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"S A R A R Á"
Teatro -
1999 - Elpídio Navarro
CENA I
(Quarto de um apartamento. Sons vindos da sala indica que
está havendo uma festa bastante animada. Saulo entra,
encontra Marília visivelmente embriagada.)
MARÍLIA
- Por que demorou tanto? Não ouviu quando chamei?
SAULO
- Claro que ouvi! Eu não estou aqui?
MARÍLIA
- Você está vendo?! Aquele fresco não veio! (Alterando
a voz) Mas ele vai me pagar.
Ora se vai! Ele não sabe com quem se meteu!
SAULO
- Então foi para isso que você me chamou? Eu devia ter
adivinhado o que você queria.
MARÍLIA
- Ele não é seu amigo? Não o conheci através de você?
SAULO
- Acidentalmente! Não pude evitar.
MARÍLIA
- Agora! Antes era Leonardo prá cá, Leonardo prá lá, você
dando o maior cartaz a ele... (Começa a
chorar).
SAULO
- Pare com isso, Marília! Vamos voltar para a sala. Estão
todos lá. Estou te falando como amigo. Esse cara não vale
pena...
MARÍLIA
- Ele garantiu que vinha! (Chora mais)
Só fiz a festinha por causa dele. Eu queria que o pessoal
todo me visse com ele.
SAULO
- E eu cedi meu apartamento por conta da turma toda!...
Esqueça ele. Esse cara não vem aqui hoje.
MARÍLIA
- Por que? Você está sabendo de alguma coisa?
SAULO
- De nada! E nem quero saber! Eu conheço o
Leonardo! Ele assume um compromisso, mas se pintar
algo mais interessante, não pensa duas vezes!
MARÍLIA
- Deve estar por aí enganando outra besta como eu!
Mas ele me paga! Queria só se aproveitar de mim. (Volta
a chorar) Depois que conseguiu
o que queria... (Violenta) Ele vai se foder
comigo, se foder!
SAULO
- Sabe de uma coisa? Eu nada tenho com isso e não estou
disposto a ficar aqui a noite toda ouvindo as tuas
lamentações.
MARÍLIA
- Saulo, você é meu melhor amigo. Não fale assim comigo!
SAULO
- Então pare com essa frescura! Aquele merda não te
merece. Se, pelo menos fosse um homem completo!
MARÍLIA
- Isso, não! É despeito seu! Ele é macho todo. Eu que o
diga!
SAULO
- Que macho que nada, Marília! Aquilo é um gilete!
Todo mundo sabe disso!
MARÍLIA
- (Gritando) - Despeito! É despeito de
vocês. Leonardo é macho todo! (Desesperada) Eu
sei! Eu sei! Eu sei! Eu sei!
SAULO
- (Revoltando-se) - Você sabe? Você sabe?
Você sabe? Você não sabe de nada! Um cara escroto
daquele! Como é que você defende uma bicha que onde
chega fala coisas de você...
MARÍLIA
- É mentira!
SAULO
- É verdade! É verdade! Ele anda contando por aí o que
faz com você no motel.
MARÍLIA
- Não inventa! Não vem com sacanagem não, só porque eu
não quero nada contigo. Pensa que eu não percebo as tuas
cantadas, é? Comigo não, bicho. (Batendo
no peito) Essa aqui é só dele!
SAULO
- Tudo bem, tudo bem... A escolha é tua, o problema é teu.
Eu, pelo menos, nunca dei a bunda!
MARÍLIA
- Leonardo não é bicha! Você está apelando e eu...
SAULO
- (Elevando a voz)
Eu o que? Você tem lá moral prá nada! Porra! (A
essa altura as
vozes vindas da
sala cessam ficando
apenas a música)
É bicha, sim. Ou melhor: é gilete! Eu digo porque sei. Eu
sei quem comeu e sei quem deu a ele. (Marília
parte para bater
em Saulo, que
consegue dete-la.,
segurando-a pelos
braços) Além disso é mentiroso também.
Mentiroso safado. Sabe o que ele anda dizendo por aí,
sabe? (Cessa também a
música) Eu não queria dizer não, mas
vou dizer. Você está me obrigando! Pois bem: esse
teu queridinho anda boatando por aí que come a tua
bunda! Que você vai com ele para o motel e só quer gozar
na bunda! Que você é uma bundeira. (
Silêncio total no
quarto. Saulo parece
arrependido do que
disse. Marília
recompõe-se do
impacto causado pelas
palavras dele . Tempo).
MARÍLIA
- Você era a última pessoa de quem eu esperava ouvir uma
coisa dessa ! Você, meu amigo, Saulo? Eu não acredito
que Leonardo tenha dito disso...Mas se ele disse, Saulo,
você devia era me defender e nunca me acusar...
SAULO
- Eu não acusei você de nada.
MARÍLIA
- Acusou, sim! O seu tom era de acusação. Você invadiu
a minha vida, a minha privacidade, de uma forma impiedosa.
Você não é mais meu amigo! (Ela
começa a chorar.
Saulo se mantêm
apreensivo. Noutro
tom, depois de
um tempo, Marília
desabafa) É. Você tem razão. Ele come!
Come porque eu dou... ( Encara Saulo
e fala com
uma crescente agressividade)
Eu não dou a você! A você não. Aliás, só a você eu não
dou. Só a você, ouviu? Agora vai ser assim: para
qualquer outra pessoa que queira comer a minha bunda,
eu vou dar! E vai ser na sua frente. Lá na sala. Vou
oferecer...
SAULO
- Você está bêbada!
MARÍLIA - (Retirando-se,
desesperada, em direção
à sala. Suas
últimas palavras são
ditas fora de
cena) Quem quer ser o primeiro? Eu quero
dar a bunda a todo mundo, menos a Saulo! Olhe aqui:
eu levanto a saia, abaixo a calcinha e o resto é
com vocês... Menos Saulo! (Murmúrios
vindos da sala,
logo seguidos por
um grito “Eu topo”
e uma música
frenética).
SAULO
- (Num grito de
revolta) Bundeira! (Corte de
luz).
CENA II
(Num esconderijo. A luz cresce de forma gradativa.
Uma mesa e alguns tamboretes. Um rádio de pilha sendo
sintonizado. Em dado momento, um noticiário: Locutor - “...
e a polícia promete que dentro de poucas horas tudo será
solucionado, uma vez que a descrição de um dos
criminosos coincide com a de um famoso pistoleiro de
aluguel, cujo nome é guardado em sigilo absoluto,
para não prejudicar o andamento das
investigações, desse crime
que abalou todos os segmentos da nossa sociedade.
Mas corre boato na rua que trata-se de um tal
Sarará, que foi visto há pouco tempo na
cidade. Espera-se que, com a prisão desse
criminoso, os outros sejam identificados e descoberto o
mandante do crime, pois a polícia tem certeza de que houve
um mandante...” - Sarará, visivelmente preocupado
com o noticiário, desliga o rádio. Move-se
impaciente dentro do esconderijo. Tempo. Volta a
ligar o rádio. Locutor - “... voltaremos a
informar maiores detalhes na nossa edição das
vinte horas ou, a qualquer momento, em edição
extraordinária, caso surjam novas notícias do crime da
beira-mar. Boa noite!” - Característica musical do
noticiário, anúncio e programação normal da
emissora. Sarará desliga o rádio. Volta a andar
impaciente. Examina o revolver, recoloca-o na
cartucheira e confere a caixa de balas, colocando
algumas nos bolsos. Fala para si.):
SARARÁ
- Esse filho da puta tá querendo! Tenho que avisar a
Vicente. Ele precisa mandar esse puto se calar.
Merda! Daqui há pouco vai dizer até o nome do Doutor! É
só o que falta! (Ouve algum barulho
vindo de fora do
esconderijo. De revolver na mão, fica imóvel,
escutando. Batidas na porta. Tempo. Novas
batidas. Arma o revólver, apontando-o para a
porta. Um sinal é dado, através de um assobio.
Sarará responde. De fora, outro assobio
diferente do primeiro.
Sarará chama.) Vá entrando!
Está só encostada...
TIÃO
- (Ao entrar, assusta-se
com o revolver
de Sarará, apontando
para a sua
cabeça.) Que é isso, irmão?! Algum problema?
( Traz uma bolsa
com mantimentos. Olha
em volta o
ambiente) É assim que recebe o amigo?
SARARÁ
- (Relaxando e, ao
mesmo tempo, com
rispidez) Você ficou maluco, foi? Que
brincadeira é essa? Por que não fez logo o nosso
sinal ? Quase que eu atirava!
TIÃO
- Calma, cara! Calma! Eu esqueci, pronto. As notícias são
tão boas que eu esqueci o nosso trato.
SARARÁ
- Notícia boa, é? Notícia boa eu ouvi no rádio! Estão
desconfiando de mim! Mas vá contando: o que foi que o homem
resolveu?
TIÃO
- Mandou a gente vir prá cá também.
SARARÁ
- A gente?! A gente quem?
TIÃO
- Chico está lá fora. Chegou hoje, da fazenda.
SARARÁ
- Lá fora?! Ele também veio? Então é festa! Só falta agora
chegar um sanfoneiro... E Chico? Por que...
TIÃO
- Ele ficou de longe, para no caso de ter algum problema
aqui.
SARARÁ
- Que problema podia ter?
TIÃO
- Você não reclamou porque eu não fiz o sinal combinado?
Então? A gente tava tendo cuidado!
SARARÁ
- É. Você tem razão. Eu é que estou preocupado com as
notícias no rádio...
TIÃO
- Então não ouça, Sarará!
SARARÁ
- É pior! Aí eu fico nervoso. Então chegou a hora da
gente cair fora? Tá todo mundo aqui!
TIÃO
- Quase! Quer dizer... (Assobia
para fora do
escondrijo) Mais tarde. Daquí há um hora,
mais ou menos... Um carro vai parar lá em baixo e buzinar
quatro vezes. É o sinal para a gente descer. Vamos nos
esconder noutro lugar seguro! Aqui perto. Tudo arrumado
lá pelo doutor. Quando a situação ficar mais
calma, ele manda a gente passar uma temporada bem longe
daqui...
SARARÁ
- (Cortando) - Isso ele já me disse.
CHICO
- (Entrando) Oi! Tudo em órdem, padrinho?
SARARÁ
- Bom de ficar, Chico. Vai depender do Doutor! (Para
Tião) E o dinheiro?
TIÃO
- Tá aqui comigo. Uma parte, só para o gasto. O grosso
mesmo ele manda quando a gente for viajar.
SARARÁ
- Essa história dessa viagem é que eu não estou gostando.
Mandava o nosso dinheiro logo de uma vez e a gente
resolvia o que fazer. Toda vida foi assim! Esse negócio não
está me cheirando bem!
TIÃO
- Que é isso, Sarará?! O Doutor é de confiança, nunca
faltou com a palavra. Das outras vezes você não recebeu
tudo?
SARARÁ
- Não estou falando de dinheiro não, estou pensando noutra
coisa.
CHICO
- Que coisa?
TIÃO
- Em que é que você está pensando, Sarará?
SARARÁ
- Uma coisa cá comigo. Sei não! Tou achando tudo
muito demorado. E se o negócio for se livrar da gente?
CHICO
- Ai, ai, ai! Que conversa é essa? Foi você quem me
meteu nisso, Sarará! Eu estava no meu canto... Que
conversa é essa agora?
TIÃO
- É!. Que desconfiança besta! Você sempre disse que o
Doutor era gente fina.
SARARÁ
- Até agora. Mas...
TIÃO
- Mas o que?!
SARARÁ
- Mas as coisas estão diferentes dessa vez!
CHICO
- Diferentes como hem? Vamos! Fala de uma vez. Foi você quem
me meteu nesse negócio!
SARARÁ
- Vai passar o resto do dia repetindo isso, é? Vocês
também não são meninos. Estraram na empreitada sem ninguém
obrigar!
CHICO
- Mas sou muito moço prá morrer!
SARARÁ
- E quem falou aqui em morrer?
CHICO
- Você! Se livrar da gente, o que é?
TIÃO
- Vamos parar com esse bate-boca besta? Já está
me deixando nervoso!(Conciliador) O que você
pensou foi besteira, Sarará. Não tá vendo, homem? Se o
Doutor quizesse acabar com você era só ter dado o
serviço! Sabia onde você estava guardado! A
polícia cercava isso aqui, você não se entregava e pronto:
acabavam com tua raça de uma vez!
