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SUCEDIDOS
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MISTURA
DE
PAULOS
Paulo Pontes chega a João Pessoa, para iniciar os
trabalhos da montagem do espetáculo teatral
“PARAÍ-BÊ-A-BÁ”, fruto dos entendimentos que tivemos,
junto com Raimundo Nonato Batista, quando ainda
estávamos no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo foi
realizado também por Paulinho um outro espetáculo, com o
título de "Paraíba Pra Seu Governo", comemorando o
primeiro ano da gestão de João Agripino, que deu todo o
apoio necessário aos dois empreendimentos, através
também de Noaldo Dantas.
Após a conclusão desses
projetos, Paulo Pontes continuou em João Pessoa,
preparando um outro, de reestruturação e renovação da
programação da Rádio Tabajara, a pedido de Noaldo, que
lhe abriu as portas da Secretaria Para Assuntos
Extraordinários para o que precisasse naquela nova
tarefa. Assim passamos a nos encontrar sempre na
Secretaria, instalada no antigo prédio do jornal A
União, no lado que dava para a Praça 1817, palco de
várias manifestações políticas contra a ditadura militar
existente.
Estávamos no gabinete
do jornalista Biu Ramos, que fazia as vezes de
substituto eventual de Noaldo, quando, ouvindo o barulho
de gritos, protestos, tiros, procuramos ver o que estava
acontecendo e nos deparamos com uma nova manifestação
contra o regime militar, envolvendo estudantes,
operários, professores, todos confrontando-se com a
polícia, chamada para acabar com aquele ato público. Foi
quando Paulinho presenciou a polícia batendo no povo,
atirando para cima e ameaçando atirar nas pessoas. De
volta ao gabinete, indignado, pediu a Biu Ramos o
telefone direto do Governador, no que foi atendido.
Ligou, e falando com João Agripino, disse, mais ou
menos, o seguinte:
- Governador! Quem
fala aqui é Paulo Pontes. Acabo de presenciar cenas
indignas de qualquer governo. A sua polícia, Governador,
batendo no povo e ameaçando-o com metralhadoras. Quero
lançar aqui o meu protesto contra essas arbitrariedades
e solicitar as suas providências no sentido de fazer
voltar esses soldados para o quartel. Estou ainda em
João Pessoa trabalhando para o seu governo, fazendo um
trabalho na Secretaria do Dr. Noaldo Dantas, mas a
responsabilidade do que eu disse é só minha. Se o senhor
quiser pode mandar o Secretário cancelar o meu contrato,
mas o meu protesto continua.
João Agripino disse
apenas obrigado ao final do telefonema. Paulinho
continuou o seu trabalho e a polícia também, na rua, a
bater no povo. Terminado o projeto da nova programação
da Tabajara, Noaldo foi ao Governador para conseguir
recursos para a sua implantação e, naturalmente, teve
que citar o nome de Paulo Pontes. Dizem que João
Agripino reclamou:
- Esse rapaz de novo?! Eu já não o nomeei para a direção
do Teatro Santa Roza, depois que ele telefonou
protestando contra o meu Governo! O que é que ele quer
mais?
Paulo Melo era quem
havia sido nomeado Diretor do Teatro Santa Roza, a
pedido de alguns intelectuais da Cidade e, por isso,
andaram dizendo que pegou carona na brabeza de Paulo
Pontes.
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A
SORTE DO
MINISTRO
Alguns
membros da minha família, do lado dos Navarro,
costumavam dizer que o Ministro
José Américo de Almeida dava azar. E até batiam em
alguma superfície de madeira quando se pronunciava o
nome dele, afirmando que, com aquele gesto, estariam
isolando o perigo de que acontecesse alguma coisa
negativa. Essa prática também vi de outras pessoas que
não eram Navarro, e que sem justificarem-se, apenas
diziam que o nome dava azar. A minha família usava o
episódio da morte de Antenor Navarro como razão: ele,
campeão de natação, moço, ágil, morreu afogado no mesmo
desastre de aviação - o avião caiu no mar - no qual
José Américo, que não sabia nadar, mais velho, com
problemas de visão e uma perna quebrada, conseguira
sobreviver agarrando-se a um pedaço da aeronave.
Particularmente, nunca
acreditei nessa superstição. Mantinha um bom
relacionamento com o Ministro, freqüentava vez em quando
a sua residência em visitas de cortesia ou em busca de
apoio para algum interesse pessoal. Tomei do seu uísque,
regrado, pois no momento em que Gonzaga Rodrigues, Biu
Ramos, Altimar Pimentel, Paulo Melo ou eu mesmo, já
houvéssemos tomado mais de uma dose, ele não esperava
muito tempo para anunciar: "Lourdinha, recolha essa
garrafa de uísque. Os meninos já beberam demais!"
