Tarcísio Pereira
Comemoração de divórcio
Saíram, respectivamente, com seus advogados, todos se
apertaram as mãos e entraram nos carros. O casal foi o
último a ficar no pátio do tribunal
- Oi filho, a mamãe está ligando para te
avisar que vai chegar tarde. Durma aí mesmo, na casa da
vovó, e amanhã cedinho eu te pego. Beijo.
Naquele dia, à tarde, acontecera a audiência
tão esperada. O próprio menino sabia disso, era o dia em que
a mamãe ia se separar do papai. Ele voltou a perguntar isso,
querendo confirmação, no instante em que ela o deixou em
casa de vovó:
- Mamãe, a senhora está indo agora se separar
do papai?
Suspirou fundo, pacientemente, tentando
explicar:
- Não, filho, a mamãe já está separada do
papai há muito tempo. Nós vamos apenas assinar o divórcio,
ou seja: botar no papel. Mas tudo continua como está, oquêi?
Estavam assim há seis anos, de fato. Nos três
primeiros, ele continuou dormindo lá, duas ou três vezes por
semana, iam juntos à praia e ao circo, ao cinema, ao parque
de diversões. Isso acabou quando a mamãe namorou um outro,
ele também. Uma guerra deflagrada entre os dois, e o menino
no meio desse fogo cruzado: Pare com isso, mamãe. Pare com
isso, papai.
Silêncio, abandono, não mais a mesma cama aos
dois. Dias e meses passavam e, certas vezes, em delírios de
bar, ligava para a ex-mulher, tentando disfarçar as
lágrimas:
- Posso passar aí hoje?
- Para quê?
- Estou perguntando se posso ir aí agora. Não estou pedindo
para dormir com você, é só para aliviar a dor do menino.
Uma negativa tranqüila vinha do outro lado, a
voz da mulher não vendo drama nas coisas:
- Bobagem, o menino já se acostumou.
Então chamava-a de vaca, traduzindo a
resposta conforme o jugo do seu ciúme, e o temperamento
explodia:
- Já entendi, não precisa fazer esforço para
dizer que ele está aí.
Ele, na verdade, nem sempre estava. O namoro
da mãe nem durou tanto, o dele também não, e a distância se
ampliou naqueles últimos três anos. Mas, agora, o divórcio
era uma exigência cada vez mais lógica. Por telefone,
decidiram agir o mais depressa possível. Ela exigia algo,
ele discordava. Ele também queria poderes sobre a guarda do
filho, ela discordava. Sem acordo, decidiram:
- Contrate o seu advogado, eu vou contratar o
meu.
Na tarde daquele dia, perante o juiz,
pequenos conflitos foram resolvidos. No final, um aperto de
mão. Saíram, respectivamente, com seus advogados, todos se
apertaram as mãos e entraram cada um em seu carro. O casal
foi o último a ficar no pátio do tribunal, e mais uma vez
ela tomou a decisão de ir apertar-lhe a mão. Um sorriso no
rosto de cada um, como se o mundo naquela tarde houvesse
resolvido todos os problemas.
- Ainda bem que tudo terminou em paz - disse
ele.
- Agora podemos respirar aliviados - disse ela. - O divórcio
me dá a sensação de que tudo continua como está, mas com a
certeza de que nunca mais brigaremos.
- Perfeitamente - disse ele. - Por causa disso, acho que
poderíamos tomar um chope juntos.
- Não dá. tenho que pegar nosso filho na casa da avó.
- Bobagem. Se quiser, eu mesmo ligo para ele.
Ela sorriu, mas os óculos escuros não saíam
dos olhos. As mulheres usam óculos escuros quando entram e
saem dos tribunais. Pensou um pouco. Disse que não precisava
se dar ao trabalho. Ainda tinha tempo para um brinde rápido.
O simples brinde durou até as nove da noite.
Ela então telefonou ao filho e disse que chegaria tarde,
dormisse ali mesmo na casa da avó. E foram juntos para o
mesmo hotel onde há mais de uma década, no dia do casamento,
tinham se instalado para a lua de mel.
No ano seguinte, haveria de nascer o segundo
filho.(03-11-2008)
Aquelas mãos na janela
Não foi suficiente o gesto, o apelo, aquelas palmas em
súplica. Na busca de culpados, o que nos fica é a imagem das
mãos e a esperança guardada daquele momento
Sexta-feira passada, por volta das 8 horas, a
televisão congelou um gesto de esperança. O noticiário da
manhã chegava ao seu final exibindo as imagens da semana.
Essa retrospectiva já é conhecida nos dias de sexta-feira, o
momento em que a gente revê as imagens que mais marcaram os
últimos dias. Ao final, tem sempre uma que pára na tela, por
alguns instantes, até que saia o letreiro e entrem no ar os
comerciais.
Sexta-feira passada, por volta das 8 horas, a
imagem congelada na tela foi a de uma jovem pedindo calma,
ela acenava da janela para a multidão embaixo do prédio. Não
era um pedido de socorro. Era, antes de tudo, uma súplica
aos policiais de plantão que, ao longo de quatro dias,
vinham esperando o momento exato de entrar em ação.
Lindemberg, o jovem apaixonado de 22 anos,
tinha o sonho de se casar com Eloá, a garota de 15 anos de
idade que, da janela do apartamento, fez aquele gesto com as
mãos. As suas mãos falavam explicitamente, só não viu quem
não quis. O corpo, como sempre fala, parecia dizer umas
palavras assim:
"Tenham calma, tenham paciência, pois a minha
vida está em jogo..."
