Teatro do Estudante
da Paraíba

 

Se ainda existisse, estaria completando 59 anos

por Elpídio Navarro
Fotos: Arquivo pessoal


1959 - De volta de Santos-SP, onde apresentou-se vitoriosamente com a peça João Gabriel Borkman de Henrik Ibsen, os componentes do Teatro do Estudante da Paraíba, junto com estudantes de todo o Brasil, invadiram o Palácio das Laranjeiras para pedir ao Presidente Juscelino Kubitschek a realização do 3º Festival de Teatros de Estudantes, em 1960, na nova Capital Federal a ser inaugurada,  no que foram atendidos. Na foto, as presenças de Risoleta e Leda Córdula, Nazareth Xavier, Nilda Batista, Yolanda Fernandes, Valderedo Paiva e Valdez Juval. A foto é do meu arquivo. A entrevista que se segue foi pedida pela Fundação ARQUIVO AFONSO PEREIRA, para documentação da citada instituição. Professor Afonso Pereira, em vida, foi um dos grandes colaboradores do teatro amador paraibano, notadamente do TEP. Assim, resolvi transcrevê-la como, além da homenagem ao meu primeiro grupo teatral, também fazê-la ao Mestre que muito nos ajudou.  (E.N.)

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"Cantam as Harpas do Sião", de Ariano Suassuna, primeiro espetáculo encenado
pelo Teatro do Estudante da Paraíba após a minha chegada.
 Em cena Celso Almir e Alzenda. (1953)


Professor Afonso Pereira vai ao palco do Santa Roza, após assistir à encenação
de "Casamento de Branco". Na foto além do convidado especial, Pedro Santos, 
Elpídio Navarro, Teotônio Neto e Altimar Pimentel.

ENTREVISTA:

ARQUIVO AFONSO PEREIRA

Entrevistado: Elpídio Navarro
Entrevistadora: Tatiana Losano de Abreu

Entrevistadora: Como começou sua participação em teatro e no TEP?

Entrevistado: Até aos 17 anos eu nunca havia entrado no Theatro Santa Roza. Um amigo (Genildon Gomes) que participava de um bloco de carnaval que saía da minha casa, convidou-me para ser sócio do Teatro do Estudante da Paraíba. Explicou que se aproximava uma nova eleição para a diretoria e que cada sócio poderia propor outros novos e, naturalmente transformá-los em seus eleitores. Do nosso bloco, além de mim, atenderam o chamado mais três integrantes: Martinho Alencar, Carlos Fernandes e Francisco Saraiva. A disputa na eleição foi tão acirrada que eu, que havia entrado na briga só para compor, acabei eleito secretário-geral. Isso porque o desentendimento entre Genildon Gomes e Lindaura Pedrosa (que era pessoa forte dentro do grupo) não chegava a bom termo e então as funções da diretoria foram divididas.

Entrevistadora: No caso o senhor estava concorrendo com Lindaura Pedrosa?

Entrevistado: Eu não estava concorrendo com ninguém. Eles brigaram tanto que resolveram aprovar uma chapa única que não tivesse pessoas nem de um lado nem de outro. Como eu era desconhecido me largaram no meio. Resultado: fui chegar ao Teatro do Estudante por conta de briga. Como eu não era ator, nem autor e nem cenógrafo, comecei a trabalhar no grupo praticamente como operário. Gostava de mexer com eletricidade e  acabei cuidando da parte de iluminação, ou seja, ligar fios, acender lâmpadas, o que transformou-me posteriormente em “contra-regra” oficial do grupo. Então o Teatro do Estudante começou a encenar seguidos espetáculos e por conta de normais impedimentos pessoais de atores para participar das montagens, acabei participando de elencos como ator, fazendo pontinhas que não comprometiam a encenação, pois além de não gostar da função, eu não tinha talento algum para aparecer assumindo papeis importantes.