Acho que, ao
contrário, ele sempre me deu sorte! Todas as vezes que
precisei dele fui prontamente atendido. Até num caso
estritamente pessoal, como foram as declarações que
assinou responsabilizando-se por mim e por Marileide
Araújo ( na época casada comigo e por isso Navarro
também), que foram juntadas a um processo que
respondíamos juntos no Quarto Exército em Recife,
acusados de subversivos políticos pelos caçadores de
bruxas da última ditadura militar brasileira. Não seria
nem preciso dizer que fomos absolvidos!
No Governo do
Professor Ivan Bichara Sobreira, era eu o candidato
natural a diretor do Teatro Santa Roza, com o apoio de
vários artistas e intelectuais meus amigos. Como ainda
era um governador nomeado, as restrições continuavam às
pessoas delatadas aos órgãos de (in) segurança do
Governo Federal. O assunto foi levado ao Ministro, que
convocou o Deputado Antônio Nominando Diniz e lhe deu a
seguinte missão: "Vá com Navarro procurar Adolfo e diga
a ele que resolva a situação. Eu quero ele na direção do
Teatro Santa Roza." O Coronel Adolfo Maia, então
Secretário da Segurança e Comandante da Polícia Militar,
nos recebeu muito bem, prometendo que iria ao Grupamento
de Engenharia e se nada houvesse contra mim depois de
1968, tudo estaria resolvido. Posteriormente informou-me
estar tudo resolvido, apenas que as denúncias anteriores
não seriam canceladas, ficariam arquivadas. Foi assim
que cheguei à direção do Teatro Santa Roza. Foi aí que
tive a sensação de ter entrado para a história da
Esquerda Brasileira: depois de ter sido excedente da
quota de comunistas do Governo Ernani Sátiro,
participei da quota de comunistas do Governo Ivan
Bichara!
Hoje, com tanta coisa
ruim me acontecendo, acho que a sorte me abandonou. E
pensando bem, ela começou a ir embora com a morte do
Ministro. Que azar!
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A
TRANQÜILIDADE
DE
IVAN BICHARA
O
Secretário da Educação e Cultura, Tarcísio Burity,
fanático por música clássica, reformulou a Orquestra
Sinfônica da Paraíba em convênio com a UFPb, logo no
início do Governo Ivan Bichara, dando-lhe condições de
funcionamento. Um concerto foi marcado para o Teatro
Santa Roza, sob a regência do maestro Eleazar de
Carvalho. No dia do acontecimento a ameaça de chuva era
constante e na hora do concerto choveu forte.
No palco muitos
músicos e Eleazar de Carvalho. Na platéia, o Governador,
o Secretário e um pequeno público, por conta da chuva.
Bem não havia começado a primeira parte do programa, um
pingo d'água começou a cair em cima das partituras do
maestro, que as deslocava de um lado para o outro,
tentando evitar a incômoda goteira. Não bastasse esse
vexame, eis que surge um morcego dando vôos rasantes por
cima do maestro, o que o estava deixando visivelmente
irritado.
Rezei para que tudo
aquilo terminasse logo, pois como o novo Diretor do
Teatro eu não sabia ainda como justificar as
deficiências apresentadas. Por outro lado, a coreografia
que o morcego fazia, já estava causando o riso de alguns
espectadores menos avisados, o que, certamente, iria
aumentar a minha responsabilidade para com a situação.
Terminado o concerto,
fiquei esperando as reclamações. Não demorou muito até
alguém me informar que o Governador queria falar
comigo. É agora, pensei. E fui enfrentar a "fera":
- O senhor me chamou,
Governador?
- Você é Elpídio, o
Diretor ?
- Sim...
- Muito prazer! Tudo
bem, como está você?
- Mais ou menos...
Tentando resolver...
Eu estava era todo
enrolado. Não sabia como continuar aquela conversa, como
explicar a situação. Acho que o Governador percebeu a
minha intranqüilidade. Chamou-me à parte e perguntou:
- Elpídio, o que é que
se pode fazer para acabar com esses morcegos?
- Derrubar os
oitizeiros existentes aí na Praça Pedro Américo! Os
morcegos se alimentam do fruto deles...
Claro que era uma
solução simplória, própria de quem não tinha
conhecimento de outras soluções, porém a única que me
surgiu no momento. O Governador riu, e ainda mantendo a
mesma calma inicial, falou-me:
- É, assim é difícil!
Mas faça o seguinte: peça ao Secretário para que sejam
providenciados reparos no telhado do teatro. Quanto aos
morcegos, veja se você consegue descobrir uma outra
solução.
Educadamente me deu boa-noite e tranqüilamente
retirou-se, deixando-me com aquela sensação de ter lhe
proporcionado uma patente demonstração de
incompetência.
