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W. J. Solha

 

BEZERRA DE MENEZES

O milagre de bilheteria

 

            Há cerca de ano e meio pediram-me fotos e currículo  para escolha do ator que faria o médium cearense no longa-metragem “Bezerra de Menezes: o Diário de um Espírito”, de Glauber Filho e Joe Pimentel. Algum tempo depois, vi o trailer do longa-metragem na Internet, Carlos Vereza no papel-título, dei o caso por encerrado. Mas eis que um dia recebo telefonema dizendo-me que me queriam para o papel de Freire Alemão, grande botânico, médico de Pedro II e um dos professores do futuro líder espírita quando estudante na Faculdade de Medicina do Rio.

            - Mas o filme já não foi rodado?

            - Em parte.

- Mas se até o trailer dele já vi!

            - Bem, a ONG espírita Estação da Luz, que o está produzindo, e a Fox Filmes do Brasil, que lhe irá fazer a distribuição, ao darem com um documentário entremeado de poucas seqüências encenadas, um docudrama, não o aceitaram e exigiram que a película ganhasse  aspecto de filme de ficção.

Recebi os fragmentos de roteiro com os enxertos de que eu e outros paraibanos participaríamos - Fernando Teixeira, Everaldo Pontes, Tarcísio Pereira e João Dantas. Não gostei do texto, mas nada se podia fazer, pois o trato estava feito. Cabia, a cada um de nós, apenas uma cena, a minha no Recife, mas cheguei a consultar o Prof. José Mourão, da Universidade Estadual de Campina Grande, sobre a pronúncia correta de vários nomes científicos, que existiam numa de minhas poucas falas, para fazer o melhor que podia. Ao chegar, no entanto,  à sala de aula em que deveria atuar, surpreendi-me com sua forma de anfiteatro, e – já encantado com a Faculdade de Direito de Pernambuco (que é linda, com suas colunas art nouveau em ferro, e que iria passar por ser a Faculdade de Medicina do Rio ) - rendi-me aos méritos da produção. O guarda-roupa – meu e de cerca de vinte rapazes que seriam meus alunos (incluindo o jovem Bezerra de Menezes) – era perfeito, como estavam perfeitos todos os detalhes de meu grande birô sobre o estrado alto, bem como a parafernália de objetos de uma antiga aula de botânica em cima da mesa, incluindo um maracujá com nome latino no vidro que o continha, mais a monografia escrita pelo estudante nordestino, que me cabia argüir. Lembrei-me de minha distante infância, no colégio de Sorocaba, com aquelas mesmas carteiras escolares dotadas de um buraco circular para encaixe do tinteiro ( que tínhamos de trazer de casa ), além da caneta com pena metálica e cabo de madeira. Tudo perfeito. Ao final da filmagem, recebi aplauso entusiástico de toda a equipe e dos figurantes, o que – aliás – devia ser praxe no grupo.

Aí, seis meses depois, eis que o filme chega de súbito, com suas contradições. Como há seis anos trabalhei no longa “Lua Cambará”, do Rosemberg Cariry, ainda inédito nos cinemas, espantei-me de ver o “Bezerra de Menezes” tão depressa distribuído simultaneamente em todo o Brasil, com a razão óbvia: estréias movidas a caravanas com muitos dos milhões de espíritas. Fui vê-lo numa sessão lotada, no Manaíra, e constatei, abatido, que não estava gostando nada do que via, mas assisti, impressionado, às reações altamente positivas à minha volta. O público, na maioria religioso, comovia-se com a bondade extrema do médico e deputado federal abolicionista cearense, que desafiara as leis da época ao aderir ao espiritismo, cuja prática era considerada crime. Não só os fiéis, entretanto, deixaram-se levar pela narrativa. Fernando Teixeira, no fim da sessão, me disse ter achado tudo muito bonito, e o Tarcísio Pereira publicou artigo em O Norte, elogiando “O Diário de um Espírito” com entusiasmo. 

A Veja de São Paulo, porém, fez uma crítica contundente:

- “Bezerra de Menezes ganha uma medonha cinebiografia. Embora haja certo cuidado na recriação de época,. todo o resto tem traços toscos, das interpretações impostadas até o roteiro, que ora é didático, ora artificial. Até mesmo o empenhado Carlos Vereza erra feio”.

Marcelo Marthe, na sessão de cinema da Veja nacional deste último 24 de setembro, no comentário intitulado “Sessão Espírita”, também desce o malho: diz que se trata de uma produção histórica mambembe, que – embora tenha apenas 75 minutos - dura uma eternidade.

- Ainda assim – continua -, o filme surpreende nas bilheterias, deixando para trás lançamentos nacionais como “Os Desafinados”, que traz famosos como Rodrigo Santoro no elenco, e teve 120 mil espectadores desde a estréia.

O fenômeno acontece num momento, diz o  Estadão em artigo intitulado “O Êxito de Bezerra de Menezes vai na Contramão”, em que a participação do cinema brasileiro no nosso mercado encolheu – de 2003 para cá – de 22 para 6%.. O Globo também destaca “O filme  que surpreendeu o mercado”, descobrindo que as maiores lotações estavam ocorrendo nos dias com ingressos a preços menores, o que indicava que o comparecimento acontecia mais nas classes C e D, que não costumam freqüentar cinemas.

Esse é um dos mistérios da arte. O que para uns é maravilha, para outros, aberração. Miguel dos Santos chamou-me de imbecil ao ler um artigo em que eu falava da decepção que tivera ante os quadros de Goya em Madri. O que eu poderia fazer? A coisa não batera, sumindo-se o quadro “Fuzilamentos de 3 de Maio”, no meu entender, entre o gênio de uma “Natividade” de El Greco e um “Las Meninas”, de Velázquez. Quanto ao “Bezerra” ser tosco, não há filme mais rudimentar, no meu entender, do que o “Evangelho segundo Mateus”, de Pasolini, e é venerado pela crítica, embora não – paradoxalmente - pelo público. “Bezerra de Menezes” é um filme naïf. Como diz a sabedoria – também popular - ao bom entendedor meia palavra basta. Tela e platéia falaram a mesma língua e pronto, tal qual Lula e seu eleitorado. Não há escultura de Rodin de que uma mulher do povo queira, como quer uma imagenzinha de Iemanjá, de  Santo Antonio ou Nossa Senhora do Rosário.  Os espíritas viram Bezerra de Menezes no Carlos Vereza com sua enorme barba postiça e estamos conversados. Principalmente após a divulgação de que o espírito do médium aparecera no set, ao lado dele, durante as filmagens.

