Palco&Platéia
Artes Cênicas
Cine&TV
Destaques
Literatura
Música
Opinião
 





 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





 


 
Tarcísio Pereira

 

Comemoração de divórcio

Saíram, respectivamente, com seus advogados, todos se apertaram as mãos e entraram nos carros. O casal foi o último a ficar no pátio do tribunal

- Oi filho, a mamãe está ligando para te avisar que vai chegar tarde. Durma aí mesmo, na casa da vovó, e amanhã cedinho eu te pego. Beijo.

Naquele dia, à tarde, acontecera a audiência tão esperada. O próprio menino sabia disso, era o dia em que a mamãe ia se separar do papai. Ele voltou a perguntar isso, querendo confirmação, no instante em que ela o deixou em casa de vovó:

- Mamãe, a senhora está indo agora se separar do papai?

Suspirou fundo, pacientemente, tentando explicar:

- Não, filho, a mamãe já está separada do papai há muito tempo. Nós vamos apenas assinar o divórcio, ou seja: botar no papel. Mas tudo continua como está, oquêi?

Estavam assim há seis anos, de fato. Nos três primeiros, ele continuou dormindo lá, duas ou três vezes por semana, iam juntos à praia e ao circo, ao cinema, ao parque de diversões. Isso acabou quando a mamãe namorou um outro, ele também. Uma guerra deflagrada entre os dois, e o menino no meio desse fogo cruzado: Pare com isso, mamãe. Pare com isso, papai.

Silêncio, abandono, não mais a mesma cama aos dois. Dias e meses passavam e, certas vezes, em delírios de bar, ligava para a ex-mulher, tentando disfarçar as lágrimas:

- Posso passar aí hoje?
- Para quê?
- Estou perguntando se posso ir aí agora. Não estou pedindo para dormir com você, é só para aliviar a dor do menino.

Uma negativa tranqüila vinha do outro lado, a voz da mulher não vendo drama nas coisas:

- Bobagem, o menino já se acostumou.

Então chamava-a de vaca, traduzindo a resposta conforme o jugo do seu ciúme, e o temperamento explodia:

- Já entendi, não precisa fazer esforço para dizer que ele está aí.

Ele, na verdade, nem sempre estava. O namoro da mãe nem durou tanto, o dele também não, e a distância se ampliou naqueles últimos três anos. Mas, agora, o divórcio era uma exigência cada vez mais lógica. Por telefone, decidiram agir o mais depressa possível. Ela exigia algo, ele discordava. Ele também queria poderes sobre a guarda do filho, ela discordava. Sem acordo, decidiram:

- Contrate o seu advogado, eu vou contratar o meu.

Na tarde daquele dia, perante o juiz, pequenos conflitos foram resolvidos. No final, um aperto de mão. Saíram, respectivamente, com seus advogados, todos se apertaram as mãos e entraram cada um em seu carro. O casal foi o último a ficar no pátio do tribunal, e mais uma vez ela tomou a decisão de ir apertar-lhe a mão. Um sorriso no rosto de cada um, como se o mundo naquela tarde houvesse resolvido todos os problemas.

- Ainda bem que tudo terminou em paz - disse ele.
- Agora podemos respirar aliviados - disse ela. - O divórcio me dá a sensação de que tudo continua como está, mas com a certeza de que nunca mais brigaremos.
- Perfeitamente - disse ele. - Por causa disso, acho que poderíamos tomar um chope juntos.
- Não dá. tenho que pegar nosso filho na casa da avó.
- Bobagem. Se quiser, eu mesmo ligo para ele.

Ela sorriu, mas os óculos escuros não saíam dos olhos. As mulheres usam óculos escuros quando entram e saem dos tribunais. Pensou um pouco. Disse que não precisava se dar ao trabalho. Ainda tinha tempo para um brinde rápido.

O simples brinde durou até as nove da noite. Ela então telefonou ao filho e disse que chegaria tarde, dormisse ali mesmo na casa da avó. E foram juntos para o mesmo hotel onde há mais de uma década, no dia do casamento, tinham se instalado para a lua de mel.

No ano seguinte, haveria de nascer o segundo filho.(03-11-2008)

 

Aquelas mãos na janela

Não foi suficiente o gesto, o apelo, aquelas palmas em súplica. Na busca de culpados, o que nos fica é a imagem das mãos e a esperança guardada daquele momento

Sexta-feira passada, por volta das 8 horas, a televisão congelou um gesto de esperança. O noticiário da manhã chegava ao seu final exibindo as imagens da semana. Essa retrospectiva já é conhecida nos dias de sexta-feira, o momento em que a gente revê as imagens que mais marcaram os últimos dias. Ao final, tem sempre uma que pára na tela, por alguns instantes, até que saia o letreiro e entrem no ar os comerciais.

Sexta-feira passada, por volta das 8 horas, a imagem congelada na tela foi a de uma jovem pedindo calma, ela acenava da janela para a multidão embaixo do prédio. Não era um pedido de socorro. Era, antes de tudo, uma súplica aos policiais de plantão que, ao longo de quatro dias, vinham esperando o momento exato de entrar em ação.

