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POESIA
Projeto Poema Com Manteiga
O
projeto "Poema Com Manteiga é atemporal e visa divulgar
poemas de manhã cedinho. Como quem compra pão. Como pão
fresquinho no café da manhã. Pão para a alma.
(Criado por Ivaldo Gomes)
Nosso namoro
Ivaldo Gomes (Enviado
em 12/06/2008)
Nosso namoro foi com o
iniciar
Dos tempos.
Estávamos juntos
naquela
Explosão.
Que se expande até
hoje.
Como essa madrugada
que
Esvai-se aos raios do
sol.
Assim somos nós,
Apaixonados na vida.
Um juntinho do outro
Todos os dias.
Namorando o tempo.
O tempo todo.
Todos os dias.
O LUPANAR
Augusto dos Anjos ?
(Enviado em 15-06-2008)
Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!
Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!
É o afrodístico leito do hetairismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,
Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!
Assalto Cultural
Sonoro
Francelino Lima
(Enviado
em 16-06-2008)
Ei, Ei, Ei... Você!
Escute... Você mesmo que esta passando.... AGORA!
-
Cuidado com os homens de gravata e a arte que ninguém vê
-
Pelo sim pelo não veja menos televisão
-
Desligue a tv que ela não te vê
-
Desligue o celular para poder voar
-
Vende-se pecado
-
Tanto cresce como esgalha
-
Firmeza no Coração
-
Gentileza gera gentileza
Ei, Ei, Ei... Você!
Escute... Você mesmo!
-
Do jeito que é o sujeito é o serviço
-
Comida de graça deixa a gente sem pensar
-
Costura-se bocas banguelas
-
As artérias ainda estão sangrando
-
Qual é o preço da cabeça deste povo?
-
Aluga-se cérebro
-
Vamos acabar com o correio das más notícias
-
Quem não se comunica se trumbica!
-
NÃO SOMOS PARTIDOS, SOMOS INTEIROS!
CONSPIRAÇÃO CULTURAL
Já passou...
Ficou
Já...
Passou...
FICOU.
Um
Quociente apaixonou-se
Millôr Fernandes
(Enviado em 17-06-2008)
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela a dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
- O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs -
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.
NU OLHAR
Ricardo
Peixoto
(Enviado em 18-06-2008)
ENTRE A CORTINA DE
SEGREDOS
O SENTIMENTO
TRANSPARENTE REVELA
UM OLHAR NU
CORPO QUE FALA,
ESCUTA E SENTE
REAGE NO GOZO
DA FANTASIA
DA POESIA
INCANDESCENTE
O ENSAIO É
PROIBIDO, DESEJADO E AUSENTE, PRESENTE.
SEM JULGAMENTOS UNE O
CÉU A TERRA, A ÁGUA.
TU, NÓS, ELA,
VÓS, ELES, EU E VOCÊ!
ESCONDIDO NO CÉU
ESTRELADO
QUERO MAIS...
VER MAIS... SACIAR MINHA SEDE
DA NUDEZ CASTIGADA,
PERDOADA, ADORADA, TODOS OS DIAS.
EXPERIÊNCIA DIVINA DE
EROS E ACERTOS
NA VONTADE DE VIVER
SEM PECADOS. COM PECADO...
MAIS QUE PERFEITO,
IMPERFEITO: TEMPLO SAGRADO.
COMEÇO SEM FIM,
PURA IMAGINAÇÃO
REFERÊNCIA... MEMÓRIA
PERDIDA AUSENTE
INDEPENDENTE
CORPO
VOA...
O
GUARDADOR DE REBANHOS
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
(Enviado em 20-06-2008)
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido único do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das
árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela porta dentro
Dizendo-me, AQUI ESTOU!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheia de calor
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele fez, para eu ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?)
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele
E penso-o vendo e ouvindo
E ando com ele a toda hora.
Frei Antônio das Chagas
(Enviado em 21-06-2008)
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas como dar, sem tempo, tanta conta.
Eu que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!
Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta,
Chorarão, como eu, o não ter tempo...
____________________________________________________
Esse poema foi feito por Frei Antônio das Chagas, Por
volta do Século XVII.
HUGH
SELWYN MAUBERLEY
(VIDA
E CONTACTOS)
Ezra Pound -
1920
tradução de Augusto de Campos
(Enviado em 26-06-2008)
X
Num
barraco precário,
Sem
glória e sem salário,
O
estilista acha abrigo
Contra o mundo inimigo.
A
natureza o oculta.
Na
amante calma e inculta
Exerce seus talentos.
E o
solo acolhe os seus lamentos.
