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SUCEDIDOS 2
16
EU SOU
DA
CASA
Dázio morava num casarão na rua da Palmeira, hoje
Rodrigues de Aquino, de frente para o início da Irineu
Joffily. Casa antiga, enorme quintal cheio de fruteiras
e, logo na entrada, uma pitangueira. A família hospedou
duas primas, vindas do interior passar alguns dias na
Capital. Dázio interessou-se pelas moças que não se
interessaram por ele, para elas, ainda um menino. Então,
ele resolveu ver as moças trocando de roupa!
Aproveitando uma saída
das primas, ficou de prontidão, esperando o retorno e,
quando avistou-as voltando para casa, aboletou-se
debaixo da cama de uma das moças e aguardou o desfecho
do seu plano. Elas entraram no quarto, começaram a
conversar sobre as compras que haviam feito e nada de
tirar a roupa, enquanto Dázio suava no seu esconderijo;
elas arrumaram as compras nas maletas e nada de tirar a
roupa, enquanto Dázio, no seu esconderijo, era só
agonia; elas tiraram os sapatos, calçaram os chinelos e
nada de tirar a roupa, enquanto Dázio já estava todo
molhado de suor e com uma perna ficando dormente por não
poder se mexer; elas sentaram na cama e começaram a
fofocar, cada uma que contasse a sua fofoca mais
comprida do que a outra e nada de tirar a roupa,
enquanto que a situação de Dázio, em baixo da cama, era
insuportável; tão insuportável que ele não conseguiu se
conter e mudou de posição, movimento que foi notado por
elas. Daí à uma reação alarmante foi um passo. Uma
enorme gritaria ecoou casa a dentro: "Tem um ladrão
dentro do quarto, debaixo da cama!" A histeria aumentou,
com a participação dos outros membros da família, e
chegou até à rua: "Polícia! Chamem a polícia! Tem ladrão
aqui!" Dázio, totalmente apavorado, não sabia o que
fazer, pois tinha medo de continuar debaixo da cama e
também tinha medo de sair.
Em frente, um pouco
para o lado, morava Seu Rui Mendonça, que acudiu o
pessoal, pois já estavam todos na rua, e de revólver em
punho bradou para dentro da casa: "Se sair eu atiro!
Chamem logo a polícia! Se sair eu atiro, estou
avisando!" O coitado do Dázio, agora, era que não podia
sair mesmo. E alguém foi procurar o Pastor Firmino lá na
Assembléia. Ele acionou a Rádio Patrulha, que compareceu
ao local com quatro patrulheiros devidamente armados.
Entraram no tal quarto e deram voz de prisão ao
assaltante. Sai de debaixo da cama um menino chorando,
com os braços para cima, dizendo:
- Eu sou da casa! Eu
sou da casa! Eu sou da casa!...
Esclarecida a
situação, a polícia se retira, no momento em que chega o
Pastor Firmino que é inteirado de todo o acontecido. Vai
ao pé de pitanga,tira um galho da árvore e Dázio leva
uma das maiores surras da sua vida.
17
PIOR FOI
A EMENDA
No início dos anos cinqüenta a festa de Nossa Senhora
das Neves era um dos eventos mais importantes de João
Pessoa, não só por tratar-se da comemoração da data da
nossa Santa Padroeira e da fundação da Cidade,
conseqüentemente do Estado da Paraíba, mas também pela
tradição de costumes que existiam, mantidos só naquele
período, que ia do dia 27 de julho a 5 de agosto. Tudo
acontecia na Rua Nova, já na época denominada de General
Osório, entre o Grupo Escolar Thomaz Mindello e a
Catedral Metropolitana, rua de largas calçadas bem
afeitas a passeios, à colocação de barracas para vender
cachorro-quente, aos cercados para os jogos de argolas,
roletas e tiro ao alvo. Também eram construídos os
pavilhões por associações beneficentes, para servir
bebidas e comidas, realização de leilões e concursos de
rainhas da festa, com o lucro destinado a uma causa
social. Indo em direção à Catedral, a última quadra do
calçadão do lado direito era destinada ao passeio do
quem me quer, onde as jovens de família
desfilavam de braços dados, flertando com os rapazes
de família que ficavam, a maioria com seus ternos
brancos, formando um cordão de isolamento à beira da
calçada. Ali surgiam os namoros, os fuxicos, os
rompimentos amorosos e ninguém pagava nada para
participar. Já ao lado esquerdo da Catedral ficava o
local denominado "a bagaceira", reservado às moças e
rapazes que não eram de família, ou seja, o
pessoal mais pobre, as piniqueiras, soldados de
polícia, guardas noturnos, cabeceiros etc., não faltando
também os rapazes de família que para lá se
dirigiam após a hora do recolhimento das moças de
família, que da bagaceira só tinham notícias ou uma
visão geral de cima da roda-gigante. Os rapazes de
família iam à procura de aventura sexual com alguma
empregadinha e tinham, geralmente, a compreensão das
suas namoradas, moças de família, que, àquela
época, ainda casavam virgens.
Uma outra tradição bem
forte eram os jornais da festa. Entre eles "O Gongo",
pelo qual eram responsáveis Arlindo Delgado, Genildon
Gomes, José Morais Souto, Valdez Silva e eu, entre
outros. O jornalzinho publicava tudo: fofocas,
aniversários, humor, pensamentos... Nessa de pensamentos
foi publicado num dos seus números: "Mais vale uma velha
do que um balaio de brotos", atribuído Biu Bate-Bate,
que era o apelido de Severino Alves de Andrade,
estudante de Direito, noivo de um moça mais velha do que
ele, porém alta funcionária federal. Dia seguinte à
publicação, já esperávamos uma reação, possivelmente
até violenta, dele. E não deu noutra: estávamos no
jornal, eu e Arlindo Delgado, quando avistamos Biu
Bate-Bate vindo em nossa direção. Não contamos conversa:
nos escondemos por trás das impressoras.