Vi, há poucos dias, o grandioso complexo formado pelos dois templos enormes que abraçam a Cova da Iria, em Fátima, Portugal, o mais novo deles com um mural, por trás do altar, de 500 metros quadrados de ouro e terracota, o maior painel em mosaico do mundo, e me perguntei: “A troco de quê? Da história de três pivetes do campo que disseram ter visto a Virgem fazendo profecias que, reveladas depois de tanto tempo e de tanta urucubaca, mostraram-se... nada. Menos para os fiéis. Pense em Joana d´Arc, a santa canonizada dos franceses, vista como bruxa na versão do  “Henrique VI,  3ª. parte”, de Shakespeare, com sua visão de inglês. Pense nos judeus ainda esperando pelo messias, quando o próprio Jesus já é um atraso ante o que diz Isaías 45.1: “Este é Ciro, meu Cristo!”. Pense na Patrícia Villar adorando Waldick Soriano.a ponto de rodar um documentário sobre ele. Que é que se pode fazer?

Aí está “Bezerra de Meneses: o Diário de um Espírito” fazendo sucesso. Não sei como ninguém pensou em rodar, antes, um longa sobre Chico Xavier, Tia Neiva, ou Zé Arigó. (13-10-2008)

 

 

SOBRE  LONDRES

          Primeiro deslumbramento:

            Sobrevoamos o norte da França, cheio de cordilheiras, cruzamos o Canal da Mancha e começamos a conhecer um outro planeta: do litoral até Londres, a cerca de 180 quilômetros, a Inglaterra é uma lavoura só, quadriculada em vários verdes, prenunciando a fartura sem tamanho que veríamos em seguida. Quando o Airbus da TAP  começou a descer para seu destino - o comandante português falando em “descolagem e aterragem” - vimos o milagre impossível para nós, brasileiros: a megalópole sem o menor sinal da existência de favelas, sequer de nossas minúsculas “casas populares”. Nas ruas, depois, constatamos o fenômeno maior, que foi o de não ver nenhum mendigo. O motorista espanhol, que nos levou para o aeroporto quando saíamos da cidade, uma semana depois, explicou:

- O salário mínimo, aqui,  gira em torno de mil libras mensais – quase três mil dólares – e o governo garante emprego e casa para todos. Quem, ainda assim, pede esmolas, é preso! E repatriado, se for estrangeiro.

Claro que não foi apenas a terra fértil, mas dois milênios de História que deram a Londres a sua grandeza. Não vimos – eu e minha mulher, Ione – nenhum monumento ao apóstolo das epístolas no adro da  Saint Paul´s Cathedral, a catedral de São Paulo. Em lugar dele, deparamo-nos com uma estátua da Rainha Ana, Queen Anne, a primeira soberana do chamado Reino da Grã-Bretanha, quando Irlanda e Escócia foram anexadas à Inglaterra.

Todos sabemos que Henrique VIII rompeu com a Igreja, fundando o anglicanismo, cujo chefe espiritual é, desde então, o rei. Mas o vínculo Poder e Fé inglês vai mais longe. Em torno da estátua de Queen Anne, demos – ao vivo - com uma multidão de velhos heróis militares com os peitos sobrecarregados de medalhas, aguardando uma cerimônia de três horas pelos seus mortos e pela própria glória obtida em combates por toda parte. Quando o templo ficou livre, nós - apesar de exaustos sexagenários, vasculhamos tudo, nele, inclusive os 259 degraus até o vão imenso que se abriu ante a varanda em torno do bocal do domo de assustadores 110 metros de altura, o segundo maior do mundo. Imagens de santos no gigantesco recinto? Nenhuma. Em lugar de altares, um grande ... cemitério... de grandes guerreiros da nobreza  britânica, todos em esculturas de corpo inteiro, em mármore, a começar pelo almirante Nelson,  pelo Duque de Wellington e pelo general Sir Isaac Brock. Junto do altar-mor, um memorial pelos aliados americanos mortos na Segunda Grande Guerra, outro pelos ingleses abatidos na Guerra do Golfo.

Mas é claro, também, que o esplendor britânico não provém apenas da força. Lá estavam túmulos e mais túmulos de grandes artistas como Turner, Samuel Johnson, Reynolds, Millais e John Donne,  Repetia-se, na catedral em que se casaram Charles e Diana, o mesmo que víramos na Westminster Abbey, a Abadia de Westminster, logo atrás do edifício do Parlamento, onde foram coroados e sepultados todos os reis ingleses. No belo gótico do edifício com seus arcobotantes e vitrais, víramos o exato e feio perfil de Elizabeth I – feito a partir de sua máscara mortuária – a grande rainha deitada, com seu espalhafatoso luxo, em cima da tumba, entre tumbas de vários outros reis que viveram antes e depois dela. E – mais adiante - lá estava o Poet´s Corner – o Recanto dos Poetas – com a estátua de Shakespeare em destaque, mais os memoriais de Chaucer, Milton, Wordsworth, Keats, Shelley, William Blake e, para minha surpresa, do americano do Missouri, naturalizado inglês, T. S. Eliot. Também lá estavam as sepulturas de Dickens, Kipling, Thomas Hardy, Sir Laurence Olivier, todos na boa companhia dos imensos Handel e Henry Purcell.

 Lembramo-nos, é claro, do nosso descaso à memória de Zé Lins e Augusto dos Anjos.

 

               Segundo deslumbramento:

               Mal chegamos a Londres, saímos à rua. Devidamente encasacados, cruzamos uma praça – a Russell Square - e entramos numa rua estreita,  a Montague Street, onde nos iluminamos com o que vimos: todos os postes – de ferro – ostentavam, cada um, dois cestões suspensos, cheios de flores miúdas e de um colorido muito vivo, as mesmas que enchiam todas as jardineiras e grades dos hotéis e bistrôs de terracinhos georgianos (do século XIX), como num cenário de conto de fadas. Londres é quase toda um jardim. A guia do City Tour, no dia seguinte, disse-nos:

            - A Prefeitura cuida de florir os lamp-posts da cidade. E há uma infinidade de empresas que mantêm as fachadas de casas, lojas, bancos e bares floridas o ano todo, inclusive no inverno, quando as espécies são substituídas por outras, resistentes ao frio.

 

            Terceiro deslumbramento:

           Um professor universitário voltou todo um quarteirão para mostrar-nos como cortar caminho para o endereço que procurávamos. Uma jovem – típica inglesa pele de porcelana, olhos intensamente azuis – aproximou-se quando viu que um senhor não sabia  dizer-nos onde ficava a catedral de São Paulo. Uma senhora e sua filha ofereceram-se, sorridentes, para fotografar-me com Ione diante do teatro Globe, onde Shakespeare apresentava suas obras-primas no século XVII. Doutra feita, perdendo-nos apesar do mapa,  eu - desculpando-me pelo péssimo inglês -  perguntei a um gentleman - que estava para cruzar a rua com duas crianças, onde ficava o British Museum. Ele não me entendeu e caprichei:

            - De Brítiche Miuseum.

             Não me compreendeu. Mostrei-lhe o nome impresso.

