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SUCEDIDOS 1
PAULINHO TRIPA GAITEIRA E
OUTROS SUCEDIDOS
Elpídio Navarro - 1999
NOTA DO AUTOR: Aprendi a contar histórias
sem medo de ser um anti-herói com um amigo: João Franca
Filho. Ele foi um dos maiores contadores de sucedidos
que eu conheci. Sua forma oral de narrativa rica em
detalhes, deixou-me, muitas vezes, certo do grande
artista que ele foi. Era muito fácil para ele deixar os
que o cercavam, horas e horas, sem pestanejar. Na
maioria das histórias ele se “trumbicava” e disso fazia
destaque, sem qualquer vergonha. Claro que também tinha
as suas vitórias, que eram incontestáveis diante da
franqueza com que contava as suas derrotas. Na maioria
das vezes, contava as suas histórias exatamente como
elas se passaram. Também, dependendo da memória e das
conveniências, contava histórias como ele gostaria que
elas tivessem se passado e, ainda, como lhe era possível
contar como elas se passaram. Em todas as formas elas
eram muito verdadeiras. Acho que herdei um pouco de tudo
isso.
EM
TEMPO: Neste trabalho houve, inicialmente, uma
preocupação de alinhar cronologicamente os sucedidos, o
que não foi conseguido.
AINDA “Sucedidos” é a denominação que estou atribuindo
às histórias que não estão no campo da ficção, embora
algumas não tenham acontecido exatamente como as conto.
Viraram UMA VERDADE ENFEITADA.
1
PRAIA DO
POÇO
Se
existe uma localidade que foi importante na minha
infância e juventude, essa localidade chama-se Praia do
Poço, antes litoral norte de João Pessoa, e hoje,
litoral sul de Cabedelo. Sem querer ser saudosista,
durante, pelo menos, quinze anos, esses foram os tempos
dourados da minha vida. De 1944 a 1957, um ano antes do
falecimento do meu pai.
Dessa época, muitas
histórias. Não sei se me lembro de todas, mas quando
lembro de uma, ela torna-se viva, vibrante, eterna. A
história do meu amigo Paulinho Tripa Gaiteira, é um
exemplo. Mas não foi somente ela. Teve muito mais!
Os companheiros e
companheiras de outrora: Bivaldo Araújo, Guido Avelar,
José de Holanda, Orestes Brito, Ivan Cantizani, Aírton
Avelar, Juvêncio Almeida, Paulinho e Celso Ferreira,
Beta, Rosa e Vera Avelar, Vera Ferreira, Ilka e Socorro
Almeida, Sônia Barroca, Eimar, Edinha e Conceição de
Holanda, Maria das Graças Paiva, a quem obriguei a
entrar com toda a roupa dentro do mar, ao açular o meu
cachorro Bomba para cima dela ( ela já me perdoou), as
Zélias de Campina Grande e Miramar e Laurita, essas
últimas, grandes paixões. Também não poderia esquecer de
Helí , Heline e Dázio, além de Bel (Humberto Belzebu) e
Sérgio Rolin. Posteriormente, Celso Pires, Eudoro
Chaves, Onaldo Novais, Nivan Costa, mais conhecido como
Boa Dinda, Enivaldo Miranda (Mago Gilete), Everardo
Gurgel, Lúcio Espinho, as meninas Pedrosa e o pessoal
de Heretiano Zenaide e de Delfino Costa. Os irmãos Betão
e Arnaldinho Avelar; Paulinho e Beto Peixoto,
Manoelzinho Borges e acho que muitos outros estou
esquecendo. Mas não poderia faltar Zenivaldo Padilha,
que escreveu, junto comigo, a seguinte preciosidade
poética, para a qual havia uma música que não era nossa:
Amigo,
Olhe essa praia
E me diga se existe outra igual!
Amigo,
Olhe esse mar
Alem desse lindo coqueiral!
O Poço é como uma "vila"
Com seus humildes barracões
Mas tem moças bonitas
Que roubam corações!
Amigo,
Olhe "Areia Vermelha"
Que fica lá dentro do mar
....................................
E eu disse que não iria abusar do saudosismo, mas parece
que é impossível. É que são fantásticas as histórias
daquela época, porque são impregnadas de lembranças
agradáveis, de pureza, de safadezas gostosas, de
harmonia, de irmandade, sem violência e sem drogas.
Tirando a nossa aventura poética acima, que além de tola
não resultou em nada, pois as únicas pessoas que
cantavam aqueles versos eram os autores, tudo mais
tornava-se uma festa com a participação de todos. Alguém
anunciava: "Vamos a um passeio, pela beira-mar, até à
Fortaleza de Cabedelo?" E a resposta era geral: "Vamos!"
