O TEATRO E SUA HISTÓRIA (Brasil)

JORGE ANDRADE

Aluísio Jorge Andrade Franco (Barretos SP 1922 - São Paulo SP 1984). Autor. Um dos mais expressivos dramaturgos paulistas e brasileiros, retrata com funda verdade e grande poesia cênica diversos panoramas da vida ligada à herança cafeeira; dedicando-se, posteriormente, a temas contemporâneos a sua época e ligados à vida metropolitana.

Jorge conclui sua formação como dramaturgo na Escola de Arte Dramática - EAD, em 1954. Seu primeiro texto é O Faqueiro de Prata, em 1951. No mesmo ano, escreve O Telescópio, dirigido por Paulo Francis, no Rio de Janeiro, com o elenco da Companhia Dramática Nacional - CDN, em 1957. Ao invés das longas distâncias, esse telescópio aponta para as regiões da memória do autor, ao enfocar rastos de seu passado e figuras que bem conhecia.

Filho de fazendeiros e tendo vivido a cultura do meio rural, o autor trará para a cena profundas observações desse universo, especialmente sua derrocada e adaptação ao meio urbano, fonte dos conflitos que atravessam a maior parte de suas criações, como A Moratória, encenada, em 1955, por Gianni Ratto para a companhia de Maria Della Costa, espetáculo que lança a jovem Fernanda Montenegro.

Pedreira das Almas, retratando o período do esgotamento da exploração aurífera em Minas Gerais, durante a Revolução de 1842, sobe à cena em 1958, numa direção de Alberto D'Aversa para o Teatro Brasileiro de Comédia - TBC. O mesmo conjunto será responsável por algumas das mais expressivas criações do autor, como A Escada, em 1961, numa encenação de Flávio Rangel; Os Ossos do Barão, em 1963, com direção de Maurice Vaneau e, no ano seguinte, Vereda da Salvação, encenação de Antunes Filho, de 1964. Pela importância dessa realização em sua obra, o mesmo encenador voltará a colocá-la no palco, reformulada e revista, em 1993, com o Centro de Pesquisas Teatrais - CPT.

O tema último dessas criações, salientado pelo próprio Jorge em sua autobiografia Labirinto, editada em 1978, é a memória: "Nesta mistura de presenças concretas, até onde vai a realidade e começa a fantasia? [...] Penso que Proust é a volta ao passado; que o passado é a natureza; que a natureza é Rousseau; e que Rousseau é a raiz da nossa verdade".1 Esta nostálgica natureza - tempo feliz ou tempo de ordem - surge como o pano de fundo que move a maior parte das suas grandes personagens; entre os quais se sobressai Vicente, espécie de alter ego do autor que pontilha diversas de suas criações; ainda que denotando diferentes máscaras. Em A Escada, escrita em 1960, o autor retrata um casal de idosos, cujo futuro é discutido pelos filhos, moradores de um mesmo bloco de apartamentos. O tom nostálgico e a presença da memória voltam a infundir poesia à cena jorgiana. Em Os Ossos do Barão, de 1962, única comédia que escreve, examina os escombros a que se reduziu o império de um barão do café e a vitoriosa ascensão de um imigrante.


Cena de "A Moratória"

O recurso à metalinguagem - evidenciando explicitamente os procedimentos da ficção dramática - bem como a exploração do tempo - superposição ou concatenação de ações no passado e no presente - contribuem para o refinamento expressivo jorgiano, tornando essa exploração pelos labirintos da memória pontuada de recursos artísticos de alto quilate.

Trabalhando para a revista Realidade, Jorge é colocado frente a frente com os dramas da metrópole. Desses confrontos, nasce em 1963, Senhora da Boca do Lixo, sobre uma decaída protagonista da sociedade tradicional, que agora vive de contrabando. Presa, acaba encontrando a liberdade em função das ligações com altas personalidades que ainda mantém. Proibida pela Censura, a estreia dá-se em Portugal, em 1966. No Brasil é montada pela atriz Eva Todor, com direção de Dulcina de Morais, em 1968.

Rasto Atrás retrata um ajuste de contas com o passado do autor e seus irreconciliáveis conflitos com o pai, ganhando uma encenação de Gianni Ratto, em 1966, para o Teatro Nacional de Comédia - TNC. Outra montagem de sucesso do texto ocorre em 1995, sob a direção de Eduardo Tolentino de Araújo para o Grupo TAPA, em São Paulo.

Em 1969, surgem duas novas realizações do autor: As Confrarias, em que flagra a vida das estratificadas sociedades eclesiásticas de Vila Rica, tomadas como metáforas da pouca mobilidade social, tendo como pano de fundo o ambiente do Brasil Colônia; e O Sumidouro, na qual põe em cena o dramaturgo Vicente e o bandeirante Fernão Dias. Ambas, pelas exigências cenotécnicas e grande elenco, nunca foram encenadas profissionalmente.

A ditadura não deixa de inspirar o autor: para a Primeira Feira Paulista de Opinião escreve A Receita, encenação de Augusto Boal, em 1968; e em 1977 lança Milagre na Cela, proibida pela Censura, porque exibe o estupro praticado por um delegado, além da violência dos torturadores durante as sessões de sevícias de uma freira. Baseada em fatos reais, o texto somente conseguirá subir à cena em 1981, numa encenação carioca do grupo Barr. Também em 1981, Jorge escreve um dos elos-atos da peça A Corrente, sendo que os outros dois são de Consuelo de Castro e Lauro César Muniz, para um espetáculo com Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça, enfocando três casais entrelaçados por uma trama em comum.

Permanecem inéditas algumas criações: As Colunas do Templo, 1952; Os Crimes Permitidos,1958; Os Vínculos, 1960; O Mundo Composto, 1972; A Zebra e A Loba, ambas de 1978.

Os sérios conflitos que manteve com o ambiente familiar, especialmente seu pai, que não aceita nele a existência de um artista, motivam Jorge Andrade a refletir, anos depois: "Então minha verdade saiu da terra, cresceu e ultrapassou a mata. Percebi como devia ser maravilhoso compreender, interpretar e transmitir! Partir da minha casa, minha gente, de mim mesmo e chegar ao significado de tudo, tendo, como instrumentos de trabalho, apenas as palavras e a vontade".2 Fez então cumprir-se o destino que traçou para si mesmo entre Proust e Rousseau, fazendo da narrativa um reencontro com sua natureza perdida.

