Otávio Sitônio Pinto
O SILÊNCIO DO UIRAPURU
Você viu e ouviu, não fui eu quem disse.
Foi Hélio Costa, ex-governador de Minas Gerais (concluiu o
mandato de Tancredo Neves), deputado federal e ex-diretor da
Globo na sucursal de Nova York — um jornalista brasileiro de
nível internacional. Pois Hélio Costa, na última
quinta-feira, dedicou todo o seu programa Linha direta para
dizer ao Brasil que Raymundo Asfora foi assassinado, e não
se suicidou, como querem os suicidistas e autores
intelectuais de um crime nem tanto perfeito.
Dessa vez não fui eu quem disse, nos jornais da província,
que Asfora foi vítima de um complô criminoso, e que a
sociedade brasileira tem sido vítima de um complô silencioso
sobre a verdade da morte do vice-governador eleito e
insubstituível. Dessa vez foram Hélio Costa e a Rede Globo
de Televisão, em uma hora de programa nacional, horário
nobre. A audiência estourou em todo Brasil e,
principalmente, na Paraíba.
Se você não viu, nem ouviu, ainda pode pegar a reprise que
será levada, brevemente, pela TV Cabo Branco. Ou, ainda,
pegar uma carona no vídeo que muita gente gravou
documentalmente. Na próxima quinta-feira, ainda tem mais:
alguns detalhes que não couberam no programa do dia dez,
serão apresentados no início do Linha direta.
Se você sabe de alguma coisa, se tem alguma informação que
possa elucidar o crime de que a Paraíba e o Brasil foram
vítimas, ligue para o Linha direta, confidencial e
sigilosamente.
O impacto do roteiro apresentado por Hélio Costa teve um
efeito notável sobre a opinião pública paraibana e
brasileira. Em todo o País, amigos de Asfora, agora
convencidos da realidade de seu assassinato, estão se
articulando para que as investigações sobre a morte do
tribuno sejam levadas até o fim, com a devida indicação dos
culpados. O lobe do silêncio e da farsa sobre a morte de
Asfora foi vencido por um jornalista sem ligações com a
Paraíba, numa prova que o vice-governador e ex-deputado
paraibano era um patrimônio da cultura brasileira.
Já se articula, na Câmara Federal, a formação de uma
Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o
assassinato do tribuno brasileiro. A inquietação dos
parlamentares atinge, inclusive, o Senado, composto de
muitos representantes oriundos da Câmara dos Deputados,
nostálgicos da palavra luminosa de Asfora.
Hélio Costa apresentou, quinta-feira última, o seu melhor
programa da série atual, em que levanta crimes insolúveis
para o conhecimento da consciência do País. O Caso Raymundo
Asfora, intitulado no programa de Costa como A morte do
poeta, justificaria, por si só, todo o esforço que a equipe
da Globo vem desenvolvendo para maior transparência e
justiça da criminalística brasileira. O roteiro foi fiel à
crônica dos fatos. Apenas alguns detalhes poderão ser
revistos, como os nomes das últimas pessoas a edtarem com
Asfora, e seu acompanhante, ou seus acompanhantes, no último
trajeto para sua casa.
É de se lembrar a entrevista concedida pelo então prefeito
de campina Grande, Ronaldo Cunha Lima, à revista A carta,
antes da missa de sétimo dia de Asfora, quando o prefeito
(agora governador) afirmou que mandara seu motorista
acompanhar Asfora até em casa. Inexplicavelmente, o
motorista Manuelzão, último acompanhante do vice-governador,
(segundo Cunha Lima) nunca depôs nos inquéritos instaurados.
Que tem medo de novas investigações sobre a morte de Asfora?
Só os suicidistas, aqueles que, por autoria ou co-autoria,
teme que o silêncio da Granja Uirirapuru cante a sua
verdade. (12-5-1990.)
(Do Livro
"A morte do vice-governador")
ASFORA NA GLOBO
O Caso Raynundo Asfora será analisado
hoje, às 22h30, no programa Linha Direta, da Globo.
