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Otávio Sitônio Pinto

 

O SILÊNCIO DO UIRAPURU
 


Você viu e ouviu, não fui eu quem disse. Foi Hélio Costa, ex-governador de Minas Gerais (concluiu o mandato de Tancredo Neves), deputado federal e ex-diretor da Globo na sucursal de Nova York — um jornalista brasileiro de nível internacional. Pois Hélio Costa, na última quinta-feira, dedicou todo o seu programa Linha direta para dizer ao Brasil que Raymundo Asfora foi assassinado, e não se suicidou, como querem os suicidistas e autores intelectuais de um crime nem tanto perfeito.

Dessa vez não fui eu quem disse, nos jornais da província, que Asfora foi vítima de um complô criminoso, e que a sociedade brasileira tem sido vítima de um complô silencioso sobre a verdade da morte do vice-governador eleito e insubstituível. Dessa vez foram Hélio Costa e a Rede Globo de Televisão, em uma hora de programa nacional, horário nobre. A audiência estourou em todo Brasil e, principalmente, na Paraíba.

Se você não viu, nem ouviu, ainda pode pegar a reprise que será levada, brevemente, pela TV Cabo Branco. Ou, ainda, pegar uma carona no vídeo que muita gente gravou documentalmente. Na próxima quinta-feira, ainda tem mais: alguns detalhes que não couberam no programa do dia dez, serão apresentados no início do Linha direta.

Se você sabe de alguma coisa, se tem alguma informação que possa elucidar o crime de que a Paraíba e o Brasil foram vítimas, ligue para o Linha direta, confidencial e sigilosamente.

O impacto do roteiro apresentado por Hélio Costa teve um efeito notável sobre a opinião pública paraibana e brasileira. Em todo o País, amigos de Asfora, agora convencidos da realidade de seu assassinato, estão se articulando para que as investigações sobre a morte do tribuno sejam levadas até o fim, com a devida indicação dos culpados. O lobe do silêncio e da farsa sobre a morte de Asfora foi vencido por um jornalista sem ligações com a Paraíba, numa prova que o vice-governador e ex-deputado paraibano era um patrimônio da cultura brasileira.

Já se articula, na Câmara Federal, a formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o assassinato do tribuno brasileiro. A inquietação dos parlamentares atinge, inclusive, o Senado, composto de muitos representantes oriundos da Câmara dos Deputados, nostálgicos da palavra luminosa de Asfora.

Hélio Costa apresentou, quinta-feira última, o seu melhor programa da série atual, em que levanta crimes insolúveis para o conhecimento da consciência do País. O Caso Raymundo Asfora, intitulado no programa de Costa como A morte do poeta, justificaria, por si só, todo o esforço que a equipe da Globo vem desenvolvendo para maior transparência e justiça da criminalística brasileira. O roteiro foi fiel à crônica dos fatos. Apenas alguns detalhes poderão ser revistos, como os nomes das últimas pessoas a edtarem com Asfora, e seu acompanhante, ou seus acompanhantes, no último trajeto para sua casa.

É de se lembrar a entrevista concedida pelo então prefeito de campina Grande, Ronaldo Cunha Lima, à revista A carta, antes da missa de sétimo dia de Asfora, quando o prefeito (agora governador) afirmou que mandara seu motorista acompanhar Asfora até em casa. Inexplicavelmente, o motorista Manuelzão, último acompanhante do vice-governador, (segundo Cunha Lima) nunca depôs nos inquéritos instaurados.

Que tem medo de novas investigações sobre a morte de Asfora?

Só os suicidistas, aqueles que, por autoria ou co-autoria, teme que o silêncio da Granja Uirirapuru cante a sua verdade.
(12-5-1990.)