Pela publicação de parte de sua obra, sob o nome de Marta, A Árvore e O Relógio, em 1970, Jorge recebe o troféu Molière. É reconhecido ao longo da carreira, através de algumas premiações, tais como Prêmio Saci de melhor autor por A Moratória, 1955, e por Os Ossos do Barão, 1963; Prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais - APCT, de melhor autor por Pedreira das Almas, 1958; A Escada, em 1961; e Vereda da Salvação, 1964. No ano seguinte ganha, por Rasto Atrás, o 1º lugar de melhor autor do Serviço Nacional de Teatro - SNT.

Cena de "A Vereda da Salvação"

É ainda o criador de algumas telenovelas e casos especiais, com destaque para Os Ossos do Barão, inicialmente em 1973 e regravada em 1997, O Grito, 1976; As Gaivotas, 1979; O Fiel e a Pedra, 1981; Os Adolescentes, 1981;  A Escada, 1981; Ninho da Serpente, 1982; e Mulher Diaba, em 1983. Vereda da Salvação transforma-se em filme, dirigido por Anselmo Duarte, em 1965.

Considerado um clássico da dramaturgia moderna, Jorge Andrade é objeto de diversas teses acadêmicas e ensaios que investigam aspectos inovadores de sua grande e diversificada obra. Sobre ele, pronunciou-se o crítico e ensaísta Anatol Rosenfeld: "No seu conjunto esta obra é única na literatura teatral brasileira. Acrescenta à visão épica da saga nordestina a voz mais dramática do mundo bandeirante. É única, esta obra, pela grandeza de concepção e pela unidade e coerência com que as peças se subordinam ao propósito central, mantido durante longos anos com perseverança apaixonada, de devassar e escavar as próprias origens e as de sua gente, de procurar a própria verdade individual através do conhecimento do grupo social de que faz parte e de que, contudo, tende a apartar-se, precisamente mercê da própria procura de um conhecimento mais aguçado e crítico, que situa este grupo na realidade maior da nação".3

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PROCÓPIO FERREIRA

Procópio Ferreira, nome artístico de João Álvaro de Jesus Quental Ferreira, (Rio de Janeiro, 8 de julho de 1898 — Rio de Janeiro, 18 de junho de 1979) foi um ator, diretor de teatro e dramaturgo brasileiro. É considerado um dos grandes nomes do teatro brasileiro.

Procópio descobriu cedo o talento de envolver a plateia, arrastando aos seus espetáculos contingentes de público de fazer inveja aos maiores sucessos de hoje. Em 62 anos de carreira, Procópio interpretou mais de 500 personagens em 427 peças.

Era filho de Francisco Firmino Ferreira e de Maria de Jesus Quental Ferreira, ambos portugueses naturais da ilha da Madeira, em Portugal.

Ingressou na Escola Dramática do Rio de Janeiro a 22 de março de 1917. Representou mais de 450 peças, de todos os gêneros, desde o teatro de revista até a tragédia grega. Em toda a Historia do Teatro Nacional foi o ator que maior número de peças nacionais interpretou e, que maior número de autores lançou.

Procópio Ferreira atuava no circo-teatro, gênero que, se não foi criado no Brasil, aqui teve pleno desenvolvimento. Tratava-se de um circo que, além de números de acrobacias, malabarismo e palhaçadas, apresentava a adaptação de peças de teatro. Do circo-teatro passou às comédias. Procópio Ferreira dizia que o sucesso chegou quando ele parou de pensar com a sua própria cabeça para pensar com a cabeça do público.

Sua primeira peça foi Amigo, Mulher e Marido, fazendo o papel de um criado, em 1917, no Teatro Carlos Gomes. Seu maior sucesso no teatro foi o espetáculo Deus lhe Pague, de Joracy Camargo, com o qual viajou o país inteiro e foi para o exterior. Participou de mais de quatrocentas peças e teve uma carreira de mais de 60 anos.

Um homem que vivia intensas paixões, foi pai de 06 filhos. De seu primeiro casamento com a artista Argentina Aida Izquierdo nasceu uma das mais importantes atrizes e diretoras brasileiras, Bibi Ferreira. casou também com a grande atriz Norma Geraldy e com a atriz Hamilta Rodrigues. do casamento com Hamilta Rodrigues nasceram Maria Maria, João Procópio Filho e Francisco de Assis Procópio Ferreira. De seu relacionamento com a atriz Lígia Monteiro nasceu a Diretora e jornalista Lígia Ferreira. Do romance com a musicista Celecina Nunez nasceu a cantora Mara Sílvia (nome artístico de Mariazinha, como era chamada pelo pai). Um grande Homem, pai e avo (Tina Ferreira filha de Bibi, João Procópio Neto filho de Mariazinha, Bianca filha de Lígia Ferreira, Alice Ferreira filha de Maria Maria e Alessandra Ferreira filha de João Procópio Filho).

Atuação na televisão

Procópio também fez televisão e participou das telenovelas A Grande Viagem, As Minas de Prata, Redenção, Dez Vidas e Divinas & Maravilhosas.

Atuação no cinema

  • Mistério do Rio
  • Coisas Nossas
  • Pureza
  • Berlim na Batucada
  • Comprador de Fazendas
  • Trevo de Quatro Folhas
  • O Homem dos Papagaios (argumentos de Procópio)
  • A Sogra
  • Quem Matou Anabela
  • Romance de uma Cidade
  • Como Ganhar na Loteria sem Perder a Esportiva
  • Titio Não É Sopa
  • Em Família

Obras

Peças de teatro

  • Briga em Família
  • Arte de Ser Marido
  • Banho de Civilização
  • Convidado de Honra
  • A Grande Pantomima
  • Não Casarás
  • Presente do Céu
  • Boca do Inferno
  • Família do Antunes

Livros

  • O ator Vasques (O Homem a Obra)
  • Arte de Fazer Graça
  • Como se Faz Rir
  • O que Penso quando Não Tenho em que Pensar

FONTE: WIQIPÉDIA

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LUIZ MARINHO


Um teatro essencialmente nordestino

Luiz Marinho Falcão Filho (Timbaúba PE 1926 - Recife PE 2002). Autor. Seu teatro é calcado na memória, seja pelo viés etnográfico e sociológico no resgate dos costumes e da linguagem do matuto, seja pelo viés mais íntimo das lembranças de sua infância e adolescência na cidade de Timbaúba, recolhendo histórias, situações e personagens de seu convívio cotidiano e familiar e recriando-os em sua fatura dramática.