            - Ôh – ele disse – The British Museum! – mas isso numa pronúncia tão arrevezada e incompreensível, que eu disse Uau e pedi que me repetisse a dose. Ele fez isso, sentiu a própria extravagância e deu uma grande gargalhada. Do mesmo modo, aquecidos por tantas caminhadas, vimos, nos maravilhosos jardins posteriores do palácio de Buckingham, a vendedora de sorvetes mostrar-nos várias opções do produto que vendia, culminando por ler uma versão tão irreconhecível, para mim, de strawberry, morango, que a imitei, sorrindo. Poucas vezes fiz alguém rir tanto.

Na Tate Britain, museu com obras exclusivamente inglesas, Ione parou diante de uma paisagem soberba que uma senhora negra, classe alta,  em cadeira de rodas, também tentava ver, atrás dela. A mulher moveu sua geringonça para a direita, Ione, diante dela, idem. A senhora se moveu para a esquerda, Ione, diante dela, também. Acabamos, os três, gargalhando juntos e, juntos, comentando, embevecidos, o quadro tão disputado.   

 

            Quarto deslumbramento:

            Ao sairmos do Madame Toussaud – que tem peças perfeitas, como as réplicas em cera de Morgan Freeman, Leonardo DiCaprio, Nicole Kidman, Whoopy Goldberg, Paul Newman e Spielberg, mas péssimas reproduções de Harrison Ford, Sean Connery, Humphrey Bogart  e Clark Gable -  vi, perto dali, a entrada do Regent´s Park e me lembrei do romancista Esdras do Nascimento – que viveu dois anos em Londres – dizendo-me: “Nada de museus. Tome um porre no Hyde Park, que é o melhor que você faz!” E seria, mesmo, se tudo fosse como cinqüenta por cento do que acabáramos de ver na Marylebone Road. Valera, no entanto, a visita, pela surpresa de ouvir um rapaz, que se esgueirara com a namorada entre John Wayne e Robert Redford me perguntando:

            - Você não é o Solha?

            Paraibanos.

            Regent´s Park. Jamais imaginei um espaço como aquele fora dos paraísos que já vi pintados e descritos,  ou das utopias. Belíssimos salgueiros derramavam-se, frondosos, no solo e na água, lembrando-me a willow tree de que Ofélia, louca, tomba para morrer afogada entre flores. Cisnes, alguns negros, deslizavam entre plantas aquáticas. Casais – com ou sem crianças – tomavam sol na tarde fria, deitados na grama “sem formigas” – como Ione observou –  dando de comer a pombos que vinham voando de longe, atraídos pelo banquete, e a esquilos que desciam das árvores, lestos e ondulantes com suas caudas espessas, recebendo alimento das mãos dos doadores, como se fôssemos todos puros como Francisco de Assis e Branca de Neve. Ah, e dentro dos 166 hectares do  Regent´s Park, no círculo chamado Queen Mary´s Gardens – os Jardins da Rainha Mary - , demos com a excessiva beleza e o perfume de trinta mil rosas de quatrocentas variedades – cada uma com seu nome numa placa -, além de canteiros de flores de tão maravilhosa variação de cores, que me lembraram os distantes dias em que eu punha o amarelo de Nápoles, o azul da Prússia e o  vermelhão chinês juntos na paleta, em tentativas inúteis de criar maravilhas iguais.

 

            Quinto deslumbramento:

            O Museu Britânico. The British Museum é um imenso complexo de edifícios neoclássicos majestosos, centrados por um cilindro que me lembrou o tronco de Yggdrasil, a árvore do conhecimento das lendas escandinavas, com os ramos, lá em cima, servindo de caixilhos para os vidros do alto teto transparente que nos cobria a todos, no pátio extenso. Passando no meio de uma multidão  que dialogava com atores vestidos como legionários romanos e uma centúria de dançarinas dançando, tecelões e ceramistas do tempo do Imperador Adriano trabalhando, entramos numa série praticamente infinita de espaços vastos, locupletados de Arte e História, deparando-nos com uma coleção  de impensáveis sete milhões de objetos maravilhosos, colecionados desde 1753, reunindo três mil anos de civilização egípcia, dezessete salões com os fantásticos destroços do gênio grego, sete magníficas salas com o gênio assírio, nosso espanto estendendo-se em volta, com o contato direto com o Império de César e a Etrúria, com a China, a Índia, os geniais Aztecas, a Babilônia, etc, etc, e, sendo o British o único museu londrino que permite filmagens e fotos, filmei – com minha pequena Sony - uma senhora lendo para outra a parte grega da Pedra da Roseta, fiz um travelling longuíssimo do fabuloso friso em altos-relevos dos vívidos cavaleiros trazidos do Pártenon por Lord Elgin, fotografei cada fantástico fragmento do combate entre atenienses e centauros isolado nas paredes, Ione posou para mim diante dos gigantescos touros alados de Khorsabad, dos esplêndidos baixos-relevos do palácio de Nínive, das enormes cabeças de Ramsés II e Amenófis III, dos sarcófagos soberbos vindos do Vale do Nilo, tudo – sempre – envolvido em êxtase.

 

Sexto deslumbramento:

              National Gallery. Para que se tenha idéia aproximada do espaço ocupado pelas 2.300 obras da Galeria Nacional, que se impõe ante a Trafalgar Square – a Praça Trafalgar - parei no centro dele e – ao me voltar para a série de salões a oeste, portas afora, depois para outro tanto delas a leste, eu disse:

- Ione, é como se estivéssemos diante do antigo cine Municipal e olhássemos, de um lado, para o final da Visconde de Pelotas, com a Praça Dom Adauto ao fundo, e, do outro, para o Ponto de Cem Réis, fazendo o mesmo no sentido norte-sul, numa cruz sem tamanho.

- Meu Deus!