Ter uma casa, um carro, ter filhos com Eloá,
era este o sonho de Lindemberg. Um jovem como qualquer outro
- que trabalhava, estudava e, ao que parece, nunca pegara em
uma arma de fogo.. A linda história de um amor que se
desintegra com a morte mais bárbara. Eis que o namoro chega
ao seu final, por razões que ainda ignoramos e que agora é
só um detalhe, já não importa a razão. Mas um fim de caso
como qualquer outro, e um direito de quem assim optou.
Eloá acabou a história e estava no seu
direito, deu-lhe as costas, desprezou-o, mas Lindemberg não
suportou a derrota e, após um mês de depressão, concluiu que
a vida não valia a pena. Um corrosivo desejo de vingança
tomou conta do seu coração. Ao invés de se suicidar, como
tanto ocorre em circunstâncias iguais, preferiu se equipar
com duas armas de fogo e um punhado de balas, invadiu o
apartamento da moça e a manteve em seu poder durante mais de
100 horas.
O resto, todo mundo já sabe. Mas aquelas mãos
na janela, na manhã de sexta-feira, era o gesto mais irônico
para o desfecho do caso. Nessa mesma sexta, dez horas
depois, Lindemberg atirou na cabeça de Eloá. Não foi
suficiente o gesto, o apelo, aquelas palmas em súplica. Na
busca de culpados, o que nos fica é a imagem das mãos e a
esperança guardada daquele momento. É o instante de alguém
que ainda respirava e estava de pé, tentando acalmar os
ânimos e a dizer, para toda uma arena petrificada em tensão,
que era ela quem estava na cova de todos os leões.
O que nos fica é a demonstração de amizade da
segunda moça de quinze anos, uma tal Nayara, que resolveu
voltar à cova dos leões após ter sido libertada, tão somente
pra negociar e tomar conta da amiga. Que amiga! Alvejada com
um tiro, também, pelo menos ficou para contar a história. E
com certeza falará um dia a verdade maior de todas as
verdades. Nayara, hoje, é o livro de ouro guardado a sete
chaves. O seu retorno ao cativeiro é o que mais intriga a
população no momento. Mas agora, independentemente de
acertos ou erros, esse retorno possuía uma lógica muito além
das convenções terrenas.
O que nos fica finalmente, para além do gosto
amargo dessa tragédia, é a curiosidade do mundo em conhecer
as pessoas que, neste momento, carregam Eloá em suas
entranhas. Se não pelo espírito, Eloá foi dividida na terra
para a sobrevivência de oito pessoas que aguardavam órgãos.
Alguém, agora, carrega o seu coração embaixo do peito; outro
recebeu seu fígado e um terceiro, um quarto e um quinto em
diante, estão com Eloá através dos rins e do pâncreas, dos
pulmões e das córneas.
São gestos como esse que ao menos aliviam a
dor. A amizade de Nayara em nome de uma vida, e a doação de
Eloá para vidas tantas, a longo prazo serão bem mais que um
consolo, mas as lições que ficam das tragédias em nome de
virtudes ainda maiores. A solidariedade, enfim, é o saldo
maior de uma história de amor degenerada na fatalidade. A
beleza expirou num sonho que passou, a podridão explodiu no
meio e a beleza retornou no instante mais doloroso, depois
que o mundo se recolheu nas poltronas e todos esqueceram
aquelas mãos na janela. (27-10-2008)
A lei de Crivella
Já circula um abaixo-assinado contra a aprovaão da lei. Por
que a Igreja Universal ainda quer abocanhar os recursos da
cultura para investir nos seus templos?
Não é de hoje que o senador Marcelo Crivella,
do Rio de Janeiro, vem tentando aprovar um projeto de lei,
de sua autoria, para permitir a inclusão de templos
religiosos nos benefícios do Programa Nacional de Apoio à
Cultura, o Pronac, mais conhecido como Lei Rouanet. Há pouco
mais de um ano, vi uma entrevista do senador no programa de
Jô Soares, onde ele fazia das tripas coração para arrefecer
a polêmica.
Agora, o assunto voltou à pauta do dia.
Circula pela internet, nas listas culturais, um
abaixo-assinado, na verdade um clamor de artistas e
produtores de todo o Brasil para não permitirmos a aprovação
desse absurdo.
Fique claro, para quem ainda não sabe, que o
senador Crivella é um bispo da Igreja Universal do Reino de
Deus, inclusive parente de Edir Macedo, fundador desse credo
que há cerca de 30 anos se instalou no Brasil e ganhou o
mundo, e que hoje está presente em todos os lugares com
templos milionários. Então, para uma igreja tão rica e com
templos tão suntuosos, a primeira pergunta a se fazer seria
esta: Por que a Igreja Universal ainda quer abocanhar os
escassos recursos da nossa cultura para investir na reforma
de seus templos?
Mas não é assim que o bispo se defende. Nas
entrevistas, ele vem dizendo que o projeto é para beneficiar
"templos históricos"... Ora. Pelo que nos consta, os templos
históricos neste país pertencem à Igreja Católica, salvo
alguns de instituições protestantes que já receberam
tombamento. Que interesse teria o senador nessas igrejas,
ele que pertence a uma outra facção?