Transfere-se para o Recife, aos 18 anos, em 1944, com o objetivo de dar continuidade à sua formação. Conclui sua primeira peça, Um Sábado em 30, provavelmente, em 1960. A trama se concentra nas vicissitudes de uma família de senhores de engenho de Timbaúba, durante a Revolução de 1930. Utilizando-se da comicidade, Marinho apresenta criticamente os hábitos da família patriarcal e os conflitos entre patrões e empregados, revelando uma sociedade estagnada, presa a tradições opressoras e a uma rígida estratificação social. A peça estreia em 1963, no Teatro de Santa Isabel, apresentada pelo Teatro de Amadores de Pernambuco - TAP, com direção de Valdemar de Oliveira.

Na excursão de Um Sábado em 30 a São Paulo, em janeiro de 1964, o crítico Décio de Almeida Prado assim define o texto: "Eis aí a verdadeira perspectiva da peça: a vida patriarcal brasileira vista não da sala de visita, mas da cozinha, isto é, desvestida de sua suposta solenidade, mostrada em seus termos reais, como o entrelaçamento sexual entre a casa-grande e a senzala - ou o que restava de uma e de outra - mais forte do que nunca".1

Em 1961, A Derradeira Ceia, encenada por Luiz Mendonça, com o Teatro Experimental de Cultura - TEC, ganha o Prêmio Escola de Belas Artes. O TEC, posteriormente denominado, a partir de 1962, de Teatro de Cultura Popular - TCP, do Movimento de Cultura Popular - MCP, estreia A Derradeira Ceia no Teatro do Povo, e, em seguida, abre o 1º Festival de Teatro do Recife, no Teatro de Santa Isabel. A peça é uma tentativa de Luiz Marinho de humanizar a figura de Lampião e do Coiteiro. Nela, o papel social dos personagens ganha uma importância expressiva, mostrando, por exemplo, que o fato de Lampião ser um bandido provém das circunstâncias em que vive. Por essa montagem, Marinho recebe o Prêmio Vania Souto Carvalho de melhor autor pernambucano de 1961, concedido pela Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco - ACTP; o prêmio de melhor peça brasileira no 1º Festival de Teatro de Estudante do Nordeste, em Caruaru, Pernambuco, em 1962, e inicia com Mendonça uma longa parceria teatral que marca profundamente a trajetória do TCP, assim como a carreira de Marinho e Mendonça.

A Incelença estreia no Teatro de Santa Isabel, em 1962, com direção de Mendonça, pelo TCP, e se torna uma das peças mais populares de Marinho, montada por diversos grupos teatrais amadores e profissionais no Brasil. A peça reúne pelo menos dois aspectos reconhecíveis na obra marinha: o caráter etnográfico em que resgata "a incelença" ou "sentinela", "velório no qual ao lado dos sons de rezas cantadas, os participantes bebem, comem e, contemplando os momentos de solidão, dialogam com adivinhações, anedotas, resultando muitas vezes no falar comum da vida alheia",2 e o pitoresco das situações e do caráter dos personagens, além de conter uma contundente denúncia social. O crítico Medeiros Cavalcanti comenta: "A Incelença é uma excelência de peça. Talvez deva até exagerar: é uma obra-prima - na raridade das obras one act play no Brasil. Em outro país menos subdesenvolvido intelectualmente, bastaria esse ato para colocar o Autor numa antologia. E dar-lhe dinheiro".3

Estórias do Mato, que reúne as peças A Incelença e A Afilhada de Nossa Senhora da Conceição (texto até então inédito), é apresentada em 1963, pelo TCP. A direção é de Mendonça e José Wilker trabalha como assistente de direção. A Afilhada de Nossa Senhora da Conceição é a peça preferida de Marinho por ter sido originada de algumas estórias de Troncoso contadas por sua ama Davina (a quem o autor dedica a obra). Além disso, o dramaturgo se baseia em folhetos de cordel e outros "causos" ouvidos e anotados em sua juventude.

Em A Afilhada, uma jovem noiva é prometida ao diabo por sua mãe, que não aceita o pretendente escolhido pela filha. No dia do casamento, o diabo em pessoa vem buscar a moça, que é salva graças à intervenção de Nossa Senhora da Conceição, de quem é afilhada. Marinho retoma o mesmo enredo em 1985, em forma de musical, em A Valsa do Diabo. Não são obras distintas, mas diferentes registros sobre um mesmo tema.

A quinta peça de Marinho, Viva o Cordão Encarnado, uma comédia em dois atos, que discorre sobre a vida de um grupo de artistas populares, profissionais de um pastoril de ponta de rua, é levada à cena pelo Teatro Universitário de Pernambuco - TUP, em 1968.

No primeiro ato, esses artistas são apresentados no dia a dia, fora do ambiente de trabalho, ao mesmo tempo em que se envolvem em diversos quiproquós durante as comemorações do aniversário do velho do pastoril. No segundo ato, encontram-se esses mesmos personagens em noite de festa, durante uma função de pastoril em que a própria estrutura do folguedo reverbera na urdidura da peça: ao final, ganha novo sentido com o nascimento do filho da mestra do pastoril que espelha o nascimento do menino Jesus, tal como na versão sacramental do folguedo, mas de maneira paródica. Tudo isso perpassado por uma intriga de paixão e ciúme envolvendo o velho do pastoril, sua esposa e um cabo de polícia.

Sob a direção de Clênio Wanderley, a encenação recebe os prêmios Vania Souto Carvalho e Samuel Campêlo; e também participa do 5º Festival Nacional de Teatro de Estudantes, no Rio de Janeiro, no qual Marinho conquista o prêmio de melhor autor e Wanderley, o de melhor diretor.

Ainda nesse ano, a Universidade Federal de Pernambuco publica Um Sábado em 30, A Incelença e A Afilhada de Nossa Senhora da Conceição em um único volume.

Viva o Cordão Encarnado conquista, em 1970, o Prêmio Artur Azevedo, concedido pela Academia Brasileira de Letras - ABL, e ganha nova versão cênica em 1974, no Rio de Janeiro, mais uma vez sob a batuta de Luiz Mendonça, com o Grupo Chegança. Por essa montagem, Mendonça e Marinho recebem respectivamente o Prêmio Molière de melhor diretor e autor. Com esse prêmio, Luiz Marinho realiza sua primeira e única viagem à Europa, onde profere palestra na Universidade de Toulouse e visita as cidades de Paris e Roma.