Entrevistadora: O senhor começou na década de 50?

Entrevistado: 1953 em diante. O Teatro do Estudante da Paraíba já existia desde 1950. Até então, antes da minha ida, eu nunca tinha ouvido falar do grupo nem de teatro. Para mim, preconceituosamente, não era uma atividade muito séria.

Entrevistadora: Quais são suas recordações do grupo após a sua entrada?

Entrevistado: Teatro é contagioso. É como política para político. Mais difícil que entrar é conseguir sair. Quando você não tem mais condições de viver no palco, nos espetáculos, como eu, pois hoje além da  minha pessoal condição física, sinto-me um tanto deslocado do movimento teatral, fica a memória.  Acho que a minha ausência também foi  devida à mudanças radicais acontecidas: no meu tempo homem fazia papel de homem e mulher fazia papel de mulher. Misturou tudo e eu não participo dessas mudanças. Hoje escrevo textos teatrais (já são cerca de 10) e edito um site (www.eltheatro.com) relacionado com teatro, principalmente.

Entrevistadora: E quanto à dificuldade de conseguir atrizes?

Entrevistado: Havia muito preconceito contra a mulher que fizesse teatro. Ela não ficava bem vista. A situação ficou tão difícil que chegamos a encomenda uma peça que só tivesse homens no elenco. Tivemos sorte: Walter Oliveira no trouxe “Fim de Jornada”. Com essa peça o Teatro do Estudante ganhou prêmios em festivais. Foi um dos melhores espetáculos do nosso grupo. Mas, com Risoleta Córdula, chegaram Leda Córdula, Nazareth Xavier, Ofélia Gondim e Luzia Simões, entre outras. Eram nomes de peso na sociedade. Então a situação para elenco feminino melhorou muito.

Entrevistadora: O senhor representou um soldado em “Fim de Jornada”?

Entrevistado: Um pouco melhor: um sargento. Foi a primeira vez que entrei  num elenco como ator. Eu já estava mais vivido dentro do grupo e arriscaram. Não prejudiquei o espetáculo, pois tratava-se de uma ponta (papel pequeno). Eu já era chefe, diretor (administrativo) do grupo, comandava, era estranha a situação, mas era.Tinha até condição de opinar até sobre a escolha do elenco, mesmo assim nunca almejei papeis principais. Com “Fim de Jornada” foi um espetáculo bem elaborado e com bastante ajuda externa. A Polícia Militar ficou à nossa disposição e o seu Comandante, General Édison Ramalho, que hoje é até nome de rua, veio ao nosso encontrou e atuou como instrutor militar para o elenco. Fomos a um festival de teatro em Recife e a Polícia Militar nos deu até um transporte  para levar os equipamentos e cenários da peça, inclusive uma metralhadora anti-aérea (Point 50) e enviou a Banda de Música para tocar na frente do Theatro Santa Isabel, no dia da nossa estréia. Na verdade havia a credibilidade de várias pessoas importantes para o grupo: José Américo de Almeida, Antônio Nominando Diniz  e o Professor Afonso Pereira, entre outras. O Teatro do Estudante da Paraíba foi o responsável, de certa forma, pela criação de outros grupos que surgiram. Até pelo fato do crescente interesse pelo teatro amador e a não condição de participar do Teatro do Estudante, já com seus quadros repletos de sócios aguardando ainda uma oportunidade para participar de um espetáculo. Também alguns membros o Teatro do Estudante formaram grupos independentes, como Gilson Medeiros (Teatro do Estudante de Cabedelo); Valdez Silva (Grupo Teatral do Seminário da Diocese); Genildon Gomes (Teatro de Cultura da Paraíba) e Martinho Alencar (Teatro do Estudante da Usina São João).

Entrevistadora: Todos esses grupos ensaiavam no Santa Roza?

