W. J. Solha
BEZERRA DE MENEZES
O
milagre de bilheteria
Há cerca de ano e meio pediram-me fotos e currículo para
escolha do ator que faria o médium cearense no
longa-metragem “Bezerra
de Menezes:
o Diário de um Espírito”, de Glauber Filho e Joe Pimentel.
Algum tempo depois, vi o trailer do longa-metragem na
Internet, Carlos Vereza no papel-título, dei o caso por
encerrado. Mas eis que um dia recebo telefonema dizendo-me
que me queriam para o papel de Freire Alemão, grande
botânico, médico de Pedro II e um dos professores do futuro
líder espírita quando estudante na Faculdade de Medicina do
Rio.
- Mas o filme já não foi rodado?
- Em parte.
- Mas se até o trailer dele já vi!
- Bem, a ONG espírita Estação da
Luz, que o está produzindo, e a Fox Filmes do Brasil, que
lhe irá fazer a distribuição, ao darem com um documentário
entremeado de poucas seqüências encenadas, um docudrama, não
o aceitaram e exigiram que a película ganhasse aspecto de
filme de ficção.
Recebi os fragmentos de roteiro com os
enxertos de que eu e outros paraibanos participaríamos -
Fernando Teixeira, Everaldo Pontes, Tarcísio Pereira e João
Dantas. Não gostei do texto, mas nada se podia fazer, pois o
trato estava feito. Cabia, a cada um de nós, apenas uma
cena, a minha no Recife, mas cheguei a consultar o Prof.
José Mourão, da Universidade Estadual de Campina Grande,
sobre a pronúncia correta de vários nomes científicos, que
existiam numa de minhas poucas falas, para fazer o melhor
que podia. Ao chegar, no entanto, à sala de aula em que
deveria atuar, surpreendi-me com sua forma de anfiteatro, e
– já encantado com a Faculdade de Direito de Pernambuco (que
é linda, com suas colunas art nouveau em ferro, e que iria
passar por ser a Faculdade de Medicina do Rio ) - rendi-me
aos méritos da produção. O guarda-roupa – meu e de cerca de
vinte rapazes que seriam meus alunos (incluindo o jovem
Bezerra de Menezes) – era perfeito, como estavam perfeitos
todos os detalhes de meu grande birô sobre o estrado alto,
bem como a parafernália de objetos de uma antiga aula de
botânica em cima da mesa, incluindo um maracujá com nome
latino no vidro que o continha, mais a monografia escrita
pelo estudante nordestino, que me cabia argüir. Lembrei-me
de minha distante infância, no colégio de Sorocaba, com
aquelas mesmas carteiras escolares dotadas de um buraco
circular para encaixe do tinteiro ( que tínhamos de trazer
de casa ), além da caneta com pena metálica e cabo de
madeira. Tudo perfeito. Ao final da filmagem, recebi aplauso
entusiástico de toda a equipe e dos figurantes, o que –
aliás – devia ser praxe no grupo.
Aí, seis meses depois, eis que o filme
chega de súbito, com suas contradições. Como há seis anos
trabalhei no longa “Lua Cambará”, do Rosemberg Cariry, ainda
inédito nos cinemas, espantei-me de ver o “Bezerra de
Menezes” tão depressa distribuído simultaneamente em todo o
Brasil, com a razão óbvia: estréias movidas a caravanas com
muitos dos milhões de espíritas. Fui vê-lo numa sessão
lotada, no Manaíra, e constatei, abatido, que não estava
gostando nada do que via, mas assisti, impressionado, às
reações altamente positivas à minha volta. O público, na
maioria religioso, comovia-se com a bondade extrema do
médico e deputado federal abolicionista cearense, que
desafiara as leis da época ao aderir ao espiritismo, cuja
prática era considerada crime. Não só os fiéis, entretanto,
deixaram-se levar pela narrativa. Fernando Teixeira, no fim
da sessão, me disse ter achado tudo muito bonito, e o
Tarcísio Pereira publicou artigo em O Norte, elogiando “O
Diário de um Espírito” com entusiasmo.
A Veja de São Paulo, porém, fez uma
crítica contundente:
- “Bezerra de Menezes ganha uma medonha
cinebiografia. Embora haja certo cuidado na recriação de
época,. todo o resto tem traços toscos, das interpretações
impostadas até o roteiro, que ora é didático, ora
artificial. Até mesmo o empenhado Carlos Vereza erra feio”.
Marcelo Marthe, na sessão de cinema da
Veja nacional deste último 24 de setembro, no comentário
intitulado “Sessão Espírita”, também desce o malho: diz que
se trata de uma produção histórica mambembe, que – embora
tenha apenas 75 minutos - dura uma eternidade.
- Ainda assim – continua -, o filme
surpreende nas bilheterias, deixando para trás lançamentos
nacionais como “Os Desafinados”, que traz famosos como
Rodrigo Santoro no elenco, e teve 120 mil espectadores desde
a estréia.
O fenômeno acontece num momento, diz o
Estadão em artigo intitulado “O Êxito de Bezerra de Menezes
vai na Contramão”, em que a participação do cinema
brasileiro no nosso mercado encolheu – de 2003 para cá – de
22 para 6%.. O Globo também destaca “O filme que
surpreendeu o mercado”, descobrindo que as maiores lotações
estavam ocorrendo nos dias com ingressos a preços menores, o
que indicava que o comparecimento acontecia mais nas classes
C e D, que não costumam freqüentar cinemas.
Esse é um dos mistérios da arte. O que
para uns é maravilha, para outros, aberração. Miguel dos
Santos chamou-me de imbecil ao ler um artigo em que eu
falava da decepção que tivera ante os quadros de Goya em
Madri. O que eu poderia fazer? A coisa não batera,
sumindo-se o quadro “Fuzilamentos de 3 de Maio”, no meu
entender, entre o gênio de uma “Natividade” de El Greco e um
“Las Meninas”, de Velázquez. Quanto ao “Bezerra” ser tosco,
não há filme mais rudimentar, no meu entender, do que o
“Evangelho segundo Mateus”, de Pasolini, e é venerado pela
crítica, embora não – paradoxalmente - pelo público.
“Bezerra de Menezes” é um filme naïf. Como diz a sabedoria –
também popular - ao bom entendedor meia palavra basta. Tela
e platéia falaram a mesma língua e pronto, tal qual Lula e
seu eleitorado. Não há escultura de Rodin de que uma mulher
do povo queira, como quer uma imagenzinha de Iemanjá, de
Santo Antonio ou Nossa Senhora do Rosário. Os espíritas
viram Bezerra de Menezes no Carlos Vereza com sua enorme
barba postiça e estamos conversados. Principalmente após a
divulgação de que o espírito do médium aparecera no set, ao
lado dele, durante as filmagens.