Nos anos 1980, Marinho escreve três textos infantis: A Família Ratoplan, A Aventura do Capitão Flúor, no Reinado do Dente Cariado e Foi um Dia. Ainda nessa década, o Teatro de Amadores de Pernambuco - TAP encena mais um original de Marinho: A Promessa. Com direção da atriz Geninha Sá da Rosa Borges e pesquisa musical do próprio autor, o espetáculo estreia em outubro de 1983. Conta as peripécias de Sebastiana, narradas pela própria protagonista, que, por ciúme do marido, se envolve em uma série de confusões. A estrutura dramática do texto se baseia na narrativa dentro da narrativa, utilizando-se de flashback e extraindo sua comicidade de mal-entendidos causados pelos diferentes usos da linguagem por parte do homem da cidade e do homem da zona rural. Em 1987, Marinho escreve O Último Trem para os Igarapés, publicado nesse ano na revista Palco Nordestino.

O TAP encena A Estrada em 1995. A peça é divida em três atos, escritos cada um em um gênero (drama, comédia e tragédia), com uma história diferente, tendo em comum a fé dos romeiros como tema. Os personagens dessas histórias se encontram na estrada, a caminho de Juazeiro do Norte, aonde vão a fim de pagar promessas. Esse texto é escrito entre 1992 e 1994, publicado no ano de sua montagem pela Academia Pernambucana de Letras, junto com Corpo Corpóreo, de 1992. Provavelmente em 1997, Marinho escreve As Três Graças, sua última peça.

Para Anco Márcio Tenório Vieira, todas as peças de Marinho, por mais diversificadas que sejam em temas, ambientes, gêneros e estilos, possuem algo em comum: "Elas constituem o que podemos chamar de memórias marinhas. Memórias ficcionalizadas, entenda-se bem, pois seu teatro encerra um conjunto de lembranças - domésticas, sociais, políticas, afetivas, culturais e religiosas - que ao tempo em que foram diluídas em 14 textos, são também costuradas e entrelaçadas por um delicado fio: o do olhar de um Luiz Marinho adulto sobre a criança e o jovem que um dia fora; um Marinho solipsista que busca dar sentido à sua existencialidade e, por sua vez, a todo o universo que o cerca e que o viu nascer, crescer, tornar-se adulto, envelhecer e caminhar para a morte".

FONTE: ITAÚ CULTURAL

 

JOÃO CAETANO:
"O Mestre Aprendiz do Teatro Brasileiro"

João Caetano dos Santos nasceu em 27 de janeiro de 1808 em Itaboraí, no Rio de Janeiro.

Começou sua carreira como amador, até que em 24 de abril de 1831 estreou como profissional na peça "O Carpinteiro da Livônia", mais tarde representada como Pedro, o Grande.

Apenas dois anos depois, em 1833, João Caetano já ocupava o teatro de Niterói junto com um elenco de atores brasileiros. Assim iniciava a Companhia Nacional João Caetano.

O ator também exerceu as funções de empresário e ensaiador. Autodidata da arte dramática, seu gênero favorito era a tragédia, mas chegou a representar papéis cômicos.

Além de atuar em muitas peças, tanto no Rio como nas províncias, João Caetano publicou dois livros sobre a arte de representar: "Reflexões Dramáticas", de 1837 e "Lições Dramáticas", de 1862.

Em 1860, após uma visita ao Conservatório Real da França, João Caetano organizou no Rio uma escola de Arte Dramática, em que ensino era totalmente gratuito. Além disso, promoveu a criação de um júri dramático, para premiar a produção nacional. Dono absoluto da cena brasileira de sua época, morreu a 24 de agosto de 1863, no Rio de Janeiro.

O pesquisador J. Galante de Souza (O Teatro no Brasil, vol.1) considera que o ator, "um estudioso dos problemas da arte de representar, e dotado de verdadeira intuição artística, reformou completamente a arte dramática no Brasil".

Antes dele, a declamação era uma espécie de cantiga monótona, como uma ladainha. Ainda segundo J. Galante, "João Caetano substituiu aquela cantilena pela declamação expressiva, com inflexões e tonalidades apropriadas, ensinou a representação natural, chamou atenção para a importância da respiração e mostrou que o ator deve estudar o caráter da personagem que encarna, procurando imitar, não igualar, a natureza".

João Caetano criou um perfil para o ator brasileiro, tendo sido um ator excepcional, dentro e fora do palco. Tornou-se um mito, um "herói cultural", através de sua dedicação e de seu trabalho. Nunca um ator foi tão biografado no Brasil como João Caetano.

A carreira de João Caetano abria um leque muito variado de possibilidades, em um tempo onde as condições do teatro no Brasil eram muito precárias, tanto do ponto de vista do repertório, na maior parte constituído por traduções de gosto, qualidade e fidelidade duvidosos, quanto do ponto de vista da produção. Basta lembrar que o principal teatro do Rio, na época, queimou 3 vezes em 50 anos. Foi Teatro São João, depois São Pedro de Alcântara, Constitucional Fluminense e novamente São Pedro, seguindo as vicissitudes políticas do império. Foi demolido neste século para dar lugar ao atual João Caetano.

João Caetano partia do nada, quase do zero absoluto. Era um ator que começava num país que também dava os primeiros passos, onde tudo se mostrava virgem, desde o teatro até a nacionalidade. O leitor que tinha em mente devia ser sobretudo ele mesmo, já que ninguém necessitava mais de lições do que esse aprendiz improvisado em mestre.

Tinha João Caetano certa parecença física com Napoleão, o que deve tê-lo ajudado na carreira, ainda que de modo secundário. De alguma forma esta parecença deveria mobilizar as imaginações de então, uma vez que a França era o modelo de civilização e história que desejamos seguir e alcançar. Foi cadete, tendo servido na guerra Cisplatina. Esta experiência em campo de batalha certamente o ajudou, de acordo com o reconhecimento de críticos seus contemporâneos, na montagem de cenas militares, que eram uma das chaves do sucesso. Além disso, sempre encarou a vida teatral como um campo de batalha, onde se lutava tanto por idéias como por espaço. João Caetano lembra o fato de que quase enforcou sua companheira de vida em cena para justificar a idéia de que o ator jamais pode se deixar levar pelo papel.

João Caetano era homem de formação e decoro clássicos. Nesses termos conseguia sua atividade como ator e suas reflexões sobre ela. Já em 1838, recebia medalha de bronze consagrando-o como o - Talma Brasileiro -, equiparando-o, portanto, a um ator da linhagem clássica. Entretanto o que encantava a platéia eram seus arroubos, tocados de entusiasmo, era, em suma, o demônio ou gênio romântico que deixava passar por entre o pretendido equilíbrio de inspiração clássica.