Transmitido para todo o Brasil, o programa dirigido pelo
jornalista Hélio Costa vai ao ar, na paraíba, através da
afiliada TV Cabo Branco, canal 7. O interesse de Costa pelo
Caso Asfora pode ter ampla repercussão, pois, além da
audiência de seu programa, o jornalista atinge um público
muito especial: ele é deputado federal por Minas Gerais, e a
morte misteriosa do vice-governador e ex-deputado federal é
uma interrogação para seus antigos colegas de parlamento.
Recentemene, estive na Câmara Federal, em Brasília, e vi que
era grande a expectativa dos deputados sobre o enforque de
Costa no Caso Asfora.
O próprio Costa me revelou sua convicção de que Asfora foi
assassinado. Conversamos, na Câmara, poucos dias após a
gravação do programa. Apesar de ter sido procurado pela
produção da Globo para prestar meu depoimento, não foi
possível contato com a equipe. Nas duas vezes que a
reportagem da Globo esteve na Paraíba, eu me encontrava no
Rio de Janeiro e em Brasília. Mas ainda passei, por
telefone, os resultados de minhas investigações à produção
do programa.
A equipe de Linha Direta ouviu todos os pesquisadores que
estudaram o Caso Asfora, desde Domingos Tochetto, no Rio
grande do Sul, a Armando Samico, em Pernambuco, e Antônio
Toscano, na Paraíba. Ninguém foi omitido. Apenas alguns dos
suicidistas, como os legistas da Unicamp. São Paulo, se
recusaram, estranhamente, a depor. Mesmo os que tentaram,
por diversas vezes, obstacular as investigações (como o
governador Ronaldo Cunha Lima), não foram poupados pela
reportagem — que não se intimidou diante da arrogância, da
chantagem e da truculência.
Foram muitas as tentativas de intimidação para que o
trabalho da Globo não se realizasse, como são muitas as
tentativas para que o inquérito cobre a morte de Asfora não
tenha continuidade. O jornalista Anco Márcio, primeiro a
levantar, na Imprensa, suspeitas sobre a farsa de suicídio
de Asfora, foi novamente ameaçado.
Apesar de tudo, o programa está concluso e vai ao ar,
apresentando alguns fatos novos sobre a tragédia. Outros
fatos, ainda confidenciais, serão liberados oportunamente. O
Instituto de Polícia Técnica da Bahia, solicitado pela
Justiça da Paraíba, prepara laudo sobre o assunto. Um
detalhe: o processo, remetido pela Justiça da paraíba ao
instituto baiano, levou quatro meses para chegar ao
destinatário. E, a rigor, não chegou: o destinatário foi
quem mandou fazer busca nos Correios para poder receber a
documentação, via Sedex, depois que a irmã de Asfora, minha
amiga Myriam, foi pessoalmente a Salvador para tentar
descobrir o paradeiro da correspondência.
O mesmo aconteceu com uma indústria de armamentos bélicos,
também solicitada pela Justiça da Paraíba a emitir parecer
técnico. O lóbe montado pelos suicidistas, temerosos que a
verdade sobre a morte de Asfora seja revelada, é poderoso —
o que demonstra o nível de influência e coação do complô
ainda oculto, mas que será desmascarado.
Além da Globo, outros veículos e comunicação, de vários
estados brasileiros, já pautaram pesquisa de reportagem
sobre o Caso Asfora. O prestígio de peritos que atestam o
assassinato do tribuno brasileiro, como é o caso de Domingos
Tochetto — consultor da Indústria de Armamentos Rossi,
consultor da revista magnum (especializada em armas e
munições), e perito do Instituto de Criminalística do Rio
Grande do Sul — tem despertado a atenção da imprensa
nacional e da comunidade legista brasileira. Outro perito de
renome internacional, e que não aceita a farsa suicidista, é
o professor Armando Samico, fundador do Instituto de
Criminalística de Pernambuco e respeitado até pela Scotland
Yard.
Os que investiram seu tempo e sua segurança para desmascarar
o crime contra Asfora começam a ver a vitória de seus
esforços, como o intimerato Geraldo Beltrão, físico e
criminalista. Mas vamos ao Linha Direta, logo mais na Globo.
Depois, há outros informes.
(10-6-1990.)
