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O TEATRO E SUA
HISTÓRIA (Brasil)
JORGE ANDRADE

Aluísio Jorge
Andrade Franco (Barretos SP 1922 - São Paulo SP 1984). Autor. Um
dos mais expressivos dramaturgos paulistas e brasileiros,
retrata com funda verdade e grande poesia cênica diversos
panoramas da vida ligada à herança cafeeira; dedicando-se,
posteriormente, a temas contemporâneos a sua época e ligados à
vida metropolitana.
Jorge conclui sua formação como
dramaturgo na
Escola de Arte Dramática - EAD,
em 1954. Seu primeiro texto é O Faqueiro de Prata, em
1951. No mesmo ano, escreve O Telescópio, dirigido por
Paulo Francis,
no Rio de Janeiro, com o elenco da
Companhia Dramática Nacional - CDN,
em 1957. Ao invés das longas distâncias, esse telescópio aponta
para as regiões da memória do autor, ao enfocar rastos de seu
passado e figuras que bem conhecia.
Filho de fazendeiros e tendo
vivido a cultura do meio rural, o autor trará para a cena
profundas observações desse universo, especialmente sua
derrocada e adaptação ao meio urbano, fonte dos conflitos que
atravessam a maior parte de suas criações, como
A Moratória,
encenada, em 1955, por
Gianni Ratto
para a companhia de
Maria Della Costa,
espetáculo que lança a jovem
Fernanda Montenegro.
Pedreira das
Almas,
retratando o período do esgotamento da exploração aurífera em
Minas Gerais, durante a Revolução de 1842, sobe à cena em 1958,
numa direção de
Alberto D'Aversa
para o
Teatro Brasileiro de Comédia - TBC.
O mesmo conjunto será responsável por algumas das mais
expressivas criações do autor, como A Escada, em 1961,
numa encenação de
Flávio Rangel;
Os Ossos do Barão, em 1963, com direção de
Maurice Vaneau
e, no ano seguinte, Vereda
da Salvação, encenação de
Antunes Filho,
de 1964. Pela importância dessa realização em sua obra, o mesmo
encenador voltará a colocá-la no palco, reformulada e revista,
em 1993, com o
Centro de Pesquisas Teatrais - CPT.
O tema último
dessas criações, salientado pelo próprio Jorge em sua
autobiografia Labirinto, editada em 1978, é a memória:
"Nesta mistura de presenças concretas, até onde vai a realidade
e começa a fantasia? [...] Penso que Proust é a volta ao
passado; que o passado é a natureza; que a natureza é Rousseau;
e que Rousseau é a raiz da nossa verdade".1 Esta
nostálgica natureza - tempo feliz ou tempo de ordem - surge como
o pano de fundo que move a maior parte das suas grandes
personagens; entre os quais se sobressai Vicente, espécie de
alter ego do autor que pontilha diversas de suas criações; ainda
que denotando diferentes máscaras. Em A Escada, escrita
em 1960, o autor retrata um casal de idosos, cujo futuro é
discutido pelos filhos, moradores de um mesmo bloco de
apartamentos. O tom nostálgico e a presença da memória voltam a
infundir poesia à cena jorgiana. Em Os Ossos do Barão,
de 1962, única comédia que escreve, examina os escombros a que
se reduziu o império de um barão do café e a vitoriosa ascensão
de um imigrante.

Cena de "A Moratória"
O recurso à
metalinguagem - evidenciando explicitamente os procedimentos da
ficção dramática - bem como a exploração do tempo - superposição
ou concatenação de ações no passado e no presente - contribuem
para o refinamento expressivo jorgiano, tornando essa exploração
pelos labirintos da memória pontuada de recursos artísticos de
alto quilate.
Trabalhando para a revista
Realidade, Jorge é colocado frente a frente com os dramas da
metrópole. Desses confrontos, nasce em 1963, Senhora da Boca
do Lixo, sobre uma decaída protagonista da sociedade
tradicional, que agora vive de contrabando. Presa, acaba
encontrando a liberdade em função das ligações com altas
personalidades que ainda mantém. Proibida pela Censura, a
estreia dá-se em Portugal, em 1966. No Brasil é montada pela
atriz
Eva Todor,
com direção de
Dulcina de Morais, em
1968.
Rasto Atrás
retrata um ajuste de contas com o passado do autor e seus
irreconciliáveis conflitos com o pai, ganhando uma encenação de
Gianni Ratto, em 1966, para o
Teatro Nacional de Comédia - TNC.
Outra montagem de sucesso do texto ocorre em 1995, sob a direção
de
Eduardo Tolentino de Araújo
para o Grupo TAPA, em São Paulo.
Em 1969,
surgem duas novas realizações do autor: As Confrarias, em
que flagra a vida das estratificadas sociedades eclesiásticas de
Vila Rica, tomadas como metáforas da pouca mobilidade social,
tendo como pano de fundo o ambiente do Brasil Colônia; e O
Sumidouro, na qual põe em cena o dramaturgo Vicente e o
bandeirante Fernão Dias. Ambas, pelas exigências cenotécnicas e
grande elenco, nunca foram encenadas profissionalmente.
A ditadura não deixa de inspirar
o autor: para a
Primeira
Feira Paulista de Opinião escreve
A Receita, encenação de
Augusto Boal,
em 1968; e em 1977 lança Milagre na Cela, proibida pela
Censura, porque exibe o estupro praticado por um delegado, além
da violência dos torturadores durante as sessões de sevícias de
uma freira. Baseada em fatos reais, o texto somente conseguirá
subir à cena em 1981, numa encenação carioca do grupo Barr.
Também em 1981, Jorge escreve um dos elos-atos da peça A
Corrente, sendo que os outros dois são de
Consuelo de Castro
e
Lauro César Muniz,
para um espetáculo com
Rosamaria Murtinho
e
Mauro Mendonça,
enfocando três casais entrelaçados por uma trama em comum.
Permanecem
inéditas algumas criações: As Colunas do Templo,
1952; Os Crimes Permitidos,1958; Os Vínculos,
1960; O Mundo Composto, 1972; A Zebra e A Loba,
ambas de 1978.
Os sérios
conflitos que manteve com o ambiente familiar, especialmente seu
pai, que não aceita nele a existência de um artista, motivam
Jorge Andrade a refletir, anos depois: "Então minha verdade saiu
da terra, cresceu e ultrapassou a mata. Percebi como devia ser
maravilhoso compreender, interpretar e transmitir! Partir da
minha casa, minha gente, de mim mesmo e chegar ao significado de
tudo, tendo, como instrumentos de trabalho, apenas as palavras e
a vontade".2 Fez então cumprir-se o destino que
traçou para si mesmo entre Proust e Rousseau, fazendo da
narrativa um reencontro com sua natureza perdida.