(Do Livro "A morte do vice-governador")

 

ASFORA NA GLOBO


O Caso Raynundo Asfora será analisado hoje, às 22h30, no programa Linha Direta, da Globo. Transmitido para todo o Brasil, o programa dirigido pelo jornalista Hélio Costa vai ao ar, na paraíba, através da afiliada TV Cabo Branco, canal 7. O interesse de Costa pelo Caso Asfora pode ter ampla repercussão, pois, além da audiência de seu programa, o jornalista atinge um público muito especial: ele é deputado federal por Minas Gerais, e a morte misteriosa do vice-governador e ex-deputado federal é uma interrogação para seus antigos colegas de parlamento. Recentemene, estive na Câmara Federal, em Brasília, e vi que era grande a expectativa dos deputados sobre o enforque de Costa no Caso Asfora.

O próprio Costa me revelou sua convicção de que Asfora foi assassinado. Conversamos, na Câmara, poucos dias após a gravação do programa. Apesar de ter sido procurado pela produção da Globo para prestar meu depoimento, não foi possível contato com a equipe. Nas duas vezes que a reportagem da Globo esteve na Paraíba, eu me encontrava no Rio de Janeiro e em Brasília. Mas ainda passei, por telefone, os resultados de minhas investigações à produção do programa.

A equipe de Linha Direta ouviu todos os pesquisadores que estudaram o Caso Asfora, desde Domingos Tochetto, no Rio grande do Sul, a Armando Samico, em Pernambuco, e Antônio Toscano, na Paraíba. Ninguém foi omitido. Apenas alguns dos suicidistas, como os legistas da Unicamp. São Paulo, se recusaram, estranhamente, a depor. Mesmo os que tentaram, por diversas vezes, obstacular as investigações (como o governador Ronaldo Cunha Lima), não foram poupados pela reportagem — que não se intimidou diante da arrogância, da chantagem e da truculência.

Foram muitas as tentativas de intimidação para que o trabalho da Globo não se realizasse, como são muitas as tentativas para que o inquérito cobre a morte de Asfora não tenha continuidade. O jornalista Anco Márcio, primeiro a levantar, na Imprensa, suspeitas sobre a farsa de suicídio de Asfora, foi novamente ameaçado.

Apesar de tudo, o programa está concluso e vai ao ar, apresentando alguns fatos novos sobre a tragédia. Outros fatos, ainda confidenciais, serão liberados oportunamente. O Instituto de Polícia Técnica da Bahia, solicitado pela Justiça da Paraíba, prepara laudo sobre o assunto. Um detalhe: o processo, remetido pela Justiça da paraíba ao instituto baiano, levou quatro meses para chegar ao destinatário. E, a rigor, não chegou: o destinatário foi quem mandou fazer busca nos Correios para poder receber a documentação, via Sedex, depois que a irmã de Asfora, minha amiga Myriam, foi pessoalmente a Salvador para tentar descobrir o paradeiro da correspondência.
O mesmo aconteceu com uma indústria de armamentos bélicos, também solicitada pela Justiça da Paraíba a emitir parecer técnico. O lóbe montado pelos suicidistas, temerosos que a verdade sobre a morte de Asfora seja revelada, é poderoso — o que demonstra o nível de influência e coação do complô ainda oculto, mas que será desmascarado.

Além da Globo, outros veículos e comunicação, de vários estados brasileiros, já pautaram pesquisa de reportagem sobre o Caso Asfora. O prestígio de peritos que atestam o assassinato do tribuno brasileiro, como é o caso de Domingos Tochetto — consultor da Indústria de Armamentos Rossi, consultor da revista magnum (especializada em armas e munições), e perito do Instituto de Criminalística do Rio Grande do Sul — tem despertado a atenção da imprensa nacional e da comunidade legista brasileira. Outro perito de renome internacional, e que não aceita a farsa suicidista, é o professor Armando Samico, fundador do Instituto de Criminalística de Pernambuco e respeitado até pela Scotland Yard.

Os que investiram seu tempo e sua segurança para desmascarar o crime contra Asfora começam a ver a vitória de seus esforços, como o intimerato Geraldo Beltrão, físico e criminalista. Mas vamos ao Linha Direta, logo mais na Globo. Depois, há outros informes.
(10-6-1990.)