A verdade é que, nas entrevistas, o
senador-bispo diz uma coisa, mas escreveu outra no projeto.
Ali, ele altera alguns dispositivos da Lei 8.313, de 23 de
dezembro de 1991, para que passe a vigorar com a seguinte
redação: "Fornecimento de recursos para o FNC e para
fundações culturais de qualquer natureza ou para museus,
templos, bibliotecas, arquivos e outras entidades de caráter
cultural".
Toda lei é perigosa quando não especifica o
fim direto. No caso em questão, a expressão "templos"
passaria despercebida se o seu autor não estivesse a serviço
de um determinado segmento. Não se refere a "templos
históricos, construídos no Século XVI ou pelo menos há 100
anos.
Parece que o senador já sabia, antes de
apresentar o projeto, que ia mexer num vespeiro, e teve o
cuidado de apresentar um texto vago, indefinido, para ver se
matava a mosca. Mas há sempre um olhar atento e, agora, ele
insiste em manter a proposta usando de outros argumentos.
Ao longo da história, sempre lutamos por uma
maior participação nos recursos do tesouro, por uma fatia de
justa proporão com o tamanho da produção cultural no país.
Tivemos avanços, mas somos ainda uma nação em que a arte e a
cultura, em todos os Estados, sempre foram a maior expressão
dos territórios. No entanto, ainda nem atingimos a marca de
1 por cento da arrecadação federal para o setor, como é
recomendado pela Unesco.
Quando, no atual momento, tanto se luta pela
distribuição igualitária dos pólos artísticos, pelo
reconhecimento de manifestações localizadas, enfim pela
descentralização do setor, o projeto do senhor Crivella nos
parece uma afronta. É desnecessário dizer, aqui, que a
Igreja Universal do Reino de Deus não precisa desse
dinheiro, ela já sobrevive dos dízimos e doações carregados
em sacos por seus obreiros; sobrevive, ainda, do beneplácito
constitucional e esclerosado da isenção tributária - e ainda
tem deputado apresentando projeto para imunidade do IPVA,
livrando de impostos os automóveis da igreja!
É desnecessário lembrar, finalmente, que essa
mesma igreja já tomou muitos espaços da vida cultural deste
país, e que hoje ocupa a maior parte dos prédios onde
funcionavam os cinemas dos nossos bairros, e das nossas
províncias. (20-10-2008)
"Dona Flor" no Teatro
O público que viu na televisão, e no cinema, quer ver as
mesmas coisas, mas com a novidade de tê-las no teatro. O
diretor teve a inteligência de repetir alguns códigos
daqueles dois veículos
É sempre bom voltar a Jorge Amado. Dos
brasileiros, talvez o mais lido escritor do século XX.
Voltar a Jorge Amado é uma necessidade de revisitar o Brasil
no que possui de mais autêntico e abrangente em sua cultura.
Voltei a Jorge Amado, esta semana, através do
teatro, mas foi suficiente para me despertar a saudade de
todos os seus livros. Aqui, no Teatro Paulo Pontes,
apresentou-se nos dias 6 e 7 a peça "Dona Flor e Seus Dois
Maridos", trazendo um elenco de catorze pessoas da mais alta
qualidade interpretativa. Entre eles, três conhecidos da
televisão: Carol Castro, Marcelo Faria e Duda Ribeiro,
famosos por suas incursões em novelas globais.
Com direção de Pedro Vasconcelos, também
diretor de novelas e especiais de TV, o espetáculo faz um
grande apanhado da cultura baiana e todo o universo da obra
de Jorge. Ali está um Brasil na sua essência mais pura,
radiografado numa mistura de ritmos e valores culturais os
mais diversos. Do carnaval, passando pelo sincretismo
religioso, os valores e os conflitos morais, o amor e a
safadeza, a peça é um verdadeiro convite para a releitura de
um livro que é talvez resumo de tudo o que Amado quis.
Aqui, espetáculos com atores globais são
geralmente intencionados para o lucro fácil das bilheterias.
Prova disso é que recebemos, na maior parte, aquelas
comédias de elenco pequeno a que nos convencionamos chamar
de "caça-níquel".
Grandes espetáculos deste país, com globais
ou não, dificilmente chegam aos nossos palcos. No caso de
"Dona Flor", duas coisas chamam a atenção: a primeira delas
é ver uma peça com elenco tão numeroso vindo do eixo-sul,
coisa rara de acontecer; a segunda é ser também caça-níquel
no seu estado mais nobre, pois a peça tem público certo pelo
referencial histórico que o título já carrega, mas empolga
pela seriedade e surpreende no conjunto estético.
Essa turnê pelo Brasil, patrocinada pelo
Banco Mercedes-Benz, é um presente que recebemos em todos os
Estados. Brasileiríssimo, o espetáculo é fruto de muita
sensibilidade e compreensão da nossa cultura. Engraçada,
sensual, comovente e ousada, eis uma peça que mantém
sentados os espectadores, sem cabecear, em quase duas horas
de duração.
O público que viu na televisão, e também no
cinema, quer ver as mesmas coisas, mas agora com a novidade
de tê-las no teatro. Nisso, aliás, o diretor teve a
inteligência de repetir alguns códigos ou marcas célebres
daqueles dois veículos. Ainda que a leitura seja outra, ele
sabe que o público quer ver a mesma coisa, por isso repete
algumas ações de forma inteligentemente proposital.