Lindemberg, o jovem apaixonado de 22 anos, tinha o sonho de se casar com Eloá, a garota de 15 anos de idade que, da janela do apartamento, fez aquele gesto com as mãos. As suas mãos falavam explicitamente, só não viu quem não quis. O corpo, como sempre fala, parecia dizer umas palavras assim:

"Tenham calma, tenham paciência, pois a minha vida está em jogo..."

Ter uma casa, um carro, ter filhos com Eloá, era este o sonho de Lindemberg. Um jovem como qualquer outro - que trabalhava, estudava e, ao que parece, nunca pegara em uma arma de fogo.. A linda história de um amor que se desintegra com a morte mais bárbara. Eis que o namoro chega ao seu final, por razões que ainda ignoramos e que agora é só um detalhe, já não importa a razão. Mas um fim de caso como qualquer outro, e um direito de quem assim optou.

Eloá acabou a história e estava no seu direito, deu-lhe as costas, desprezou-o, mas Lindemberg não suportou a derrota e, após um mês de depressão, concluiu que a vida não valia a pena. Um corrosivo desejo de vingança tomou conta do seu coração. Ao invés de se suicidar, como tanto ocorre em circunstâncias iguais, preferiu se equipar com duas armas de fogo e um punhado de balas, invadiu o apartamento da moça e a manteve em seu poder durante mais de 100 horas.

O resto, todo mundo já sabe. Mas aquelas mãos na janela, na manhã de sexta-feira, era o gesto mais irônico para o desfecho do caso. Nessa mesma sexta, dez horas depois, Lindemberg atirou na cabeça de Eloá. Não foi suficiente o gesto, o apelo, aquelas palmas em súplica. Na busca de culpados, o que nos fica é a imagem das mãos e a esperança guardada daquele momento. É o instante de alguém que ainda respirava e estava de pé, tentando acalmar os ânimos e a dizer, para toda uma arena petrificada em tensão, que era ela quem estava na cova de todos os leões.

O que nos fica é a demonstração de amizade da segunda moça de quinze anos, uma tal Nayara, que resolveu voltar à cova dos leões após ter sido libertada, tão somente pra negociar e tomar conta da amiga. Que amiga! Alvejada com um tiro, também, pelo menos ficou para contar a história. E com certeza falará um dia a verdade maior de todas as verdades. Nayara, hoje, é o livro de ouro guardado a sete chaves. O seu retorno ao cativeiro é o que mais intriga a população no momento. Mas agora, independentemente de acertos ou erros, esse retorno possuía uma lógica muito além das convenções terrenas.

O que nos fica finalmente, para além do gosto amargo dessa tragédia, é a curiosidade do mundo em conhecer as pessoas que, neste momento, carregam Eloá em suas entranhas. Se não pelo espírito, Eloá foi dividida na terra para a sobrevivência de oito pessoas que aguardavam órgãos. Alguém, agora, carrega o seu coração embaixo do peito; outro recebeu seu fígado e um terceiro, um quarto e um quinto em diante, estão com Eloá através dos rins e do pâncreas, dos pulmões e das córneas.

São gestos como esse que ao menos aliviam a dor. A amizade de Nayara em nome de uma vida, e a doação de Eloá para vidas tantas, a longo prazo serão bem mais que um consolo, mas as lições que ficam das tragédias em nome de virtudes ainda maiores. A solidariedade, enfim, é o saldo maior de uma história de amor degenerada na fatalidade. A beleza expirou num sonho que passou, a podridão explodiu no meio e a beleza retornou no instante mais doloroso, depois que o mundo se recolheu nas poltronas e todos esqueceram aquelas mãos na janela. (27-10-2008)

 

A lei de Crivella

Já circula um abaixo-assinado contra a aprovaão da lei. Por que a Igreja Universal ainda quer abocanhar os recursos da cultura para investir nos seus templos?

Não é de hoje que o senador Marcelo Crivella, do Rio de Janeiro, vem tentando aprovar um projeto de lei, de sua autoria, para permitir a inclusão de templos religiosos nos benefícios do Programa Nacional de Apoio à Cultura, o Pronac, mais conhecido como Lei Rouanet. Há pouco mais de um ano, vi uma entrevista do senador no programa de Jô Soares, onde ele fazia das tripas coração para arrefecer a polêmica.

Agora, o assunto voltou à pauta do dia. Circula pela internet, nas listas culturais, um abaixo-assinado, na verdade um clamor de artistas e produtores de todo o Brasil para não permitirmos a aprovação desse absurdo.

Fique claro, para quem ainda não sabe, que o senador Crivella é um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, inclusive parente de Edir Macedo, fundador desse credo que há cerca de 30 anos se instalou no Brasil e ganhou o mundo, e que hoje está presente em todos os lugares com templos milionários. Então, para uma igreja tão rica e com templos tão suntuosos, a primeira pergunta a se fazer seria esta: Por que a Igreja Universal ainda quer abocanhar os escassos recursos da nossa cultura para investir na reforma de seus templos?

Mas não é assim que o bispo se defende. Nas entrevistas, ele vem dizendo que o projeto é para beneficiar "templos históricos"... Ora. Pelo que nos consta, os templos históricos neste país pertencem à Igreja Católica, salvo alguns de instituições protestantes que já receberam tombamento. Que interesse teria o senador nessas igrejas, ele que pertence a uma outra facção?