Na redação estava Humberto Melo, também estudante de
Direito, que não se dava bem com o esperado visitante e
que por uma infeliz coincidência havia nos pedido para
publicar uma notinha de aniversário, a qual estava
redigindo numa das máquinas de escrever. Biu parou na
porta da redação, olhou para Humberto e desafiou:
- Só podia ser coisa
sua, seu cabra safado! Agora venha para a rua apanhar.
Só não vou lhe quebrar a cara aí porque eu, como
estudante de Direito, conheço as leis: não posso invadir
recintos particulares. Mas aqui no meio da rua eu acabo
com você! Venha se é homem!
Humberto Melo atônito,
sem saber o que estava acontecendo e nem por que estava
sendo desacatado, não se mexeu na cadeira onde estava
sentado, não falou uma só palavra. Biu continuou
ameaçando, mas ao notar que estava chamando a atenção
das pessoas que passavam na rua, retirou-se dizendo que
iria pegá-lo noutra ocasião.
Saímos da nossa toca e
ainda encontramos Humberto sob o efeito da injusta
agressão sofrida. Quando nos viu, perguntou ainda com
certa dificuldade:
- O que foi que eu
fiz?!... O que foi que houve?!...
- Do quê você está
falando, Humberto?
Perguntou Arlindo
fingindo surpresa, enquanto eu me esforçava para não
rir. Humberto relatou o acontecido e Arlindo, mais um
vez, demonstrava ser um bom ator:
- Que absurdo,
Humberto! A gente não ouviu nada disso devido ao barulho
das máquinas... Esse Biu está ficando doido, isso é
bebida demais! Eu vou procurá-lo, Humberto. Ele vai
ouvir umas verdades...
E seguimos para o
Ponto de Cem Reis, pois já era hora do encontro diário
com o resto do pessoal, para colher as notícias,
artigos, matérias para a edição do dia do nosso "O
Gongo". Parados na calçada da Farmácia Regis, ponto
combinado com a turma, eis que surge Biu com cara de
poucos amigos:
- Acabo de ir lá
naquele jornalzinho de merda mas só encontrei o safado
do Humberto Melo, que não teve coragem de sair para
apanhar! Mas só podia ser coisa dele o que vocês
publicaram...
- Um momento Severino,
um momento! Primeiro você chamando jornalzinho de merda
não está atingindo Humberto, porque ele nem pertence ao
corpo de redatores. Se estava lá foi mera coincidência.
Segundo, você está atingindo pessoas que você nem
conhece, que são donos do jornal, como, por exemplo,
Elpídio que está aqui ao meu lado. Terceiro, explique o
que está acontecendo, o que foi que lhe deixou dessa
forma...
Sentenciou Arlindo,
encarando Biu, enquanto eu permanecia ao lado, calado e
com medo. Então, já mais calmo, o nosso agressor tenta
explicar a sua atitude:
- Aquele pensamento,
aquele negócio do balaio de brotos, aquilo foi
sacanagem...
- É, eu li quando já
estava publicado, não podia fazer mais nada... Também
não achei que fosse causar tanto descontentamento da sua
parte.. Mas certamente não foi Humberto o responsável. A
notinha chegou na redação e na pressa de fechar a
edição, alguém jogou no meio das outras... Mas eu lhe
garanto um retratamento ainda na edição de hoje!
E lá se foi Severino
mais ou menos satisfeito enquanto Arlindo aguardava
alguns segundos para desatar numa risada! Ele havia sido
o autor do tal pensamento! Ainda rindo da situação,
voltamos ao jornal para concluí-lo e foi lá que ele
escreveu e saiu publicada a seguinte jóia de pedido de
desculpas: "Nota da Redação - O Jornal O Gongo, tendo
publicado na sua edição de ontem o pensamento mais
vale uma velha do que um balaio de brotos atribuído
ao nosso futuro jurista Severino Alves de Andrade,
conhecido como Biu Bate-Bate, vem de público pedir
desculpas ao atingido pelo tal pensamento de que mais
vale uma velha do que um balaio de brotos,
afirmando que nós não achamos que mais vale uma velha
do que um balaio de brotos pois, mesmo que
comungássemos com esse pensamento de que mais vale
uma velha do que um balaio de brotos, jamais iríamos
fazer a afirmação de que mais vale uma velha do que
um balaio de brotos e atribuí-la a uma pessoa que
não acha que mais vale uma velha do que um balaio de
brotos. Assim, mais uma vez pedimos desculpas ao
nosso amigo Biu Bate-Bate, garantindo-lhe que ele nunca
mais será atingido por pensamentos iguais a esse de que
mais vale uma velha do que um balaio de brotos.
Dia seguinte, mesma
calçada, mesmo Ponto de Cem Reis, mesmas pessoas. Surge
Biu com um semblante enigmático. Arlindo não lhe deu
oportunidade de falar primeiro:
- Leu a nota? Pedi
desculpas umas três vezes, para deixar bem claro que não
estávamos de acordo com aquele negócio... Gostou? Pela
sua reação agora, já sei que gostou! Mas não precisa
agradecer nada! Fizemos a nossa obrigação!
Torpedeado por tantas
perguntas e afirmações, Biu ficou meio confuso mas ainda
fez uma pequena reclamação:
- Eu achei meio
repetitiva, meio insistente naquela frase... Não será
que foi pior a emenda do que soneto?... Tenho a
impressão de que a nota só fez piorar a situação!
E enigmaticamente
retirou-se.
18
DIREITA,
VOLVER!