E saía aquela romaria praia afora, moças e rapazes,
meninas e meninos, sem a necessidade de um adulto
responsável pela empresa.
Numa dessas idas à
fortaleza, caminhada com mais de dez quilômetros entre
ida e volta; ao retornar paramos, ainda dentro da cidade
de Cabedelo, numa mercearia, para um lanche: refresco de
maracujá e pão doce. Cada um tomou o seu refresco e
comeu o seu pão , enquanto Dázio tomou quatro copos de
refresco e comeu seis pães doces. Nada demais,
tratando-se de Dázio, pois ele era bastante forte e
alto. Filho do Pastor Firmino, deputado e pastor
protestante, ficava hospedado na Praia do Poço na casa
de Seu Justo e Dona Lu, pais de Heli e Heline, uma
família também protestante. Retomando a caminhada de
volta, havíamos andado cerca de dois quilômetros quando
Dázio alerta o pessoal: "Gente, vamos mais depressa!
Senão termina eu perdendo a hora do almoço!..."
São uma infinidade de
lembranças daquela época. E por serem tantas, elas se
misturam na memória. Como diz a piada: " era um
computador tão velho, tão ultrapassado, que já não tinha
mais memória, apenas uma vaga lembrança!" Vou apelar
para a minha vaga lembrança e tentar relatar as nossas
histórias de veraneio, as festas, as farras, os amores e
até as nossas aventuras sexuais, das quais só se temia a
saudosa blenorragia!
2
INVASÃO
PELO
MAR
Para curar a coqueluche teríamos que (eu e meus irmãos,
sendo o mais moço recém nascido) passear de avião ou
veranear numa praia. Para a época, 1944, em plena
segunda guerra mundial, o mais viável era procurar a
beira-mar. Assim a minha família foi parar na Praia do
Poço, onde permanecemos veraneando por quase vinte anos.
Guardo desse primeiro ano a lembrança dos soldados do
Exército acampados por lá, fazendo rondas, todos
equipados com apetrechos de guerra, despertando assim a
curiosidade dos veranistas, principalmente da meninada.
Éramos muito crianças
ainda para quaisquer atividades noturnas, por isso nos
limitávamos a incursões diurnas pela praia,
principalmente matinais, mesmo porque essa havia sido a
recomendação médica. Alguns tabus nos eram informados:
"Brincar nessas pequenas piscinas cavadas na beira-mar
pode causar impaludismo!" "Cuidado com as caravelas!
Quem é queimado por elas tem febre, frio e dor de
cabeça." "Uma furada do espinho do bagre pode aleijar!"
Mas, na minha imaginação, o perigo maior estava na
possibilidade da guerra chegar por ali, com os alemães
saindo do mar e nos atacando. Se não havia esse perigo,
por que tinha tanto soldado brasileiro vigiando? Essa
preocupação era mais minha, pois eu era o mais velho, já
com a avançada idade de oito anos... E ela aumentou
bastante quando apareceu lá em casa um soldado pedindo
para encher d'água o seu cantil. Enquanto a minha mãe
foi atender ao pedido e eu me vi sozinho com ele,
arrisquei umas perguntas bastante infantis, mas para mim
de vital importância:
- Se os alemães
invadirem por aqui, eles vão chegar de avião ou de
navio?
- Não! De submarino! É
por isso que a gente fica vigiando. Se aparecer algum a
gente avisa para ele ser bombardeado.
O soldado,
naturalmente, estava brincando. Eu, o garoto,
acreditando e ficando bastante impressionado. Lembro de
ter muitas vezes observado o mar, à procura daquele
perigo que eu não sabia como era, apenas que andava por
debaixo d'água. Cheguei mesmo a ter um pesadelo,
sonhando com aquele monstro enorme, todo de ferro,
cuspindo fogo ao sair de dentro do mar.
Passada a guerra,
outro ano, outro veraneio e sem coqueluche. Eu já mais
habituado com as coisas da praia, fui iniciado na
atividade pesqueira ao ganhar a minha primeira pindaúba.
A isca era minhoca, facilmente encontrada com a maré
seca, e o local de pesca eram os barcos ancorados ou as
espias dos currais. Depois, por conta de um pescador
profissional que tornou-se amigo da família,
aventurei-me ir numa catraia até próximo aos arrecifes,
pescar nas tapitangas.
