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Terça, 13 de Maio de 2008
Obra de Sivuca é alvo de
disputa entre viúva e filha
A quem pertence a obra de um artista depois
de sua morte? Ao público que o consagrou ou aos herdeiros
que deixou? A socióloga Flávia de Oliveira Barreto, filha
única de Sivuca, fica com a primeira opção. Em 2001, cinco
anos antes da morte do pai, ela iniciou um projeto de
organização de seu rico acervo, incluindo discos,
fotografias, entrevistas e vídeos, com o objetivo de
torná-lo acessível a todo o povo brasileiro.
Sua intenção é fazer uma biografia, produzir shows e montar
exposições - tudo para evitar que ele seja esquecido. “Se
você fala sobre Sivuca com uma pessoa que entende de música,
ela sabe quem é. Mas se perguntar na rua é capaz de ele ser
confundido com o Hermeto Pascoal”, diz Flávia, que é
professora universitária pós-doutorada em estudos culturais.
Iniciada oficialmente em janeiro de 2007, um mês depois da
morte do músico, a pesquisa corria bem até que Flávia ficou
sabendo, por terceiros, que a viúva, Maria da Glória Pordeus
Gadelha, tinha outros planos. Ela recorreu à Justiça da
Paraíba, onde vive, para impedir que o trabalho continuasse.
Uma decisão da juíza Adriana Barreto Lóssio de Souza, da 4ª
Vara Cível de João Pessoa, datada de 19 de fevereiro de
2008, proíbe Flávia de firmar contrato para “show, CD, DVD e
entrevista, livro ou congênere, utilizando o nome ‘Sivuca’”.
Na prática, todo o projeto ficaria, assim, inviabilizado.
Felipe Coutinho, advogado de Glorinha Gadelha (seu nome
artístico), explica: “Há um documento deixado por Sivuca que
autoriza apenas Maria da Glória a escrever sua biografia.
Flávia não pode dar entrada em projetos relativos a Sivuca
porque a inventariante e testamenteira de todo o espólio é
Maria da Glória.”
Cantora e compositora, Glorinha foi a quarta companheira do
sanfoneiro. Teve com ele uma relação estável (de mais de 20
anos) e, durante esse tempo, compôs e se apresentou a seu
lado. Seu advogado falou rapidamente ao Estado, por
telefone, e não retornou as diversas ligações posteriores da
reportagem.
Filha do primeiro casamento de Sivuca (com a cantora lírica
Terezinha Mendes), Flávia, que começou a tocar o projeto a
partir de depoimentos detalhados dados por ele (são horas e
horas gravadas), diz que não consegue compreender a atitude
de Glorinha, com quem, conta, nunca havia se desentendido:
“Não fui notificada oficialmente. Proibir qualquer pessoa de
falar qualquer coisa é inconstitucional”.
BNB patrocina trabalho de resgate
Especialista em propriedade intelectual, a
advogada Silvia Gandelman, que representa Flávia no tocante
aos direitos autorais de Sivuca, lembra que qualquer pessoa
pode organizar homenagens a artistas. “É a primeira vez que
vejo alguém se apropriar do direito de imagem”.
O trabalho de resgate, os pesquisadores lembram, é
fundamental, já que a memória de Sivuca está fragmentada.
“Meu pai não teve a preocupação de ficar juntando nada. Só
queria tocar. Tem disco que não se encontra em lugar algum
do mundo. Se você não reedita, o que acontece? O artista
morre de novo”, aponta Flávia, que, embora entristecida,
ainda acredita no diálogo para resolver o imbróglio. “Isso
não combina em nada com o jeito de ser do meu pai.”
Patrocinado pelo Banco do Nordeste e apoiado pelo Ministério
da Cultura, o Projeto Sivuca - Maestro da Sanfona Brasileira
vem sendo tocado por ela, dois sociólogos e um jornalista.
Com a ajuda de colecionadores e instituições de vários
Estados, eles se desdobram para recompor, no Brasil e no
exterior, todos os lances da longa carreira do compositor e
instrumentista paraibano, que transitou entre o erudito e o
popular sem cerimônias.
Desde que a pesquisa propriamente dita começou, já foram
levantadas 324 músicas suas, 34 discos (estima-se que de 200
ele tenha participado de alguma forma, produzindo ou
tocando), além de partituras inéditas e gravações
raríssimas. As informações estão sendo inseridas num banco
de dados criado pela equipe, que, futuramente, poderá ser
acessado por qualquer um que se interesse pela obra.