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FESTIVAL DE ARTE
DE
AREIA
Durante
quatro anos consecutivos, de 1976 a 1979, a cidade de
Areia, no brejo paraibano, foi cenário do evento
cultural mais significativo de todos os que foram
realizados naquela década no País: o seu Festival de
Arte. Eles aconteceram exatamente quando o Brasil
passava pela mais violenta truculência, censura e
terror impostos por uma ditadura militar, que nunca
escondeu o seu medo e a sua reação castradora ao livre
pensamento e às ações intelectuais e artísticas
brasileiras. Embora o Festival tenha continuado após
1979, posso referir-me apenas aos quatro primeiros, pois
só deles participei.
A escolha da cidade de
Areia para sede de um festival de arte não só deveu-se à
sua tradição cultural e berço de personalidades como
Pedro Américo, Aurélio de Figueiredo, Álvaro Machado,
Coelho Lisboa e José Américo de Almeida, mas também à
sua condição de poder proporcionar espaços para a
realização do evento, como a Escola de Agronomia do
Nordeste, o Colégio Santa Rita e o Teatro Minerva (o
primeiro construído na Paraíba) e oferecer um "clima
europeu em pleno verão tropical".
Os festivais abrigaram,
nos seus diversos espaços, os nomes mais expressivos da
cultura nacional da época, como Antônio Callado, Nélida
Pinon, Ivan Cavalcanti Proença, Orígenes Lessa, Mário
Pedrosa, Aloísio Magalhães, Ferreira Gullar, Fernando
Peixoto, Luiz Mendonça, Paulo Pontes, Nelson Xavier,
Gianfrancesco Guarnieri, Ziraldo, Dias Gomes, Marlos
Nobre, Aylton Escobar, Guerra Peixe, John Neschling,
Muniz Sodré, Moacy Cirne, João Câmara, Maurício Kubrusly,
Luiz Paulo Horta, Sérgio Cabral, Walter Lima Júnior,
Leon Hirszmann, Guido Araújo, Alex Viany, Eduardo
Coutinho, José Wilker, Jackson Ribeiro, Clyde Morgan,
Herder Parente, Wladimir Carvalho, Rui Guerra, Marcus
Vinicius de Andrade, Henfil, Pedro Santos, Flávio
Tavares, Arlindo Teixeira, Linduarte Noronha, Hermano
José, Altimar Pimentel, Luiz Augusto Crispim, Elizabeth
Marinheiro, Raul Córdula, Yara Rosas, Paulo Melo,
Alberto Kaplan, Laís Aderne, Neide Mendonça , Maria de
Lourdes Ramalho, Breno Mattos e mais um bocado de gente
importante que participou e que durante aqueles quatro
anos, reunidos numa ilha de liberdade de expressão no
Brasil, como chegou a ser denominada a cidade de Areia
pela imprensa nacional, puderam debater, analisar e até
protestar contra a situação em que se encontravam as
artes, a literatura e o jornalismo brasileiros, mesmo
informados e alertados para a infiltração entre os
participantes, de agentes da repressão oficial.
Esses Festivais
tiveram homenageados especiais como José Américo de
Almeida, no primeiro e que compareceu à sua abertura;
Paulo Pontes no segundo, infelizmente já falecido quando
homenageado; no terceiro a homenagem foi para o romance
A Bagaceira, o que resultou numa repetição de homenagem
ao seu autor e o quarto ao crítico literário Virginius
da Gama e Melo, também na época já falecido. Por tudo
isso, a história dos quatro primeiros Festivais de Arte
realizados na cidade de Areia é parte importante da vida
cultural do País e merece ser lembrada e divulgada. Mas
essa é outra história. Aqui pretendo narrar tão somente
os momentos de descontração, os acontecimentos
engraçados e as curiosidades acontecidas naqueles dias
de tanta seriedade.
Como diretor executivo
recebia, todos os dias, reclamações as mais
estapafúrdias que se possa imaginar. Lembro de uma que
era um primor de reclamação: "a minha toalha de banho eu
esqueci no banheiro e ela desapareceu; era uma toalha de
estimação, de veludo..." Geise Helena, amada e amiga,
estava comigo na ocasião e não deixou que eu
respondesse: "Oi! Toalha de estimação não se usa;
toalha de veludo não enxuga!"
Um grupo se reunia
após os trabalhos, sempre num bar, para um animado papo
acompanhado de bebidas e comidas, para desopilar,
comentar, analisar e até fofocar sobre o festival. Era
basicamente formado por Pedro Santos, Fernando Peixoto,
Marcus Vinícius de Andrade, Yara Rosas, Paulo Melo,
Mariza Melo, Altimar Pimentel, eu e meu filho Luiz
Maurício. A esses encontros o consenso denominou-os de
pesquisas. Então, após o trabalho a pergunta era: "tem
pesquisa hoje?" Numa dessas pesquisas, por falta de
outro assunto, alguém propôs uma disputa para ver quem
contava a piada mais sem graça. Foram tantas tão sem
graça que, a princípio, se achava graça por elas não
terem graça e depois ninguém achava mais graça! Mas
chegou a vez de Altimar Pimentel contar a dele e foi
logo avisando:
- Eu sei de uma que eu
acho engraçada, mas muita gente não achou quando eu
contei, por isso acredito que ela possa concorrer. É
sobre uma apresentação de um "Bumba Meu Boi" lá em
Cabedelo. A brincadeira estava acontecendo no terreiro
de uma casa, com a presença de autoridades locais,
inclusive o delegado de polícia. Um cara lá que não
gostava do dono da casa, chamou o Mateus, que é um
personagem que improvisa e ofereceu cem mil reis e uma
garrafa de cachaça, para que ele na sua improvisação,
esculhambasse o dono da casa. O Mateus aceitou a parada
e na hora que o boi vai ressuscitar, saiu-se com essa:
"Levanta-te boi sacana, balança os culhões e vem. O dono
da casa é corno e o delegado também..." O pau cantou e
acabou a brincadeira.