 

BRANDÃO & ASFORA


Quem me deu a notícia foi o repórter policial do Correio, Humberto Lyra, com a voz trêmula: “mataram Paulinho!” Lyra estava na calçada do jornal, junto à porta de entrada, aonde eu ia chegando para meu trabalho de copy. Foi a primeira vez que vi um repórter policial tremer. Não recebi a má notícia com surpresa. Eu já esperava um acontecimento semelhante. Saímos, eu e Lyra, no meu Chevette, sem esperar pelo carro da reportagem.

Chegamos ao local do crime antes da polícia e dos fotógrafos, o corpo quase vivo no chão, 28 (vinte e oito) perfurações, e muito mais na camioneta Parati de Paulo, estacionada ao lado da morte. O chefe de segurança da Polyutil, empresa da qual Paulinho era sócio, e que retirara o cadáver do carro, chorava. Ainda havia poucas pessoas. Depois, foram chegando a polícia, o superintendente de polícia, o secretário da Segurança, Fernando Milanez. “Ninguém evita um crime deste” — disse o secretário (anos antes, o filho do secretário da Segurança e outros rapazes da sociedade foram envolvidos num rumoroso assassinato de um taxista, denominado na crônica policial como “o crime da churrascaria Bambu”. Foram absolvidos, mas o crime não foi esclarecido. Nem evitado, como disse Milanez, pai do chefe de seu gabinete, hoje presidente da Câmara Municipal da Capital). Alguém apanhou algumas cápsulas, que identifiquei como sendo de 9 mm parabellum.
Tempos depois, o perito balístico Domingos Tochetto, considerado o melhor especialista na América latina, constatou que os estojos foram deflagrados pela metralhadora da Casa Militar de Palácio. Tochetto é perito balístico do Instituto de Criminalística do Rio grande do Sul e consultor técnico da Rossi, indústria de armamentos. É Tochetto quem redige os manuais e catálogos da Rossi, publicados em edições bilingües. Ele escreve, também, livros didáticos sobre ciências naturais. Recebo suas publicações.

Depois da morte de Paulo Brandão, estamos juntos, agora, no caso Raymundo Asfora. Conversamos nada menos que dez horas sobra a morte do vice-governador, conversa testemunhada, em parte, por Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife. E eu querendo ensinar o Padre-Nosso aos vigários:
— Doutor Tochetto, sei que um projétil .357 magnum de velocidade supersônica e 75 kg de energia, duas vezes mais potente que um .38 especial (carga dupla), tem capacidade perfurante para transfixar a cabeça de um homem e se alojar profundamente numa parede próxima. Mas, no ambiente em que Asfora foi encontrado morto, não existe alojamento nem impactação do projétil nas paredes, nem no teto, nem no solo, nem nos móveis; nem o projétil que o matou foi encontrado. Diante dessas evidências, desprezo até a circunstância de a vítima não ter caído da cadeira em que foi encontrada, presumivelmente após receber o impacto que lhe transfixou a cabeça e teria arremessado o corpo ao solo. O senhor já pesou esse fato?

E o doutor Tochetto, indulgente com minha pretensão de lhe ensinar balística, respondeu-me com sua voz suave e serena:
— O doutor Asfora não morreu naquela sala (Uma testemunha viu Asfora chegar, sendo carregado como se estivesse bêbado (ele não se embriagava a esse ponto). Mas a testemunha desapareceu para sempre).

Hoje, passados cinco anos da morte de Paulo Brandão e três da morte de Asfora, não me assustam os fatos de um proprietário de jornal (quase na mesma época em que Brandão foi assassinado (governo Wilson Braga), outro proprietário de jornal, oposicionista, foi executado na Paraíba, com uma saraivada de balas que lhe seccionou a artéria femoral: Fernando Ramos, o popular Fernando “Judeu”, piloto e construtor amador de aviões) e de um vice-governador serem assassinados num País que vive e morre sob um sistema capitalista predatório. Principalmente porque tanto o jornalista quanto o político denunciavam distorções desse sistema que tem na violência a base de sua sustentação.