De lá eu podia ver de perto aquele paredão imenso, que
separava o mar de dentro do mar de fora e que suportava
bem aquelas ondas fortes, batendo contra as suas pedras.
Aí lembrei-me dos submarinos alemães. Eles seriam tão
fortes a ponto de derrubar aquele muro e passar para o
lado de cá? Ou seriam tão pequenos que pudessem passar
por aquelas aberturas estreitas chamadas barretas? Mas
por ali era tão rasinho! Com essas preocupações
avistei, bem longe, um navio que se dirigia ao Porto de
Cabedelo. A curiosidade aumentou e eu não me contive.
Senti necessidade de respostas e ali, junto de mim,
estava uma pessoa que sabia de tudo do mar:
- Seu Antônio, se
aquele navio quisesse, podia passar por aqui, pertinho
da gente?
- Podia não! É muito
raso. Ele vai para o porto porque tem um canal...
- Um canal?
- É uma passagem mais
funda.
- E um submarino?
- Eu nunca vi!...
- E um submarino podia
passar para o lado de cá?
- Só se fosse voando!
Está perguntando isso tudo por que? Está com medo?!
- Não, não é isso não.
É que o soldado me disse que estava vigiando para ver se
os submarinos atacavam a praia!
O
pescador riu muito e notando que eu estava sem graça,
com cara de besta, tentou explicar:
- Ele estava brincando
com você!
- Mas ele disse
sério...
- Sério coisa nenhuma!
O que aqueles soldados faziam na beira-mar era tomar
cachaça e namorar!
Muito tempo
depois ouvi de um amigo mais velho, que na época da
guerra havia sido convocado e levado para uma espécie de
centro de treinamento chamado Aldeia, em Pernambuco, as
histórias da sua participação na preparação para ir ao
palco do tal conflito mundial, onde ele nunca foi!
Eram histórias não muito diferentes das informações
que me foram dadas por Antônio Amarelo, o pescador.
Depois disso, toda vez que vejo um desfile cívico de
ex-pracinhas, a primeira imagem que me vem à mente é a
de um submarino!
3
SONHOS
&
PAIXÕES
A
primeira vez que ao acordar lembrei-me de um sonho
inteirinho, com todos os detalhes, eu ainda era menino.
O caminhão de Seu Everaldo, cujo nome ele ostentava na
frente da boléia de madeira e nas laterais da carroceria
informava em grandes letras que Fazem-se Mudanças,
estacionava próximo à minha casa na Rua da República, em
frente a da vizinha que era irmã do motorista
proprietário. Costumávamos, eu e meu irmão Ednaldo,
brincar dentro da boléia do caminhão de Seu Everaldo
enquanto ele almoçava, tendo o cuidado de cair fora
antes da sua volta. Um dia, ou por termos esquecido do
tempo ou por ele ter voltado antes da hora habitual,
fomos surpreendidos com a boca na botija. Nos
repreendeu, dizendo não ser aquele um local para se
brincar, pois poderíamos causar um sério desastre, com o
caminhão descendo ladeira abaixo, podendo matar
pessoas, inclusive a nós mesmos. Que não iria enredar à
minha mãe, mas que nós nunca mais voltássemos a mexer no
caminhão dele.
Quando acordei no
outro dia estava gravado na memória o meu primeiro sonho
lembrado. Parecia que ainda estava vendo: o caminhão
descendo desembestado a ladeira da Fábrica de Bebidas
Sanhauá, colidindo com a ponte do rio de mesmo nome e
caindo dentro da lama do mangue. No sonho, um sentimento
de culpa; ao acordar, o alívio de ter sido um sonho.
Temendo ter que
explicar a razão provocadora do sonho, contei-o somente
à Severina, a cozinheira lá de casa, que, viciada no
jogo do bicho que era, foi logo decifrando:
- Vai dá elefante! É o
maior bicho que tem. É o que chega mais perto do tamanho
do caminhão!
A moeda de duzentos
réis que eu ganhara de um tio e que estava guardada,
esperando a chegada de um pequeno cofre de madeira
prometido, foi, por indução de Severina e
desconhecimento da minha mãe, usada para jogar no bicho.
À tardinha estava lá na tabuleta: elefante! E os meus
duzentos réis transformados em quatro mil réis. Que
azar! Estava rico e tinha que esconder o fato. Separei
uma moeda de duzentos réis e guardei no mesmo lugar da
outra. Dei mil réis para Severina. Com os dois mil e
oitocentos réis restantes, enchi o rabo de sorvetes e
picolés, o que resultou num resfriado violento, com
febre e garganta inflamada, deixando-me alguns dias de
cama...