Todos riram bastante, principalmente Fernando Peixoto,
que quase não parava de achar graça na piada e, por
conta disso, pegou o apelido de Boi Sacana, pelo
qual atende até hoje!
Os convidados especiais, professores e organizadores dos
Festivais se hospedavam no Colégio Santa Rita, em
apartamentos coletivos e individuais. Lembro que num dos
maiores apartamentos, fiquei junto com Marcus Vinícius
de Andrade, Fernando Peixoto e Ruy Guerra. O quadro era
incrível: Ruy passava a maior parte da noite lendo e
fumando um charuto; Fernando Peixoto conversando com
ele; Marcus roncando e de vez em quando acordando com o
barulho do seu próprio ronco e, finalmente, eu, sem
conseguir dormir. Para completar, no apartamento vizinho
estavam Raul Córdula e Breno Mattos, de onde se ouvia um
roncado, seguido do ruído de uma rede balançando.
Perguntei a Raul quem estava dormindo de rede no
apartamento dele, ao que me respondeu que ninguém, pois
lá não havia rede alguma.. À noite, outra vez o ruído da
rede. Então não me contive: subi numa mesinha e fui
olhar por cima da parede divisória, constatando que não
se tratava de uma rede e sim do rangido de dentes de
Raul Córdula.
Pedro Santos estava num outro apartamento, cujas janelas
abriam para o pátio interno do Colégio. Numa das noites,
por insônia, Pedro ficou debruçado na janela durante um
bocado de tempo. Foi quando ouviu um curioso diálogo
entre duas jovens em fase de iniciação homossexual:
- Faça isso não que eu
não gosto...
- Ninguém tá vendo
não!
- Meu peito tá doendo!
- Pegue no meu também...
- Pode chegar
alguém... Pare! Eu não gosto não...
- Então eu vou embora.
- Não, vá não! Fique
aqui comigo...
- Então vamos
aproveitar! Faça em mim também...
- Ai, ai... Pare! Eu
não agüento mais... Eu não gosto dessas coisas não...
- Então pare de fazer
em mim!
- Não posso! Venha,
faça... Ai, ai, pare que eu não quero não...
Foi quando Pedro
interveio gritando de cima:
- Gozem logo de uma
vez ou acabem com essa frescura que eu quero dormir!
As duas correram
assustadas para o dormitório das alunas dos diversos
cursos que havia no Colégio, sem se deixarem
identificar. A insônia de Pedro Santos só fez aumentar.
Uma determinada
professora convidada, dormia sozinha num dos
apartamentos. À noite se ouviam sons denunciadores de
que havia mais alguém com ela. Ninguém conseguia
descobrir quem era. A curiosidade cresceu,
principalmente dentro do grupo feminino, que queria
saber quem estava ferrando a tal moça. Como o corredor
entre os apartamentos não era bem iluminado, alguém teve
a idéia de colocar, a cada noite, talco no chão da
porta de um apartamento masculino. Não precisou ir muito
longe, porque logo na primeira noite o fantasma, sem
perceber, deixou seu rastro até ao local dos gemidos e
seu nome foi revelado.
Mas deixando essas
sadias safadezas de lado, porque num lugar onde se
juntam homens e mulheres o diabo fica no meio e, por
isso, tornava-se tudo natural, também tivemos
momentos sérios e, ao mesmo tempo engraçados, durante
esses quatro anos. Um deles foi na abertura do IV
Festival. O orador oficial era o internacional crítico
de artes, o paraibano Mário Pedrosa, já de elevada
idade, denunciada pela totalidade de seus cabelos
brancos. Na mesa, Governador, Prefeito, Secretário da
Educação e Cultura, representantes de Ministérios,
Universidade, Embrafilme, Institutos e o Padre Rui
Vieira, Pároco de Areia, a maior parte dessa gente
colocada naqueles postos pela ditadura militar de 64 ou
aliados dela. Em dado momento de seu discurso, Mário
Pedrosa, em meio à atenção geral, soltou essa beleza de
frase intranqüilizadora:
- Porque nós,
comunistas, temos a responsabilidade...
