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 SUCEDIDOS 4

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MISTURA DE

PAULOS

                   Paulo Pontes chega a João Pessoa,  para iniciar os trabalhos da montagem do espetáculo teatral “PARAÍ-BÊ-A-BÁ”, fruto dos entendimentos que tivemos, junto com Raimundo Nonato Batista, quando ainda estávamos no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo foi realizado também por Paulinho um outro espetáculo, com o título de "Paraíba Pra Seu Governo", comemorando o primeiro ano da gestão de João Agripino, que deu todo o apoio necessário aos dois empreendimentos, através também de Noaldo Dantas.

                  Após a conclusão desses projetos, Paulo Pontes continuou em João Pessoa, preparando um outro, de reestruturação e renovação da programação da Rádio Tabajara, a pedido de Noaldo, que lhe abriu as portas da Secretaria Para Assuntos Extraordinários para o que precisasse naquela nova tarefa. Assim passamos a nos encontrar sempre na Secretaria, instalada no antigo prédio do jornal A União, no lado que dava para a Praça 1817, palco de várias manifestações políticas contra a ditadura militar existente.

                   Estávamos no gabinete do jornalista Biu Ramos, que fazia as vezes de substituto eventual de Noaldo, quando, ouvindo o barulho de gritos, protestos, tiros, procuramos ver o que estava acontecendo e nos deparamos com uma nova manifestação contra o regime militar, envolvendo estudantes, operários, professores, todos confrontando-se com a polícia, chamada para acabar com aquele ato público. Foi quando Paulinho presenciou a polícia batendo no povo, atirando para cima e ameaçando atirar nas pessoas. De volta ao gabinete, indignado, pediu a Biu Ramos o telefone direto do Governador, no que foi atendido. Ligou, e falando com João Agripino, disse, mais ou menos, o seguinte:

                   - Governador! Quem fala aqui é Paulo Pontes. Acabo de presenciar cenas indignas de qualquer governo. A sua polícia, Governador, batendo no povo e ameaçando-o com metralhadoras. Quero lançar aqui o meu protesto contra essas arbitrariedades e solicitar as suas providências no sentido de fazer voltar esses soldados para o quartel. Estou ainda em João Pessoa trabalhando para o seu governo, fazendo um trabalho na Secretaria do Dr. Noaldo Dantas, mas a responsabilidade do que eu disse é só minha. Se o senhor quiser pode mandar o Secretário cancelar o meu contrato, mas o meu protesto continua.

                   João Agripino disse apenas obrigado ao final do telefonema. Paulinho continuou o seu trabalho e a polícia também, na rua, a bater no povo. Terminado o projeto da nova programação da Tabajara, Noaldo foi ao Governador para conseguir recursos para a sua implantação e, naturalmente, teve que citar o nome de Paulo Pontes. Dizem que João Agripino reclamou:

                  - Esse rapaz de novo?! Eu já não o nomeei para a direção do Teatro Santa Roza, depois que ele telefonou protestando contra o meu Governo!  O que é que ele quer mais?

                  Paulo Melo era quem havia sido nomeado Diretor do Teatro Santa Roza, a pedido de alguns intelectuais da Cidade e, por isso, andaram dizendo que pegou carona na brabeza de Paulo Pontes.

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A SORTE DO

MINISTRO

            Alguns membros da minha família, do lado dos Navarro, costumavam dizer que o Ministro José Américo de Almeida dava azar. E até batiam em alguma superfície de madeira quando se pronunciava o nome dele, afirmando que, com aquele gesto, estariam isolando o perigo de que acontecesse alguma coisa negativa. Essa prática também vi de outras pessoas que não eram Navarro, e que  sem justificarem-se, apenas diziam que o nome dava azar. A minha família usava o episódio da morte de Antenor Navarro como razão: ele, campeão de natação, moço, ágil, morreu afogado no mesmo desastre de aviação - o avião caiu no mar - no qual José  Américo, que não sabia nadar, mais velho, com problemas de visão e uma perna quebrada, conseguira sobreviver agarrando-se a um pedaço da aeronave.

                   Particularmente, nunca acreditei nessa superstição. Mantinha um bom relacionamento com o Ministro, freqüentava vez em quando a sua residência em visitas de cortesia ou em busca de apoio para algum interesse pessoal. Tomei do seu uísque, regrado, pois no momento em que Gonzaga Rodrigues, Biu Ramos, Altimar Pimentel, Paulo Melo ou eu mesmo, já houvéssemos tomado mais de uma dose, ele não esperava muito tempo para anunciar: "Lourdinha, recolha essa garrafa de uísque. Os meninos já beberam demais!"