Depois veio a
adolescência com muitos sonhos e paixões impossíveis.
Levei muito tempo para esquecer a mocinha e a música do
filme "Sempre No Meu Coração". Mas esqueci... Das
primeiras namoradas lembro alguma coisa. Ziléia, Magaly,
Socorro... Socorro Gonçalves era de Campina Grande e
passava as férias em João Pessoa. Foi a minha grande
paixão daquela época. Dela ouvi, pela primeira vez, como
desculpa de alguma coisa errada, o manjadíssimo "errar
é humano, persistir no erro é burrice", declaração que
me deixou orgulhoso de estar namorando uma moça que
tinha conhecimentos, que dizia coisas bonitas... Depois
disso, nunca mais disse nada que chegasse a me
impressionar! Enquanto adolescente, só sonhei
acordado...
Já rapaz feito tive
outras paixões, porém sonhos lembrados nunca mais. Se os
sonhei não lembrei no outro dia, como aquele do caminhão
virado. Das paixões que se seguiram, nunca esqueci: a
prima Verônica lá no Recife; Zélia, Laurita e Vera, na
Praia do Poço; Aline Furtado, na Ladeira da Borborema...
Essa a maior, a mais intensa, a mais louca das minhas
paixões! Depois, já mais amadurecido, aconteceram
Glorinha, com quem eu deveria ter casado, e Marileide,
com quem casei a primeira vez.
Para
Glorinha, em 1957, na Escola de Agronomia, na cidade de
Areia, escrevi o meu primeiro e único poema de amor:
SOLIDÃO
A minha noite
encontrou-me desarmado de alegrias.
A minha noite
acomodou-se às minhas ausências.
À minha noite
restaram as sobras das manhãs,
versos ao acaso/ocaso,
pensamentos em versos/diversos:
O pássaro que cantava no alto
da árvore que ficava ao lado,
cantava triste,
como as minhas tardes de abril
distante da mulher amada.
Maior tristeza,
só a enorme saudade dos nossos efêmeros encontros.
Não era escura a noite,
nem silenciosa.
Numa miscelânea de voz, luz e movimento,
a cigarra, a lua e a mariposa,
davam-lhe calorosa recepção.
A cigarra,
por que canta tanto?
A cigarra me conduz ao longe
com o seu canto ininterrupto
que lembra o apito do trem:
o trem apita, pára, volta a correr,
pita, pára, volta...
A cigarra canta para morrer!
E eu se pudesse agora
estar
ao lado dela a olhar a lua
e sentir o calor das suas mãos
entrelaçadas às minhas tão seguras...
Se eu pudesse abraçá-la
contra mim bem forte,
para ter a certeza da sua presença...
(Acendo um cigarro
e lembro que ela não gostava
da fumaça.
Lembro que sorria
quando cigarro ao longe eu atirava.
Lembro dela em tudo,
até nos meus vícios.)
Seduzida pela lâmpada
a mariposa gira, gira, gira,
sem cessar,
embriagando-se com a luz.
Por que não procurar a lua,
com sua brancura bela,
com sua tristeza fria?
(Lembro de uma noite,
quando nos olhava a lua,
tristonha,
pedindo um pouco do nosso amor.)
O pássaro sumiu.
A cigarra morreu.
A lua desapareceu.
A mariposa parou.
Estou só.
A minha noite
convida-me ao sonho/pesadelo...
Agora, mais de cinqüenta anos depois do sonho do
caminhão virado, volto a lembrar-me de um sonho ao
acordar, com a mesma nitidez do primeiro. Sonho que
certamente foi sonhado por conta da difícil situação
financeira e das decepções sentimentais, nas quais me
envolvi ao aproximar-me da velhice. Lembro claramente de
um casarão com um enorme quintal, que parecia mais uma
granja ou um sítio grande, onde uma grande festa
comemorava o meu casamento com Maria Gorete, que tinha o
rosto de Walesca, ambas minhas amigas e paixões que
nunca existiram. Na festa de muitos participantes,
desfilavam todos os antigos e mais recentes amores,
menos um, secreto, como se eu o escondesse até nos meus
sonhos, como se a auto-censura valesse para os sonhos!