Pela
publicação de parte de sua obra, sob o nome de Marta, A
Árvore e O Relógio, em 1970, Jorge recebe o troféu Molière.
É reconhecido ao longo da carreira, através de algumas
premiações, tais como Prêmio Saci de melhor autor por A
Moratória, 1955, e por Os Ossos do Barão, 1963;
Prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais - APCT, de
melhor autor por Pedreira das Almas, 1958; A Escada,
em 1961; e Vereda da Salvação, 1964. No ano seguinte ganha, por Rasto
Atrás, o 1º lugar de melhor autor do Serviço Nacional de
Teatro - SNT.

Cena de "A
Vereda da Salvação"
É ainda o
criador de algumas telenovelas e casos especiais, com destaque
para Os Ossos do Barão, inicialmente em 1973 e regravada
em 1997, O Grito, 1976; As Gaivotas, 1979; O
Fiel e a Pedra, 1981; Os Adolescentes, 1981; A
Escada, 1981; Ninho da Serpente, 1982; e Mulher
Diaba, em 1983. Vereda da Salvação transforma-se em
filme, dirigido por Anselmo Duarte, em 1965.
Considerado um clássico da
dramaturgia moderna, Jorge Andrade é objeto de diversas teses
acadêmicas e ensaios que investigam aspectos inovadores de sua
grande e diversificada obra. Sobre ele, pronunciou-se o crítico
e ensaísta
Anatol Rosenfeld:
"No seu conjunto esta obra é única na literatura teatral
brasileira. Acrescenta à visão épica da saga nordestina a voz
mais dramática do mundo bandeirante. É única, esta obra, pela
grandeza de concepção e pela unidade e coerência com que as
peças se subordinam ao propósito central, mantido durante longos
anos com perseverança apaixonada, de devassar e escavar as
próprias origens e as de sua gente, de procurar a própria
verdade individual através do conhecimento do grupo social de
que faz parte e de que, contudo, tende a apartar-se,
precisamente mercê da própria procura de um conhecimento mais
aguçado e crítico, que situa este grupo na realidade maior da
nação".3
*****
PROCÓPIO
FERREIRA

Procópio Ferreira,
nome artístico
de João Álvaro de Jesus Quental Ferreira, (Rio
de Janeiro,
8 de julho
de
1898 —
Rio de Janeiro,
18 de junho
de
1979) foi
um
ator,
diretor de teatro
e
dramaturgo
brasileiro.
É considerado um dos grandes nomes do
teatro brasileiro.
Procópio descobriu
cedo o talento de envolver a plateia, arrastando aos seus
espetáculos contingentes de público de fazer inveja aos maiores
sucessos de hoje. Em 62 anos de carreira, Procópio interpretou
mais de 500 personagens em 427 peças.
Era filho de Francisco Firmino
Ferreira e de Maria de Jesus Quental Ferreira, ambos portugueses
naturais da
ilha da Madeira,
em
Portugal.
Ingressou na
Escola Dramática
do Rio de Janeiro a 22 de março de 1917. Representou mais de 450
peças, de todos os gêneros, desde o
teatro de revista
até a
tragédia grega.
Em toda a Historia do Teatro Nacional foi o ator que maior
número de peças nacionais interpretou e, que maior número de
autores lançou.
Procópio Ferreira atuava no
circo-teatro,
gênero que, se não foi criado no
Brasil,
aqui teve pleno desenvolvimento. Tratava-se de um circo que,
além de números de
acrobacias,
malabarismo
e
palhaçadas,
apresentava a adaptação de peças de
teatro.
Do circo-teatro passou às
comédias.
Procópio Ferreira dizia que o sucesso chegou quando ele parou de
pensar com a sua própria cabeça para pensar com a cabeça do
público.
Sua primeira
peça foi
Amigo, Mulher e Marido,
fazendo o papel de um criado, em
1917, no
Teatro Carlos Gomes.
Seu maior sucesso no teatro foi o espetáculo
Deus lhe Pague,
de
Joracy Camargo,
com o qual viajou o país inteiro e foi para o exterior.
Participou de mais de quatrocentas peças e teve uma carreira de
mais de 60 anos.
Um homem que vivia intensas
paixões, foi pai de 06 filhos. De seu primeiro casamento com a
artista Argentina Aida Izquierdo nasceu uma das mais importantes
atrizes e diretoras brasileiras,
Bibi Ferreira.
casou também com a grande atriz Norma Geraldy e com a atriz
Hamilta Rodrigues. do casamento com Hamilta Rodrigues nasceram
Maria Maria, João Procópio Filho e Francisco de Assis Procópio
Ferreira. De seu relacionamento com a atriz Lígia Monteiro
nasceu a Diretora e jornalista Lígia Ferreira. Do romance com a
musicista Celecina Nunez nasceu a cantora Mara Sílvia (nome
artístico de Mariazinha, como era chamada pelo pai). Um grande
Homem, pai e avo (Tina Ferreira filha de Bibi, João Procópio
Neto filho de Mariazinha, Bianca filha de Lígia Ferreira, Alice
Ferreira filha de Maria Maria e Alessandra Ferreira filha de
João Procópio Filho).
Atuação na televisão
Procópio
também fez
televisão
e participou das telenovelas
A Grande Viagem,
As Minas de Prata,
Redenção,
Dez Vidas
e
Divinas & Maravilhosas.
Atuação no cinema
- Mistério
do Rio
- Coisas
Nossas
- Pureza
- Berlim
na Batucada
-
Comprador de Fazendas
- Trevo de
Quatro Folhas
- O Homem
dos Papagaios (argumentos de Procópio)
- A Sogra
- Quem
Matou Anabela
- Romance
de uma Cidade
- Como
Ganhar na Loteria sem Perder a Esportiva
- Titio
Não É Sopa
- Em
Família
Obras
Peças de
teatro
- Briga em
Família
- Arte de
Ser Marido
- Banho de
Civilização
-
Convidado de Honra
- A Grande
Pantomima
- Não
Casarás
- Presente
do Céu
- Boca do
Inferno
- Família
do Antunes
Livros
- O ator
Vasques (O Homem a Obra)
- Arte de
Fazer Graça
- Como se
Faz Rir
- O que
Penso quando Não Tenho em que Pensar
FONTE:
WIQIPÉDIA
*****
LUIZ MARINHO

Um teatro essencialmente nordestino
Luiz Marinho
Falcão Filho (Timbaúba PE 1926 - Recife PE 2002). Autor. Seu
teatro é calcado na memória, seja pelo viés etnográfico e
sociológico no resgate dos costumes e da linguagem do matuto,
seja pelo viés mais íntimo das lembranças de sua infância e
adolescência na cidade de Timbaúba, recolhendo histórias,
situações e personagens de seu convívio cotidiano e familiar e
recriando-os em sua fatura dramática.