Entrevistado: Os primeiros ensaios se fazia em salões diversos. Ia-se para o Santa Roza no momento que já estávamos com o espetáculo em pé, como se dizia quando os ensaios não mais eram só leitura do texto e começava-se a marcação. Por conta de Arlindo Delgado, conseguíamos a cessão do salão principal da UEEP (União Estadual dos Estudantes da Paraíba) que ficava na rua Duque de Caxias.

Entrevistadora: E todos eram grupos amadores?

Entrevistado: Todos. João Pessoa não tinha teatro profissional. Acho que ainda hoje não existe um profissionalismo completo por aqui. Nem em Recife. As pessoas que fazem teatro e ganham para isso, geralmente têm outra atividade básica que lhe oferecem maior condição financeira. Eu fiz teatro como Diretor do Santa Roza e funcionário do Porto de Cabedelo, ganhando dessas outras atividades. Depois fiz teatro como professor de teatro da UFPB, ganhando por essa última atividade. Dessa forma tem muita gente por aí achando que é profissional de teatro.

Entrevistadora: E sua participação em “Pluft, O Fantasminha”?
 


"Pluft, O Fantasminha" de Maria Clara Machado, direção de Orley Mesquita. Na foto,
da esquerda para a direita e em pé: Gilson Medeiros, Lindaura Pedrosa, Orley Mesquita,
Elcyr Dias (cenógrafo) dois figurantes como fantasmas, Gil Santos. Agachados:
Pereira Nascimento, Marcelo Borges, Elpídio Navarro, Raimundo Nonato e Hugo Caldas.

Entrevistado: Eu fiz um marinheiro. Aliás a minha atuação como ator foi quase toda através de personagens militares. Só por  duas vezes fiz civis: em “João Farrapo” de Meira Pires (um engenheiro) e em “Casa Grande & Senzala”, peça adaptada da obra de Gilberto Freire, quando fiz um “senhor de engenho”.  Esse último foi em São Paulo, quando estudava para Mestrado em direção teatral, na USP. No Teatro do Estudante ainda fui o “Guarda” em “Pagador de Promessas” e um “Cabo” em “A Beata Maria do Egipto”. A patente mais alta foi a de “Sargento” em “Fim de Jornada”. Ah, ia esquecendo! Também fiz um personagem civil em “O Santo e a Porca” de Ariano Suassuna.

Entrevistadora: “Pluft, o Fantasminha” era uma peça mais infantil?

Entrevistado: Totalmente infantil. Talvez a mais famosa e conhecida de Maria Clara Machado. Excelente texto que, no teatro infantil, na época, competia apenas com “A Revolta dos Brinquedos” de Pernambuco de Oliveira.

Entrevistadora: Quanto aos elencos de “Fim de Jornada”, “Pluft, O Fantasminha” e “João Farrapo”, eram os mesmos?

Entrevistado: Não. Eu estava nas três. Outros, como Valdez Silva  e Hugo Caldas, estavam em duas delas. A última peça que o Teatro do Estudante montou foi “Isabel do Sertão” de Luiz Jardim. Nessa só fiz a parte técnica. Quando o Teatro do Estudante acabou, eu não me afastei. Passei a dirigir espetáculos.

Entrevistadora: Era eleita uma diretoria. Essa diretoria tinha a obrigação de procurar as condições financeiras do grupo? Também escolhia as peças?


Duas cenas de "Festim Diabólico" de Patrick Hamilton, com direção de Joel Pontes. Nas fotos,
Celso Almir, Sósthenes Kerbrie e Arlindo Delgado

Entrevistado: As peças eram escolhidas atendendo conveniências. Eu só havia dirigido uma peça: “A Beata Maria do Egipto” de Rachel de Queiroz. Duas  vezes. Uma pelo Teatro do Estudante, outra pela  JUTECA. Não tinha ainda a experiência necessária para um espetáculo que pudesse representar a Paraíba nacionalmente. Então a Diretoria procurava contratar um diretor experiente, como era os casos de Joel Pontes, Clênio Vanderley e Walter Oliveira, este último o que mais dirigiu o grupo: “Fim de Jornada”, “O Pagador de Promessas” de Dias Gomes, “João Farrapo” e “João Gabriel Borkman”de Ibsen. Clênio dirigiu “Auto da Compadecida” e “Auto de João da Cruz”,ambas de Ariano Suassuna. Joel Pontes  fez “Festim Diabólico” de Hamilton e ainda teve Maria José Campos Lima com “Isabel do Sertão”.