Lá estavam também vários agiotas, comerciantes, alguns
amigos, todos a quem eu devia algum dinheiro. Eles não
se divertiam... Devidamente vestidos a caráter, feitos
garçons, serviam às convidadas. Sim, porque comendo e
bebendo só mulheres! ( Era, realmente, um sonho! ) A um
canto, numa cadeira de balanço, a nova esposa que tinha
o rosto de outra, ninava o meu filho Bruno com já sete
anos de idade. Aproximei-me, beijei o meu filho e quando
fui beijar a nova esposa, recebi o beijo de uma garota
de doze anos, de lindo rosto, que eu já havia visto em
algum lugar. Também nesse sonho tudo era grande: a casa,
o quintal, as mulheres, os cobradores e, maior ainda, o
beijo da garotinha, um beijo de doze anos! Joguei dez
reais. Não deu elefante!
4
A
BOTIJA
A nossa casa, na rua da República, 275,
tinha um enorme quintal que terminava numa rua lateral
da Cadeia Pública, que depois virou Secretaria de Obras
Públicas e atualmente hospeda a Central de Polícia.
Muitas fruteiras: mamão, banana, cana caiana, manga e
abacate além de uma horta, plantada com coentro, alface,
berinjela, pimentão (tinha um pimentão com o formato de
estrela, por isso a gente chamava de pimentão
estrela e que se comia sem precisar ir ao fogo, como
se fosse uma fruta e até docinho era!), que eram
consumidos em casa, presenteados a parentes e até
vendidos ao verdureiro da rua. Certa vez, um ladrão
levou um canteiro inteiro de coentro que meu pai tinha
deixado para tirar sementes! No dia de São José, se
plantava milho e feijão verde, para colher pelo São
João. Fazia gosto ver o milho embonecado e feijão
florido. Minha mãe vivia preocupada com o povo que
passava na rua e parava para admirar a plantação: medo
de botarem olhado...
Muito preso à barra da saia da minha mãe, fui castigado
várias vezes por fugir de casa para brincar com molecada
da vizinhança. Lembro que um dia, de baladeira
(estilingue) na mão e destinado a caçar
passarinhos no Escorrego (pedaço de mangue
existente nas proximidades e hoje Estação Rodoviária de
João Pessoa), fui pular o muro de trás, que dava para a
Cadeia: empilhei uns tijolos, fiz força para subir e
alcançar a parte de cima do muro, que não suportando meu
peso quebrou-se, vindo atingir a minha cabeça comigo já
caído no chão. Foi um alvoroço quando cheguei em casa
todo ensangüentado e chorando. Os tijolos haviam feito
cortes na testa e na coroa da cabeça. Minha mãe
examinou, viu que eram superficiais e levou-me para o
banheiro para que eu tomasse um banho. Terminado o
asseio, limpou os ferimentos com Água Rabelo, passou
mercúrio cromo e em seguida deu-me uma surra com a corda
de armar rede! O castigo funcionou, pois nunca mais
tentei tal empresa.
Já
meu pai não batia. Castigava diferente, privando-me de
presentes, de ir ao cinema aos fins de semana, de
dinheiro para picolé e para o doce americano.
Não sei quais dos castigos doía mais! Também usava de
alguns artifícios (psicologia?) para conter as minhas
traquinagens. Uma delas era dizer que viu, no fundo do
quintal, um padre montado numa mula sem cabeça, que
pegava menino fujão para levar para um
lugar muito ruim e distante. Cheguei a sonhar perseguido
por um padre sem cabeça (mistura do padre com a mula) e
salvo por um tio que, antes de morrer, era muito apegado
comigo. Durante algum tempo, nem olhar para o fundo do
quintal eu olhava!
Meu
pai construiu numa das laterais do quintal, uns
quartinhos, a princípio destinados aos empregados da
casa, como também para servir de
depósitos para equipamentos e materiais
da horta. Depois, por insistência de uma pessoa
conhecida, alugou um deles (eram quatro). Posteriormente
o inquilino mudou-se, deixando vago o tal cômodo.
Chegaram lá em casa marido e mulher, que já passavam dos
cinqüenta. Gente por todos nós desconhecida. Propuseram
alugar o quarto desocupado, pagando adiantado e logo
anunciando: “Ficamos se o senhor permitir que a gente
desenterre uma botija que a minha mulher sonhou estar
enterrada aqui no seu quintal. Daremos uma parte do
achado ao senhor. Isso feito, iremos embora.” Meu pai,
que não acreditava nessa coisa de botija, argumentou que
cavar buracos no terreno, poderia prejudicar as plantas,
no que foi rebatido: “Não vai acontecer assim. Está num
lugar descampado e só vai ser um buraco que taparemos
depois e pronto! Se ninguém achar nada, vamos embora.”