Ninguém deixou de
perceber os semblantes dos ocupantes da mesa oficial:
pálidos, sérios e provocando hilaridade.
50
DE
MOTEL, MULHER
E
FEIRA
Fui
acordando devagarzinho como se estivesse saindo de um
processo anestesiante. Crescia a sensação de que havia
alguma coisa errada que eu não sabia ainda o que era. De
repente, o clarão do sol invadindo o quarto pelos
vidros da janela e o acordar para a realidade: havia
pegado no sono num quarto de motel!
Pulei da cama
apavorado, acordei a namorada, exigindo que se
aprontasse rapidamente que eu precisava ir embora. Ela,
displicentemente, virou-se para outro lado:
- Eu não tenho
problema de hora para chegar em casa...
- Mas eu tenho! Hoje é
sábado, tem a feira...
- Então vá pra feira!
- Vou embora e deixo
você sozinha aqui!
Diante da ameaça ela
resolveu me atender. Já no carro, dirigindo-me para a
casa de uma tia da namorada, onde ela se hospedava
quando vinha para João Pessoa, um grande problema
afligia-me: o que explicar à mulher quando chegasse em
casa? Para a jovem não havia nada demais, pois ela
morava em Campina Grande e a tia era uma coroa
alcoviteira. Mas comigo nunca havia acontecido uma
situação daquela. E a sacana ainda veio fazer piada
comigo ao ver a minha aflição: "então vá pra feira!"
Seis e meia da
matina, uma fria despedida e o aborrecimento pela falta
de solidariedade daquela minha companheira de farra
braba e irresponsável. E a piadinha não saía do meu
juízo: "então vá pra feira!" Espere! Pensei um pouco.
Não será que ela é quem tem razão? Mulher sempre tem!
Disse comigo: eu vou é pra feira! Não adianta nada ir
pra casa agora, a merda já está feita mesmo! E não
pensei outra vez.
Fiz uma feira
exagerada, principalmente com as coisas que satisfaziam
à mulher e aos filhos. Claro que por conta de um baita
sentimento de culpa! Terminadas as compras, carro
lotado, restava-me a pior parte dessa melódia: o que
dizer quando chegar em casa? Não adiantava protelar,
pois isso só iria piorar a situação. Por outro lado,
àquela altura, com o carro cheio de feira, eu já não
podia pensar noutra saída. Fui à luta! Guerra é guerra!
No caminho para casa
fui pensando em outras dificuldades que eu havia me
metido e nas soluções dadas. Não sei por que cargas
d'água me veio a lembrança da minha infância na Rua da
República, quando eu tive de enfrentar Toinho Baiôco
(Antônio Costa, hoje coronel reformado da Polícia
Militar e meu amigo) numa briga na esquina do Cinema
Astória. Toinho era mais experiente e mais forte. Se
aceitasse o desafio, certamente iria apanhar. Se não
aceitasse seria considerado medroso. Foi então que um
outro amigo, Daniel Braz, incentivou:
- Chega logo dando o
primeiro murro. Tu levas vantagem! Depois tu podes levar
um também, mas já deste o primeiro... E até não levar
nenhum, alguém pode apartar a briga!
E foi o que aconteceu:
o fator surpresa deixou Toinho, por algum tempo,
desnorteado e quando recuperou-se e partiu pra cima de
mim, já alguém acudiu e parou a briga. Restaram-me as
ameaças de que me pegaria noutra ocasião.
Sete e meia abro o
portão do jardim, entro com o carro e começo a buzinar
com insistência. A mulher aparece ainda com cara de sono
e vem abrir a grade do terraço, reclamando das buzinadas
e perguntando:
- Chegando a essa
hora?!
- Da feira!
Gritei, demonstrando
estar aborrecido. E continuei o meu discurso, sem lhe dá
oportunidade de falar:
- E na próxima semana
quem vai é você! Eu não agüento mais fazer tudo sozinho
nessa casa! Estou cansado... Desde cinco horas da manhã
que estou dando duro nessa feira! Tenho que ir cedo
para poder escolher melhor! E os preços? Com essa
carestia a gente precisa procurar muito onde é mais
barato. E isso enche o saco, eu já estou de saco cheio,
chame logo a empregada para ajudar a descarregar o carro
que eu preciso ir ao banheiro, estou me cagando!...
- Calma! Não precisa
se afobar! Lembre-se que é você quem faz questão de ir
pra feira!
- Porque você não
acorda cedo e quando chega lá já não tem mais nada que
preste! Acorde cedo uma vez!
- Tudo bem! Não
precisa mais de discussão. Vá cuidar da sua barriga que
eu guardo a feira...
E ficou o acontecido
pelo não acontecido, o dito pelo não dito e o assunto
foi esquecido. Eu havia dado o primeiro murro!