Cantada ao vivo, em várias cenas, uma
particularidade da peça é a música exclusiva de Dorival
Caymmi, certamente o músico brasileiro de maior afinidade
com Jorge Amado. É um charme à parte, mas integrante do
universo cênico e estético da obra, sob a direção musical de
Bruno Marques.
Lamentei somente uma grave falha técnica, que
se repetiu sucessivamente ao longo das cenas: uma iluminação
raquítica e insegura que acabou comprometendo as trocas de
cenas. O diretor faz uso abusivo dos blecautes, já
considerado um recurso ultrapassado em teatro. Por outro
lado, blecaute é também uma opção do encenador, e isto não
se condena. Na apresentação, porém, tivemos que presenciar
as entradas de atores a montar os cenários das cenas
seguintes. Quebrou as surpresas, sujou as cenas, mas não sei
se é um problema de sempre ou se existiram falhas de luz.
Seja lá o que for, o fato é que a peça é um
sucesso em todos os lugares onde passa. Se tem apelo
comercial, não importa, pois o apelo é positivo na medida em
que nada agride. Ao contrário: nos remete a um Brasil no que
ele tem de mais quente e verdadeiro, e talvez isto explique
a eternidade de Jorge Amado. (13-10-2008)
"Minhas putas tristes"
Não tive interesse na história de um velho de 90 anos que
fica lembrando as putinhas de sua vida. Mas me deparo com
uma história de amor das mais profundas que já conheci
Mais uma vez, o mestre García Márquez me
arrebata. Guardei em casa, durante três anos, o exemplar do
seu último livro chegado aqui, "Memória das Minhas Putas
Tristes, e somente agora é que vim a lê-lo.
Quando lançado em 2005, confesso, tive certo
preconceito com o título. A palavra puta não é uma coisa tão
má, mas me parece agressiva como título de livro. E
comprei-o, tão somente, por ser de Gabriel García Márquez,
autor que me fascina desde que ingressei nos incríveis
sacrifícios de "Erêndira" e nos seus "Cem Anos de Solidão" -
para não ter que citar todos.
Pelo autor, tão somente pelo autor, comprei
numa livraria esse "Memória das Minhas Putas Tristes, e não
tive interesse na história de um velho de 90 anos que fica
lembrando as putinhas de sua vida. Mas daí a lê-lo, como o
fiz somente agora, me deparo com uma belíssima história de
amor das mais profundas que já conheci.
O tema do amor, aliás, é marca e predileção
do mestre colombiano. E o seu ponto mais alto é ainda "O
Amor nos Tempos do Cólera”, prossegue em "Do Amor e Outros
Demônios" e surpreende agora, de forma mais inusitada, com o
relato de um nonagenário que se apaixona pela primeira vez,
justo no dia do aniversário dos seus 90 anos, e por uma
garota de 14.
Com essa história, o autor nos quebra a
expectativa inicial daquilo que o título promete. Quando
esperamos uma sucessão de relatos de vidas, com as tristezas
recorrentes dessas amantes profissionais, o que acaba
ocupando as páginas é a profunda solidão de um velhinho que
se julga perto da morte. Um caso de psicanálise típica dos
solteirões que, durante toda a vida, fogem a qualquer
possibilidade de casamento. A conseqüência é a solidão
inevitável e tardia, valendo purgação e sentimento de culpa.
"No ano dos meus noventa anos quis oferecer a
mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente
virgem".
Com essa frase, o narrador inicia um relato
assombroso, em que pesem códigos de ética moral tão exigidos
nos dias de hoje, quando existem leis e punições severas
para casos de pedofilia e aliciamento de menores. Mas o
autor é consciente disso e demonstra cuidado com o tema,
pois o livro acaba sendo uma denúncia, também, contra o
tráfico de adolescentes sexualmente exploradas. É uma
preocupação apenas implícita, pois o foco principal está na
solidão e nas possibilidades do sentimento amoroso na idade
mais avançada.
No ano dos seus noventa anos, pelo capricho
de se presentear a si mesmo e de provar que está vivo, ele
de fato consegue a garota, mas a relação que estabelece com
ela é da mais alta poesia para quem esperava cenas de
luxúria. Ao que parece, em nenhum momento ele mantém relação
sexual com a menina, pois se contenta em tê-la do seu lado
para o solitário deleite da contemplação, respeitando a
condição virginal e a diferença de idade, dizendo
afabilidades e procurando educá-la, com sua enorme cultura,
no gosto pelas coisas belas e profundas da arte, sendo isto
um caminho para assegurar-lhe um mínimo de cidadania.
Enquanto isso, as "putas tristes" de sua vida
passam apenas de relance, duas ou três em memórias de
referência e sem a menor importância, na medida em que o
amor evolui e o ser humano descobre a sua grandeza na mais
inesperada de todas as idades.
Tanto que o livro termina com uma frase
otimista, uma esperança de vida ainda mais longa e
disposição de vivê-la intensamente, após vitória sobre a
solidão e a condição angustiante da idade:
"Era por fim a vida real, com o meu coração a
salvo, e condenado a morrer de bom amor na agonia feliz de
qualquer dia depois dos meus cem anos". (06-10-2008)
A
utilidade dos mortos
Um curioso sentimento de culpa se
apossou da conversa. Foi quando lembrei da moça que tinha
morrido ontem, cuja córnea estava vindo alegrar a nossa
casa.