Como era só um buraco e o pagamento da mensalidade era
adiantado, dinheiro que era honesto e necessário, meu
pai arriscou e cedeu o quartinho ao casal. A minha visão
do momento, de toda aquela história, era fascinante. Já
imaginava toda a riqueza que iríamos receber e que
poderíamos até comprar um carro! Por vários dias demorei
a dormir, olhando pelas brechas das venezianas da sala
de jantar, tentando vislumbrar algum movimento que
indicasse os velhos cavando um buraco. Nada! Alguns dias
depois desisti da espionagem. Alguns dias depois também,
quando acordamos, o quartinho dos velhos estava vazio e
a chave na porta aberta. Isso indicava que eles tinham
ido embora. Buscamos indícios no quintal, alguma
resposta, e lá estava ele, entre uma latada de cana e um
mamoeiro. Tão bem feito que parecia um túmulo aberto. Um
buraco com mais de metro de fundo, que eu soube depois,
quando, escondido de todos, pulei dentro. Não cumpriram,
os velhos, a palavra dada de que tamparia o buraco e se
acharam alguma coisa, ficamos sem nada. Meu pai foi logo
decretando: “Não acharam nada! E como não acharam, foram
embora, como haviam avisado. Não taparam o buraco por
preguiça. Gente sem palavra!”
Quando, escondido de todos, pulei dentro do buraco,
procurei e encontrei uma moeda, escura, suja, já por mim
conhecida: vintém. Na época não valia mais nada. O
buraco serviu para botar lixo, por determinação
superior. Agora, pergunto ao desavisado leitor, que está
lendo essa história por falta de coisa melhor para
fazer: havia botija ou não? Resolva!
5
APELIDOS
Eu menino ainda meu pai sempre prevenia: "Não dê atenção
a apelidos. Você dando importância ou reclamando, aí é
que o apelido pega..." Naquela época os apelidos mais
em voga eram de pessoas idosas ou gente do miolo mole.
Tinha Pombú, da qual nunca soube a razão do
apelido, que corria atrás da meninada, armada com uma
sombrinha e, quando alcançava, batia mesmo. Peguei-te
era uma professora que morava e dava aulas particulares
na Rua Amaro Coutinho. Essa correu para pegar o bonde do
comércio, que parava em frente ao edifício do Correios e
Telégrafos, e ao alcançá-lo gritou: peguei-te! Nunca
mais foi chamada pelo verdadeiro nome. Ela dando aula, a
meninada passava na porta e gritava o apelido, não dava
noutra: saía com uma vassoura para agredir quem
encontrasse pela frente. Certa vez eu vinha com um
grupo de colegas que me empurrou em cima da porta de
Peguei-te. A porta abriu-se e eu fui cair no meio
da sala dela, praticamente aos seus pés. Só tive
uma saída: comecei a chorar inventando uma dor no braço
devido a uma pancada com a queda, ao mesmo tempo que
acusava os colegas de terem feito aquilo. Ela era uma
alma boa e preocupou-se comigo, foi buscar água,
examinou meu braço e depois me liberou. Na rua da
República, onde eu morava, havia uma carvoaria, cujo
dono reagia com o ciscador com o qual juntava o carvão.
Nessa época corria um ditado popular que dizia assim:
"Quer matar papai, oião? ". Era a mesma coisa de dizer
"estás conversando?" O carvoeiro, que chama-se Joaquim,
vivia com uma mulher chamada Maria, que perguntava muito
a ele: "Quinca! Quer bolo?" Assim surgiu o apelido mais
comprido que eu conheci até hoje: o, Quinca quer
bolo, Maria quer pão. Quer matar papai oião? Era um
apelido chamado por dois. Um de um lado da rua gritava
Quinca quer bolo, do lado contrário outro
afirmava Maria quer pão e os dois concluíam
quer matar papai oião? Seu Joaquim saía empunhando
o ciscador e ficava sem saber pra que lado correr! Certa
vez ele conseguiu acerta com o ciscador nas costas de
um menino e deu uma confusão dos diabos, com polícia e
tudo! A sorte do garoto foi que o ciscador bateu com a
parte das pontas para cima. Havia também as pessoas que
reagiam verbalmente: Carbureto chamava os
agressores de frescos, cornos e filhos da puta, enquanto
Sôia gritava que sôia era o cu da mãe ,
que sôia era o que a mãe da pessoa que apelidava
tinha entre as pernas! Tinha ainda Garapa, Pão
de Bico e mais recentemente Vassoura, que se
auto-apelidava de Isabel Maria Bandeira Brasileira, e
que também gostava de presentear quem a chamasse pelo
apelido com alguns palavrões. Já nessa época
Mocidade, o intelectual e orador, e Mané Caixa
D'água, o poeta, não se incomodavam de ser chamados
por esses nomes. E tudo foi mudando até aos dias de
hoje,
com o desaparecimento dessas figuras
fantasticamente apelidadas.