Vi, há poucos dias, o grandioso complexo
formado pelos dois templos enormes que abraçam a Cova da
Iria, em Fátima, Portugal, o mais novo deles com um mural,
por trás do altar, de 500 metros quadrados de ouro e
terracota, o maior painel em mosaico do mundo, e me
perguntei: “A troco de quê? Da história de três pivetes do
campo que disseram ter visto a Virgem fazendo profecias que,
reveladas depois de tanto tempo e de tanta urucubaca,
mostraram-se... nada. Menos para os fiéis. Pense em Joana
d´Arc, a santa canonizada dos franceses, vista como bruxa na
versão do “Henrique VI, 3ª. parte”, de Shakespeare, com
sua visão de inglês. Pense nos judeus ainda esperando pelo
messias, quando o próprio Jesus já é um atraso ante o que
diz Isaías 45.1: “Este é Ciro, meu Cristo!”. Pense na
Patrícia Villar adorando Waldick Soriano.a ponto de rodar um
documentário sobre ele. Que é que se pode fazer?
Aí está “Bezerra de Meneses: o Diário de
um Espírito” fazendo sucesso. Não sei como ninguém pensou em
rodar, antes, um longa sobre Chico Xavier, Tia Neiva, ou Zé
Arigó. (13-10-2008)
SOBRE LONDRES
Primeiro
deslumbramento:
Sobrevoamos o norte da França,
cheio de cordilheiras, cruzamos o Canal da Mancha e
começamos a conhecer um outro planeta: do litoral até
Londres, a cerca de 180 quilômetros, a Inglaterra é uma
lavoura só, quadriculada em vários verdes, prenunciando a
fartura sem tamanho que veríamos em seguida. Quando o Airbus
da TAP começou a descer para seu destino - o comandante
português falando em “descolagem e aterragem” - vimos o
milagre impossível para nós, brasileiros: a megalópole sem o
menor sinal da existência de favelas, sequer de nossas
minúsculas “casas populares”. Nas ruas, depois, constatamos
o fenômeno maior, que foi o de não ver nenhum mendigo. O
motorista espanhol, que nos levou para o aeroporto quando
saíamos da cidade, uma semana depois, explicou:
- O salário mínimo, aqui, gira em torno
de mil libras mensais – quase três mil dólares – e o governo
garante emprego e casa para todos. Quem, ainda assim, pede
esmolas, é preso! E repatriado, se for estrangeiro.
Claro que não foi apenas a terra fértil,
mas dois milênios de História que deram a Londres a sua
grandeza. Não vimos – eu e minha mulher, Ione – nenhum
monumento ao apóstolo das epístolas no adro da Saint Paul´s
Cathedral, a catedral de São Paulo. Em lugar dele,
deparamo-nos com uma estátua da Rainha Ana, Queen Anne, a
primeira soberana do chamado Reino da Grã-Bretanha, quando
Irlanda e Escócia foram anexadas à Inglaterra.
Todos sabemos que Henrique VIII rompeu com
a Igreja, fundando o anglicanismo, cujo chefe espiritual é,
desde então, o rei. Mas o vínculo Poder e Fé inglês vai mais
longe. Em torno da estátua de Queen Anne, demos – ao vivo -
com uma multidão de velhos heróis militares com os peitos
sobrecarregados de medalhas, aguardando uma cerimônia de
três horas pelos seus mortos e pela própria glória obtida em
combates por toda parte. Quando o templo ficou livre, nós -
apesar de exaustos sexagenários, vasculhamos tudo, nele,
inclusive os 259 degraus até o vão imenso que se abriu ante
a varanda em torno do bocal do domo de assustadores 110
metros de altura, o segundo maior do mundo. Imagens de
santos no gigantesco recinto? Nenhuma. Em lugar de altares,
um grande ... cemitério... de grandes guerreiros da nobreza
britânica, todos em esculturas de corpo inteiro, em mármore,
a começar pelo almirante Nelson, pelo Duque de Wellington e
pelo general Sir Isaac Brock. Junto do altar-mor, um
memorial pelos aliados americanos mortos na Segunda Grande
Guerra, outro pelos ingleses abatidos na Guerra do Golfo.
Mas é claro, também, que o esplendor
britânico não provém apenas da força. Lá estavam túmulos e
mais túmulos de grandes artistas como Turner, Samuel
Johnson, Reynolds, Millais e John Donne, Repetia-se, na
catedral em que se casaram Charles e Diana, o mesmo que
víramos na Westminster Abbey, a Abadia de Westminster, logo
atrás do edifício do Parlamento, onde foram coroados e
sepultados todos os reis ingleses. No belo gótico do
edifício com seus arcobotantes e vitrais, víramos o exato e
feio perfil de Elizabeth I – feito a partir de sua máscara
mortuária – a grande rainha deitada, com seu espalhafatoso
luxo, em cima da tumba, entre tumbas de vários outros reis
que viveram antes e depois dela. E – mais adiante - lá
estava o Poet´s Corner – o Recanto dos Poetas – com a
estátua de Shakespeare em destaque, mais os memoriais de
Chaucer, Milton, Wordsworth, Keats, Shelley, William Blake
e, para minha surpresa, do americano do Missouri,
naturalizado inglês, T. S. Eliot. Também lá estavam as
sepulturas de Dickens, Kipling, Thomas Hardy, Sir Laurence
Olivier, todos na boa companhia dos imensos Handel e Henry
Purcell.
Lembramo-nos, é claro, do nosso descaso à
memória de Zé Lins e Augusto dos Anjos.
Segundo deslumbramento:
Mal chegamos a
Londres, saímos à rua. Devidamente encasacados, cruzamos uma
praça – a Russell Square - e entramos numa rua estreita, a
Montague Street, onde nos iluminamos com o que vimos: todos
os postes – de ferro – ostentavam, cada um, dois cestões
suspensos, cheios de flores miúdas e de um colorido muito
vivo, as mesmas que enchiam todas as jardineiras e grades
dos hotéis e bistrôs de terracinhos georgianos (do século
XIX), como num cenário de conto de fadas. Londres é quase
toda um jardim. A guia do City Tour, no dia seguinte,
disse-nos:
- A Prefeitura cuida de florir os
lamp-posts da cidade. E há uma infinidade de empresas que
mantêm as fachadas de casas, lojas, bancos e bares floridas
o ano todo, inclusive no inverno, quando as espécies são
substituídas por outras, resistentes ao frio.
Terceiro
deslumbramento:
Um professor universitário voltou
todo um quarteirão para mostrar-nos como cortar caminho para
o endereço que procurávamos. Uma jovem – típica inglesa pele
de porcelana, olhos intensamente azuis – aproximou-se quando
viu que um senhor não sabia dizer-nos onde ficava a
catedral de São Paulo. Uma senhora e sua filha
ofereceram-se, sorridentes, para fotografar-me com Ione
diante do teatro Globe, onde Shakespeare apresentava suas
obras-primas no século XVII. Doutra feita, perdendo-nos
apesar do mapa, eu - desculpando-me pelo péssimo inglês -
perguntei a um gentleman - que estava para cruzar a rua com
duas crianças, onde ficava o British Museum. Ele não me
entendeu e caprichei:
- De Brítiche Miuseum.
Não me compreendeu. Mostrei-lhe
o nome impresso.
