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POESIA
José Américo de Alméida

José Américo de Almeida nasceu em
Areia - PB, a 10 de janeiro de 1887. Destacou-se na
Literatura Brasileira como autor de A bagaceira (1928),
obra-prima do romance regionalista moderno, hoje com trinta
e duas edições em língua portuguesa, edição crítica e
versões em espanhol, francês, inglês e esperanto. Sua obra,
com dezessete títulos, abriga ainda ensaios, oratória,
crônica, memórias e poesia.
Esse ilustre paraibano desempenhou
também relevante papel na política nacional, a partir da
Revolução de 1930, tendo ocupado importantes cargos nas
esferas estadual e nacional. Entre outros, foi deputado,
senador, ministro e governador do Estado da Paraíba. Em
1958, recolheu-se em retiro voluntário, tornando-se
conhecido como o Solitário de Tambaú. Afastado dos
cargos públicos, dedicou-se à construção dos livros de
memórias onde colocou, para posteridade, a visão de um homem
de ação e de grande sensibilidade. E, em plena maturidade
revelou-se poeta.
Quarto
Minguante
AO APAGAR DAS LUZES
"Tirei uma semana para
escrever estes versos, salvo dois do passado, como minha
cota para uma forma de expressão que sempre me encantou. É
uma adesão provisória sem nenhum compromisso que me leve à
certeza de ainda poder ser poeta. Falando francamente, não
passa de um sinal de minha versatilidade.
Nada de elaborado para ser mais natural; nada aqui se
realiza pela arte. Tudo é livre dos artifícios da métrica
que se tumultua, como a musa matuta criada por impressões
imediatas.
Só a rima não é faltosa por sua popularidade. "
O autor
QUADRAS
DE MINHA QUADRA
Dez de janeiro tantas
vezes!
Oitenta? Mais, oitenta e tantos.
Os dias vão, passam-se os meses,
Somando os anos. Quantos! Quantos!
Deus não me falte com a
memória
Para ter sempre uma saudade,
Para lembrar a minha história,
Embora esqueça a minha idade.
Bela palavra é oitentão!
Quero viver, quero viver,
Porém daí não passo não,
Fazendo anos com prazer...
Não me iludir. Velhice
pura,
Cheia de vida e verdadeira
Dispensa drogas e pintura.
Trair o tempo é que é asneira.
Remédio pra cabelo
branco,
O que não suja nem sapeca
Só vejo um, para ser franco,
Só vejo um que é a careca...
Negar idade engana
alguém?
Engana a vista? Engana a morte?
Ser muito velho é um grande bem,
Uma vitória, muita sorte.
Bem. Eu não vou fazer
mistério.
Arranjo ruga, o rosto vinco,
A falar mole, a falar sério:
Já passei de... oitenta e cinco.
E, homem de lutas do
passado,
Sem temer faca nem trabuco,
Tenho hoje um medo desgraçado:
Viver demais, ficar caduco.
Ah, quem me vale é o
Padre Eterno
Velho e a levar sempre a melhor,
Regendo o céu, regendo o inferno,
Regendo a terra quer é pior.
Tem nada não. Vai-se o
juízo
E assim de novo eu amanheço:
O que era triste causa riso,
O que era fim volta ao começo.
| A REDE
A rede que me balança
E me levanta no ar
É minha última esperança,
Porque me ensina a voar.
E a deitar-me me convida,
Oferecendo-me um sonho,
Outro mundo, uma outra vida,
Um minuto mais risonho
Se a casa não dá um pio,
Gritam os dois armadores,
Cantam o seu desafio
Os dois irmãos cantadores.
Como se fosse de mola,
Vira a rede se me viro.
E o corpo todo me enrola
E murcha, se me retiro. |
?No sítio de Manoel
João,
Vizinho do de Rufino,
Houve uma interrogação,
Quando eu era bem menino.
Oculto no matagal,
Havia lá um banheiro
Para um banho ao natural,
Um banho bem brasileiro.
Eu era deste tamanho.
Foi muita moça da rua
E uma me deu um banho
E tomou um banho nua.
Guardo isto na memória,
Do que muito me envergonho.
Mas foi certo ou é estória?
Foi um fato ou foi um sonho
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MEU RASTRO
A areia marcou meus pés,
Voltei-me contente e vi,
Mas volúvel, por quem és,
Não subas até aqui
Peço-te: em tua viagem,
Nesse teu doido vaivém,
Não apagues essa passagem,
Pelo valor que ela tem.
Andar é tudo que faço
Nesta praia, nesta areia.
E depois olhar meu traço,
Até vir a maré cheia.
Já escrevi a minha história,
Já fui trunfo, já fui astro
E hoje a minha trajetória
É simplesmente esse rastro.
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