O que me assusta é o fato dessas mortes permanecerem não resolvidas, a despeito da parafernália de recursos investidos nas investigações (perdoem a aliterância). Eis o que me leva a tremer mais que a surpresa do repórter policial Humberto Lyra, veterano na rotina da morte.

Em ambos os casos, houve a mentira nas primeiras perícias: no assassinato de Paulo Brandão, os primeiros peritos negaram que os estojos e projéteis foram disparados pela metralhadora da Casa Militar; no assassinato de Asfora, a perícia da Unicamp chegou a desenhar um croqui, um comic, indicando a trajetória do projétil transfixando o crânio da vítima, impactando e se alojando na parede da sala em que o corpo foi encontrado, sentado numa cadeira sem braços, a cabeça tombada em posição contrária à formidável energia do impacto, o braço e o revólver tombados em posição contrária à medonha energia do disparo. Tudo contrariando as leis da física de causa e efeito, ação e reação.

A perícia da Unicamp não acrescentou uma foto do fictício alojamento ou do fantacioso impacto do projétil porque tal fato não existe, precisou ser inventado e desenhado no croqui mentiroso. Agora, o Caso Asfora foi reaberto e encaminhado ao Instituto de Criminalística da Bahia [que devolveria o inquérito sem se pronunciar.


Mas há outro processo, abrangente de todos os processos insolúveis do Brasil, que estará sendo julgado no dia 17 do corrente, domingo próximo: é o processo da democracia brasileira [o autor se refere às eleições do segundo turno da eleição à Presidência da República, em que Lula lá perdeu para Collor cá. Q. V. Collor, a Raposa do Planalto, Sitônio, São Paulo, Anita Garibaldi, 1992]. Se o júri popular acertar o seu veredicto, as vítimas serão resgatadas, os criminosos condenados, os inocentes libertos.
(14-12-1989.)

 