                   Acho que, ao contrário, ele sempre me deu sorte! Todas as vezes que precisei dele fui prontamente atendido. Até num caso estritamente pessoal, como foram as declarações que  assinou responsabilizando-se por mim e por Marileide Araújo ( na época casada comigo e por isso Navarro também), que foram juntadas a um processo que respondíamos juntos no Quarto Exército em Recife, acusados de subversivos políticos pelos caçadores de bruxas da última ditadura militar brasileira. Não seria nem preciso dizer que fomos absolvidos!

                   No Governo do Professor Ivan Bichara Sobreira, era eu o candidato natural a diretor do Teatro Santa Roza, com o apoio de vários artistas e intelectuais meus amigos. Como ainda era um governador nomeado, as restrições continuavam às pessoas delatadas aos órgãos de (in) segurança do Governo Federal. O assunto foi levado ao Ministro, que convocou o Deputado Antônio Nominando Diniz e lhe deu a seguinte missão: "Vá com Navarro procurar Adolfo e diga a ele que resolva a situação. Eu quero ele na direção do Teatro Santa Roza." O Coronel Adolfo Maia, então Secretário da Segurança e Comandante da Polícia Militar, nos recebeu muito bem, prometendo que iria ao Grupamento de Engenharia e se nada houvesse contra mim depois de 1968, tudo estaria resolvido. Posteriormente informou-me estar tudo resolvido, apenas que as denúncias anteriores não seriam canceladas, ficariam arquivadas. Foi assim que cheguei à direção do Teatro Santa Roza. Foi aí que tive a sensação de ter entrado para a história da Esquerda Brasileira: depois de ter sido excedente da quota de comunistas do Governo Ernani Sátiro, participei  da quota de comunistas do Governo Ivan Bichara!

                   Hoje, com tanta coisa ruim me acontecendo, acho que a sorte me abandonou. E pensando bem, ela começou a ir embora com a morte do Ministro. Que azar!

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A TRANQÜILIDADE

DE IVAN BICHARA

             O Secretário da Educação e Cultura, Tarcísio Burity,  fanático por música clássica, reformulou a Orquestra Sinfônica da Paraíba em convênio com a UFPb, logo no início do Governo Ivan Bichara, dando-lhe condições de funcionamento. Um concerto foi marcado para o Teatro Santa Roza, sob a regência do maestro Eleazar de Carvalho. No dia do acontecimento a ameaça de chuva era constante e na hora do concerto choveu forte.

                   No palco muitos músicos e Eleazar de Carvalho. Na platéia, o Governador, o Secretário e um pequeno público, por conta da chuva. Bem não havia começado a primeira parte do programa, um pingo d'água começou a cair em cima das partituras do maestro, que as deslocava de um lado para o outro, tentando evitar a incômoda goteira. Não bastasse esse vexame, eis que surge um morcego dando vôos rasantes por cima do maestro, o que o estava deixando visivelmente irritado.

                   Rezei para que tudo aquilo terminasse logo, pois como o novo Diretor do Teatro eu não sabia ainda como justificar as deficiências apresentadas. Por outro lado, a coreografia que o morcego fazia, já estava causando o riso de alguns espectadores menos avisados, o que, certamente, iria aumentar a minha responsabilidade para com a situação.

                   Terminado o concerto, fiquei esperando as reclamações. Não demorou muito até  alguém me informar  que o Governador queria falar comigo. É agora, pensei. E fui enfrentar a "fera":

                   - O senhor me chamou, Governador?

                   - Você é Elpídio, o Diretor ?   

                   - Sim...

                   - Muito prazer! Tudo bem, como está você?

                   - Mais ou menos... Tentando resolver...

                   Eu estava era todo enrolado. Não sabia como continuar aquela conversa, como explicar a situação. Acho que o Governador percebeu a minha intranqüilidade. Chamou-me à parte e perguntou:

                   - Elpídio, o que é que se pode fazer para acabar com esses morcegos?

                   - Derrubar os oitizeiros existentes aí na Praça Pedro Américo! Os morcegos se alimentam do fruto deles...

                   Claro que era uma solução simplória, própria de quem não tinha conhecimento de outras soluções, porém a única que me surgiu no momento. O Governador riu, e ainda mantendo a mesma calma inicial, falou-me:

                   - É, assim é difícil! Mas faça o seguinte: peça  ao Secretário para que sejam providenciados reparos no telhado do teatro. Quanto aos morcegos, veja se você consegue descobrir uma outra solução.

                   Educadamente me deu boa-noite e tranqüilamente retirou-se, deixando-me com aquela sensação de ter lhe proporcionado  uma patente demonstração de incompetência.

