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SUCEDIDOS 3

31

NO TEMPO

DA CRESTOMATIA

             Este título era de Pedro Santos. O maestro falou muitas vezes num espetáculo que retratasse o que havia significado a Crestomatia para a formação do estudante pré ginasiano. Para quem não conhece, a Crestomatia era uma coletânea de textos da língua portuguesa, usada por alunos do exame de admissão ao ginásio. Estou tomando emprestado esse título, para narrar alguns fatos do meu tempo de estudante dos três níveis escolares.

                                                       *  *  *

                  O meu curso primário foi feito no Grupo Escolar Antônio Pessoa, ainda hoje existente na Avenida B. Rohan, pertinho da Lojas Brasileiras, antigamente denominada de Lojas 4.400. Sendo um estabelecimento de ensino público, já oferecia gratuitamente uma merenda aos alunos, no meu caso às nove horas, pois eu era do turno da manhã. Saíamos das classes em fila indiana até ao pátio interno do Grupo, onde, em longas mesas formadas por cavaletes e tábuas, nos ofereciam o lanche, geralmente sopa ou mungunzá, que comíamos de pé. Do ritual faziam parte algumas determinações: a comida era colocada nos pratos ainda fervendo; após todos os pratos abastecidos os alunos eram chamados e colocados diante dos mesmos e só poderiam começar a comer quando todos houvessem chegado, para o que era dado uma ordem.

                   Certo dia, mesmo muito gripado, fui para a escola com o nariz escorrendo, uma coriza danada. Com a ajuda do lenço e de alguns sugados  de nariz, achei-me em condições de ir até ao pátio para merendar, sem causar qualquer tipo de incômodo aos demais. Lá estou eu, diante de um prato de sopa fumaçando, quando algum companheiro diz uma coisa engraçada e eu dou uma risada, que resultou em espirrar secreção do nariz dentro do prato de sopa. Ninguém notou, somente eu que, como num ato reflexo, troquei, sem que fosse visto, o meu prato com o do vizinho de mesa. Dado o consentimento, todos começaram a comer e quando eu vi o meu colega comendo a sopa do prato que eu havia trocado, não consegui comer o que estava na minha frente, mesmo sabendo que ele estava sem qualquer mistura. Durante algum tempo, até em casa, por mais que eu tentasse,  não conseguia tomar sopa!

                                 *     *     *
              
Os cursos médios foram entre o Liceu Paraibano, o Ginásio Solon de Lucena e outra vez, o Liceu Paraibano. Dessa época, muitas histórias e, entre elas, uma que eu nunca consegui esquecer: Humberto, não lembro o resto do nome, era de Santa Rita e vinha estudar em João Pessoa, no Liceu, a princípio, depois, no Solon de Lucena.  Lá o professor de português era José Maria Barbosa, jovem saído do Seminário, imbuído de toda aquela disciplina religiosa e jogado no meio de péssimos alunos oriundos do Liceu Paraibano, onde não conseguiam passar de ano por razões unicamente de vagabundagem. Prova final oral de português e lá, frente à frente, Zé Maria e Humberto:

                  - Tire o ponto, seu Humberto.

                  O ponto é tirado e entregue ao professor, que olhando na relação, anuncia:

                  - Pronomes pessoais! Fale sobre o assunto, seu Humberto.

                  - Que azar! Caiu exatamente o que eu não estudei!

                  Disse Humberto, deixando bem claro que nada sabia sobre o assunto.

                  - Está bem, seu Humberto. Vou lhe dar outra oportunidade. Tire outro ponto.

             Atendida a solicitação, o professor procura na relação qual é o tema, olha para Humberto, ri e dá a sentença:

                  - Verbos intransitivos, seu Humberto! Pode falar!

                 - Agora é que eu me lasquei mesmo! Deixe eu tirar outro ponto, professor...

                  Pede Humberto, enquanto Zé Maria vai ficando vermelho e num rompante, declara:

                 - Não precisa, seu Humberto. Não precisa mais tirar ponto algum. O senhor escolha qualquer ponto do programa , qualquer assunto, qualquer coisa que o senhor souber, contanto que faça a sua prova! Eu não quero lhe reprovar , mas para isso o senhor precisa fazer alguma coisa!

                  Humberto pensa um pouco enquanto, impaciente, o professor espera por uma resposta, com um o semblante de quem tem certeza que daquela mata não sairia coelho. Humberto ajeita-se na cadeira, dá sinais de que havia tomado uma decisão e sugere:

                  - Professor! Que tal uma leiturinha?

                  Claro que Humberto não foi aprovado...