A verdade é que, nas entrevistas, o senador-bispo diz uma coisa, mas escreveu outra no projeto. Ali, ele altera alguns dispositivos da Lei 8.313, de 23 de dezembro de 1991, para que passe a vigorar com a seguinte redação: "Fornecimento de recursos para o FNC e para fundações culturais de qualquer natureza ou para museus, templos, bibliotecas, arquivos e outras entidades de caráter cultural".

Toda lei é perigosa quando não especifica o fim direto. No caso em questão, a expressão "templos" passaria despercebida se o seu autor não estivesse a serviço de um determinado segmento. Não se refere a "templos históricos, construídos no Século XVI ou pelo menos há 100 anos.

Parece que o senador já sabia, antes de apresentar o projeto, que ia mexer num vespeiro, e teve o cuidado de apresentar um texto vago, indefinido, para ver se matava a mosca. Mas há sempre um olhar atento e, agora, ele insiste em manter a proposta usando de outros argumentos.

Ao longo da história, sempre lutamos por uma maior participação nos recursos do tesouro, por uma fatia de justa proporão com o tamanho da produção cultural no país. Tivemos avanços, mas somos ainda uma nação em que a arte e a cultura, em todos os Estados, sempre foram a maior expressão dos territórios. No entanto, ainda nem atingimos a marca de 1 por cento da arrecadação federal para o setor, como é recomendado pela Unesco.

Quando, no atual momento, tanto se luta pela distribuição igualitária dos pólos artísticos, pelo reconhecimento de manifestações localizadas, enfim pela descentralização do setor, o projeto do senhor Crivella nos parece uma afronta. É desnecessário dizer, aqui, que a Igreja Universal do Reino de Deus não precisa desse dinheiro, ela já sobrevive dos dízimos e doações carregados em sacos por seus obreiros; sobrevive, ainda, do beneplácito constitucional e esclerosado da isenção tributária - e ainda tem deputado apresentando projeto para imunidade do IPVA, livrando de impostos os automóveis da igreja!

É desnecessário lembrar, finalmente, que essa mesma igreja já tomou muitos espaços da vida cultural deste país, e que hoje ocupa a maior parte dos prédios onde funcionavam os cinemas dos nossos bairros, e das nossas províncias. (20-10-2008)

 

"Dona Flor" no Teatro

O público que viu na televisão, e no cinema, quer ver as mesmas coisas, mas com a novidade de tê-las no teatro. O diretor teve a inteligência de repetir alguns códigos daqueles dois veículos

É sempre bom voltar a Jorge Amado. Dos brasileiros, talvez o mais lido escritor do século XX. Voltar a Jorge Amado é uma necessidade de revisitar o Brasil no que possui de mais autêntico e abrangente em sua cultura.

Voltei a Jorge Amado, esta semana, através do teatro, mas foi suficiente para me despertar a saudade de todos os seus livros. Aqui, no Teatro Paulo Pontes, apresentou-se nos dias 6 e 7 a peça "Dona Flor e Seus Dois Maridos", trazendo um elenco de catorze pessoas da mais alta qualidade interpretativa. Entre eles, três conhecidos da televisão: Carol Castro, Marcelo Faria e Duda Ribeiro, famosos por suas incursões em novelas globais.

Com direção de Pedro Vasconcelos, também diretor de novelas e especiais de TV, o espetáculo faz um grande apanhado da cultura baiana e todo o universo da obra de Jorge. Ali está um Brasil na sua essência mais pura, radiografado numa mistura de ritmos e valores culturais os mais diversos. Do carnaval, passando pelo sincretismo religioso, os valores e os conflitos morais, o amor e a safadeza, a peça é um verdadeiro convite para a releitura de um livro que é talvez resumo de tudo o que Amado quis.

Aqui, espetáculos com atores globais são geralmente intencionados para o lucro fácil das bilheterias. Prova disso é que recebemos, na maior parte, aquelas comédias de elenco pequeno a que nos convencionamos chamar de "caça-níquel".

Grandes espetáculos deste país, com globais ou não, dificilmente chegam aos nossos palcos. No caso de "Dona Flor", duas coisas chamam a atenção: a primeira delas é ver uma peça com elenco tão numeroso vindo do eixo-sul, coisa rara de acontecer; a segunda é ser também caça-níquel no seu estado mais nobre, pois a peça tem público certo pelo referencial histórico que o título já carrega, mas empolga pela seriedade e surpreende no conjunto estético.

Essa turnê pelo Brasil, patrocinada pelo Banco Mercedes-Benz, é um presente que recebemos em todos os Estados. Brasileiríssimo, o espetáculo é fruto de muita sensibilidade e compreensão da nossa cultura. Engraçada, sensual, comovente e ousada, eis uma peça que mantém sentados os espectadores, sem cabecear, em quase duas horas de duração.

O público que viu na televisão, e também no cinema, quer ver as mesmas coisas, mas agora com a novidade de tê-las no teatro. Nisso, aliás, o diretor teve a inteligência de repetir alguns códigos ou marcas célebres daqueles dois veículos. Ainda que a leitura seja outra, ele sabe que o público quer ver a mesma coisa, por isso repete algumas ações de forma inteligentemente proposital.