O
abrigo dos requintes e contendas
Vaza
por entre o zinco.
Ele
faz comida suculenta.
A
porta não tem trinco.
___________________________________
Ezra Pound poeta
e crítico norte-americano (30/10/1885-1/11/1972). Desenvolve
um dos principais estudos sobre literatura moderna, criando
critérios para análise da poesia baseados na ciência.
Nascido em Hailey, no estado de Idaho, Ezra Loomis Pound
forma-se em filosofia e estuda várias línguas, além de
gramática e literatura inglesas.
Em 1908 muda-se para Londres. Lá faz amizade com os poetas
William Butler Yeats e T.S. Eliot, que ajuda a tornar
conhecidos. Escreve sobre literatura para pequenos jornais
londrinos e publica, em 1909, Personae e
Exultations e, no ano seguinte, The Spirit of
Romance (O Espírito das Línguas Românicas).
Entre
1912 e 1914 torna-se líder do movimento imagista, que prega
que a poesia deve ter uma eficácia informativa, sem excessos
nem rebuscamentos, e dizer o máximo possível com o mínimo de
palavras. Em 1925, na Itália, publica o primeiro volume de
Cantos, sua principal obra, que havia começado em
1915 e só finaliza em 1960.
Durante
a II Guerra Mundial (1939-1945), declara-se favorável às
idéias fascistas e é internado sob o pretexto de ter
problemas mentais. Morre em Veneza, na Itália.
COGITO
Torquato Neto
(Enviado em 27-06-2008)
Eu
sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do
homem que iniciei
na
medida do impossível
Eu
sou como eu sou
agora
sem
grandes segredos dantes
sem
novos secretos dentes
nesta hora
Eu
sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
Eu
sou como eu sou
vidente
e
vivo tranqüilamente
todas as horas do fim
Torquato Neto era filho de um promotor
público e de uma professora primária de Teresina. Mudou-se
para Salvador aos 16 anos para os estudos secundários, onde
foi contemporâneo de
Gilberto Gil no Colégio Nossa Senhora da Vitória e
trabalhou como assistente no filme
Barravento, de
Gláuber Rocha.
Torquato envolveu-se ativamente na
cena cultural soteropolitana, onde conheceu, além de Gil,
Caetano Veloso e
Maria Bethânia. Em
1962, mudou-se para o
Rio de Janeiro para estudar jornalismo na universidade,
mas nunca chegou a se formar. Trabalhou para diversos
veículos da imprensa carioca, com colunas sobre cultura no
Correio da Manhã,
Jornal dos Sports e
Última Hora. Torquato atuava como um agente cultural e
polemicista defensor das manifestações artísticas de
vanguarda, como a
Tropicália, o
Cinema Marginal e a
Poesia Concreta, circulando no meio cultural efervecente
da época, ao lado de amigos como os poetas
Décio Pignatari,
Augusto e
Haroldo de Campos, o cineasta
Ivan Cardoso e o artista plástico
Hélio Oiticica. Nesta época, Torquato passou a ser visto
como um dos participantes do Tropicalismo, tendo escrito o
breviário "Tropicalismo para principiantes", onde defendeu a
necessidade de criar um "pop" genuinamente brasileiro:
"Assumir completamente tudo que a vida dos trópicos pode
dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de
cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o
novo universo que ela encerra, ainda desconhecido". Torquato
também foi um importante letrista de canções icônicas do
movimento tropicalista.
No final da
década de 1960, com o AI-5 e o exílio dos amigos e
parceiros Gil e Caetano, viajou pela Europa e Estados Unidos
com a mulher Ana Maria e morou em
Londres por um breve período. De volta ao Brasil, no
início dos
anos 1970, Torquato começou a se isolar, sentindo-se
alienado tanto pelo
regime militar quanto pela "patrulha ideológica" de
esquerda. Passou por uma série de internações para tratar do
alcoolismo, e rompeu diversas amizades. Em julho de 1971,
escreveu a Hélio Oiticica: "O chato, Hélio, aqui, é que
ninguém mais tem opinião sobre coisa alguma. Todo mundo
virou uma espécie de
Capinam (esse é o único de quem eu não gosto mesmo: é
muito burro e mesquinho), e o que eu chamo de conformismo
geral é isso mesmo, a burrice, a queimação de fumo o dia
inteiro, como se isso fosse curtição, aqui é escapismo,
vanguardismo de Capinam que é o geral, enfim, poesia sem
poesia, papo furado, ninguém está em jogo, uma droga. Tudo
parado, odeio."