                                               *     *      *

                      Aluno na FAFI - Faculdade de Filosofia da UFPb. e já participante de movimentos culturais e políticos de João Pessoa, aproveitava os intervalos das aulas, juntamente com outros colegas, para ouvir os papos dos intelectuais da Cidade, que aportavam por lá, uns por ser alunos também, outros professores e alguns viciados visitantes. Cinema era o assunto mais em voga, principalmente devido ao grande momento pelo qual passava a sétima arte, não só no Brasil e, particularmente, na Paraíba, como também no mundo inteiro. O Cinema-Novo era a vedete. Antonioni para um lado, Godard para o outro, Glauber Rocha por cá, Visconti por lá, Linduarte Noronha por aqui, era uma torrente de conhecimentos cinematográficos jogados nas nossas caras, pobres diabos ignorantes, que nem os Cahiers du Cinema havíamos lido!  Geralmente o grupo era formado por Wills Leal, Paulo Melo, Jackson Carvalho, Martinho Moreira Franco, Linduarte Noronha, Virginius da Gama e Melo, entre outros e nós os menos avisados, que ouvíamos  aquela discussão teórico-técnico-filosófica sobre diretores, filmes e fotografias, calados, é claro, para não dizer besteiras. Certa vez um assunto polêmico dividiu o grupo intelectual, que começou a vomitar conhecimentos, com argumentos que só eles entendiam. Foi quando Silvio, que pertencia ao nosso grupo de escutas, abriu uma brecha e declarou:

                  - Olhe, pessoal, eu não sei se vocês já leram, mas numa edição do Le Monde tem uma entrevista com Mourrá Guedê, na qual ele faz uma declaração exatamente contrária a essa discussão de vocês! Eu tenho até o jornal em casa, que peguei emprestado lá na Cultura Francesa. Se vocês quiserem, eu trago amanhã!

                  - Quem foi?!

                Quase a unanimidade do grupo que discutia perguntou, enquanto Silvio respondeu como se tivesse falando da pessoa mais conhecida do mundo:

                      - MOURRÁ GUEDÊ !...

                      Silêncio geral, inclusive nosso. A verdade é que ninguém sabia quem era esse Mourrá Guedê. O assunto foi mudado e, pouco a pouco, o grupo se desfez e nós ficamos boquiabertos com a erudição cinematográfica de Silvio. Claro que o interrogamos:

                       - Rapaz, desde quando tu estudas na Cultura Francesa?

                       - Desde nunca!

                       - Então qualquer um pode chegar por lá e pegar jornal francês?

                        - E eu sei!  Aquela história eu inventei!

                        - Quem é esse tal de Mourrá Guedê?

                        - Eu! Silvio Moura Guedes!

 

 32

ERNANI SATIRO,

O COMUNISMO E SATANÁS

                    Sua nomeação para Governador, como era esperada, saiu. Ernani Sátiro tomou posse na data marcada, arrodeado de bajuladores seus e da ditadura militar que, para nossa desgraça, se instalou no país. Aí começou o festival de besteira que assolou a Paraíba durante quatro anos, no começo da década de setenta.   

                    Lúcia Navarro Braga,  que dispunha de alguma influência política, resolveu patrocinar a minha nomeação para diretor do Theatro Santa Roza. E através de Dona Antonieta, esposa do Governador, armou uma visita à Granja Santana, levando-me a tiracolo.

                    Era natural o meu constrangimento. A minha posição política-ideológica, era frontalmente contrária à ordem vigente. Mas, por outro lado, era politicamente correto ocupar espaços, já dizia o nosso guru Pedro Santos. Como também eu precisava ganhar mais algum dinheiro.

                      Fomos muito bem recebidos pela primeira dama e com ela ficamos a conversar miolo de pote, enquanto esperávamos a presença do Governador. Dona Antonieta explicava que ele estava concluindo um documento e logo nos atenderia. Mais uns vinte minutos de espera e Ernani Sátiro aparece, dirigindo-se a Lúcia, que faz a minha apresentação:

               - Governador esse é o meu primo, Elpídio Navarro, para o qual eu pedi aquela nomeação de diretor do Theatro...

                      - Navarro? Amigo velho, o que Antenor Navarro era seu?

                      - Irmão, Governador.

                      - Irmão? Irmão não! Você deve ser sobrinho.

                      - Governador, o meu pai também era o pai dele...

                      - O Doutor João...

                      - O Doutor João Navarro era o pai de Lúcia e tio meu. Lúcia é minha prima.

                      - Isso eu sei, ela me falou. Mas você é muito moço!

                     - Doutor Ernani, o meu pai, que se chamava Francisco Xavier Navarro, foi casado duas vezes. Eu sou filho da segunda mulher dele.

                      - É. Assim é mesmo irmão.  Mas, e Ariano Suassuna?

                      - Ariano é de outra família!

                      - Eu sei amigo velho. Estou perguntando o que é que você acha dele. Já encenaram alguma peça dele aqui? Ele é paraibano, viu! O pai dele também foi governador.

                      - Eu sei. Eu conheço bem Ariano. Já montamos algumas peças dele. Aliás, a primeira vez que eu participei de um espetáculo de teatro, não como ator, mas na parte técnica, foi exatamente com uma peça de Ariano: Cantam As Harpas do Sião.

                       - Essa eu nunca ouvi falar. Eu li outra, A Compadecida.

                     - Também já encenamos aqui. Fizemos também O Auto de João da Cruz, A Pena e a Lei e O Auto da Boa PreguiçaA Compadecida foi montada três vezes..

                      - Ele é bom, não é? E Luís Jardim? Ele é bom também! E é meu amigo, viu?

                      - Dele só montamos uma peça: Isabel do Sertão.

                     - Então quer dizer que o amigo velho é parente de Antenor Navarro?

                     - Sou, Governador.