João Caetano foi uma espécie de factótum do teatro brasileiro. Foi ensaiador, encenador e empresário, além de ator. Na época não era muito grande o número de atores letrados. Eram poucos também os que conseguiam ter uma visão globalizante do fenômeno teatral, do texto ao palco e da bilheteria ao bastidor.

Em 1833, João Caetano já organizava sua própria companhia, constituindo com ela a primeira companhia de atores nacionais, coisa que sempre alardeou em seu estilo bastante vaidoso. Leve-se em conta que tudo era muito precário, no Brasil e no teatro. Em algumas cidades havia casas de representação sofríveis, em outras barracões ou tablados improvisados, quando muito. Nos fins do século XVIII e ainda nos começos do século XIX não era incomum os atores serem ex-escravos, dedicados, porém sem formação. Mulheres em cena eram raras, e com fama de serem libertinas, depois do edito de D. Maria I que as proibira de representar. Muitas vezes eram substituídas por atores masculinos, com resultados visíveis: conta-se de uma Julieta, em Minas Gerais, de tranças loiras e de pele escura, de voz de homem e avantajada envergadura. As montagens sucediam-se rapidamente, com peças mal traduzidas, mal ensaiadas e freqüentemente, portanto, mal representadas.

Para enfrentar esta situação, João Caetano preconizava uma junção da comedie francaise com o tradicional mecenato da corte portuguesa, que D. João trouxera para o Brasil. Ele não tinha em mente em toda sua extensão, a imagem de um estado paternalista em relação às artes, imagem que depois se tornou tão comum no Brasil. Imaginava algo mais simples, um mecenato no sentido estrito, uma espécie de proteção esclarecida. Isso não era novidade no universo intelectual brasileiro. João Caetano conseguiu concretizar em partes seu ideal de teatro. O São Pedro lhe é afinal cedido, junto com uma subvenção de, primeiro, dois contos de reis ao mês, depois três, mais tarde quatro. Dali reinou sobre a platéia mais numerosa da corte que, por ironia do destino, era, em sua maioria, de portugueses ou portugueses naturalizados.

Fonte: Interpalco

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Teatro de Amadores de Pernambuco - TAP

Data/Local
1941 - Recife PE

Histórico
Criado pelo médico
Valdemar de Oliveira, o Teatro de Amadores de Pernambuco surge no Recife, em 1941. Hoje, consolidado no decorrer de seis décadas de intensa atividade, é uma honorável instituição não somente para o teatro recifense, mas também para as artes cênicas do Brasil.

Atuante no Grupo Gente Nossa, conjunto profissional pré-moderno fundado em 1931, por Samuel Campêlo e Elpídio Câmara, Valdemar de Oliveira é convidado a realizar uma "hora d'arte", nos festejos comemorativos do centenário da Sociedade de Medicina de Pernambuco. Propõe e realiza, então, a montagem de uma obra teatral com médicos, esposas e familiares. A peça Knock, ou O Triunfo da Medicina, de Jules Romains, estreia em 1941, no Teatro de Santa Isabel, e, por conveniência administrativa, aparece como uma produção do Grupo Gente Nossa. Somente na montagem seguinte, Primerose, de Robert de Flers e Gaston Arman de Caillavet, a identidade do Teatro de Amadores de Pernambuco - TAP é instituída, embora ainda como "departamento amador" do Gente Nossa. E, em 1945, finalmente o TAP se torna um grupo autônomo, independente do Gente Nossa.

Desde seus primeiros espetáculos, o TAP reúne figuras da alta sociedade recifense em torno de um programa de encenação de textos que se distanciam do repertório comercial, comum tanto às companhias do Sudeste que visitam o Recife quanto aos grupos atuantes locais. Cria e mantém com sucesso um "teatro de cultura", aliando "amadorismo teatral à filantropia" e mudando a fisionomia do teatro pernambucano.

Para Antonio Cadengue, estudioso da trajetória do TAP, a história desse grupo pode ser dividida em cinco fases distintas: 1) "Os Anos de Aprendizagem", entre 1941 e 1947; 2) A Renovação da Cena - 1948 a 1958; 3) "A Consolidação da Cena", de 1959 a 1965; 4) "A Ordenação do Passado", entre 1966 e 1976; e, por fim, 5) a fase "Da Cena Refletida", a partir de 1977.

Na primeira fase, o grupo se desenvolve técnica e artisticamente de maneira expressiva: monta 21 peças, realiza excursões a Natal e Fortaleza, em 1941, Salvador, em 1944, e Maceió, em 1946, e conta com o apoio da crítica, que reconhece o alto nível artístico alcançado. Nesses anos, o TAP renova o repertório e educa a si mesmo e ao público para receber o "grande teatro universal". Continua, entretanto, a usar o ponto, os velhos telões pintados e o elenco é sempre escolhido em função do physique du rôle.

O clima de "velho teatro" é quebrado, em 1944, com a montagem de A Comédia do Coração, de Paulo Gonçalves, com direção do polonês Zygmunt Turkow. Antes dele, o TAP conhece apenas a figura do ensaiador, só depois a função do encenador e as possibilidades da iluminação teatral são descobertas e utilizadas. Daí até 1947, o TAP torna seus espetáculos mais refinados, prevalecendo uma tendência realista. Delineia-se uma das características do grupo que permanece até os dias de hoje: o ecletismo do repertório.

Nessa fase, além de Jules Romains, Robert de Flers e Gaston Arman de Caillavet e Paulo Magalhães, o grupo leva à cena os seguintes autores: Oscar Wilde, Bayard Weller, Silvano Serra, Sutton Vane, Henry Kistemaeckers, Oduvaldo Vianna, Somerset Maugham, Eugène Brieux, Henry Bordeaux, Maurice Maeterlinck, Alfred de Musset, Marcel Pagnol, Alejandro Casona, Georg Kaiser e Leonhard Frank. Com exceção de A Comédia do Coração, as demais montagens foram assinadas por Valdemar de Oliveira.

De 1948 a 1958, empreende a superação do autodidatismo que limita o avanço do grupo na modernidade teatral. O lema é realizar espetáculos benfeitos tecnicamente e acompanhar os movimentos estéticos europeus. Para essa renovação da cena, o TAP contrata diversos encenadores de outras regiões do Brasil: Adacto Filho, em 1948; Ziembinski, 1949; Willy Keller, 1951; Jorge Kossowski, 1952; Graça Mello, 1953 e 1957; Flaminio Bollini, 1955; Bibi Ferreira, 1956; e Hermilo Borba Filho, 1958  - pernambucano que desde 1953 reside em São Paulo. É o momento mais ousado do grupo, pela atualização artística que promove no palco e pela formação de uma plateia capaz de compreender suas inovações.