- Ôh – ele disse – The British
Museum! – mas isso numa pronúncia tão arrevezada e
incompreensível, que eu disse Uau e pedi que me repetisse a
dose. Ele fez isso, sentiu a própria extravagância e deu uma
grande gargalhada. Do mesmo modo, aquecidos por tantas
caminhadas, vimos, nos maravilhosos jardins posteriores do
palácio de Buckingham, a vendedora de sorvetes mostrar-nos
várias opções do produto que vendia, culminando por ler uma
versão tão irreconhecível, para mim, de strawberry, morango,
que a imitei, sorrindo. Poucas vezes fiz alguém rir tanto.
Na Tate Britain, museu com obras
exclusivamente inglesas, Ione parou diante de uma paisagem
soberba que uma senhora negra, classe alta, em cadeira de
rodas, também tentava ver, atrás dela. A mulher moveu sua
geringonça para a direita, Ione, diante dela, idem. A
senhora se moveu para a esquerda, Ione, diante dela, também.
Acabamos, os três, gargalhando juntos e, juntos, comentando,
embevecidos, o quadro tão disputado.
Quarto deslumbramento:
Ao sairmos do Madame Toussaud –
que tem peças perfeitas, como as réplicas em cera de Morgan
Freeman, Leonardo DiCaprio, Nicole Kidman, Whoopy Goldberg,
Paul Newman e Spielberg, mas péssimas reproduções de
Harrison Ford, Sean Connery, Humphrey Bogart e Clark Gable
- vi, perto dali, a entrada do Regent´s Park e me lembrei
do romancista Esdras do Nascimento – que viveu dois anos em
Londres – dizendo-me: “Nada de museus. Tome um porre no Hyde
Park, que é o melhor que você faz!” E seria, mesmo, se tudo
fosse como cinqüenta por cento do que acabáramos de ver na
Marylebone Road. Valera, no entanto, a visita, pela surpresa
de ouvir um rapaz, que se esgueirara com a namorada entre
John Wayne e Robert Redford me perguntando:
- Você não é o Solha?
Paraibanos.
Regent´s Park. Jamais imaginei um
espaço como aquele fora dos paraísos que já vi pintados e
descritos, ou das utopias. Belíssimos salgueiros
derramavam-se, frondosos, no solo e na água, lembrando-me a
willow tree de que Ofélia, louca, tomba para morrer afogada
entre flores. Cisnes, alguns negros, deslizavam entre
plantas aquáticas. Casais – com ou sem crianças – tomavam
sol na tarde fria, deitados na grama “sem formigas” – como
Ione observou – dando de comer a pombos que vinham voando
de longe, atraídos pelo banquete, e a esquilos que desciam
das árvores, lestos e ondulantes com suas caudas espessas,
recebendo alimento das mãos dos doadores, como se fôssemos
todos puros como Francisco de Assis e Branca de Neve. Ah, e
dentro dos 166 hectares do Regent´s Park, no círculo
chamado Queen Mary´s Gardens – os Jardins da Rainha Mary - ,
demos com a excessiva beleza e o perfume de trinta mil rosas
de quatrocentas variedades – cada uma com seu nome numa
placa -, além de canteiros de flores de tão maravilhosa
variação de cores, que me lembraram os distantes dias em que
eu punha o amarelo de Nápoles, o azul da Prússia e o
vermelhão chinês juntos na paleta, em tentativas inúteis de
criar maravilhas iguais.
Quinto
deslumbramento:
O Museu Britânico. The British
Museum é um imenso complexo de edifícios neoclássicos
majestosos, centrados por um cilindro que me lembrou o
tronco de Yggdrasil, a árvore do conhecimento das lendas
escandinavas, com os ramos, lá em cima, servindo de
caixilhos para os vidros do alto teto transparente que nos
cobria a todos, no pátio extenso. Passando no meio de uma
multidão que dialogava com atores vestidos como legionários
romanos e uma centúria de dançarinas dançando, tecelões e
ceramistas do tempo do Imperador Adriano trabalhando,
entramos numa série praticamente infinita de espaços vastos,
locupletados de Arte e História, deparando-nos com uma
coleção de impensáveis sete milhões de objetos
maravilhosos, colecionados desde 1753, reunindo três mil
anos de civilização egípcia, dezessete salões com os
fantásticos destroços do gênio grego, sete magníficas salas
com o gênio assírio, nosso espanto estendendo-se em volta,
com o contato direto com o Império de César e a Etrúria, com
a China, a Índia, os geniais Aztecas, a Babilônia, etc, etc,
e, sendo o British o único museu londrino que permite
filmagens e fotos, filmei – com minha pequena Sony - uma
senhora lendo para outra a parte grega da Pedra da Roseta,
fiz um travelling longuíssimo do fabuloso friso em
altos-relevos dos vívidos cavaleiros trazidos do Pártenon
por Lord Elgin, fotografei cada fantástico fragmento do
combate entre atenienses e centauros isolado nas paredes,
Ione posou para mim diante dos gigantescos touros alados de
Khorsabad, dos esplêndidos baixos-relevos do palácio de
Nínive, das enormes cabeças de Ramsés II e Amenófis III, dos
sarcófagos soberbos vindos do Vale do Nilo, tudo – sempre –
envolvido em êxtase.
Sexto deslumbramento:
National Gallery.
Para que se tenha idéia aproximada do espaço ocupado pelas
2.300 obras da Galeria Nacional, que se impõe ante a
Trafalgar Square – a Praça Trafalgar - parei no centro dele
e – ao me voltar para a série de salões a oeste, portas
afora, depois para outro tanto delas a leste, eu disse:
- Ione, é como se estivéssemos diante do
antigo cine Municipal e olhássemos, de um lado, para o final
da Visconde de Pelotas, com a Praça Dom Adauto ao fundo, e,
do outro, para o Ponto de Cem Réis, fazendo o mesmo no
sentido norte-sul, numa cruz sem tamanho.
- Meu Deus!