Torquato se matou um dia depois de seu
28º aniversário, em 1972. Depois de voltar de uma festa,
trancou-se no banheiro e abriu o gás. Sua mulher dormia em
outro aposento da casa. O escritor foi encontrado na manhã
seguinte pela empregada da família.
Sua nota suicida dizia: "Tenho
saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que
era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo,
enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago,
que ele pode acordar". Thiago era o filho de três anos de
idade.
Frases
"Escute, meu chapa: um poeta não se
faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo,
é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades
pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com
ela (...). Quem não se arrisca não pode berrar."
Soneto de Fidelidade
Vinícius de Moraes
(enviado em 29-06-2008)
De tudo ao meu
amor serei atento
Antes, e com tal
zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face
do maior encanto
Dele se encante
mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em
cada vão momento
E em seu louvor
hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e
derramar meu pranto
Ao seu pesar ou
seu contentamento.
E assim, quando
mais tarde me procure
Quem sabe a
morte, angústia de quem vive
Quem sabe a
solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer
do amor (que tive):
Que não seja
imortal, posto que é chama
Mas que seja
infinito enquanto dure.
SONETO DA ELETRICIDADE
(Enviado em
30-06-2008)
De tudo, ao meu
computador, serei atento,
antes e com tal zelo, e sempre, e de modo tão terno
que mesmo em face de um modelo mais moderno
dele serei sempre o tiete mais sedento.
Quero vivê-lo em cada vã momento
e em seu louvor hei de pagar as contas da Light
que alimenta seus megabytes
sem nenhum pesar ou descontentamento.
E assim, quando mais tarde, num outro dia,
quem sabe a assistência técnica, angústia de quem vive,
pedir pelo seu conserto uns 800 paus,
Eu possa dizer do computador que tive:
Que não seja imortal, posto que é fabricado em Manaus,
mas que seja infinito enquanto dure (a garantia)
________________________________________________________
Autoria: LÍNGUA DE TRAPO,
grupo musical brasileiro, em 1986.
O
Analfabeto Político
Berthold Brecht
(Enviado em 07-07-2008)
O
pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele
não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos
políticos.
Ele
não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe,
da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das
decisões políticas.
O
analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o
peito, dizendo que odeia a política.
Não
sabe que da sua ignorância nasce a prostituta, o menor
abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista, pilantra, corrupto, explorador
das empresas nacionais e multinacionais.
_____________________________________
Berthold Brecht
(1898-1956) poeta, escritor, dramaturgo e militante
comunista alemão, revolucionou a dramartugia neste século,
desenvolvendo uma arte de conscientização comprometida com
a vida e a luta por uma nova sociedade. O Analfabeto
Político é um dos seus textos mais conhecidos.
Tenho tanto sentimento
Fernando
Pessoa
(Enviado em
08-07-2008)
Tenho
tanto sentimento
Que é
freqüente persuadir-me
De que
sou sentimental,
Mas
reconheço, ao medir-me,
Que
tudo isso é pensamento,
Que não
senti afinal.
.
Temos,
todos que vivemos,
Uma
vida que é vivida
E outra
vida que é pensada,
E a
única vida que temos
É essa
que é dividida
Entre a
verdadeira e a errada.
.
Qual
porém é a verdadeira
E qual
errada, ninguém
Nos
saberá explicar;
E
vivemos de maneira
Que a
vida que a gente tem
É a que
tem que pensar.
O
Projeto Poema com Manteiga traz agorinha pela
manhã,
parte de um longo poema de Waldemar Solha chamado
"Trigal com Corvos", que ganhou o Prêmio João Cabral de
Melo Neto, da U.B.E Rio em 2005.
(Enviado em 09-07-2008)
Minha missão
como a sua
é a
de expandir os limites do melhor todo dia.
E eu
tento
tento
mas nunca senti o borbulhar do
gênio.
Nunca essa força
esse gás
esse prêmio.
Nunca esse impulso que fez com que os arquitetos góticos
erguessem catedrais sem cálculos e cada vez mais altas
até
que o teto de alguma delas desabava
e
que fez com que Elvis e Elis Regina e o Hendrix e a
Janis Joplin forçassem a barra
e
arrebentarem na overdose
e com que o Caruso alcançasse os sustenidos
que alcançou
até estourar as veias da garganta
e com
que o Van Gogh e o Artaud e o Nietzsche
avançassem
até a loucura.
O
que me falta pra ser um deles é exatamente
o que faz a
diferença entre a lhama
e o
camelo
as
pirâmides aztecas e as egípcias ou entre
o escoteiro e
a Polícia Montada:
"quase nada".