BRANDÃO & ASFORA
Quem me deu a notícia foi o
repórter policial do Correio, Humberto Lyra, com a voz
trêmula: “mataram Paulinho!” Lyra estava na calçada do
jornal, junto à porta de entrada, aonde eu ia chegando para
meu trabalho de copy. Foi a primeira vez que vi um repórter
policial tremer. Não recebi a má notícia com surpresa. Eu já
esperava um acontecimento semelhante. Saímos, eu e Lyra, no
meu Chevette, sem esperar pelo carro da reportagem.
Chegamos ao local do crime antes da polícia e dos
fotógrafos, o corpo quase vivo no chão, 28 (vinte e oito)
perfurações, e muito mais na camioneta Parati de Paulo,
estacionada ao lado da morte. O chefe de segurança da
Polyutil, empresa da qual Paulinho era sócio, e que retirara
o cadáver do carro, chorava. Ainda havia poucas pessoas.
Depois, foram chegando a polícia, o superintendente de
polícia, o secretário da Segurança, Fernando Milanez.
“Ninguém evita um crime deste” — disse o secretário (anos
antes, o filho do secretário da Segurança e outros rapazes
da sociedade foram envolvidos num rumoroso assassinato de um
taxista, denominado na crônica policial como “o crime da
churrascaria Bambu”. Foram absolvidos, mas o crime não foi
esclarecido. Nem evitado, como disse Milanez, pai do chefe
de seu gabinete, hoje presidente da Câmara Municipal da
Capital). Alguém apanhou algumas cápsulas, que identifiquei
como sendo de 9 mm parabellum.
Tempos depois, o perito balístico Domingos Tochetto,
considerado o melhor especialista na América latina,
constatou que os estojos foram deflagrados pela metralhadora
da Casa Militar de Palácio. Tochetto é perito balístico do
Instituto de Criminalística do Rio grande do Sul e consultor
técnico da Rossi, indústria de armamentos. É Tochetto quem
redige os manuais e catálogos da Rossi, publicados em
edições bilingües. Ele escreve, também, livros didáticos
sobre ciências naturais. Recebo suas publicações.
Depois da morte de Paulo Brandão, estamos juntos, agora, no
caso Raymundo Asfora. Conversamos nada menos que dez horas
sobra a morte do vice-governador, conversa testemunhada, em
parte, por Dom Hélder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife.
E eu querendo ensinar o Padre-Nosso aos vigários:
— Doutor Tochetto, sei que um projétil .357 magnum de
velocidade supersônica e 75 kg de energia, duas vezes mais
potente que um .38 especial (carga dupla), tem capacidade
perfurante para transfixar a cabeça de um homem e se alojar
profundamente numa parede próxima. Mas, no ambiente em que
Asfora foi encontrado morto, não existe alojamento nem
impactação do projétil nas paredes, nem no teto, nem no
solo, nem nos móveis; nem o projétil que o matou foi
encontrado. Diante dessas evidências, desprezo até a
circunstância de a vítima não ter caído da cadeira em que
foi encontrada, presumivelmente após receber o impacto que
lhe transfixou a cabeça e teria arremessado o corpo ao solo.
O senhor já pesou esse fato?
E o doutor Tochetto, indulgente com minha pretensão de lhe
ensinar balística, respondeu-me com sua voz suave e serena:
— O doutor Asfora não morreu naquela sala (Uma testemunha
viu Asfora chegar, sendo carregado como se estivesse bêbado
(ele não se embriagava a esse ponto). Mas a testemunha
desapareceu para sempre).
Hoje, passados cinco anos da morte de Paulo Brandão e três
da morte de Asfora, não me assustam os fatos de um
proprietário de jornal (quase na mesma época em que Brandão
foi assassinado (governo Wilson Braga), outro proprietário
de jornal, oposicionista, foi executado na Paraíba, com uma
saraivada de balas que lhe seccionou a artéria femoral:
Fernando Ramos, o popular Fernando “Judeu”, piloto e
construtor amador de aviões) e de um vice-governador serem
assassinados num País que vive e morre sob um sistema
capitalista predatório. Principalmente porque tanto o
jornalista quanto o político denunciavam distorções desse
sistema que tem na violência a base de sua sustentação.