51
CARAVANA
ARTÍSTICA
O
Governo do Professor Ivan Bichara, que tinha como
Secretário da Educação e Cultura um outro professor,
depois também Governador, Tarcísio Burity, e ainda Paulo
Melo como Diretor Geral de Cultura, foi um período de
ouro para as artes paraibanas. O trio não media
esforços para promover os nossos artistas dentro e fora
da Paraíba. Aconteceram importantes eventos, como o
Festival de Arte de Areia, o Festival Internacional de
Violoncelo e a recuperação e crescimento da Orquestra
Sinfônica da Paraíba, entre muitos outros. Um deles
marcou época pela sua originalidade e pela abrangência
da sua ação divulgadora do fazer artístico-cultural
paraibano. Foi a Caravana Artística da Paraíba, projeto
originado de uma idéia do Maestro Pedro Santos e que
levou às cidades de Fortaleza, Teresina, São Luís,
Belém e Manaus os nossos teatro, cinema, canto coral,
escultura, pintura, literatura e folclore. De ônibus até
Belém e de lá até Manaus de avião, os artistas
paraibanos divulgam os seus trabalhos, muito bem
recebidos por todos os públicos das capitais visitadas,
no período de 27 de agosto à 10 de setembro de 1976.
Uma das maiores
emoções que eu já senti aconteceu em São Luís do
Maranhão, na tarde do dia dois de setembro. Era o meu
aniversário e já passava do meio dia sem que ninguém
fizesse qualquer alusão ao fato. A maioria do grupo não
sabia mas algumas pessoas mais aproximadas, sim. Pedro
Santos e Mirócene Amorim sabiam e bastavam eles dois
para a notícia se espalhar. Mas nem eles falaram comigo!
A minha decepção foi crescendo à medida que se
aproximava a hora de reunir o grupo todo para dirigir-se
ao teatro, onde teríamos estréia naquela noite. Seis
horas da noite e nada! Mas o que fazer? O jeito era
começar a convocar o pessoal para o trabalho e assim foi
feito. O grupo foi chegando pouco a pouco e se juntando
para ouvir as últimas recomendações, pensava eu, quando
de repente, sob a batuta de Pedro Santos, o Madrigal
Paraíba começou a cantar uma canção dessas de feliz
aniversário e eu, sem saber como reagir, perplexo e
abestalhado, fui salvo por Mirócene que entrou em cena
trazendo um improvisado bolo com velinha e tudo, além
de uma dose de gin com água tônica, me descontraindo e,
é bem possível, evitando que eu chorasse de emoção.
Após quinze dias de
trabalho ininterrupto, os trinta e seis membros da
Caravana foram gratificados com a estada de cinco dias
livres em Manaus, para usá-los como bem entendessem.
O Coronel do Exército
José dos Passos Fernandes de Carvalho, servindo no
Colégio Militar em Manaus, assumiu a condição de bom
anfitrião e nos convidou, a mim, Breno Mattos e sua
prima Anunciada Fernandes, para um passeio pelo rio na
sua lancha. Fomos Breno, eu e Zé dos Passos, todos
trajando bermudas e calções, roupas de banho, enquanto
Anunciada se apresentou de saia rodada, blusa, sapatos
de salto alto, pulseiras, colares, penteado feito e
maquiagem. Nada poderia ser mais contrastante! Mesmo
assim, foi! E lá pras tantas, bem no meio do Rio Negro,
avistamos um barco bem maior, onde encontrava-se, também
passeando, outra parte do grupo. Anunciada apressou-se
em manifestar desejo de passar para aquele outro barco e
foi aí que aconteceu o grande vexame: a nossa lancha era
baixinha enquanto o outro barco era bastante alto e,
assim, teve Anunciada que subir por uma escada, meio
atrapalhada com o salto alto e incomodada com o vento
que levantava a sua saia generosamente, enquanto nós,
humildes observadores, aguardávamos, em baixo, o
desfecho do transbordo. Consciente de que não poderia,
ao mesmo tempo, segurar a saia e subir a escada do
barco, virou-se para o primo e sentenciou:
- Zé, mande todo mundo
fechar o olhos! E você também!...
O passeio continuou sem
Anunciada. Depois de presenciarmos de pertinho o
encontro das águas dos Rios Solimões e Negro, Zé dos
Passos nos levou a um igarapé onde havia um bar
flutuante, contornado por terraços, e dentro do salão
uma mesa de sinuca , um balcão, prateleiras com bebidas,
onde predominavam muitas garrafas de aguardente
Caranguejo, fabricada em Campina Grande, na Paraíba.
Ocupamos um mesa num dos terraços e usamos o nosso
tempo para pescar e conversar, regados à aguardente com
o único tira gosto existente no momento: charque.