Quantos já disseram que gênio é 1% de inspiração
e 99 de trans-piração!
Mas
como esse 1% faz falta!
Por
isso lhe digo que gostaria de lhe deixar um livro
grosso chamado "Fruto de Uma Grande
Experiência"
mas não dá:
o Universo é curvo e o mundo uma esfera
e o mais longe que pude ir
foi aqui mesmo.
_____________________________________________________________________________
Waldemar Solha
é poeta, escritor, ator, artista plástico e já recebeu
vários prêmios, dentre eles o Prêmio Fernando Chinaglia
pelo romance Israel Rêmora em 74; o Prêmio Instituto
Nacional do Livro pelo romance A Batalha de Oliveiros em
88, ganhou o Graciliano Ramos 2006 pelo livro História
Universal da Angústia e o João Cabral de Melo Neto 2005
pelo poema longo Trigal com Corvos.
A MÁQUINA DE ESCREVER
Por Giusepe
Ghiaroni
(Enviado em 10-07-2008)
Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.
Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.
Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.
Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.
Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.
Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.
Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.
Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.
Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.
Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!
Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.
Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.
Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.
Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.
Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.
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Poeta, radialista e
jornalista, natural de Paraíba do Sul, RJ,
Giuseppe Ghiaroni, por volta de 1940, radicou-se
no Rio de Janeiro, onde trabalhou na redação de A Noite e na
Rádio Nacional. Em 1941, com 22 anos, publica seu primeiro
livro, O Dia da Existência. Nos anos 40 e 50, era comum
ouvir-se sua voz forte e seus trabalhos literários na Rádio
Nacional do Rio de Janeiro. Ele escrevia novelas, fazia
poemas, programas humorísticos. O Antigo Testamento foi
transformado por ele em uma novela radiofônica
épico/religiosa no final dos anos 50. Voltava semanalmente à
sua terra natal, Paraíba do Sul. Ele chegava no último
ônibus vindo do Rio de Janeiro e jantava, como último
cliente, no restaurante da dona Noemia, na Rua Marechal
Deodoro, entre a alfaiataria do Senhor Perkins e o armazém
de secos e molhados do Nestor Xisto, próximo da travessia
férrea da Igreja Matriz de São Pedro e São Paulo. A
propósito, era natural de Paraíba do Sul, também, o escritor
Agripino Grieco.
"A poesia tem
comunicação secreta com o sofrimento do homem."
(Enviado em 19-07-08)
Já não se
encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.
Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.
Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.
Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
. : .
Posso escrever os
versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
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Pablo Neruda, pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes
Basoalto, nasceu a 12 de julho de 1904, em Parral, no
Chile. Poeta chileno, considerado um dos mais
importantes literatos do século XX. Seu pseudônimo foi
escolhido para homenagear o poeta tcheco Jan Neruda. Sua
obra é lírica, plena de emoção e marcada por um
acentuado humanismo. Em seu livro de estréia, com apenas
20 anos, Crepusculário (1923), já se assinou Pablo
Neruda que, em 1946, passou a usar legalmente. Sua fama
tornou-se maior com a publicação de vinte poemas de amor
e uma canção desesperada (1924).
Alternando a vida
literária com a diplomática, Pablo Neruda era o
embaixador chileno na França quando ocorreu o golpe de
Estado que depôs o presidente Salvador Allende. De volta
ao Chile, sofreu perseguições políticas e morreu pouco
depois, sendo enterrado em sua casa de Isla Negra, ao
sul do Chile. Em sua obra destacam-se Residência na
Terra (1933), España en el corazón (1937, inspirado na
Guerra Civil Espanhola), Canto Geral (1950), Cem sonetos
de amor (1959), Memorial de Isla Negra (1964), A espada
incendiada (1970) e a autobiografia póstuma, Confesso
que vivi (1974), um emocionante testemunho do tempo e
das emoções de uma grande poeta.
Em 1971, Neruda
recebeu o Prêmio Nobel de Literatura e o Prêmio Lênin da
Paz. Antes havia sido agraciado com o Prêmio Nacional de
Literatura (1945). Morre em 1973.
O Projeto Poema com Manteiga traz
agorinha pela manhã um poema enviado pelo poeta
paraibano Sérgio Castro Pinto. Tomo a liberdade de
também oferecer o seu poema a outro grande poeta e
filosofo paraibano que nos deixou fisicamente a sete
dias: Vanildo Brito.
Um abraço,
Ivaldo Gomes
geração 60
a carlos aranha
e walter galvão
a carta branca do montilla
não era de alforria.
o paragaio era calado.
o cuba-libre nos prendia.
e em barris de carvalho
o tempo envelhecia.
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