O que me assusta é o fato dessas mortes permanecerem não
resolvidas, a despeito da parafernália de recursos
investidos nas investigações (perdoem a aliterância). Eis o
que me leva a tremer mais que a surpresa do repórter
policial Humberto Lyra, veterano na rotina da morte.
Em ambos os casos, houve a mentira nas primeiras perícias:
no assassinato de Paulo Brandão, os primeiros peritos
negaram que os estojos e projéteis foram disparados pela
metralhadora da Casa Militar; no assassinato de Asfora, a
perícia da Unicamp chegou a desenhar um croqui, um comic,
indicando a trajetória do projétil transfixando o crânio da
vítima, impactando e se alojando na parede da sala em que o
corpo foi encontrado, sentado numa cadeira sem braços, a
cabeça tombada em posição contrária à formidável energia do
impacto, o braço e o revólver tombados em posição contrária
à medonha energia do disparo. Tudo contrariando as leis da
física de causa e efeito, ação e reação.
A perícia da Unicamp não acrescentou uma foto do fictício
alojamento ou do fantacioso impacto do projétil porque tal
fato não existe, precisou ser inventado e desenhado no
croqui mentiroso. Agora, o Caso Asfora foi reaberto e
encaminhado ao Instituto de Criminalística da Bahia [que
devolveria o inquérito sem se pronunciar.
Mas há outro processo, abrangente de todos os processos
insolúveis do Brasil, que estará sendo julgado no dia 17 do
corrente, domingo próximo: é o processo da democracia
brasileira [o autor se refere às eleições do segundo turno
da eleição à Presidência da República, em que Lula lá perdeu
para Collor cá. Q. V. Collor, a Raposa do Planalto, Sitônio,
São Paulo, Anita Garibaldi, 1992]. Se o júri popular acertar
o seu veredicto, as vítimas serão resgatadas, os criminosos
condenados, os inocentes libertos.
(14-12-1989.)
ASFORA, TRAGÉDIA E FARSA
Nesses dois anos que se completam, hoje,
da morte de Raymundo Asfora, a Paraíba assistiu uma farsa
suceder à tragédia. Duas correntes surgiram diante da
opinião pública: uma, que exige o aprofundamento das
investigações até o fundo do poço onde possa estar a
verdade; outra, que reúne esforços no sentido de evitar
perguntas sobre a morte do vice-governador. Nesta última
corrente, se insere o governador da Paraíba, Ronaldo Cunha
Lima, que treme e empalidece quando se fala no assassinato
de Asfora, e diz que está de ressaca.
Ansiosa e apressadamente, os arautos do silêncio sobre a
morte de Asfora imputam à vítima a execução da própria
morte. Sob o pretexto de”preservar a memória do morto”,
obstaculam, de todas as formas, qualquer iniciativa de
investigação sobre a tragédia. A angústia dos patronos do
silêncio desde logo transforma-se em indício de suspeita: ou
eles sabem, ou são eles.
Providenciaram, minutos após a descoberta do cadáver, a
veiculação de carros de som, pela cidade de Camina Grande,
propagando um convite e uma tese: o chamamento à população
para a exéquias de Asfora, e a informação ao povo órfão de
que o seu líer se suicidara. A tese apressada nasceu antes
da perícia médica e policial; talvez, antes mesmo da própria
morte do poeta, político e procurador do povo.
Um assessor de Asfora, Marcos Marinho, enxertou uma apologia
do suicídio, no elogio de Pedro Nava, pronunciado pelo
deputado na Câmara Federal. Mas o texto impresso, detectado
por amigos verdadeiros do tribuno — o escritor Orlando Tejo
e o promotor de Justiça Eduardo Albuquerque (Tejo é o
consagrado autor do livro Zé Limeira, poeta do absurdo, com
mais de trinta edições, e, hoje, Albuquerque é o Procurador
Geral do Ministério Público do Distrito Federal e
Territórios; ambos, amigos fraternos do cronista) — diferia
da gravação magnética e da taquigrafia da Câmara, assim como
da transcrição nos Anais.