SARARÁ
- Muito bem. Agora tem uma coisa que você está esquecendo:
vocês dois! Como ficavam vocês dois? Todo mundo sabe que
foram três que fizeram o serviço.
TIÃO
- Nós? Sei lá! Davam um jeito depois. (Procurando
resposta) Ora, Sarará! Não precisavam fazer
nada contra a gente. A gente não ia saber de nada!
Quem está aparecendo é você, a gente não ia saber que
você tinha sido queimado. Ia pensar que você tinha sido
encontrado pela polícia e morrido num tiroteio. A gente
não é nem conhecido! E o Doutor continuava protegendo.
SARARÁ
- Até vocês ficarem conhecidos!
TIÃO
- Mas isso não existe, homem! Era no caso de você
sido morto durante o tempo que ficou aqui, entendeu?
SARARÁ
- (Tempo) Tá bem. Tem razão. Eu é que estou com
essa besteira, com esse mal pensamento. Mas tudo por
culpa do trato que não foi cumprido! O que o
Doutor ajustou comigo foi outra coisa; a mulher dele
sabe disso, que o serviço era mais prá ela! (Sai
a luz).
CENA III
(O Doutor sentado numa cadeira giratória, de costa para
a platéia. Ao seu lado, Marli, em pé. Sarará,
também em pé, de frente para a platéia.)
SARARÁ
- É serviço completo ou só um corretivo?
DOUTOR
- Por mim eu dava um corretivo. Era o suficiente...
MARLI
- De forma alguma! Aquele safado nunca mais vai
desrespeitar a filha de ninguém! Serviço completo!
DOUTOR
- Mas, mulher! É demais e perigoso. Lembre-se que ele
também tem família influente! Dá uma surra bem dada e
pronto. Vai ficar por isso mesmo! A polícia não vai nem se
meter, a imprensa...
MARLI
- Não admito! Minha filha está lá no quarto, sem
querer ver ninguém. Morta de vergonha e com o nome sujo
entre os amigos. E a coisa está se espalhando e deve ser
obra daquele cafajeste!
DOUTOR
- Isso tudo passa.
MARLI
- E enquanto não passa, por onde ela passa tem
sempre alguém olhando, acintosamente, com cara de deboche.
DOUTOR
- Assim você vai ter que mandar matar muita gente!
MARLI
- Não! Só o culpado de tudo. E você sabe por que ela
está sem querer sair do quarto? Pois ouça: ontem, quando
ela entrou no carro, lá na Universidade, estava
escrito, com giz, no parabrisa: bundeira!
DOUTOR
- Epa! Olhe o que fala! Nós não estamos sozinhos...
SARARÁ
- É serviço completo ou só um corretivo?
MARLI
- (Autoritária) - Completo! (Silêncio
de consentimento do
Doutor) Um serviço bem feito, sem falha!
DOUTOR
- Leve mais gente com você. Não quero tiros. A
coisa tem que parecer uma briga. Não precisa pressa.
Pense direitinho como fazer. É melhor cacetadas!
Certifique-se do resultado. Acabado o serviço, não
venha mais aqui. Ninguém pode ver você por aqui.
Mande receber o dinheiro e desapareça por uns
tempos. Entendeu tudo? Alguma dúvida?
SARARÁ
- Quantos mais ?
DOUTOR
- É problema seu, você é quem sabe. O serviço precisa ser
bem feito!
SARARÁ
- Fique sem preocupação. (Sai a
luz).
CENA IV
(Esconderijo)
TIÃO
- Eu não tiro a sua razão, Sarará. Mas veja bem: não
era mais fácil pegar você sozinho? Prá que juntar a
gente? E tudo armado! De um em um era mais fácil!
SARARÁ
- Pode ser. Mas tem alguma coisa esquisita. (Tempo)
E o carro? Demora ainda?
TIÃO
- Acho que não. O Doutor disse que quanto mais cedo a
gente sair daqui, melhor prá todo mundo.
SARARÁ
- É bom mesmo que se desapareça por algum tempo. Até
esquecerem mais... A polícia tá sendo obrigada a
procurar a gente! O rádio não fala noutra coisa! Os
jornais...
CHICO
- (Cortando) - Pior é o povo na rua! Já ouvi
cada palpite!
SARARÁ
- Na rua o povo fala no meu nome mesmo, não é?
CHICO
- É Sarará. Não adianta esconder. Tão dizendo que um
dos matadores foi você e a mandado de gente importante.
Mas tudo é só palpite! Do jornal, da rádio e da boca do
povo!
SARARÁ
- A gente fez tudo tão certo, sem falhar nada. Não consigo
atinar como foram suspeitar de mim!
CHICO
- Você não sabe como são essas coisas por aqui? A
polícia não descobre nada, aí o povo começa a dar
palpite. Você já é conhecido, famoso, começa a
aparecer nos palpites.
SARARÁ
- Pode ser. (Tempo) Mas será que foi isso
mesmo?
TIÃO
- Lá vem você de novo com as suas desconfianças! Quer bem
dizer que foi o Doutor que...
SARARÁ
- Não estou dizendo nada. Estou perguntando! Tenho quase
certeza que alguém falou demais!
CHICO
- Eu não fui!
TIÃO
- Mas quem, Sarará? (Sai a
luz).
CENA V
(Casa do Doutor).
DOUTOR
- Só sabiam eu, você e o próprio Sarará! Como o boato
surgiu, diga? Ele não iria jogar o nome dele na fogueira! Eu
não falei nada. E você?
MARLI
- Eu não falei nada!
DOUTOR
– Mentira! Eu sei que falou. Falou lá na casa do Marinho.
Falou para uma porção de amigas suas que estavam la´! Disse:
“aquele bandido teve o que merecia! Foi difamar minha
filha!” O Marinho telefonou preocupado, me dizendo:
“Compadre, a tua mulher estava falando demais lá em casa.
Você precisa tomar cuidado! Ela só faltou dizer o nome do
cara que fez o serviço, mas o resto... Disse até que era
cria da família de vocês e gente de total confiança. Se
bebesse outra dose, era capaz de dizer tudo!” E como as suas
amigas são iguais a você, se encarregaram de contar o seu
falatório ao resto da cidade! E agora? O que vamos fazer?
MARLI
- Sei lá! Você que resolva!
DOUTOR
- Eu que resolva? Você faz suas merdas e eu que
resolva? Pois lembre-se que você estava junto comigo
quando foi feito o contrato. Sarará abrindo o bico, vai
lembrar perfeitamente das suas palavras: serviço completo!
MARLI
- (Preocupada) Mas eu precisava falar...
Todo mundo já estava dizendo que tinha sido por
causa de maconha! Eu não podia deixar assim! Senão iam
continuar as gracinhas com a nossa filha. Agora eu duvido
que se atrevam a falar dela!
DOUTOR
- E por conta disso nós ficamos encrencados! E se pegam
Sarará?
MARLI
- Dê um jeito, mande ele embora daqui... Resolva da melhor
forma. (Sai a luz).
CENA VI
(Esconderijo)
CHICO
- Eu, não! Vou ter todo cuidado. Ninguém vai me pegar, não.
Retrato no jornal, nunca! Quando se vai preso, a primeira
coisa que fazem é tirar o retrato da gente prá botar no
jornal. Nessa eu não caio! Baixo a cabeça, boto a mão na
cara, faço qualquer coisa. Mas retrato desse aqui, nunca!
Só morto!
TIÃO
- Você não pode dizer isso não! Nessa nossa vida não se
sabe o dia de amanhã. Se você está falando só porque já
saiu o retrato de Sarará no jornal, fique sabendo que ele
nunca foi preso.
CHICO
- Não?!
SARARÁ
- (Entrando na discussão) Retrato?! Que
retrato?
CHICO
- Olhe aqui, Sarará: pobre com retrato no jornal, se
não é jogo de futebol é confusão com a polícia! Vi o
teu retrato no jornal. Mais moço, mas era você.
Tava lá o carão! Não sei que danado tava dizendo,
não deu prá ler, quer dizer, não sei ler, mas que era você,
era!
TIÃO
- (Para Sarará) Foi aquele
retrato ainda do tempo que você era da polícia.
CHICO
- Polícia?! Espera aí, Sarará?!...
TIÃO
- Já foi da polícia. Era até cabo!
CHICO
- Mas tou besta! Você da polícia, Sarará?!
SARARÁ
- Prendi uns safados fazendo umas besteiras nas terras do
Doutor e,
quando dei fé, tava meu retrato no jornal numa pose
danada! Eu até gostava de ler: “O Cabo Francisco
Belarmino, vulgo cabo Sarará, prendeu os ladrões que
roubavam gado no interior...” E eu lá, todo sério, uma
estampa danada! Cortei o pedaço do jornal e preguei na
parede da delegacia... Fiquei respeitado! Todo mundo
respeitava o Cabo Sarará. (Outro tom)
- O danado é que o retrato ficou no jornal, e agora, toda
vez, sai de novo.
CHICO
- Polícia!... Eu não imaginava nunca!
TIÃO
- Já faz tempo. O Doutor arranjou um jeito de aposentar o
Cabo. Ficou até ganhando um dinheirinho. Agora
vive na maior folga na fazenda. Só vem aqui
quando o Doutor chama ou no dia do pagamento.
SARARÁ
- Folga! Folga é a tua que vive folgado aqui na cidade,
só no serviço maneiro! Na fazenda eu dou é um duro danado!
CHICO
- Disso eu sou testemunha! Lá a gente não tem descanso. Tem
vez que Sarará passa o dia todo em cima do trator, cortando
terra. E plantar milho, cana e capim, em? Pensa que é
mole? E cortar tudo prá levar prá forrageira? E vacinar o
gado? E tirar o leite? É muita coisa prá fazer lá!
Você vem falar em folga? A gente dá um duro danado!
TIÃO
- Em compensação vocês recebem tudo de graça: leite,
milho, feijão, arroz, tudo na porta de casa. Não
precisa nem ir prá feira, nem pagar nada! Só compra
mesmo pão, café e açúcar. Ainda tem peixe no
açude e a carne do garrote que vocês dizem que
morreu mordido pela cobra!
SARARÁ
- Não precisa disso não, Tião. Tem as nossas criações:
bode, ovelha, porco, galinha, capote, tem até peru! E
quando o Doutor vai lá, ele mesmo manda matar um
garrote e divide com a gente.
TIÃO
- E você ainda desconfia de um homem desse!
SARARÁ
- Já disse que não! Eu falei que alguma coisa saiu errada.
Que nesse mato tem coelho!
CHICO
- Diga logo o que você está pensando, homem! A gente tá
ficando...
SARARÁ
- Calma! Não precisa afobação! Vocês sabem que eu sou macaco
velho nesse negócio. Eu me preparei antes de vir prá cá.
Eu confio muito no Doutor, mas nessa vida a gente
tem que tá sempre prevenido. Ninguém tá livre de uma
falseta.
TIÃO
- Que danado você quer dizer? Desembucha logo, que
eu já estou ficando desconfiado.
SARARÁ
- Não é nada ainda. É só prá gente ficar garantido. Se
acontece alguma coisa com a gente, o Doutor também entra no
rolo!
CHICO
- Que conversa é essa, padrinho? Tá sabendo de alguma
coisa que a gente não sabe, não é? Diga logo de uma vez,
homem!
SARARÁ
- Eu não queria dizer nada porque pode não precisar.
TIÃO
- Chico e eu estamos metidos nisso tudo até o
pescoço. E foi você quem chamou a gente. Se você chamou
foi porque confiava. Você não pode ficar escondendo...
SARARÁ
- Tá bem, eu vou dizer. Ia dizer de todo jeito, quando
fosse a hora. Fui falar antes, agora... (Tempo)
Não sabem o jornalista daquele programa de rádio que
andou falando mal do filho do Doutor?
CHICO
- Não!
TIÃO
- Sim! O negócio da maconha, lembro.
CHICO
- O Deputado?!
TIÃO
- (Para Chico) E você acha
que o Doutor comprou a eleição dele por que? Estava
encrencado! Agora tá lá em Brasília, ninguém mexe com
ele!