Entrevistadora: E a questão financeira? Vocês tinham apoiadores?

Entrevistado: Bastante. Entre as autoridades estava José Américo de Almeida, Afonso Pereira, José Pedro Nicodemos, Antonio Nominando Diniz, que pediam por nós ao Governo Estadual. Um nosso jornal da Festa das Neves, “O Gongo”, promovia junto com o Teatro do Estudante um concurso para a escolha da Rainha do Estudante, que nos deixava lucros com os votos (vendidos) dados às candidatas. Cada colégio se esforçava pela sua candidata, com o objetivo de se destacar. Festas dançantes com ingresso pago, campanha várias e ainda as colaborações de pessoas da área de serviços e comércio, como Edite Monteiro e Creusa Pires. Também algumas lojas de fora, como o  Armazém do Norte, Lojas Paulistas etc.

Entrevistadora: E vocês tinham que ir buscar um diretor em Recife?

Entrevistado: E era o único profissional na história. Tínhamos que oferecer hospedagem, transporte e ainda pagar um cachê. Para nós o único pagamento eram as viagens pra os festivais. Valia a pena. Conheci um bocado do Brasil por conta desses festivais. Principalmente os promovidos por Paschoal Carlos Mágno.

Entrevistadora: Além do Santa Roza e a Associação dos Estudantes, vocês tinham algum outro local para ensaiar?

Entrevistado: Além dos já citados, apenas o auditório do Liceu Paraibano. Mas poucas vezes ensaiamos lá.

Entrevistadora: Nessa época você já pagavam alguma coisa ao Santa Roza para ensaiar lá?

Entrevistado: Não.

Entrevistadora: Eram cobrados os ingressos para as apresentações?

Entrevistado: Eram. Menos nas estréias, que eram convites feitos pela Secretaria da Educação do Estado, pelos membros do grupo para seus familiares e para todas as pessoas e organizações que nos tinham ajudado. Após a estréia, mais da metade do público de teatro da Cidade já havia visto o espetáculo. Então, pingava alguma coisa.Como a gente não pagava pauta, o pouco arrecadado da bilheteria dava para cobrir as gratificações dos funcionários do Santa Roza, às vezes.

Entrevistadora: Essas peças passavam quanto tempo em cartaz?

Entrevistado: Dependia muito do sucesso alcançado e dos compromissos de participação em festivais. Em João Pessoa mesmo, não havia procura para  mais de cinco apresentações.

Entrevistadora: E sua família apoiava sua participação no grupo?

Entrevistado: Bastante. Meu pai havia,quando jovem, participado de encenações também e seu apoio era total. A família tinha pintores, músicos e Anthenor Navarro escrevia muito sobre música.

Entrevistadora: E não havia a preocupação de que essa participação afetasse os estudos?

Entrevistado: Não. As montagens dos espetáculos eram, geralmente,  feitas no período de férias escolares. Naquela época sabíamos, realmente, quando começava e quando terminava o período escolar.

Entrevistadora: O Teatro do Estudante viveu o período da ditadura militar?

Entrevistado: Não. Quem pegou foi o grupo que o sucedeu: o Grupo Oficial do Theatro Santa Roza, que como diz o próprio nome, era mantido totalmente pelo Estado. O Teatro do Estudante era um grupo civil. Sua última apresentação foi em 1960. Fundamos também, eu, Ednaldo do Egipto e Rubens Teixeira, o Teatro de Arena da Paraíba, que logo de saída teve problemas com a censura da ditadura, quando montamos “Paraí-Bê-A-Bá”, um texto escrito por Paulo Pontes.

