|
ROMANCE

Sobre O herói sem
rosto, o romance crispiniano, disse a professora
Ângela Bezerra de Castro que, “com a elegância de estilo
que caracteriza o autor, a leveza e o movimento que
lembram a crônica”, o livro “se afirma como expressão da
angústia e da incerteza do homem contemporâneo”.
— O herói sem
rosto — acrescentou a apresentadora — é um romance do
tempo presente. Tempo de valores em crise. De crimes ainda
não tipificados pelas leis. De comportamentos sociais que
os conceitos das chamadas ciências do homem não conseguem
mais abranger. Tempo de homens sem referência, no delírio
virtual da propaganda globalizada.
“Ninguém mais
apropriado para simbolizar o conflito do ser com esse
tempo do que o jornalista e o professor”, afirmou a Dra.
Ângela, para ajuntar logo depois: “O discurso aparente,
que referenda a ideologia dominante, afirma que o
jornalismo é o quarto poder. Que a liberdade de imprensa é
o termômetro através do qual se pode aferir o nível de uma
democracia”.
— A militância de
Laureano prova o contrário — sublinhou a professora Ângela
Bezerra de Castro — Em qualquer dos regimes, o
amordaçamento da imprensa pelo poder estabelecido. O
microcosmo que Santa Cruz da Serra representa deixa
expostas, de modo mais ostensivo, as armas silenciadoras,
utilizadas pelo sistema dominante. E é sintomático que o
romance tenha início com a chegada de Laureano, fugindo do
regime de exceção e termine com ele voltando, porque
também se tornara incômodo aos poderosos, em plena
vigência das garantias democráticas.
Para a apresentadora
e crítica literária, “a atividade de professor acentua o
conflito entre o herói e realidade. Outro papel
ideologicamente mistificado. Enquanto o valor da educação
alimenta a demagogia e até garante o sucesso de espertos
empresários, os fundamentos da escola desabam”.
Quando foi a vez de o
próprio Autor da obra falar, o escritor Luiz Augusto
Crispim, depois de agradecer a presença de tantos leitores
em potencial, começou dizendo que “nunca pensei fosse tão
grande a responsabilidade de expressar gratidões [...] Se
a poesia é engastada em palavras, o romance pulsa nas
veias de um contexto em que a palavra só existe no papel —
elemento atemporal — nunca na cabeça do leitor. A poesia é
cruel certeza, como na sentença de Morte e Vida
Severina, de João Cabral de Melo Neto, ou mesmo quando
não passa de um delírio como o de Ismália, quando se põe
na torre a sonhar”.
— O romance — disse
ainda o escritor Luiz Augusto Crispim — não tem certeza de
nada. Tudo são suspeitas, a rondar os passos misteriosos
de Capitu; tudo são dúvidas incessantes [...] Nada que
possa depender das palavras, mais sim dos sentidos
esporeados pela natureza instintiva do homem.
E prosseguiu o agora
romancista Luiz Augusto Crispim:
— Se me perguntarem
como se escreve um romance, em qualquer lugar do
mundo, sou capaz de
responder: do mesmo modo como se faz carpintaria.
Aparando, lavrando, lixando, polindo, até que as palavras
desapareçam e fique apenas a atmosfera humana, densamente
humana. Pois é sobretudo vivendo que se faz literatura.
Para o Autor de O
herói sem rosto, “o ato da criação literária, em prosa
ou em verso, não resulta de nenhum favor ou intimidade do
escritor com os deuses do Olimpo. Pelo contrário, o
suplício do romancista, do poeta ou do cronista está muito
mais para maldição do que para encantamento”.
— Vivi os últimos
três anos em companhia de Laureano, o herói sem rosto,
juntamente com os outros personagens que, agora, mesmo
tendo vida própria, nem por isso desertaram do meu
convívio. Agora já posso falar desses tipos com a
naturalidade balzaqueana de quem poderia tê-los
reconhecido na rua, na troca de palavras triviais no Ponto
de Cem Réis, ou numa praça qualquer de Santa Cruz da
Serra, a cidade do livro que faz fronteira com a ficção.
LAUREANO, O HERÓI SEM
ROSTO
Por fim, assegura o
romancista Luiz Augusto Crispim sobre um de seus
personagens:
— Laureano não é uma
simples invenção do aprendiz de romancista. É criatura
viva que não precisa de RG ou CPF para provar sua
existência. Se o personagem não ganha essa evidência, não
é culpa sua. É incompetência do autor.