SARARÁ
- Pois o tal jornalista achou pouco, e andou dizendo
que o Doutor tinha tomado umas terras de uns pobres
posseiros que ele está defendendo como advogado,
porque não tiveram dinheiro para pagar as despesas lá
do escritório dele.
TIÃO
- Essa eu não sabia!
SARARÁ
- Não ouve rádio!
CHICO
- E o que é que isso tudo tem com a gente. Eu mesmo nunca
ouvi falar em nada disso, é a primeira vez que sou chamado.
SARARÁ
- Eu tou falando ainda! Calma! (Tempo)
O Doutor me chamou e mandou que eu desse um
corretivo nele, prá fazer bastante medo. Eu fiquei um
bocado de tempo só olhando, vendo o sujeito sair toda noite
lá da rádio, passar no bar da esquina, tomar umas
cachaças com os amigos e depois saírem prá casa. Não
demorou muito e teve um dia que, não sei porque, ele
saiu sozinho . Os amigos ficaram bebendo. Eu fui atrás
dele, até chegar no lugar certo... (Sai
a luz).
CENA VII
(Foco de luz. Sarará e Vicente Ernesto)
SARARÁ
- Tem fósforo aí, amigo? (Enquanto
Vicente procura no
bolso, Sarará encosta-lhe
o revólver no
peito, deixando-o
apavorado).
VICENTE
- Que é isso?! Pelo amor de Deus, não faça isso comigo
não... O que é que o senhor quer, pode me levar tudo!
SARARÁ
- Tá me chamando de ladrão, seu filho da puta? Só
por isso vou acabar com a tua raça!
VICENTE
- (Começando a chorar)
Não, pelo amor de Deus, eu não fiz nada! Deve haver
um engano. Não fui eu...
SARARÁ
- Não foi você o que, seu bosta? O que foi que você não
fez?
VICENTE
- Nada! Eu não fiz nada! Não sei do que é que o senhor está
falando!
SARARÁ
- (Debochando) Senhor! Me chamando de
senhor! É frouxo mesmo! Como é o teu nome , menino? Vamos,
diga logo. E não minta!
VICENTE
- É Vicente... Vicente Ernesto.
SARARÁ
- Só conheci um Vicente na minha vida, que era
sacristão lá no interior. Também era fresco!
Ernesto, nenhum. Agora, Vicente Ernesto é exatamente o
safado que eu estava procurando!
VICENTE
- Eu?! Por que?! Eu não fiz nada! Pelo amor de Deus!
SARARÁ
- Não fez nada o que, seu corno safado! Você não andou
falando que um certo doutor tinha tomado umas terras de uns
posseiros, hem? E o filho dele, você não chamou de
maconheiro, não foi? Não disse que o menino era
traficante de maconha, não foi? Agora você vai pagar
pelo que andou dizendo!
VICENTE
- (Implorando) - Não faça nada comigo não,
pelo amor de Deus! Eu não disse nada daquilo. Eu só fiz
ler á estava escrito. Eu juro! Eu só fiz ler!
SARARÁ
- Além de tudo, é covarde também. Na hora que está
falando lá no microfone é aquela brabeza! Aqui é esse
cagaço! Olhe uma coisa aqui, seu merda. Preste
atenção! Se gritar eu acabo com a tua vida, ouviu? Vai
apanhar calado, está entendendo? E dê Graças a Deus o
Doutor ter mandado dar somente um aviso!
VICENTE
- Mas o senhor não vai ganhar nada batendo em mim!
SARARÁ
- Deixa de frescura, seu filho da puta! (Começa
a dar socos
em Vicente).
VICENTE
- Não faça isso, que eu posso lhe ajudar. A gente pode ser
amigos. (Sarará começa a
rir) O senhor pode precisar de mim!
SARARÁ
- (Ainda rindo) Essa é boa! Tá
ficando maluco, seu fresco? Eu lá vou precisar de um
merda como você, todo cagado de medo! Tu serve de nada
prá mim!
VICENTE
- Posso servir, posso. Deixe eu explicar, o senhor
vai ver. Escute primeiro. Se depois o senhor não achar
que eu estou certo, pode fazer o que quiser! Deixe eu
falar, deixe!
SARARÁ
- (Tempo) Tá bem... Mas logo! Fala logo, que
eu já perdi muito tempo com um serviço besta desse.
VICENTE
- Lá na rádio. Eu posso livrar a tua barra, não
deixar teu nome
aparecer em nada. Livro a do Doutor também. Passa tudo por
mim, a gente faz um acordo!
SARARÁ
- Tá pensando que eu sou burro, é? Quando eu te largar
aqui, tu vai
direto prá radio contar tudo.
VICENTE
- Vou não! Se eu fizer isso o senhor pode me pegar depois.
Eu não sei nem como é o seu nome! A gente fica amigo
agora, ninguém precisa saber de nada. Eu não digo nada no
programa.
SARARÁ
- Você tá é doido! Quer me lascar, é? E o doutor como é que
vai saber que eu cumpri a ordem? Não! Você vai é apanhar de
verdade!
VICENTE
- Espere! Eu digo que apanhei! Juro! Eu vou prá rádio,
digo que fui agredido. Por um desconhecido. Eu não vi a
cara, estava escuro...
SARARÁ
- E quem vai acreditar nessa história, com você
bonzinho, sem nenhum ferimento?
VICENTE
- Passo mercúrio cromo, boto esparadrapo em cima! Vou
enfaixar um
braço, eu dou um jeito. Garanto que todo mundo vai
acreditar.
SARARÁ
- (Tempo) E se você não fizer nada disso?
VICENTE
- Faço! Garanto que faço! Olha, a gente é igual. A gente é
pobre. Cada um tá fazendo o que pode prá poder viver.
Dando uma surra em mim, você não ganha nada com isso!
SARARÁ
- Ainda há pouco era senhor prá cá, senhor prá lá! Agora já
é você?!
VICENTE
- É o modo de falar. Desculpe, eu sei que o senhor é
mais velho do que eu e tenho mais é que respeitar. Tá
certo. Mas como eu estava dizendo: o senhor não vai
ganhar nada batendo em mim! Basta que eu apareça
apanhado! Agora, não batendo, o senhor vai ganhar um amigo
prá qualquer coisa. Eu vou ficar lhe devendo essa e o
senhor cobra quando quiser! E tem a minha garantia que eu
não incomodo mais o seu amigo Doutor. Fica certo assim?
SARARÁ
- (Larga Vicente. Pensa
um pouco, encarando-o)
- Tá bem. Eu topo. Agora veja o que vai fazer! (Ameaçador)
Se faltar com a palavra, eu te acho até debaixo da cama
da tua mãe! Preste atenção! Eu não tenho muito o que
perder.
VICENTE
- Pode ficar descansado. O senhor não vai se arrepender.
Vou ser seu
amigo até o fim! (Sai a
luz).
CENA VIII
(Esconderijo)
TIÃO
- Você se arriscou muito! Nem tanto pelo perigo do
jornalista não cumprir promessa. Mas o Doutor? E se o
doutor souber dessa história?
SARARÁ
- Ora Tião, você acha que eu sou alguma traidor?! A
primeira coisa que eu fiz foi contar tudo a ele. O Doutor
até me elogiou! Disse que foi a coisa mais certa o que eu
fiz, porque a gente ficou com o cara na mão. Ele também
saiu ganhando na história, não foi?
TIÃO
- É, pensando bem...
CHICO
- Eu só queria entender o que é que, agora, isso tudo...
TIÃO
- Sim! O que é que isso tem com a gente?
SARARÁ
- Muita coisa! Vicente é quem vai nos garantir de hoje em
diante!
CHICO -
De
que jeito?
TIÃO
- Você confia demais! Esse cara vai ajudar como? Por que?
SARARÁ
- No caso do doutor querer queimar a gente...
TIÃO
- Lá vem você com essa história de novo! Nada disso
existe, Sarará!
Mais tarde o carro chega, nós vamos embora e pronto.
SARARÁ
- Pode até ser! Mas quem garante se no caminho...
TIÃO
- Um motorista, contra nós três armados?
SARARÁ
- Armam uma tocaia!
TIÃO
- Na estrada? Ora, Sarará! Isso ele teria feito aqui, que é
um lugar que ninguém sabe, ninguém ia ver nada, nem ouvir
tiros. O morador mais perto destas bandas, tá a mais de
cinco quilômetros! Você tá é ficando doido com essa mania
de que vai ser queimado!
CHICO
- Eu acho também.
SARARÁ
- Você não acha nada, Chico. Você não tem tempo ainda prá
saber das coisas todas. É um menino nisso...
CHICO
- Posso até ser, mas não sou burro! Tem uma coisa
que você não explicou ainda: como é que esse tal de
Vicente pode nos proteger.
TIÃO
- Boa, Chico! Isso eu também quero saber.
SARARÁ
- (Tempo) Vou contar! Desde o começo eu
fiquei meio desconfiado com o serviço. Não porque fosse
alguma coisa demais! O Doutor só mandava quando era
preciso mesmo. Mas foi por causa da mulher dele. Foi ela
quem decidiu e o homem ficou lá, com cara de tacho,
feito corno convencido! Não gostei daquilo. Mulher mandando
mais do que homem! Comigo não! Mas mesmo sem ter
decidido foi ele quem mandou, eu tinha que atender. Fizemos
o serviço, foi fácil até. Chico voltou para a fazenda,
você, Tião, para a sua casa e eu para a casa de uma
criatura que eu tenho aí num canto, prá matar as
saudades e esperar os acontecimentos. Foi quando
eu estava ouvindo o programa de Vicente e ele botou a
música: “Eu preciso te encontrar...” Estava me chamando. A
gente tinha combinado isso. Fui logo procurá-lo para saber o
que estava acontecendo...(Sai a
luz).
CENA IX
(Uma mesa de bar, duas cadeiras, foco de luz. Sarará e
Vicente).
VICENTE
- Faz três dias que eu te chamo!
SARARÁ
- Eu só ouvi hoje! Vim assim que pude. O que foi que houve?
VICENTE
- Não sabe a morte daquele estudante, na beira-mar?
SARARÁ
- Ouvi falar...
VICENTE
- Estão querendo botar a culpa prá cima de você!
SARARÁ
- Oxente! E o culpado não já confessou? Um bêbado, lá da
praia...
VICENTE
- Já. Mas um advogado descobriu que a confissão foi
debaixo de cacete e o pessoal dos direitos humanos
entrou na jogada e o acusado vai ser inocentado.
Soube isso no maior sigilo! A imprensa não pode nem
divulgar.
SARARÁ
- Tudo bem. E eu, o que é que eu tenho com isso?
VICENTE
- É que corre um boato aí pela cidade, de que a mãe de uma
moça que era amiga da vítima, a mulher do Doutor teu
amigo, andou dizendo que tinha sido por vingança, porque o
falecido tinha chamado a filha de bundeira! Como o Doutor
estava envolvido, eu lembrei logo de você.
SARARÁ
- Puta que pariu! Eu sou azarado mesmo! Que mulher sacana!.
Preciso prevenir ao Doutor da situação... (Sai
foco de luz.
Ambos permanecem imóveis).
CENA X
(Casa do Doutor).
DOUTOR
- Recebi um telefonema de Sarará! Está preocupado! Até a
polícia já sabe! Você com a sua língua grande, sua
fofoqueira, fodeu tudinho! Você é uma irresponsável!
Você pensa que lascou somente Sarará? Lascou a
mim e, principalmente, a você, que está
aparecendo como mandante. Só escapou sua filha bundeira
nessa história toda!
MARLI
- (Partindo para o
marido, dando-lhe
socos e pontapés)
Minha filha não é bundeira! Seu porra, seu fresco, seu
corno! (Entram em luta
corporal e Marília
aparece presenciando tudo
e interfere gritando).
MARÍLIA
- Parem! Parem com isso, pelo amor de Deus!
Parem, parem! (Consegue separar
os dois, ficando
entre eles) Que loucura é
essa? O que é que está havendo?
DOUTOR
- (Recompondo-se) Sua mãe nos
colocou numa dificuldade muito grande! Numa situação que
pode até me levar para a cadeia!
MARLI
- (Acusadora) - Ele lhe desrespeitou! Chamou
você daquela coisa!
DOUTOR
- Mentira! Eu apenas fiz uma alusão a esse negócio aí. Foi
apenas uma alusão, porque ela estava falando do assunto.