            Com entrada franca, tal como no British, é comovente ver todo um mundo de gente – muita criança, muitos jovens e velhos - com acesso direto a peças de Leonardo, Bosch, Rembrandt, Renoir, Watteau, Holbein, Vermeer, Brueghel (o velho), van Eyck, Piero della Francesca, Seurat, Velázquez, Ticiano, Rubens, El Greco, Turner, Botticelli,  Constable e tantos outros, grupos e mais grupos de crianças ouvindo professores dissertando sobre as mais notáveis realizações humanas, frente a frente com elas, sem as distorções das fotos, por melhores que sejam. Por falar nisso, e para não dizer que só falei de flores, registro minha decepção ante a sombra que cobre um quadro que cultuo desde a infância: O Casal Arnolfini, de van Eyck, famoso justamente por sua nitidez... desaparecida numa camada escura criada pelo Tempo, que não me permitiu ver detalhes que eu conhecia por fotos de dez, vinte, trinta anos atrás. Por exemplo: na parede ao fundo do retrato duplo, há um espelho curvo cuja moldura reproduz todos os passos da Paixão de Cristo. Não consegui vê-los, mesmo a dez centímetros do original. O mesmo se deu com todos os Vermeers de Londres, notabilizados por sua milagrosa manipulação da luz, mas que lá perderam essa Graça, como sem Graça me pareceu a Ceia em Emaús, de Caravaggio, célebre pela força de seu claro-escuro.  Não bastasse isso, estavam incrivelmente fanados o imenso Ninféias, de Monet, e  o largo Banhistas de Asnières, de Seurat. Já Os Embaixadores, de Hans Holbein, mantido rigorosamente claro, decepcionou-me por sua falta de ... algo especial, nele. O Adoração dos Reis Magos, de Brueghel, pelo contrário, é realmente maravilhoso, como é maravilhosa a nudez da Vênus no Espelho, de Velázquez; a paisagem ao fundo de O Carro de Feno, de Constable;   a geométrica precisão do Batismo de Cristo, de Piero della Francesca; o azul do céu ao fundo do Baco e Ariadne, de Ticiano; as cores intensas de Rubens em seu Sansão e Dalila; os detalhes milimétricos da natureza-morta As Vaidades da Vida Humana, de Harmen Steenwyck; a névoa diáfana das grandes distâncias por trás do Casamento de Isaque e Rebeca, de Claude Lorrain; o impressionismo-antes-da-hora de Turner, etc, etc. E veja como são as coisas: há dois auto-retratos de Rembrandt na Galeria Nacional: um em que ele está com 34 anos, do qual fiz uma cópia há tempos, outro em que ele está com 63. Pois bem: desinformado, esforcei-me, no simulacro que fiz, para emular a técnica que o mestre adquiriu apenas no final da vida, e o resultado foi que não gostei do original... apagado... mas em compensação me comovi intensamente com o registro que ele deixou da própria face na velhice, poderosamente densa e triste.

            Apenas um museu como esse poderia, desse modo,  oferecer tanto.

 

            Sétimo deslumbramento:

            Há uma série de coisas que dão cor local a Londres: a troca da mão e contramão nas ruas, com motoristas dirigindo do lado direito dos carros e das pistas; os táxis – London cabs – conservando seu modelo antigo - feioso, mas eficiente; as cabines telefônicas, tão vermelhas e onipresentes quantos os ônibus de dois andares – the red double-decker bus; a presença poderosa dos quatro enormes leões de bronze, deitados sobre o pedestal da Coluna de Nelson, na Trafalgar Square; a multidão aplaudindo, empolgada, o inesperado som nada marcial dos Beatles irrompendo da mecânica banda militar; os próprios músicos, tocando e marchando de jaquetas vermelho-sangue, enormes pelames negros sobre as cabeças; os portões de grades negras com belos brasões rococós dourados diante do Palácio de Buckingham; o desfile da cavalaria, que parecia ter saído do Grito do Ipiranga do Pedro Américo; a tarde da sexta-feira, com muita, muita gente conversando animadamente, bebendo cerveja nas ruas, diante dos pubs lotados; o arabesco dourado emoldurando o relógio da torre em falso gótico do Big Ben; e a roda gigante – de 135 metros – The London Eye (O Olho de Londres) do outro lado do Tamisa, girando lentamente, a cidade descendo no que vamos, muito devagar,  subindo dentro de uma de suas 32 cápsulas de vidro. Marcante, também o passeio de barco no que passamos sob a velha e célebre Tower Bridge – a Ponte de Londres - com suas duas torres (que lembram as do Parlamento ) e Ah, o Shakespeare´s Globe! Comovi-me muito, no centro do velho teatro circular de madeira, na platéia sem poltronas, vendo a guia, exaltada, falar da emoção sem igual que se vivia ali todos os dias, no século XVII. Do que pude captar de seu inglês, ouvi:

            - Pensem no que é ver de perto o ator que faz Marco Antonio descendo estes degraus do palco até vocês, que o assistem aqui, em pé, ele com o corpo ensangüentado de César nos braços  e começando seu discurso, olhando direto nos seus olhos, nos seus, e nos seus, e clamando: “Friends romans! Countrymen!!!”

           

            História e Arte por toda parte

            Há sempre uma multidão em fila para conhecer os interiores do Palácio de Buckingham, que é – ele próprio – um reduzido mas seleto museu. Nele vimos uma coleção de mármores do frio porém perfeito Canova, e uma bela pinacoteca em que se destacava o notável retrato de Agatha Bas, de Rembrandt. Anexo ao edifício, a Queen´s Gallery reforça o prestígio que a coroa empresta à grande arte. Mas é caminhando um pouco mais para lá do Parlamento, na margem do Tamisa, que se vê o reduto principal da arte inglesa, antiga e contemporânea, na chamada Tate Britain, com sua grande coleção de obras de Turner em todas as suas fases, com o famoso Carnation, Lily, Lily, Rose – de Sargent -, e muita coisa de Dante Gabriel Rossetti, de Whistler, de Burne-Jones, maravilhosas paisagens de Constable, e – o supra-sumo da coleção – uma impactante obra-prima de Lucian Freud (neto de Sigmund), “The Painter´s Mother” – A Mãe do Pintor. 

            E eis que nos vimos na British Library!

            A dez minutos a pé do Royal National Hotel, em que ficamos, a Biblioteca Britânica se impõe com seus 16 milhões de livros, sim, mas toca-nos profundamente pela exposição de uma série de mapas, livros, documentos e manuscritos preciosos, expostos em vitrines e consultáveis por completo em computadores disponíveis ao lado delas. Livros chineses em rolo; a primeira edição das obras de Shakespeare; as iluminuras de vários volumes medievais; a primeira partitura impressa na Inglaterra – o XX Songes, de 1530; a partitura original – cheia de arrependimentos e anotações - da Sonata para Violino op. 30, número 3 de Beethoven; vários desenhos de Leonardo; a Bíblia de Gutemberg, de 1454; a certidão de casamento de Mozart e Constanza; a carta de Thomas Morus a Henrique VIII antes de ser executado; o manuscrito do Mrs Dalloway, de Virginia Woolf e o de Jane Eyre, de Charlotte Bronte; a partitura manuscrita do Bolero de Ravel e da Marcha Nupcial de Mendelssohn e... last but not least, os versos, no exato momento de sua criação – com várias correções – de algumas das mais célebres canções de Paul McCartney e John Lennon, como Yesterday, Help, Strawberry Fields Forever, I wanna hold your hand e Michelle.

            Acho que já posso morrer sossegado. (06-10-2008)

 

 

O JUÍZO, AFINAL

 

         Daqui a sete anos – 2015 -, a taxa de mortalidade da Europa já será maior que a da natalidade, estando nos imigrantes a única solução para o problema do equilíbrio populacional do continente.  Solução temporária, pois em 2035, de qualquer modo, o número de europeus natos e naturalizados começará a cair. O mesmo acontecerá no Brasil, apenas um pouco mais lentamente: 2038 será o ano a partir do qual nossa densidade demográfica ficará cada vez menor.