Entrevistadora: Em que afetava o teatro paraibano a ditadura?

Entrevistado: Em tudo. Censura, ameaça a participantes, cortes ridículos nos textos, eu mesmo fui “chamado” ao quartel do Grupamento de Engenharia para ouvir a seguinte recomendação: “o texto de vocês não tem nada demais. Mesmo assim nós os aconselhamos a não encenarem, porque, quem sabe se na hora vocês não trocam o pavão por galinha verde...” Lá, o milico que sentenciou o texto de um “show” musical escrito por Marcos Tavares e Marcus Vinícius de Andrade intitulado de “Show, show,pavão” adiantou-se à censura oficial que era feita pela Polícia Federal. Já em “Paraí-Bê-A-Bá”, foram os censores dessa Polícia que cometeram os maiores absurdos: coisas como diminuir a altura das saias das atrizes e a mudança da palavra cagar  por fazer cocô.

Entrevistadora: “Paraí-Bê-A-Bá” era um musical?

Entrevistado: Mais ou menos. Assemelhava-se mais ao gênero que chamamos de revista.

Entrevistadora: Além dos já citados, algum outro grupo surgiu depois do Teatro do Estudante?

Entrevistado: Muitos. Lembro do “MOCA”, do “TENDA”, do Teatro Universitário, esses naquela época. De lá pra cá, foram muitos que surgiram e também que deixaram de existir.

Entrevistadora: Qual o principal motivo do desaparecimento do Teatro do Estudante da Paraíba?

Entrevistado: O profissionalismo dos seus membros. Foram se formando e procurando cuidar das suas profissões. Alguns foram casando logo e precisavam  cuidar do arroz com feijão. No teatro ninguém ganhava dinheiro, pelo contrário, se gastava do próprio bolso para fazer teatro.

Entrevistadora: Não houve interesse de novos estudantes em mantê-lo?


Arlindo Delgado, Valdez Juval, Raimundo Nonato, Ruy Eloy, Genildon Gomes e Celso Almir

Entrevistado: Outros grupos surgiram que foram absorvendo os novos interessados e a criação do Grupo Oficial do Teatro Santa Roza, onde tudo era pago pelo Estado e deixava seus participantes sem a preocupação com gastos, foi determinante para seu fim. Lembro que de uma só vez o elenco do Teatro do Estudante perdeu Arlindo Delgado, Valdez Silva, Celso Almir, Gilson Medeiros, Ruy Eloy, Hugo Caldas, Sósthenes Kerbrie e Genildon Gomes entre outros, que foram cuidar das suas vidas aqui mesmo ou noutros estados. Outros remanescentes que permaneceram na atividade teatral, tiveram guarida nos novos grupos formados. Eu  mesmo cheguei a fazer alguns trabalhos com o Grupo Oficial.

Entrevistadora: Nesse caso já não eram mais estudantes, não é isso? E o Teatro de Arena continuou a montar espetáculos?

Entrevistado: Sim. Acho que o último foi em 1985, “O Sal da Terra”, um texto de Altimar Pimentel, uma montagem comemorativa ao 4º Centenário da Paraíba. Ainda teve outro grupo que formou-se com remanescentes do Teatro do Estudante: o GRITA, com as participações de Nazareth Xavier, Lindaura Pedrosa e umas porção de novos interessados no fazer teatral.

Entrevistadora: Qual foi o papel do Teatro do Estudante da Paraíba?

Entrevistado: Não que ele tenha sido o precursor, que tudo tenha começado com ele. Mas o teatro paraibano cresceu com ele. Nasceu por conta de antecessores como Lima Penante, Cilaio Ribeiro, Walfredo Rodriguez e seu Teatro de Amadores. O Teatro do Estudante da Paraíba foi um divisor de águas, como se diz, o teatro paraibano realmente existiu com  ele.