ASFORA, TRAGÉDIA E FARSA


Nesses dois anos que se completam, hoje, da morte de Raymundo Asfora, a Paraíba assistiu uma farsa suceder à tragédia. Duas correntes surgiram diante da opinião pública: uma, que exige o aprofundamento das investigações até o fundo do poço onde possa estar a verdade; outra, que reúne esforços no sentido de evitar perguntas sobre a morte do vice-governador. Nesta última corrente, se insere o governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, que treme e empalidece quando se fala no assassinato de Asfora, e diz que está de ressaca.
Ansiosa e apressadamente, os arautos do silêncio sobre a morte de Asfora imputam à vítima a execução da própria morte. Sob o pretexto de”preservar a memória do morto”, obstaculam, de todas as formas, qualquer iniciativa de investigação sobre a tragédia. A angústia dos patronos do silêncio desde logo transforma-se em indício de suspeita: ou eles sabem, ou são eles.
Providenciaram, minutos após a descoberta do cadáver, a veiculação de carros de som, pela cidade de Camina Grande, propagando um convite e uma tese: o chamamento à população para a exéquias de Asfora, e a informação ao povo órfão de que o seu líer se suicidara. A tese apressada nasceu antes da perícia médica e policial; talvez, antes mesmo da própria morte do poeta, político e procurador do povo.
Um assessor de Asfora, Marcos Marinho, enxertou uma apologia do suicídio, no elogio de Pedro Nava, pronunciado pelo deputado na Câmara Federal. Mas o texto impresso, detectado por amigos verdadeiros do tribuno — o escritor Orlando Tejo e o promotor de Justiça Eduardo Albuquerque (Tejo é o consagrado autor do livro Zé Limeira, poeta do absurdo, com mais de trinta edições, e, hoje, Albuquerque é o Procurador Geral do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios; ambos, amigos fraternos do cronista) — diferia da gravação magnética e da taquigrafia da Câmara, assim como da transcrição nos Anais.
Vomitaram entrevistas onde se atribuía a Raymundo Asfora prenúncios de suicídio, citando, como de lavra recente, o que teria sido“o último verso do poeta”, um mote criado por Asfora há mais de duas décadas, glosado por cantadores, publicado, e ouvido por mim, de sua boca, e do poeta Antônio José Figueiredo Agra, no tempo em que Asfora defendia Figueiredo no processo do assassinato da esposa (Cheyenne) deste trágico vate. O mote dizia algo como “minha vida é uma morte que se adia”.
Escamotearam testemunhas e depoimentos. Intimidaram, ameaçaram. O jornalista Anco Márcio, primeira voz que denunciou publicamente o complô da farsa, foi alvo de catimbas macabras. Correspondências foram violadas, inclusive deste redator. Autoridades que participavam do inquérito foram afastadas de suas funções. Mudaram as alçadas das investigações. Divulgaram boatos nas esquinas e nos meios de comunicação. Mas não conseguiram silenciar a verdade: Raymundo Asfora foi assassinado e transladado para o ambiente em que foi encontrado morto.
É o que diz o perito Domingos Tochetto, do Instituto de Criminalística do rio Grande do Sul, considerado a maior autoridade em balística na América Latina; é o que diz o perito Armando Samico, fundador do Instituto de Criminalística de Pernambuco, um dos maiores nomes da criminalística brasileira, duas vezes secretário de Segurança de Pernambuco, e que, inclusive, ganhou polêmica internacional contra a Scotland Yard (no caso da morte de um piloto inglês da Boac, morto quando caiu da marquise do hotel em que se hospedara, no Recife. A Scotland queria que o piloto tivesse sido empurrado da janela, mas Samico provou que a vítima caiu da marquise, quando tentava passar, embriagado, de seu apartamento para o das aeromoças ; é o que diz Antônio Toscano, delegado federal e ex-secretário de Segurança na paraíba, que reabriu o inquérito; é o que diz o jesuíta Nogueira Machado, professor de Física na Universidade Católica de Pernambuco; é o que diz Antônio Padilha, instrutor de tiro das polícias Federal, Civil e Militar da Paraíba, e da Federação Paraibana de Tiro ao Alvo, à qual este cronista é filiado; é o que diz Geraldo Beltrão, professor de física e criminalista, escalado pela OAB para acompanhar o Caso Asfora.
A verdade indiscutível é que um disparo de .357 magnum transfixaria a cabeça de Asfora e se alojaria em alguma parte do ambiente. Mas o último impacto só existe no croqui da perícia suicidista; o ambiente está intacto: eu vi e conferi com o desenho (comic) mentiroso. E digo mais: os assassinos de Asfora estão entre os temem investigações.
(6-3-1989.)

(Do Livro "A morte do vice-governador")

 

OS DIAMANTES SÃO

 ETERNOS



As investigações sobre o assassinato do ecologista Chico Mendes estão sendo presididas por uma entidade apontada pelo próprio Chico Mendes , poucos dias antes de morrer, como articuladora de sua eliminação: a Polícia Federal. Os irmãos Alves, anunciados pelo ecologista como futuros executantes de seu assassinato, participam da investigação apenas como agentes passivos, pois não têm competência para dirigir o inquérito. Não têm, também, a licença atribuída aos agentes de duplo zero de Sua Majestade, como é o caso de 007, para matar.

O assassinato de Delmiro Gouveia, precursor do aproveitamento elétrico do rio São Francisco, terá sido executado por um desses agente de duplo zero? Gouveia tinha interesses conflitantes com o truste inglês Machine Cotton. Apó a morte do industrial nordestino, o truste comprou sua fábrica e sua usina de força ao Banco do Brasil (que financiara Gouveia) e jogou o equipamento no rio. Naquele tempo ainda não havia Polícia Federal, e o mistério permanece até hoje.