A passagem de Adacto Filho gera debates e controvérsias, estimulando o ambiente teatral do Recife. Mesmo que a renovação trazida por ele ao TAP tenha sido sutil e seus processos de encenação ainda sejam à moda antiga (constrói um espetáculo em pouco tempo, confiando no apoio do ponto), percebe-se que, com ele, o repertório dramático sofre uma mudança. Além disso, Adacto Filho introduz algumas lições de mise en scène que são aprendidas por Oliveira: a maneira de o encenador levar os atores a compor diferentes tipos, a técnica de "levantar" diálogos e marcas, a gesticulação precisa e a mobilidade das máscaras faciais.

Em 1948, após a apresentação de dois espetáculos dirigidos por Adacto Filho, ex-integrante de Os Comediantes, Hermilo Borba Filho, em texto crítico, aponta uma sintonia entre esse grupo carioca e o conjunto liderado por Oliveira: "Quando alguém for escrever a história do teatro brasileiro, necessariamente terá de dar um saltinho até aqui em Pernambuco e procurar documentar-se em tudo quanto diga respeito às atividades do Teatro de Amadores, pois esse conjunto é, sem favor, um dos pioneiros no movimento de renovação que se processou nos processos teatrais do país. Lembro-me que, sete anos atrás, quando os comandados de Valdemar de Oliveira montaram Knock, de Jules Romains, Os Comediantes no Rio, haviam apresentado ou iam apresentar, por sua vez, A Verdade de Cada Um, de Luigi Pirandello, sob a direção de Adacto Filho se não estou enganado. Responsabilizaram-se, assim, os dois grupos - o do Norte e o do Sul - pelo início de uma fase que está levando o teatro brasileiro a alturas ainda não atingidas. [...]. O grupo dirigido por Valdemar de Oliveira criou - não resta dúvida - uma mentalidade diferente no Recife, com relação às coisas da arte dramática".

O TAP contrata, em 1949, Ziembinski, que encena três peças: Nossa Cidade, de Thornton Wilder; Pais e Filhos, de Bernard Shaw; e Esquina Perigosa, de J. B. Priestley. Para Oliveira, no primeiro espetáculo concebido por Ziembinski há um equilíbrio entre encenação e desempenho; no segundo, desencontro entre cenário e texto; e, no terceiro, harmonia de todos os seus elementos. Em quase dez meses de permanência no Recife, Ziembinski modifica o ambiente teatral da cidade: além de seu trabalho com o TAP, ministra cursos e monta espetáculos no Teatro Universitário de Pernambuco.

Depois de Ziembinski, Graça Mello é o mais produtivo encenador contratado pelo TAP, e dá ao grupo uma contribuição importante: traz para o elenco a naturalidade artística na interpretação. Suas montagens são bem recebidas pela crítica teatral, que destaca sua habilidade como encenador, dominando todos os elementos que compõem um espetáculo, da cenografia à interpretação.

Em 1955, a montagem de Vestido de Noiva pelo italiano Flamínio Bollini suscita debates entre a crítica e entre o público. Diretor detalhista, seu rigor com a encenação é comparado ao de Ziembinski. Bollini arma um espetáculo em que os três planos da peça - realidade, memória e alucinação - se intercambiam, criando cenas de impacto visual e gerando certa dificuldade na compreensão do enredo. Para o dramaturgo Ariano Suassuna, na época crítico do Diario de Pernambuco, Vestido de Noiva, como espetáculo, é a culminância da trajetória do TAP.

Borba Filho é contratado pelo TAP como encenador em 1958. Na década de 1940, ele dirige o Teatro do Estudante de Pernambuco - grupo que se opunha ao caráter elitista do teatro feito por Oliveira. Dezessete anos após sua fundação, o TAP se encontra em plena maturidade e leva ao palco um texto que discute o próprio fazer teatral: Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello. Em seguida, Borba Filho encena Onde Canta o Sabiá, de Gastão Tojeiro. No programa da peça, ele explica que pretende fazer "uma caricatura sentimental de uma época". Na construção desse espetáculo se utiliza de formas teatrais antigas - como aquelas contra as quais o TAP se insurge na época de seu aparecimento. Esse procedimento sinaliza que o grupo evoluíra a ponto de poder brincar com um passado que também é seu.

O TAP se firma no Recife e no Brasil. Chega a ter um elenco como o das melhores companhias profissionais do país. Seu repertório, embora oscilante e eclético, permite ao conjunto se exercitar em diversos gêneros teatrais, e nele prevalece o drama: uma aproximação com o cômico pressupunha se avizinhar da chanchada - gênero combatido pelo grupo desde o início.

Na primeira excursão ao Rio de Janeiro, em 1953, a crítica carioca elogia o TAP que se apresenta como aquele que deseja mostrar o teatro amador que se faz em Pernambuco. A imprensa rende-se à qualidade do trabalho do grupo e Paschoal Carlos Magno pergunta: "Criticar? Mas criticar o quê?". Tudo era harmonioso, o elenco "tão bom quanto" os melhores que se possuía no campo profissional, disciplina artística impecável e espírito de equipe. Os senões, mínimos, e quando levantados, outros elogios os equilibravam. De volta ao Recife, o TAP é declarado de "utilidade pública", pelo governo do Estado.

De 1959 a 1965, terceira fase do TAP, busca-se preservar as conquistas do período e procura-se manter um equilibrado rendimento artístico entre a encenação e o texto. O grupo realiza montagens eficazes, porém convencionais, cujo resultado já não provoca o mesmo choque estético de antes.

Nessa fase, um dos espetáculos que merecem destaque é O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, dirigido por Graça Mello. Quase todos os cronistas afirmam que o TAP necessitava do arejamento propiciado por essa montagem. Com novos atores, nova peça, novos processos de representar, o grupo se encaminha para uma linha teatral revitalizada, além de se voltar à realidade brasileira, saindo das constantes opções pelo teatro estrangeiro.