         Trata-se de um fenômeno único na História. Significará – certamente –mais riqueza e tecnologia disponível per capita e recuperação do meio ambiente que a civilização degradou. Eu sentia essa aproximação de uma Idade de Ouro já em 1992, nos versos que escrevi para o concerto “Os Indispensáveis”, do maestro Eli-Eri Moura, no qual solistas, coro, orquestra, banda de rock e grupo de dança proclamaram, entre outras coisas, um futuro em que existirá a quantidade exata de pessoas no mundo, e elas dirão que “a dor morreu em paz e a miséria ficou pra trás”. Mesmo sem dons proféticos, não acho que corro mais risco de errar nesse vaticínio do que Petrarca – pai do soneto, do alpinismo e da expressão Idade das Trevas, a sua – ao anunciar o amanhecer de um novo período áureo na velha Itália, quando a percebeu retomando os valores humanísticos da antiguidade clássica.

Finalmente vamos chegando ao cumprimento do Gênesis 1.28, quando seu delirante autor ficcionou a cena de um Criador dizendo ao primeiro casal – “Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a, dominai sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu e sobre todos os animais que se movem no chão.”

         Siga a História: 1785: irrompe a Revolução Industrial a partir da invenção do tear mecânico. 1798: Malthus publica seu “Ensaio sobre a População”, no qual conclui que nessa nova era passávamos a nos multiplicar numa progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos permanecia em progressão aritmética, donde deduziu que o que nos esperava era o controle da natalidade ou o caos. 1801: Jacquard aperfeiçoa o tear, dotando-o de um controle através de cartões perfurados. 1847, 1854: Boole publica dois livros que são a base da atual Ciência da Computação e da Cibernética, introduzindo o conceito dos códigos binários. 1890: a preocupação com o censo nos Estados Unidos, leva  Hollerith a desenvolver um equipamento que usa os mesmos cartões perfurados de Jacquard e seus teares. 1896: Funda-se a Tabulation Machine Company, da qual nasce, impulsionada pelas necessidades da Primeira Grande Guerra, a IBM. 1900: Freud lança um livro revolucionário – “Interpretação dos Sonhos” -, no qual se reconhece a existência da sexualidade infantil e se delineia o Complexo de Édipo. Isso abre caminho para uma série de outras “revoluções” na área, como a dos relatórios Kinsey – “O Comportamento Sexual Masculino”, de 1948, e “O Comportamento Sexual Feminino”, de 1953, este empolgando Hugo Hefner de tal modo, que ele, nesse mesmo ano, consegue fotos nuas de Marilyn Monroe e lança o primeiro número da revista Playboy, levando a bomba erótica acadêmica para as ruas. Com a Guerra Fria, depois de 45, o governo americano cria um sistema para que seus computadores militares possam trocar informações de uma base a outra. 1957: Gregory Pincus  tem aprovada a venda de sua pílula anticoncepcional – Enovid-10 – apresentada oficialmente como medicamento para complicações menstruais. Separa-se, assim,  o ato sexual da procriação. Dez anos mais tarde, o contraceptivo é liberado na França, e isso, com todas as implicações políticas da época - marcada pela contestação - dá o clima para o Maio de 68, que começa quando estudantes da Universidade de Nanterre exigem o direito de dormir juntos nos dormitórios do campus, sacudindo-se, a partir daí, os códigos morais, religiosos e econômicos que reprimiam os homens e principalmente as mulheres, criando-se o que passa a se chamar de Revolução Sexual. A taxa de natalidade, que em 1960 era 6,3 filhos por mulher, cai para o atual 1,8, e o casal, agora,  passa a não mais ser reposto. 1995: o Federal Networking Council aprova por unanimidade uma resolução definindo o termo “Internet”.

Meu avô paterno teve oito filhos; meu pai, quatro; eu, dois; cada um de meus filhos, um. Entrei no Banco do Brasil em 62 e passei três décadas datilografando nas máquinas Remington, enquanto girava furiosamente a manivela da Facit para fazer cálculos, desesperado com a complexidade dos balancetes diários e os balanços semestrais e anuais. Mal termino a carreira, nos anos 90, vejo toda a contabilidade do estado transferida para os computadores do CESEC (Centro de Comunicações e Serviços) na Epitácio Pessoa, etapa superada pela centralização, no Recife, do controle dos débitos e créditos de mais de 350 agências – todas as de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas. Achei fascinante o desenvolvimento da tecnologia acompanhando e precedendo o aumento do número de clientes – de 6 milhões em 1995, para 26 milhões atualmente, com ainda maior crescimento do volume de operações.

Tudo acaso... ou vi um sentido nisso tudo?

         Gosto – como Descartes, que parte da estaca zero para chegar ao Penso, logo Existo - de me lembrar que se minhas mãos têm uma finalidade, se meu nariz tem uma finalidade, se meus ouvidos têm uma finalidade, como também meu coração, meus olhos,  meu cérebro e meu sexo, por que não eu? Por que o Homem – o superorganismo de que sou célula ambulante – não teria?  Escorrego, então, da teologia – que sempre me lembra “mitologia” – para a te-le-o-lo-gi-a, que é o estudo dos objetivos do ser humano e da natureza. Mas  como ninguém sabe qual finalidade é essa, por mais que se vasculhem as ciências, filosofias e religiões – é de se supor que isso venha de fora (ou de dentro) de nós, disso que se costuma chamar de Deus, que eu, como Espinosa, chamo de Natureza, considerando que o ser supremo  “revelado” é sempre uma criatura feita à imagem e semelhança do homem, como se pode ver em Jeová com suas fúrias, arrependimentos e uma ameaçadora, egoísta, infantil  ânsia de ser amado sobre todas as coisas.

Basta-me ver a violência dos animais –  com suas garras e presas cheias de sangue  - além de nossos milhões de matadouros, sem falar da estupidez dos tsunamis, terremotos, erupções vulcânicas, furacões, enchentes e  pestes, para banir de mim qualquer idéia de Bondade ou Misericórdia Divina

         Aí, quando vejo essas previsões para 2038 e 2035, do IBGE e do Eurostat, mais a grande revolução na comunicação e informação que estamos vivendo, a primeira coisa que me vem à mente  são as constatações do “Fenômeno Humano”, livro escrito entre 1938 e 40 pelo Padre Pierre Teilhard

de Chardin,   publicado (postumamente) em 59. Diante da ocupação crescente da Terra pelo Homem e do avanço também já visível das comunicações naquela época, ele desenvolveu a teoria de uma evolução que, partindo do caos primordial, chegou ao despertar da consciência humana, a que se  seguirá... bem... uma Noogênese, uma hominização do planeta, quando todo  pensamento será integrado numa única rede inteligente, que acrescentará mais uma camada em volta da Terra: a Noosfera (a esfera da mente humana).  Ele prevê aí, levando em conta o fim do crescimento populacional ante a limitação imposta pela esfericidade da Terra,  uma... acomodação das relações humanas e o fim dos conflitos de todos contra todos, detectada por Hobbes no “Leviatã”.