O DISCURSO DA
PROFESSORA ÂNGELA, NA ÍNTEGRA
“Por mais que o
século vinte tenha falado em crise e até anunciado a morte
do romance, ele continua a significar o sonho para muitos
escritores. A alimentar as grandes esperanças, mesmo de
alguns já consagrados em outras formas narrativas. Ou as
ilusões perdidas dos que não se realizaram no gênero.
Meu mestre Juarez da
Gama Batista se referia ao escritor de romances como “o
homem capaz de criar realidades maiores que as da vida”. A
mesma perspectiva escolhida pelo ensaísta Odilon Ribeiro
Coutinho para sobrepor a obra romanesca de Zelins à
realidade da atividade produtora:
“Os nove engenhos que
o tempo dispersou, as safras que as moendas esmagaram, a
glória do avô que a morte engoliu, tudo isso ganhou
dimensão na eternidade. (....) As canas que plantou não
murcharão jamais: são canas que o tempo não mói”.
O grande Zelins
também reforçou essa linha de pensamento, afirmando em
entrevista que “o romancista é rival de Deus”. Poder da
Linguagem que, em sua expressão simbólica, supera o
referencial. Constrói universos imaginários. Inventa
personagens que ultrapassam os criadores, e ganham vida
própria e dimensões imprevisíveis. Foi assim a moça de
Ilhéus, Gabriela, que saltou do romance e se impôs à
realidade da propaganda, com a sedução de sua provocante
alegria, celebração da sensualidade. E quero lembrar,
ainda, o monumento a D. Quixote, erguido na Plaza de
España, provavelmente o exemplo mais expressivo de quanto
pode uma criatura de papel e tinta. D. Quixote mais
soberano que todos os reis e heróis da História.
Desde a origem, a
fascinação do escritor pela narrativa é sustentada pela
expectativa de vencer o tempo. Deter a voragem, resistir
ao despenhadeiro para onde se dirigem todos os caminhos do
homem. E o romance continua identificado como o espaço
onde esse poder demiúrgico se exercita, por excelência,
ainda que a Teoria Literária conteste a hierarquia dos
gêneros.
E esse fascínio
exercido pelo romance não será exatamente uma questão de
superioridade. É que sua característica essencial, como
narrativa de longo curso, torna possível criar naturezas
inseridas na duração do tempo, com formas tão peculiares
de pensar, dizer e agir que se revestem de verdadeira
personalidade. Tornam-se únicas na forma de ser para fazer
face aos conflitos de sua existência. Tão reais e
verdadeiras são essas criaturas inventadas que muitas se
transformam em exemplo e se projetam para a eternidade.
O romance também
inclui a densidade dramática. Mas é na relação com o
público que se afirma outro traço essencial. A longa
narrativa exige tempo de leitura, concentração,
convivência, reflexão e imaginação. Tudo que leva o leitor
a compartilhar a aventura e o universo do personagem e
incorporá-los ao imaginário ou à própria experiência
existencial.
São considerações
sobre a ficção romanesca, para incluir O HERÓI SEM
ROSTO na tradição afortunada de uma espécie narrativa.
Escritor que encanta
um grande público com a sua crônica, Luiz Augusto
construiu um estilo marcado pelo intenso lirismo de uma
linguagem densa, tecida em recursos de expressão que
convertem a prosa diária em verdadeiros poemas. Sobre
muitos exemplos, seria impróprio falar de flagrantes do
cotidiano, como se tornou comum em relação à crônica.
Pois, na verdade, os textos de Luiz Augusto trabalham
sentimentos, ritmos incorpóreos, sensações, como nos
versos de Fernando Pessoa, “sensações/ sentidas só com
imaginá-las/ Que são mais nossas do que a própria vida”.
Um traço de erudição
se revela na recorrência intertextual quase obrigatória e
na permanente defesa de valores que implicam conceitos
éticos e filosóficos de larga abrangência.
Em outra vertente, o
escritor exercita com grande requinte a ironia, expondo o
mecanismo desajustado da engrenagem social. A Pensão da
Paz Dourada foi um núcleo gerador dessa tendência
crítica e libertária, em oposição ao automatismo que o
riso sublinha, na tentativa de corrigir.