MARÍLIA
- Assim, não dá! Vocês acham pouco o que eu estou
passando e dão um vexame desse!... Os empregados
ouviram os gritos! Mãe! Aquilo era coisa que a
senhora dissesse com o meu pai?
MARLI
- Pior ele disse com você!
DOUTOR-
Eu lhe explico, minha filha. Sua mãe saiu por aí,
pelas casas das
amigas, vangloriando-se de ter mandado dar sumiço naquele
moço...
MARÍLIA
- Saulo? Por que? Vocês têm alguma coisa com a morte dele?
DOUTOR
- Pergunte a ela! (A mãe
baixa a cabeça,
nada responde).
MARÍLIA
- Mãe! A senhora fez isso? Não foi um bêbado?
MARLI
- Seu pai deu a ordem.
DOUTOR
- Eu, não! Você! Por mim ele só teria levado uma surra.
MARÍLIA
- Vocês fizeram isso? Meu, Deus! Eu fui ao enterro
dele, chorei a morte dele. E foram vocês? (Desesperando-se)
Vocês acabaram de arruinar a minha vida. Como é que
vai ser agora, digam? Todo mundo sabendo dessa história?
Eu fui ao enterro! Todos me viram no enterro! Chorando!
Em que foi que vocês me transformaram? Numa sádica,
numa louca? Eu fui ao enterro! Eu chorei no enterro! Eu não
pedi isso a vocês. Vocês não tinham o direito de me
colocar numa situação dessa.
MARLI
- Ele te atingiu moralmente e você chegou em
casa contando e sofrendo com a desmoralização. Está
esquecida disso? E o que veio depois? Na rua, por onde
você passava e até na Universidade! Você achou pouco? Você
pensa que eu não ouvia o seu choro no quarto? Não é fácil
para uma mãe saber do sofrimento da única filha...
MARÍLIA
- (Gritando e chorando
) Não foi nada disso, mãe! Eu não queria isso!
Eu gostava do Saulo, gostava muito. Eu fui ao
enterro dele, eu chorei, eu gostava dele!
MARLI
- (Querendo impor-se)
Como é que se pode gostar e chorar por uma pessoa que
fez o que fez com você? Vai também me dizer que
virou uma masoquista?
MARÍLIA
- Está tudo errado, mãe! Foi uma briguinha entre a
gente, mas era só entre a gente. O que os outros
estavam pensando, não tinha importância. Naquele dia
eu cheguei em casa com muita raiva e tinha bebido
demais. Contei tudo, só para desabafar. Mas eu
gostava dele, gostava muito! Agora é que eu sei
a falta... Se a senhora me ouvia chorando no quarto, era
por causa dele, mãe! Pela sua morte!
MARLI
- Não consigo entender! Não cabe na minha cabeça! Que
gosto é esse
por uma pessoa que lhe difamou, que saiu lhe chamando
de uma coisa horrível daquela, por todo canto que
passava? Você sendo agredida a toda hora com alguém lhe
chamando de... De...
MARÍLIA
- De bundeira, a senhora que dizer? (Pais
baixam as cabeças)
Mas não foi ele, mãe! Ele só falou lá na festa, na
hora da nossa discussão. Foram os outros que estavam lá, que
saíram espalhando.
MARLI
- Mas foi ele quem começou.
MARÍLIA
-( Perdendo totalmente o
controle) Começou coisa nenhuma! Quem
começou tudo isso foi o Fernandinho, que a senhora
tanto admira! Aquele que a senhora dizia ser um rapaz
educado, respeitoso... Pois bem! Foi ele! No carro, mãe!
Me deu bebida, me deu maconha e me seduziu.
Aproveitou-se da situação. Fez sexo comigo, mãe!
Anal, mãe! Comeu minha bunda, mãe! E depois foi
contar a Saulo e a outras pessoas! E agora, mãe? Vai
também mandar matá-lo? Vamos, mãe, faça isso! Faça, que eu
juro que não vou chorar... (Desaba num
choro convulsivo. O
Doutor abraça-se
com filha. Sai
a luz).
CENA XI
(Volta o foco sobre Sarará e Vicente)
VICENTE
- Foi bom não declarar a sua fonte! A gente nunca sabe.
SARARÁ
- Certo! Fui telefonar só prá deixar ele também
preocupado. Mais
tarde eu passo na casa dele.
VICENTE
- Sarará, me diz a verdade: foi você? Eu preciso saber
para melhor lhe defender! Estou querendo pagar a dívida
que tenho com você, mas para isso preciso estar inteirado de
tudo.
SARARÁ
- Eu não estou cobrando nada.
VICENTE
- Eu sei disso! Mas agora eu acho que você está
precisando de mim. Isto é: se foi você o autor do
serviço! Se foi, acho que você está correndo risco. Se
não foi , certamente, tem como provar que está limpo.
SARARÁ
- (Tempo. Encara Vicente)
Que risco é esse? O que é mais que está sabendo?
VICENTE
- Nada além do que eu já falei. Mas... A experiência me diz
que, se foi
você mesmo, diante das notícias que correm na boca do
povo e das pistas que a polícia está juntando, só tem uma
saída: cair fora urgentemente! Só você seria capaz
de dizer os nomes do mandante ou mandantes. Não
abrindo o bico, eles não serão nem investigados. Quer
dizer: o povo fica falando e termina esquecendo;
a polícia fica com as suspeitas e termina desistindo da
investigação.
SARARÁ
- Bem, eu acho que é isso que vai acontecer. Eu vou cair
fora!
VICENTE
- Dessa forma você confirma o que eu perguntei. Sendo assim,
preciso lhe alertar para outro problema: o risco de
vida que corre, devido ao risco de ser denunciado que
corre o Doutor!
SARARÁ
- Essa eu não entendi! Você quer dizer que eu...
VICENTE
- Que corre risco de vida! Que uma boa saída para o
Doutor seria você sumir, mas de um a vez, para sempre!
SARARÁ
- Quer dizer que Doutor vai...
VICENTE
- Não estou dizendo nada. Estou supondo que isso possa
acontecer. É uma possibilidade! Precisa tomar cuidado!
SARARÁ
- Como? Está me deixando...
VICENTE
- Calma! Fique prevenido! Não pode fazer nada, por enquanto.
SARARÁ
- Eu vou falar com o Doutor!
VICENTE
- Não! Pode precipitar as coisas. Ele não pode saber
que você imagina isso. E , por outro lado, ele pode
não está pensando em tomar essa medida.
SARARÁ
- Quer dizer que eu não posso fazer nada? Só esperar?
VICENTE
- Infelizmente. A não ser... Tem uma providência
que pode ser tomada. Vai precisar ter coragem e
confiar em mim. Não sei se vai topar...
SARARÁ
- Explique o que é.
VICENTE
- Uma gravação.
SARARÁ
- Uma o que?!
VICENTE
- Uma gravação! Uma fita gravada com uma denúncia.
Contando toda a história.
SARARÁ
- Uma confissão?
VICENTE
- Prefiro chamar denúncia. A fita será usada para
impedir que lhe façam algum mal. Só para isso.
Você não precisaria deixa-la comigo. Entregaria a uma
pessoa da sua família, de sua confiança, para que, na
hora certa, pudesse usa-la. Chegar para o Doutor e dizer:
existe uma fita assim, assim, dizendo tudo, se qualquer
coisa acontecer ao Sarará, a fita vai parar nas mãos da
polícia. Duvido que ele mandasse lhe queimar!
SARARÁ
- (Tempo) - Eu não tenho... Não tenho quem
possa fazer isso. Teria que confiar em você. (
Tempo. Levantando-se) Vamos! Eu
quero! (Sai a luz).
CENA XII -
(Esconderijo)
SARARÁ
- A fita está muito bem guardada! Será usada se
alguma coisa
acontecer com a gente. Se nada acontecer, ela vai ficando
guardada! Não fiz certo?
TIÃO
- Você enlouqueceu! Agora tá todo mundo na mão desse
Vicente. Ele pode fazer o que ele quiser...
CHICO
- Um cara que você só viu uma vez? E dando uma surra nele!
SARARÁ
- Que viu uma vez coisa nenhuma, Chico! Faz tempo que a
gente se entende. O negócio da surra já faz dois
anos e ele não negou fogo até agora. Fizemos umas
farras juntos, toda vez que eu vinha prá cá. Ele
esteve lá na fazenda! Passou uns dias comigo...
CHICO
- Na fazenda?! E como eu não conheci?
SARARÁ
- Conheceu! Aliás, ele perguntou por você. Lembrou das
caçadas de preá dentro dos canos de irrigação!
CHICO
- Seu primo? Você disse que era seu primo! O nome dele não
era Ernesto?
SARARÁ
- Isso mesmo! Vicente Ernesto! Eu disse que ele era meu
primo para ninguém ficar perguntando por ele.
CHICO
- Tou besta! Cabra bom, aquele!
TIÃO
- Quero ver se ele vai ser bom é agora! Continuo achando
que você fez uma besteira.
SARARÁ
- Fiz nada, Tião. Vicente vai ser a nossa salvação!
TIÃO
- Que salvação é essa? Só vai chegar se a gente for
queimado! Salvar depois de morto!
SARARÁ
- Não! Você não entendeu. O trato é se eu passar mais de um
dia sem falar com ele. Hoje, de noite, já vai procurar o
Doutor, se eu não telefonar prá ele. Daqui prá lá o carro
tem chegado. Eu aviso que não é preciso.
CHICO
- E se o carro atrasar?
SARARÁ
- Aí é hora da gente tomar cuidado! O negócio tá dando
errado prá nós!
CHICO
- Mas qual vai ser a hora? A hora que teu amigo vai falar
com o doutor?
SARARÁ
- Por que você quer saber?
TIÃO
- (Atalhando) O carro vai chegar a tempo, não
precisa se preocupar, Chico! (Para
Sarará) Ele tá com medo de que o tal Vicente vá
antes do combinado com você.
SARARÁ
- Isso eu tenho certeza que ele não faz... (Sai
a luz).
CENA XIII
(Marília e Marli)
MARÍLIA
- Não quero saber! Ou vocês tomam uma providência ou
eu vou à polícia.
MARLI
- Denunciar seus próprios pais?!
MARÍLIA
- Denunciar quem matou. Denunciar criminosos!
MARLI
- É a mesma coisa, minha filha! Se denunciar esses homens a
polícia chegará até nós!
MARÍLIA
- O problema é de vocês! Eu quero os matadores punidos.
MARLI
- Você tem idéia do que está pedindo? Mais mortes? E de uns
pobres...
MARÍLIA
- (Cortando) Admira-me esse seu lance de
humanismo! Pobres o que? Assassinos, isto sim! Mãe, Saulo
era uma pessoa boa, honesta, incapaz de fazer mal a uma
mosca. Seu único pecado era ser amigo de uma desgraçada como
eu! (Chora) Não vou descansar enquanto os
assassinos não pagarem!
MARLI
- Você quer dizer enquanto seu pai não pagar?
MARÍLIA
- Não venha bancando a santinha não, que eu sei que a maior
culpa é sua!
MARLI
- Ou sua? Foi você quem chegou em casa, aos prantos,
acusando o sujeitinho lá, daquelas coisas.
MARÍLIA
- Quer empurrar prá mim agora a sua responsabilidade,
não é? Ou irresponsabilidade! Porque o que a
senhora fez foi um ato altamente irresponsável.
Eu pergunto outra vez: o que vai ser de mim se ficar
provado que foi a senhora que mandou assassinar o Saulo?
O que está sendo de mim por conta dos boatos que correm
na cidade, a senhora tem idéia? Sabem de que me acusam?
De ter providenciado a morte dele e depois ter ido chorar
no seu velório. É pior do que ser bundeira!
MARLI
- Filhos! Se faz tudo por eles e em troca...
MARÍLIA
- (Cortando) - Eu não pedi coisa alguma! Eu
jamais faria mal...
MARLI
- (Cortando) - Não pediu, mas foi o mesmo
que pedir. Quando você chegou aqui, desesperada, que
eu fui lhe consolar, lhe acalmar, até desejar você
mesma mata-lo, você desejou. Agora se faz de
Madalena arrependida!
MARÍLIA
- Eu estava bêbada, já disse. Eu não sabia o que estava
dizendo. Mas nunca lhe pedi para fazer o que a senhora
fez!