Cantada ao vivo, em várias cenas, uma particularidade da peça é a música exclusiva de Dorival Caymmi, certamente o músico brasileiro de maior afinidade com Jorge Amado. É um charme à parte, mas integrante do universo cênico e estético da obra, sob a direção musical de Bruno Marques.

Lamentei somente uma grave falha técnica, que se repetiu sucessivamente ao longo das cenas: uma iluminação raquítica e insegura que acabou comprometendo as trocas de cenas. O diretor faz uso abusivo dos blecautes, já considerado um recurso ultrapassado em teatro. Por outro lado, blecaute é também uma opção do encenador, e isto não se condena. Na apresentação, porém, tivemos que presenciar as entradas de atores a montar os cenários das cenas seguintes. Quebrou as surpresas, sujou as cenas, mas não sei se é um problema de sempre ou se existiram falhas de luz.

Seja lá o que for, o fato é que a peça é um sucesso em todos os lugares onde passa. Se tem apelo comercial, não importa, pois o apelo é positivo na medida em que nada agride. Ao contrário: nos remete a um Brasil no que ele tem de mais quente e verdadeiro, e talvez isto explique a eternidade de Jorge Amado. (13-10-2008)

 

 

 

 

"Minhas putas tristes"

 

Não tive interesse na história de um velho de 90 anos que fica lembrando as putinhas de sua vida. Mas me deparo com uma história de amor das mais profundas que já conheci

Mais uma vez, o mestre García Márquez me arrebata. Guardei em casa, durante três anos, o exemplar do seu último livro chegado aqui, "Memória das Minhas Putas Tristes, e somente agora é que vim a lê-lo.

Quando lançado em 2005, confesso, tive certo preconceito com o título. A palavra puta não é uma coisa tão má, mas me parece agressiva como título de livro. E comprei-o, tão somente, por ser de Gabriel García Márquez, autor que me fascina desde que ingressei nos incríveis sacrifícios de "Erêndira" e nos seus "Cem Anos de Solidão" - para não ter que citar todos.

Pelo autor, tão somente pelo autor, comprei numa livraria esse "Memória das Minhas Putas Tristes, e não tive interesse na história de um velho de 90 anos que fica lembrando as putinhas de sua vida. Mas daí a lê-lo, como o fiz somente agora, me deparo com uma belíssima história de amor das mais profundas que já conheci.

O tema do amor, aliás, é marca e predileção do mestre colombiano. E o seu ponto mais alto é ainda "O Amor nos Tempos do Cólera”, prossegue em "Do Amor e Outros Demônios" e surpreende agora, de forma mais inusitada, com o relato de um nonagenário que se apaixona pela primeira vez, justo no dia do aniversário dos seus 90 anos, e por uma garota de 14.

Com essa história, o autor nos quebra a expectativa inicial daquilo que o título promete. Quando esperamos uma sucessão de relatos de vidas, com as tristezas recorrentes dessas amantes profissionais, o que acaba ocupando as páginas é a profunda solidão de um velhinho que se julga perto da morte. Um caso de psicanálise típica dos solteirões que, durante toda a vida, fogem a qualquer possibilidade de casamento. A conseqüência é a solidão inevitável e tardia, valendo purgação e sentimento de culpa.

"No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem".

Com essa frase, o narrador inicia um relato assombroso, em que pesem códigos de ética moral tão exigidos nos dias de hoje, quando existem leis e punições severas para casos de pedofilia e aliciamento de menores. Mas o autor é consciente disso e demonstra cuidado com o tema, pois o livro acaba sendo uma denúncia, também, contra o tráfico de adolescentes sexualmente exploradas. É uma preocupação apenas implícita, pois o foco principal está na solidão e nas possibilidades do sentimento amoroso na idade mais avançada.

No ano dos seus noventa anos, pelo capricho de se presentear a si mesmo e de provar que está vivo, ele de fato consegue a garota, mas a relação que estabelece com ela é da mais alta poesia para quem esperava cenas de luxúria. Ao que parece, em nenhum momento ele mantém relação sexual com a menina, pois se contenta em tê-la do seu lado para o solitário deleite da contemplação, respeitando a condição virginal e a diferença de idade, dizendo afabilidades e procurando educá-la, com sua enorme cultura, no gosto pelas coisas belas e profundas da arte, sendo isto um caminho para assegurar-lhe um mínimo de cidadania.

Enquanto isso, as "putas tristes" de sua vida passam apenas de relance, duas ou três em memórias de referência e sem a menor importância, na medida em que o amor evolui e o ser humano descobre a sua grandeza na mais inesperada de todas as idades.

Tanto que o livro termina com uma frase otimista, uma esperança de vida ainda mais longa e disposição de vivê-la intensamente, após vitória sobre a solidão e a condição angustiante da idade:

"Era por fim a vida real, com o meu coração a salvo, e condenado a morrer de bom amor na agonia feliz de qualquer dia depois dos meus cem anos". (06-10-2008)

 

A utilidade dos mortos
 

Um curioso sentimento de culpa se apossou da conversa. Foi quando lembrei da moça que tinha morrido ontem, cuja córnea estava vindo alegrar a nossa casa.