                     - Sobrinho, não é?

                     - Irmão...

                    - Ah, irmão! É isso mesmo, você explicou. Pois é amigo velho, a dona Lúcia aí sugeriu seu nome para a direção do Theatro Santa Roza e um pedido de dona Lúcia eu tenho que levar em consideração. Agora, vou lhe perguntar uma coisa: você é comunista?

                     - Eu?!... Que eu saiba, não!

                     - Eu pergunto porque esse pessoal ligado à arte todo ele é! E a minha quota de comunistas no governo já está completa com Linduarte Noronha e o jornalista Severino Ramos. Os homens lá de cima reclamaram, mas eu já tinha nomeado e não vou voltar atrás. Agora, aumentar eu não posso, porque  não quero mais discussão com esse povo. Eu sei que você é de uma família tradicional, sobrinho de Antenor Navarro...

                    - Irmão, Governador!

                   - Sim! Irmão, tudo é a mesma coisa. Então, eu vou fazer a consulta e de acordo com a resposta eu aviso a Dona Lúcia.

                    Nesse momento, Lúcia é convidada por Dona Antonieta para conhecer as reformas que havia feito na casa e ficamos na sala, eu e o Governador, que não tendo mais o que me dizer, saiu-se com essa:

                   - Bem, esse negócio de olhar reforma de casa é coisa de mulher. Então o senhor vá lá prá fora e fique esperando por Dona Lúcia.

                    Dito isso, retirou-se para uma outra sala, que deveria ser o gabinete de trabalho dele. E eu, literalmente botado de casa prá fora, dirige-me à  uma varanda que existia na entrada  e lá, debruçado, fiquei recolhido à minha insignificância! O pior era ter agüentado tudo aquilo para nada. Aquela história de ser comunista estava fichada lá no Grupamento de Engenharia. Embora não tivessem provas, pelo menos suspeitavam. E isso era fatal! Na verdade, eu era mesmo! Só não podia confirmar, naquela época, sob pena de ser preso, perder emprego, aquelas providências patrióticas que eram tomadas pelos donos do poder. Estava eu já deduzindo que tinha sido perda de tempo, quando o Governador aparece na tal varanda e debruça-se também, um pouco mais adiante e fica calado. Eu permaneci como estava e mais ou menos depois de uns longos trinta segundos, vira-se prá mim, anunciando:

                   - Eu tenho muita admiração pelo seu tio! Antenor Navarro foi um dos esteios da Revolução de 30! Você lembra dele? Morreu muito moço, não foi?

                   Realmente meu saco já estava estourando! Mesmo assim me controlei e resolvi entrar no jogo dele:

                   - Governador, quando o meu tio Antenor Navarro morreu, eu ainda não era nascido!

                   - Não fosse aquele desastre do avião, seu tio hoje deveria ser muito importante nesse país!

                   Claro que não agüentava mais aquele papo e fui salvo pelo aparecimento de Lúcia e pelas despedidas. De volta comentei com ela a minha descrença na tal nomeação e não deu outra coisa, pois nunca fui chamado.

                    Mas Ernani Sátiro continuou tirando o mandato que recebeu dos militares, ao mesmo tempo em que se tornava o governador mais folclórico que a Paraíba já teve. Como também não posso deixar de registrar que ele foi um dos mais honestos. Do lado folclórico salienta-se um  fato ligado ao Hotel Tambaú:  duas placas na inauguração, uma com o nome dele e outra com o nome de João Agripino, que foi, realmente, quem construiu o hotel.

                   Tempos depois, fiquei dono de uma gráfica e, por coincidência, Noaldo Dantas, na época Secretário da Comunicação Social do Governo, pediu-me para fazer o cartão de Natal de Ernani  e de Dona Antonieta. Claro que aceitei a encomenda, pois representava faturamento. Passados uns dias, Dona Yara, Secretária do Governador, telefona-me, dizendo que o Doutor Ernani queria falar comigo sobre os cartões de Natal. Eu ponderei que estava trabalhando e não estava com roupa adequada para uma audiência com o Governador, ou seja, paletó e gravata, condição exigida pelo cerimonial do Palácio. Ela insistiu, dizendo que eu fosse como estava, pois o Governador havia recebido a prova do trabalho e queria conversar comigo. Antes de ir, verifiquei uma cópia da prova dos cartões que havia sido mandada para ele, preocupado com algum possível erro que pudesse ter sido cometido. Como estava tudo correto, fui até ao palácio apenas curioso. Introduzido ao gabinete do governador, onde já estavam Noaldo Dantas e Manoelzinho Gaudêncio, fui por Ernani interpelado: "Amigo velho, eu vi a prova do cartão de natal meu e de Antonieta e achei muito bom. Eu queria só saber uma coisa: vai sair tudo igual?"  Diante da minha afirmativa, foi contundente: "Sendo assim, pode ir embora, amigo velho", sem, felizmente, lembrar-se de Antenor Navarro!

                   Posteriormente reclamei de Noaldo, dizendo que ele poderia ter explicado ao Governador que não havia  como sair diferente da amostra, uma impressão, principalmente em off-set que a chapa é uma gravação. Ele me disse que tinha explicado tudo, mas que o Governador queria ouvir-me, para ter certeza!