Ninguém que cumpriu o serviço militar obrigatório deixa
de ter histórias e mais histórias a contar, acontecidas
durante o seu tempo de convocado. Comigo não é
diferente, claro! Servi no 15o. Regimento de
Infantaria e, posteriormente, na 23o. Circunscrição de
Recrutamento, durante um ano e doze dias, entre 1954 e
1955. Eram companheiros de farda: Newton Leite, Iveraldo
Lucena, Ednaldo Soares, Márcio Aírton, Zenivaldo
Padilha, José Waldomiro, Ruy Eloy e Firmo Justino, entre
outros, inclusive um rapaz do interior de nome José, que
na hora da chamada, quando o sargento gritava o seu
número, ele respondia: Jugé!
Dos nossos superiores
hierárquicos boas e más lembranças. As boas por conta
dos coronéis Gastão, Renato Morais e Rodin; do major
Serrão; dos capitães Jamil Daher, Renato Macário e
Montez; dos tenentes Maul e Delfim e dos sargentos
Roberto Guimarães, Humberto e Cardoso. As más por conta
do coronel Bolívar (apelidado pela tropa de Pombo
Roxo), e pelos tenentes Máximo, Cantalice, Souza e
Facundo. Tinha também um sargento que eu não lembro o
nome e a gente o apelidou de o gordinho da banda, porque
ele era baixo, gordo e tocava um instrumento do tamanho
dele. Era apenas chato, porém muito engraçado. Quando
estava de serviço, passava a noite no pátio do quartel,
com um espeto de ferro, apanhando folhas no chão que
caiam das mangueiras. Dizia-se que ele fazia isso para
não dormir durante o seu turno e, também, porque tinha
medo de alma. O dormitório da CCS, Companhia de Comando
e Serviço, onde estávamos servindo, era no primeiro
andar do pavilhão. Certa vez, sabendo que o gordinho
estava de serviço, abrimos as janelas e, cobertos por
lençóis brancos, ficamos a fazer movimentos lentos, bem
visíveis, através delas. Quando percebemos que o
sargento corria para a escada que dava acesso ao
primeiro andar, fechamos as janelas e ficamos deitados
no maior silêncio. O sargento entrou, acendeu as
lâmpadas e todo mundo dormindo! Ele observou a todos
nós durante algum tempo, buscando, talvez, alguma prova
da nossa sacanagem e, como não encontrou, apagou a luz e
desceu. Meia hora depois resolvemos repetir a
brincadeira. Foi quando um espírito de porco desencaixou
o lastro da cama de um dos soldados fantasmas e quando o
sargento subiu correndo e todos pularam nas suas camas,
uma abriu-se, causando o maior barulho no assoalho. Ao
acender as lâmpadas, estava o soldado sentado no chão, a
cama toda escangalhada e o resto da companhia rindo. Nos
custou um fim de semana sem folga.
Outra lembrança viva é
a do dia do suicídio de Getúlio Vargas. Não tínhamos nem
dois meses de quartel e veio uma prontidão. Ninguém saía
nem entrava. Passaram para nós os apetrechos de guerra:
armas, munições, capacete, cantil, bornal, cintos e um
treco que botava nas costas, que parecia uma cangalha.
Ficamos todos como se fôssemos acampar. A diferença era
a munição, nos entregue pela primeira vez e com a
seguinte recomendação: ninguém podia carregar a arma.
Era um FO 1918, ou seja, um fuzil ordinário 1918, com
trinta e seis anos de uso.
Ainda hoje fico
pensando: e se houvesse necessidade de uma ação
qualquer? Ninguém sabia atirar! Principalmente com uma
arma descarregada! Felizmente não aconteceu nada e a
prontidão acabou.
Mas a lembrança mais
gratificante é a do primeiro acampamento, que nós
fizemos na Praia do Seixas. Três dias memoráveis, quando
aconteceram coisas incríveis. Cada barraca era ocupada
por dois soldados e lembro-me que o meu sócio era Newton
Leite. Por conta da sua astúcia, tínhamos a única
barraca do acampamento servida de luz elétrica,
fornecida por baterias e pequenas lâmpadas. Lembro-me
também de Fanta, motorista de José Waldomiro, levando
coisas enviadas por nossas famílias e entregando-as,
através do Cabo Branco, de uma forma camuflada, burlando
a vigilância.
Mas a nossa maior
glória estava reservada para o segundo dia, quando
passamos a manhã fazendo exercícios de combate, dentro
da mata que existia no altiplano do Cabo Branco. Junto
conosco estavam uns alunos de uma escola de sargentos da
polícia lá da capital do Estado do Ceará. Eram
comandados por um sargento e nós também. Entramos na
mata e começamos a caminhar. Depois de um bom pedaço de
terra, arbustos e árvores, paramos debaixo de um
frondoso cajueiro, para receber instruções sobre o
próximo passo do nosso treinamento. Alguém resolveu
contar uma anedota e foi engraçada. Outro também sabia
de uma e contou. Um tinha levado uma lata de goiabada e
abriu. Apareceu quem tivesse aguardente no cantil. E
também quem tivesse uma lata de Kitut. A festa estava
formada! A única recomendação foi que não bebêssemos
toda a água dos cantis. Determinado e cumprido.
Finalmente, chegou a hora de retornar ao acampamento e
nada tínhamos feito de instrução. Aí veio a experiência
superior:
- Com o resto da água
dos cantis molhem as roupas, principalmente nos joelhos
e cotovelos. Agora rolem no chão, se esfregando o máximo
que puderem. Todos em forma. Ordinário! Marchem!
Imundos, porém
altivos, entramos no acampamento cantando com toda força
dos pulmões o Hino do Regimento: "Somos do Quinze,
falange forte..." O Comandante da Companhia, orgulhoso,
de braços cruzados, gozava a nossa apoteótica chegada,
enquanto outros comandantes torciam a cara, naturalmente
com inveja e ao mesmo tempo sem acreditar no que estavam
vendo, pois éramos considerados as ovelhas negras do
15o. RI. O nosso Comandante fez uma preleção nos
elogiando e nos dando como exemplos a todos do
acampamento e, ao terminar, como reconhecimento ao nosso
excelente desempenho, bradou:
- Todos de folga hoje
à tarde!