Uma das maiores
tristezas foi quando tive a notícia, definitiva, de que a
minha mãe estava cega.
E uma enorme alegria,
algum tempo depois, quando ela voltou a enxergar.
Passou três anos nas
trevas, na fila de espera para um transplante de córnea.
Lamentavelmente, tudo só dependia da morte de alguém, mas
que morresse no instante em que chegasse a sua vez. A
primeira experiência aconteceu pouco mais de um ano, mas a
cirurgia não foi bem sucedida. O organismo não quis, houve
alguma rejeição interna e a escuridão aumentou, a tristeza
também.
Morando no interior, a
seis horas de distância da clínica, dois anos depois ela foi
chamada às pressas pelo médico. Uma jovem de 28 anos, num
bairro da capital, acabara de perder a vida em acidente de
carro. Chegara a vez da minha mãe, ia ganhar uma córnea de
28 anos, mas precisava vir logo, o órgão não esperava tanto.
Naquele fevereiro de
2003, numa tarde carnavalesca, levei minha mãe para a
clínica de olhos. Assis, o meu irmão mais velho, estava
conosco no carro, e às 15 horas daquele domingo ela teve
entrada na sala cirúrgica. Depois, ficamos os dois irmãos à
espera, ouvindo as músicas de carnaval que vinham da avenida
próxima. Para não ficarmos ali, apenas esperando sem fazer
nada, decidimos ir até a avenida.
O bloco das Virgens de
Tambaú começava a sua concentração entre a praça de Miramar
e a Avenida Epitácio Pessoa. Eu e Assis nos sentamos no
meio-fio de uma calçada, silenciosos, olhando os foliões na
pista. Homens com roupas de mulheres, usando seios e nádegas
postiças, passavam ao lado e diziam gracinhas. A gente só
olhava, claro, pois a nossa mãe estava sendo operada num
quarteirão bem próximo. Não havia sentimento de culpa:
finalmente, estávamos na espera de algo realmente bom em
nossa família. Mas havia uma ansiedade e, portanto, não era
motivo para carnaval.
Por outro lado, um
curioso sentimento de culpa veio se apossar da nossa
conversa. Foi quando me lembrei da moça que tinha morrido
ontem, a do acidente de carro, cuja córnea estava vindo
alegrar a nossa casa. Não sabíamos quem era a moça, ou quem
fora, pois são detalhes que a clínica não revela. Mas um
comentário do meu irmão, naquele momento, nunca me saiu da
cabeça:
- Por causa da morte
dela, alguns estão chorando neste momento, enquanto nós
estamos felizes...
Dois meses depois,
aquele meu irmão iria embora também, mas naquele instante
não sabíamos disso!
A vida prega surpresas
e ironias. Minha mãe voltou a enxergar e até hoje continua
vendo com um olho só. Ela ainda sonha em fazer o transplante
do outro olho - mas convenhamos que, para quem não via nada,
conseguir uma segunda córnea seria tirar a chance de outro,
alguma pessoa que continua esperando como ela esperou.
Na manhã de primeiro de
maio daquele ano, em um dos corredores do Hospital de
Trauma, uma assistente social me chamou para uma conversa.
Eu tinha acabado de sair do necrotério para reconhecer o
cadáver do meu irmão, falecido na madrugada, e ela disse que
precisava conversar em particular comigo. Começou com aquela
história bonita da vida humana, sobre tantas pessoas que
necessitam de órgãos etc, mas que precisava da autorização
da família.
Ora. Pelo que me
constava, o meu irmão havia morrido de falência múltipla dos
órgãos, e então a minha resposta foi logo uma pergunta de
certo modo grosseira:
- E tem alguma coisa
nele que ainda preste?
Ela me olhou de um modo
alegre e suplicante, concordando com a inutilidade dos
órgãos mas revelando, enfim, a única coisa que ainda havia
restado para salvar a vida de alguém. E respondeu num sopro
de voz:
- A córnea.
Naquele momento, me
lembrei da tarde em que vimos as Virgens de Tambaú. Mas
lembrei sobretudo da minha mãe e caí em
lágrimas.(29-09-2008)
Não falem de Deus
Dizem que o mundo vai melhorar, mas não conseguem explicar a
fórmula. E quando não explicam a fórmula, elegem Deus, e
Jesus Cristo, como seus cabos eleitorais
Ter nojo da política já é um clichê. Não ter
nojo, também é outro clichê - porque, afinal, a política
parece ser a única coisa que não mais surpreende.
Já não causam surpresa os inúmeros
noticiários de escândalos públicos. Eles são tão numerosos,
inevitavelmente sucessivos que todas as denúncias foram
banalizadas. O governo Lula teve a vantagem de ser a
primeira gestão em que mais se denunciou e prendeu
corruptos, mas teve a desvantagem de banalizar o problema.
Já é tão comum a notícia do escândalo que a nação ficou
apática, cruzou os braços, fez vista grossa e disse:
"Bobagem. É apenas mais um."
O que parece uma solução, pode ser o perigo
da perpetuação. Como as drogas que envenenam o corpo, os
vícios não querem se render, e vão aprendendo com as
próprias soluções um jeito diferente de agir. Este triste
paradoxo encontra semelhança em outro mal da sociedade
moderna: a violência! Quanto mais se combate o banditismo
nas ruas, mais bandidos surgem às centenas. A sensação que
temos é a de que eles aprendem com as próprias notícias, os
próprios combates, as próprias prisões.