                   Tempos depois dois fatos vieram a se relacionar com Ernani, quando  com Jório Machado, Biu Ramos, Jonas Leite Chaves e outros, fundamos  o jornal O Momento, que começou a criticar o seu governo: primeiro o Deputado Antônio Nominando Diniz, fazendo-lhe oposição na Assembléia Legislativa e, segundo,  a exibição em João Pessoa do filme O Exorcista. No novo jornal demos uma declaração do Deputado como manchete de primeira página: "Ernani Está Vendo Fantasmas!" Abaixo, ao centro, uma matéria sobre aquela declaração, tendo à direita uma fotografia do Governador com a cara de espanto. À esquerda, na mesma altura da fotografia, um desenho de Satanás, olhando para Ernani, tendo, abaixo, uma chamada para um comentário que eu havia escrito, sobre o filme O Exorcista. Isso junto nos levou ao Grupamento de Engenharia, denunciados como subversivos que queriam desestabilizar o Governo!

33

PERIGOSO

COMUNISTA

                   Afora José Américo de Almeida, que foi o mais importante deles, fui eleitor e até amigo de outros políticos como Pedro Gondim, Robson Duarte Espínola, Antônio Nominando Diniz, Ivan Bichara, Tarcísio Burity, Raimundo Asfora, Antônio Carneiro Arnaud, Jório Machado, Egídio Madruga e  Francisco Ramalho Leite. Nunca fui amigo e também nunca votei em nenhum político com o pre-nome de Fernando (portanto não sou responsável por essa esculhambação que existe no Brasil), como também nunca votei e nunca fui amigo de nenhum político que tivesse o nome Cunha Lima. Mais recentemente votei em Lula , Lúcia Navarro Braga, Luiz Couto e Orlando Madruga (e que me perdoe o sigilo eleitoral!). Além desses todos, dois outros tiveram, por razões diversas, importância para mim. O primeiro foi Wilson Leite Braga, que conheci na minha casa na Praia do Poço, onde ia encontrar,  ainda como namorado (ou noivo), Lúcia Navarro, minha prima-irmã. O segundo foi Antônio Marques da Silva Mariz, que conheci quando ele ainda era noivo de Mabel Dantas, amiga da,  naquela época, minha noiva e com quem casei a primeira vez. Mariz e Mabel também fizeram o mesmo e, posteriormente, chegamos a ser compadres. Dos dois, Mariz e Wilson, fui eleitor e amigo.

                   Ficando fora da quota de comunistas do Governador Ernani Sátiro, fui tentar a vida noutras áreas pois, tendo pedido demissão do Porto de Cabedelo, só me restava um contrato mixuruca  no Estado, como Técnico, no Teatro Santa Roza, o que deveria pagar um pouco mais que o salário mínimo da época. O Jornal Edição Extra levou-me a acertar uma entrevista com Antônio Mariz. Após a entrevista ficamos conversando um pouco sobre a minha saída do Porto, quando relatei as razões que me levaram a ela.  Mariz falou-me da possibilidade de um aproveitamento na Secretaria da Educação e Cultura, com um cargo em comissão, uma vez que eu já estava ligado a ela através de um contrato. Lembrei-lhe do caso da direção do Theatro Santa Roza, quando já existia o contrato acima citado, que vinha desde o Governo Pedro Gondim, e mesmo assim o meu nome tinha sido vetado. E o Santa Roza também era ligado àquela Secretaria. Ele argumentou que para Diretor do Theatro, o Governador teria de fazer aquela consulta aos órgãos de segurança, mas que um cargo de direção intermediária, dentro da própria Secretaria, não chamava a atenção dos militares e a consulta não seria feita. Mais ainda tratando-se de um funcionário da própria Secretaria. Quanto ao Governador, eu ficasse tranqüilo, que àquela altura ele não se  lembraria de mais nada da minha visita à Granja Santana!

                   Algum tempo depois da nossa conversa, recebo de Mariz a informação que devia me apresentar à Secretaria de Educação e Cultura, ao Secretário José Carlos Dias de Freitas, que queria conversar comigo. Fui recebido imediatamente, passando até à frente de outras pessoas que lá estavam esperando ser atendidas. O Secretário foi atencioso, e, diante das informações  dadas por Mariz, como a de já ser funcionário, ter cursos de administração pública na Fundação Getúlio Vargas e experiência administrativa no Porto de Cabedelo, convidou-me para assumir a Diretoria Administrativa da sua Secretaria. Era bom demais para ser verdade! Lá eu ia ganhar mais do que no Santa Roza! Disse-me que iria preparar o ato e que aguardasse um chamado seu.

                   A experiência me impediu de comemorar o convite. Nunca fui de contar com o ovo antes dele passar pelo fiofó  da galinha. Mas fiquei muito contente, certo de que a minha situação financeira iria melhorar um pouco. Aguardei, pacientemente aguardei, aguardei e aguardei.

                   Passados quinze dias de esperanças, não pude mais me conter e voltei à Secretaria, à procura de alguma notícia sobre a tal nomeação. Fui informado que o Secretário não poderia me receber, pois estava numa reunião com assessores devido a uma viagem à Brasília que faria no dia seguinte e que eu voltasse na outra semana. Pensei comigo: eu deveria estar nessa reunião, uma vez que vou ser...  Achei tudo muito estranho!  Mas só restava-me aguardar.