MARLI
- (Com autoridade) Chega! Não
vou mais admitir essas suas agressões!
MARÍLIA
– (Desafiadora) - E vai fazer o que? Vai
mandar me matar também? Pois mande! Complete o seu
servicinho sujo! Vamos! Não vou fugir não! Mande seus
capangas! Agora apresse-se, porque, se dentro de vinte e
quatro horas os assassinos de Saulo não pagarem pelo crime
que cometeram, eu vou à polícia e conto tudo! (Sai
a luz).]
CENA XIV (Esconderijo)
CHICO
- Eu sei que Sarará é teu apelido. Mas que quer dizer
Sarará? Foi na polícia que te botaram?
SARARÁ
- Não! Foi brincadeira do meu padrinho, lá no sertão. Aí,
pegou!
TIÃO
- Sarará, Chico, são aqueles caras galego do cabelo
ruim, cheio de sarda. Nunca viu não?
CHICO
- Mas Sarará não é sarará! Quer dizer, ele...
SARARÁ
- (Cortando) Eu conto, Chico. Você vai
já entender. (Tempo) Eu sempre achei
que sarará era invenção do Satanás. Porque Deus
criou o branco e Deus criou o negro. Agora,
sarará foi coisa inventada pelo Diabo! (Tempo)
Um sacana de um sarará achou de ofender gente minha.
Se fosse um branco ou um negro eu só me importava se ele
não quisesse reparar o erro, se ele não quisesse
casar com a moça. Mas um sarará! Essa qualidade eu
não podia aceitar na minha família! (Tempo)
Ela não tinha pai nem irmão para tomar as dores, só
eu, o tio. Não teve outro jeito: fui atrás do infeliz
e acabei com a vida dele!
TIÃO
- Você devia era ter obrigado o safado a casar. Depois
matava! Da forma que você fez, a moça ficou sem reparo e
sem ninguém.
SARARÁ
- Que nada! Ela veio foi morar comigo.
CHICO
- (Debochando) Ficou com o resto do sarará e
até com o nome dele!
SARARÁ
- (Empurrando Chico e
ameaçando-o com
o revólver) Não sacaneia
comigo não, seu porra! Resto, não! Ela é a minha mulher!
TIÃO
- (Interpondo-se) Calma, Sarará!
Foi só uma brincadeira, calma!
CHICO
- (Temeroso) Foi brincadeira, Sarará!
Desculpe. Eu não sabia que era a madrinha...
SARARÁ
-(Recompondo-se) Brincadeira tem
hora e lugar. Quero respeito com a minha mulher. O único
macho que não teve respeito com ela, já está prá lá das
quintas do inferno, há muito tempo.
TIÃO
- (Conciliador) Tudo bem, Sarará, tenha
calma. Ele não já pediu desculpas? (Tempo)
Agora, que o negócio foi engraçado, foi!
SARARÁ
- Engraçado uma porra! Não foi com você. (Tempo.
Outro tom) Tem uma coisa: a
gente trabalha junto, a gente é amigo e eu tenho
confiança em vocês dois. Agora, particular é particular. Eu
não me meto na vida de ninguém!
CHICO
- Eu não já pedi desculpas, Sarará? Então? Foi
sem sacanagem. (Tempo) Eu só queria
desparecer. Essa bronca toda, essa sua desconfiança do
Doutor, sei lá. Só quis brincar.
SARARÁ
- É que você pensa que a vida é só brincadeiras. É moço
ainda! Mas eu tinha a sua idade quando comecei nessa vida.
Se não tivesse entrado...
CHICO
- (Cortando) Tá bom, Sarará. Não se fala
mais nisso, você tem razão. Agora, não precisa também ficar
fazendo sermão o tempo todo.
TIÃO
- É, Sarará. Você não precisa ficar desse jeito, remoendo.
Só faz piorar! A gente vai ter que ficar junto durante
muito tempo. Uma brincadeira, de vez em quando, é bom
prá animar. Tá certo: ninguém fala mais no caso da tua
mulher. Mas não se pode ficar aqui só no sério! Só faz
apavorar mais! Concorda?
SARARÁ
- (Tempo) É. A razão tá com vocês. Vamos
pensar noutra coisa?
TIÃO
- Isso!
CHICO
- Então estou desculpado?
SARARÁ
- É o jeito de você perguntar as coisas. Um jeito debochado!
CHICO
- Esse é o meu jeito mesmo, Sarará. Não é zona não!
SARARÁ
- Mas parece.
TIÃO
- (Cortando. Mudando de
assunto) Vou dizer uma coisa: estou no
negócio já faz tempo e até agora tudo tem saído direito, não
tenho o que reclamar. Pagam certo e sempre ajeitam
as coisas quando é preciso. Mas eu não tenho essas
gratidões todas lá com o homem. Olha, Sarará: o que ele
nos dá, o que faz por nós, não é nada demais. É
por interesse! Ele livra a gente prá poder se
livrar também.
SARARÁ
- Eu sei disso, Tião. Mas comigo é diferente, vem de
muito tempo! (Outro tom)
Quando matei o sarará, meu padrinho me deu fuga. Vim
prá cá e o Doutor me escondeu. Meu padrinho era
cabo eleitoral dele e sempre que precisava... Com ele
eu estava seguro. Lá no sertão a polícia me prenderia e eu
ficaria marcado. Eu devo muito ao Doutor. (Tempo)
Quando o caso ficou esquecido ele arranjou prá eu
sentar praça na polícia, depois arranjou também as fitas
de cabo!... (Outro tom) Um dia
ele precisou de mim prá fazer um serviço e eu tive que
aceitar o chamado. Seria safadeza se e não aceitasse.
Eu devia tudo que era a ele! (Tempo) Fiz o
serviço. Bem feito, como tinha sido combinado. As
testemunhas que o Doutor arranjou juraram ter sido
legítima defesa e eu, como era da polícia, fiquei livre de
tudo. O morto não tinha ninguém por ele, o caso, com pouco
tempo, ficou esquecido. (Tempo) Quando foi
um dia, uns tempos depois, o doutor mandou me chamar e
disse que eu ia me reformar...
CHICO - Ia o que?!
TIÃO - Deixar a polícia, se aposentar!
SARARÁ - ... arranjou um atestado, de um médico amigo dele,
dizendo que eu estava doente e podia morrer a qualquer
momento. Foi tiro e queda!
CHICO - Você estava doente de que?
SARARÁ - Sei lá! Preferi não saber. Eu não sentia nada!
TIÃO - E o cara que morreu? O que você matou, quem era?
SARARÁ - Nunca tinha visto antes! Era prá eu não
fazer perguntas, não perguntei nada! Não era da minha
conta. Mas, cá comigo, fiquei imaginando que o morto
havia feito alguma coisa que o doutor não podia perdoar...
(Sai a luz).
CENA XV (Doutor e Marli).
DOUTOR
- Já está tudo resolvido. Já conversei com todos três,
mandei-os para
um
lugar seguro, está tudo sob controle.
MARLI
- Sua filha tem uma posição irredutível: punição para os
assassinos!
DOUTOR
- E você está advogando contra você mesma? Pelo que me
consta, a determinação de matar o moço foi sua ! Você é tão
assassina...
MARLI
- (Cortando) Somos! Não queira tirar o corpo
fora, porque os homens eram seus capangas, chamados por
você e atenderam uma determinação sua. Eu, sozinha, não
tinha condições...
DOUTOR
- Eu queria, apenas, dar uma lição no rapaz. Uma surra
teria sido o bastante. Mas você não! Queria
vingança! Queria morte! Queria dizer para toda essa
bosta de sociedade que você vive metida, do castigo que
tinha providenciado para aquele que ousou falar mal da sua
filha. Agora vem com esses ares de santinha!
Quem está tirando o corpo fora, como você diz, é você
mesmo! Marília quer punição para os assassinos, porque
você não atende o desejo da sua filha, começando por você
mesma? Pega uma arma, dê um tiro no ouvido! Pule do alto
do edifício! Atenda a sua filha: morra!
MARLI
- Não vim aqui discutir com você. Vim lhe prevenir. Sua
filha pede uma punição para os culpados. Ela não está
só ameaçando. Eu conheço minha filha. Ela está
decidida. Disse que vai a polícia e fala tudo!
DOUTOR
- Que vá! Você já pensou em nós todos reunidos
num processo, acusados de assassinato? Inclusive
Marília, que quer queira quer não, deu a sua
contribuição: foi quem provocou tudo, foi quem lhe
motivou, lhe induziu a tomar uma posição tão extremada. Eu
tentei impedir...
MARLI
- (Cortando) Repito que não vim aqui
discutir. Vim lhe prevenir! Sua filha espera até
amanhã. Se nada acontecer, ela irá à polícia e conta
tudo. Ela disse que assume a sua parcela de culpa.
DOUTOR
- Eu também assumo a minha! Nesse caso eu informo à
polícia e prendem Sarará! Vamos ver se no interrogatório
ele não vai livrar a minha barra? Ele vai dizer
exatamente a verdade! Eu só queria uma surra! Qualquer
advogado defenderá, muito bem , um pai ultrajado,
desesperado com as calúnias contra a sua única filha.
MARLI
- Miserável! Eu sabia que você tinha muitas
qualidades ruins, mas covarde era uma que eu
ainda não havia notado! Covarde, sim! Um pai
ultrajado que não soube defender a honra da sua única
filha! Essa é a verdade! (Sai a
luz).
CENA XVI - (Esconderijo).
SARARÁ
- E por que o Doutor não manda logo esse carro, o
dinheiro?... Por que demorar tanto? A gente já podia, cada
um, estar resolvendo a sua vida.
TIÃO
- Calma, Sarará! Como vou saber? O doutor me
chamou no gabinete, trancou a porta e disse que era
preciso que eu também sumisse por uns tempos, e
que fosse encontrar com Chico na rodoviária, prá de
lá vir direto se juntar com você. Me deu esse dinheiro
que eu trouxe e disse que aqui a gente estaria seguro...
SARARÁ
- E Chico? (Para Chico) Como
você soube?
CHICO
- (Apressa-se em
dizer) Um recado chegou lá na
fazenda. O Doutor telefonou prá cidade e mandou avisar.
TIÃO
- Quando cheguei na rodoviária Chico já estava lá,
devia fazer um tempão, porque na mesa tinha cascos de umas
quatro cervejas!
CHICO
- (Apressa-se novamente)
A ordem era esperar por Tião. Cheguei mais cedo! Eu vim no
expresso, não parou quase em canto nenhum.
SARARÁ
- Estou aqui desde ontem, depois que falei com o
Doutor e contei a história que Vicente me avisou. Ele
disse para eu vir prá cá, que iria tomar providências,
que eu ficasse tranqüilo. Mas eu estou achando tudo
isso muito estranho! Esquisito até! O meu coração está
dizendo que tem alguma coisa errada nesse negócio todo.
CHICO
- Eu posso dizer uma coisa?
SARARÁ
- O que é?
CHICO
- Eu estou achando que você tem toda razão! A gente...
TIÃO
- (Cortando) Você não está achando coisa
nenhuma! Tem razão como?
CHICO
- A gente tá correndo perigo!
TIÃO
- (Bruscamente) Que perigo, menino? Que
conversa é essa?
SARARÁ
- (Com autoridade) - Deixe ele
falar!
TIÃO
- Vocês não estão acreditando que o Doutor?...
CHICO
- (Numa explosão) Isso mesmo!
Vamos acabar com essa conversa mole! A gente sabe! A gente
não tá é com coragem nem de pensar que Doutor vai
queimar a gente!
TIÃO
- Não diz besteira, menino! E por que ele iria fazer
isso? Ninguém sabe de nada de mim! Quanto mais de você
que é a primeira vez que faz um serviço para ele! Só...
SARARÁ
- Já sei. Sou o único que pode dar problema. Sou o único
conhecido! O povo, o rádio, o jornal, tudo.
TIÃO
- E o que é que tem isso? Das outras vezes você
também não ficou falado? E não foi tudo resolvido?
Você tem costas quente, Sarará! Depois, ninguém sabe mesmo
prá quem você trabalha!
SARARÁ
- Não sabe, mas desconfia! Ou melhor: sabe e não prova.
CHICO
- Pois é. Eu acho...
TIÃO
- (Cortando) Você não acha nada aqui.(Com
agressividade) Não venha criar mais
confusão que você pode se lascar!