Transfere-se para o Recife, aos
18 anos, em 1944, com o objetivo de dar continuidade à sua
formação. Conclui sua primeira peça, Um Sábado em 30, provavelmente,
em 1960. A trama se concentra nas vicissitudes de uma família de
senhores de engenho de Timbaúba, durante a Revolução de 1930.
Utilizando-se da comicidade, Marinho apresenta criticamente os
hábitos da família patriarcal e os conflitos entre patrões e
empregados, revelando uma sociedade estagnada, presa a tradições
opressoras e a uma rígida estratificação social. A peça estreia
em 1963, no Teatro de Santa Isabel, apresentada pelo
Teatro de Amadores de Pernambuco - TAP,
com direção de
Valdemar de Oliveira.
Na excursão de Um
Sábado em 30 a São Paulo, em janeiro de
1964, o crítico
Décio de Almeida Prado
assim define o texto: "Eis aí a verdadeira perspectiva da peça:
a vida patriarcal brasileira vista não da sala de visita, mas da
cozinha, isto é, desvestida de sua suposta solenidade, mostrada
em seus termos reais, como o entrelaçamento sexual entre a
casa-grande e a senzala - ou o que restava de uma e de outra -
mais forte do que nunca".1
Em 1961, A Derradeira Ceia,
encenada por
Luiz Mendonça, com o
Teatro Experimental de Cultura - TEC, ganha o Prêmio Escola de
Belas Artes. O TEC, posteriormente denominado, a partir de 1962,
de Teatro de Cultura Popular - TCP, do Movimento de Cultura
Popular - MCP, estreia A Derradeira Ceia no Teatro do
Povo, e, em seguida, abre o 1º Festival de Teatro do Recife, no
Teatro de Santa Isabel. A peça é uma tentativa de Luiz Marinho
de humanizar a figura de Lampião e do Coiteiro. Nela, o papel
social dos personagens ganha uma importância expressiva,
mostrando, por exemplo, que o fato de Lampião ser um bandido
provém das circunstâncias em que vive. Por essa montagem,
Marinho recebe o Prêmio Vania Souto Carvalho de melhor autor
pernambucano de 1961, concedido pela Associação dos Cronistas
Teatrais de Pernambuco - ACTP; o prêmio de melhor peça
brasileira no 1º Festival de Teatro de Estudante do Nordeste, em
Caruaru, Pernambuco, em 1962, e inicia com Mendonça uma longa
parceria teatral que marca profundamente a trajetória do TCP,
assim como a carreira de Marinho e Mendonça.
A
Incelença estreia no Teatro de Santa Isabel, em 1962, com
direção de Mendonça, pelo TCP, e se torna uma das peças mais
populares de Marinho, montada por diversos grupos teatrais
amadores e profissionais no Brasil. A peça reúne pelo menos dois
aspectos reconhecíveis na obra marinha: o caráter etnográfico em
que resgata "a incelença" ou "sentinela", "velório no qual ao
lado dos sons de rezas cantadas, os participantes bebem, comem
e, contemplando os momentos de solidão, dialogam com
adivinhações, anedotas, resultando muitas vezes no falar comum
da vida alheia",2 e o pitoresco das situações e do
caráter dos personagens, além de conter uma contundente denúncia
social. O crítico Medeiros Cavalcanti comenta: "A Incelença
é uma excelência de peça. Talvez deva até exagerar: é uma
obra-prima - na raridade das obras one act play no Brasil. Em
outro país menos subdesenvolvido intelectualmente, bastaria esse
ato para colocar o Autor numa antologia. E dar-lhe dinheiro".3
Estórias do Mato,
que reúne as peças A Incelença e A Afilhada de
Nossa Senhora da Conceição (texto até então inédito), é
apresentada em 1963, pelo TCP. A direção é de Mendonça e
José Wilker trabalha
como assistente de direção. A Afilhada de Nossa Senhora da
Conceição é a peça preferida de Marinho por ter sido
originada de algumas estórias de Troncoso contadas por sua ama
Davina (a quem o autor dedica a obra). Além disso, o dramaturgo
se baseia em folhetos de cordel e outros "causos" ouvidos e
anotados em sua juventude.
Em A
Afilhada, uma jovem noiva é prometida ao diabo por sua mãe,
que não aceita o pretendente escolhido pela filha. No dia do
casamento, o diabo em pessoa vem buscar a moça, que é salva
graças à intervenção de Nossa Senhora da Conceição, de quem é
afilhada. Marinho retoma o mesmo enredo em 1985, em forma de
musical, em A Valsa do Diabo. Não são obras distintas,
mas diferentes registros sobre um mesmo tema.
A quinta peça
de Marinho, Viva o Cordão Encarnado, uma comédia em
dois atos, que discorre sobre a vida de um grupo de artistas
populares, profissionais de um pastoril de ponta de rua, é
levada à cena pelo Teatro Universitário de Pernambuco - TUP, em
1968.
No primeiro
ato, esses artistas são apresentados no dia a dia, fora do
ambiente de trabalho, ao mesmo tempo em que se envolvem em
diversos quiproquós durante as comemorações do aniversário do
velho do pastoril. No segundo ato, encontram-se esses mesmos
personagens em noite de festa, durante uma função de pastoril em
que a própria estrutura do folguedo reverbera na urdidura da
peça: ao final, ganha novo sentido com o nascimento do filho da
mestra do pastoril que espelha o nascimento do menino Jesus, tal
como na versão sacramental do folguedo, mas de maneira paródica.
Tudo isso perpassado por uma intriga de paixão e ciúme
envolvendo o velho do pastoril, sua esposa e um cabo de polícia.
Sob a direção
de Clênio Wanderley, a encenação recebe os prêmios Vania Souto
Carvalho e Samuel Campêlo; e também participa do 5º Festival
Nacional de Teatro de Estudantes, no Rio de Janeiro, no qual
Marinho conquista o prêmio de melhor autor e Wanderley, o de
melhor diretor.
Ainda nesse
ano, a Universidade Federal de Pernambuco publica Um Sábado
em 30, A Incelença e A Afilhada de Nossa
Senhora da Conceição em um único volume.
Viva o
Cordão Encarnado conquista, em 1970, o Prêmio Artur
Azevedo, concedido pela Academia Brasileira de Letras - ABL, e
ganha nova versão cênica em 1974, no Rio de Janeiro, mais uma
vez sob a batuta de Luiz Mendonça, com o Grupo Chegança. Por
essa montagem, Mendonça e Marinho recebem respectivamente o
Prêmio Molière de melhor diretor e autor. Com esse prêmio, Luiz
Marinho realiza sua primeira e única viagem à Europa, onde
profere palestra na Universidade de Toulouse e visita as cidades
de Paris e Roma.