         Como o Homem é Natureza, vejo a Terra progressivamente traduzindo o conhecimento absoluto de sua dimensão para a humana, instrumentalizando-se com nossas mãos e cérebros. A esse momento ideal por chegar, Chardin dá o nome de Ponto Ômega. Parece-me que, apesar dos seus  delírios e facilidades místicas – afinal, era padre - foi ele quem teve a visão mais provavelmente correta do que nos aguarda a curto e a médio prazos, derrubando todos os apocalipses – de São João em Patmos  a Nostradamus -e nos dando – em lugar do Juízo Final, o Juízo, Afinal. (22-09-2008)

 

A planta da donzela
 

Descobri parte da obra de Glauco Mattoso a partir de seu conto "O Podomante", da coletânea "Capitu Mandou Flores", organizada por Rinaldo de Fernandes

Como Matt Murdock, o personagem cego das histórias em quadrinhos que desenvolve uma espécie de radar mental e passa a levar uma vida dupla em que - usando máscara - é o Demolidor ( "Daredevil", no original: "Intrépido, audacioso" ), o quadrinista Pedro José Ferreira da Silva, ironizando as violências sofridas na infância e a doença que lhe tirou a visão, adotou nova, ousada e demolidora personalidade, a do escritor Glauco Mattoso, um nome cujos sons e engenhosidade valeram citação no samba-rap "Língua", do Caetano Veloso. Grande poeta, estupendo teórico de sonetos e criador de milhares deles, superando a marca dos 2.279 de Giuseppe Belli, adepto, como ele, da sátira fescenina (pornográfica e estalotológica), Glauco saca o lado positivo de seu problema e diz:

Na vasta escuridão onde navego
fronteiras inexistem. Sem miragem,
tão só por ser terráqueo me segrego.
Tão sem limites é, que faz versos de virtuose:
Babo, Bob, pop, pipoca, cornflake;
take a cocktail de coco com cocacola,
de whisky e estricnina make a milkshake.

Como sua história fascina tanto quanto sua poesia e prosa, Glauco Mattoso me lembra dois grandes artistas trágicos, para os quais os dramas pessoais foram a própria causa de sua agonia e de nosso êxtase: Van Gogh e Frida Kahlo. Veja-se o seu chocante soneto 509, chamado Assumido:

Mattoso, que nasceu deficiente,
ainda foi currado em plena infância:
lambeu com nojo o pé; chupou com ânsia
o pau; mijo engoliu, salgado e quente.

Escravo dos moleques, se ressente
do trauma e se tornou da intolerância
um nu e cru cantor, mesmo à distância,
enquanto a luz se apaga em sua lente.

Descobri (incrivelmente tarde) parte da obra de Glauco Mattoso a partir de seu conto "O Podomante", da coletânea "Capitu Mandou Flores", organizada por Rinaldo de Fernandes (Geração Editorial), e li então, na Internet, uma tonelada de poemas seus, alguns ensaios, mandei-lhe e-mail falando-lhe da forte impressão que me causara por sua densidade e domínio literário, e ele me remeteu vários livros, entre os quais "A Planta da Donzela", editado pela Lamparina em 2006.

Esse romance, intertextual e metalingüístico, construído em cima de "A Pata da Gazela", de José de Alencar, é uma "revelação do inconsciente obsceno dos românticos e historiadores de alta estirpe", como analisa Ítalo Moriconi na orelha do volume. Discordo, apenas, no que esse autor fala em pastiche e paródia. Para mim, "A Planta da Donzela" é uma releitura que Freud faria do romance alencarino, nem mais, nem menos..

Traumas à parte, duas coisas me chamam atenção nessa obra. A criação de uma eficaz expectativa crescente, e sua excepcional qualidade literária. Como diz Henrique Marques Samyn, "Glauco Mattoso vem construindo uma das obras mais rebuscadas da contemporaneidade". Sempre me pareceu que os bons romances dependem tanto da excelência de seus textos quanto os grandes filmes do nível de sua fotografia. O que seria do "Cidadão Kane" sem a participação de Gregg Toland, e de "O Anjo Exterminador" de Buñuel (maníaco por pés, como Glauco Mattoso) sem a colaboração de Gabriel Figueroa? Que seria de Euclides da Cunha, de Gabriel García Márquez e de Guimarães Rosa sem seus estilos tão particulares? Eu diria que a "fotografia" de Glauco Mattoso, em "A Planta da Donzela" é qualquer coisa de especial. Talvez porque suas imagens vêm de uma época em que via. E, mais: o truque é o de freqüentemente completar "o romancista da época", José de Alencar, com seu texto datado. Como na descrição de um dos personagens, que vemos como um "moço elegante não só no traje do melhor gosto, como na graça de sua pessoa", descrição a que se seguem detalhes do nosso contemporâneo: "Olhos verdes, boca esculturalmente desenhada, nariz afilado, bigode aparado com precisão milimétrica, corpo esbelto e desenvolto". Em outro personagem, José de Alencar vê o "luto pesado, nas roupas negras, na cor macilenta, na mágoa que lhe escurece a face", enquanto Glauco lhe observa as pernas arqueadas e "pés voltados para dentro e espalhados em largos sapatos pretos". Somos, assim, apresentados ao desvio de rumo que a história vai tomar. É a sensação de se ver um filme - a estória de Alencar - com um revelador making off - o de Mattoso. (15-09-2008)

 

O QUE NOS FALTA

 Os problemas da arte brasileira

            Carlos Heitor Cony afirmou, numa entrevista à revista Bravo, que o Brasil não tem, ainda, o equivalente ao que significam Dante para a Itália, Shakespeare para a Inglaterra, Goethe para a Alemanha e Camões para Portugal. Bráulio Tavares e Affonso Romano de Sant´Anna, com os quais troquei alguns e-mails sobre o assunto, não concordam. Eu, com todo o respeito que tenho por esses dois monstros da cultura brasileira, sim. Inclusive no poema longo “Trigal com Corvos” abro o espectro e digo que Aleijadinho deveria ter sido Miguelângelo, não o nosso Miguelângelo, Carlos Gomes deveria ter sido Verdi, não o nosso Verdi, Portinari deveria  ter sido Picasso, não o nosso Picasso, etc, etc;

            Mas o que nos falta? Rodrigo Naves, em “A Forma Difícil”, falando sobre nossas artes plásticas aquilo que detecto em todos os nossos gêneros artísticos, diz:

            - “Uma dificuldade de forma perpassa boa parte de nossa melhor arte contemporânea. A relutância em estruturar fortemente os trabalhos, e com isso entregá-los a uma convivência mais positiva e conflituada com o mundo, leva-a a um movimento íntimo e retraído, distante do caráter prospectivo de parcela considerável da arte moderna”.