Vomitaram entrevistas onde se atribuía a Raymundo Asfora
prenúncios de suicídio, citando, como de lavra recente, o
que teria sido“o último verso do poeta”, um mote criado por
Asfora há mais de duas décadas, glosado por cantadores,
publicado, e ouvido por mim, de sua boca, e do poeta Antônio
José Figueiredo Agra, no tempo em que Asfora defendia
Figueiredo no processo do assassinato da esposa (Cheyenne)
deste trágico vate. O mote dizia algo como “minha vida é uma
morte que se adia”.
Escamotearam testemunhas e depoimentos. Intimidaram,
ameaçaram. O jornalista Anco Márcio, primeira voz que
denunciou publicamente o complô da farsa, foi alvo de
catimbas macabras. Correspondências foram violadas,
inclusive deste redator. Autoridades que participavam do
inquérito foram afastadas de suas funções. Mudaram as
alçadas das investigações. Divulgaram boatos nas esquinas e
nos meios de comunicação. Mas não conseguiram silenciar a
verdade: Raymundo Asfora foi assassinado e transladado para
o ambiente em que foi encontrado morto.
É o que diz o perito Domingos Tochetto, do Instituto de
Criminalística do rio Grande do Sul, considerado a maior
autoridade em balística na América Latina; é o que diz o
perito Armando Samico, fundador do Instituto de
Criminalística de Pernambuco, um dos maiores nomes da
criminalística brasileira, duas vezes secretário de
Segurança de Pernambuco, e que, inclusive, ganhou polêmica
internacional contra a Scotland Yard (no caso da morte de um
piloto inglês da Boac, morto quando caiu da marquise do
hotel em que se hospedara, no Recife. A Scotland queria que
o piloto tivesse sido empurrado da janela, mas Samico provou
que a vítima caiu da marquise, quando tentava passar,
embriagado, de seu apartamento para o das aeromoças ; é o
que diz Antônio Toscano, delegado federal e ex-secretário de
Segurança na paraíba, que reabriu o inquérito; é o que diz o
jesuíta Nogueira Machado, professor de Física na
Universidade Católica de Pernambuco; é o que diz Antônio
Padilha, instrutor de tiro das polícias Federal, Civil e
Militar da Paraíba, e da Federação Paraibana de Tiro ao
Alvo, à qual este cronista é filiado; é o que diz Geraldo
Beltrão, professor de física e criminalista, escalado pela
OAB para acompanhar o Caso Asfora.
A verdade indiscutível é que um disparo de .357 magnum
transfixaria a cabeça de Asfora e se alojaria em alguma
parte do ambiente. Mas o último impacto só existe no croqui
da perícia suicidista; o ambiente está intacto: eu vi e
conferi com o desenho (comic) mentiroso. E digo mais: os
assassinos de Asfora estão entre os temem investigações.
(6-3-1989.)
(Do Livro
"A morte do vice-governador")
OS DIAMANTES SÃO
ETERNOS
As investigações sobre o assassinato do
ecologista Chico Mendes estão sendo presididas por uma
entidade apontada pelo próprio Chico Mendes , poucos dias
antes de morrer, como articuladora de sua eliminação: a
Polícia Federal. Os irmãos Alves, anunciados pelo ecologista
como futuros executantes de seu assassinato, participam da
investigação apenas como agentes passivos, pois não têm
competência para dirigir o inquérito. Não têm, também, a
licença atribuída aos agentes de duplo zero de Sua
Majestade, como é o caso de 007, para matar.
O assassinato de Delmiro Gouveia, precursor do
aproveitamento elétrico do rio São Francisco, terá sido
executado por um desses agente de duplo zero? Gouveia tinha
interesses conflitantes com o truste inglês Machine Cotton.
Apó a morte do industrial nordestino, o truste comprou sua
fábrica e sua usina de força ao Banco do Brasil (que
financiara Gouveia) e jogou o equipamento no rio. Naquele
tempo ainda não havia Polícia Federal, e o mistério
permanece até hoje.