Nos anos 1980, Marinho escreve
três textos infantis: A Família Ratoplan, A
Aventura do Capitão Flúor, no Reinado do Dente Cariado e
Foi um Dia. Ainda nessa década, o Teatro de Amadores de
Pernambuco - TAP encena mais um original de Marinho: A
Promessa. Com direção da atriz
Geninha Sá da Rosa Borges
e pesquisa musical do próprio autor, o espetáculo estreia em
outubro de 1983. Conta as peripécias de Sebastiana, narradas
pela própria protagonista, que, por ciúme do marido, se envolve
em uma série de confusões. A estrutura dramática do texto se
baseia na narrativa dentro da narrativa, utilizando-se de
flashback e extraindo sua comicidade de mal-entendidos causados
pelos diferentes usos da linguagem por parte do homem da cidade
e do homem da zona rural. Em 1987, Marinho escreve O Último
Trem para os Igarapés, publicado nesse ano na revista
Palco Nordestino.
O TAP encena
A Estrada em 1995. A peça é divida em três atos,
escritos cada um em um gênero (drama, comédia e tragédia), com
uma história diferente, tendo em comum a fé dos romeiros como
tema. Os personagens dessas histórias se encontram na estrada, a
caminho de Juazeiro do Norte, aonde vão a fim de pagar
promessas. Esse texto é escrito entre 1992 e 1994, publicado no
ano de sua montagem pela Academia Pernambucana de Letras, junto
com Corpo Corpóreo, de 1992. Provavelmente em 1997,
Marinho escreve As Três Graças, sua última peça.
Para Anco
Márcio Tenório Vieira, todas as peças de Marinho, por mais
diversificadas que sejam em temas, ambientes, gêneros e estilos,
possuem algo em comum: "Elas constituem o que podemos chamar de
memórias marinhas. Memórias ficcionalizadas, entenda-se bem,
pois seu teatro encerra um conjunto de lembranças - domésticas,
sociais, políticas, afetivas, culturais e religiosas - que ao
tempo em que foram diluídas em 14 textos, são também costuradas
e entrelaçadas por um delicado fio: o do olhar de um Luiz
Marinho adulto sobre a criança e o jovem que um dia fora; um
Marinho solipsista que busca dar sentido à sua existencialidade
e, por sua vez, a todo o universo que o cerca e que o viu
nascer, crescer, tornar-se adulto, envelhecer e caminhar para a
morte".
FONTE: ITAÚ
CULTURAL
JOÃO CAETANO:
"O Mestre Aprendiz do Teatro Brasileiro"

João Caetano dos Santos nasceu em 27 de
janeiro de 1808 em Itaboraí, no Rio de Janeiro.
Começou sua carreira como amador, até que
em 24 de abril de 1831 estreou como profissional na peça "O
Carpinteiro da Livônia", mais tarde representada como Pedro, o
Grande.
Apenas dois anos depois, em 1833, João
Caetano já ocupava o teatro de Niterói junto com um elenco de
atores brasileiros. Assim iniciava a Companhia Nacional João
Caetano.
O ator também exerceu as funções de
empresário e ensaiador. Autodidata da arte dramática, seu gênero
favorito era a tragédia, mas chegou a representar papéis
cômicos.
Além de atuar em muitas peças, tanto no Rio
como nas províncias, João Caetano publicou dois livros sobre a
arte de representar: "Reflexões Dramáticas", de 1837 e "Lições
Dramáticas", de 1862.
Em 1860, após uma visita ao Conservatório
Real da França, João Caetano organizou no Rio uma escola de Arte
Dramática, em que ensino era totalmente gratuito. Além disso,
promoveu a criação de um júri dramático, para premiar a produção
nacional. Dono absoluto da cena brasileira de sua época, morreu
a 24 de agosto de 1863, no Rio de Janeiro.
O pesquisador J. Galante de Souza (O Teatro
no Brasil, vol.1) considera que o ator, "um estudioso dos
problemas da arte de representar, e dotado de verdadeira
intuição artística, reformou completamente a arte dramática no
Brasil".
Antes dele, a declamação era uma espécie de
cantiga monótona, como uma ladainha. Ainda segundo J. Galante,
"João Caetano substituiu aquela cantilena pela declamação
expressiva, com inflexões e tonalidades apropriadas, ensinou a
representação natural, chamou atenção para a importância da
respiração e mostrou que o ator deve estudar o caráter da
personagem que encarna, procurando imitar, não igualar, a
natureza".
João Caetano criou um perfil para o ator
brasileiro, tendo sido um ator excepcional, dentro e fora do
palco. Tornou-se um mito, um "herói cultural", através de sua
dedicação e de seu trabalho. Nunca um ator foi tão biografado no
Brasil como João Caetano.
A carreira de João Caetano abria um leque
muito variado de possibilidades, em um tempo onde as condições
do teatro no Brasil eram muito precárias, tanto do ponto de
vista do repertório, na maior parte constituído por traduções de
gosto, qualidade e fidelidade duvidosos, quanto do ponto de
vista da produção. Basta lembrar que o principal teatro do Rio,
na época, queimou 3 vezes em 50 anos. Foi Teatro São João,
depois São Pedro de Alcântara, Constitucional Fluminense e
novamente São Pedro, seguindo as vicissitudes políticas do
império. Foi demolido neste século para dar lugar ao atual João
Caetano.
João Caetano partia do nada, quase do zero
absoluto. Era um ator que começava num país que também dava os
primeiros passos, onde tudo se mostrava virgem, desde o teatro
até a nacionalidade. O leitor que tinha em mente devia ser
sobretudo ele mesmo, já que ninguém necessitava mais de lições
do que esse aprendiz improvisado em mestre.
Tinha João Caetano certa parecença física
com Napoleão, o que deve tê-lo ajudado na carreira, ainda que de
modo secundário. De alguma forma esta parecença deveria
mobilizar as imaginações de então, uma vez que a França era o
modelo de civilização e história que desejamos seguir e
alcançar. Foi cadete, tendo servido na guerra Cisplatina. Esta
experiência em campo de batalha certamente o ajudou, de acordo
com o reconhecimento de críticos seus contemporâneos, na
montagem de cenas militares, que eram uma das chaves do sucesso.
Além disso, sempre encarou a vida teatral como um campo de
batalha, onde se lutava tanto por idéias como por espaço. João
Caetano lembra o fato de que quase enforcou sua companheira de
vida em cena para justificar a idéia de que o ator jamais pode
se deixar levar pelo papel.
João Caetano era homem de formação e decoro
clássicos. Nesses termos conseguia sua atividade como ator e
suas reflexões sobre ela. Já em 1838, recebia medalha de bronze
consagrando-o como o - Talma Brasileiro -, equiparando-o,
portanto, a um ator da linhagem clássica. Entretanto o que
encantava a platéia eram seus arroubos, tocados de entusiasmo,
era, em suma, o demônio ou gênio romântico que deixava passar
por entre o pretendido equilíbrio de inspiração clássica.