Com entrada franca, tal como no
British, é comovente ver todo um mundo de gente – muita
criança, muitos jovens e velhos - com acesso direto a peças
de Leonardo, Bosch, Rembrandt, Renoir, Watteau, Holbein,
Vermeer, Brueghel (o velho), van Eyck, Piero della
Francesca, Seurat, Velázquez, Ticiano, Rubens, El Greco,
Turner, Botticelli, Constable e tantos outros, grupos e
mais grupos de crianças ouvindo professores dissertando
sobre as mais notáveis realizações humanas, frente a frente
com elas, sem as distorções das fotos, por melhores que
sejam. Por falar nisso, e para não dizer que só falei de
flores, registro minha decepção ante a sombra que cobre um
quadro que cultuo desde a infância: O Casal Arnolfini, de
van Eyck, famoso justamente por sua nitidez... desaparecida
numa camada escura criada pelo Tempo, que não me permitiu
ver detalhes que eu conhecia por fotos de dez, vinte, trinta
anos atrás. Por exemplo: na parede ao fundo do retrato
duplo, há um espelho curvo cuja moldura reproduz todos os
passos da Paixão de Cristo. Não consegui vê-los, mesmo a dez
centímetros do original. O mesmo se deu com todos os
Vermeers de Londres, notabilizados por sua milagrosa
manipulação da luz, mas que lá perderam essa Graça, como sem
Graça me pareceu a Ceia em Emaús, de Caravaggio, célebre
pela força de seu claro-escuro. Não bastasse isso, estavam
incrivelmente fanados o imenso Ninféias, de Monet, e o
largo Banhistas de Asnières, de Seurat. Já Os Embaixadores,
de Hans Holbein, mantido rigorosamente claro, decepcionou-me
por sua falta de ... algo especial, nele. O Adoração dos
Reis Magos, de Brueghel, pelo contrário, é realmente
maravilhoso, como é maravilhosa a nudez da Vênus no Espelho,
de Velázquez; a paisagem ao fundo de O Carro de Feno, de
Constable; a geométrica precisão do Batismo de Cristo, de
Piero della Francesca; o azul do céu ao fundo do Baco e
Ariadne, de Ticiano; as cores intensas de Rubens em seu
Sansão e Dalila; os detalhes milimétricos da natureza-morta
As Vaidades da Vida Humana, de Harmen Steenwyck; a névoa
diáfana das grandes distâncias por trás do Casamento de
Isaque e Rebeca, de Claude Lorrain; o
impressionismo-antes-da-hora de Turner, etc, etc. E veja
como são as coisas: há dois auto-retratos de Rembrandt na
Galeria Nacional: um em que ele está com 34 anos, do qual
fiz uma cópia há tempos, outro em que ele está com 63. Pois
bem: desinformado, esforcei-me, no simulacro que fiz, para
emular a técnica que o mestre adquiriu apenas no final da
vida, e o resultado foi que não gostei do original...
apagado... mas em compensação me comovi intensamente com o
registro que ele deixou da própria face na velhice,
poderosamente densa e triste.
Apenas um museu como esse
poderia, desse modo, oferecer tanto.
Sétimo
deslumbramento:
Há uma série de coisas que dão
cor local a Londres: a troca da mão e contramão nas ruas,
com motoristas dirigindo do lado direito dos carros e das
pistas; os táxis – London cabs – conservando seu modelo
antigo - feioso, mas eficiente; as cabines telefônicas, tão
vermelhas e onipresentes quantos os ônibus de dois andares –
the red double-decker bus; a presença poderosa dos quatro
enormes leões de bronze, deitados sobre o pedestal da Coluna
de Nelson, na Trafalgar Square; a multidão aplaudindo,
empolgada, o inesperado som nada marcial dos Beatles
irrompendo da mecânica banda militar; os próprios músicos,
tocando e marchando de jaquetas vermelho-sangue, enormes
pelames negros sobre as cabeças; os portões de grades negras
com belos brasões rococós dourados diante do Palácio de
Buckingham; o desfile da cavalaria, que parecia ter saído do
Grito do Ipiranga do Pedro Américo; a tarde da sexta-feira,
com muita, muita gente conversando animadamente, bebendo
cerveja nas ruas, diante dos pubs lotados; o arabesco
dourado emoldurando o relógio da torre em falso gótico do
Big Ben; e a roda gigante – de 135 metros – The London Eye
(O Olho de Londres) do outro lado do Tamisa, girando
lentamente, a cidade descendo no que vamos, muito devagar,
subindo dentro de uma de suas 32 cápsulas de vidro.
Marcante, também o passeio de barco no que passamos sob a
velha e célebre Tower Bridge – a Ponte de Londres - com suas
duas torres (que lembram as do Parlamento ) e Ah, o
Shakespeare´s Globe! Comovi-me muito, no centro do velho
teatro circular de madeira, na platéia sem poltronas, vendo
a guia, exaltada, falar da emoção sem igual que se vivia ali
todos os dias, no século XVII. Do que pude captar de seu
inglês, ouvi:
- Pensem no que é ver de perto o
ator que faz Marco Antonio descendo estes degraus do palco
até vocês, que o assistem aqui, em pé, ele com o corpo
ensangüentado de César nos braços e começando seu discurso,
olhando direto nos seus olhos, nos seus, e nos seus, e
clamando: “Friends romans! Countrymen!!!”
História e
Arte por toda parte
Há sempre uma multidão em fila
para conhecer os interiores do Palácio de Buckingham, que é
– ele próprio – um reduzido mas seleto museu. Nele vimos uma
coleção de mármores do frio porém perfeito Canova, e uma
bela pinacoteca em que se destacava o notável retrato de
Agatha Bas, de Rembrandt. Anexo ao edifício, a Queen´s
Gallery reforça o prestígio que a coroa empresta à grande
arte. Mas é caminhando um pouco mais para lá do Parlamento,
na margem do Tamisa, que se vê o reduto principal da arte
inglesa, antiga e contemporânea, na chamada Tate Britain,
com sua grande coleção de obras de Turner em todas as suas
fases, com o famoso Carnation, Lily, Lily, Rose – de Sargent
-, e muita coisa de Dante Gabriel Rossetti, de Whistler, de
Burne-Jones, maravilhosas paisagens de Constable, e – o
supra-sumo da coleção – uma impactante obra-prima de Lucian
Freud (neto de Sigmund), “The Painter´s Mother” – A Mãe do
Pintor.
E eis que
nos vimos na British Library!
A dez minutos a pé do Royal
National Hotel, em que ficamos, a Biblioteca Britânica se
impõe com seus 16 milhões de livros, sim, mas toca-nos
profundamente pela exposição de uma série de mapas, livros,
documentos e manuscritos preciosos, expostos em vitrines e
consultáveis por completo em computadores disponíveis ao
lado delas. Livros chineses em rolo; a primeira edição das
obras de Shakespeare; as iluminuras de vários volumes
medievais; a primeira partitura impressa na Inglaterra – o
XX Songes, de 1530; a partitura original – cheia de
arrependimentos e anotações - da Sonata para Violino op. 30,
número 3 de Beethoven; vários desenhos de Leonardo; a Bíblia
de Gutemberg, de 1454; a certidão de casamento de Mozart e
Constanza; a carta de Thomas Morus a Henrique VIII antes de
ser executado; o manuscrito do Mrs Dalloway, de Virginia
Woolf e o de Jane Eyre, de Charlotte Bronte; a partitura
manuscrita do Bolero de Ravel e da Marcha Nupcial de
Mendelssohn e... last but not least, os versos, no exato
momento de sua criação – com várias correções – de algumas
das mais célebres canções de Paul McCartney e John Lennon,
como Yesterday, Help, Strawberry Fields Forever, I wanna
hold your hand e Michelle.
Acho que já posso morrer sossegado. (06-10-2008)
O JUÍZO,
AFINAL
Daqui a sete anos – 2015 -, a taxa de mortalidade da Europa
já será maior que a da natalidade, estando nos imigrantes a
única solução para o problema do equilíbrio populacional do
continente. Solução temporária, pois em 2035, de qualquer
modo, o número de europeus natos e naturalizados começará a
cair. O mesmo acontecerá no Brasil, apenas um pouco mais
lentamente: 2038 será o ano a partir do qual nossa densidade
demográfica ficará cada vez menor.