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FESTIVAL DE ARTE

DE AREIA

                   Durante quatro anos consecutivos, de 1976 a 1979, a cidade de Areia, no brejo paraibano, foi cenário do evento cultural mais significativo de todos os que foram realizados naquela década no País: o seu Festival de Arte. Eles aconteceram  exatamente quando o Brasil passava pela mais violenta truculência,  censura e  terror impostos por uma ditadura militar, que nunca escondeu o seu medo e a sua reação castradora ao livre pensamento e às ações intelectuais e artísticas brasileiras. Embora o Festival tenha continuado após 1979, posso referir-me apenas aos quatro primeiros, pois só deles participei.

                  A escolha da cidade de Areia para sede de um festival de arte não só deveu-se à sua tradição cultural e berço de personalidades como Pedro Américo, Aurélio de Figueiredo, Álvaro Machado, Coelho Lisboa e José Américo de Almeida, mas também à sua condição de poder proporcionar espaços para a realização do evento, como a Escola de Agronomia do Nordeste, o  Colégio Santa Rita e o Teatro Minerva (o primeiro construído na Paraíba) e oferecer um "clima europeu em pleno verão tropical".

                  Os festivais abrigaram, nos seus diversos espaços, os nomes mais expressivos da cultura nacional da época, como Antônio Callado, Nélida Pinon, Ivan  Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Mário Pedrosa, Aloísio Magalhães, Ferreira Gullar, Fernando Peixoto, Luiz Mendonça, Paulo Pontes, Nelson Xavier, Gianfrancesco Guarnieri, Ziraldo,  Dias Gomes, Marlos Nobre, Aylton Escobar, Guerra Peixe, John Neschling, Muniz Sodré, Moacy Cirne, João Câmara, Maurício Kubrusly, Luiz Paulo Horta, Sérgio Cabral, Walter Lima Júnior, Leon Hirszmann, Guido Araújo, Alex Viany, Eduardo Coutinho, José Wilker, Jackson Ribeiro, Clyde Morgan, Herder Parente, Wladimir Carvalho, Rui Guerra, Marcus Vinicius de Andrade, Henfil, Pedro Santos, Flávio Tavares, Arlindo Teixeira, Linduarte Noronha, Hermano José, Altimar Pimentel, Luiz Augusto Crispim, Elizabeth Marinheiro, Raul Córdula, Yara Rosas, Paulo Melo, Alberto Kaplan, Laís Aderne, Neide Mendonça , Maria de Lourdes Ramalho, Breno Mattos e mais um bocado de gente importante que participou e que durante aqueles quatro anos, reunidos numa ilha de liberdade de expressão no Brasil, como chegou a ser denominada a cidade de Areia pela imprensa nacional, puderam debater, analisar e até protestar contra a situação em que se encontravam as artes, a literatura e o jornalismo brasileiros, mesmo informados e alertados para a infiltração entre os participantes, de agentes da repressão oficial.

                    Esses Festivais tiveram homenageados especiais como José Américo de Almeida,  no primeiro e que compareceu à sua abertura; Paulo Pontes no segundo, infelizmente já falecido quando homenageado; no terceiro a homenagem  foi para o romance A Bagaceira, o que resultou numa repetição de homenagem ao seu autor e o quarto ao crítico literário Virginius da Gama e Melo,  também na época já falecido. Por tudo isso, a história dos quatro primeiros Festivais de Arte realizados na cidade de Areia é parte importante da vida cultural do País e merece ser lembrada e divulgada. Mas essa é outra história. Aqui pretendo narrar tão somente os momentos de descontração, os acontecimentos engraçados e as curiosidades acontecidas naqueles dias de tanta seriedade.

                   Como diretor executivo recebia, todos os dias, reclamações as mais estapafúrdias que se possa imaginar. Lembro de uma que era um primor de reclamação: "a minha toalha de banho eu esqueci no banheiro e ela desapareceu; era uma toalha de estimação, de veludo..." Geise Helena, amada e amiga, estava comigo na ocasião e não deixou que eu respondesse:  "Oi! Toalha de estimação não se usa; toalha de veludo não enxuga!"

                   Um grupo se reunia após os trabalhos, sempre num bar, para um animado papo acompanhado de bebidas e comidas, para desopilar, comentar, analisar e até fofocar sobre o festival. Era basicamente formado por Pedro Santos, Fernando Peixoto, Marcus Vinícius de Andrade, Yara Rosas, Paulo Melo, Mariza Melo, Altimar Pimentel, eu e meu filho Luiz Maurício. A esses encontros o consenso denominou-os de pesquisas. Então, após o trabalho a pergunta era: "tem pesquisa hoje?" Numa dessas pesquisas, por falta de outro assunto, alguém propôs uma disputa para ver quem contava a piada mais sem graça. Foram tantas tão sem graça que, a princípio, se achava graça por elas não terem graça e depois ninguém achava mais graça! Mas chegou a vez de Altimar Pimentel contar a dele e foi logo avisando:

                   - Eu sei de uma que eu acho engraçada, mas muita gente não achou quando eu contei, por isso acredito que ela possa concorrer. É sobre uma apresentação de um "Bumba Meu Boi" lá em Cabedelo. A brincadeira estava acontecendo no terreiro de uma casa, com a presença de autoridades locais, inclusive o delegado de polícia. Um cara lá que não gostava do dono da casa, chamou o Mateus, que é um personagem que improvisa e ofereceu cem mil reis e uma garrafa de cachaça, para que ele na sua improvisação,  esculhambasse  o dono da casa. O Mateus aceitou a parada e na hora que o boi vai ressuscitar, saiu-se com essa: "Levanta-te boi sacana, balança os culhões e vem. O dono da casa é corno e o delegado também..." O pau cantou e acabou a brincadeira. 
                                                                                         
                   Todos riram bastante, principalmente Fernando Peixoto, que quase não parava de achar graça na piada e, por conta disso, pegou o apelido de Boi Sacana, pelo qual atende até hoje!

                  Os convidados especiais, professores e organizadores dos Festivais se hospedavam no Colégio Santa Rita, em apartamentos coletivos e individuais. Lembro que num dos maiores apartamentos, fiquei junto com Marcus Vinícius de Andrade, Fernando Peixoto e Ruy Guerra. O quadro era incrível: Ruy passava a maior parte da noite lendo e fumando um charuto; Fernando Peixoto conversando com ele; Marcus roncando e de vez em quando acordando com o barulho do seu próprio ronco e, finalmente, eu, sem conseguir dormir. Para completar, no apartamento vizinho estavam Raul Córdula e Breno Mattos, de onde se ouvia um roncado, seguido do ruído de uma rede balançando. Perguntei a Raul quem estava dormindo de rede no apartamento dele, ao que me respondeu que ninguém, pois lá não havia rede alguma.. À noite, outra vez o ruído da rede. Então não me contive: subi numa mesinha e fui olhar por cima da parede divisória, constatando que não se tratava de uma rede e sim do rangido de dentes de Raul Córdula.

                  Pedro Santos estava num outro apartamento, cujas janelas abriam para o pátio interno do Colégio. Numa das noites, por insônia, Pedro ficou debruçado na janela durante um bocado de tempo. Foi quando ouviu um curioso diálogo entre duas jovens em fase de iniciação homossexual:

                   - Faça isso não que eu não gosto...

                   - Ninguém tá vendo não!

                   - Meu peito tá doendo!

                   - Pegue no meu também...    

                   - Pode chegar alguém... Pare! Eu não gosto não...

                   - Então eu vou embora.

                   - Não, vá não! Fique aqui comigo...  

                   - Então vamos aproveitar! Faça em mim também...

                   - Ai, ai... Pare! Eu não agüento mais... Eu não gosto dessas coisas não...

                   - Então pare de fazer em mim!

                   - Não posso! Venha, faça...  Ai, ai, pare que eu não quero não...

                   Foi quando Pedro interveio gritando de cima:

                   - Gozem logo de uma vez ou acabem com essa frescura que eu quero dormir!

                 As duas correram assustadas para o dormitório das alunas dos diversos cursos que havia no Colégio, sem se deixarem identificar. A insônia de Pedro Santos só fez aumentar.

                 Uma determinada professora convidada, dormia sozinha num dos apartamentos. À noite se ouviam sons denunciadores de que havia mais alguém com ela. Ninguém conseguia descobrir quem era. A curiosidade cresceu, principalmente dentro do grupo feminino, que queria saber quem estava ferrando a tal moça. Como o corredor entre os apartamentos não era bem iluminado, alguém teve a idéia de colocar, a cada noite,  talco no chão da porta de um apartamento masculino. Não precisou ir muito longe, porque logo na primeira noite o fantasma, sem perceber, deixou seu rastro até ao local dos gemidos e seu nome foi revelado.

                    Mas deixando  essas sadias safadezas de lado, porque num lugar onde se juntam homens e mulheres o diabo fica no meio e, por isso, tornava-se tudo natural, também tivemos   momentos  sérios e, ao mesmo tempo engraçados, durante esses quatro anos. Um deles foi na abertura do IV Festival. O orador oficial era o internacional crítico de artes, o paraibano Mário Pedrosa, já de elevada idade, denunciada pela totalidade de seus cabelos brancos.  Na mesa, Governador, Prefeito, Secretário da Educação e Cultura, representantes de Ministérios, Universidade, Embrafilme, Institutos e o Padre Rui Vieira, Pároco de Areia, a maior parte dessa gente colocada naqueles postos pela ditadura militar de 64 ou aliados dela. Em dado momento de seu discurso, Mário Pedrosa, em meio à atenção geral, soltou essa beleza de frase intranqüilizadora:

                    - Porque nós, comunistas, temos a responsabilidade...