19
OS
LEGIONÁRIOS
Todos os anos um bloco
de carnaval era organizado, tendo como ponto de apoio e
local para reuniões a minha casa. De 1951 a l956 foram
fantasias de pirata, do Zorro, de Mosqueteiros do Rei,
de jóquei, de presidiários e de legionários, aqueles
soldados do deserto. Éramos cerca de quinze rapazes e
quinze moças, em cima de um caminhão devidamente
ornamentado, de acordo com o tema determinado pelas
fantasias. Uma pequena orquestra tocando frevos
nos acompanhava pelas diversas residências que
visitávamos durante os três dias de folia.
O bloco ainda tinha um
jornalzinho e uma paródia de uma marchinha era
composta todo ano para ser cantada por nós, também
obedecendo ao tema das fantasias. Quando se aproximava o
carnaval, promovíamos reuniões semanais às
sextas-feiras, que sempre terminavam em festa. Nessas
reuniões tudo era discutido e decidido democraticamente.
No ano em que a
escolha do nosso tema, ou das fantasias, recaiu nos
soldados do deserto, os conhecidos legionários, fazia
parte do nosso grupo um rapaz do interior de São Paulo,
que estava trabalhando aqui no Nordeste, precisamente em
Campina Grande. Faltando poucos dias para o carnaval
chega-nos a notícia do seu falecimento, causado por um
porre de lança-perfume, tomado no quarto do hotel onde
ele se hospedava. Havia, talvez por falta de
conhecimento do perigo que corria, molhado bem o
travesseiro com o éter perfumado e metido o nariz em
cima, vindo a perder os sentidos e morrer sufocado.
Muita tristeza,
principalmente porque era uma pessoa simpática, alegre
e entrosado com o grupo, onde já estava de namorada.
Uma reunião extraordinária foi convocada para decidir o
que fazer: suspender o bloco ou continuar? Todos
votaram, menos a namorada do falecido que não quis
comparecer, e o resultado foi unânime: continuar! As
declarações de voto eram, até certo ponto, ridículas e
hipócritas: "a vida continua!"; "continuando a gente
está fazendo uma homenagem a ele"; "onde ele estiver vai
concordar conosco." E houve até quem sugerisse o uso de
uma tarja preta, de luto, nas fantasias!
A verdade é que todos queriam o
carnaval e não tinham qualquer responsabilidade com a
burrice do cara. O bloco saiu sem o casal da tragédia e,
naquele ano, foi um dos mais animados!
20
CARNAVAL
NO
ASTREA
Na
época, fim da década de cinqüenta, o Astrea era o
clube preferido pelos jovens, ficando o Clube Cabo
Branco para o pessoal mais conservador. Por isso o seu
carnaval era mais animado e mais concorrido. O
Presidente era o usineiro Renato Ribeiro Coutinho, mas
quem administrava tudo era o Vice, Desembargador Júlio
Rique, figura bastante conhecida da vida boêmia de João
Pessoa.
Estávamos todos na
maior animação quando surge o então Capitão dos Portos,
com a sua esposa. Sendo eles oriundos do sudeste ou sul
do País, não estavam muito acostumados com o
provincianismo do nosso povo e, por isso, a madame
chegou trajando uma calça comprida branca e bastante
justa, onde ficavam delineadas as marcas da calcinha que
usava por baixo. Era coisa nunca vista aqui: mulher de
calça comprida e mais justa! E o pior era que ela era
muita da bem feita de corpo e portava um generoso
traseiro! Mas o que chamava mais atenção eram as marcas
da calcinha!
Já havia um clima de
grande euforia, pois passava da meia-noite. Juntando-se
isso às bebidas, os porres de lança perfume e,
principalmente, essa nova atração, certamente iria
aumentar o reboliço. Quando ela entrou no salão de
danças com o marido, criou uma ilha cercada de olhares
por todos os lados. Nesse momento, um maluco ou maluca
qualquer, nunca se soube quem foi, acertou uma
seringada de lança perfume bem no centro do traseiro
dela. Foi um pulo e um grito e a confusão começou. O
marido esbravejava para um lado, ela esbravejava para o
outro e os diretores do clube pedindo desculpas e
tentando acalmá-los, coisa que não conseguiram. A
orquestra parou de tocar. O casal retirou-se, com o
marido ameaçando invadir o Astrea com a Marinha,
Exército e Aeronáutica.
A única força que
apareceu por lá foi a Rádio Patrulha, barrada na porta
pelo Desembargador, que usando dos seus conhecimentos
legais, informou aos soldados que eles só poderiam
entrar no recinto, por determinação judicial ou a
pedido do próprio clube. Feito isso foi até à frente da
orquestra e usando o microfone, proferiu uma contundente
preleção contra o uso indevido de lança perfume,
principalmente contra quem estava tomando porre, o que
certamente teria sido o indutor da pessoa que havia
praticado o reprovável ato contra a esposa do Capitão
dos Portos. E aproveitou a oportunidade para
aconselhar aos astreanos de como eles deveriam usar o
lança perfume:
- Usem nas costas das
senhoritas, mas nunca para tomar porres, que são
tremendamente prejudiciais à saúde. Usem nos cabelos das
moças, mas nunca para tomar porres, porque eles tiram a
razão das pessoas e as levam a praticar atos negativos.
Usem nos colos das namoradas, mas nunca para tomar
porres, porque já são muitos os resultados fatais
provocados por eles. Agora astreanos, a orquestra vai
voltar a tocar e nós vamos brincar o nosso Carnaval sem
maiores preocupações e respeitando a proibição de se
tomar porre de lança perfume.