Trata-se de um fenômeno único na
História. Significará – certamente –mais riqueza e
tecnologia disponível per capita e recuperação do meio
ambiente que a civilização degradou. Eu sentia essa
aproximação de uma Idade de Ouro já em 1992, nos versos que
escrevi para o concerto “Os Indispensáveis”, do maestro
Eli-Eri Moura, no qual solistas, coro, orquestra, banda de
rock e grupo de dança proclamaram, entre outras coisas, um
futuro em que existirá a quantidade exata de pessoas no
mundo, e elas dirão que “a dor morreu em paz e a miséria
ficou pra trás”. Mesmo sem dons proféticos, não acho que
corro mais risco de errar nesse vaticínio do que Petrarca –
pai do soneto, do alpinismo e da expressão Idade das Trevas,
a sua – ao anunciar o amanhecer de um novo período áureo na
velha Itália, quando a percebeu retomando os valores
humanísticos da antiguidade clássica.
Finalmente vamos chegando ao cumprimento
do Gênesis 1.28, quando seu delirante autor ficcionou a cena
de um Criador dizendo ao primeiro casal – “Crescei
e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a, dominai
sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu e sobre
todos os animais que se movem no chão.”
Siga a História: 1785: irrompe a
Revolução Industrial a partir da invenção do tear mecânico.
1798: Malthus publica seu “Ensaio sobre a População”, no
qual conclui que nessa nova era passávamos a nos multiplicar
numa progressão geométrica, enquanto a produção de alimentos
permanecia em progressão aritmética, donde deduziu que o que
nos esperava era o controle da natalidade ou o caos. 1801:
Jacquard aperfeiçoa o tear, dotando-o de um controle através
de cartões perfurados. 1847, 1854: Boole publica dois livros
que são a base da atual Ciência da Computação e da
Cibernética, introduzindo o conceito dos códigos binários.
1890: a preocupação com o censo nos Estados Unidos, leva
Hollerith a desenvolver um equipamento que usa os mesmos
cartões perfurados de Jacquard e seus teares. 1896: Funda-se
a Tabulation Machine Company, da qual nasce, impulsionada
pelas necessidades da Primeira Grande Guerra, a IBM. 1900:
Freud lança um livro revolucionário – “Interpretação dos
Sonhos” -, no qual se reconhece a existência da sexualidade
infantil e se delineia o Complexo de Édipo. Isso abre
caminho para uma série de outras “revoluções” na área, como
a dos relatórios Kinsey – “O Comportamento Sexual
Masculino”, de 1948, e “O Comportamento Sexual Feminino”, de
1953, este empolgando Hugo Hefner de tal modo, que ele,
nesse mesmo ano, consegue fotos nuas de Marilyn Monroe e
lança o primeiro número da revista Playboy, levando a bomba
erótica acadêmica para as ruas. Com a Guerra Fria, depois de
45, o governo americano cria um sistema para que seus
computadores militares possam trocar informações de uma base
a outra. 1957: Gregory Pincus
tem aprovada a venda de sua pílula anticoncepcional –
Enovid-10 – apresentada oficialmente como medicamento para
complicações menstruais. Separa-se, assim, o ato sexual da
procriação. Dez anos mais tarde, o contraceptivo é liberado
na França, e isso, com todas as implicações políticas da
época - marcada pela contestação - dá o clima para o Maio de
68, que começa quando estudantes da Universidade de Nanterre
exigem o direito de dormir juntos nos dormitórios do campus,
sacudindo-se, a partir daí, os códigos morais, religiosos e
econômicos que reprimiam os homens e principalmente as
mulheres, criando-se o que passa a se chamar de Revolução
Sexual. A taxa de natalidade, que em 1960 era 6,3 filhos por
mulher, cai para o atual 1,8, e o casal, agora, passa a não
mais ser reposto. 1995: o Federal Networking Council aprova
por unanimidade uma resolução definindo o termo “Internet”.
Meu avô paterno teve oito filhos; meu pai,
quatro; eu, dois; cada um de meus filhos, um. Entrei no
Banco do Brasil em 62 e passei três décadas datilografando
nas máquinas Remington, enquanto girava furiosamente a
manivela da Facit para fazer cálculos, desesperado com a
complexidade dos balancetes diários e os balanços semestrais
e anuais. Mal termino a carreira, nos anos 90, vejo toda a
contabilidade do estado transferida para os computadores do
CESEC (Centro de Comunicações e Serviços) na Epitácio
Pessoa, etapa superada pela centralização, no Recife, do
controle dos débitos e créditos de mais de 350 agências –
todas as de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e
Alagoas. Achei fascinante o desenvolvimento da tecnologia
acompanhando e precedendo o aumento do número de clientes –
de 6 milhões em 1995, para 26 milhões atualmente, com ainda
maior crescimento do volume de operações.
Tudo acaso... ou vi um sentido nisso tudo?
Gosto – como Descartes, que parte da
estaca zero para chegar ao Penso, logo Existo - de me
lembrar que se minhas mãos têm uma finalidade, se meu nariz
tem uma finalidade, se meus ouvidos têm uma finalidade, como
também meu coração, meus olhos, meu cérebro e meu sexo, por
que não eu? Por que o Homem – o superorganismo de que sou
célula ambulante – não teria? Escorrego, então, da teologia
– que sempre me lembra “mitologia” – para a te-le-o-lo-gi-a,
que é o estudo dos objetivos do ser humano e da natureza.
Mas como ninguém sabe qual finalidade é essa, por mais que
se vasculhem as ciências, filosofias e religiões – é de se
supor que isso venha de fora (ou de dentro) de nós, disso
que se costuma chamar de Deus, que eu, como Espinosa, chamo
de Natureza, considerando que o ser supremo “revelado” é
sempre uma criatura feita à imagem e semelhança do homem,
como se pode ver em Jeová com suas fúrias, arrependimentos e
uma ameaçadora, egoísta, infantil ânsia de ser amado sobre
todas as coisas.
Basta-me ver a violência dos animais –
com suas garras e presas cheias de sangue - além de nossos
milhões de matadouros, sem falar da estupidez dos tsunamis,
terremotos, erupções vulcânicas, furacões, enchentes e
pestes, para banir de mim qualquer idéia de Bondade ou
Misericórdia Divina
Aí, quando vejo essas previsões para
2038 e 2035, do IBGE e do Eurostat, mais a grande revolução
na comunicação e informação que estamos vivendo, a primeira
coisa que me vem à mente são as constatações do “Fenômeno
Humano”, livro escrito entre 1938 e 40 pelo Padre Pierre
Teilhard
de Chardin, publicado (postumamente) em 59.
Diante da ocupação crescente da Terra pelo Homem e do avanço
também já visível das comunicações naquela época, ele
desenvolveu a teoria de uma evolução que, partindo do caos
primordial, chegou ao despertar da consciência humana, a que
se seguirá... bem... uma Noogênese, uma hominização do
planeta, quando todo pensamento será integrado numa única
rede inteligente, que acrescentará mais uma camada em volta
da Terra: a Noosfera (a esfera da mente humana). Ele prevê
aí, levando em conta o fim do crescimento populacional ante
a limitação imposta pela esfericidade da Terra, uma...
acomodação das relações humanas e o fim dos conflitos de
todos contra todos, detectada por Hobbes no “Leviatã”.