João Caetano foi uma espécie de factótum do
teatro brasileiro. Foi ensaiador, encenador e empresário, além
de ator. Na época não era muito grande o número de atores
letrados. Eram poucos também os que conseguiam ter uma visão
globalizante do fenômeno teatral, do texto ao palco e da
bilheteria ao bastidor.
Em 1833, João Caetano já organizava sua
própria companhia, constituindo com ela a primeira companhia de
atores nacionais, coisa que sempre alardeou em seu estilo
bastante vaidoso. Leve-se em conta que tudo era muito precário,
no Brasil e no teatro. Em algumas cidades havia casas de
representação sofríveis, em outras barracões ou tablados
improvisados, quando muito. Nos fins do século XVIII e ainda nos
começos do século XIX não era incomum os atores serem
ex-escravos, dedicados, porém sem formação. Mulheres em cena
eram raras, e com fama de serem libertinas, depois do edito de
D. Maria I que as proibira de representar. Muitas vezes eram
substituídas por atores masculinos, com resultados visíveis:
conta-se de uma Julieta, em Minas Gerais, de tranças loiras e de
pele escura, de voz de homem e avantajada envergadura. As
montagens sucediam-se rapidamente, com peças mal traduzidas, mal
ensaiadas e freqüentemente, portanto, mal representadas.
Para enfrentar esta situação, João Caetano
preconizava uma junção da comedie francaise com o tradicional
mecenato da corte portuguesa, que D. João trouxera para o
Brasil. Ele não tinha em mente em toda sua extensão, a imagem de
um estado paternalista em relação às artes, imagem que depois se
tornou tão comum no Brasil. Imaginava algo mais simples, um
mecenato no sentido estrito, uma espécie de proteção
esclarecida. Isso não era novidade no universo intelectual
brasileiro. João Caetano conseguiu concretizar em partes seu
ideal de teatro. O São Pedro lhe é afinal cedido, junto com uma
subvenção de, primeiro, dois contos de reis ao mês, depois três,
mais tarde quatro. Dali reinou sobre a platéia mais numerosa da
corte que, por ironia do destino, era, em sua maioria, de
portugueses ou portugueses naturalizados.
Fonte:
Interpalco
*****
Teatro de
Amadores de Pernambuco - TAP
Data/Local
1941 - Recife PE

Histórico
Criado pelo médico
Valdemar de Oliveira, o Teatro de Amadores de Pernambuco
surge no Recife, em 1941. Hoje, consolidado no decorrer de seis
décadas de intensa atividade, é uma honorável instituição não
somente para o teatro recifense, mas também para as artes
cênicas do Brasil.
Atuante no Grupo Gente Nossa, conjunto profissional
pré-moderno fundado em 1931, por Samuel Campêlo e Elpídio
Câmara, Valdemar de Oliveira é convidado a realizar uma "hora
d'arte", nos festejos comemorativos do centenário da Sociedade
de Medicina de Pernambuco. Propõe e realiza, então, a montagem
de uma obra teatral com médicos, esposas e familiares. A peça
Knock, ou O Triunfo da Medicina, de Jules Romains,
estreia em 1941, no Teatro de Santa Isabel, e, por conveniência
administrativa, aparece como uma produção do Grupo Gente Nossa.
Somente na montagem seguinte, Primerose, de Robert de
Flers e Gaston Arman de Caillavet, a identidade do Teatro de
Amadores de Pernambuco - TAP é instituída, embora ainda como
"departamento amador" do Gente Nossa. E, em 1945, finalmente o
TAP se torna um grupo autônomo, independente do Gente Nossa.
Desde seus primeiros espetáculos, o TAP reúne figuras da alta
sociedade recifense em torno de um programa de encenação de
textos que se distanciam do repertório comercial, comum tanto às
companhias do Sudeste que visitam o Recife quanto aos grupos
atuantes locais. Cria e mantém com sucesso um "teatro de
cultura", aliando "amadorismo teatral à filantropia" e mudando a
fisionomia do teatro pernambucano.
Para
Antonio Cadengue, estudioso da trajetória do TAP, a história
desse grupo pode ser dividida em cinco fases distintas: 1) "Os
Anos de Aprendizagem", entre 1941 e 1947; 2) A Renovação da Cena
- 1948 a 1958; 3) "A Consolidação da Cena", de 1959 a 1965; 4)
"A Ordenação do Passado", entre 1966 e 1976; e, por fim, 5) a
fase "Da Cena Refletida", a partir de 1977.
Na primeira fase, o grupo se desenvolve técnica e
artisticamente de maneira expressiva: monta 21 peças, realiza
excursões a Natal e Fortaleza, em 1941, Salvador, em 1944, e
Maceió, em 1946, e conta com o apoio da crítica, que reconhece o
alto nível artístico alcançado. Nesses anos, o TAP renova o
repertório e educa a si mesmo e ao público para receber o
"grande teatro universal". Continua, entretanto, a usar o ponto,
os velhos telões pintados e o elenco é sempre escolhido em
função do physique du rôle.
O clima de "velho teatro" é quebrado, em 1944, com a montagem
de A Comédia do Coração, de Paulo Gonçalves, com
direção do polonês Zygmunt Turkow. Antes dele, o TAP conhece
apenas a figura do ensaiador, só depois a função do encenador e
as possibilidades da iluminação teatral são descobertas e
utilizadas. Daí até 1947, o TAP torna seus espetáculos mais
refinados, prevalecendo uma tendência realista. Delineia-se uma
das características do grupo que permanece até os dias de hoje:
o ecletismo do repertório.
Nessa fase, além de Jules Romains, Robert de Flers e Gaston
Arman de Caillavet e Paulo Magalhães, o grupo leva à cena os
seguintes autores: Oscar Wilde, Bayard Weller, Silvano Serra,
Sutton Vane, Henry Kistemaeckers,
Oduvaldo Vianna, Somerset Maugham, Eugène Brieux, Henry
Bordeaux, Maurice Maeterlinck, Alfred de Musset, Marcel Pagnol,
Alejandro Casona, Georg Kaiser e Leonhard Frank. Com exceção de
A Comédia do Coração, as demais montagens foram
assinadas por Valdemar de Oliveira.
De 1948 a 1958, empreende a superação do autodidatismo que
limita o avanço do grupo na modernidade teatral. O lema é
realizar espetáculos benfeitos tecnicamente e acompanhar os
movimentos estéticos europeus. Para essa renovação da cena, o
TAP contrata diversos encenadores de outras regiões do Brasil:
Adacto Filho, em 1948;
Ziembinski, 1949; Willy Keller, 1951; Jorge Kossowski, 1952;
Graça Mello, 1953 e 1957;
Flaminio Bollini, 1955;
Bibi Ferreira, 1956; e
Hermilo Borba Filho, 1958 - pernambucano que desde 1953
reside em São Paulo. É o momento mais ousado do grupo, pela
atualização artística que promove no palco e pela formação de
uma plateia capaz de compreender suas inovações.