Fez sinal para a
orquestra reiniciar a festa e, ali mesmo, diante de
todos, tirou o lenço do bolso, encheu de lança-perfume e
saiu para o salão, dançando e tomando porre...
21
O
BATIZADO
Martinho Quintas de Alencar era funcionário da Usina São
João, no município de Santa Rita e residia na própria
usina. Nos conhecemos no Ginásio Solon de Lucena, onde
chegamos a estudar juntos. Participamos de blocos de
carnaval e posteriormente fomos companheiros no Teatro
do Estudante da Paraíba. Ao nascer Luiz Maurício, meu
primeiro filho, poucos dias antes havia nascido o
segundo dele, que recebeu o nome do pai. Eu ainda estava
com a mulher na maternidade quando ele foi nos fazer uma
visita e nos convidou para ser os padrinhos do filho
dele. Claro que aceitamos a sua deferência e a
retribuímos convidando-o também para ser padrinho do
nosso, o que ele aceitou de imediato. Depois me
confessou que nos fez o convite, certo de o
convidaríamos também. Tendo os meninos atingidos alguns
meses de idade, acertou-se os batizados que seriam
realizados no mesmo dia, na usina onde Martinho morava,
pelo padre da paróquia de Santa Rita.
Na data marcada
estávamos lá, pais, padrinhos e alguns amigos e parentes
convidados pelas duas partes. Um dos meus convidados
especiais era o maestro Pedro Santos, por quem nós todos
tínhamos especial consideração. Com os batizados
marcados para às dezesseis horas, chegamos às nove e nos
aboletamos na residência do futuro compadre. Bebes e
comes, mais bebes do que comes, almoço, mais bebes e
comes e esquecemos a hora de ir buscar o padre.
Resultado: não aconteceram os batizados.
Marcada uma nova data,
estávamos novamente todos lá. E também outra vez bebes e
comes, mais bebes do que comes, almoço, mais bebes e
comes, sendo que , dessa vez, alguém da família de
Martinho ficou atento à hora de ir buscar o padre, que
chegando, encontrou os padrinhos bastante alegres, dando
vivas a Jesus Cristo e transpirando álcool. O padre, um
tanto ranzinza e de origem holandesa, recusou-se a
realizar os atos religiosos, alegando nossa condição de
adoradores de Baco. E mais que, se quiséssemos
batizados, agora teríamos que ir até à Igreja de Santa
Rita.
Dias depois estávamos,
às oito da matina, padrinhos e madrinhas portando seus
respectivos afilhados, à porta da tal Igreja, para
iniciar o ritual do batismo. Dessa vez a coisa iria
acontecer, pois até o horário, tão cedo, foi escolhido
para que ninguém bebesse antes. Todos a postos,
inclusive o padre, quando uma beata, dessas que ficam
colaborando com a arrumação de igreja, chegou ao ouvido
do vigário e cochichou alguma coisa. Ele virou-se para
nós e decretou:
- Non fazer mais
batizadas!
E retirou-se. Ficamos
sem entender coisa alguma até que a tal beata
esclareceu:
- Aquele amigo dos senhores roubou um santo do altar e
escondeu no carro...
Havia sido Pedro
Santos, que encontrando uma imagem de um santo, feito em
madeira e desprezada lá por trás do altar, recolheu-a
para si, alegando que ela havia sido substituída por uma
de gesso, de qualidade artística inferior, porém, muito
mais vistosa. Mas o padre holandês não queria saber
disso:
- Só fazer mais
batizadas se devolver santa!
Pedro Santos atendendo
as nossas ponderações foi até ao padre e propôs um
negócio: devolveria a imagem do santo, mas o padre
deixaria ele levar uns ex-votos que também estavam
desprezados no mesmo lugar. E não é que, para o espanto
geral, o padre aceitou! Os batizados foram realizados,
enfim! Quando saímos da igreja, Pedro Santos vinha se
justificando:
- Tudo depende de
diálogo, de se saber negociar. Eu cedi um pouco, ele
também cedeu um pouco, e tudo foi resolvido sem maiores
problemas!
22
ASA
DE
BODE
Trabalhávamos
na Administração do Porto de Cabedelo: eu, Raimundo
Nonato Batista, Durval Leal de Araújo, Etiênio Campos,
Ivanildo Coelho, João Barbosa, José Moacir Porto, Celso
Otávio Novais e outros. Residíamos em João Pessoa, por
isso nos agrupávamos ao término do expediente, às treze
horas. Quando chegava a sexta-feira o agrupamento era
mais festivo e etílico. Começava no bar de Dona Nila e
terminava só Deus sabe onde!
Num desses inícios de
fim de semana, com todos concentrados no tal bar, que
era ponto de encontro e de partida, aparece um moço
querendo vender uma galinha e pedindo um preço até
razoável, pois a penosa era de bom porte e de capoeira.
Todos começaram a pechinchar, numa tentativa de levar
alguma vantagem. O moço já estava quase cedendo quando
Durval, que já havia tomado umas oito, mandou o verbo:
- Roubar! É isso que
eles querem fazer com o senhor, meu amigo! Venda não! Eu
pago o primeiro preço que o senhor pediu. Eu respeito um
pai de família que sai à rua para conseguir o sustento
dos seus... Eu pago! É minha a galinha!
Tirou o dinheiro do
bolso, pagou ao moço, pegou a galinha e guardou no
carro, dizendo que ia levar para o almoço do domingo.
Enquanto fazia isso, o resto do grupo ficou arquitetando
uma vingança pelo desaforo dele, que seria a de roubar
a ave, mandar prepará-la e chamá-lo para comer junto com
todos. Foi acordado que se daria um tempo para que ele
pudesse esquecer da sua compra e a farra continuou sem
se falar mais no assunto. Em dado momento alguém sugeriu
uma esticada até à Praia do Poço, o que foi aceito pela
maioria, inclusive por Durval, a essa altura mais alegre
ainda!