Como o Homem é Natureza, vejo a
Terra progressivamente traduzindo o conhecimento absoluto de
sua dimensão para a humana, instrumentalizando-se com nossas
mãos e cérebros. A esse momento ideal por chegar, Chardin dá
o nome de Ponto Ômega. Parece-me que, apesar dos seus
delírios e facilidades místicas – afinal, era padre - foi
ele quem teve a visão mais provavelmente correta do que nos
aguarda a curto e a médio prazos, derrubando todos os
apocalipses – de São João em Patmos a Nostradamus -e nos
dando – em lugar do Juízo Final, o Juízo, Afinal.
(22-09-2008)
A planta da donzela
Descobri parte da obra de Glauco Mattoso a partir de seu
conto "O Podomante", da coletânea "Capitu Mandou Flores",
organizada por Rinaldo de Fernandes
Como Matt Murdock, o personagem cego das
histórias em quadrinhos que desenvolve uma espécie de radar
mental e passa a levar uma vida dupla em que - usando
máscara - é o Demolidor ( "Daredevil", no original:
"Intrépido, audacioso" ), o quadrinista Pedro José Ferreira
da Silva, ironizando as violências sofridas na infância e a
doença que lhe tirou a visão, adotou nova, ousada e
demolidora personalidade, a do escritor Glauco Mattoso, um
nome cujos sons e engenhosidade valeram citação no samba-rap
"Língua", do Caetano Veloso. Grande poeta, estupendo teórico
de sonetos e criador de milhares deles, superando a marca
dos 2.279 de Giuseppe Belli, adepto, como ele, da sátira
fescenina (pornográfica e estalotológica), Glauco saca o
lado positivo de seu problema e diz:
Na vasta
escuridão onde navego
fronteiras inexistem. Sem miragem,
tão só por ser terráqueo me segrego.
Tão sem limites é, que faz versos de virtuose:
Babo, Bob, pop, pipoca, cornflake;
take a cocktail de coco com cocacola,
de whisky e estricnina make a milkshake.
Como sua história fascina tanto quanto sua
poesia e prosa, Glauco Mattoso me lembra dois grandes
artistas trágicos, para os quais os dramas pessoais foram a
própria causa de sua agonia e de nosso êxtase: Van Gogh e
Frida Kahlo. Veja-se o seu chocante soneto 509, chamado
Assumido:
Mattoso, que
nasceu deficiente,
ainda foi currado em plena infância:
lambeu com nojo o pé; chupou com ânsia
o pau; mijo engoliu, salgado e quente.
Escravo dos
moleques, se ressente
do trauma e se tornou da intolerância
um nu e cru cantor, mesmo à distância,
enquanto a luz se apaga em sua lente.
Descobri (incrivelmente tarde) parte da obra
de Glauco Mattoso a partir de seu conto "O Podomante", da
coletânea "Capitu Mandou Flores", organizada por Rinaldo de
Fernandes (Geração Editorial), e li então, na Internet, uma
tonelada de poemas seus, alguns ensaios, mandei-lhe e-mail
falando-lhe da forte impressão que me causara por sua
densidade e domínio literário, e ele me remeteu vários
livros, entre os quais "A Planta da Donzela", editado pela
Lamparina em 2006.
Esse romance, intertextual e metalingüístico,
construído em cima de "A Pata da Gazela", de José de
Alencar, é uma "revelação do inconsciente obsceno dos
românticos e historiadores de alta estirpe", como analisa
Ítalo Moriconi na orelha do volume. Discordo, apenas, no que
esse autor fala em pastiche e paródia. Para mim, "A Planta
da Donzela" é uma releitura que Freud faria do romance
alencarino, nem mais, nem menos..
Traumas à parte, duas coisas me chamam
atenção nessa obra. A criação de uma eficaz expectativa
crescente, e sua excepcional qualidade literária. Como diz
Henrique Marques Samyn, "Glauco Mattoso vem construindo uma
das obras mais rebuscadas da contemporaneidade". Sempre me
pareceu que os bons romances dependem tanto da excelência de
seus textos quanto os grandes filmes do nível de sua
fotografia. O que seria do "Cidadão Kane" sem a participação
de Gregg Toland, e de "O Anjo Exterminador" de Buñuel
(maníaco por pés, como Glauco Mattoso) sem a colaboração de
Gabriel Figueroa? Que seria de Euclides da Cunha, de Gabriel
García Márquez e de Guimarães Rosa sem seus estilos tão
particulares? Eu diria que a "fotografia" de Glauco Mattoso,
em "A Planta da Donzela" é qualquer coisa de especial.
Talvez porque suas imagens vêm de uma época em que via. E,
mais: o truque é o de freqüentemente completar "o romancista
da época", José de Alencar, com seu texto datado. Como na
descrição de um dos personagens, que vemos como um "moço
elegante não só no traje do melhor gosto, como na graça de
sua pessoa", descrição a que se seguem detalhes do nosso
contemporâneo: "Olhos verdes, boca esculturalmente
desenhada, nariz afilado, bigode aparado com precisão
milimétrica, corpo esbelto e desenvolto". Em outro
personagem, José de Alencar vê o "luto pesado, nas roupas
negras, na cor macilenta, na mágoa que lhe escurece a face",
enquanto Glauco lhe observa as pernas arqueadas e "pés
voltados para dentro e espalhados em largos sapatos pretos".
Somos, assim, apresentados ao desvio de rumo que a história
vai tomar. É a sensação de se ver um filme - a estória de
Alencar - com um revelador making off - o de Mattoso.
(15-09-2008)
O
QUE NOS FALTA
Os problemas da
arte brasileira
Carlos
Heitor Cony afirmou, numa entrevista à revista Bravo, que o
Brasil não tem, ainda, o equivalente ao que significam Dante
para a Itália, Shakespeare para a Inglaterra, Goethe para a
Alemanha e Camões para Portugal. Bráulio Tavares e Affonso
Romano de Sant´Anna, com os quais troquei alguns e-mails
sobre o assunto, não concordam. Eu, com todo o respeito que
tenho por esses dois monstros da cultura brasileira, sim.
Inclusive no poema longo “Trigal com Corvos” abro o espectro
e digo que Aleijadinho deveria ter sido Miguelângelo, não o
nosso Miguelângelo, Carlos Gomes deveria ter sido Verdi, não
o nosso Verdi, Portinari deveria ter sido Picasso, não o
nosso Picasso, etc, etc;
Mas o que
nos falta? Rodrigo Naves, em “A Forma Difícil”, falando
sobre nossas artes plásticas aquilo que detecto em todos os
nossos gêneros artísticos, diz:
- “Uma
dificuldade de forma perpassa boa parte de nossa melhor arte
contemporânea. A relutância em estruturar fortemente os
trabalhos, e com isso entregá-los a uma convivência mais
positiva e conflituada com o mundo, leva-a a um movimento
íntimo e retraído, distante do caráter prospectivo de
parcela considerável da arte moderna”.