Quando do meu tempo na Escola de Agronomia do Nordeste,
em Areia, muitos apelidos surgiram e as pessoas não
davam importância e, pelo contrário, até atendiam quando
as chamavam: Ronaldo Luna Freire era Porca Russa,
talvez pelo jeito bonachão dele; José Severino era
conhecido como Alma Fresca devido à sua voz
rouca; Francisco Medeiros era Chico Pereba, não
sei por que; Bonifácio Rolin, de pouca estatura e
gordinho, o apelidaram de Bufa de Anum e até a
mim, por ter uma coroa de ouro na boca, tacaram o de
Boca Rica, do qual não fiz a menor questão. Das
pessoas mais próximas, meu irmão Ednaldo Navarro era um
campeão de alcunhas. Logo cedo botou na cabeça de que
queria ser tenente e meus pais providenciaram um
fardamento militar para ele e assim, ainda criança,
arranjou o apelido de Tenente; mais tarde, já no
início da adolescência, veraneando na Praia do Poço,
apresentou-se diante de um grupo de garotos e garotas
mais preocupados com namoricos do que com qualquer outra
coisa e, ostentando um "enfieira" de peixes que acabara
de pescar numa lagoa das proximidades chamada de
areieiro, gritou para o pessoal: "traíra! " Não
é preciso dizer com que apelido ficou... Ainda na Praia
do Poço, já adulto, torcendo pelo time de voleibol da
localidade, que já havia perdido os dois primeiros
sets e naquele momento ia perdendo o terceiro por 14
a 1, gritava com todos os pulmões: "Bóra Poço, Tambaú
não é de nada!" Durante algum tempo ficou com o apelido
de Bóra Poço!
Dos apelidos da minha
juventude, restou uma tentativa de poesia escrita para
um concurso literário, ao qual não chegou a concorrer:
APELIDOS
I
Na
esquina do cinema,
que ficava do lado esquerdo,
Toinho chamava o apelido:
-"Quinca
quer bolo?"
Do
outro lado,
do
lado da fábrica de guaraná,
Daniel afirmava:
-
"Maria quer pão!"
E
os dois:
-
"Quer matar papai, oião?"
E
o velho carvoeiro Joaquim,
dando de garra ao ciscador
de
puxar carvão,
era todo indecisão:
a
quem perseguir primeiro?
A
vizinha da frente,
beata da Igreja da Conceição,
acorria justiceira:
-
É uma falta de respeito,
uma violência, uma
agressão,
um
caso de polícia!
II
-
Peguei-te!
Exclamou a professorinha,
ao
alcançar o bonde
que já estava de partida.
O
casto português
lhe valeu o apelido:
"Peguei-te!"
Começava ali o seu martírio:
-
Amendoim torradinho! "Peguei-te!"
(Gritava o menino na rua
e
o vendedor de cavaco chinês
-
"Peguei-te!" Olhe o cavaco!
Revoltada, a professorinha,
de régua em punho,
perseguia seus desafetos.
-
Caso de polícia!
Uma agressão, uma violência!
Determinava o guarda da
Prefeitura.
III
Na praça, desesperada,
a
anciã esbravejava,
ameaçando com uma pedra:
-
"Pombú" é o cu da mãe!
E
perseguia o estafeta
que entregava telegramas
na zona comercial.
-
É uma falta de respeito,
(sentenciava o dono da funerária)
logo
um funcionário público!
Agressão, violência, um caso de polícia,
eram os apelidos da minha infância.
Que saudade!
6
SEXO
E
NAMORO
Já
faz muito tempo, coisa de cinqüenta anos, que namoro era
namoro mesmo. Era conversar, conversar, conversar e
pegar na mão da namorada com o maior tesão do mundo.
Beijar? Acontecia como acontecia o Carnaval: uma vez por
ano. E, geralmente, na testa, no rosto ou na mão.
Aliás, hoje, nem o carnaval é mais uma só vez por ano!
Tive uma namorada que me contou que quando foi beijada,
na boca, pela primeira vez, achou que poderia engravidar
e levou um tempão para tirar isso da cabeça!
Sexo mesmo, com a namorada de verdade, aquela desejada
para o futuro, imaculadamente mantida numa redoma de
fino cristal, não podia acontecer. Se alguma induzisse
ou permitisse ao namorado maiores intimidades, corria o
risco de ficar falada, do namorado deixar de acreditar
na honradez e virgindade da namorada. "Se ela deixou eu
pegar nos seios (naquele tempo dizia-se seios), já pode
ter deixado outros pegarem também!"