A passagem de Adacto Filho gera debates e controvérsias,
estimulando o ambiente teatral do Recife. Mesmo que a renovação
trazida por ele ao TAP tenha sido sutil e seus processos de
encenação ainda sejam à moda antiga (constrói um espetáculo em
pouco tempo, confiando no apoio do ponto), percebe-se que, com
ele, o repertório dramático sofre uma mudança. Além disso,
Adacto Filho introduz algumas lições de mise en scène que são
aprendidas por Oliveira: a maneira de o encenador levar os
atores a compor diferentes tipos, a técnica de "levantar"
diálogos e marcas, a gesticulação precisa e a mobilidade das
máscaras faciais.
Em 1948, após a apresentação de dois espetáculos dirigidos
por Adacto Filho, ex-integrante de
Os Comediantes, Hermilo Borba Filho, em texto crítico,
aponta uma sintonia entre esse grupo carioca e o conjunto
liderado por Oliveira: "Quando alguém for escrever a história do
teatro brasileiro, necessariamente terá de dar um saltinho até
aqui em Pernambuco e procurar documentar-se em tudo quanto diga
respeito às atividades do Teatro de Amadores, pois esse conjunto
é, sem favor, um dos pioneiros no movimento de renovação que se
processou nos processos teatrais do país. Lembro-me que, sete
anos atrás, quando os comandados de Valdemar de Oliveira
montaram Knock, de Jules Romains, Os Comediantes no
Rio, haviam apresentado ou iam apresentar, por sua vez, A
Verdade de Cada Um, de Luigi Pirandello, sob a direção de
Adacto Filho se não estou enganado. Responsabilizaram-se, assim,
os dois grupos - o do Norte e o do Sul - pelo início de uma fase
que está levando o teatro brasileiro a alturas ainda não
atingidas. [...]. O grupo dirigido por Valdemar de Oliveira
criou - não resta dúvida - uma mentalidade diferente no Recife,
com relação às coisas da arte dramática".
O TAP contrata, em 1949, Ziembinski, que encena três peças:
Nossa Cidade, de Thornton Wilder; Pais e Filhos,
de Bernard Shaw; e Esquina Perigosa, de J. B. Priestley.
Para Oliveira, no primeiro espetáculo concebido por Ziembinski
há um equilíbrio entre encenação e desempenho; no segundo,
desencontro entre cenário e texto; e, no terceiro, harmonia de
todos os seus elementos. Em quase dez meses de
permanência no Recife, Ziembinski modifica o ambiente teatral da
cidade: além de seu trabalho com o TAP, ministra cursos e monta
espetáculos no Teatro Universitário de Pernambuco.
Depois de Ziembinski, Graça Mello é o mais produtivo
encenador contratado pelo TAP, e dá ao grupo uma contribuição
importante: traz para o elenco a naturalidade artística na
interpretação. Suas montagens são bem recebidas pela crítica
teatral, que destaca sua habilidade como encenador, dominando
todos os elementos que compõem um espetáculo, da cenografia à
interpretação.
Em 1955, a montagem de Vestido de Noiva pelo
italiano Flamínio Bollini suscita debates entre a crítica e
entre o público. Diretor detalhista, seu rigor com a encenação é
comparado ao de Ziembinski. Bollini arma um espetáculo em que os
três planos da peça - realidade, memória e alucinação - se
intercambiam, criando cenas de impacto visual e gerando certa
dificuldade na compreensão do enredo. Para o dramaturgo
Ariano Suassuna, na época crítico do Diario de
Pernambuco, Vestido de Noiva, como espetáculo, é a
culminância da trajetória do TAP.
Borba Filho é contratado pelo TAP como encenador em 1958. Na
década de 1940, ele dirige o Teatro do Estudante de Pernambuco -
grupo que se opunha ao caráter elitista do teatro feito por
Oliveira. Dezessete anos após sua fundação, o TAP se encontra em
plena maturidade e leva ao palco um texto que discute o próprio
fazer teatral: Seis Personagens à Procura de um Autor,
de Luigi Pirandello. Em seguida, Borba Filho encena Onde
Canta o Sabiá, de Gastão Tojeiro. No programa da peça, ele
explica que pretende fazer "uma caricatura sentimental de uma
época". Na construção desse espetáculo se utiliza de formas
teatrais antigas - como aquelas contra as quais o TAP se insurge
na época de seu aparecimento. Esse procedimento sinaliza que o
grupo evoluíra a ponto de poder brincar com um passado que
também é seu.
O TAP se firma no Recife e no Brasil. Chega a ter um elenco
como o das melhores companhias profissionais do país. Seu
repertório, embora oscilante e eclético, permite ao conjunto se
exercitar em diversos gêneros teatrais, e nele prevalece o
drama: uma aproximação com o cômico pressupunha se avizinhar da
chanchada - gênero combatido pelo grupo desde o início.
Na primeira excursão ao Rio de Janeiro, em 1953, a crítica
carioca elogia o TAP que se apresenta como aquele que deseja
mostrar o teatro amador que se faz em Pernambuco. A imprensa
rende-se à qualidade do trabalho do grupo e
Paschoal Carlos Magno pergunta: "Criticar? Mas criticar o
quê?". Tudo era harmonioso, o elenco "tão bom quanto" os
melhores que se possuía no campo profissional, disciplina
artística impecável e espírito de equipe. Os senões, mínimos, e
quando levantados, outros elogios os equilibravam. De volta ao
Recife, o TAP é declarado de "utilidade pública", pelo governo
do Estado.
De 1959 a 1965, terceira fase do TAP, busca-se preservar as
conquistas do período e procura-se manter um equilibrado
rendimento artístico entre a encenação e o texto. O grupo
realiza montagens eficazes, porém convencionais, cujo resultado
já não provoca o mesmo choque estético de antes.
Nessa fase, um dos espetáculos que merecem destaque é O
Pagador de Promessas, de
Dias Gomes, dirigido por Graça Mello. Quase todos os
cronistas afirmam que o TAP necessitava do arejamento propiciado
por essa montagem. Com novos atores, nova peça, novos processos
de representar, o grupo se encaminha para uma linha teatral
revitalizada, além de se voltar à realidade brasileira, saindo
das constantes opções pelo teatro estrangeiro.

No entanto, nesse período, a montagem mais polêmica, e
decerto a de maior êxito, parece ser Um Sábado em 30,
de
Luiz Marinho, com direção de Valdemar de Oliveira, em 1963.
Parte considerável da crítica aprova o texto de Marinho, mas
questiona as opções estéticas do diretor no que diz respeito à
encenação e, sobretudo, à adaptação do texto. Segundo os
críticos, Oliveira transgride as feições originais do texto de
Marinho, lendo-o em chave histriônica, aproximando a montagem da
chanchada - contrariando as concepções anteriores do grupo - e
diluindo a seriedade e a crítica social implícitas na peça.