                   Deixei passar o tempo e não voltei lá na data marcada. O Dr. José Carlos tinha como se comunicar comigo, o melhor era esperar. E bote esperar nisso. Já um tanto desiludido voltei à Rua das Trincheiras, onde ficava a Secretaria. Fui informado que o Secretário estava elaborando o expediente para levar  ao Governador ainda naquela manhã  e que só poderia me atender à tarde. Pensei: Opa! Meu ato deve estar nesse meio! Devia ser quatro da tarde quando avisei: olha eu aqui de novo! Soube que o Secretário havia ido para o Recife e só voltaria na segunda-feira. Pensei em desistir, mas a necessidade é madrasta. Na semana seguinte lá estava eu mais uma vez: "O Secretário mandou dizer que ainda não tem nada a dizer, que o senhor fique aguardando, que quando ele tiver alguma notícia manda lhe avisar." Foi a informação da funcionária do Gabinete. Para mim, a gota d'água!

                   Passa-se o tempo, acontecem na minha vida uma gráfica, o jornal O Momento, continuei como funcionário do Teatro  e Ernani concluindo seu mandato biônico  sem a minha participação. Com o Secretário José Carlos Dias de Freitas encontrei-me algumas vezes no Santa Roza e, propositadamente, não o cumprimentei, afastando-me sempre das imediações dele. Achava ter sido uma grande sacanagem o que ele fez comigo (e ainda acho hoje!) e, portanto, eu não queria aproximação.

                   Mas a vida seguiu a sua inexorável caminhada do nascimento para a morte, e todos nós seguimos juntos, sujeitos às mutações naturais e às provocadas pelos interesses pessoais. Haja frescura! E no meio dessas mudanças um recado me surpreendeu consideravelmente. Veio através de Paulo Albuquerque Melo, que era Diretor Geral de Cultura:

                   - Rapaz, o Dr. José Carlos Dias de Freitas está lhe convidando para um almoço lá na casa dele, na Av. Epitácio Pessoa, sábado próximo. Ele quer explicar a você o que aconteceu naquele episódio da tua nomeação, quer acabar com essa tua rejeição à pessoa dele... Pelo que ele me disse e eu não estou autorizado a lhe adiantar, você vai dar razão a ele... Acho que você deve aceitar... Sim, o convite é extensivo à sua família, à sua mulher...

                   Em casa conversei sobre o assunto e a mulher foi favorável a nossa ida, justificando que eu precisava ouvir as pessoas para compreender os motivos delas, pois não se devia julgá-las pela primeira impressão, etc., aquele papo de bom senso, próprio de pessoas que se fazem de passivas, que não reagem às agressões sofridas, aguardando o momento certo para um revide, comportamento muito próximo do dela.

             Fomos nós ao tal almoço, eu meio empurrado mas, ao mesmo tempo, ansioso  por saber  as razões que seriam dadas pelo anfitrião. Também compareceram Paulo Melo e Carlos Pereira da Silva, ambos com suas respectivas esposas. Bem recebidos com bebidas, comidas e amenidades conversadas, parecia até que se estava comemorando alguma coisa, tal era a alegria reinante. Somente eu estava me sentindo um tanto peixe fora d'água em meio àquela confraternização. Devem ter notado, pois não demorou para Paulo Melo chamar-me, pedindo que eu fosse conversar com o Dr. José Carlos,  num desse balanços de dois assentos que havia no quintal da casa. Lá, pouco à vontade, ouvi o seguinte:

                  - O Deputado Wilson Braga me pediu aquele cargo para um candidato seu, um cabo eleitoral lá de Conceição, José Pires. Eu lhe disse que já existia uma pessoa indicada pelo Deputado Antônio Mariz. Mas que ele também estaria contemplado, pois se tratava de um parente dele, um primo de Dona Lúcia. Quando ele soube que era você, perguntou se eu estava louco! Disse que lhe conhecia, que você era um comunista fichado, um elemento perigoso, e que iria causar problemas ao Governador, que quando soubesse quem era você não iria gostar. Eu fiquei sem saber o que fazer, nem como lhe dizer o que estava acontecendo. Pediu-me sigilo sobre ter sido ele a dar aquela informação, argumentando querer evitar  problemas dentro da família, o que você, certamente, iria criar, se soubesse da intervenção dele.  Inventar uma desculpa, eu não sei fazer isso. Achei melhor evitar você. Hoje estou lhe dizendo tudo isso porque estou sabendo que você não é nada disso, que foi tudo uma intriga, uma forma de conseguir aquele cargo...