Discos de Sivuca em 78 rpm
são cedidos a pesquisadores
Não é nada fácil reunir toda a obra de um artista que
produziu intensamente durante 61 anos - de 1945, quando
tinha apenas 15 anos, a 2006, quando morreu de câncer. Na
busca pelos discos de Sivuca, e também por fotografias e
registros de suas muitas aparições no rádio e na televisão,
a incansável equipe do projeto recorreu a colecionadores e a
instituições do Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte,
Brasília e Rio.
Referência nacional quando se pesquisa a Música Popular
Brasileira, com seu acervo de 22 mil discos, o cearense
Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez, disponibilizou 23 discos
seus de 78 rotações, gravados na década de 50 pelos selos
Continental, Copacabana e Mucambo. São raridades que contêm
alguns dos clássicos do sanfoneiro, como Adeus, Maria Fulô e
Baião do Salvador. Todos estão agora gravados em CD,
protegidos da ação do tempo.
“Sivuca é um dos maiores representantes da música
nordestina, como Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Luiz
Bandeira, Matias da Rocha e Edvaldo Pessoa. Esse trabalho de
resgate é muito importante, porque o povo é muito mal
informado”, defende Nirez. Para o colecionador, num país que
não preserva sua memória, as atenções se voltam ainda menos
aos artistas de Estados do Nordeste. “Existem poucas pessoas
interessadas nos artistas nordestinos. Os biógrafos preferem
os sambistas do Rio de Janeiro.”
Muitas viagens
O jornalista Fernando Gasparini, coordenador-geral do
Projeto Sivuca, lembra que foram inúmeras as viagens atrás
de material ao longo dessa jornada. E outras ainda virão.
Semana passada, a filha de Sivuca viajou para a Europa, à
caça de novos tesouros. “Ele lançou mais de um disco por
ano. Em Portugal, por exemplo, achávamos que havia um único
disco gravado, mas um colecionador já avisou que só ele
tinha seis em casa!”, conta Gasparini.
O esforço dos pesquisadores foi reconhecido pelo Conselho
Estadual de Cultura do Rio - onde Sivuca morou por muitos
anos. Em abril, a entidade enviou ofício a Flávia se
solidarizando com ela, depois de tomar conhecimento da
resistência da viúva ao projeto e sua ação judicial.
“Os conselheiros consideraram esta decisão judicial mais um
sinal do cerco à liberdade de expressão que vem sendo
articulado no País, baseado em leis como as de imprensa, de
direitos autorais e de herança de obras de arte, que são
verdadeiros entulhos autoritários e que já deveriam ter sido
abolidos no Brasil democrático”, diz o texto.
Roberta Pennafort
Grupo Mulheres de Hollanda
lança DVD com músicas de Chico Buarque

Ricardo Calazans
Rio - As mulheres sempre cantaram Chico
Buarque. Dizem que ele entende a alma feminina como ninguém.
A adoração é tanta que a associação ‘mulheres’ e ‘Chico’
virou lugar comum. Por isso, a regente e cantora Karla
Boechat decidiu ensaiar três anos em segredo, antes de
estrear com o grupo Mulheres de Hollanda, que hoje lança seu
CD e DVD de estréia no Mistura Fina, às 21h.
“O mercado já estava saturado de releituras
femininas da obra de Chico. Então, fomos descobrir o que
poderia ser feito de diferente nesse mercado saturado”,
conta Karla. Com postura cênica forte, ela e as cantoras Ana
Cuba, Eliza Lacerda, Malu Von Kruger e Marcela Mangabeira
começaram a conquistar o público em 2005, quando finalmente
estrearam seu espetáculo. “Na verdade, já pensávamos em
músicas para um novo show quando surgiu o convite da
gravadora (Performance) para este DVD”, explica.
O show de hoje terá o mesmo repertório do DVD:
‘João e Maria’, ‘O Meu Guri’, ‘A Rita’, ‘Samba e Amor’...
“Somos loucas por ele mesmo. Minha mãe me ninava cantando
‘Carolina’”, diz a cantora. Só falta Chico ver o show. “No
dia certo e na hora certa ele aparece”, acredita ela,
esperançosa.
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O Dia (06-05-2008) |