CHICO
- (Reagindo igualmente) Porra!
Lascar por que? Por que eu? A gente tá tudo junto, metido
na mesma merda! Não fique aí querendo bancar o tal e
defendendo o patrão porque a gente nunca sabe o que pode
acontecer.
SARARÁ
- Nesse negócio se confia desconfiando. Ele pode ter razão,
Tião!
TIÃO
- Que é isso, meu velho cabo Sarará? Tá afracando?! Parece
que eu não te conheço mais! Ou você está esquecido das
garantias que sempre falou prá mim?
SARARÁ
- Não estou afracando em nada. Nem tenho certeza de
nada. Se tivesse não estava mais aqui.
CHICO
- Pois eu tenho quase certeza! Acho bom a gente ficar
prevenido. E prá gente ficar mais prevenido ainda, deve
é dá o fora daqui, cada um para seu lado, que é mais
garantido.
TIÃO
- Pára de dizer besteira, rapaz. Onde danado se vai? E
depois? O que é que o Doutor vai pensar? Que a gente deu o
fora e vai abrir o bico! Aí sim, aí é que ele vai querer
queimar mesmo a gente. E com toda razão!
CHICO
- É melhor do que ficar aqui esperando uma bala nos peitos!
SARARÁ
- Não vai dá certo, Tião tem razão. O Doutor vai achar
que foi uma fraqueza nossa, um apavoramento... Aí, mesmo
que ele não esteja querendo acabar com a gente, vai mudar
de pensamento. Vai achar que a gente tá fraco, com medo.
Vamos ser caçados como cachorros doentes, sem ter mais
sossego e vão terminar encontrando a gente. A gente tá
sem dinheiro, não pode ir muito longe. Quando
encontrassem a gente, não iria ter perdão!
CHICO
- Tá certo. E se ele tiver mesmo querendo queimar a
gente? Isso é impossível? Diga se é!
SARARÁ
- Não. Não é impossível. Por isso mesmo é melhor ficar
aqui. Melhor do que fugir é topar a parada!
TIÃO
- Vocês estão ficando doidos com essa conversa! Não está
vendo que eu não posso acreditar nisso?
SARARÁ
- Ninguém tá acreditando em nada ainda. É
somente uma desconfiança.
TIÃO
- Eu fico muito admirado de você, Sarará! Com Chico, não,
que é a primeira vez que se mete nisso. Mas você, que já
estava no negócio quando eu cheguei. Que conhece o
Doutor de perto, ele e seus amigos também! Que sempre
teve as proteção deles!
SARARÁ
- (Tempo. Outro tom)
Tou ficando velho, Tião. Pior do que isso:
conhecido demais por todas as coisas que já fiz .
Não sabe uma escova de dente? A gente usa, usa um
bocado, depois vai ficando velha, não serve mais. Não tem
conserto! O jeito é arranjar outra. É assim com a gente,
Tião. (Tempo) Pela primeira vez tou me
sentindo acuado, feito bicho de caça, com os cachorros em
cima, volteando, sem dá brecha prá escapar... Nunca senti
isso antes! Acho que é o peso da idade. (Tempo)
Você, não! Ainda é limpo na polícia, nunca ninguém
desconfiou de nada. E o Chico, nem se fala!
CHICO
- É Sarará, mas tem uma coisa: se você tá marcado prá
morrer, eu e o Tião também ! A gente tá aqui tudo junto,
não iam queimar só você! Então eles vão deixar nós
dois em paz? O melhor é dá o fora enquanto é tempo.
TIÃO
- Não vejo razão! (Encarando Chico)
Eu não sei por que você começou essa confusão toda. Você não
pode acusar ninguém sem ter certeza.
CHICO
- Pois eu vou dá uma certeza, uma coisa que está
preocupando Sarará: o dinheiro! Sabe por que o
Doutor não mandou logo o dinheiro da gente? Prá gente
não dá o fora daqui! Com o dinheiro no bolso a gente
podia criar asas! Essa mixaria que você trouxe, Tião,
foi só prá enganar. Eu só tou ainda aqui, porque não
tenho dinheiro.
TIÃO
- Isso é invenção! Não acredito...
CHICO
- Você acredita se quiser, o problema é seu. Agora eu,
acredito, e vou embora, mesmo sem dinheiro!
TIÃO
- Nada disso! A gente começou junto e vai terminar
junto. Tenho certeza de que o Doutor ainda vai
precisar...
CHICO
- (Cortando) - Vai precisar que nada!
Tendo dinheiro prá pagar, aparece uma danação de gente.
Dinheiro! Todas as garantias! Vida boa! Quem é que não
quer? (Tempo) Pergunte aí a Sarará, foi
ele quem me peitou. Pergunte o que ele me
prometeu! (Imitando Sarará)
Você vai ter vida folgada, roupa boa, pode gastar dinheiro
na zona e pode até estudar! (Outro tom)
Quem não cai nessa?! (Tempo) Não vai
faltar nunca! Sempre vai ter quem queira esse
negócio. Por isso, quando o Doutor precisar, é só
mandar procurar mais um, é só mandar peitar mais um
SARARÁ
- Só tratei com você porque você não era nenhum
santinho. Tá esquecido do que você aprontava nas
vaquejadas?
CHICO
- Coisa de cachaça!
SARARÁ
- No meio da nossa conversa eu tive vontade de desistir,
achava você muito menino, mas você não deu tempo, foi logo
aceitando...
CHICO
- Claro! Qualquer um topava logo , sem pensar em nada! Por
aquele dinheiro todo? Não tinha o que pensar! Nem eu
trabalhando um mês todinho! Que um mês que nada! Bota
tempo nisso! Todo cristão aceitava.
TIÃO
- Nisso eu acho que você tem razão. Agora, o negócio do
dinheiro que o Doutor não mandou, é coisa da tua cabeça.
Não existe nada disso e no fim vai dar tudo certo.
CHICO
- Vai mesmo? (Com desconfiança)
Você tá confiante demais! Não será que está sabendo de
coisa que gente não sabe ainda? Essa defesa toda! Essa
confiança toda lá no Doutor. Eu, hem? Isso tem coisa!
TIÃO
- (Agressivo) O que é que você tá querendo
dizer, seu filho da puta? Quer me acusar de traidor, é?
CHICO
- (Desafiando) E quem vai me garantir quer
você não é? É isso mesmo. Há bem meia hora que você
não faz outra coisa! Só defender o Doutor! Quem sabe se...
TIÃO - (Ataca Chico com um soco.
Chico defende-se e entra em luta corporal
com seu agressor)
Miserável! Você agora vai apreender a não levantar
falso, seu moleque atrevido. Vou acabar com a sua
valentia!
SARARÁ
- (Impondo-se, gritando
e apontando o
revólver para os
dois) Parem com isso! Parem, ou eu atiro
nos dois! (Cessam a
briga e Tião
levanta-se) Vocês ficaram loucos?
CHICO
- (Ainda no chão)
Foi ele quem começou!
TIÃO
- Esse cachorro não podia...
SARARÁ -(Cortando, com
energia) Chega! Isso não resolve nada! (Tempo)
Eu podia ter matado os dois. Tava fácil prá mim! Mas
aqui não tem nenhum traidor, viu Chico? (Tempo.
Para Tião) E você também não
pode ficar aí achando que tá tudo bem, porque não
está não! (Tempo. Expectativa)
Chico tem razão. Tem coisa errada aí e essa do dinheiro é
uma. A gente precisa pensar no que vai fazer. Brigar não
resolve nada. Se a gente tá marcado, brigar só é bom pros
homens que vierem nos pegar, porque assim fica mais fácil
prá eles: a gente mata a gente mesmo e o Doutor não
vai precisar mandar fazer mais nada!
CHICO
- O melhor é dá o fora.
SARARÁ
- (Cortando) Também não. Prá onde? E com que
dinheiro? Depois, se querem mesmo acabar com a gente...
CHICO
- Então a gente tá numa enrascada, não é? Você acha isso?
SARARÁ
- Não sei, não sei... Mas pode ser. Pode ser!
TIÃO
- Se teu pensamento tá certo o que vamos fazer?
SARARÁ
- A gente precisa se preparar direitinho, não fugir,
porque não adianta, e ficar aqui esperando por eles. Aqui a
gente tá junto, mais fortes. Aqui a gente pode ganhar a
parada! É a única saída!
CHICO
- E como a gente vai saber os pensamentos do Doutor?
Repare: se ele resolveu queimar os três e juntou os três
aqui, é porque a coisa vai ser aqui mesmo! (Empunha
o revólver com
rapidez, o mesmo
fazendo Sarará e
Tião) E já pode até...
SARARÁ
- (Falando baixo e
procurando escutar) Você tem
razão!
TIÃO
- Você acha que vão cercar a gente? (Sarará
faz sinal pedindo
silêncio. Durante algum tempo, todos
procuram perceber algum barulho fora do
esconderijo).
CHICO
- (Sussurrando) Aqui dentro a gente não vai
resolver nada. Vou olhar lá fora!
TIÃO
- (Também falando baixo)
Se cercaram, o primeiro que aparecer nessa porta leva
chumbo! Tem que haver outro jeito.
CHICO
- Qual? Ficar aqui esperando? A gente vai agüentar isso?
SARARÁ
- Calma! Não adianta ficar apavorado porque é pior.
Vamos pensar no que vamos fazer. Se o Doutor mandou
fazer o serviço, Tião tem razão: o primeiro que botar a
cara nessa porta, fica sem ela! Se for a polícia...
CHICO
- Polícia?!
SARARÁ
- Sim! Pode ser. Entregar a gente!
TIÃO
- Não posso acreditar nisso! O Doutor não havia de
querer a gente na cadeia. A gente preso é perigoso para
ele! E se tivesse polícia por aqui , já tinham dado voz
de prisão!
SARARÁ
- Lá isso é verdade. Se quem vem é a polícia, é
sinal de que não chegou ainda. Tem tempo de se pensar em
alguma coisa.
CHICO
- Preso nunca! Nessa eu não caio Não agüento levar pisa
de macho nenhum! Prefiro morrer de outro jeito!
TIÃO
- Não adianta ficar aqui discutindo coisa que não se
sabe se é certo, não é? Aqui dentro ninguém resolve nada.
(Tempo ) Olha, a gente tem que arriscar,
tem que sair. Eu vou abrir a porta para ver o que acontece.
SARARÁ
- Espera, Tião. Vai com calma! Abra, mas com todo cuidado.
Abra sem aparecer na porta.
TIÃO - (Abre a porta, procurando
colocar-se de forma que não seja atingido por
um eventual tiro
vindo de fora.
Tempo. Nada acontece.)
E agora?
CHICO
- (Tenso, num canto
da cena, de
onde não vê a
porta) Já? Já abriu?
TIÃO
- Já.
CHICO
- E por que?...
SARARÁ
- (Cortando) Silêncio! Vamos esperar um pouco.
CHICO
- (Num crescente
nervosismo) Esperar o que?
TIÃO
- Tenha calma, Chico! Deixa a vista acostumar com o
escuro. (Tempo) Até agora não ouvi nada.
Parece que não tem ninguém lá fora!
SARARÁ
- Não é bom arriscar. Eles podem só tá esperando um
aparecer.
CHICO
- E a gente vai ficar aqui sem fazer nada, é? Eu não vou
agüentar isso! Eu vou sair!
SARARÁ
- Você é louco? Fique aí mesmo e cale essa matraca. Pare
de afoiteza. Pode acabar lascando os três!
CHICO
- Eu não tenho é medo! Você tá aí tremendo por causa de
uma coisa que não vê e nem sabe se existe!
TIÃO
- Pare com isso, Chico! Quer complicar mais ainda?
CHICO
- (Explode gritando) Não se
meta você também! (Precipita-se
em direção à
porta, atirando e
gritando ao mesmo
tempo) Apareçam, seus merdas! Aqui tem macho!
TIÃO
- (Joga-se e segura
Chico pelas pernas.
Caem os dois) Pare
com isso, seu porra! Pare com esses tiros! Não tá vendo a
merda que...
SARARÁ
- (Por conta da
ação entre os
dois, acaba ficando
sob a moldura
da porta. Vai a Chico e pisa na arma dele,
prendendo-a ao chão) Esperem! Não existe ninguém
lá fora! (Volta à porta)
Olhem aqui. Estou na porta e ninguém atirou.