Uma das maiores tristezas foi quando tive a notícia, definitiva, de que a minha mãe estava cega.

E uma enorme alegria, algum tempo depois, quando ela voltou a enxergar.

Passou três anos nas trevas, na fila de espera para um transplante de córnea. Lamentavelmente, tudo só dependia da morte de alguém, mas que morresse no instante em que chegasse a sua vez. A primeira experiência aconteceu pouco mais de um ano, mas a cirurgia não foi bem sucedida. O organismo não quis, houve alguma rejeição interna e a escuridão aumentou, a tristeza também.

Morando no interior, a seis horas de distância da clínica, dois anos depois ela foi chamada às pressas pelo médico. Uma jovem de 28 anos, num bairro da capital, acabara de perder a vida em acidente de carro. Chegara a vez da minha mãe, ia ganhar uma córnea de 28 anos, mas precisava vir logo, o órgão não esperava tanto.

Naquele fevereiro de 2003, numa tarde carnavalesca, levei minha mãe para a clínica de olhos. Assis, o meu irmão mais velho, estava conosco no carro, e às 15 horas daquele domingo ela teve entrada na sala cirúrgica. Depois, ficamos os dois irmãos à espera, ouvindo as músicas de carnaval que vinham da avenida próxima. Para não ficarmos ali, apenas esperando sem fazer nada, decidimos ir até a avenida.

O bloco das Virgens de Tambaú começava a sua concentração entre a praça de Miramar e a Avenida Epitácio Pessoa. Eu e Assis nos sentamos no meio-fio de uma calçada, silenciosos, olhando os foliões na pista. Homens com roupas de mulheres, usando seios e nádegas postiças, passavam ao lado e diziam gracinhas. A gente só olhava, claro, pois a nossa mãe estava sendo operada num quarteirão bem próximo. Não havia sentimento de culpa: finalmente, estávamos na espera de algo realmente bom em nossa família. Mas havia uma ansiedade e, portanto, não era motivo para carnaval.

Por outro lado, um curioso sentimento de culpa veio se apossar da nossa conversa. Foi quando me lembrei da moça que tinha morrido ontem, a do acidente de carro, cuja córnea estava vindo alegrar a nossa casa. Não sabíamos quem era a moça, ou quem fora, pois são detalhes que a clínica não revela. Mas um comentário do meu irmão, naquele momento, nunca me saiu da cabeça:

- Por causa da morte dela, alguns estão chorando neste momento, enquanto nós estamos felizes...

Dois meses depois, aquele meu irmão iria embora também, mas naquele instante não sabíamos disso!

A vida prega surpresas e ironias. Minha mãe voltou a enxergar e até hoje continua vendo com um olho só. Ela ainda sonha em fazer o transplante do outro olho - mas convenhamos que, para quem não via nada, conseguir uma segunda córnea seria tirar a chance de outro, alguma pessoa que continua esperando como ela esperou.

Na manhã de primeiro de maio daquele ano, em um dos corredores do Hospital de Trauma, uma assistente social me chamou para uma conversa. Eu tinha acabado de sair do necrotério para reconhecer o cadáver do meu irmão, falecido na madrugada, e ela disse que precisava conversar em particular comigo. Começou com aquela história bonita da vida humana, sobre tantas pessoas que necessitam de órgãos etc, mas que precisava da autorização da família.

Ora. Pelo que me constava, o meu irmão havia morrido de falência múltipla dos órgãos, e então a minha resposta foi logo uma pergunta de certo modo grosseira:

- E tem alguma coisa nele que ainda preste?

Ela me olhou de um modo alegre e suplicante, concordando com a inutilidade dos órgãos mas revelando, enfim, a única coisa que ainda havia restado para salvar a vida de alguém. E respondeu num sopro de voz:

- A córnea.

Naquele momento, me lembrei da tarde em que vimos as Virgens de Tambaú. Mas lembrei sobretudo da minha mãe e caí em lágrimas.(29-09-2008)
 

 

Não falem de Deus

Dizem que o mundo vai melhorar, mas não conseguem explicar a fórmula. E quando não explicam a fórmula, elegem Deus, e Jesus Cristo, como seus cabos eleitorais

Ter nojo da política já é um clichê. Não ter nojo, também é outro clichê - porque, afinal, a política parece ser a única coisa que não mais surpreende.

Já não causam surpresa os inúmeros noticiários de escândalos públicos. Eles são tão numerosos, inevitavelmente sucessivos que todas as denúncias foram banalizadas. O governo Lula teve a vantagem de ser a primeira gestão em que mais se denunciou e prendeu corruptos, mas teve a desvantagem de banalizar o problema. Já é tão comum a notícia do escândalo que a nação ficou apática, cruzou os braços, fez vista grossa e disse: "Bobagem. É apenas mais um."

O que parece uma solução, pode ser o perigo da perpetuação. Como as drogas que envenenam o corpo, os vícios não querem se render, e vão aprendendo com as próprias soluções um jeito diferente de agir. Este triste paradoxo encontra semelhança em outro mal da sociedade moderna: a violência! Quanto mais se combate o banditismo nas ruas, mais bandidos surgem às centenas. A sensação que temos é a de que eles aprendem com as próprias notícias, os próprios combates, as próprias prisões.