Já na Praia do Poço,
parte do grupo cuidou de distrair o dono da galinha,
enquanto outra parte encarregou-se de roubá-la para que
fosse preparada na cozinha do bar. A desculpa era a
carne de bode que seria servida, declarada como a de
melhor sabor de toda a orla marítima, o que deixou
Durval bastante impaciente:
- Porra! Esse bode sai
ou não sai?
- Calma, Durval! Está
sendo preparado, é feito na hora! Garçom, mais uma
cerveja...
Comandou alguém,
tentando evitar que ele resolvesse ir embora. Mais
alguns minutos e o cheiro da galinha/bode estava no ar e
todos repetiam: "Que bode cheiroso danado!" E,
finalmente, o prato chegou à mesa em clima de festa,
tendo alguém botado logo uns pedaços para Durval, que
não se conteve em afirmar:
- Fazia tempo que eu
não comia um bode tão gostoso!...
-
Mais um pedacinho Durval. Tome aqui a asinha do bode...
Dizia um.
- Agora coma o
pescocinho do bode...
Dizia outro.
- Coma um pedaço da
moela do bode...
Arriscou alguém.
E Durval foi comendo
e elogiando o sabor até ao fim da farra. Veio a conta,
que foi dividida igualmente, e ele acabou pagando a sua
parte do prato de carne de bode, que era apenas uma
gratificação para a cozinheira.
23
A
DIPLOMACIA
DE
ROSEMIRO
O
cargo de Superintendente do Porto de Cabedelo era
político e de confiança do Governador do Estado, que
nomeava quem quisesse, desde que fosse um engenheiro.
Quando mudava o Governador do Estado, fatalmente mudava
também o Superintendente do Porto. Em maio de 1964, logo
após o golpe militar, quando era Pedro Gondim o
Governador, fui nomeado conferente, indo trabalhar na
beira do cais, contando volumes no embarque e
desembarque de mercadorias. Mas logo fui requisitado
para prestar serviços na Administração, na Divisão de
Contabilidade e Estatística, pelo então Superintendente
Eng. Newton Fernandes Maia, saindo assim da atividade
operacional para a burocrática. Fui ficando por lá,
vindo posteriormente a exercer alguns funções de chefia
e direção.
Em 1966, o Porto era dirigido pelo Eng. Guilherme Dantas
Vilar e eu já com quase dois anos de serviços prestados,
exercia a função de Secretário da Superintendência. Bem
relacionado com os companheiros, transitava muito à
vontade, desde o cais, onde eu havia começado, até no
gabinete da direção geral.
Foi
no começo, trabalhando como conferente, que reencontrei
Rosemiro, que havia conhecido quando menino, ao
freqüentar a casa dos meus avós maternos em Jaguaribe,
de quem ele era vizinho. No Porto ele exercia a função
de empilhador, espécie de motorista de empilhadeira,
veículo que transporta e empilha cargas. Volto a ter
contato com ele algum tempo depois, quando eu já era
secretário e ele exercendo uma nova função, a de guarda,
prestando serviços, coincidentemente, no prédio central
do Porto.
Rosemiro era forte, musculoso, mas não era agressivo.
Diziam que lhe faltava algum parafuso, mas que essa
ausência só se manifestava em situações extremas. Comigo
sempre fora cordato desde o tempo de menino, e quando o
encontrei novamente no Porto, a impressão foi a mesma.
Sempre alegre, prestativo, atencioso. Muitas vezes
conversamos sobre as brincadeiras em Jaguaribe, na
oficina de carpintaria do meu avô, onde o encontrei
várias vezes fazendo caminhões de brinquedo, com as
sobras de madeira.
Rosemiro não bebia, atividade muito bem
praticada pela maioria dos funcionários do Porto. Um
dia, estando de serviço, deparou-se com dois
funcionários discutindo, dizendo palavrões um com outro,
fazendo ameaças mútuas de murros e mortes, ambos
embriagados. Era cedo da manhã ainda, havíamos acabado
de chegar para o expediente. No meio da rua, em frente
ao prédio da Superintendência, a alteração continuava,
com Rosemiro tentando, com a maior calma possível,
desfazer a briga. Vez em quando conseguia separá-los e
distanciá-los. Mas quando dava as costas, a confusão
recomeçava. Rosemiro, pacientemente, argumentava:
-
Isso não dá certo! O doutor Guilherme chega daqui a
pouco e vai pegar vocês brigando, embriagados, na hora
do expediente! Parem com isso, eu já pedi! E logo você
que é irmão dele, está dando esse mal exemplo! Vão
embora, vão tomar um banho, vão se acalmar...
Um
dos brigões era, de fato, irmão do Superintendente, o
que tornava a situação mais complicada para Rosemiro.
Ele insistia, tentando acalmar os ânimos, mas já se
notava alguma mudança no seu comportamento, embora
continuasse pregando a harmonia e o entendimento. Outra
vez separou os contendores e eles voltaram a insistir na
briga. Foi aí que Rosemiro não conseguiu mais se
segurar:
- Muito bem, vocês
dois! Estou aqui há meia hora tentando acabar essa briga
de vocês. Mas vocês querem brigar. Já fiz tudo que pude
para o bem de vocês. Mas vocês querem brigar. Está muito
bem. Vocês querem brigar, vai ter briga. Mas vai ser
comigo!...
Partiu para eles e
surrou os dois que, apavorados, bateram em retirada.
Quando o doutor Guilherme chegou, tudo funcionava
normalmente.