Entramos tarde a dentro naquela animação de pescaria,
para mim um tanto estranha, pois os peixes embora
tivessem cores diferentes, tinham o mesmo formato: todos
eram bagres, pelo menos no jeitão! Entardeceu e o dono
do bar começou a fechar as janelas do salão, dando-me a
idéia de que era hora de batermos em retirada. Chamei a
atenção para o fato, mas Zé dos Passos disse que as
janelas estavam sendo fechadas porque estava chegando a
hora da carapanã. Como eu não sabia do que se tratava
imaginei que carapanã seria uma espécie de crença
religiosa ou coisa que o valha e, para não passar por
ignorante, fiz de conta ter conhecimento do assunto. Não
demorou muito até eu levar a maior surra de muriçocas
gigantes de toda a minha vida. Todo encaroçado pedi
ajuda ao dono do bar sob gozação de Breno e Zé dos
Passos, que nada estavam sentindo com as picadas do tal
inseto, diferentes de mim, altamente alérgico. Passada a
tal hora, voltamos para o alojamento onde estávamos
hospedados e chegamos depois de oito paradas em bares
pelo caminho, para tomar a saideira! Breno fez
questão, sob nossos protestos, de levar para o
dormitório a enfieira de peixes, pois queria
mostrar o resultado da pescaria aos companheiros.
Ninguém encontrava-se lá! Com aqueles peixes, sem poder
tratar ou guardar, saiu correndo pelo meio da rua em
busca de Zé dos Passos para entregar-lhe o troféu...
No dia seguinte foi
organizado um passeio a um balneário denominado de
"Ponte do Boliva", onde havia um banho e um restaurante
que servia um delicioso tucunaré, preparado num molho
especial. Cheguei um pouco atrasado e logo ao meu
encontro veio Ednaldo do Egipto, avisando-me
confidencialmente:
- Cuidado! O pessoal
lá no restaurante está exagerando! Já vão na quarta
travessa de peixe, que, pelo tamanho, deve ser caro e
quem entrar ali vai ter que dividir a conta! Quando eu
vi a situação, nem me aproximei, fiquei de fora!
- Ora, Ednaldo, eu vou
lá e não participo. Não sou obrigado! Mas eu tenho que
ir lá, são meus amigos... Você procurou saber o preço?
- Não, mas pelo jeito
não é barato! Eles estão pedindo sem perguntar preço!...
- Está bem, eu vou lá
saber, e se for como você diz, vou alertá-los...
- Isso! Depois você me
conta.
Entrei, falei com todo
mundo, experimentei o peixe, estava uma delícia, fui até
ao balcão e perguntei o preço. Comecei a rir: era
ínfimo! O equivalente hoje a uns dois ou três reais.
Pedi que aprontassem um outro peixe daqueles e fui
sentar-me à mesa com os companheiros, sob os distantes e
curiosos olhares de Ednaldo, que não parava de esticar o
pescoço em nossa direção! Fartos, resolvemos parar a
comilança e pagar a conta. Tudo foi feito com Ednaldo
distante, talvez pensando: “agora vão se lascar!”
Saí ao seu encontro e
ele foi logo adivinhando o que teria acontecido:
- Deu bem uns
cinqüenta pra cada um, heim!
Informei-lhe os
valores , ele não acreditou e resolveu ir até ao
restaurante e certificar-se. Diante da constatação,
sentou-se à uma mesa e pediu três peixes de uma vez!
Mas nem todas as
lembranças da Caravana são maravilhosas. A companheira
Marinete Lelis de Almeida após as nossas apresentações
em Manaus precisava urgentemente retornar a João Pessoa,
pois estava com uma cirurgia marcada para antes da volta
de todo o grupo. Nos desdobramos, eu e um irmão de Pedro
Santos que morava lá em Manaus, para conseguir uma vaga
num avião que a trouxesse de volta dentro do prazo
desejado. Conseguimos! Marinete nos agradeceu com tanta
felicidade que nos deixou também bastante felizes por
ter podido ajudá-la. Quando chegamos de volta e que o
ônibus parou em frente ao Teatro Santa Roza, a primeira
notícia que tivemos foi a do falecimento de Marinete,
vítima de hemorragia durante uma cirurgia plástica...
52
VINGANÇA
(I)
O
telefone tocou no momento em que, no televisor,
apareciam as previsões zodiacais para a semana que se
iniciaria no dia seguinte. Não ouvi logo o som da
campainha. Não que as coisas do horóscopo me fossem, de
alguma forma, importantes. Apenas, como distração,
esperava curioso o que os astros haviam me reservado
para os próximos dias. Por isso, atendi ao chamado sem
arredar a atenção da imagem que representava o signo
Virgem e daquela voz misteriosa que já começava a
decretar a minha sorte nos negócios, na saúde, nas
viagens e, principalmente, no amor! Por isso tudo,
atendi ao telefone de forma apressada, como quem quer se
livrar de um incômodo:
- Pronto? Quem é? Quer
falar com quem?
- Que é isso,
professor?! Não precisa afobação! Calma! Se não puder
atender, tudo bem, eu ligo outra hora...