Apesar das críticas, o espetáculo se torna sucesso de público,
fazendo parte ainda hoje do repertório do TAP.
(FOTO: A "prima-dona" Diná de Oliveira)
No jubileu de prata do TAP, o crítico teatral
Adeth Leite, do Diario de Pernambuco, ressalta a
importância decisiva do grupo para o desenvolvimento das artes
cênicas na região: "Muito já se disse, mas não cansa repetir que
não fora o TAP muitos dos melhores originais da literatura
teatral universal jamais seriam conhecidos do público do Recife.
A semente brotou, criou raízes e deu bons frutos. E a verdade,
queiram ou não os inimigos gratuitos do TAP, é que o
historiador, ao escrever a arte cênica em Pernambuco,
forçosamente terá de citar a frase fatal 'antes e depois do TAP'
".
O espetáculo TAP - Ano 25 leva ao palco a principal
característica do grupo entre 1966 e 1976: a nostalgia. É
o período da "ordenação do passado", segundo Cadengue. O olhar
retrospectivo baliza diversas montagens e, sobretudo,
remontagens. Deslocando a saudade de si mesmo para outros
espaços e tempos, o TAP encena peças que vão da belle époque
parisiense a Portugal e Espanha "armoriais" ou aos Estados
Unidos em fins do século XIX. Isso sem falar de um Rio de
Janeiro na década de 1920 e outro na década de 1950, em incursão
também por uma Bahia longínqua.
Essa amostragem passadista tem algo de positivo: tanto
apresenta a síntese das conquistas formais (e já em desuso) do
TAP quanto possibilita parâmetros de leituras comparativas.
Também é provável que, ante a escassez de movimentação cultural
imposta pela ditadura militar reinante no país, se torne
importante esse levantamento do imaginário tapiano, para que se
dê - como de fato acontece - o surgimento de diversos
contrapontos teatrais. À margem desse retorno ao passado, o
presente se alegoriza em montagens que trazem importante
atualização estética. Agora, Valdemar de Oliveira concentra suas
forças para fazer o grupo sobreviver às intempéries de tempos de
instabilidade política, estética e social. E, como a dar provas
do instinto de sobrevivência, monta, nesses anos, 21 peças e um
show carnavalesco; inaugura, em 1971, sua casa de espetáculos, o
Nosso Teatro; funda o TAP-Júnior e, em excursão, vai até Manaus.
Talvez a mais importante montagem dessa fase tenha sido
Odorico, o Bem Amado, de Dias Gomes, com estreia nacional
da peça em 1969, dirigida por Alfredo de Oliveira.

Com a morte de Valdemar, em 1977, seu filho, o ator Reinaldo
de Oliveira, assume a direção geral do conjunto. Três anos
depois, o Nosso Teatro se incendeia, só reabrindo, ampliado, em
1982, agora com o nome de Teatro Valdemar de Oliveira.
Entre 1977 e 2008, na fase da "Cena Refletida", o grupo busca
retomar suas antigas diretrizes. Embora com lucros investidos em
filantropia, o TAP não perde de vista o mercado, procurando
encenar peças de bom nível e de bom gosto. Voltam as tragédias
lorquianas, o teatro regional, o realismo norte-americano, o
bulevar, o suspense, a comédia de costumes e a peça de tese.
Geninha Sá da Rosa Borges monta Yerma, de Lorca, em
1978, e Jogos na Hora da Sesta, de Roma Mahieu, em
1979. Na primeira, uma repercussão que há muito não se via em
relação aos espetáculos do TAP; na segunda, pela temática e pela
cena, um "abalo sísmico" dentro do tradicionalismo do grupo.
Entretanto, o maior destaque do período é a encenação de Se
Chovesse Vocês Estragavam Todos, de Tânia Pacheco e
Clovis Levi, direção de Adhelmar de Oliveira Sobrinho, em
1983.
O sucesso do TAP no decorrer de sua história se explica,
sobretudo, pela habilidade de Valdemar de Oliveira ao dosar
qualidade artística com o gosto do público que ele formou. Sua
receita é "dois passos à frente, um passo atrás, para melhor
consecução dos planos traçados". O ideário
estético-ideológico do TAP se constrói sobre o discurso da
qualidade artística, calcado em uma compreensão moderna do
teatro e na encenação de peças de comprovado valor dramatúrgico;
o discurso do saneamento da cena, combatendo primeiramente as
chanchadas e, depois, os "profanadores" e "criminosos" que
desfiguram obras alheias na modernidade teatral; e o discurso da
"nutrição intelectual" e "moral", isto é, da formação do
público, empenhado em dar ao espectador um cardápio que lhe
modifique o paladar, estragado pela televisão e pelo
afrouxamento dos laços familiares.
Mas a longevidade do grupo, independentemente do prestígio
institucional que sempre gozou, deve-se, acima de tudo, à
qualidade do teatro que realiza, como reconhece
Décio de Almeida Prado: "O Teatro de Amadores de Pernambuco,
fundado na década de 1940 pelo médico, professor e crítico de
arte Valdemar de Oliveira (1900 - 1977), representava o papel de
um TBC menor, valendo-se fartamente de um repertório
estrangeiro, importando do Sul encenadores europeus (lá
estiveram Ziembinski e Bollini), buscando e achando com
freqüência o ponto exato de equilíbrio entre o profissionalismo
e sem abandonar o regime de temporadas esporádicas, o TAP
assegurou, com admirável pertinácia, até os dias de hoje a
continuidade da vida teatral pernambucana, mantendo sempre alto
o nível de interpretação e chegando até mesmo a construir - e a
reconstruir, após um incêndio - a sua própria sala de
espetáculos, num exemplo único de junção entre desinteresse
amador e as responsabilidades econômicas do profissionalismo".
FONTE: Enciclopédia Itaú Cultural
*****
Nota de
Falecimento

PREZADOS AMIGOS.
É
COM IMENSO PESAR QUE COMUNICO O FALECIMENTO DO NOSSO QUERIDO
CENÓGRAFO, PROFESSOR, COLEGA E AMIGO CYRO DEL NERO, EM SÃO
PAULO.
O
SEU VELÓRIO SERÁ REALIZADO HOJE (31/07/2010), A PARTIR DAS 10
HORAS, A PEDIDO DELE, NO CREMATÓRIO DE GUARULHOS QUE FOI
CENOGRAFICAMENTE CRIADO PELO MESMO.
ENDEREÇO:
CEMITÉRIO PRIMAVERAS, AV. OTÁVIO BRAGA DE MESQUITA, N° 3601 –
JD. TABOÃO EM GUARULHOS.