Os técnicos da Universidade de Campinas (Unicamp) que foram
para o Acre investigar o assassinato de Chico Mendes (a
dupla Massine& Palhares), são os mesmos que fizeram as
investigações que provaram ser o cadáver deformado de um
jovem como sendo o corpo de Buzaidinho, filho do então
ministro da Justiça, foragido e suposto de ser um dos
seqüestradores, estupradores e assassinos da menina Ana
Lídia (os outros suspeitos eram Fernando Collor de Mello,
futuro presidente da República, e Flávio Marcílio Filho,
filho do então presidente da Câmara Federal).
Esses técnicos são os mesmos que forjaram as investigações
sobre a morte de um padre em São Luís do Maranhão, do
vice-governador Raymundo Asfora e do seqüestrador que
pretendia, às vésperas da promulgação da nova Carta Magna (a
Constituição Cidadã de 1998), arremeter um avião contra o
Palácio do Planalto.
A equipe da Unicamp concluiu que o padre morreu de
sobre-esforço sexual num motel, com duas putas; que Asfora
se suicidou com um tiro de magnum sem deixar vestígios do
disparo no ambiente; que o seqüestrador de Goiânia, alvejado
por um tiro nas nádegas, e já em convalescença, morreu da
noite para o dia por causa de um microorganismo incubado nos
pulmões.
No entanto, a Igreja diz que o padre, ativista da Pastoral
da Terra, foi assassinado e “plantado” no motel; o
ex-secretário da Segurança Pública da Paraíba, delegado
federal Antônio Toscano, e o ex-secretário da Segurança
Pública de Pernambuco, legista Armando Samico, não aceitam a
tese de suicídio imputada a Raymundo Asfora; e o agrônomo
seqüestrador de Goiânia não morreu de bala, e sim do do
diagnóstico da dupla da Unicamp.
Nos dois últimos casos a frase do diretor da PF, doutor
Tuma, foi a mesma, apresentando o relatório das
investigações: “o laudo é conclusivo.”
As investigações sobre o assassinato de Chico Mendes,
dirigidas pelas instituição que o ecologista denunciou como
articuladora de sua morte, também deverão ser conclusivas. O
inquérito sobre o assassinato do líder rural Chico Avelino,
no Conde, será conclusivo. Aliás, o presidente da UDR na
Paraíba já se antecipou à polícia e concluiu que sua
organização não participou do crime, assim como de outros
assassinatos de pessoas ligadas à causa camponesa no Brasil,
tidos como “fatos isolados”.
O presidente da UDR paraibana adiantou mais: “essa história
que a UDR elaborou listas contendo nomes de religiosos que
estavam sob a mira para serem assassinados não passa de
invencionice (...) são forjadas pela própria Pastoral da
Terra e totalmente inverídicas (...) ninguém está ameaçado
de morte.
Que bom. Os listados podem dormir em paz, como os que já
foram eliminados da lista e da vida — inclusive autoridades,
como o deputado federal Raymundo Asfora, nove dias antes de
assumir o cargo de vice-governador da Paraíba.
(10-4-1989.)
(Do Livro
"A morte do vice-governador")
OS FIGOS DA FIGUEIRA
Para mim, todas as dores têm tamanho.
Experimenta se as minhas mãos são leves
para
fazer um penso.
(Jorge de Lima.)
Há pessoas que
fazem os anos bons, ou pelo menos melhores; não se limitam a
desejá-los novos e felizes. No dizer de José Amádio, sobre
uma escultura de Max Bill, "há gente no mundo fazendo o
mesmo gesto da rosa: / gente que torna o mundo belo para
nós, / que esmagamos todas as flores."
Sem dúvida este é um
ano novo, o trigésimo após 1964 — aquele ano em que Deus foi
banido do país tropical por ser um "mau brasileiro". O ano
de 1964 durou duras décadas: só terminou em 1984, no ano bom
da redemocratização. Naquelas duas décadas, as pessoas
continuaram a desejar-se bons anos, como nessas janeiras;
"igualmente, da mesma forma, em dobro", repetiam-se
agradecidas. Mas houve as que fizeram os anos bons, ou, pelo
menos, menos ruins — até que, um dia, o Menino-Deus voltou
do Egito, onde estava exilado com outros maus brasileiros.