Do outro lado, do lado delas, a afoiteza do rapaz
poderia gerar várias reações. "Ele me desrespeitou, vou
contar ao meu pai." Grande bronca com conseqüências
imprevisíveis: de um casamento forçado a ficar sendo
evitado por outras moças.
Claro
que algumas garotas não se importavam de ficar faladas e
facilitavam as coisas. Mas não eram namoradas. Eram de
quem chegasse primeiro. Lembro de uma que ia para o
cinema só pra se deixar bolinar. Algumas vezes a vez foi
minha. Mas não passava de uns amassos sem maiores
aprofundamentos, entre adolescentes de, no máximo,
treze anos.
As exibições de filmes eram sempre interrompidas devido
a falhas no projetor ou uma fita partida. As luzes da
platéia acendiam e a meninada levantava-se numa enorme
gritaria, uma forma de protestar, só voltando a
sentar-se com a volta da projeção. Numa dessas matinês
estávamos sentados em volta da tal jovem facilitadora
dos nossos instintos sexuais. Eu, na cadeira que ficava
atrás dela e mais dois amigos, que haviam se antecipado,
sentados um de cada lado. Todos querendo tirar uma
casquinha... Em dado momento a fita quebra. Todos
de pé, inclusive a nossa presa. Eu, por pura e inocente
maldade, levantei o assento da cadeira onde ela estava
sentada e quando o filme recomeçou a jovem sentou no
vazio, escangalhando-se no chão. Foi uma grande
confusão. Ela partiu para acusar os dois garotos que
estavam ao seu lado, criando uma situação que levou o
cinema a suspender a sessão, acender as luzes para
verificar o que estava acontecendo, culminando com a
retirada da garota e dos seus dois algozes. Eu fiquei no
meu lugar bem quietinho, morrendo de medo que alguém
tivesse percebido a minha sacanagem. E ainda ouvindo os
comentários: "dá nisso querer garanhar logo com dois de
uma vez! " "Eu acho que algum dos dois meteu o dedo e
ela não gostou..." "Ela é safada mesmo, não tem nada que
reclamar..."
7
PAULINHO
TRIPA
GAITEIRA
Conheci Paulo Alves da Nóbrega no grupo teatral amador
TEP - Teatro do Estudante da Paraíba, isso lá pelos idos
de 1954. Paulinho era riograndense do norte, das bandas
de Caicó. Depois, por ele influenciado, fui bater com
os costados na Escola de Agronomia do Nordeste, na
cidade de Areia, onde fizemos vestibular para o curso
agrotécnico, chamado popularmente de Capa Gato. Foi ali
que ele arranjou o apelido de Tripa Gaiteira, devido ao
excesso de peidos que soltava e, o mais engraçado, pelo
fato de queimá-los assim: erguia um pouco as pernas,
acendia o isqueiro e largava o pum em cima da chama.
Aparecia, então, um facho de luz azulada na escuridão do
quarto do nosso alojamento. Paulinho não conseguiu
aprovação no vestibular e resolveu ir embora para a sua
cidade natal. Desde então, nunca mais nos encontramos.
Ficaram as lembranças das brincadeiras, dos veraneios na
Praia do Poço, das peças de teatro, enfim, da alegria
que ele passava.
Na época, o Poço era uma praia para veraneio,
residindo lá apenas pescadores. As casas, na sua
maioria, tinham cobertas de palha, quando não eram toda
feita de palha. Meu pai resolveu cobrir a nossa com
telha de barro e foi preciso derrubar um coqueiro que
existia na frente da casa, para evitar que o cocos
caídos danificassem o novo telhado. Derrubar o coqueiro
não foi grande trabalho como seria o de arrancar o seu
tronco, cujas raízes eram por demais profundas. E o
tronco foi ficando lá, sob o protesto do meu pai, que
reclamava da minha indiferença para com o problema.
Num dos fins de semana que Paulinho foi passar lá em
casa, no Poço, ouviu as reclamações do meu pai. Por
conta disso propôs-me que, tarde da noite, quando todos
estivessem dormindo, a gente saísse e fizesse o serviço
reclamado. Depois esconderíamos o tronco arrancado, para
que, no outro dia, houvesse uma surpresa geral. Eu topei
logo a brincadeira e fiz todos os preparativos: pá,
enxada, foice, tudo colocado em local estratégico, sem
faltar também uma garrafa de Vinho Imperial e uma lata
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