PEÇO
QUE VOCÊS DIVULGUEM PARA O MAIOR NÚMERO DE PESSOAS, EM HOMENAGEM
A ELE.
Cyro del Nero
deixa saudades
Conheça
um pouco da trajetória deste grande homem
por
Denise Pitta

Aos 78
anos morre Cyro del Nero, deixando grande legado cultural
Professor Titular de Cenografia e
Indumentária Teatral da Pós-Graduação da Escola de Comunicações
e Artes da Universidade de São Paulo, USP, em seu estúdio,
Ciro del Nero, com seu extenso
e valioso acervo, apresentava aos alunos o mundo das artes, da
moda, da cenografia, do teatro, televisão e, também da história
e cultura da Grécia. Hoje sua voz se calou, mas sua extensa
obra, seus livros e a mensagem de culto à beleza e à arte em
suas várias manifestações, inclusive à magia da cultura helênica
permanecerá entre nós, como um patrimônio dos brasileiros.
Este paulista
nascido no Brás, em 28 de dezembro de 1931, filho de imigrantes
italianos, foi atraído desde cedo pelo teatro, tornando-se amigo
de grandes atores e atrizes, escritores teatrais e expoentes da
cenografia, dirigiu-se ainda muito jovem para a Grécia, onde
viveu por três anos, percorrendo ainda outros países da Europa.
Voltando ao Brasil, primeiro pensou em ser ator, mas o talento
para a cenografia sobrepujou esse interesse, passando a
trabalhar nas montagens de obras importantes. Na recém-surgida
televisão, seu papel foi marcante, havendo trabalhado em
diversas emissoras.
Em 1960, com
Lívio Ragan e Alceu Pena inovou com a criação de espetáculos de
moda, que trouxeram solidez e profissionalismo à então nascente
moda brasileira, que, também divulgou no exterior.
Mas, para nós do
Fashion Bubbles,
Ciro del Nero foi o expoente de grandeza que, como todo homem
verdadeiramente importante, não hesita em emprestar um pouco do
seu brilho a quem está começando, tanto que aceitou o nosso
convite para participar do site, oferecendo mais de
50 crônicas inéditas,
e com isso, sua importância, o peso de seu nome no mundo da
cultura nacional.
Foi com a
maior afabilidade que nos recebeu, permitinodo-nos
maravilhar-nos diante do acervo que expunha em seu estúdio
aceitando participar de um site que estava começando.
Sentimo-nos como se seus alunos fôssemos, num curso de
pós-graduação na vida diária de um site, com ele aprendendo não
só sobre arte teatral, cultura helênica, moda, mas
principalmente sobre a arte de ser um homem pleno, generoso e
participante de tudo que pertence ao universo do humano.
Sentiremos
saudades do amigo, do mestre, do intelectual que partilhou
conosco o privilégio do conhecimento e da amizade. Vai em paz,
Ciro Del Nero!
Biografia – Conheça um pouco do trabalho do Cyro del
Nero
Do G1, em São
Paulo

Imagem do site
EPTV.com
“(…) dessa atividade divina que
é o teatro, porque foi o teatro que gerou a religião.
A ação do ator é a realização da vida verdadeira. (…)”
Cyro del Nero
Além de passar pela
TV Record, Tupi e Excelsior, ele foi diretor de arte da TV Globo
e responsável por diversas aberturas de novelas, além de criar
as aberturas, vinhetas e o cenário dos números musicais do
“Fantástico” na década de 1970. Eles são considerados os
primeiros videoclipes musicais produzidos no país.
Dentre os seus
trabalhos, merecem destaque as aberturas da novela “Gabriela”
(1975) e do infantil “Vila Sésamo”.
Também fez os
logotipos do primeiro “Roberto Carlos Especial”, de 1974, do
folhetim “O espantalho” (exibido na Record, em 1977) e da TV
Bandeirantes. O desenho atual é uma variação do modelo criado
por ele no começo dos anos 1980.
Dentre os números
musicais que produziu, “Gita”, de Raul Seixas, é marcante.
Criado em 1974, ele serviu de modelo para todos os outros feitos
pelo “Fantástico”. Pela inovação de “Gita”, o cenógrafo disputa
com Nilton Travesso o título de “primeiro videoclipe
brasileiro”.
Del Nero foi
considerado o melhor cenógrafo nacional da 5ª Bienal de Artes
Plásticas de São Paulo e também era professor titular da
Universidade de São Paulo dos cursos de cenografia e
indumentária teatral na USP.
Livros

Em “Máquina
para os deuses: anotações de um cenógrafo e o discurso da
cenografia”, o autor Cyro del
Nero discute as origens da arte cenográfica e sua evolução,
registrando a criação e a utilização de cenários e de diversas
máquinas e dispositivos mecânicos com que, ao longo do tempo,
tornou-se possível desde abrir e fechar cortinas até erguer e
deslocar atores e elementos do cenário, de maneira a criar uma
impressão específica.
Neste aspecto, a cenografia
pode ser entendida como a arte de
organizar plasticamente o palco, dominando seus aspectos em
todos os tipos de representação: dramática, lírica ou
coreográfica. Partindo da
cena, a cenografia se envolve com o edifício teatral, com a
cidade e, muitas vezes, ganha interesse no espaço público. Farto
em documentação iconográfica, o livro traz desenhos de projetos
cenográficos do autor, de modo a exemplificar a importância da
cenografia e a complexidade dos recursos existentes atualmente.
Evoluindo com o teatro
ao longo de séculos, a técnica
cenográfica ganhou novas aplicações com a chegada do cinema e da
televisão,
tornando-se indispensável também na organização de feiras e
eventos. Em Máquina para os Deuses: anotações de um cenógrafo e
o discurso da cenografia, Cyro Del Nero narra a história dessa
arte e o início de sua relação pessoal com ela, abordando também
inovações recentes e caracterizando-a como uma ‘nova mídia’ da
atualidade. ( Fonte: blog
Cultureba
)

Com ou Sem a Folha da Parreira – A
Curiosa História da Moda é um
panorama humanista da moda em todos os séculos, desde o primeiro
gesto do ser humano primitivo ao cobrir-se até o produto
sofisticado da arte da costura, que, em poucos metros de tecido,
realiza uma obra de arte individual assinada.
O roteiro da
História da Moda está cheio de curiosidades e transformações,
mutações, reformas e recuperações em um retrato polimorfo em
constante metamorfose, que é a essência mesma da moda.
O panorama
apresentado por Cyro Del Nero não dispensa uma visão bem
humorada e irônica das mutações periódicas do vestir, a
constante recuperação do passado e seu constante abandono. Com
ou Sem Folha da Parreira descreve-nos as diferentes nuances da
moda que são manifestações da insatisfação humana com o dejá vu
e o irresistível desejo de alterar e criar uma nova persona, e
como isso tem sido feito nos últimos 3 mil anos.
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