O que ele
denuncia é nossa “timidez formal”. Claro, isso fica patente
quando nos lembramos de que não temos nada que rivalize com
o teto da Sistina, de Miguelângelo; a “Missa da Coroação”,
de Mozart; o Pensador, de Rodin; “Guerra e Paz”, de
Tolstoi; o “2001”, de Kubrick; “Folhas de Relva”, de
Whitman; o “Hamlet”, de Shakespeare; o Eclesiastes,
atribuído a Salomão; o “Cidadão Kane”, de Orson Welles; “A
Evolução Criadora”, de Bergson; a “Ilíada”, de Homero; a
“Eneida”, de Virgílio; a catedral da Sagrada Família, de
Gaudí, e por aí vai. Mas reformulo a pergunta: por que essa
timidez?
Ah, veja
bem: parece-me que precisaríamos de uma era como a
elisabetana, para produzir um Shakespeare; uma era como a de
César Augusto - tendo a seu serviço um Caio Mecenas – para
produzir um Virgílio; precisaríamos do peso de uma cultura
como a russa, para produzir um Tolstói e um Dostoiévsky, um
Máximo Gorki e um Gógol, um Tchékov e um Turgueniev, sem
falar em um Soljenitsin, em poetas como Pushkin, Maiakósvsy
e Boris Pasternak, compositores como Tchaikówsky, Mussórgsky,
Shostakóvsky, Prokofiev e Rachmaninof, além de cineastas
como Vertov, Eisenstein e Tarkóvsky, donde concluo que
ninguém é, mesmo, uma ilha, muito menos o gênio. É famosa a
frase de Isaac Newton: “Se vi mais longe, foi por estar
sobre ombros de gigantes”. “Ombros em que subir!”, reclamo
no “Trigal com Corvos”. Claro. Essa arrancada do cinema
chinês, por exemplo, de onde vem? De um passado excepcional
que produziu a Grande Muralha e todos aqueles sete mil
guerreiros em terracota do Imperador Qin.
De que mais
precisaríamos? De uma História que não fosse – como tem sido
até agora - tão periférica, a ponto de sepultar – em termos
universais – uma obra-prima isolada como “Os Sertões” do
Euclides da Cunha, tornando esse vasto épico (
absolutamente insular) muito menor – em termos de
repercussão internacional – do que as aventuras
extraconjugais de duas burguesas ociosas como Ana Kariênina
e Madame Bovary.
Otto Maria
Carpeaux dizia que todo grande artista vive na convergência
dos acontecimentos, citando para isso o caso de Virgílio
escrevendo na Roma do Imperador Augusto. De fato, estar na
periferia é tão contundente para a arte, que Paris se encheu
de artistas estrangeiros na época em que foi centro cultural
do mundo. Para lá migraram os holandeses Van Gogh e Mondrian,
os espanhóis Picasso, Dali, Lorca e Buñuel, os americanos
Hemingway, Gertrude Stein e Henry Miller, os russos
Kandinsky , Nijinski, Diaghilev e Chagall e muita gente
mais. Se bastasse ir para lá, porém, Portinari, Cícero Dias,
Di Cavalcanti e Ismael Neri seriam, hoje, nomes
globalizados. Infelizmente, no entanto, Cícero Dias voltou
da França com uma como que franquia de Chagall e os três
outros com a de Picasso, impressionando a crítica e o
mercado tupiniquins, mas não, obviamente, os europeus. O
que, então, teria consagrado a tríade de muralistas
mexicanos Orozco, Siqueiros e Rivera? A resposta é
claríssima: seu gênio e seu principal tema: a Revolução
Mexicana, anterior à Russa e tão marcante que gerou um
fortíssimo livro-reportagem de John Reed – “México Rebelde”
– que colocou o país no centro das atenções mundiais, ainda
mais que ambos - insurgência e obra – foram como que pontos
de partida para o levante de Lênin e um livro ainda mais
poderoso do jornalista americano para contá-lo – “Os Dez
Dias que Abalaram o Mundo”. Dessa ressonância diz bem a
produção e sucesso do filme “Viva Zapata”, roteirizado por
John Steinbeck, dirigido por Elia Kazan, interpretado por
Marlon Branco.
Bem, mas
como explicar o renome, também, do colombiano Gabriel García
Márquez, dos argentinos Cortázar, Borges e Manuel Puig, do
chileno Pablo Neruda, do peruano Vargas Llosa, do
venezuelano Rómulo Gallegos, do paraguaio Augusto Roa
Bastos, do nicaragüense Rubén Dario? Atribuo, novamente, tal
prestígio à genialidade, claro ( embora não maior que a de
Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Affonso Romano de
Sant´Anna ou Ariano Suassuna ), e – aí é que está - ao peso
da língua espanhola, imensamente maior que o da portuguesa,
por carregar em sua trajetória personalidades como
Cervantes, Lorca, Miguel de Unamuno, Calderón de La Barca,
San Juan de la Cruz, Francisco de Quevedo, José Zorrilla,
Juan Ramón Gimenez, Dámaso Alonso, Fernando Arrabal, Benito
Pérez Galdós e Tirso de Molina, sem falar, evidentemente, da
simbiose fantástica de que os espanhóis sempre se
beneficiaram, com expoentes da pintura como Goya, Zurbarán,
Velázquez, Ribera, Picasso, Dali, Miró e Juan Gris,
cineastas como Buñuel, Carlos Saura e Pedro Almodóvar, todos
devidamente conhecidos e reconhecidos pela intelligentsia
de toda a Terra.
Lembro-me
de que fiz contato, anos atrás, com o escritório da agente
literária Carmen Balcels, pretendendo deslanchar uma
carreira internacional para meus romances, e ouvi, de quem
me atendeu, que apenas três assuntos interessavam aos
gringos naquele momento: Amazônia, Bahia e menores
abandonados cariocas, “daí, por exemplo, o espaço aberto
para ‘Galvez, o Imperador do Acre’, do Márcio de Souza.”
Daí, quem sabe, também, acrescento eu, o atual crescimento
ostensivo do prestígio do amazonense Milton Hatoum, dentro
e fora do país. Já o mesmo Affonso Romano me diz que um
editor alemão leu, anos atrás, seu belo “A grande fala”,
“...mas queria publicar poemas camponeses brasileiros...”
Isso me lembra Silvino Espínola trazendo-me de Paris um
livro de segundo grau, em que era destaque a “Cantata pra
Alagamar” – que fiz com o maestro Kaplan – “obra de
camponeses anônimos do Nordeste brasileiro”...
E o fenômeno Paulo
Coelho? Bem, eu não estou falando de magia.
Feito os
cães que ladram enquanto a caravana passa, nós – pintores,
romancistas, poetas e cineastas paraibanos – somos agentes e
vítimas da periferia da periferia e disso padecemos. Escapa
um Augusto dos Anjos, salva-se um Zé Lins do Rego,
esgueira-se um Walter Carvalho, escapole-se um Luiz Carlos
Vasconcelos, brilha um Bráulio Tavares, Ariano é glorificado
pela Globo, mas também eles vão, todos, morrer no Sul, onde
resplandecem para nós, mas também se apagam para o resto do
mundo. (01-09-2008)
ARTE DO ATOR
Pequeno ensaio e
testemunhos sobre interpretação.