Os técnicos da Universidade de Campinas (Unicamp) que foram para o Acre investigar o assassinato de Chico Mendes (a dupla Massine& Palhares), são os mesmos que fizeram as investigações que provaram ser o cadáver deformado de um jovem como sendo o corpo de Buzaidinho, filho do então ministro da Justiça, foragido e suposto de ser um dos seqüestradores, estupradores e assassinos da menina Ana Lídia (os outros suspeitos eram Fernando Collor de Mello, futuro presidente da República, e Flávio Marcílio Filho, filho do então presidente da Câmara Federal).

Esses técnicos são os mesmos que forjaram as investigações sobre a morte de um padre em São Luís do Maranhão, do vice-governador Raymundo Asfora e do seqüestrador que pretendia, às vésperas da promulgação da nova Carta Magna (a Constituição Cidadã de 1998), arremeter um avião contra o Palácio do Planalto.

A equipe da Unicamp concluiu que o padre morreu de sobre-esforço sexual num motel, com duas putas; que Asfora se suicidou com um tiro de magnum sem deixar vestígios do disparo no ambiente; que o seqüestrador de Goiânia, alvejado por um tiro nas nádegas, e já em convalescença, morreu da noite para o dia por causa de um microorganismo incubado nos pulmões.

No entanto, a Igreja diz que o padre, ativista da Pastoral da Terra, foi assassinado e “plantado” no motel; o ex-secretário da Segurança Pública da Paraíba, delegado federal Antônio Toscano, e o ex-secretário da Segurança Pública de Pernambuco, legista Armando Samico, não aceitam a tese de suicídio imputada a Raymundo Asfora; e o agrônomo seqüestrador de Goiânia não morreu de bala, e sim do do diagnóstico da dupla da Unicamp.

Nos dois últimos casos a frase do diretor da PF, doutor Tuma, foi a mesma, apresentando o relatório das investigações: “o laudo é conclusivo.”

As investigações sobre o assassinato de Chico Mendes, dirigidas pelas instituição que o ecologista denunciou como articuladora de sua morte, também deverão ser conclusivas. O inquérito sobre o assassinato do líder rural Chico Avelino, no Conde, será conclusivo. Aliás, o presidente da UDR na Paraíba já se antecipou à polícia e concluiu que sua organização não participou do crime, assim como de outros assassinatos de pessoas ligadas à causa camponesa no Brasil, tidos como “fatos isolados”.

O presidente da UDR paraibana adiantou mais: “essa história que a UDR elaborou listas contendo nomes de religiosos que estavam sob a mira para serem assassinados não passa de invencionice (...) são forjadas pela própria Pastoral da Terra e totalmente inverídicas (...) ninguém está ameaçado de morte.

Que bom. Os listados podem dormir em paz, como os que já foram eliminados da lista e da vida — inclusive autoridades, como o deputado federal Raymundo Asfora, nove dias antes de assumir o cargo de vice-governador da Paraíba.
(10-4-1989.)

(Do Livro "A morte do vice-governador")

 

OS FIGOS DA FIGUEIRA


Para mim, todas as dores têm tamanho.

Experimenta se as minhas mãos são leves

para fazer um penso.

(Jorge de Lima.)


Há pessoas que fazem os anos bons, ou pelo menos melhores; não se limitam a desejá-los novos e felizes. No dizer de José Amádio, sobre uma escultura de Max Bill, "há gente no mundo fazendo o mesmo gesto da rosa: / gente que torna o mundo belo para nós, / que esmagamos todas as flores."

Sem dúvida este é um ano novo, o trigésimo após 1964 — aquele ano em que Deus foi banido do país tropical por ser um "mau brasileiro". O ano de 1964 durou duras décadas: só terminou em 1984, no ano bom da redemocratização. Naquelas duas décadas, as pessoas continuaram a desejar-se bons anos, como nessas janeiras; "igualmente, da mesma forma, em dobro", repetiam-se agradecidas. Mas houve as que fizeram os anos bons, ou, pelo menos, menos ruins — até que, um dia, o Menino-Deus voltou do Egito, onde estava exilado com outros maus brasileiros.