Uma voz feminina
desconhecida, mas de uma pessoa que eu deveria conhecer
ou, pelo menos, deveria me conhecer, pois tratou-me por
professor. E a voz insistiu:
- Alô! Alô!...
- Sim?
- O que houve?
- Nada... Por que?
-Você
calou-se! Você é sempre assim, no trato com as pessoas?
- Olha, você me
desculpe... Eu não queria ser indelicado. Apenas eu
estava distraído, vendo o jornal na televisão... Mas
diga, é comigo mesmo que você quer falar?
- Sim, é com você.
- O que é que manda?
- Foi o que você
escreveu no jornal "O Momento". Aquele recado... Eu li e
achei muito bacana! Depois reli como se o recado fosse
para mim. Por algum tempo eu fiquei tão feliz!...
- Obrigado! Pelo
menos a uma pessoa eu já dei felicidade!
- Mas ela também deve
estar se sentindo feliz. Ela deve ser uma pessoa muito
bacana também, não é?
- Ela, quem?!
Senti-me surpreendido
no mais íntimo dos meus segredos. Lembrei-me de indagar:
- Quem está falando?
- Isso não importa!
- Importa, sim.
Também não entendi essa coisa de ela se sentindo feliz,
ela ser bacana... Ela, quem?
- Ora!... Não me venha
dizer que você escreveu aquilo simplesmente por
escrever. Essa, não! O que você escreveu tem um endereço
certo, que, infelizmente, não é o meu...
A resposta me chegou
com o sabor de uma acusação ou, mais ainda, de uma
sentença. Intrigado com as minhas próprias reações e,
por outro lado, querendo saber até onde iam as
convicções da iniciadora daquele papo maluco, procurei
prolongá-lo, atacando de frente:
- Muito bem! Já valeu
o trote. Reconheço que você me pegou direitinho! Agora
diga quem está falando.
- Não é nada disso!
Você está enganado! Não existe nenhum trote, palavra!
Disse a verdade!
- Certo, certo... Mas
brincadeira tem hora e limite.
- Você não entendeu
nada! Não entendeu a minha intenção. Eu não queria te
chatear, mas se isso está acontecendo...
- Não! Claro, que não!
Desculpe-me. Só estou curioso.
- A tua curiosidade
não adianta. Você não sabe quem sou eu e nunca me viu.
Eu também não te conheço e nunca te vi. Somente li o que
você escreveu no jornal, aquele recado, e procurei o teu
número na lista telefônica para dizer o que já disse.
Simples! Nenhum mistério, nenhum trote!
- Na lista telefônica
não tem meu nome!
- Mas tem o da sua
esposa. -
- Mesmo que seja
verdade o que você diz, é difícil admitir...
- Não procure explicações para minha atitude. Receba
tudo como sinceros elogios de uma romântica admiradora
secreta. Isso basta.
- É!... Pelo visto só
me resta agradecer, sensibilizado, o seu interesse pelos
meus escritos. Quem sabe, se a gente se conhecesse, se a
gente se encontrasse... Poderíamos ser amigos, eu
poderia escrever...
- Para mim? Não! Não
precisa querer ser bonzinho comigo só por causa dos
elogios. O mais importante foi dizer o que eu disse e
você ter ouvido. Não quero nada em troca. Bastou-me
poder dizer que achei bonito o recado, sublime, tudo!
Sabe? Ela é uma mulher de sorte. Ela deve ser muito
importante para você, não é?
- Isso é verdade.
- Claro! Não se escreve
aquilo tudo para uma pessoa sem importância... Ela
também te ama?
- É possível...
- Perfeito! E o que é
que está faltando?
- Como faltando?
- Por quê os
disfarçados recados numa coluna de jornal?
- Ah, isso é coisa
nossa. Eu também digo a ela pessoalmente, o que não me
impede que escreva. Acho bom assim, sinto-me bem... Há
poucos instantes você disse que era bonito, sublime, e
pareceu-me ser uma mulher romântica...
- E sou!
- Então? Não acha romântico o que faço?
- Acho. Acho mesmo!
Você tem razão. Hoje é tão difícil encontrar pessoas
românticas como a gente. Existe tanta coisa ruim
acontecendo. Olha, eu vou te confessar umas preocupações
que trago comigo, porque você não me conhece, nunca vai
saber quem eu sou...
Deixei que ela se
abrisse completamente, sem mais interromper. Fiquei
sabendo alguns dos seus íntimos segredos. Era uma mulher
preocupada com o passar do tempo que lhe fora dado para
viver, pois, a cada momento passado, sabia tornar-se
mais difícil encontrar o que buscava; adorava viver e a
sua vida não era lá grande coisa, mesmo possuindo tudo
que uma mulher comum pudesse desejar; o marido lhe dava
tudo, menos ele mesmo; existiam outras mulheres com quem
ele dividia o seu carinho e ela era muito possessiva;
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