Nelson Freire lembra-me o garoto Schroeder
dos Peanuts empenhado nalguma obra de Beethoven no seu
minúsculo piano. Quem vê o tímido concertista brasileiro no
documentário de João Moreira Salles sobre ele, sente sua
transfiguração quando nele baixa o espírito de Mozart,
Schumann, Lizt, Chopin ou Rachmaninoff.
Música e teatro (além de cinema e tv) precisam de
intérpretes que, no palco ou no set, saiam de si - e dali -
para other voices, other rooms, o que me leva a “O Vingador
do Futuro” – de Verhoeven – no qual Schwarzenegger vai a uma
agência de “viagens” e ouve, do vendedor:
- O
que, em todas as suas férias, você não consegue deixar para
trás? Você mesmo. Aqui, porém, mentalmente poderá, entre
outras coisas, ser outra pessoa, um espião, por exemplo,
numa aventura cheia de emoções em Marte, tendo como parceira
uma mulher que só vê em sonhos.
Como
ele, Nelson Freire é um virtual Rachmaninoff durante a
execução do concerto número 3, e recebe a ovação como se
fosse o próprio autor da façanha musical que mais uma vez
extasia o público.
Ao dar uma
palestra para psicanalistas, no “Espaço do Ser”, pareceu-me
que os surpreendi quando lhes assegurei que com o ator
ocorre o mesmo. A diferença é que ele não incorpora o autor,
mas um personagem dele.
- O fenômeno é
tão fantástico - garanti - que o CORPO do intérprete
ACREDITA na cena que interpreta. Claro, pois não há como
enrubescer, chorar ou empalidecer, se não for assim.
Quando revejo
“A Canga” do Marcus Vilar, parece-me surreal não ver na tela
os quarenta técnicos que se esfalfavam em torno de Zezita
Matos, do Everaldo Pontes, de Servílio de Holanda, da
Verônica Cavalcante e de mim, durante as filmagens. Nós –
entre cada grito de “Ação!” e “Corta!”- estávamos
absolutamente sós com nossa tragédia, no meio da caatinga. O
momento mais forte da produção aconteceu quando tudo se
concentrou em Zezita, para registrar a reação de sua
personagem ao ver um dos filhos apontar a arma para o pai,
que era eu. Ela aguarda, apavorada, o desfecho da cena (que
na verdade não vê), e estremece violentamente no momento do
tiro. O que viveu em sua mente foi terrível.
Chovia na
quinta-feira santa, quando, no “Auto de Deus”, apresentado
ao ar livre diante do Santa Roza, vi Horiébir – no papel de
Cristo – ser atirado ao chão por dois legionários romanos.
Desci os dezesseis degraus da escadaria sobre o tapete
vermelho encharcado, gritando, sob o aguaceiro: “Vós sois
o rei dos judeus?”, e me impressionei com o nazareno que se
levantava com dificuldade, de costas para mim, pois as
carnes de suas espáduas (que o público não via!) ...
tremiam, ele em estado de choque pelo flagelo de que
“acabara de ser vítima”. Quando lhe perguntei
“O que é a
verdade?”, eu o vi voltar-se e dei com seus enormes olhos
claros no rosto que sangrava na chuva. O impacto foi tão
intenso que recuei, vacilante, no palco, sem precisar...
simular que o fazia.
Quando ensaiávamos meu texto “O Vermelho e o Branco” em
Pombal, 1968, Ariosvaldo Coqueijo – que, além de dirigir o
espetáculo contracenava comigo – jamais conseguia dizer seu
monólogo inicial por inteiro, pois chorava desesperadamente
antes do parágrafo final. Na leitura de mesa de “Antígona”,
uma adaptação minha do clássico de Sófocles, Emilson
Formiga, que iria fazer o papel de um arcebispo, não
“entrava” em seu personagem até que o fiz repetir o texto
umas quinze vezes, sempre corrigindo o rumo de sua emoção.
Aí, de repente, arrepiei-me sentindo que o “espírito” do
sacerdote “baixara nele” e, extasiado, vi Emilson escalando
a enorme montanha de sua dor, até que... deu um berro
levantando-se, saiu correndo, chorando, e trancou-se no
banheiro, insultando-me com palavrões.
Lembro-me de
que o grande Rafael de Carvalho, que vivia o Papa Rabo no
filme “Fogo Morto”, de Marcus Farias, depois do ensaio em
que eu - Tenente Maurício -, discuti com ele e, furioso, fiz
que lhe danei um tapa que o fazia cair rolando na escadaria
diante da cadeia de Pilar, veio de lá de baixo transtornado
e me disse: “Bate em mim de verdade! Bate em mim de
verdade!” E foi essa a única vez na vida que bati – de
verdade - na cara de um homem. Fazendo-o “voar”. De Verdade.
E rolar na escadaria. De Verdade. Por conta de um ódio
ingente. De mentira.
Ah, nunca
tivemos nada parecido com o que Nelson Freire, Evgeny Kissin,
Martha Argerich ou Vladimir Horowitz viveram e vivem ao
interpretar o concerto que literalmente enlouqueceu David
Helfgott pela sua enorme beleza e complexidade, segundo se
vê no filme “Shine”, de Scott Hicks, mas como ex ungue
leonem – pela unha se conhece o leão – posso imaginar a
força do fenômeno em figuras de grande peso, com Liv Ullman
ou Laurence Olivier num “Gritos e Sussurros” de Bergman ou
num “Hamlet” montado pelo Old Vic Theatre. Mas... sim:
tivemos Servílio fazendo um cachorro, no “Vau do Sarapalha”,
literalmente entre other voices, em other rooms, aplaudido
de pé no Barbican Pit Theatre, em Londres! (18-08-2008)
cordel,
Bráulio localiza o registro de Machado de Assis numa crônica
de 1893:“Ao lado da Igreja da Cruz, vendiam-se folhetos de
vária espécie, pendurados em barbantes.”. Ao falar da
cultura oral, laça “Estórias de Luzia Tereza”, de Altimar
Pimentel, mais os personagens de Ray Bradbury e de François
Truffaut no livro e filme “Farenheit 451”, e vai atrás de um
poema de João Cabral de Melo Neto – “Descoberta da
Literatura” -, onde o poeta pernambucano detecta seu próprio
começo, na infância, quando lia folhetos de cordel para os
trabalhadores analfabetos do engenho de seu pai.
Mesmo quando apenas desconfia,
Bráulio acerta.. No capítulo “O Poema Narrativo”, por
exemplo, analisa o poema “O Morcego” e conclui que os três
últimos versos foram imaginados primeiro, exatamente o que
diz Orris Soares, amigo do poeta das sombras, quando afirma
que “não raro ele começava os sonetos pelo último terceto.”
“Contando Histórias em Versos” é uma grande cartada da
Editora 34. Tinha, mesmo, de acreditar nesse nosso grande
artista, que não só mata a cobra como nos mostra com
que podemos fazer o mesmo.(30-06-2008)
|