                    Ninguém deixou de perceber os semblantes dos ocupantes da mesa oficial: pálidos,  sérios e provocando hilaridade.

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DE MOTEL, MULHER

E FEIRA

             Fui acordando devagarzinho como se estivesse saindo de um processo anestesiante. Crescia a sensação de que havia alguma coisa errada que eu não sabia ainda o que era. De repente, o clarão do sol invadindo o quarto pelos  vidros da janela e o acordar para a realidade: havia pegado no sono num quarto de motel!

                   Pulei da cama apavorado, acordei a namorada, exigindo que se aprontasse rapidamente que eu precisava ir embora.  Ela, displicentemente, virou-se para outro lado:

                   - Eu não tenho problema de hora para chegar em casa...

                   - Mas eu tenho! Hoje é sábado, tem a feira...

                   - Então vá pra feira!

                   - Vou embora e deixo você sozinha aqui!

                   Diante da ameaça ela resolveu me atender. Já no carro, dirigindo-me para a casa de uma tia da namorada, onde ela se hospedava quando vinha para João Pessoa, um grande problema afligia-me: o que explicar à mulher quando chegasse em casa? Para a jovem  não havia nada demais, pois ela morava em Campina Grande e a tia era uma coroa alcoviteira. Mas comigo nunca havia acontecido uma situação daquela. E a sacana ainda veio fazer piada comigo ao ver a minha aflição: "então vá pra feira!"

                    Seis e meia da matina, uma fria despedida e o aborrecimento pela falta de solidariedade daquela minha companheira de farra braba e irresponsável. E a piadinha não saía do meu juízo: "então vá pra feira!" Espere! Pensei um pouco. Não será que ela é quem tem razão? Mulher sempre tem! Disse comigo: eu vou é pra feira! Não adianta nada ir pra casa agora, a merda já está feita mesmo! E não pensei outra vez.

                   Fiz uma feira exagerada, principalmente com as coisas que satisfaziam à mulher e aos filhos. Claro que  por conta de um baita sentimento de culpa! Terminadas as compras, carro lotado, restava-me a pior parte dessa melódia: o que dizer quando chegar em casa? Não adiantava protelar, pois isso só iria piorar a situação. Por outro lado, àquela altura, com o carro cheio de feira, eu já não podia pensar noutra saída. Fui à luta! Guerra é guerra!

                   No caminho para casa fui pensando em outras dificuldades que eu havia me metido e nas soluções dadas. Não sei por que cargas d'água me veio a lembrança da minha infância na Rua da República, quando eu tive de enfrentar Toinho Baiôco (Antônio Costa, hoje coronel reformado da Polícia Militar e meu amigo) numa briga na esquina do Cinema Astória.  Toinho era mais experiente e mais forte. Se aceitasse o desafio, certamente iria apanhar. Se não aceitasse seria considerado medroso. Foi então que um outro amigo, Daniel Braz, incentivou:

                   - Chega logo dando o primeiro murro. Tu levas vantagem! Depois tu podes levar um também, mas já deste o primeiro... E  até não levar nenhum,  alguém pode apartar a briga!

                   E foi o que aconteceu: o fator surpresa deixou Toinho, por algum tempo, desnorteado e quando recuperou-se e partiu pra cima de mim, já alguém acudiu e parou a briga. Restaram-me as ameaças de que me pegaria noutra ocasião.

                    Sete e meia abro o portão do jardim, entro com o carro e começo a buzinar com insistência. A mulher aparece ainda com cara de sono e vem abrir a grade do terraço, reclamando das buzinadas e perguntando:

                   - Chegando a essa hora?!

                   - Da feira!

                   Gritei, demonstrando estar aborrecido. E continuei o meu discurso, sem lhe dá oportunidade de falar:

                   - E na próxima semana quem vai é você! Eu não agüento mais fazer tudo sozinho nessa casa! Estou cansado... Desde cinco horas da manhã que estou dando duro nessa feira! Tenho que  ir cedo para poder escolher  melhor! E os preços? Com essa carestia a gente precisa procurar muito onde é mais barato. E isso enche o saco, eu já estou de saco cheio, chame logo a empregada para ajudar a descarregar o carro que eu preciso ir ao banheiro, estou me cagando!...

                   - Calma! Não precisa se afobar! Lembre-se que é você quem faz questão de ir pra feira!

                   - Porque você não acorda cedo  e quando chega lá já não tem mais nada que preste! Acorde cedo uma vez!

                   - Tudo bem! Não precisa mais de discussão. Vá cuidar da sua barriga que eu guardo a feira...

                   E ficou o acontecido pelo não acontecido, o dito pelo não dito e o assunto foi esquecido. Eu havia dado o primeiro murro!