A lição teórica de
Bergson, concretizada pelo cronista, com a sutileza dos
limites que elevam o cômico a uma categoria e salvam o
riso da banalidade, convertendo-o em “expressão da dor
estética”.
Mas a esse escritor
completo faltava o romance.
Luiz Augusto sempre
referiu a nostalgia de uma experiência que não pôde
acumular: a da vida rural e das pequenas cidades
interioranas. E é exatamente um pequeno núcleo urbano que
serve de espaço ao seu primeiro romance.
No prefácio
revelador, de extenso título poético, o jornalista e
escritor José Nêumanne Pinto direciona sua competente
leitura para a constatação da universalidade do espaço, do
tema e dos personagens de O HERÓI SEM ROSTO.
Traduzindo símbolos e
indicando possibilidades de compreensão do romance, o
prefaciador explicita reiteradamente a dimensão imaginária
da cidadezinha onde se desenvolvem as ações. Agregadas
numa montagem, as explicações de Nêumanne resultam ainda
mais intensas. Em passagens diversas, assim ele se dirige
ao provável leitor:
“Santa Cruz da Serra
há por toda parte. [...] é um lugar comum, ao alcance de
seus olhos, facilmente oferecido ao contato de suas mãos.
[...] Santa Cruz da
Serra, meu amigo, é seu mundo exterior e seu desabrigo à
mão. [...] Luiz Crispim inventou a Santa Cruz da Serra
dele neste romance. Mas ela só existe porque também se
reflete na sua, que é outra e a mesma. [...]
[...] mais que um
lugar, o cenário desse livro é sua alma, o destino
manifesto de quem se perde da nobreza por algum motivo
fútil e a danação implícita de quem se perde a meio
caminho entre o talvez e o quem sabe, o nada e o coisa
nenhuma”.
Narrador e
protagonista, Laureano é o herói sem rosto. Um jornalista
e professor de Ética que deixa a capital ou a metrópole
pelo interior, por razões político-ideológicas.
Tem como antagonista
Álvaro, ex-colega de faculdade, empresário radicado em
Santa Cruz da Serra, exercendo completo domínio sobre a
realidade política e econômica do lugar, numa prática em
que tudo se reduz a conchavos, negociatas e falcatruas.
Até o casamento com Giovana se insere nesses valores
pervertidos.
No exercício do
jornalismo, Laureano participa do desmascaramento de
Álvaro, que chega a ser preso sob a acusação de desvio e
apropriação de recursos públicos.
Podemos dizer que
este é o lado mais visível da estória localizada em meados
da década 80, trazendo à cena o destacado papel que o
Ministério Público passou a exercer, ostensivamente, como
fiscal e defensor dos direitos da sociedade.
O Promotor Damião
Libório é o personagem que sintetiza no romance essa nova
realidade histórica. Assassinado pelos capangas
contratados por Álvaro, é encontrado em estado de rigidez
cadavérica, com os braços projetados em expressão de
oratória. E o velório transcorre com o morto nessa posição
chocante. O gesto paralisado convertido em discurso,
sobrepondo-se à violência e à morte.
Na sucessão de
acontecimentos que se entrelaçam para a urdidura da trama
romanesca, originam-se os dramas que compõem a
circunstância onde Laureano vive o conflito central do
romance. Pois O HERÓI SEM ROSTO é um romance de
personagem, se nos permitirmos utilizar a antiga
classificação.
O prefaciador alerta
o leitor para a identificação, em Santa Cruz da Serra, do
“homem comum”, “ser sem eira, nome, sobrenome, fortuna,
destino nem coração” que “se torna herói do nada, quiçá do
talvez, não por excesso de bagos, mas, sim, por falta de
estômago”.
Laureano, em seu
papel de jornalista e professor representa a síntese desse
perfil. E é preciso considerar que a seleção do
protagonista estrutura importante signo da narrativa. Na
Literatura Brasileira, seria suficiente lembrar o coronel,
o senhor de engenho, o bacharel, a sinhá, o cangaceiro, o
jagunço, etc., estabelecendo-se a inegável ligação entre a
ficção e a realidade.
O HERÓI SEM ROSTO
é um romance do tempo presente. Tempo de valores em crise.