É possível que o
Menino-Deus, quando voltou do Egito após a morte de Herodes,
tenha passado pelo Imip. Os hermeneutas não sabiam o que era
nem onde ficava o Imip. Uma gruta, talvez, na estrada de
Samaria; uma ermida no Carmelo. O Imip é o porto mais seguro
para um menino foragido da injustiça, de todas as
injustiças: a que lhe nega a vida quando o condena à morte
vil das febres sem bálsamo; e a que lhe tira a vida quando o
condena à morte vil do martírio político — seja a degola dos
inocentes, seja a tortura no cárcere até a última dor, como
foi morto o menino Humberto Albuquerque Câmara Neto, no
DOI-Codi, Rio.
Por que me lembro de
Humberto, o menino-mártir que sonhava em ser médico, nesse
janeiro distante de sua morte em alguma noite de tortura e
ditadura? O que ele tem a ver com o presépio onde é sempre
Natal, a gruta segura do Imip?
Seu nome está "na peça
acusatória básica que foi o ofício de número 8-GAB,
reservado, dirigido em 16 de abril de 1969 (...)" juntamente
com mais 36 companheiros, acusados de atacar "o Governo e o
A.I./5", presentes neste inquérito que folheio emocionado.
Humberto e seus 36 companheiros, enquadrados pela ditadura
no DL 477/69, eram estudantes de Medicina na Universidade
Federal de Pernambuco, nos últimos anos da década de 60.
Os milicos queriam-nos cassados, proibidos de estudar em
qualquer estabelecimento de ensino. Para tanto, mandaram
abrir o notável inquérito que, pela graça do Menino-Deus,
teve como presidente e relator um homem (eu ia dizendo
pessoa) daqueles que não apenas desejam, mas querem e fazem
os anos felizes e bons, ou, no mínimo, melhores. Leiamos
esta sentença, que já completa 25 anos melhorados, e que,
portanto, tem sotaque histórico:
"A Congregação da
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco
e o seu diretor não podem, evidentemente, assumir perante a
História essa tremenda responsabilidade: de expulsar da
Universidade alunos, sem prova cabal de prática de crime; de
ter a iniciativa de deixar à margem da sociedade um grupo de
estudantes cuja inquietação reflete um desequilíbrio que se
verifica em todos os países."
É o parecer que salvou
das garras da ditadura 36 acadêmicos, à exceção de Humberto
— que foi escolhido pelos deuses da guerra para o martírio.
Humberto, o eleito,
não aceitou a segurança do Imip, onde ele e seus colegas
estavam a salvo e aprendiam a salvar vidas de outros
meninos, praticando a disciplina de Pediatria no Instituto
modelo fundado pelo seu mestre e salvador. Humberto, assim
como Luciano Siqueira (também pediatra, e presidente do PC
do B em Pernambuco), continuaram na militância política que
os levou ao cárcere e à tortura.
O primeiro foi
glorificado na morte; o segundo foi torturado segunda vez
pelo agente do DOI-Codi, que mentiu à revista "Veja",
caluniando Luciano com a pecha de "dedo-duro". E, pela
segunda vez, o parecer do senhor relator defenderá Luciano:
agora, no processo que ele move contra aquela revista.
Folheio as páginas
deste relatório e nele descubro a receita de um tempo
melhor, a fórmula do futuro feliz, dos anos bons, novos e
venturosos: é a coragem de enfrentar o momento mais medonho
com a dignidade que Deus esparge em seus ungidos. Se nem
todos são profetas, eles foram enviados como referência e
não cobram direitos autorais: podem ser imitados,
caricaturados e plagiados.
O professor Fernando
Figueira, por exemplo (e para exemplo), assinou sozinho
aquele parecer, como se assinasse mais uma de suas receitas
que despacha no Instituto Materno Infantil de Pernambuco,
fundado e dirigido por ele, para salvar e ensinar a salvar
as mais pequenas vidas. Na época, seu gesto destoou da
obediência covarde que fazia curvar o país diante da
ditadura. A atitude do professor Fernando Figueira bem pode
ter sido o primeiro gesto oficial de desobediência civil
contra a tirania. Os pesquisadores da História — que já
começa a ser contada, nesse jubileu do Parecer Figueira —
hão de provar o que, neste momento, é simples intuição de um
cronista do tempo.
