Tarcísio Pereira
"Minhas putas tristes"
Não tive interesse na história de um velho de 90 anos que
fica lembrando as putinhas de sua vida. Mas me deparo com
uma história de amor das mais profundas que já conheci
Mais uma vez, o mestre García Márquez me
arrebata. Guardei em casa, durante três anos, o exemplar do
seu último livro chegado aqui, "Memória das Minhas Putas
Tristes, e somente agora é que vim a lê-lo.
Quando lançado em 2005, confesso, tive certo
preconceito com o título. A palavra puta não é uma coisa tão
má, mas me parece agressiva como título de livro. E
comprei-o, tão somente, por ser de Gabriel García Márquez,
autor que me fascina desde que ingressei nos incríveis
sacrifícios de "Erêndira" e nos seus "Cem Anos de Solidão" -
para não ter que citar todos.
Pelo autor, tão somente pelo autor, comprei
numa livraria esse "Memória das Minhas Putas Tristes, e não
tive interesse na história de um velho de 90 anos que fica
lembrando as putinhas de sua vida. Mas daí a lê-lo, como o
fiz somente agora, me deparo com uma belíssima história de
amor das mais profundas que já conheci.
O tema do amor, aliás, é marca e predileção
do mestre colombiano. E o seu ponto mais alto é ainda "O
Amor nos Tempos do Cólera”, prossegue em "Do Amor e Outros
Demônios" e surpreende agora, de forma mais inusitada, com o
relato de um nonagenário que se apaixona pela primeira vez,
justo no dia do aniversário dos seus 90 anos, e por uma
garota de 14.
Com essa história, o autor nos quebra a
expectativa inicial daquilo que o título promete. Quando
esperamos uma sucessão de relatos de vidas, com as tristezas
recorrentes dessas amantes profissionais, o que acaba
ocupando as páginas é a profunda solidão de um velhinho que
se julga perto da morte. Um caso de psicanálise típica dos
solteirões que, durante toda a vida, fogem a qualquer
possibilidade de casamento. A conseqüência é a solidão
inevitável e tardia, valendo purgação e sentimento de culpa.
"No ano dos meus noventa anos quis oferecer a
mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente
virgem".
Com essa frase, o narrador inicia um relato
assombroso, em que pesem códigos de ética moral tão exigidos
nos dias de hoje, quando existem leis e punições severas
para casos de pedofilia e aliciamento de menores. Mas o
autor é consciente disso e demonstra cuidado com o tema,
pois o livro acaba sendo uma denúncia, também, contra o
tráfico de adolescentes sexualmente exploradas. É uma
preocupação apenas implícita, pois o foco principal está na
solidão e nas possibilidades do sentimento amoroso na idade
mais avançada.
No ano dos seus noventa anos, pelo capricho
de se presentear a si mesmo e de provar que está vivo, ele
de fato consegue a garota, mas a relação que estabelece com
ela é da mais alta poesia para quem esperava cenas de
luxúria. Ao que parece, em nenhum momento ele mantém relação
sexual com a menina, pois se contenta em tê-la do seu lado
para o solitário deleite da contemplação, respeitando a
condição virginal e a diferença de idade, dizendo
afabilidades e procurando educá-la, com sua enorme cultura,
no gosto pelas coisas belas e profundas da arte, sendo isto
um caminho para assegurar-lhe um mínimo de cidadania.
Enquanto isso, as "putas tristes" de sua vida
passam apenas de relance, duas ou três em memórias de
referência e sem a menor importância, na medida em que o
amor evolui e o ser humano descobre a sua grandeza na mais
inesperada de todas as idades.
Tanto que o livro termina com uma frase
otimista, uma esperança de vida ainda mais longa e
disposição de vivê-la intensamente, após vitória sobre a
solidão e a condição angustiante da idade:
"Era por fim a vida real, com o meu coração a
salvo, e condenado a morrer de bom amor na agonia feliz de
qualquer dia depois dos meus cem anos". (06-10-2008)
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Tarcísio Pereira é Dramaturgo, Romancista e Jornalista
Diretor do Theatro Santa Roza
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