Então a gente deixa de ter nojo, exatamente porque já se enojou demais. Conscientes, então, dessa imperiosa apatia, os políticos de hoje estão posando de heróis com base nos erros da própria política. No espetáculo atual dos guias eleitorais, eles falam da corrupção como cavalo de campanha. Com raríssimas exceções, ouvimos dos candidatos algo mais ou menos assim:

- Vamos combater a corrupção...

Sempre que escuto isso, dá vontade de dizer que sinto nojo. Mas como o nojo na política já é um clichê, apenas lamento a degradação do discurso. Que pena não ouvir a... "proposta" - outra palavrinha banalizada demais. O salvador da pátria é um mito romântico. Ele apareceu em outra ocasião, alguém lhe apostou as fichas e ele teve a chance, mas não mostrou a que veio.

Agora, eles já não sabem o que dizer. Quando não atacam o outro lado, dizem que o mundo vai melhorar, mas não conseguem explicar a fórmula. E quando não explicam a fórmula, elegem Deus, e Jesus Cristo, como seus cabos eleitorais.

Agora sim, eu voltei a sentir nojo. E é uma pena que a causa do meu nojo tenha sido Deus. Justamente Deus, que poderia estar fora disso. Num programa passado dos vereadores, um postulante fez a oração e conclamou a todos para, "em nome de Deus, seguirmos juntos nessa caminhada, na certeza de que Deus está do nosso lado", e que "Deus estará conosco ao longo de todo o nosso mandato".

E não foi o único. Um atrás do outro, os candidatos estão falando de Deus sem o temor do ridículo. Deus, enfim, é o personagem mais citado nos guias, e o mais reverenciado por quem já não tem a quem apelar. Não fosse a hipocrisia do apelo, a referência causaria piedade. Mas é possível que nem mesmo Deus tenha pena deles, pois já nos bastam os templos monetários nessa outra forma de enriquecimento ilícito.

Alguém precisa dizer, aos senhores candidatos, que nesse campo Deus não é bem vindo. Eu nunca falei com Deus sobre esse assunto; não me arvoro na arrogância de falar em seu nome, mas tenho a impressão de que ele não gosta. Dizer que tem fé em Deus, e pedir sua força numa caminhada, é também um direito dos próprios políticos, que são seres humanos e iguais. Mas uma coisa é louvar seu nome e outra é a tentativa de cabalar os fanáticos.

Deixem Deus fora disso. Não falem de Deus nas campanhas políticas. Além de sacrilégio, pode ser um crime eleitoral gravíssimo, porque implica num comércio de votos com a moeda da fé. (22-09-2008)

 

Por que tanto publico?

Isto é um desabafo, pois só eu sei o quanto tenho suado e as dificuldades que enfrentamos para editar uma obra

Em 1989 eu terminei de escrever um romance. Passei mais de um ano debruçado sobre ele, vinha do final de 87, e pus o ponto final no dia 21 de abril. Lembro dessa data porque foi o dia em que nasceu Amarílis, minha primeira filha, a quem o livro é dedicado. Hoje, dezenove anos depois, esse livro finalmente vem a público.

Algumas pessoas questionam por que passei tanto tempo com um livro guardado na gaveta. São diversas as razões, e uma delas é o fato de ser um escritor que escreve mais do que publica. O livro a que me refiro ("O Sacrifício dos Anjos"), é apenas o que mais demorou a ser publicado. Mas, em geral, todos os meus livros só vieram à luz depois de muitos anos guardados.

"O Último Dia de Deus, que publiquei no ano passado, é de 97, ficou dez anos na gaveta. "Agonia na Tumba" é de 86 e só vim publicá-lo sete anos depois, em 93. "Dom Quizales de Condor" saiu em 98, mas é de 92. E assim sempre. Da mesma forma de um outro livro que também lanço hoje, "O Homem Que Comprou a Rua, escrito entre 2001 e 2003.

Certas pessoas, por razões que desconheço, com certa maledicência têm me acusado de "publicar demais". Ora. O que tenho a dizer é que publiquei de menos, em que pese uma vida dedicada à literatura e o volume de obras que venho guardando. Isto é um desabafo, pois só eu sei o quanto tenho suado e as dificuldades que enfrentamos para editar uma obra. Comecei a escrever aos 15 anos e cedo fui tomado por uma forte paixão pelo romance, gênero que adotei como a minha forma de expressão literária.

Nunca tive vaidade em escrever e publicar. O que sempre me dominou foi essa necessidade de expressão, e a publicação é um direito e uma conseqüência. Quando publiquei pela primeira vez, eu já vinha escrevendo há tanto tempo que aquilo me parecia um sonho. E por uma opção de vida, deixei de entrar numa faculdade para ter tempo de escrever, ler e fazer teatro. Não escrevi apressadamente, como pode parecer. Cada romance teve um tempo médio de dois anos, afora o período em que adormeceu na gaveta e foi sendo reescrito paralelamente.