            O que ele denuncia é nossa “timidez formal”. Claro, isso fica patente quando nos lembramos de que não temos nada que rivalize com o teto da Sistina, de Miguelângelo; a “Missa da Coroação”, de Mozart; o Pensador, de Rodin;  “Guerra e Paz”, de Tolstoi; o “2001”, de Kubrick; “Folhas de Relva”,  de Whitman; o “Hamlet”, de Shakespeare; o  Eclesiastes, atribuído a Salomão; o “Cidadão Kane”, de Orson Welles;  “A Evolução Criadora”, de Bergson; a “Ilíada”, de Homero; a “Eneida”, de Virgílio; a catedral da Sagrada Família, de Gaudí, e por aí vai. Mas reformulo a pergunta: por que essa timidez? 

            Ah, veja bem: parece-me que precisaríamos de uma era como a elisabetana, para produzir um Shakespeare; uma era como a de César Augusto -  tendo a seu serviço um Caio Mecenas – para produzir um Virgílio; precisaríamos do peso de uma cultura como a russa, para produzir um Tolstói e um Dostoiévsky, um Máximo Gorki e um Gógol, um Tchékov e um Turgueniev, sem falar em um Soljenitsin, em poetas como Pushkin,  Maiakósvsy e Boris Pasternak, compositores como Tchaikówsky, Mussórgsky, Shostakóvsky, Prokofiev e Rachmaninof, além de cineastas como Vertov, Eisenstein e Tarkóvsky, donde concluo que ninguém é, mesmo,  uma ilha, muito menos o gênio. É famosa a frase de Isaac Newton: “Se vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”. “Ombros em que subir!”, reclamo no “Trigal com Corvos”. Claro. Essa arrancada do cinema chinês, por exemplo, de onde vem? De um passado excepcional que produziu a Grande Muralha e todos aqueles sete mil guerreiros em terracota do Imperador Qin.

 De que mais precisaríamos? De uma História que não fosse – como tem sido até agora - tão periférica, a ponto de sepultar – em termos universais – uma obra-prima isolada como “Os Sertões” do Euclides da Cunha,  tornando esse vasto épico ( absolutamente insular) muito menor – em termos de repercussão internacional – do que as aventuras extraconjugais de duas burguesas ociosas como Ana Kariênina e Madame Bovary.

            Otto Maria Carpeaux dizia que todo grande artista vive na convergência dos acontecimentos, citando para isso o caso de Virgílio escrevendo na Roma do Imperador Augusto. De fato, estar na periferia é tão contundente para a arte, que Paris se encheu de artistas estrangeiros na época em que foi centro cultural do mundo. Para lá migraram os holandeses Van Gogh e Mondrian, os espanhóis Picasso, Dali, Lorca e Buñuel, os americanos Hemingway, Gertrude Stein e Henry Miller, os russos Kandinsky , Nijinski, Diaghilev e Chagall e muita gente mais. Se bastasse ir para lá, porém, Portinari, Cícero Dias, Di Cavalcanti e Ismael Neri seriam, hoje, nomes globalizados. Infelizmente, no entanto, Cícero Dias voltou da França com uma como que franquia de Chagall e os três outros com a de Picasso, impressionando a crítica e o mercado tupiniquins, mas não, obviamente, os europeus. O que, então, teria consagrado a tríade de muralistas mexicanos Orozco, Siqueiros e Rivera? A resposta é claríssima: seu gênio e seu principal tema: a Revolução Mexicana, anterior à Russa e tão marcante que gerou um fortíssimo livro-reportagem de John Reed – “México Rebelde” – que colocou o país no centro das atenções mundiais, ainda mais que ambos - insurgência e obra – foram como que pontos de partida para o levante de Lênin e um livro ainda mais poderoso do jornalista americano para contá-lo – “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo”. Dessa ressonância diz bem  a produção e sucesso do filme “Viva Zapata”, roteirizado por John Steinbeck, dirigido por Elia Kazan, interpretado por Marlon Branco.

            Bem, mas como explicar o renome, também, do colombiano Gabriel García Márquez, dos argentinos Cortázar, Borges e Manuel Puig, do chileno Pablo Neruda, do peruano Vargas Llosa, do venezuelano Rómulo Gallegos, do paraguaio Augusto Roa Bastos, do nicaragüense Rubén Dario? Atribuo, novamente, tal prestígio à genialidade, claro ( embora não maior que a de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Affonso Romano de Sant´Anna ou Ariano Suassuna ), e – aí é que está - ao peso da língua espanhola, imensamente maior que o da portuguesa, por carregar em sua trajetória personalidades como Cervantes, Lorca, Miguel de Unamuno, Calderón de La Barca, San Juan de la Cruz, Francisco de Quevedo, José Zorrilla, Juan Ramón Gimenez, Dámaso Alonso, Fernando Arrabal, Benito Pérez Galdós e Tirso de Molina, sem falar, evidentemente, da simbiose fantástica de que os espanhóis sempre se beneficiaram, com expoentes da pintura como Goya, Zurbarán, Velázquez, Ribera, Picasso, Dali, Miró e Juan Gris, cineastas como Buñuel, Carlos Saura e Pedro Almodóvar, todos devidamente conhecidos e reconhecidos pela intelligentsia de toda a Terra.

            Lembro-me de que fiz contato, anos atrás, com o escritório da agente literária Carmen Balcels, pretendendo deslanchar uma carreira internacional para meus romances, e ouvi, de quem me atendeu, que apenas três assuntos interessavam aos gringos naquele momento: Amazônia, Bahia e menores abandonados cariocas, “daí, por exemplo, o espaço aberto para  ‘Galvez, o Imperador do Acre’, do Márcio de Souza.”  Daí, quem sabe, também, acrescento eu, o atual crescimento ostensivo do prestígio   do amazonense Milton Hatoum, dentro e fora do país. Já o mesmo Affonso Romano me diz que um editor alemão leu, anos atrás, seu belo “A grande fala”, “...mas queria  publicar poemas camponeses brasileiros...” Isso me lembra Silvino Espínola trazendo-me de Paris um livro de segundo grau, em que era destaque a “Cantata pra Alagamar” – que fiz com o maestro Kaplan – “obra de camponeses anônimos do Nordeste brasileiro”...

E o fenômeno Paulo Coelho? Bem, eu não estou falando de magia.

            Feito os cães que ladram enquanto a caravana passa, nós – pintores, romancistas, poetas e cineastas paraibanos – somos agentes e vítimas da periferia da periferia e disso padecemos. Escapa um Augusto dos Anjos, salva-se um Zé Lins do Rego,  esgueira-se um Walter Carvalho, escapole-se um Luiz Carlos Vasconcelos, brilha um Bráulio Tavares, Ariano é glorificado pela Globo, mas também eles vão, todos, morrer no Sul, onde resplandecem para nós, mas também se apagam para o resto do mundo. (01-09-2008)

 

ARTE DO ATOR

         Pequeno ensaio e testemunhos sobre interpretação.