Então a gente deixa de ter nojo, exatamente
porque já se enojou demais. Conscientes, então, dessa
imperiosa apatia, os políticos de hoje estão posando de
heróis com base nos erros da própria política. No espetáculo
atual dos guias eleitorais, eles falam da corrupção como
cavalo de campanha. Com raríssimas exceções, ouvimos dos
candidatos algo mais ou menos assim:
- Vamos combater a corrupção...
Sempre que escuto isso, dá vontade de dizer
que sinto nojo. Mas como o nojo na política já é um clichê,
apenas lamento a degradação do discurso. Que pena não ouvir
a... "proposta" - outra palavrinha banalizada demais. O
salvador da pátria é um mito romântico. Ele apareceu em
outra ocasião, alguém lhe apostou as fichas e ele teve a
chance, mas não mostrou a que veio.
Agora, eles já não sabem o que dizer. Quando
não atacam o outro lado, dizem que o mundo vai melhorar, mas
não conseguem explicar a fórmula. E quando não explicam a
fórmula, elegem Deus, e Jesus Cristo, como seus cabos
eleitorais.
Agora sim, eu voltei a sentir nojo. E é uma
pena que a causa do meu nojo tenha sido Deus. Justamente
Deus, que poderia estar fora disso. Num programa passado dos
vereadores, um postulante fez a oração e conclamou a todos
para, "em nome de Deus, seguirmos juntos nessa caminhada, na
certeza de que Deus está do nosso lado", e que "Deus estará
conosco ao longo de todo o nosso mandato".
E não foi o único. Um atrás do outro, os
candidatos estão falando de Deus sem o temor do ridículo.
Deus, enfim, é o personagem mais citado nos guias, e o mais
reverenciado por quem já não tem a quem apelar. Não fosse a
hipocrisia do apelo, a referência causaria piedade. Mas é
possível que nem mesmo Deus tenha pena deles, pois já nos
bastam os templos monetários nessa outra forma de
enriquecimento ilícito.
Alguém precisa dizer, aos senhores
candidatos, que nesse campo Deus não é bem vindo. Eu nunca
falei com Deus sobre esse assunto; não me arvoro na
arrogância de falar em seu nome, mas tenho a impressão de
que ele não gosta. Dizer que tem fé em Deus, e pedir sua
força numa caminhada, é também um direito dos próprios
políticos, que são seres humanos e iguais. Mas uma coisa é
louvar seu nome e outra é a tentativa de cabalar os
fanáticos.
Deixem Deus fora disso. Não falem de Deus nas
campanhas políticas. Além de sacrilégio, pode ser um crime
eleitoral gravíssimo, porque implica num comércio de votos
com a moeda da fé. (22-09-2008)
Por que tanto publico?
Isto é um desabafo, pois só eu sei o quanto tenho suado e as
dificuldades que enfrentamos para editar uma obra
Em 1989 eu terminei de escrever um romance.
Passei mais de um ano debruçado sobre ele, vinha do final de
87, e pus o ponto final no dia 21 de abril. Lembro dessa
data porque foi o dia em que nasceu Amarílis, minha primeira
filha, a quem o livro é dedicado. Hoje, dezenove anos
depois, esse livro finalmente vem a público.
Algumas pessoas questionam por que passei
tanto tempo com um livro guardado na gaveta. São diversas as
razões, e uma delas é o fato de ser um escritor que escreve
mais do que publica. O livro a que me refiro ("O Sacrifício
dos Anjos"), é apenas o que mais demorou a ser publicado.
Mas, em geral, todos os meus livros só vieram à luz depois
de muitos anos guardados.
"O Último Dia de Deus, que publiquei no ano
passado, é de 97, ficou dez anos na gaveta. "Agonia na
Tumba" é de 86 e só vim publicá-lo sete anos depois, em 93.
"Dom Quizales de Condor" saiu em 98, mas é de 92. E assim
sempre. Da mesma forma de um outro livro que também lanço
hoje, "O Homem Que Comprou a Rua, escrito entre 2001 e 2003.
Certas pessoas, por razões que desconheço,
com certa maledicência têm me acusado de "publicar demais".
Ora. O que tenho a dizer é que publiquei de menos, em que
pese uma vida dedicada à literatura e o volume de obras que
venho guardando. Isto é um desabafo, pois só eu sei o quanto
tenho suado e as dificuldades que enfrentamos para editar
uma obra. Comecei a escrever aos 15 anos e cedo fui tomado
por uma forte paixão pelo romance, gênero que adotei como a
minha forma de expressão literária.
Nunca tive vaidade em escrever e publicar. O
que sempre me dominou foi essa necessidade de expressão, e a
publicação é um direito e uma conseqüência. Quando publiquei
pela primeira vez, eu já vinha escrevendo há tanto tempo que
aquilo me parecia um sonho. E por uma opção de vida, deixei
de entrar numa faculdade para ter tempo de escrever, ler e
fazer teatro. Não escrevi apressadamente, como pode parecer.
Cada romance teve um tempo médio de dois anos, afora o
período em que adormeceu na gaveta e foi sendo reescrito
paralelamente.