De uns tempos para cá, alguns intelectuais me olham desconfiados pelo fato de publicar, certas vezes, vários livros ao mesmo tempo. Talvez eles tenham razão, é possível que este seja o meu erro, mas essas publicações em bloco ocorrem do fato de ter acumulado trabalhos, e elas saem dessa maneira como fruto de um projeto único, apresentado às leis de incentivo à cultura.

Isto começou em 2001 - quando joguei no mercado 12 livros ao mesmo tempo, num projeto que reuniu todas as peças teatrais escritas ao longo de 20 anos. Fui chamado de "megalomaníaco, porque deixaram de enxergar o verdadeiro sentido desse projeto, que era tirar da gaveta os originais inéditos e distribuí-los junto a grupos e companhias teatrais do Brasil. Felizmente que o projeto deu certo: graças à publicação dessa série, hoje tenho peças encenadas em vários Estados - uma delas, inclusive, atualmente está em cartaz no Rio de Janeiro, rendendo várias apresentações e alguns trocados na minha conta corrente.

Outro dia um repórter me perguntou qual era o meu segredo para publicar tanto. Achei a pergunta injusta, porque escrevi durante muitos anos e sem condições de publicar. E se não havia uma editora comercial que se interessasse por mim (como ainda hoje não tenho), fui me valendo das verbas públicas por meios legais, nunca de apadrinhamento, inscrevendo meus projetos editoriais nas leis de incentivo tanto do Estado como do município.

Hoje, fazendo um balanço do que conquistei até agora, não sei o que seria de mim sem a existência dessas leis. É possível que estivesse com todas essas obras inéditas até agora, e talvez isto comprometesse o meu estímulo de criação, e minha auto-estima de escritor.

No ano passado, pelo Fundo Municipal de Cultura, publiquei "O Último Dia de Deus". Hoje, pelo Fundo de Incentivo à Cultura do Estado, estou publicando dois romances. E dois romances antigos, como já disse. É a forma que tenho encontrado para mostrar o fruto de um trabalho de muita duração, dedicação e suor.

Fica o convite, mais uma vez, aos amigos e leitores desta coluna para prestigiar esse evento na noite de hoje, no Bar dos Artistas do Theatro Santa Roza, quando estarei lançando um projeto apresentado ao FIC com o título de Dois Romances. (15-09-2008)

 

O filme
Bezerra de Menezes

Por falta de informação, a imprensa da Paraíba noticiou a estréia sem atentar para esse detalhe: a presença de atores paraibanos

Está em cartaz em um cinema de João Pessoa, e em todo o Brasil, o filme "Bezerra de Menezes - Diário de um Espírito". Estreou na última sexta-feira, 29 de agosto, uma data que já era anunciada pela produção por ser o dia de aniversário do próprio personagem que dá título ao filme, Bezerra de Menezes, médico e espírita do século XIX que ficou conhecido como o Alan Kardec brasileiro..

Em quatro dias de exibição, já se pode ver que o filme é um sucesso: casa cheia em todas as sessões, coisa rara em produõçes brasileiras sem apelo comercial. O filme foi rodado no Ceará e Pernambuco com grande elenco desses dois Estados. Daqui da Paraíba, temos 5 atores em cena: Fernando Teixeira, W. J. Solha, Everaldo Pontes, João Dantas e este que vos fala.

Aliás, acho que por falta de informação, a imprensa da Paraíba noticiou a estréia do filme sem atentar para esse detalhe: a presença de atores paraibanos! Suspeição à parte, fica aqui o comunicado e a recomendação para que vejam esse filme. E vejam não apenas para nos prestigiar, mas por se tratar de um filme belíssimo, deslumbrante, que vale a pena ser visto.

Nessa história, a vida e a obra de Bezerra de Menezes, afora o seu contexto religioso, desperta nosso interesse para o conhecimento de mais um grande brasileiro, uma personalidade que marcou história na vida acadêmica e política do Brasil. Portanto, quem não tem interesse no espiritismo, o filme tem também o mérito de revelar, para os brasileiros, um grande brasileiro que aqui lutou em defesa dos excluídos, pelo fim da corrupção, pela solidariedade e, enfim, por um conceito de política justo e decente.

O filme só tem um ator do início ao fim: Carlos Vereza, famoso por suas diversas participações em algumas telenovelas e pela incursão no cinema nacional. Aqui, Vereza interpreta Bezerra de Menezes, e os demais atores vão aparecendo em quadros isolados, numa seqüência da narrativa e ordem do roteiro, quando temos a oportunidade de mostrar a cara.

Na seqüência dos paraibanos, quem primeiro aparece é W. J. Solha, no papel de um professor de botânica que questiona, em plena sala de aula, um trabalho escrito pelo estudante Bezerra. Vem em seguida Fernando Teixeira, no personagem de um deputado conservador discursando em uma tribuna, quando tem um bate-boca com o protagonista acerca da escravatura.

Minha participação vem na terceira ordem, e contraceno com outro paraibano também conhecido dos palcos paraibanos, João Dantas. Ali faço o personagem de um médium curandeiro, João Gonçalves (esse nome é apenas uma coincidência, fique claro!), que foi bastante decisivo para a iniciação de Bezerra na doutrina espírita. João Dantas interpreta o amigo do protagonista que recorre a esse médium com o fim de ajudá-lo. Fiquei honrado, permitam-me afirmar. É uma das cenas mais belas do filme.