No entanto, nesse período, a montagem mais polêmica, e decerto a de maior êxito, parece ser Um Sábado em 30, de Luiz Marinho, com direção de Valdemar de Oliveira, em 1963. Parte considerável da crítica aprova o texto de Marinho, mas questiona as opções estéticas do diretor no que diz respeito à encenação e, sobretudo, à adaptação do texto. Segundo os críticos, Oliveira transgride as feições originais do texto de Marinho, lendo-o em chave histriônica, aproximando a montagem da chanchada - contrariando as concepções anteriores do grupo - e diluindo a seriedade e a crítica social implícitas na peça. Apesar das críticas, o espetáculo se torna sucesso de público, fazendo parte ainda hoje do repertório do TAP.  (FOTO: A "prima-dona" Diná de Oliveira)

No jubileu de prata do TAP, o crítico teatral Adeth Leite, do Diario de Pernambuco, ressalta a importância decisiva do grupo para o desenvolvimento das artes cênicas na região: "Muito já se disse, mas não cansa repetir que não fora o TAP muitos dos melhores originais da literatura teatral universal jamais seriam conhecidos do público do Recife. A semente brotou, criou raízes e deu bons frutos. E a verdade, queiram ou não os inimigos gratuitos do TAP, é que o historiador, ao escrever a arte cênica em Pernambuco, forçosamente terá de citar a frase fatal 'antes e depois do TAP' ".

O espetáculo TAP - Ano 25 leva ao palco a principal característica do grupo entre 1966 e 1976: a nostalgia. É o período da  "ordenação do passado", segundo Cadengue. O olhar retrospectivo baliza diversas montagens e, sobretudo, remontagens. Deslocando a saudade de si mesmo para outros espaços e tempos, o TAP encena peças que vão da belle époque parisiense a Portugal e Espanha "armoriais" ou aos Estados Unidos em fins do século XIX. Isso sem falar de um Rio de Janeiro na década de 1920 e outro na década de 1950, em incursão também por uma Bahia longínqua.

Essa amostragem passadista tem algo de positivo: tanto apresenta a síntese das conquistas formais (e já em desuso) do TAP quanto possibilita parâmetros de leituras comparativas. Também é provável que, ante a escassez de movimentação cultural imposta pela ditadura militar reinante no país, se torne importante esse levantamento do imaginário tapiano, para que se dê - como de fato acontece - o surgimento de diversos contrapontos teatrais. À margem desse retorno ao passado, o presente se alegoriza em montagens que trazem importante atualização estética. Agora, Valdemar de Oliveira concentra suas forças para fazer o grupo sobreviver às intempéries de tempos de instabilidade política, estética e social.  E, como a dar provas do instinto de sobrevivência, monta, nesses anos, 21 peças e um show carnavalesco; inaugura, em 1971, sua casa de espetáculos, o Nosso Teatro; funda o TAP-Júnior e, em excursão, vai até Manaus. Talvez a mais importante montagem dessa fase tenha sido Odorico, o Bem Amado, de Dias Gomes, com estreia nacional da peça em 1969, dirigida por Alfredo de Oliveira.

Com a morte de Valdemar, em 1977, seu filho, o ator Reinaldo de Oliveira, assume a direção geral do conjunto. Três anos depois, o Nosso Teatro se incendeia, só reabrindo, ampliado, em 1982, agora com o nome de Teatro Valdemar de Oliveira.

Entre 1977 e 2008, na fase da "Cena Refletida", o grupo busca retomar suas antigas diretrizes. Embora com lucros investidos em filantropia, o TAP não perde de vista o mercado, procurando encenar peças de bom nível e de bom gosto. Voltam as tragédias lorquianas, o teatro regional, o realismo norte-americano, o bulevar, o suspense, a comédia de costumes e a peça de tese. Geninha Sá da Rosa Borges monta Yerma, de Lorca, em 1978, e Jogos na Hora da Sesta, de Roma Mahieu, em 1979. Na primeira, uma repercussão que há muito não se via em relação aos espetáculos do TAP; na segunda, pela temática e pela cena, um "abalo sísmico" dentro do tradicionalismo do grupo. Entretanto, o maior destaque do período é a encenação de Se Chovesse Vocês Estragavam Todos, de Tânia Pacheco e Clovis Levi, direção de Adhelmar de Oliveira Sobrinho, em 1983.

O sucesso do TAP no decorrer de sua história se explica, sobretudo, pela habilidade de Valdemar de Oliveira ao dosar qualidade artística com o gosto do público que ele formou. Sua receita é "dois passos à frente, um passo atrás, para melhor consecução dos planos traçados". O ideário estético-ideológico do TAP se constrói sobre o discurso da qualidade artística, calcado em uma compreensão moderna do teatro e na encenação de peças de comprovado valor dramatúrgico; o discurso do saneamento da cena, combatendo primeiramente as chanchadas e, depois, os "profanadores" e "criminosos" que desfiguram obras alheias na modernidade teatral; e o discurso da "nutrição intelectual" e "moral", isto é, da formação do público, empenhado em dar ao espectador um cardápio que lhe modifique o paladar, estragado pela televisão e pelo afrouxamento dos laços familiares.

Mas a longevidade do grupo, independentemente do prestígio institucional que sempre gozou, deve-se, acima de tudo, à qualidade do teatro que realiza, como reconhece Décio de Almeida Prado: "O Teatro de Amadores de Pernambuco, fundado na década de 1940 pelo médico, professor e crítico de arte Valdemar de Oliveira (1900 - 1977), representava o papel de um TBC menor, valendo-se fartamente de um repertório estrangeiro, importando do Sul encenadores europeus (lá estiveram Ziembinski e Bollini), buscando e achando com freqüência o ponto exato de equilíbrio entre o profissionalismo e sem abandonar o regime de temporadas esporádicas, o TAP assegurou, com admirável pertinácia, até os dias de hoje a continuidade da vida teatral pernambucana, mantendo sempre alto o nível de interpretação e chegando até mesmo a construir - e a reconstruir, após um incêndio - a sua própria sala de espetáculos, num exemplo único de junção entre desinteresse amador e as responsabilidades econômicas do profissionalismo".

FONTE: Enciclopédia Itaú Cultural
 

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Nota de Falecimento

PREZADOS AMIGOS.

É COM IMENSO PESAR QUE COMUNICO O FALECIMENTO DO NOSSO QUERIDO CENÓGRAFO, PROFESSOR, COLEGA E AMIGO CYRO DEL NERO, EM SÃO PAULO.

O SEU VELÓRIO SERÁ REALIZADO HOJE (31/07/2010), A PARTIR DAS 10 HORAS, A PEDIDO DELE, NO CREMATÓRIO DE GUARULHOS QUE FOI CENOGRAFICAMENTE CRIADO PELO MESMO.

ENDEREÇO:

CEMITÉRIO PRIMAVERAS, AV. OTÁVIO BRAGA DE MESQUITA, N° 3601 – JD. TABOÃO EM GUARULHOS.