24
JOAQUIM
&
AGILDO
Por
conta dos bons serviços prestados à sua administração, o
Coronel Walter Moreira Lima nos concedeu bolsas de
estudos para cursarmos, eu e Raimundo Nonato Batista,
a Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação
Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Raimundo para o curso
de Organização e Métodos e eu para Relações Públicas,
Administração de Pessoal e de Material. E lá fomos nós,
sob protestos de alguns invejosos da Administração do
Porto de Cabedelo, de onde éramos funcionários, passar
uma temporada na Cidade Maravilhosa, com tudo pago.
O ano era l967, primeiro semestre. Depois de alguns dias
em contato com os nossos novos companheiros de trabalho
ou de estudo, conhecemos Joaquim, um paranaense
descendente de português. Estávamos a falar da
necessidade de alugarmos um pequeno apartamento já
mobiliado, de preferência, na Praia de Botafogo, onde
situava-se a nossa escola, quando o nosso novo amigo
mostrou-se interessado em também participar do aluguel.
Para nós, melhor, pois além dele ser uma pessoa
simpática, tinha transporte próprio e as despesas seriam
divididas por três. E assim foi.
A esse mesmo tempo, Raimundo encontra, também, Agildo,
um primo seu, que não via há algum tempo, e que passou a
freqüentar o nosso apartamento do terceiro andar do
Edifício Hindu. Com Joaquim, foi muito fácil o
relacionamento de Agildo, pois ambos eram solteiros. Com
Raimundo, esse relacionamento já existia. Comigo a
coisa foi um tanto mais difícil, pois eu não concordava
com algumas práticas dele, por demais modernas para mim,
na época. Como também pesava o fato de eu ter pouco
tempo de casado e um filho recém-nascido. Mesmo assim,
nunca fiz objeção à sua presença, embora não comungasse
totalmente com o seu comportamento. Raimundo chegou a
comentar comigo sobre uma atitude, aparentemente hostil,
da minha parte para com ele, mas ainda hoje acho que foi
sem querer e sem pensar, saiu assim, quase
automaticamente: Agildo contava bem à vontade as suas
práticas de sexo oral, com detalhes, com gestos, e eu
achava tudo aquilo uma nojeira. Certa vez, ao entrar no
apartamento, me deparo com ele bebendo água no meu copo.
Ato contínuo, jogo o copo fora!
Joaquim, uma figura
engraçada, bem humorada, solteiro e sem maiores
compromissos até com o próprio curso que fazia, estava
lá muito mais para se divertir do que para trabalhar. Eu
e Raimundo, não. Além de casados, tínhamos que prestar
contas das nossas atividades no Rio, junto à
Administração do Porto de Cabedelo, sob pena até de
sermos chamados de volta. Agildo já vivia no Rio há
algum tempo. Solteiro, trabalhava de dia e aproveitava a
noite para farrear. Claro que eles dois se entenderiam
melhor!
Para o nosso primeiro
fim de semana no apartamento, tínhamos combinado com
Joaquim ir fazer, no sábado, umas compras no
supermercado. Ele encheu a cara na véspera, dormiu tarde
e, naquela manhã se recusou a levantar-se da cama. Nos
entregou a chave e os documentos do carro, dizendo que
fôssemos nós, que ele iria ficar dormindo. Saímos, eu e
Raimundo, num Karman-Ghia, sem conhecer bem o trânsito
do Rio, a ouvir desaforos de outros motoristas que, por
sorte, olhavam para a placa do carro e gritavam: "Seus
barbeiros viados, só podiam ser do Paraná!"
Na semana seguinte,
Joaquim e Agildo, já mais íntimos, anunciaram que
estavam esperando umas amigas que haviam conhecido e que
eram perfuradoras de cartões da IBM. Elas trabalhavam
até às vinte e duas horas e depois passariam pelo
apartamento para saírem juntos. Até aí, sem problemas,
mesmo porque Joaquim também pagava o apartamento e tinha
lá os seus direitos. Ficamos os quatro conversando,
eles dois esperando as duas moças e nós, eu e Raimundo,
aguardando a saída deles, para iniciar a feitura de um
trabalho do curso, que teríamos de entregar na
segunda-feira seguinte. Quase meia hora depois da hora
marcada as moças ainda não haviam chegado e eu, querendo
fazer o trabalho antes que o sono aparecesse, estava
tentando convencê-los de que elas não viriam mais e que
era melhor eles saírem, para encontrá-las lá na IBM... A
campainha tocou. Joaquim foi abrir a porta. Entraram
oito moças!
Não precisa dizer do
nosso espanto. Oito perfuradoras era perfuração demais
para poucos cartões! Fiquei olhando abismado,
contrafeito, demonstrando a minha habitual falta de tato
com esse tipo de situação. Raimundo era muito mais
civilizado e procurou suprir a minha deficiência, sendo
atencioso com o pessoal, claro que sem qualquer
enxerimento. Agildo, bastante eufórico com o
despropositado harém, começou a fazer as apresentações e
lá estávamos eu e Joaquim, Deputados da Paraíba,
enquanto Raimundo era Senador ! Ele, por sua vez, era o
nosso assessor parlamentar no Rio de Janeiro. E em
seguida começou a preparar a nossa noitada: iríamos
primeiro a um restaurante, depois a uma boate...
Eu
parei logo com o andor, anunciando, de pronto, que não
iria sair para canto algum. E para não desmoralizar a
farsa armada por Agildo, justifiquei que tinha que
preparar um projeto que seria discutido no outro dia com
o diretor do Serviço Nacional de Teatro, lá em Arcozelo,
num encontro cultural, e mais um bocado de besteiras
para impressionar. Raimundo só fazia confirmar dizendo
"Pois é... Pois é... Pois é...", enquanto Joaquim,
irreverente como sempre, rolava de rir, dizendo-me:
"Vossa Excelência leva o trabalho muito a sério!"