Finalmente, Everaldo Pontes, de "Vau da Sarapalha", no papel do irmão de Bezerra. Outra cena grandiosa, de muito impacto, pois é o momento em que o protagonista tem seu rompimento familiar em virtude dos caminhos religiosos que descobrira.

Dirigido por Glauber Filho, jovem diretor que também assina o roteiro, o filme tem o mérito de extrapolar o interesse propagandista da doutrina espírita. O diretor foi inteligente em produzir uma obra que, ao mesmo tempo em que se volta para um setor específico, também possui a matéria de um cinema de arte, capaz de interessar ao público como qualquer filme de ficção. A prova disso é que está em todas as salas, lotando platéias pelo Brasil afora.

Aqui em João Pessoa, encontra-se em cartaz no Box 2 do Manaíra Shopping. Quem tiver interesse, corram a tempo a não sair da tela. Filmes bons, no Brasil, não costumam ficar muito tempo em cartaz. (08-09-2008)

 

Esses ventos de agosto

O vento é tão aterrorizante que os feiticeiros antigos devem tê-lo interpretado como coisa do Maligno, e aí criaram um problema para o resto das nossas vidas

Vai chegando ao fim o mês de agosto. E, como todos os anos, tenho sempre um alívio quando agosto se vai. Como tanta gente, às vezes também sou vítima da superstição. Mas agora quero crer que não é medo de azar, é por causa dos ventos.

Fico me perguntando donde vem tanta superstição. Ou se existe uma explicação científica para tornar o mês de agosto diferente dos outros. Olho na biblioteca e nenhum livro que me leve à pesquisa. "Talvez os astrólogos expliquem, penso. "Devo procurar um livro de astrologia ou um estudo das horas, os dias, os meses e o ano, porque talvez a natureza venha explicar o que fazem os astros nesse período do ano; se há um desequilíbrio entre os planetas, em relação ao sol e à sua posição sobre a terra, para que possa influir com tanta energia negativa sobre as nossas vidas."

À noite, para dormir, fecho as janelas e, da cama, fico escutando a cantilena sinistra da ventania. "São os ventos de agosto, penso, e de fato é sinistro o som desse vento, lembro que o escuto todos os anos nesse período, ele vai de encontro às paredes do prédio, bate nas persianas fechadas e sempre provoca um ruído aterrorizante, como se trouxesse os sons de uma alcatéia faminta. "Bobagem, é apenas o vento. Agosto, realmente, tem a ver com esse vento, pois é o período do ano em que ele bate mais forte".

Com essa constatação, me ponho a perguntar se não é daí que advém a crença. Em agosto, o vento é tão aterrorizante que os feiticeiros antigos devem tê-lo interpretado como coisa do Maligno, e aí criaram um problema para o resto das nossas vidas, fazendo com que pessoas despreparadas passassem a rezar o dobro, a fazer simpatias, a acender velas, a se pegar diariamente com seu anjo da guarda, a olhar duas vezes antes de atravessar uma rua, a finalmente ficar preso em casa e só sair quando necessário.

Como sempre durmo com a TV ligada, acordo no meio da noite ouvindo uma voz do além que repete várias vezes a palavra agosto. Entre o sono e a vigília, não sei se estou sonhando ou se aquilo acontece. Abro os olhos e, ante a tela da televisão, percebo que está passando um programa evangélico, desses que são transmitidos de madrugada com a presença do pastor com uma bíblia aberta e um copo com água sobre a mesa. O pastor fala as mesmas palavras de todos os programas anteriores: refere-se a Demônio, Encosto, Descarrego, Vidas Desgraçadas e por aí vai:

- Se você está aflito, minha amiga, meu amigo, compareça ao nosso templo para uma sessão de descarrego...

E fala do mês de agosto. Diz que agosto é o mês da conversão. Que é a grande oportunidade de não aceitarmos o Demo em nossas vidas. E, com uma força de persuasão para quem de fato está aflito, passa a enumerar uma série de acontecimentos históricos do mês de agosto: mostra cenas da Segunda Guerra Mundial e do Vietnã; de prédios que tombaram; de acidentes aéreos, naufrágios, entre tantos outros episódios.

Quando já estou quase me entregando, e dando razão a ele, tenho a seguinte revelação, falando sozinho: "Poxa, essas coisas acontecem todos os dias, em qualquer mês do ano. Vejo tragédias diariamente nos jornais. Por que só estão mostrando as desgraças de agosto?"

Mais uma vez, alguém se aproveita da crença popular e reforça o mito. Se elegem as cenas das tragédias de agosto, talvez seja a hora de selecionarmos, também, as cenas de felicidade, e as felicidades ocorridas nos agostos por todos os séculos dos séculos. Pensemos nas coisas boas que acontecem em agosto da mesma forma que em dezembro e janeiro. Garanto que vamos encontrar uma série de coisas maravilhosas, e que os ventos de agosto possam uivar em paz como a voz de Deus que canta no deserto. (01-09-2008)

       

Tarcísio Pereira é Dramaturgo, Romancista e Jornalista       Diretor do Theatro Santa Roza 

ARTIGOS ANTERIORES CLIQUE AQUI