É possível que o Menino-Deus, quando voltou do Egito após a morte de Herodes, tenha passado pelo Imip. Os hermeneutas não sabiam o que era nem onde ficava o Imip. Uma gruta, talvez, na estrada de Samaria; uma ermida no Carmelo. O Imip é o porto mais seguro para um menino foragido da injustiça, de todas as injustiças: a que lhe nega a vida quando o condena à morte vil das febres sem bálsamo; e a que lhe tira a vida quando o condena à morte vil do martírio político — seja a degola dos inocentes, seja a tortura no cárcere até a última dor, como foi morto o menino Humberto Albuquerque Câmara Neto, no DOI-Codi, Rio.

Por que me lembro de Humberto, o menino-mártir que sonhava em ser médico, nesse janeiro distante de sua morte em alguma noite de tortura e ditadura? O que ele tem a ver com o presépio onde é sempre Natal, a gruta segura do Imip?

Seu nome está "na peça acusatória básica que foi o ofício de número 8-GAB, reservado, dirigido em 16 de abril de 1969 (...)" juntamente com mais 36 companheiros, acusados de atacar "o Governo e o A.I./5", presentes neste inquérito que folheio emocionado. Humberto e seus 36 companheiros, enquadrados pela ditadura no DL 477/69, eram estudantes de Medicina na Universidade Federal de Pernambuco, nos últimos anos da década de 60.
Os milicos queriam-nos cassados, proibidos de estudar em qualquer estabelecimento de ensino. Para tanto, mandaram abrir o notável inquérito que, pela graça do Menino-Deus, teve como presidente e relator um homem (eu ia dizendo pessoa) daqueles que não apenas desejam, mas querem e fazem os anos felizes e bons, ou, no mínimo, melhores. Leiamos esta sentença, que já completa 25 anos melhorados, e que, portanto, tem sotaque histórico:

"A Congregação da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco e o seu diretor não podem, evidentemente, assumir perante a História essa tremenda responsabilidade: de expulsar da Universidade alunos, sem prova cabal de prática de crime; de ter a iniciativa de deixar à margem da sociedade um grupo de estudantes cuja inquietação reflete um desequilíbrio que se verifica em todos os países."

É o parecer que salvou das garras da ditadura 36 acadêmicos, à exceção de Humberto — que foi escolhido pelos deuses da guerra para o martírio.

Humberto, o eleito, não aceitou a segurança do Imip, onde ele e seus colegas estavam a salvo e aprendiam a salvar vidas de outros meninos, praticando a disciplina de Pediatria no Instituto modelo fundado pelo seu mestre e salvador. Humberto, assim como Luciano Siqueira (também pediatra, e presidente do PC do B em Pernambuco), continuaram na militância política que os levou ao cárcere e à tortura.

O primeiro foi glorificado na morte; o segundo foi torturado segunda vez pelo agente do DOI-Codi, que mentiu à revista "Veja", caluniando Luciano com a pecha de "dedo-duro". E, pela segunda vez, o parecer do senhor relator defenderá Luciano: agora, no processo que ele move contra aquela revista.

Folheio as páginas deste relatório e nele descubro a receita de um tempo melhor, a fórmula do futuro feliz, dos anos bons, novos e venturosos: é a coragem de enfrentar o momento mais medonho com a dignidade que Deus esparge em seus ungidos. Se nem todos são profetas, eles foram enviados como referência e não cobram direitos autorais: podem ser imitados, caricaturados e plagiados.

O professor Fernando Figueira, por exemplo (e para exemplo), assinou sozinho aquele parecer, como se assinasse mais uma de suas receitas que despacha no Instituto Materno Infantil de Pernambuco, fundado e dirigido por ele, para salvar e ensinar a salvar as mais pequenas vidas. Na época, seu gesto destoou da obediência covarde que fazia curvar o país diante da ditadura. A atitude do professor Fernando Figueira bem pode ter sido o primeiro gesto oficial de desobediência civil contra a tirania. Os pesquisadores da História — que já começa a ser contada, nesse jubileu do Parecer Figueira — hão de provar o que, neste momento, é simples intuição de um cronista do tempo.