Se tivesse alguém lá fora, nenhum de nós tava mais
vivo!
TIÃO
- (Recompondo-se) Será que os
tiros foram ouvidos? Agora piorou tudo!
(Enquanto fala procura ficar em pé. Chico
também levanta-se e vai para fora do esconderijo).
SARARÁ
- Só se passou algum carro lá em baixo. É preciso
controlar esse menino. Outra besteira dessa...
CHICO
- (Voltando) É... Tudo em ordem lá fora. (Fecha
a porta).
SARARÁ
- Isso eu já sabia.
CHICO
- (Ainda nervoso) Mas ninguém tá
livre de ser queimado não!
SARARÁ
- Isso eu também sei! Não se pode mais facilitar. O tempo tá
passando e daqui há pouco chega a hora que marcaram.
TIÃO
- Eu ainda acho que a gente está se preocupando à toa.
CHICO
- Que garantia você dá?
TIÃO
- Tá bem! Eu não posso garantir nada. E o que se vai fazer,
então?
SARARÁ
- Esperar que o carro chegue. (Tempo) Fica
um lá fora, perto da rodagem, escondido, num lugar onde se
possa avistar o carro. Vindo prá queimar, vem muita gente.
O Doutor não vai se arriscar. Então, quem tiver na espreita,
volta correndo para avisar. Daqui de dentro é melhor prá
gente. Eles vão ter uma surpresa! (Tempo) E
munição?
TIÃO
- Tenho bastante. Tá na bolsa. E quem vai ficar de vigia?
SARARÁ
- Qualquer um. Vamos tirar a sorte?
CHICO
- Precisa não. Eu fico. Eu corro mais do que vocês! E tenho
a vista boa. Lá fora está escuro.
TIÃO
- Ih! Tão interessado! Não será que tá querendo dá no pé?
CHICO
- (Reagindo) Olhe aqui seu...
SARARÁ
- Parem com isso! A situação é séria! (Tempo).
TIÃO
- Tá bem, Chico. Vá você.
SARARÁ
- Assim é melhor. (Para Chico) O
aviso é?...
CHICO
- (Apressando-se) Quatro
apitos! O carro chega, pára. Apita quatro vezes.
SARARÁ
- É isso mesmo. Pois bem: mesmo que só venha no carro o
motorista, a gente vai com todo cuidado, porque pode ter
gente escondida por perto, pode ter saltado do carro
antes. Agora, se com o motorista tiver vindo mais
alguém, volte correndo. A gente não conta mais
conversa: é luta aberta mesmo! É prá matar todos! Eles
não sabem que a gente sabe! Por isso, se tem alguma
vantagem. A gente sai dessa enrascada. Isso eu
garanto! Os três juntos. (Outro tom)
Vai logo, Chico. Cuida da tua parte.
CHICO
- (Abrindo a porta
e saindo com
cuidado) Qualquer coisa, volto correndo.
SARARÁ
- (Dá alguns passos
pelo esconderijo. Pára.
Tempo) Sabe de uma coisa?
TIÃO
- Diga.
SARARÁ
- Já acredito que o Doutor vai mesmo mandar queimar a gente!
Não falei na frente de Chico, prá não espantar mais ainda!
TIÃO
- Por que essa certeza toda?
SARARÁ
- Olhe aqui: quando terminou o serviço lá na praia ele
mandou dizer que ninguém se preocupasse, porque um cara
ia levar a culpa de tudo, não foi? (Tião
confirma) E não aconteceu? O cara chegou até a
confessar o que não tinha feito, quando a polícia deu um
aperto nele. Tudo certinho! Então começaram a mexer prá
cá, a mexer prá lá, os jornais, o rádio, terminaram
descobrindo que o otário era inocente.
TIÃO
- Eu achava uma graça danada lá no bar da
rodoviária, com todo mundo bancando investigador, dando
pitaco, quem foi, quem não foi, e eu ali, no meio deles,
sem eles saberem de nada! Sabe que teve uma hora que veio
uma vontade de chamar todo mundo de burro!
SARARÁ
- Deixa isso prá lá! Quando a situação começou a
engrossar, apareceram uns advogados para defender o
miserável que estava levando a culpa toda.
Terminaram provando que a polícia o tinha obrigado a
confessar uma mentira. A história que você já sabe. Aí
Vicente mandou me chamar e contou a situação... (Sai
a luz).
CENA XVII - (Doutor e Sarará)
DOUTOR
- Estou muito preocupado com o rumo que as coisas estão
tomando.
SARARÁ
- Mas eu não tenho culpa!
DOUTOR
-(Cortando) Escute! Não interrompa, por favor.
(Tempo) A situação já chega a preocupar. É
bem possível que você precise desaparecer por uns
tempos, se esconder.
SARARÁ
- Eu acho que tá certo. Pode deixar. Eu tenho onde
me amoitar. Ninguém precisa ficar preocupado.
DOUTOR
- E onde é esse lugar, Sarará?
SARARÁ
- Bem, é um lugar aí... Tenho um amigo que pode me guardar.
É um lugar seguro.
DOUTOR
- Não, Sarará. Não serve. É preciso que seja um lugar que eu
conheça e que também possam ficar Tião e Chico.
SARARÁ
- Mas eles estão limpos. Não são nem conhecidos!
DOUTOR
- Precisamos estar prevenidos, Sarará. Ninguém sabe
o que vai acontecer! Existe um sítio abandonado aqui
perto. É de um amigo meu. Aumentando as suspeitas
sobre você e se a polícia começar a lhe procurar, você
vai para lá. É por pouco tempo. Até as coisas
esfriarem. Você estando lá, fica mais fácil para lhe ajudar.
Mandar você, agora, para longe, não dá certo. Vai
chamar a atenção. De ônibus ou de avião, tem
sempre alguém vigiando. Quanto ao dinheiro de
vocês, está sendo providenciado. Assim que estiver
pronto, mando entregar.
SARARÁ
- Como o senhor achar melhor, Doutor. Qualquer coisa, o
senhor sabe como me avisar. (Sai a
luz).
CENA XVIII (Esconderijo)
SARARÁ
- Então, olhe. Se é de mim que desconfiam, só de mim, para
que vocês dois estão aqui? Vamos! Diga! Outra coisa: e o
nosso dinheiro? Por que o Doutor não mandou logo? Ele
nunca foi assim! Sempre que terminava um serviço, ele
pagava logo! Por que isso agora? Não dá prá desconfiar
não?
TIÃO
- Realmente, Sarará, essas perguntas deixam a gente meio na
dúvida...
SARARÁ
- Bote dúvida nisso! Tá me deixando é com muito medo!
TIÃO
- Não tem quem não fique!
SARARÁ - (Liga o rádio.
Programa “A Voz do Brasil”. Noticiário sobre as
atividades do Congresso
Nacional) Ainda não deu oito horas. (Tempo)
Se tão querendo enganar, vão chegar antes da hora
marcada.
TIÃO
- Qualquer coisa, Chico volta correndo. (Durante
algum tempo os
dois examinam as armas, enquanto
continua a transmissão do noticiário.
Procuram acomodar-se da melhor maneira
no esconderijo. Tempo).
SARARÁ
- O filho do Doutor vive lá!
TIÃO
- Onde?
SARARÁ
- É deputado. Lá em Brasília.
TIÃO
- Ah, sim!
SARARÁ
- Vida boa! Não tem risco, não faz força, só
mandando! Deve ser muito do bom! (Tempo)
E ele não queria ir não. Foi na marra, porque o
pai obrigou. Ficou escondido na fazenda e quando veio
a eleição ganhou prá deputado. E federal!
Agora tá livre qualquer problema, não é?
Deputado não é preso! (Tempo) Negócio
de muamba! Muita grana! Fumo, posinho e outras
coisas que eu nem sei... Eu não manjo essas coisas
direito. Nunca me meti nisso!
TIÃO
- Nem eu! Negócio que mexe com a polícia federal, não
quero saber. Prefiro uma caninha da boa, daquela que o
rosário demora! (Outro tom) E
na tal festa da irmã dele, tinha maconha?
SARARÁ
- Ora se tinha! Tinha tudo. (Tempo) Sabe que
agora eu tou com raiva do garoto! Se ele não tivesse saído
boatando, já tava tudo esquecido e a gente não tinha se
metido nisso.
TIÃO
- O cara era um meninão mesmo!
SARARÁ
- Morreu porque falava demais. (Tempo) Tá com
pena, agora?
TIÃO
- Eu, não! Foi trabalho mais fácil que já fiz...(Tempo)
Como você sabe de todas essas coisas, Sarará? Foi o Doutor
que disse?
SARARÁ
- Não! Meu negócio com o Doutor é assim: ele diz o que
quer que eu faça e eu faço sem perguntar nada. Nem
quero saber! Vicente é quem me conta tudo, quando a
gente se encontra prá tomar umas e outras.
TIÃO
- Você confia muito nesse Vicente, não é?
SARARÁ
- Confio! Já faz dois anos que a gente é amigo. Prá torar!
(Tempo) Lá não tem nenhum pobre.
TIÃO
- Onde?
SARARÁ
- Lá em Brasília. Também não podia! O dinheirão que se
gasta prá arranjar voto. Como um pobre podia?
TIÃO
- Quem t e vê falando, nunca vai pensar que tu é alugado
dos ricos! Tu já matou alguém a mandado de pobre? Ou alguém
rico?
SARARÁ
- E esse que a gente acabou com ele agora, era pobre, era?
TIÃO
- Também não tinha essas riquezas todas não!
SARARÁ
- É mesmo...(Tempo) Tem saída não! Como era
que um pobre ia poder pagar? A gente não se arrisca
por porcaria.. .(Outro tom)
Pobre quando precisa, vai. Não manda não. Pobre tem
mais honra, tem mais respeito, tem mais vergonha na cara.
TIÃO
- Quando não é um frouxo, como aquele repórter!
SARARÁ
- Êpa! E Vicente?
TIÃO
- O que é que tem Vicente?
SARARÁ
- Já é quase a hora dele procurar o Doutor! Esse carro
não chega, eu não avisei nada. Agora não tem mais jeito! (Sai
a luz).
CENA XIX (Vicente e Doutor)
VICENTE
- Portador não merece pancada! O senhor sabe: o Sarará me
procurou e pediu esse favor. Não pude negar. Eu poderia me
sair mal se não o atendesse. O senhor conhece a fera!
DOUTOR-
Ele não precisava fazer isso. Mas vamos ao que interessa.
Já notei que você parece mais estar pedindo desculpas por
alguma coisa, do que está sendo portador de uma ameaça!
VICENTE
- De Sarará! Vim, mesmo a contra gosto, porque fiquei
com medo dele!
DOUTOR
- Tudo bem. Embora eu não acredite nisso!
VICENTE
- Doutor! Se o senhor não acredita, eu me retiro, não
se fala mais nisso. Finalmente eu não sou obrigado...
DOUTOR
- (Ríspido) Pare com essa besteira., que não
vai me impressionar. Ele não tem capacidade para
arquitetar uma coisa dessa. Sarará só sabe fazer o que se
manda.
VICENTE
- Eu repito. Ele me procurou dizendo: quero que você grave
uma fita para mim. Eu não sabia nem do que se tratava!
Fiquei sabendo na hora, quando ele fez a confissão.
Quando ele terminou, pegou a fita e se mandou, deixando o
recado para o senhor.
DOUTOR
- E a fita está com quem?
VICENTE
- Não sei. Eu só fiz a gravação! Ele levou não sei prá
onde, dizendo que ia ficar num lugar seguro. Doutor, eu vim
aqui para lhe ajudar! Não tenho nada com isso! Sarará
disse: se eu não telefonar amanhã, procure o Doutor e
conte o que eu fiz.
DOUTOR
- Vou admitir que você está falando a verdade. E o que é
que você quer?
VICENTE
- Ele disse que se acontecesse alguma coisa...
DOUTOR
- (Cortando) Isso eu já sei! Quero saber você.
O que é que você quer?
VICENTE
- Nada, Doutor! Só a sua amizade. O problema não sou eu, é
Sarará! Só ele sabe onde está essa fita. (Outro
tom) Que é isso, Doutor? Eu não sou
chantagista! Estou aqui muito mais por medo! O
senhor sabe como ele é. Depois, também por gratidão.