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CARAVANA

ARTÍSTICA

                   O Governo do Professor Ivan Bichara, que tinha como Secretário da Educação e Cultura um outro professor, depois também Governador, Tarcísio Burity, e ainda Paulo Melo como Diretor Geral de Cultura,  foi um período de ouro para as artes  paraibanas. O trio não media esforços para promover os nossos artistas dentro e fora da Paraíba. Aconteceram  importantes eventos, como o Festival de Arte de Areia, o Festival Internacional de Violoncelo e a recuperação e crescimento da Orquestra Sinfônica da  Paraíba, entre muitos outros. Um deles marcou época pela sua originalidade e pela abrangência da sua ação divulgadora do fazer artístico-cultural  paraibano. Foi a Caravana Artística  da Paraíba, projeto originado de uma idéia do Maestro Pedro Santos e que levou às cidades de Fortaleza, Teresina,  São Luís, Belém e Manaus os nossos teatro, cinema, canto coral, escultura, pintura, literatura e folclore. De ônibus até Belém e de lá até Manaus de avião, os artistas paraibanos divulgam os seus trabalhos, muito bem recebidos por todos os públicos das capitais visitadas, no período de 27 de agosto à 10 de setembro de 1976.

                   Uma das maiores emoções que eu já senti aconteceu em São Luís do Maranhão, na tarde do dia dois de setembro. Era o meu aniversário e já passava do meio dia sem que ninguém fizesse qualquer alusão ao fato. A maioria do grupo não sabia mas algumas pessoas mais aproximadas, sim. Pedro Santos e  Mirócene Amorim sabiam e bastavam eles dois para a notícia se espalhar. Mas nem eles falaram comigo! A minha decepção foi crescendo à medida que se aproximava a hora de reunir o grupo todo para dirigir-se ao teatro, onde teríamos estréia naquela noite. Seis horas da noite e nada! Mas o que fazer? O jeito era começar a convocar o pessoal para o trabalho e assim foi feito. O grupo foi chegando pouco a pouco  e se juntando para ouvir as últimas recomendações, pensava eu, quando de repente, sob a batuta de Pedro Santos, o Madrigal Paraíba começou a cantar uma canção dessas de feliz aniversário e eu, sem saber como reagir, perplexo e abestalhado, fui salvo por Mirócene que entrou em cena trazendo  um improvisado bolo com velinha e tudo, além de uma dose de gin com água tônica, me descontraindo e, é bem possível, evitando que eu chorasse de emoção.

                    Após quinze dias de trabalho ininterrupto, os trinta e seis membros da Caravana foram gratificados com a estada de cinco dias livres em Manaus, para usá-los como bem entendessem.  

                   O Coronel do Exército José dos Passos Fernandes de Carvalho, servindo no Colégio Militar em Manaus, assumiu a condição de bom anfitrião e nos convidou, a mim, Breno Mattos e sua prima Anunciada Fernandes, para um passeio pelo rio na sua lancha. Fomos Breno, eu e Zé dos Passos, todos trajando bermudas e calções, roupas de banho, enquanto Anunciada se apresentou de saia rodada, blusa,  sapatos de salto alto, pulseiras, colares, penteado feito e maquiagem. Nada poderia ser mais contrastante! Mesmo assim, foi! E lá pras tantas, bem no meio do Rio Negro, avistamos um barco bem maior, onde encontrava-se, também passeando, outra parte do grupo.  Anunciada apressou-se em manifestar desejo de passar para aquele outro barco e foi aí que aconteceu o grande vexame: a nossa lancha era baixinha enquanto o outro barco era bastante alto e, assim, teve Anunciada que subir por uma escada, meio atrapalhada com o salto alto e incomodada com o vento que levantava a sua saia generosamente, enquanto nós, humildes observadores, aguardávamos, em baixo, o desfecho do transbordo. Consciente de que não poderia, ao mesmo tempo, segurar  a saia e subir a escada do barco, virou-se para o primo e sentenciou:

                   - Zé, mande todo mundo fechar o olhos! E você também!...