De uns tempos para cá, alguns intelectuais me
olham desconfiados pelo fato de publicar, certas vezes,
vários livros ao mesmo tempo. Talvez eles tenham razão, é
possível que este seja o meu erro, mas essas publicações em
bloco ocorrem do fato de ter acumulado trabalhos, e elas
saem dessa maneira como fruto de um projeto único,
apresentado às leis de incentivo à cultura.
Isto começou em 2001 - quando joguei no
mercado 12 livros ao mesmo tempo, num projeto que reuniu
todas as peças teatrais escritas ao longo de 20 anos. Fui
chamado de "megalomaníaco, porque deixaram de enxergar o
verdadeiro sentido desse projeto, que era tirar da gaveta os
originais inéditos e distribuí-los junto a grupos e
companhias teatrais do Brasil. Felizmente que o projeto deu
certo: graças à publicação dessa série, hoje tenho peças
encenadas em vários Estados - uma delas, inclusive,
atualmente está em cartaz no Rio de Janeiro, rendendo várias
apresentações e alguns trocados na minha conta corrente.
Outro dia um repórter me perguntou qual era o
meu segredo para publicar tanto. Achei a pergunta injusta,
porque escrevi durante muitos anos e sem condições de
publicar. E se não havia uma editora comercial que se
interessasse por mim (como ainda hoje não tenho), fui me
valendo das verbas públicas por meios legais, nunca de
apadrinhamento, inscrevendo meus projetos editoriais nas
leis de incentivo tanto do Estado como do município.
Hoje, fazendo um balanço do que conquistei
até agora, não sei o que seria de mim sem a existência
dessas leis. É possível que estivesse com todas essas obras
inéditas até agora, e talvez isto comprometesse o meu
estímulo de criação, e minha auto-estima de escritor.
No ano passado, pelo Fundo Municipal de
Cultura, publiquei "O Último Dia de Deus". Hoje, pelo Fundo
de Incentivo à Cultura do Estado, estou publicando dois
romances. E dois romances antigos, como já disse. É a forma
que tenho encontrado para mostrar o fruto de um trabalho de
muita duração, dedicação e suor.
Fica o convite, mais uma vez, aos amigos e
leitores desta coluna para prestigiar esse evento na noite
de hoje, no Bar dos Artistas do Theatro Santa Roza, quando
estarei lançando um projeto apresentado ao FIC com o título
de Dois Romances. (15-09-2008)
O
filme
Bezerra de Menezes
Por falta de informação, a imprensa da Paraíba noticiou a
estréia sem atentar para esse detalhe: a presença de atores
paraibanos
Está em cartaz em um cinema de João Pessoa, e
em todo o Brasil, o filme "Bezerra de Menezes - Diário de um
Espírito". Estreou na última sexta-feira, 29 de agosto, uma
data que já era anunciada pela produção por ser o dia de
aniversário do próprio personagem que dá título ao filme,
Bezerra de Menezes, médico e espírita do século XIX que
ficou conhecido como o Alan Kardec brasileiro..
Em quatro dias de exibição, já se pode ver
que o filme é um sucesso: casa cheia em todas as sessões,
coisa rara em produõçes brasileiras sem apelo comercial. O
filme foi rodado no Ceará e Pernambuco com grande elenco
desses dois Estados. Daqui da Paraíba, temos 5 atores em
cena: Fernando Teixeira, W. J. Solha, Everaldo Pontes, João
Dantas e este que vos fala.
Aliás, acho que por falta de informação, a
imprensa da Paraíba noticiou a estréia do filme sem atentar
para esse detalhe: a presença de atores paraibanos!
Suspeição à parte, fica aqui o comunicado e a recomendação
para que vejam esse filme. E vejam não apenas para nos
prestigiar, mas por se tratar de um filme belíssimo,
deslumbrante, que vale a pena ser visto.
Nessa história, a vida e a obra de Bezerra de
Menezes, afora o seu contexto religioso, desperta nosso
interesse para o conhecimento de mais um grande brasileiro,
uma personalidade que marcou história na vida acadêmica e
política do Brasil. Portanto, quem não tem interesse no
espiritismo, o filme tem também o mérito de revelar, para os
brasileiros, um grande brasileiro que aqui lutou em defesa
dos excluídos, pelo fim da corrupção, pela solidariedade e,
enfim, por um conceito de política justo e decente.
O filme só tem um ator do início ao fim:
Carlos Vereza, famoso por suas diversas participações em
algumas telenovelas e pela incursão no cinema nacional.
Aqui, Vereza interpreta Bezerra de Menezes, e os demais
atores vão aparecendo em quadros isolados, numa seqüência da
narrativa e ordem do roteiro, quando temos a oportunidade de
mostrar a cara.
Na seqüência dos paraibanos, quem primeiro
aparece é W. J. Solha, no papel de um professor de botânica
que questiona, em plena sala de aula, um trabalho escrito
pelo estudante Bezerra. Vem em seguida Fernando Teixeira, no
personagem de um deputado conservador discursando em uma
tribuna, quando tem um bate-boca com o protagonista acerca
da escravatura.
Minha participação vem na terceira ordem, e
contraceno com outro paraibano também conhecido dos palcos
paraibanos, João Dantas. Ali faço o personagem de um médium
curandeiro, João Gonçalves (esse nome é apenas uma
coincidência, fique claro!), que foi bastante decisivo para
a iniciação de Bezerra na doutrina espírita. João Dantas
interpreta o amigo do protagonista que recorre a esse médium
com o fim de ajudá-lo. Fiquei honrado, permitam-me afirmar.