Eu devia a ele aquela história da surra, o senhor sabe!
DOUTOR
- Está bem. Eu não tinha e não tenho a intenção de fazer
alguma coisa contra Sarará, ele pode ficar tranqüilo.
Quanto a você, acho que está com uma bomba relógio nas
mãos, que pode explodir a qualquer momento!
VICENTE
- Eu não, Doutor! Juro que a fita não está comigo!
DOUTOR
- Não refiro-me à fita. Estou falando do testemunho. Você
é a única pessoa, além de mim e de Sarará, que sabe
da existência dessa fita. Você é a única testemunha da
gravação. Você está sabendo muito! Se essa fita aparece em
algum lugar, a coisa complica prá você. Só você pode
confirmar que a gravação é verdadeira!
VICENTE
- (Um tanto preocupado)
Mas, Doutor! Eu fui obrigado!
DOUTOR
- Eu entendo. Mas eu acho que você devia
procurar Sarará e convencê-lo a lhe entregar a fita.
Estando com você, todos ficariam mais tranqüilos.
Sarará é muito afobado, pode se meter numa confusão
qualquer e, por azar, chegar a morrer. Já pensou nisso? Aí
essa fita aparece não sei onde e fica tudo mais complicado.
Vai ser um salve-se quem puder!
VICENTE
- Mas eu não sei onde ele está! Como vou encontrá-lo? O
senhor sabe?
DOUTOR
- Não. Não tenho a menor idéia! Mas vamos pensar juntos.
Pode ser que a gente descubra alguma saída. (Tempo)
O melhor é sairmos. Vamos até ao escritório, porque
lá podemos conversar mais à vontade! Aqui podem chegar a
minha mulher ou a minha filha, e eu não quero
envolvê-las, você sabe. Lá podemos tomar um
uisquizinho, do bom, sem sermos incomodados! Vamos
juntos resolver tudo, que eu lhe vou ficar muito
agradecido.
VICENTE
- Não vou, doutor. Eu não sei onde anda essa fita. Só o
Sarará sabe. Portanto, eu não tenho mais o que
conversar com o senhor. Cumpri a minha parte no acordo que
fiz com ele. E o senhor fique sabendo, doutor. Se eu
estivesse com essa fita ou sabendo onde ela estava, eu não
iria entregar nem dizer ao senhor onde ela foi guardada.
Agora, se o senhor descobrir onde está Sarará, eu posso
falar com ele. É só me avisar. O senhor sabe onde me
encontrar. (A luz cai
em resistência com
as últimas palavras
de Vicente).
CENA XX (Esconderijo)
SARARÁ
- Depois que se começa nesse negócio, não se pode mais
parar. Se a gente não aceitar, vem outro e aceita.
Nunca falta! Pior: mandam acabar com quem recusa um
serviço. É o azar de quem começa!
TIÃO
- Pois eu vou parar com essa vida. Vou mesmo!
SARARÁ
- Acho difícil.
TIÃO
- Difícil ou não, eu já resolvi: vou parar. (Tempo)
Os homens tão querendo demais.
SARARÁ
- O que é que você tá querendo dizer?
TIÃO
- Nada... Isso aí que você disse. É uma morte atrás
da outra, sem descanso. O dinheiro é bom, mas o risco é
cada vez maior.
SARARÁ
- E você queria que o dinheiro chegasse de graça, era?
TIÃO
- Não é isso! Mas podia ser diferente. Se fazia um
serviço, dava um tempo grande prá gente ser chamado de
novo. Enquanto isso se trabalhava noutra coisa. Eu, sou
motorista.
SARARÁ
- O Doutor ia pagar o dinheiro que te paga, só prá dirigir
carro? Sabe quanto eu ganho como cabo de polícia
reformado? E Chico? Sabe quanto recebe um peão lá na
fazenda? Um rádio desse aqui, antes, eu nunca pude comprar.
Era doido prá ter um...
TIÃO
- (De chofre, cortando)
- E se fosse prá matar um amigo teu? Um cara assim como
eu, igual a tu? Ou um cara como Vicente, teu amigo lá da
rádio?
SARARÁ
- (Surpreso) Besteira, Tião! Isso o Doutor não
mandava fazer nunca.
TIÃO
- E se mandasse?
SARARÁ
- Ora, Tião, o Doutor não ia confiar.(Tempo)
Por que você está fazendo essas perguntas? (
Desconfiado ) O que é que está havendo?! O
Doutor...
TIÃO
- (Apressa-se a
explicar) Não é nada, cara! Eu estava
perguntando porque se for verdade o que você está
pensando, que o Doutor vai mandar queimar a gente,
quem vem deve ser gente igual a gente, não é? Eu só
estava querendo saber. Você é meu amigo e pode muito bem
me responder, não é nada demais! Eu mesmo, acho que
não tinha coragem de matar um amigo, mesmo obrigado.
SARARÁ
- Isso não tem nada com coragem, Tião. É a luta pela vida!
Você disse que não tinha coragem de matar um amigo. E se
o Doutor mandar algum amigo apagar a gente, você não vai
se defender?
TIÃO
- Assim é diferente!
SARARÁ
- É a mesma coisa! E se você tivesse lá, do outro lado,
mesmo sendo meu amigo você ia dizer ao Doutor que não
topava?
TIÃO
- E você? Se um dia mandarem você acabar comigo, você faz
isso?
SARARÁ
- É danado! Você só responde as coisas com outra
pergunta! Por que não responde também?
TIÃO
- Eu perguntei primeiro!
SARARÁ
-(Querendo encerrar o
assunto) Bem, eu não sei... Ia depender!
Mas vamos parar com essa conversa que tá ficando chata. A
gente já tem muitos problemas pela frente e é melhor
pensar neles!
TIÃO
- Está certo. Eu perguntei só por perguntar... (Permanece
calado durante algum
tempo, como quem está pensando no que acaba de
ouvir. Sarará.,
percebendo a situação, procura explicar).
SARARÁ
- Olhe, Tião. Nunca vai acontecer uma coisa essa com
a gente. O Doutor nunca fez isso!
TIÃO
- Nunca mandou queimar ninguém?
SARARÁ
- Por mim, nunca!
TIÃO - (Vai até a porta e a
abre. Fica observando o exterior da cena, por um
tempo) O pior é essa demora. Já faz quase
uma hora que estamos aqui, não é?
SARARÁ
- Não precisa se preocupar. De um jeito ou de
outro, o carro vai chegar. Principalmente agora, que
Vicente já deve ter falado com o Doutor!
TIÃO
- Eu duvido muito de que esse Vicente tenha tido peito para
enfrentar o Doutor. Ele não é doido!
SARARÁ
- Tem porque ele não gosta do Doutor. Ele sabe que foi o
Doutor quem mandou dar a surra nele!
TIÃO
- Mesmo assim. Você confia demais!
SARARÁ
- Se eu não confiar numa pessoa que sempre foi legal
comigo, numa pessoa que me ajuda, que se preocupa
comigo, eu vou confiar em quem? Eu confio nele,
confio em você e em Chico, que vivem do mesmo jeito
que eu vivo!
TIÃO
- Mas antes você confiava lá no Doutor!
SARARÁ
- Não sei não! Pode até ser. Estava pagando a ajuda
que ele me deu quando eu precisei. Mas agora eu já
paguei. Era mais gratidão do que confiança., sabe! Com
o tempo a gente descobre que não vale muita coisa. Só para
fazer esses serviços.
TIÃO
- (Pressentindo alguma
coisa) Espere! (Ouve-se
o barulho de
um carro aproximando-se)
Deve ser o carro!
SARARÁ
-(Com rapidez, tira
o revólver da
cintura) Prepare-se!(Tião
também empunha seu revólver. Sarará vai até à
porta, encostando-a) Se Chico voltar correndo,
a porta já está destrancada. (Ouve-se
o barulho de
um carro parando
e, em seguida,
quatro apitos).
TIÃO
- É o sinal!
SARARÁ
- (Com a arma apontando para a porta,
impacientando-se) Chico está demorando!
Por que não vem logo? (Tião nada
responde e recua,
distanciando-se um
pouco de Sarará)
Tem coisa errada! Prepare-se, Tião! Tem coisa errada!.
TIÃO
- (Gritando) Vire-se, Sarará! Fique de frente!
SARARÁ
-(Volta-se e
recebe vários tiros
detonados por Tião)
Você?!... (Cai, sem conseguir
revidar, mesmo assim disparando a arma para o chão.
Tempo. Tião permanece imóvel.
Entra Chico, conduzindo uma lata).
CHICO
- O que foi que houve? Ouvi uma danação de tiros...
Você está bem? (Vendo Sarará
morto) Como é que foi?
TIÃO
- Fácil, o velho não esperava! Foi o carro
buzinar, ele ficar todo alvoroçado porque você não
voltava logo. Tomou um susto danado quando me viu
apontando o revólver !
CHICO
- Ele viu?
TIÃO
- Não tive coragem de atirar nas costas. Achei covardia.
CHICO
- Você arriscou-se muito!
TIÃO
- Na hora não teve outro jeito. Ele era meu amigo!
CHICO
- A gente não tinha escolha. Era ele ou a gente!
TIÃO
- Eu gostava do velho. Tinha umas besteiras, queria
entender de tudo mais do que os outros, mas era um homem
corajoso e amigo. Por isso atirei de frente!
CHICO-
Agora já acabou tudo...(Entregando-lhe
a lata) Tome a gasolina,
espalhe na casa. Vamos fazer o resto depressa. Os homens
estão esperando lá em baixo. (Vai ao
morto, tira-lhe
a arma. Em
seguida pega o
rádio).
TIÃO
- Vai levar?
CHICO
- Prá que deixar? Não vai servir mais prá ele! Adianta
deixar aqui só prá se queimar?
TIÃO
- É coisa de gente morta! É melhor deixar aqui.
CHICO
- Os homens disseram prá não deixar nada. São ordens do
Doutor!
TIÃO
- E a história daquele Vicente? Mandou avisar ao Doutor?
CHICO
- Eu, não! Aquilo devia ser papo furado de Sarará!
(Tião continua
espalhando a gasolina. Chico recua, aponta a arma
para as costas de Tião e atira seguidamente. Tião ainda
volta-se antes de cair morto. Chico vai até à porta,
faz um sinal e volta até Tião, tirando-lhe
também o revólver) Você também tava
conhecido demais para continuar vivo! O Doutor vai
ficar satisfeito, vai ficar sabendo que eu sou bom de
serviço.. (Tira do bolso
uma caixa de
fósforo. Vai até
a porta e
volta-se) Sarará! Agora eu serei o
novo capataz da fazenda ! (Risca um
fósforo e recebe
uma rajada de
metralhadora vinda de
fora. Cai morto.
Corte rápido de
luz).
CENA FINAL - (Estúdio de uma emissora de rádio)
VICENTE
- (Ao microfone, fazendo
o noticiário) Atenção, muita
atenção! Aqui vos fala o repórter Vicente Ernesto, em
edição extraordinária do programa “Nas Malhas da
Lei”. E atenção que a notícia é muito importante
para todas as pessoas de bem desta cidade! (Música
apelativa sobe e desce em seguida) - Briga
entre quadrilhas foi a causa da morte de três
marginais, cujos corpos foram encontrados
pelos valorosos soldados do fogo, quando
tentavam debelar um incêndio no matagal de um
sítio existente na periferia da cidade. Os corpos
estavam entre os escombros de uma cabana existente,
totalmente destruída pelas chamas, onde os
bombeiros acham que tenha começado o sinistro. Já no
IML, para onde foram transportados, um dos corpos
foi identificado como sendo do cabo reformado da
polícia militar, José Belarmino, vulgo Sarará. Dos
outros dois, a polícia não tem a menor pista de quem
sejam. A identificação do cabo Sarará só foi
possível devido as informações existentes na sua ficha
policial. Com a morte do cabo Sarará, a sociedade
livra-se de um perigoso e cruel bandido,
assassino de aluguel e responsável por vários crimes.
Teve o fim merecido e, com as graças de Deus, esse deverá
ser o fim de todos que nascem com o instinto
incontrolável para fazer o mal. Hoje é dia de festa para
os homens de bem... (Ao aproximar-se
o final da
fala, caem, gradativamente,
som e luz.
PANO). |