         Nelson Freire lembra-me o garoto Schroeder dos Peanuts  empenhado nalguma obra de Beethoven no seu minúsculo piano. Quem vê o tímido concertista brasileiro no documentário de João Moreira Salles sobre ele, sente sua transfiguração quando nele baixa o espírito de Mozart, Schumann, Lizt, Chopin ou Rachmaninoff.

         Música e teatro (além de cinema e tv) precisam de intérpretes que, no palco ou no set, saiam de si - e dali - para other voices, other rooms, o que me leva a “O Vingador do Futuro” – de Verhoeven – no qual Schwarzenegger vai a uma agência de “viagens” e ouve, do vendedor:

         - O que, em todas as suas férias, você não consegue deixar para trás? Você mesmo. Aqui, porém, mentalmente poderá, entre outras coisas, ser outra pessoa, um espião, por exemplo, numa aventura cheia de emoções em Marte, tendo como parceira uma mulher que só vê em sonhos.

         Como ele, Nelson Freire é um virtual Rachmaninoff durante a execução do concerto número 3, e recebe a ovação como se fosse o próprio autor da façanha musical que mais uma vez extasia o público.

Ao dar uma palestra para psicanalistas, no “Espaço do Ser”, pareceu-me que os surpreendi quando lhes assegurei que com o ator ocorre o mesmo. A diferença é que ele não incorpora o autor, mas um personagem dele.

- O fenômeno é tão fantástico - garanti - que o CORPO do intérprete ACREDITA na cena que interpreta. Claro, pois não há como enrubescer, chorar ou empalidecer, se não for assim.  

Quando revejo “A Canga” do Marcus Vilar, parece-me surreal não ver na tela os quarenta técnicos que se esfalfavam em torno de Zezita Matos, do Everaldo Pontes, de Servílio de Holanda, da Verônica Cavalcante e de mim, durante as filmagens. Nós – entre cada grito de “Ação!” e “Corta!”- estávamos absolutamente sós com nossa tragédia, no meio da caatinga. O momento mais forte da produção aconteceu quando tudo se concentrou em Zezita, para registrar a reação de sua personagem ao ver um dos filhos apontar a arma para o pai, que era eu. Ela aguarda, apavorada, o desfecho da cena (que na verdade não vê), e estremece violentamente no momento do tiro. O que viveu em sua mente foi terrível.

Chovia na quinta-feira santa, quando, no “Auto de Deus”, apresentado ao ar livre diante do Santa Roza, vi Horiébir – no papel de Cristo – ser atirado ao chão por dois legionários romanos. Desci os dezesseis degraus da escadaria sobre o tapete vermelho encharcado,  gritando, sob o aguaceiro:  “Vós sois o rei dos judeus?”, e me impressionei com o nazareno que se levantava com dificuldade, de costas para mim, pois as carnes de suas espáduas (que o público não via!) ... tremiam, ele em estado de choque pelo flagelo de que “acabara de ser vítima”. Quando lhe perguntei “O que é a verdade?”, eu o vi voltar-se e dei com seus enormes olhos claros no rosto que sangrava na chuva. O impacto foi tão intenso que recuei, vacilante, no palco, sem precisar... simular que o fazia.

         Quando ensaiávamos meu texto  “O Vermelho e o Branco” em Pombal, 1968, Ariosvaldo Coqueijo – que, além de dirigir o espetáculo contracenava comigo – jamais conseguia dizer seu monólogo inicial por inteiro, pois chorava desesperadamente antes do parágrafo final. Na leitura de mesa de “Antígona”, uma adaptação minha do clássico de Sófocles, Emilson  Formiga, que iria fazer o papel de um arcebispo, não “entrava” em seu personagem até que o fiz repetir o texto umas quinze vezes, sempre corrigindo o rumo de sua emoção. Aí, de repente, arrepiei-me sentindo que o “espírito” do sacerdote “baixara nele” e, extasiado, vi Emilson escalando a enorme montanha de sua dor, até que... deu um berro levantando-se,  saiu correndo, chorando, e trancou-se no banheiro, insultando-me com palavrões. 

Lembro-me de que o grande Rafael de Carvalho, que  vivia o Papa Rabo no filme “Fogo Morto”, de Marcus Farias, depois do ensaio em que eu - Tenente Maurício -, discuti com ele e, furioso, fiz que lhe danei um tapa que o fazia cair rolando na escadaria diante da cadeia de Pilar, veio de lá de baixo transtornado e me disse:  “Bate em mim de verdade! Bate em mim de verdade!” E foi essa a única vez na vida que bati – de verdade - na cara de um homem. Fazendo-o “voar”. De Verdade. E rolar na escadaria. De Verdade. Por conta de um ódio ingente. De mentira.

Ah, nunca tivemos nada parecido com o que Nelson Freire, Evgeny Kissin, Martha Argerich ou Vladimir Horowitz viveram e vivem ao interpretar o concerto que literalmente enlouqueceu David Helfgott pela sua enorme beleza e complexidade, segundo se vê no filme “Shine”, de Scott Hicks, mas como ex ungue leonem – pela unha se conhece o leão – posso imaginar a força do fenômeno em figuras de grande peso, com Liv Ullman  ou Laurence Olivier num “Gritos e Sussurros” de Bergman ou num “Hamlet” montado pelo Old Vic Theatre. Mas... sim: tivemos Servílio fazendo um cachorro, no “Vau do Sarapalha”, literalmente entre other voices, em other rooms, aplaudido de pé no Barbican Pit Theatre, em Londres! (18-08-2008)

 

 cordel, Bráulio localiza o registro de Machado de Assis numa crônica de 1893:“Ao lado da Igreja da Cruz, vendiam-se folhetos de vária espécie, pendurados em barbantes.”. Ao falar da cultura oral, laça “Estórias de Luzia Tereza”, de Altimar Pimentel, mais os personagens de Ray Bradbury e de François Truffaut no livro e filme “Farenheit 451”, e vai atrás de um poema de João Cabral de Melo Neto – “Descoberta da Literatura” -, onde o poeta pernambucano detecta seu próprio começo, na infância, quando lia folhetos de cordel para os trabalhadores analfabetos do engenho de seu pai.

           Mesmo quando apenas desconfia, Bráulio acerta.. No capítulo “O Poema Narrativo”, por exemplo, analisa o poema “O Morcego” e conclui que os três últimos versos foram imaginados primeiro, exatamente o que diz Orris Soares,  amigo do poeta das sombras, quando afirma que “não raro ele começava os sonetos pelo último terceto.”

           “Contando Histórias em Versos” é uma grande cartada da Editora 34. Tinha, mesmo, de acreditar nesse nosso grande artista,  que não só mata a cobra como nos mostra com que podemos fazer o mesmo.(30-06-2008)

 

W. J. Solha é dramaturgo, ator, poeta e romancista.    É colunista do Jornal O Norte  =   wjsolha@superig.com.br