É uma das cenas mais belas do filme.
Finalmente, Everaldo Pontes, de "Vau da
Sarapalha", no papel do irmão de Bezerra. Outra cena
grandiosa, de muito impacto, pois é o momento em que o
protagonista tem seu rompimento familiar em virtude dos
caminhos religiosos que descobrira.
Dirigido por Glauber Filho, jovem diretor que
também assina o roteiro, o filme tem o mérito de extrapolar
o interesse propagandista da doutrina espírita. O diretor
foi inteligente em produzir uma obra que, ao mesmo tempo em
que se volta para um setor específico, também possui a
matéria de um cinema de arte, capaz de interessar ao público
como qualquer filme de ficção. A prova disso é que está em
todas as salas, lotando platéias pelo Brasil afora.
Aqui em João Pessoa, encontra-se em cartaz no
Box 2 do Manaíra Shopping. Quem tiver interesse, corram a
tempo a não sair da tela. Filmes bons, no Brasil, não
costumam ficar muito tempo em cartaz. (08-09-2008)
Esses
ventos de agosto
O vento é tão aterrorizante que os feiticeiros antigos devem
tê-lo interpretado como coisa do Maligno, e aí criaram um
problema para o resto das nossas vidas
Vai chegando ao fim o mês de agosto. E, como
todos os anos, tenho sempre um alívio quando agosto se vai.
Como tanta gente, às vezes também sou vítima da superstição.
Mas agora quero crer que não é medo de azar, é por causa dos
ventos.
Fico me perguntando donde vem tanta
superstição. Ou se existe uma explicação científica para
tornar o mês de agosto diferente dos outros. Olho na
biblioteca e nenhum livro que me leve à pesquisa. "Talvez os
astrólogos expliquem, penso. "Devo procurar um livro de
astrologia ou um estudo das horas, os dias, os meses e o
ano, porque talvez a natureza venha explicar o que fazem os
astros nesse período do ano; se há um desequilíbrio entre os
planetas, em relação ao sol e à sua posição sobre a terra,
para que possa influir com tanta energia negativa sobre as
nossas vidas."
À noite, para dormir, fecho as janelas e, da
cama, fico escutando a cantilena sinistra da ventania. "São
os ventos de agosto, penso, e de fato é sinistro o som desse
vento, lembro que o escuto todos os anos nesse período, ele
vai de encontro às paredes do prédio, bate nas persianas
fechadas e sempre provoca um ruído aterrorizante, como se
trouxesse os sons de uma alcatéia faminta. "Bobagem, é
apenas o vento. Agosto, realmente, tem a ver com esse vento,
pois é o período do ano em que ele bate mais forte".
Com essa constatação, me ponho a perguntar se
não é daí que advém a crença. Em agosto, o vento é tão
aterrorizante que os feiticeiros antigos devem tê-lo
interpretado como coisa do Maligno, e aí criaram um problema
para o resto das nossas vidas, fazendo com que pessoas
despreparadas passassem a rezar o dobro, a fazer simpatias,
a acender velas, a se pegar diariamente com seu anjo da
guarda, a olhar duas vezes antes de atravessar uma rua, a
finalmente ficar preso em casa e só sair quando necessário.
Como sempre durmo com a TV ligada, acordo no
meio da noite ouvindo uma voz do além que repete várias
vezes a palavra agosto. Entre o sono e a vigília, não sei se
estou sonhando ou se aquilo acontece. Abro os olhos e, ante
a tela da televisão, percebo que está passando um programa
evangélico, desses que são transmitidos de madrugada com a
presença do pastor com uma bíblia aberta e um copo com água
sobre a mesa. O pastor fala as mesmas palavras de todos os
programas anteriores: refere-se a Demônio, Encosto,
Descarrego, Vidas Desgraçadas e por aí vai:
- Se você está aflito, minha amiga, meu
amigo, compareça ao nosso templo para uma sessão de
descarrego...
E fala do mês de agosto. Diz que agosto é o
mês da conversão. Que é a grande oportunidade de não
aceitarmos o Demo em nossas vidas. E, com uma força de
persuasão para quem de fato está aflito, passa a enumerar
uma série de acontecimentos históricos do mês de agosto:
mostra cenas da Segunda Guerra Mundial e do Vietnã; de
prédios que tombaram; de acidentes aéreos, naufrágios, entre
tantos outros episódios.
Quando já estou quase me entregando, e dando
razão a ele, tenho a seguinte revelação, falando sozinho: "Poxa,
essas coisas acontecem todos os dias, em qualquer mês do
ano. Vejo tragédias diariamente nos jornais. Por que só
estão mostrando as desgraças de agosto?"
Mais uma vez, alguém se aproveita da crença
popular e reforça o mito. Se elegem as cenas das tragédias
de agosto, talvez seja a hora de selecionarmos, também, as
cenas de felicidade, e as felicidades ocorridas nos agostos
por todos os séculos dos séculos. Pensemos nas coisas boas
que acontecem em agosto da mesma forma que em dezembro e
janeiro. Garanto que vamos encontrar uma série de coisas
maravilhosas, e que os ventos de agosto possam uivar em paz
como a voz de Deus que canta no deserto. (01-09-2008)
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Tarcísio Pereira é Dramaturgo, Romancista e Jornalista
Diretor do Theatro Santa Roza
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