A temperatura subiu um pouco, acho que por conta da
aflição e da quantidade de pessoas dentro de um pequeno
espaço, respirando, falando e se movimentando. Achei por
bem abrir o único janelão da sala e, de repente, entra
aquele vento frio no recinto. Todo mundo sentiu e se
arrepiou e eu aproveitei o fato para ser mais
contundente na minha decisão:
- Com um frio desse eu
não vou pra canto algum. Posso pegar um resfriado e
amanhã ficar impedido de trabalhar...
Joaquim trouxe uma
solução que atendia plenamente os objetivos dele e de
Agildo, deixando-nos sem condição de reagir e mudar a
situação:
- Ninguém vai mais
sair. Fica todo mundo aqui! Vou lá em baixo buscar umas
cervejas, pegar umas pizzas, umas empadinhas...
O que fazer?! Raimundo
continuava a dizer "pois é..., é isso..., está fazendo
frio,..." e na verdade estava era todo enrolado. Eu, sem
ter outra coisa melhor a dizer, falei para Joaquim:
- Aproveite e traga
também uma garrafa de conhaque!
Armada a festa toda,
não precisa dizer do nosso constrangimento, enquanto que
para Joaquim, Agildo e as oito moças estava tudo muito
bem obrigado! Piadas, conversas gerais, bebida pra lá,
bebida pra cá, muita mentira sobre a nossa vida no
Nordeste, o tempo passando, a descontração chegando e de
repente, lá volta Joaquim com as suas propostas e, dessa
vez, bastante inusitada:
- Vamos brincar de
roleta carioca? Onde está o baralho? É o seguinte: cada
um pega uma carta e quem tirar a menor, tira também uma
peça da roupa. Topam?
Agildo foi o primeiro
a aceitar o jogo, enquanto que a maior parte das moças,
já com algum álcool no juízo, não se fez de rogada. E
nós ficamos no quem cala consente...
E o jogo começou após
todos encherem seus copos. Quando uma moça perdia,
tirava um brinco, um anel, uma pulseira... Já o homem,
depois do relógio, só tinha para tirar a roupa mesmo!
Foi quando Agildo levantou uma questão de ordem, dizendo
que daquele jeito estávamos levando desvantagem, no que
concordou Joaquim, trazendo a solução do problema,
através de uma das suas idéias estapafúrdias:
- É o seguinte: as
regras estão mudadas! Agora eu penso numa carta e cada
um de vocês puxa uma carta. Se coincidir com a que eu
pensei, vocês ganham. Caso contrário, vocês perdem e
tiram uma peça da roupa. Entenderam? Então, vamos
começar. Elpídio, puxe uma carta e diga qual foi.
- Quatro de copas...
- Exatamente a que eu
pensei, você ganhou. Não tira nada!
E continuou a farsa,
perguntando às outras pessoas e determinando a retirada
de uma peça de roupa de quem ele bem quisesse! E a coisa
começou a esquentar, com as pessoas já meio altas a
fazer um coro de tira, tira , tira, toda vez que uma
perdia. Em dado momento, acho mesmo que por conta da
situação, fui até à janela e olhei lá pra baixo, pra
rua. Foi aquele susto: dois carros de polícia parados em
baixo, com soldados olhando para cima e apontando na
direção da nossa janela! Alarmei!
- Tem dois carros de
polícia lá em baixo e os soldados estão subindo prá cá!
Alguém deve ter denunciado!
Agildo, demonstrando
experiência nessas situações, comandou a operação bota
fora e foi logo alertando as moças que descessem pela
escadaria e não pelo elevador, por onde deviam estar
subindo os policiais. Algumas ainda saíram se vestindo e
o que ficou de brinco, anel e pulseira no chão do
apartamento foi apanhado e guardado rapidamente. Tudo
reorganizado, ficamos aguardando a chegada das
autoridades, normalmente conversando e bebendo, para que
não desconfiassem de nada. Claro que a gente iria
sustentar que estávamos sozinhos. O tempo passou e nada!
Ninguém bateu na porta, ninguém tocou a campainha! Meia
hora depois, resolvi descer e ir até um boteco que havia
no térreo do prédio. Lá, como quem não quer, querendo,
procurei me informar e fiquei sabendo que houvera uma
briga de marido e mulher, no oitavo andar, que resultou
em lesões corporais nela e o síndico chamou a polícia.
Como o marido era da aeronáutica, só poderia ser preso
pela patrulha daquela arma. Daí a presença de dois
carros. E assim acabou o meu primeiro envolvimento numa
roleta carioca!
25
A
CIRURGIA
Ao
aproximar-se o retorno para João Pessoa, a minha mulher
foi passar os últimos dias do curso da história
anterior, comigo. A essa altura eu já morava no Leme,
bem distante do apartamento do Botafogo, de Agildo e das
suas perfuradoras da IBM. Terminado o curso, ficamos
ainda o resto da semana passeando no Rio e marcamos o
retorno para o domingo. Na véspera da volta, no sábado,
entregamos o apartamento, deixamos a nossa bagagem na
residência de um irmão meu, no Flamengo, e fomos para
Niterói visitar uns primos, na casa de quem
pernoitaríamos, saindo no outro dia para pegar a bagagem
e embarcar. Antes de entregar o apartamento do Leme,
fizemos o rapa na geladeira, comendo tudo que restava
lá. Eu, como sempre, exagerado, abusei do presunto com
ovos. A mulher apenas tomou leite.
Já no meio da
travessia da Baía da Guanabara, comecei a sentir um mal
estar, tonturas e escurecimento de vista. O pessoal da
barca achou que eu estava enjoando, ao que declarei ser
impossível, pois desde os oito anos de idade que eu
andava de barco e nunca havia sentido qualquer tipo de
enjôo. Mesmo assim me deram um comprimido e recomendaram
que eu tentasse vomitar que,
certamente, melhoraria. Até que tentei,
mas não saía nada!
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