                   Calado estava, calado fiquei. Tinha a sensação de que alguma coisa não se encaixava naquilo tudo. Que o tal José Pires tinha sido nomeado, isso eu sabia e batia com o relato que eu ouvira. Que era uma pessoa ligada a Wilson Braga eu também sabia, e na época achei muito natural que ele pedisse pelos seus correligionários. Eu só tinha o meu voto e esse José Pires, pelo que me informaram, tinha votos lá no sertão. Isso dava-lhe vantagem num governo altamente politiqueiro como eram os daquela época e como o são todos até hoje. Se não fosse a deduragem de Wilson, também dedurada pelo Dr. José Carlos, o assunto não me causaria a menor  reação. Agora a história de "comunista fichado e elemento perigoso", eu achei uma sacanagem da grossa! Pelos favores que eu devia a Wilson, pelo parentesco próximo com Lúcia, pelo fato de eu ter votado nele mais de uma vez, não havia razão para o uso de um expediente tão mesquinho. Ele tinha a condição de me procurar e dizer que estava precisando do cargo. Eu poderia até ficar chateado, mas entenderia. Ficaria esperando uma outra oportunidade.

                   Era em tudo isso que pensava, quando voltamos a nos juntar ao resto do grupo, bastante animado e risonho. Se antes já estava difícil a minha ambientação, agora mais ainda. Além de não me sentir à vontade, as informações fervilhavam na minha cabeça. Até aquele momento eu vinha tendo um bom relacionamento com Wilson. E agora, como iria ficar? Procurá-lo para esclarecimentos seria uma bobagem. Fosse verdade ou mentira ele iria ter a mesma atitude: negar tudo! Também não via vantagem em ser pivô de um confronto entre ele e o Dr. José  Carlos. Então comecei a optar por um afastamento em silêncio, não o procurando mais e recusando qualquer tipo de aproximação. E foi exatamente essa a minha atitude a partir daquele dia.

                   O almoço continuou bastante animado e eu continuei estranhando a situação, achando que aquele convite não objetivava somente a oportunidade de uma explicação, mas  haviam outros interesses embutidos naquela reaproximação. Hoje eu tenho quase certeza disso. Só não posso provar. Quanto à minha postura com referência ao Deputado Wilson Braga, não sei se foi a mais correta. Mas foi a que eu tomaria novamente hoje.        

                  Algum tempo após aquele almoço fui ao Aeroporto Castro Pinto esperar alguém e, coincidentemente, Wilson chegou no mesmo vôo. Ao me ver, naturalmente sem saber o que havia acontecido no tal almoço,  veio me cumprimentar, certo de que eu estava ali para recebê-lo. Aceitei o cumprimento e essa foi a última vez que nos encontramos.

P.S. - Voltei a encontrar Wilson Braga alguns anos depois, numa solenidade no Teatro Santa Catarina, em Cabedelo. Apenas nos cumprimentamos.

 
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A

MAQUIAGEM

                   O que era mais gratificante para os amadores de teatro, ou seja, aquelas pessoas que encenavam peças teatrais sem qualquer tipo de remuneração, era viajar com o espetáculo para apresentá-lo noutra cidade ou noutro estado. Quando uma peça estava sendo montada para participar de algum festival de teatro, aí o interesse de fazer parte era grande e bem disputadas as vagas. É claro que no preenchimento delas entravam certas determinantes que variavam de uma simples amizade até a uma possível relação amorosa. Dependia muito dos responsáveis pelo grupo, do diretor do espetáculo e, por fim, do talento do ator ou atriz.

                   Fiz muitas viagens com grupos de atores e atrizes, sedentos de novas paisagens e cenários para as suas realizações artísticas e pessoais. As fantasias eram muitas e, no mínimo, acreditavam em ser descobertos por alguma emissora de televisão, equipe de cinema ou até mesmo por alguma companhia teatral do sul maravilha. Bem que algumas vezes dava sorte, pois temos valores que estão se destacando nacionalmente. Mas só para uma pequena parcela, o resto era ilusão! Se há de convir que não é só da Paraíba que saem essas pessoas em busca do sucesso. O país inteiro exporta, internamente, talentos. Mas de todas essas viagens o que ficava mesmo eram os passeios, as farras, os namoros e as amizades com as pessoas dos outros grupos que participavam de um festival.

                   Com a peça "Auto de  Maria Mestra", texto de Altimar Pimentel, sob a minha direção , com música de Pedro Santos e cenários de Flávio Tavares, participamos de um festival no Rio de Janeiro. O grupo, com aproximadamente vinte moças e rapazes, era muito animado e, no Rio, ganhou a simpatia de vários paraibanos que  estavam por lá, entre eles Paulo Pontes,  no auge da sua carreira como dramaturgo. Numa das noites, após o espetáculo, Paulinho convidou algumas pessoas para ir dançar e  fomos eu, Anunciada  Fernandes, Zélia Costa e Niedja, levados  por ele, a um inferninho chamado Kid’s Bar, lá para os lados de Copacabana. Dançamos, bebemos, namoramos,  e ao final da noite procuramos um restaurante para forrar a barriga. Anunciada Fernandes queixava-se de dor de cabeça. Paulinho pediu ao garçom que providenciasse Sonrizal e Engov.  E ela tomou sem a preocupação de perguntar o que era. Dia claro estávamos voltando para a nossa hospedaria, a que ficava perto dos arcos da Lapa.