Seu gesto de médico tem o poder de curar também o gesto dos homens — do qual a História é a anamnese. (04-01-1994.)

(Do livro Sessão das Bruxas)

 

CURINGA


Ao esteta Silvino Espínola


De repente, o silêncio cerebral e a espuma do silêncio na praia da boca. Tudo é paz, quase como na morte. O corpo náufrago na calçada assiste ao bordejo dos passantes e seu espanto diante do mistério quieto. Um homem debruça-se no portão e olha a vida parada, represando o passeio.

O sol também espia, pára um pouco e demora seu calor sobre o corpo como sem vida, mas tão grave que altera curso e velocidade das derrotas ao largo. Só do sol vem o gesto de enxugar-lhe a espuma em que se diluiu a voz. A espuma presa no arrecife do dente é tudo que restou da onda remota e profunda das águas furtadas do teta-consciente.

A manhã também está parada e sombria, mesmo com o sol debruçado no balaústre das nuvens, feito o homem no portão. A manhã também está silente. Ou o silêncio do mundo atropelou o homem adernado na calçada. A manhã está fria como os homens, o sol é apenas um curioso a mais. Há uma sombra do outro lado da indiferença, uma sombra mais confortável, talvez, que a palidez da manhã. Mas o corpo, no remanso dos curiosos, não flutua até a ilha da sombra.

Ninguém o desperta, todos temem o sono compulsório que emerge do náufrago. Ninguém lhe abre o portão ou as pálpebras. É apenas um viandante que parou, a roupa de clandestino, os gestos deportados. Há, no entanto, um gesto misterioso e formidável no seu abandono. Ninguém traduz o seu sinal. Ele não pergunta, mas todos procuram uma resposta à sua mudez. Ele não pede, mas a rua se recusa. Está parado, mas os da manhã têm medo e fogem.

Cara ao sol, a imotilidade do homem acuou os touros na praça da manhã. Sem capa e espada, o matador epilético embruxou os miúras na arena lívida. Os dedos crispados bandarilharam o vento. Os dedos crispados bandarilharam o tempo da manhã, o espaço inaugural da manhã. Mano a mano, o toureador venceu a pressa do dia.

Bastou a síncope do passo — um passo secreto e absoluto que resolveu o caminho, estancou a corrida, calou o olé.

Don Solitário, o matador de todas as corridas, de todos os caminhos, de todas as pressas fugaces, quedava-se indiferente à sua própria glória. Silêncio no seu coração, segredo na sua boca de náufrago, soberano em sua calma de pássaro subterrâneo.

O supremo matador, ou rei dos náufragos, encontrara praça e porto na divisa entre o fora e o dentro, a fronteira de todos os limites, onde o vazio é igual ao compacto. Ele não precisava entrar nem sair, mas o homem debruçado sobre a tranca não sabia. Os passantes fugiam sem desconfiar que ele chegara. Cara ao sol, ele decretava a obsolescência da luz e o ócio da sombra. Os meninos parados como se não fossem da rua. E a rua como se não fosse do bairro nem afluísse às esquinas.

O piloto da eternidade abriu um parêntese no tempo para sua escala. Dispensou aguada e munição de boca. Dispensou o vento e sua roupa e o ciclo das marés e a safra das estrelas. Sua agulha repousava no pólo absoluto. O portulano, o diário de bordo, todas as cartas de navegação eram o refugo de um baralho morto. O navegador da renúncia descobrira o mar oceano do Tao, o mediterrâneo do nada, o estuário do tudo, o eco de todos os silêncios, a sílaba inicial onde os ventos terminam e o som se reduz ao sussurro do Om. (26-4-1989.)

(Do livro Sessão das Bruxas)

 

Otávio Augusto SITÔNIO PINTO

Nascimento: 1945, em Princesa, Sertão da Paraíba, Nordeste, Brasil. Comunista. Escritor. Jornalista.