Entrevistadora: Por que o público era tão ligado ao Teatro do Estudante? Devido ao nome?

Entrevistado: Por conta de seus componentes. Todos universitários ou estudantes dos principais colégios. De tradicionais famílias e bem relacionadas na cidade. Só essa gente já lotava o Santa Roza nas estréias.

Entrevistadora: Então podemos dizer que ele era um teatro para a elite?


"A Comédia do Coração", em cena Arlindo Delgado, Genildon Gomes e Eloísa

Entrevistado: O Teatro do Estudante da Paraíba, não. O teatro em si é que era para uma elite. Como falei antes, eu mesmo só entrei no Theatro Santa Roza já quase adulto. Antes, praticamente, não havia aqui teatro  infantil. Começou com o Teatro do Estudante. Outra coisa: a suntuosidade do Santa Roza exigia no começo, pessoas formalmente vestidas. Isso, naturalmente, afastava do teatro as classes menos favorecidas. O que acontecia até na tradicional Festa das Neves: o passeio das jovens que eram denominadas de “moças de família” e a “bagaceira”, local destinado às menos ou não favorecidas. Por outro lado, o povo fora acostumado com os folguedos tradicionais, como Lapinhas, Pastoris, Bois de Reis e outros, que falavam a linguagem mais popular e inocente, até certa hora, e depois esquentava o ambiente com situações picantes, mas muito menos agressivas que o que hoje vemos nos programas humorísticos da televisão. Já o teatro oferecia algo mas complexo para o entendimento popular, como “A Comédia do Coração”, onde os personagens eram, além do coração, o ciúme, o ódio, a inveja etc. Então, quem do povão fosse, por acaso, assistir ao espetáculo, certamente sairia (e deve ter acontecido) do teatro achando que teatro era uma coisa chata. Melhor seria ver Cilaio Ribeiro na citada Festa das Neves, conversando com seus bonecos num linguajar popular de excelente ventríloquo que era. Foi encenado ao ar livre, no adro da Igreja de São Francisco, um texto de Calderon de la Barca: “O Grande Teatro do Mundo”. O público popular presente porque era gratuito, pouco entendeu.

Entrevistadora: Qual era a sensação da platéia que assistia ao Teatro do Estudante?

Entrevistado: A de um ritual que começava com alguém importante fazendo a apresentação do grupo e do espetáculo, acho. O apresentador deveria saber discursar, ser pessoa ou autoridade importante, pois o objetivo, de certa forma, era induzir a platéia a aceitar o que aconteceria a seguir. Lembro-me das participações do Professor Afonso Pereira, o Deputado Antônio Nominando Diniz e até Arlindo Delgado quando já não mais atuava no palco. Essa prática do apresentador antes de abrir a cortina, foi o ponto de partida para Paulo Pontes, com uma das mais aplaudidas apresentações da história do Teatro do Estudante. A peça era “A Beata Maria do Egipto” e na hora da estréia, ninguém presente que pudesse exercer aquela função de apresentador. Paulo Pontes, que vivia bisbilhotando pelo Santa Roza, ofereceu-se para a missão. No início alguma rejeição, mas na falta de alguém vai você, foi a decisão. Quando ele aparece à frente da cortina, previsíveis risinhos surgiram. Ele permaneceu calado até ao total silêncio da platéia que ele encarava. E começou assim, como a minha memória lembra: “Vocês que estão aqui são uns irresponsáveis! Saem do conforto dos seus lares para vir ao teatro. Mas isso é uma beleza de irresponsabilidade...” Falou sobre a arte teatral e demonstrou total conhecimento sobre Rachel de Queiroz, autora do texto. Foi mais aplaudido que o espetáculo.