Seu gesto de médico tem o poder de curar
também o gesto dos homens — do qual a História é a anamnese.
(04-01-1994.)
(Do livro
Sessão das Bruxas)
CURINGA
Ao esteta Silvino Espínola
De repente, o silêncio cerebral e a espuma
do silêncio na praia da boca. Tudo é paz, quase como na
morte. O corpo náufrago na calçada assiste ao bordejo dos
passantes e seu espanto diante do mistério quieto. Um homem
debruça-se no portão e olha a vida parada, represando o
passeio.
O sol também espia, pára um pouco e demora
seu calor sobre o corpo como sem vida, mas tão grave que
altera curso e velocidade das derrotas ao largo. Só do sol
vem o gesto de enxugar-lhe a espuma em que se diluiu a voz.
A espuma presa no arrecife do dente é tudo que restou da
onda remota e profunda das águas furtadas do
teta-consciente.
A manhã também está parada e sombria, mesmo
com o sol debruçado no balaústre das nuvens, feito o homem
no portão. A manhã também está silente. Ou o silêncio do
mundo atropelou o homem adernado na calçada. A manhã está
fria como os homens, o sol é apenas um curioso a mais. Há
uma sombra do outro lado da indiferença, uma sombra mais
confortável, talvez, que a palidez da manhã. Mas o corpo, no
remanso dos curiosos, não flutua até a ilha da sombra.
Ninguém o desperta, todos temem o sono
compulsório que emerge do náufrago. Ninguém lhe abre o
portão ou as pálpebras. É apenas um viandante que parou, a
roupa de clandestino, os gestos deportados. Há, no entanto,
um gesto misterioso e formidável no seu abandono. Ninguém
traduz o seu sinal. Ele não pergunta, mas todos procuram uma
resposta à sua mudez. Ele não pede, mas a rua se recusa.
Está parado, mas os da manhã têm medo e fogem.
Cara ao sol, a imotilidade do homem acuou os
touros na praça da manhã. Sem capa e espada, o matador
epilético embruxou os miúras na arena lívida. Os dedos
crispados bandarilharam o vento. Os dedos crispados
bandarilharam o tempo da manhã, o espaço inaugural da manhã.
Mano a mano, o toureador venceu a pressa do dia.
Bastou a síncope do passo — um passo secreto
e absoluto que resolveu o caminho, estancou a corrida, calou
o olé.
Don Solitário, o matador de todas as
corridas, de todos os caminhos, de todas as pressas fugaces,
quedava-se indiferente à sua própria glória. Silêncio no seu
coração, segredo na sua boca de náufrago, soberano em sua
calma de pássaro subterrâneo.
O supremo matador, ou rei dos náufragos,
encontrara praça e porto na divisa entre o fora e o dentro,
a fronteira de todos os limites, onde o vazio é igual ao
compacto. Ele não precisava entrar nem sair, mas o homem
debruçado sobre a tranca não sabia. Os passantes fugiam sem
desconfiar que ele chegara. Cara ao sol, ele decretava a
obsolescência da luz e o ócio da sombra. Os meninos parados
como se não fossem da rua. E a rua como se não fosse do
bairro nem afluísse às esquinas.
O piloto da eternidade abriu um parêntese no
tempo para sua escala. Dispensou aguada e munição de boca.
Dispensou o vento e sua roupa e o ciclo das marés e a safra
das estrelas. Sua agulha repousava no pólo absoluto. O
portulano, o diário de bordo, todas as cartas de navegação
eram o refugo de um baralho morto. O navegador da renúncia
descobrira o mar oceano do Tao, o mediterrâneo do nada, o
estuário do tudo, o eco de todos os silêncios, a sílaba
inicial onde os ventos terminam e o som se reduz ao sussurro
do Om. (26-4-1989.)
(Do livro
Sessão das Bruxas)
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Otávio Augusto SITÔNIO PINTO
Nascimento: 1945, em
Princesa, Sertão da Paraíba, Nordeste, Brasil. Comunista. Escritor.
Jornalista. |
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