e a autobiografia póstuma, Confesso que vivi (1974), um emocionante testemunho do tempo e das emoções de uma grande poeta.
Em 1971, Neruda recebeu o Prêmio Nobel de Literatura e o Prêmio Lênin da Paz. Antes havia sido agraciado com o Prêmio Nacional de Literatura (1945). Morre em 1973.
 
 
 
O Projeto Poema com Manteiga traz agorinha pela manhã um poema enviado pelo poeta paraibano Sérgio Castro Pinto. Tomo a liberdade de também oferecer o seu poema a outro grande poeta e filosofo paraibano que nos deixou fisicamente a sete dias: Vanildo Brito. 
Um abraço,
Ivaldo Gomes
(enviado em 27-07-2008)

 

geração 60
   
 
 
    a carlos aranha
    e walter galvão
 
 
 
a carta branca do montilla
não era de alforria.
 
o paragaio era calado.
 
o cuba-libre nos prendia.
 
e em barris de carvalho
o tempo envelhecia.