                  O passeio continuou sem Anunciada. Depois de presenciarmos de pertinho o encontro das águas dos Rios Solimões e Negro, Zé dos Passos nos levou a um igarapé onde havia um bar flutuante, contornado por terraços, e dentro do salão uma mesa de sinuca , um balcão, prateleiras com bebidas, onde predominavam muitas garrafas de aguardente Caranguejo, fabricada  em Campina Grande, na Paraíba. Ocupamos um mesa num dos terraços e  usamos o nosso tempo para pescar e conversar, regados  à aguardente com o único tira gosto existente no momento: charque. Entramos tarde a dentro naquela animação de pescaria, para mim um tanto estranha, pois os peixes embora tivessem cores diferentes, tinham o mesmo formato: todos eram bagres, pelo menos no jeitão! Entardeceu  e o dono do bar começou a fechar as janelas do salão, dando-me a idéia de que era hora de batermos em retirada. Chamei a atenção para o fato, mas Zé dos Passos disse que as janelas estavam sendo fechadas porque estava chegando a hora da carapanã. Como eu não sabia do que se tratava imaginei que carapanã seria uma espécie de crença religiosa ou coisa que o valha e, para não passar por ignorante, fiz de conta ter conhecimento do assunto. Não demorou muito até eu levar a maior surra de muriçocas gigantes de toda a minha vida. Todo encaroçado pedi ajuda ao dono do bar sob gozação de Breno e Zé dos Passos, que nada estavam sentindo com as picadas  do tal inseto, diferentes de mim, altamente alérgico. Passada a tal hora, voltamos para o alojamento onde estávamos hospedados e  chegamos depois de oito paradas em bares  pelo caminho, para tomar a saideira! Breno fez questão, sob nossos protestos, de levar para o dormitório a enfieira de peixes, pois queria mostrar o resultado da pescaria aos companheiros.  Ninguém encontrava-se lá! Com aqueles peixes,  sem poder tratar ou guardar, saiu correndo pelo meio da rua em busca de Zé dos Passos para entregar-lhe o troféu...

                   No dia seguinte foi organizado um passeio a um balneário denominado de "Ponte do Boliva", onde havia um banho e um restaurante que servia um delicioso tucunaré, preparado num molho especial. Cheguei um pouco atrasado e logo ao meu encontro veio Ednaldo  do Egipto, avisando-me confidencialmente:

                   - Cuidado! O pessoal lá no restaurante está exagerando! Já vão na quarta travessa de peixe, que, pelo tamanho, deve ser caro e quem entrar ali vai ter que dividir a conta! Quando eu vi a situação, nem me aproximei, fiquei de fora!

                   - Ora, Ednaldo, eu vou lá e não participo. Não sou obrigado! Mas eu tenho que ir lá, são meus amigos... Você procurou saber o preço?

                   - Não, mas pelo jeito não é barato! Eles estão pedindo sem perguntar preço!...

                   - Está bem, eu vou lá saber,  e se for como você diz, vou alertá-los...

                   - Isso! Depois você me conta.

                   Entrei, falei com todo mundo, experimentei o peixe, estava uma delícia, fui até ao balcão e perguntei o preço. Comecei a rir: era ínfimo! O equivalente hoje a uns dois ou três reais. Pedi que aprontassem  um outro peixe daqueles e fui sentar-me à mesa com os companheiros, sob os distantes e curiosos olhares de Ednaldo, que não parava de esticar o pescoço em nossa direção! Fartos, resolvemos parar a comilança e pagar a conta. Tudo foi feito com Ednaldo distante, talvez pensando: “agora vão se lascar!”

                   Saí ao seu encontro e ele foi logo adivinhando o que teria acontecido:

                   - Deu bem uns cinqüenta pra cada um, heim!

                   Informei-lhe os valores , ele não acreditou  e resolveu ir até ao restaurante e certificar-se. Diante da constatação, sentou-se à uma mesa  e pediu três peixes de uma vez!

                  Mas nem todas as lembranças da Caravana são maravilhosas. A companheira Marinete Lelis de Almeida após as nossas apresentações em Manaus precisava urgentemente retornar a João Pessoa, pois estava com uma cirurgia marcada para antes da volta de todo o grupo. Nos desdobramos, eu e um irmão de Pedro Santos que morava lá em Manaus, para conseguir uma vaga num avião que a trouxesse de volta dentro do prazo desejado. Conseguimos! Marinete nos agradeceu com tanta felicidade que nos deixou também bastante felizes por ter podido ajudá-la. Quando chegamos de volta e que o ônibus parou em frente ao Teatro Santa Roza, a primeira notícia que tivemos foi a do falecimento de Marinete, vítima de hemorragia  durante uma cirurgia plástica...

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VINGANÇA

(I)

                   O telefone tocou no momento em que, no televisor, apareciam as previsões zodiacais para a semana que se iniciaria no dia seguinte. Não ouvi logo o som da campainha. Não que as coisas do horóscopo me fossem, de alguma forma, importantes. Apenas, como distração, esperava curioso o que os astros haviam me reservado para os próximos dias. Por isso, atendi ao chamado sem arredar a atenção da imagem que representava o signo Virgem e daquela voz misteriosa que já começava a decretar a minha sorte nos negócios, na saúde, nas viagens e, principalmente, no amor! Por isso tudo, atendi ao telefone de forma apressada, como quem quer se livrar de um incômodo:

                   - Pronto? Quem é? Quer falar com quem?

                   - Que é isso, professor?! Não precisa afobação! Calma! Se não puder atender, tudo bem, eu ligo outra hora...

                   Uma voz feminina desconhecida, mas de uma pessoa que eu deveria conhecer ou, pelo menos, deveria me conhecer, pois tratou-me por professor. E a voz insistiu:

                    - Alô! Alô!...