                   Dez horas da manhã fui acordado pelo Diretor da Casa do Estudante do Brasil por ser o dirigente do grupo, para tomar providências urgentes de um atendimento médico, pois uma das nossas moças estava passando mal. Desci até ao alojamento feminino e dei de cara com Anunciada Fernandes toda inchada, com uma bruta intoxicação provocada pela medicação tomada no restaurante. Muito nervosa e chorando, preocupada com o seu estado de saúde e com um possível impedimento de se apresentar à noite no teatro, confessou que era alérgica e só tomou o Sonrizal e o Engov porque não sabia o que era. Imediatamente pedi socorro a Paulo Pontes que, ainda bocejando, disse-me para levá-la ao Souza Aguiar, que ele também iria para lá com um amigo que era médico. Pegamos um táxi eu, Anunciada, Zélia  e Niedja  e seguimos para o hospital. Quando chegamos,  eu, que  ia no banco da frente, fui o primeiro a sair do carro e procurar ajudar a doente, que vinha no banco  traseiro. Desceram Zélia e Niedja e nada de Anunciada sair. Baixei-me um pouco para ver o que estava acontecendo e me deparo com  ela de estojo na mão, fazendo maquiagem: base, batom, sombras e lápis de sobrancelha. Estourei:

                   - Isso é hora Anunciada?! Você está precisando é atendimento médico!

                   - Você quer bem que eu entre no hospital sem me pintar?...

                   Disse e continuou tentando encobrir as marcas da sua alergia. Finalmente saltou do carro e entramos no Souza Aguiar. Logo na entrada, também chegava, numa maca, um homem esfaqueado e todo molhado de sangue. Anunciada deu meia volta e disse:

                   - Não fico aqui de jeito nenhum!.

                   E saiu correndo pela rua com a gente tentando alcançá-la. Pegamos um táxi e voltamos para o alojamento. Eu lavei as mãos e disse que não tomava mais nenhuma providência. Por sorte, Paulo Pontes, tendo ido ao hospital e não nos encontrando, levou o médico até onde estávamos hospedados.  Ela foi medicada e à noite fez o espetáculo.


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AS FRONTEIRAS

DA PARAÍBA                 

                   Outra vez, no Rio de Janeiro, com um novo espetáculo: "Viva A Nau Catarineta", texto também de Altimar Pimentel, também com música de Pedro Santos e cenários de Flávio Tavares, sob a minha direção.

                   Roberto Rabelo, que adotara o nome artístico de Bob Rábel, encontrava-se no Rio tentando a sua carreira de cantor e já era crooner de um conjunto que tocava na boate Hecatombe, na Galeria Alasca, em Copacabana. Foi assistir ao nosso espetáculo, principalmente     para rever o pessoal da terrinha e aproveitou a oportunidade para convidar o grupo a ouvi-lo na tal boate. Fomos recebidos com aplausos e elogios dele, ao microfone da casa. Uma grande mesa estava reservada para nós e lá fomos acomodados. Cervejas, petiscos e dança,  e  assim  estávamos a participar da noite carioca. Ele dividia o tempo entre a nossa mesa e o palco e a cada momento fazia uma referência elogiosa a alguém do grupo ou a alguma coisa importante relacionada com a Paraíba. No início até que ficamos lisonjeados e felizes, sem quaisquer constrangimentos, bem à vontade, mesmo porque éramos praticamente os únicos fregueses da boate, pois havíamos chegado bastante cedo. No entanto, uma meia hora depois a Hecatombe começa a receber o seu público habitual e foi ficando cheia, com quase todas as mesas sendo ocupadas. Não bastasse o fato de estarmos numa posição de destaque no salão, o que já poderia provocar algum tipo de reação dos freqüentadores, Roberto não parava de falar sobre nós durante os breves intervalos entre uma música e outra que cantava, o que já começava a causar algum vexame. O pior era que não tínhamos a menor condição de pedir para que ele parasse, pois seria, no mínimo, uma indelicadeza da nossa parte. Fomos salvos, momentaneamente, pelo intervalo feito pelo conjunto musical, quando ele veio á  mesa pedir a nossa opinião sobre o que estava fazendo, recebendo, naturalmente, agradecimentos e elogios de todos, pois ninguém tinha a coragem de dizer que ele não estava agradando aos outros freqüentadores...

                   Alguém teve a idéia de pedir que, quando reiniciasse a apresentação, ele cantasse uns tangos, pois gostávamos muito. Na verdade, o que se queria era não dar oportunidade para ele fazer citações sobre a Paraíba, pois com samba dava Paraíba, com baião também, com marcha e frevo aí era que dava mesmo, e até com bolero ele fez referência as noitadas dos clubes sociais de João Pessoa, conseqüentemente, Paraíba! Agora, com tango julgamos ser impossível. Apenas ele poderia dizer que estava atendendo algum pedido nosso, o que não era nada, comparando com o que estava acontecendo. O nosso Roberto Rabelo sobe ao palco, pega o microfone e lasca um discurso:

                   - Para começar, vamos atender a um pedido do pessoal da Paraíba cantando tangos. Como vocês sabem, o nosso querido Estado faz fronteira com a Argentina, por isso, há uma grande influência da música portenha em toda a região. Maestro! “Corrientes, três, quatro, oito...”