"A Beata Maria do Egipto" de Rachel de Queiroz, direção de Elpídio Navarro. Em cena, além do
diretor, Hugo Caldas, Genildon Gomes e Gil Santos.

Entrevistadora: Qual era a posição política do Teatro do Estudante da Paraíba?

Entrevistado: Fazer teatro da melhor qualidade. Ideológica ou partidariamente não existia posição. Seus membros tinham suas convicções políticas pessoais, mas não as envolviam com o fazer teatral. Só após 1964, aí já não era mais o Teatro do Estudante, eu, pessoalmente, me envolvi com o teatro político.

Entrevistadora: Na década de 60, aconteceram várias Semanas de Teatro. O Teatro do Estudante participou de alguma?

Entrevistado: Acho que não. O Grupo Oficial do Theatro Santa Roza, sim. Mas sem concorrer. O objetivo maior eram os festivais nacionais.

Entrevistadora: Teve alguma relação direta com o Professor Afonso Pereira?

Entrevistado: Eu cheguei ao Teatro do Estudante ouvindo falar que Afonso Pereira era um benfeitor do grupo. Acho que já nos conhecíamos por conta de algum fato ligado à educação ou isso aconteceu ao mesmo tempo que com o teatro. Existe até uma foto onde estamos juntos e mais Pedro Santos, Altimar  Pimentel e Teotônio Neto. Quando eu cheguei, Afonso Pereira já era uma pessoa importante no Teatro  do Estudante.

Entrevistadora: E Walfredo Rodriguez?

Entrevistado: Este era diretor do Theatro Santa Roza. Ele não  gostava do Teatro do Estudante da Paraíba, nem nós dele. Tínhamos nossas razões, exclusivamente de ordem administrativa.

Entrevistadora: Afonso Pereira assistia a todos os espetáculos?

Entrevistado: Só faltava por um impedimento de ordem superior. E mesmo após o encerramento das atividades do Teatro do Estudante, ele permaneceu participando. A foto qual me referi, foi tirada após a estréia de “Casamento de Branco”, de Altimar Pimentel, aliás, o lançamento dele com dramaturgo. Eu havia dirigido o espetáculo e Pedro Santos a direção musical.

Entrevistadora: A UFPB promoveu um festival de grupos de teatro estudantis. Esses grupos se equivalem ao Teatro do Estudante da sua época?

Entrevistado: Bem diferente. Hoje são grupos de vários colégios, formados pelos próprios colégios com objetivo didático, promocional e até por alunos que conseguem usar o nome do próprio colégio como respaldo. No Teatro do Estudante da Paraíba haviam alunos de  diversos colégios e faculdades do Estado e até de cursos primários.

Entrevistadora: Obrigado.

Entrevistado: Obrigado também.

 

GALERIA:

 
"O Divino Perfume" de Renato Viana - 1952  - Direção de Clênio Vanderley.


"Fim de Jornada", de R. C. Sheriff, direção de Walter Oliveira. Em cena da esquerda
para a direita: Hugo Caldas, Sósthenes Kerbrie, Celso Almir, Paulo Nóbrega e Valdez Juval.


"O Pagador de Promessas" de Dias Gomes, direção de Walter de Oliveira.

    
 "João Gabriel Borkman" de Ibsen. Em cena Genildon Gomes e Risoleta Córdula, com 
direção de Walter Oliveira.  "Auto de João da Cruz" de Ariano Suassuna. Em cena
Hugo Caldas e Genildon Gomes, com direção de Clênio Vanderley.


Encerramento da Semana de Teatro, com todos prontos para o baile dos personagens que
acontecia no último dia. Tendo ao centro Paulo Pontes, alguns componentes do TEP, entre
eles Arael Costa, Gil Santos, Elpídio Navarro, Aldo Furtado, Marcelo Borges, Marcos Alencar,
Jandira Pinto, Fernando Navarro e Carlos Fernandes.