                    - Sim?

                    - O que houve?

                    - Nada... Por que?

                 -Você calou-se! Você é sempre assim, no trato com as pessoas?

                    - Olha, você me desculpe... Eu não queria ser indelicado. Apenas eu estava distraído,  vendo o jornal na televisão... Mas diga, é comigo mesmo que você quer falar?

                    - Sim, é com você.

                    - O que é que manda?

                    - Foi o que você escreveu no jornal "O Momento". Aquele recado... Eu li e achei muito bacana! Depois reli como se o recado fosse para mim. Por algum tempo eu fiquei tão feliz!...

                    - Obrigado! Pelo menos a uma pessoa eu já dei felicidade!

                    - Mas ela também deve estar se sentindo feliz. Ela deve ser uma pessoa muito bacana também, não é?

                    - Ela, quem?!

                    Senti-me surpreendido no mais íntimo dos meus segredos. Lembrei-me de indagar:

                    - Quem está falando?

                    - Isso não importa!

                    - Importa, sim. Também não entendi essa coisa de ela se sentindo feliz, ela ser bacana... Ela, quem?

                   - Ora!... Não me venha dizer que você escreveu aquilo simplesmente por escrever. Essa, não! O que você escreveu tem um endereço certo, que, infelizmente, não é o meu...

                   A resposta me chegou com o sabor de uma acusação ou, mais ainda, de uma sentença. Intrigado com as minhas próprias reações e, por outro lado, querendo saber até onde iam as convicções da iniciadora daquele papo maluco, procurei prolongá-lo, atacando de frente:

                   - Muito bem! Já valeu o trote. Reconheço que você me pegou direitinho! Agora diga quem está falando.

                   - Não é nada disso! Você está enganado! Não existe nenhum trote, palavra! Disse a verdade!

                   - Certo, certo... Mas brincadeira tem hora e limite.

                   - Você não entendeu nada! Não entendeu a minha intenção. Eu não queria te chatear, mas se isso está acontecendo...

                   - Não! Claro, que não! Desculpe-me. Só estou curioso.

                   - A tua curiosidade não adianta. Você não sabe quem sou eu e nunca me viu. Eu também não te conheço e nunca te vi. Somente li o que você escreveu no jornal, aquele recado, e procurei o teu número na lista telefônica para dizer o que já disse. Simples! Nenhum mistério, nenhum trote!

                   - Na lista telefônica não tem meu nome!

                   - Mas tem o da sua esposa. -

                   - Mesmo que seja verdade o que você diz, é difícil admitir...

                 - Não procure explicações para minha atitude. Receba tudo como sinceros elogios de uma romântica admiradora secreta. Isso basta.

                   - É!... Pelo visto só me resta agradecer, sensibilizado, o seu interesse pelos meus escritos. Quem sabe, se a gente se conhecesse, se a gente se encontrasse... Poderíamos ser amigos, eu poderia escrever...

                   - Para mim? Não! Não precisa querer ser bonzinho comigo só por causa dos elogios. O mais importante foi dizer o que eu disse e você ter ouvido. Não quero nada em troca. Bastou-me poder dizer que achei bonito o recado, sublime, tudo! Sabe? Ela é uma mulher de sorte. Ela deve ser muito importante para você, não é?

                   - Isso é verdade.

                  - Claro! Não se escreve aquilo tudo para uma pessoa sem importância... Ela também te ama?

                   - É possível...

                   - Perfeito! E o que é que está faltando?

                   - Como faltando?

                   - Por quê os disfarçados recados numa coluna de jornal?

                   - Ah, isso é coisa nossa. Eu também digo a ela pessoalmente, o que não me impede que  escreva. Acho bom assim, sinto-me bem... Há poucos instantes você disse que era bonito, sublime, e pareceu-me ser uma mulher romântica...

                   - E sou!

             - Então? Não acha romântico o que faço?

                   - Acho. Acho mesmo! Você tem razão. Hoje é tão difícil encontrar pessoas românticas como a gente.  Existe tanta coisa ruim acontecendo. Olha, eu vou te confessar umas preocupações que trago comigo, porque você não me conhece, nunca vai saber quem eu sou...

                   Deixei que ela se abrisse completamente, sem mais interromper. Fiquei sabendo alguns dos seus íntimos segredos. Era uma mulher preocupada com o passar do tempo que lhe fora dado para viver, pois, a cada momento passado, sabia tornar-se mais difícil encontrar o que buscava; adorava viver e a sua vida não era lá grande coisa, mesmo possuindo tudo que uma mulher comum pudesse desejar; o marido lhe dava tudo, menos ele mesmo; existiam outras mulheres com quem ele dividia o seu carinho e ela era muito possessiva;