                    Por fim, a orquestra ataca de  samba canção e arrisco-me ir até ao salão para dançar. Durante a dança ouço uma jovem dizendo para o seu parceiro:     

                   - Esse pessoal da Paraíba é metido a coisa... Eu já fui lá, não tem nada demais! Só dois clubes, um chamado Astrea e outro chamado Cabo Branco... Querem ser importantes só porque moram perto da Argentina...

                   Tenho certeza de que ela falava alto, propositadamente, para que eu ouvisse!

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O CERTO QUE

SAIU ERRADO

                   Ainda com o mesmo espetáculo teatral da história anterior, nós viajamos à cidade paulista de São Carlos, São Paulo, para apresentá-lo num festival que ali seria realizado. Ônibus lotado, muita animação e brincadeiras, claro que ajudadas por alguma bebida. Nessa época estava em voga uma bebida chamada Drink Dreher, apreciada por todos, inclusive pelas moças. Quando entramos em território baiano já havíamos tomado dezesseis litros do tal Drink e o último gole estava com Pereira Nascimento, que não demorou muito a emborcar a garrafa  e,  com  o vasilhame vazio,  abre uma das janelas do ônibus para jogá-lo fora. Zé Bezerra Filho grita para que ele não fazer aquilo, dando vez a uma discussão:

                   - Por quê? Todo mundo não fez isso, por que eu não posso fazer?

                   - É o lado Pereira, desse lado não!

                   - O que tem esse lado? Você tá é com mania de querer mandar em todo mundo...

                   - Não é isso Pereira... Desse lado aí cai no meio da pista, pode causar um acidente. Jogue do outro lado, que vai cair dentro do mato e não vai fazer mal a ninguém!

                   - Pois então tome, jogue você que sabe mais das coisas do que os outros...

                   Entregou a garrafa a Zé Bezerra Filho e ficou resmungando, próprio de quem já havia bebido demais. Zé Bezerra nem pestanejou: abriu uma janela do lado direito e jogou fora a garrafa que foi cair, exatamente, junto de um carro da Polícia Rodoviária, aos pés de dois patrulheiros! O motorista do nosso ônibus nada percebeu e seguiu normalmente a viagem,  enquanto nós víamos o carro da Polícia nos perseguindo. Não tive outra saída: fui até ao motorista e pedi que ele parasse o ônibus imediatamente, no que fui atendido na condição de responsável pelo grupo.

                   A Polícia parou à frente do ônibus e eu já estava do lado de fora para tentar explicar a situação. Contei tudo exatamente como tinha acontecido e pedi desculpas pela lamentável coincidência. Os policiais demoraram a engolir a nossa história, mas foi o jeito, pois deram uma busca no ônibus todo e não encontraram qualquer anormalidade. Fizeram algumas recomendações, nos informando ser proibida a condução de bebidas alcoólicas em transporte coletivo, mesmo tratando-se de uma viagem especial. Nos dispensou, desejando boa viagem!

                   Acho que o que mais pesou a nosso favor foi o fato de termos parado o ônibus antes que eles determinassem isso, o que não nos transformou em fugitivos. Refeitos do susto, seguiram-se aqueles momentos de reflexão, quando ninguém se arriscou a comentar nada, preferindo cantarolar as músicas de Viva A Nau Catarineta... Menos duas pessoas:

             - Eu estava certo!... Viram como eu estava certo?...

                   Resmungava Pereira Nascimento.

                   - Mais de três mil quilômetros de estrada...  Que azar! Eu vou acertar exatamente naqueles três metros!... Que azar!

                   Repetia Zé Bezerra Filho.

                   E a viagem foi até ao fim sem que víssemos mais um só carro da Polícia Rodoviária...

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LEMBRANÇAS DE

JOÃO FRANCA FILHO

            Eu não poderia  nessa série de histórias da minha vida, deixar de reconhecer a grande participação de João Franca Filho, funcionário de muitos cargos da Prefeitura Municipal de João Pessoa. Dele, repito, eu assimilei forma, jeito e espontaneidade de contar as histórias como elas se passaram, como a gente gostaria que elas tivessem se passado ou, ainda, como é possível a gente contar como elas se passaram. Um jogo! E João era um enorme jogador que não jogava a dinheiro para prejudicar alguém. Isso eu também aprendi, acho!

                  O conheci, através do seu concunhado Adão Navarro, que era meu primo , quando ele morava na Rua da Palmeira (Rodrigues de Aquino). A nossa convivência foi facilitada pela aproximação residencial,  pois eu morava na Rua das Trincheiras, imediatamente atrás da sua rua, se considerarmos o leste como frente. Nessa mesma minha situação estavam os Fernandes, Ronaldo, Romeu, Assis e Reginaldo; os Araújo, Normando, Marconi e Marcos; os Soares Silva, José Paulo e Roberto Paulo; os Mendonça, Ronaldo e Roberto e os Tavares, José Arnaldo, Paulo César e Flávio. Do grupão também faziam parte outras pessoas, oriundas das suas incontáveis amizades, principalmente na Prefeitura.

            Presenciei em meio a esse ajuntamento de amigos, alguns fatos que considero ontológicos: nas pescarias, nas farras e, principalmente, no convívio com esse guru-geral, tão estimado por todos. Ele ainda hoje é considerado um marco em todas as nossas vidas, pois quando, por acaso,