PEÇO QUE VOCÊS DIVULGUEM PARA O MAIOR NÚMERO DE PESSOAS, EM HOMENAGEM A ELE.

 

Cyro del Nero deixa saudades

 Conheça um pouco da trajetória deste grande homem

por Denise Pitta


Aos 78 anos morre Cyro del Nero, deixando grande legado cultural


Professor Titular de Cenografia e Indumentária Teatral da Pós-Graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, USP, em seu estúdio, Ciro del Nero, com seu extenso e valioso acervo, apresentava aos alunos o mundo das artes, da moda, da cenografia, do teatro, televisão e, também da história e cultura da Grécia. Hoje sua voz se calou, mas sua extensa obra, seus livros e a mensagem de culto à beleza  e à arte em suas várias manifestações, inclusive à magia da cultura helênica permanecerá entre nós, como um patrimônio dos brasileiros.

Este paulista nascido no Brás, em 28 de dezembro de 1931, filho de imigrantes italianos, foi atraído desde cedo pelo teatro, tornando-se amigo de grandes atores e atrizes, escritores teatrais e expoentes da cenografia, dirigiu-se ainda muito jovem para a Grécia, onde viveu por três anos, percorrendo ainda outros países da Europa. Voltando ao Brasil, primeiro pensou em ser ator, mas o talento para a cenografia sobrepujou esse interesse, passando a trabalhar nas montagens de obras importantes. Na recém-surgida televisão, seu papel foi marcante, havendo trabalhado em diversas emissoras.

Em 1960, com Lívio Ragan e Alceu Pena inovou com a criação de espetáculos de moda, que trouxeram solidez e profissionalismo à então nascente moda brasileira, que, também divulgou no exterior.

Mas, para nós do Fashion Bubbles, Ciro del Nero foi o expoente de grandeza que, como todo homem verdadeiramente importante, não hesita em emprestar um pouco do seu brilho a quem está começando, tanto que aceitou o nosso convite para participar do site, oferecendo mais de 50 crônicas inéditas, e com isso, sua importância, o peso de seu nome no mundo da cultura nacional.

Foi com a maior afabilidade que nos recebeu, permitinodo-nos maravilhar-nos diante do acervo que expunha em seu estúdio aceitando participar de um site que estava começando. Sentimo-nos como se seus alunos fôssemos, num curso de pós-graduação na vida diária de um site, com ele aprendendo não só sobre arte teatral, cultura helênica, moda, mas principalmente sobre a arte de ser um homem pleno, generoso e participante de tudo que pertence ao universo do humano.

Sentiremos saudades do amigo, do mestre, do intelectual que partilhou conosco o privilégio do conhecimento e da amizade. Vai em paz, Ciro Del Nero!

 

Biografia – Conheça um pouco do trabalho do Cyro del Nero

Do G1, em São Paulo

Imagem do site EPTV.com

“(…) dessa atividade divina que é o teatro, porque foi o teatro que gerou a religião.
A ação do ator é a realização da vida verdadeira. (…)”
Cyro del Nero

Além de passar pela TV Record, Tupi e Excelsior, ele foi diretor de arte da TV Globo e responsável por diversas aberturas de novelas, além de criar as aberturas, vinhetas e o cenário dos números musicais do “Fantástico” na década de 1970. Eles são considerados os primeiros videoclipes musicais produzidos no país.

Dentre os seus trabalhos, merecem destaque as aberturas da novela “Gabriela” (1975) e do infantil “Vila Sésamo”.

Também fez os logotipos do primeiro “Roberto Carlos Especial”, de 1974, do folhetim “O espantalho” (exibido na Record, em 1977) e da TV Bandeirantes. O desenho atual é uma variação do modelo criado por ele no começo dos anos 1980.

Dentre os números musicais que produziu, “Gita”, de Raul Seixas, é marcante. Criado em 1974, ele serviu de modelo para todos os outros feitos pelo “Fantástico”. Pela inovação de “Gita”, o cenógrafo disputa com Nilton Travesso o título de “primeiro videoclipe brasileiro”.

Del Nero foi considerado o melhor cenógrafo nacional da 5ª Bienal de Artes Plásticas de São Paulo e também era professor titular da Universidade de São Paulo dos cursos de cenografia e indumentária teatral na USP.

Livros

Em “Máquina para os deuses: anotações de um cenógrafo e o discurso da cenografia”, o autor Cyro del Nero discute as origens da arte cenográfica e sua evolução, registrando a criação e a utilização de cenários e de diversas máquinas e dispositivos mecânicos com que, ao longo do tempo, tornou-se possível desde abrir e fechar cortinas até erguer e deslocar atores e elementos do cenário, de maneira a criar uma impressão específica.

Neste aspecto, a cenografia pode ser entendida como a arte de organizar plasticamente o palco, dominando seus aspectos em todos os tipos de representação: dramática, lírica ou coreográfica. Partindo da cena, a cenografia se envolve com o edifício teatral, com a cidade e, muitas vezes, ganha interesse no espaço público. Farto em documentação iconográfica, o livro traz desenhos de projetos cenográficos do autor, de modo a exemplificar a importância da cenografia e a complexidade dos recursos existentes atualmente.

Evoluindo com o teatro ao longo de séculos, a técnica cenográfica ganhou novas aplicações com a chegada do cinema e da televisão, tornando-se indispensável também na organização de feiras e eventos. Em Máquina para os Deuses: anotações de um cenógrafo e o discurso da cenografia, Cyro Del Nero narra a história dessa arte e o início de sua relação pessoal com ela, abordando também inovações recentes e caracterizando-a como uma ‘nova mídia’ da atualidade. ( Fonte: blog Cultureba )

 

Com ou Sem a Folha da Parreira – A Curiosa História da Moda é um panorama humanista da moda em todos os séculos, desde o primeiro gesto do ser humano primitivo ao cobrir-se até o produto sofisticado da arte da costura, que, em poucos metros de tecido, realiza uma obra de arte individual assinada.

O roteiro da História da Moda está cheio de curiosidades e transformações, mutações, reformas e recuperações em um retrato polimorfo em constante metamorfose, que é a essência mesma da moda.

O panorama apresentado por Cyro Del Nero não dispensa uma visão bem humorada e irônica das mutações periódicas do vestir, a constante recuperação do passado e seu constante abandono. Com ou Sem Folha da Parreira descreve-nos as diferentes nuances da moda que são manifestações da insatisfação humana com o dejá vu e o irresistível desejo de alterar e criar uma nova persona, e como isso tem sido feito nos últimos 3 mil anos.