De crimes ainda não tipificados pelas leis. De
comportamentos sociais que os conceitos das chamadas
ciências do homem não conseguem mais abranger. Tempo de
homens sem referência, no delírio virtual da propaganda
globalizada.
Ninguém mais
apropriado para simbolizar o conflito do ser com esse
tempo do que o jornalista e o professor.
O discurso aparente,
que referenda a ideologia dominante, afirma que o
jornalismo é o quarto poder. Que a liberdade de imprensa é
o termômetro através do qual se pode aferir o nível de uma
democracia.
A militância de
Laureano prova o contrário. Em qualquer dos regimes, o
amordaçamento da imprensa pelo poder estabelecido. O
microcosmo que Santa Cruz da Serra representa deixa
expostas, de modo mais ostensivo, as armas silenciadoras,
utilizadas pelo sistema dominante. E é sintomático que o
romance tenha início com a chegada de Laureano, fugindo do
regime de exceção e termine com ele voltando, porque
também se tornara incômodo aos poderosos, em plena
vigência das garantias democráticas.
A atividade de
professor acentua o conflito entre o herói e realidade.
Outro papel ideologicamente mistificado. Enquanto o valor
da educação alimenta a demagogia e até garante o sucesso
de espertos empresários, os fundamentos da escola desabam.
Laureano é a
consciência crítica, o indivíduo que tudo compreende, sem
que possa fazer face à desagregação imposta pelo sistema.
Não tem outra origem a personalidade angustiada do
professor, visivelmente exposta à flagelação da culpa.
O autor elabora o
herói a partir da contradição. Um recurso habilidoso para
construí-lo frágil e humano. Em qualquer nível de relação,
Laureano será o estranho, o que sobra, o incompreendido.
Entre ele e o outro a barreira, a incomunicabilidade.
Em casa, a
“reprimenda seca de Clara”, a “censura vigilante”, a
“ironia”, a “cobrança permanente”, o julgamento sempre
depreciativo, até o “escárnio”, atitudes que ele tende a
justificar num evidente processo de autoflagelação.
Os conceitos emitidos
pela sociedade e pelos alunos Laureano repete sem refutar.
Admite que em Santa Cruz da Serra lhe reservam “o papel de
personagem quase folclórico”. Com os alunos, diz que
ganhou “fama de desatinado” e o imaginário que corre solto
a seu respeito serve-lhe de “caricatura moral”.
Quando faz a própria
avaliação, o herói se utiliza de um rigor impiedoso,
motivado pela ausência de auto-estima. Na solidão das
sucessivas caminhadas, o leitor pode acompanhar o
personagem em poéticas descrições dos espaços,
contrastando com o processo interior de dilaceramento.
Identificação somente
com os “pássaros que festejavam seus cativeiros”, com a
“carícia molhada e verdadeira” do cão abandonado, com a
miséria trágica de Arminda e, finalmente, com o descaminho
e desamparo da jovem prostituta Morena.
No meio da noite e do
rio uma canoa, tão precária quanto o encontro, serve de
leito ao casal. Mas o entusiasmo do prazer se converte, de
repente, no desespero da morte.
É um episódio que se
destaca pela intensa dramaticidade. A impossibilidade de
salvar a jovem do afogamento exacerba a mortificação de
Laureano que se confessa lançado “num poço de inevitável
autoflagelação”, com o grito de Morena ressoando aos seus
ouvidos “como um libelo de culpa sem fim”.
A contradição que
estrutura o personagem alcança, neste episódio, o mais
alto grau, quando o professor culto e esclarecido passa a
classificar de “verdadeiro e absoluto amor” a relação
fortuita com a criatura de quem mal sabia o nome.
Com a elegância de
estilo que caracteriza o autor, a leveza e o movimento que
lembram a crônica, O HERÓI SEM ROSTO se afirma como
expressão da angústia e da incerteza do homem
contemporâneo.”
O livro
de Luiz Augusto Crispim foi lançado, dentro do Programa
Cultural da Presidência do TJ-PB, na própria ESMA, em
solenidade ocorrida na sexta-feira, 11 de abril, a partir
das 18 h, no Auditório “Desembargador Sebastião Sinval
Fernandes”, do Complexo Judiciário do Altiplano do Cabo
Branco.
Fonte: ASCOM/TJ-PB
|